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segunda-feira, 15 de maio de 2017

O novo paradigma das vitórias

É corriqueiro e quase inevitável falar e viver da crise, não se passa sem ela, nos jornais, nos cafés, no emprego, no parlamento,creio mesmo que se ela um dia porventura acabar, a sensação de orfandade será tão grande que se terá de arranjar logo outra, e se possível pio, para pôr à prova o nosso sadismo colectivo. Desde Alcácer Quibir que assim tem sido, é endémico. O certo é que vamos estando (aliás, em Portugal, país do gerúndio, nunca se vai, vai-se sempre andando ...)

A idiossincrasia dos povos tem destas coisas, mas analisando à lupa ,a História encarrega-se de provar que apesar do fado nacional (agora Património da Humanidade e world music) , sempre soubemos domar os Adamastores, fossem eles  o grande e desconhecido Mar-Oceano ou os mais prosaicos e invisíveis "mercados". Já vêm da época dos Descobrimentos os velhos do Restelo, contudo não deixámos de ousar lutar e ousar vencer, contra castelhanos, terramotos, franceses, ditaduras, e afinal ainda cá estamos, o país mais antigo da Europa e com as fronteiras mais estáveis, a 5ª língua mais falada em todo o mundo, em 32º no ranking mundial de 194 países ( com o detalhe de sermos dos mais pobres entre os ricos, mas ainda assim no clube...).Ponha-se os olhos em povos como o alemão, devastados por guerras que provocaram milhões de mortos e destruição em massa e  contudo sempre a renascer das cinzas. Temos sempre a tendência para achar que a culpa é “deles”, os que nos governam (porque se governam) mas “eles” somos nós, todos, no que temos de bom e mau, como qualquer outro país. O pessimismo é como o auto-golo, só serve para perder pontos.


Vem isto a propósito da responsabilidade que em minha opinião têm certas elites e certa opinião publicada nos estados de alma que moldam o carácter nacional dos portugueses. O pathos nacional tem sido marcado pelos vencidos da vida de várias gerações, desde o conformado "ainda o apanhamos" do Eça até essa peça sublime e igualmente derrotista que é a Mensagem, de Pessoa. Obras belas, plástica e literariamente, mas hinos à descrença, à resignação e ao fatalismo. Se olharmos com atenção, todos os grandes gurus nacionais são-no na medida em que se assumiram como profetas da desgraça, (os optimistas chamam-lhes "visionários...). Quanto mais baterem no ceguinho mais premiados e idolatrados, pois eles, premonitórios é que viram para lá da nuvem. Um exemplo: a nossa cena de comentadores, os ditos opinion makers. Quem são os mais convidados e “respeitados”? os que autofagicamente anunciam a “piolheira” do país, os frustrados, os que querem  ajustes de contas com os adversários ou ex-amigos. Dê-se-lhes uma caneta ou um teclado e ei-los a zurzir inflamados a desgraça nacional e o fado de ser português, o "isto só cá", como se todos soubessem em profundidade como é exactamente "lá". Já Almada dizia que o pior de Portugal eram os portugueses, e eles aplaudiram claro, porque nunca é nada "connosco", mas tudo com" eles".
Faça-se uma experiência: ouçamos um dia inteiro iluminados como  Medina Carreira, José Gomes Ferreira ou Vasco Pulido Valente, se não estiver deprimido e enterrado em whisky, e veja-se qual o contributo positivo destes profetas da desgraça para melhorar o estado de coisas, profetas da desgraça depois da desgraça ocorrer, na onda do “estava-se mesmo a ver, eu avisei”, mas entretanto nada viram e nada avisaram.

Entre nós, as veneradas elites pensadoras são sobretudo faladoras, e sobretudo maldizentes, imensamente responsáveis pela degeneração da ideia de Portugal, e pouco ou nada mudou desde a fuga de D. João VI para o Brasil e o ciclo de declínio que endémico se seguiu. Porém, mal ou bem cá vamos, e sobretudo, cá estamos, apesar de sermos o país que nasceu com o filho a bater na mãe. Somos uma matriz da civilização ocidental e um berço de culturas, (eu sei, cheira a discurso de 10 de Junho, mas é verdade!), O que faria então se nos entendêssemos sobre as grandes questões, separando a árvore da floresta e fazendo planos para a floresta.

Temos a particularidade de estarmos sempre desavindos uns com os outros e desconfiarmos mais depressa de outro português do que do primeiro estrangeiro desqualificado que nos metam na frente. Como aquele velho anarquista que dizia: há governo? Sou contra!

Com crise ou sem crise, os povos não acabam, apesar de poder suceder como nos vírus da gripe, com o tempo estes degenerarem noutros, com novas roupagens e atitudes, e a geração que abriu o século XXI poder vir a sair mal na fotografia da História. Mas depois do tempo, tempo vem, e um pouco de azul sempre é melhor que o cinzento, apesar de por vezes pairar o negro nos espíritos. Como um dia disse o general De Gaulle, "o fim da esperança é o começo da morte". E aos velhos do Restelo, uma temporada nas termas não faria nada mal...O país de Camões, Vasco da Gama, Padre António Vieira ou Eça de Queirós é hoje o país dos Ronaldos e dos Salvadores, mas também dos Sizas e dos Marcelos, dos pastéis de nata e da Web Summit, do João Sousa e da Jessica Augusto, do António Zambujo e da Mariza. E então?
Acabaram as vitórias morais, depois de anos de chumbo, estamos estranhamente moralizados para as vitórias, e para uma nova normalidade até agora anormal e estranha.
Não passámos de bestas a bestiais, mas que faz bem, faz...Não somos o Portugal do Império, das Índias e Brasis, mas também não somos o das varinas descalças, vielas sujas e da mala de cartão, celebrando terceiros lugares como épicas vitórias. É o tempo de juntar trabalho e organização, talento e iniciativa, orgulho e determinação. E aí sim, terá valido a pena.

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