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domingo, 6 de março de 2016

Dez anos... foi muito tempo






Ao contrário da canção de Paulo de Carvalho, os dez anos de Cavaco Silva na Presidência da República foram anos em que a instituição e o povo se distanciaram, se teve uma visão redutora e formal dos poderes presidenciais, em que a relação com os partidos se pautou sempre por uma “quarentena higiénica” para quem estes- donde ele emergiu, aliás- foram sempre “os agentes políticos”. Mesquinho, vingativo, contabilista mais que visionário, provinciano mais que ecuménico, não obstante ter sido o político português que em democracia mais vezes foi eleito com o voto popular, encarna, no fundo, uma visão paroquial do país de que o Portugal profundo e dos brandos costumes nunca se libertou.

Paradoxalmente, o homem que chamou o Estado de “monstro” foi quem mais o engordou nos loucos anos noventa, o homem do leme que apela ao regresso ao mar foi quem desmantelou as pescas e a frota pesqueira, o homem dito impoluto e desinteressado foi quem ainda hoje não explicou cabalmente as suas relações com o BPN e a clique que desde os seus tempos se instalou na banca e nos negócios, neste novo fontismo de “agenda telefónica” gerador de gestores sem experiência que não a do cartão partidário, filiação numa jota ou assessoria num ministério.

A História dirá o que foi Cavaco nestes anos vertiginosos. Se o Cavaco patrono dos Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Miguel Relvas ou Duarte Lima, se o construtor das autoestradas onde ninguém passa ou dos polidesportivos sem atletas, se o reformado que trocou o salário de Presidente pela pensãozita do Banco de Portugal aforrada com o “honesto trabalho de professor”.

Celebremos, para já, a brisa fresca que a partir de 4ª feira tirará o mofo dos cortinados de Belém. Não para que conspirações maquiavélicas ali passem a ter lugar, conhecedores que somos da traquinice do novo inquilino, mas para que a normalidade dum cargo cada vez mais normal reganhe o “espírito do lugar” e espante as teias físicas e mentais que ali moraram nos últimos anos.


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