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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Pardal Monteiro e o Hospital de Sintra


Abre hoje na Biblioteca Nacional em Lisboa uma exposição dedicada a Porfírio Pardal Monteiro, arquitecto de referência da primeira metade do séc. XX e de origem sintrense.

Porfírio Pardal Monteiro, nascido em Pêro Pinheiro (1897-1957), foi um precursor do modernismo em Portugal nos anos trinta do século passado. Ligado pela família à indústria dos mármores, a ele se devem edifícios de referência na paisagem urbana do século XX, como sejam o edifício do nº49 da Av. da República, em Lisboa (Prémio Valmor de 1923), a estação ferroviária do Cais de Sodré (1925-1928), o Palacete Vale Flor (Prémio Valmor de 1928), uma moradia no nº207 a 215 da Av. 5 de Outubro, em Lisboa (Prémio Valmor de 1929), a igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa (Prémio Valmor de 1938), o edifício do Diário de Notícias (Prémio Valmor de 1940), os edifícios das Faculdades de Direito e de Letras, em Lisboa, o Instituto Superior Técnico (1939), a Biblioteca Nacional e os Hotéis Ritz e Tivoli, em Lisboa.

Em Novembro de 1924 veio a Sintra o então Presidente da República, Teixeira Gomes, para o lançamento da primeira pedra do novo hospital, projecto de Porfírio Pardal Monteiro (imagem abaixo), a localizar atrás da então cadeia comarcã e confinante com a R. das Murtas, junto à estação ferroviária. Usou-se da palavra, exaltou-se o progresso, peroraram os comendadores encartados, fez-se auto do acontecimento e do mesmo se lavrou cópia, que se depositou debaixo da pedra em recipiente de vidro, enterrada testemunha para a eternidade daquele momento solene em que Sintra ia passar a ter o "seu" hospital. Vistosa foi a cerimónia, com ministros, edis, fardas com dragonas e filantrópicas damas, tudo com acompanhamento musical das Bandas do 1º de Dezembro e dos Bombeiros da Vila e S. Pedro. Sintra rejubilava com mais esse acertado passo no sentido dos melhoramentos, a saúde ia inscrever-se no mapa dos direitos que uma sociedade civilizada não podia dispensar.

Os anos passaram, os regimes também, e do novo hospital nem um tijolo. Noventa anos depois, perdeu-se o velhinho Hospital da Misericórdia, na Vila e a assistência ao maior concelho do país (em residentes) é feita em unidades dos concelhos limítrofes. Outras pedras e outros projectos se foram sucedendo, mas o Verbo é inimigo da Verba e a saúde continuou bastante adoentada. Inclusive, não fossem as normas do registo civil alteradas, ninguém, não fosse nascido dentro da ambulância ou em algum carro dos bombeiros poderia reclamar ter nascido em Sintra, pois há vários anos que maternidade é valência desconhecida por aqui, nunca um primeiro choro de bebé ressoa nestes ares avessos a parturientes. As poucas cegonhas vindas de Paris sobrevoam a Pena, mas com destino a Cascais ou a Lisboa.

Projectos, terrenos e comissões, já houve vários, conforme os ciclos eleitorais (e por causa deles),mas um Hospital de Sintra (e em Sintra, concelho)é já do domínio da lenda. Aquela pedra e aquele recipiente de vidro solenemente enterrados em 1924, são homenagem perene e subterrânea à incapacidade de decidir, apanágio de quem nos tem (des)governado de forma endémica, na fúria estatística de coleccionar primeiras pedras para mero arremesso de propaganda.O Hospital de Sintra deixou de ser uma prioridade para os vivos, mas será por certo um atractivo para os futuros arqueólogos que um dia descubram a pedra, qual Graal redentor, e até pensem que tenha havido um holográfico hospital em Sintra, na velhinha Rua das Murtas.

Sintra honraria Pardal Monteiro enfim construindo o hospital cuja primeira pedra jaz no solo das Murtas.

 


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