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segunda-feira, 9 de março de 2015

Alagamares-10 anos de militância


Foi a 9 de Março de 2005 que um punhado de sintrenses fundava no desaparecido café das Caves de S. Martinho a Alagamares, e nunca mais até hoje parou, ocupando um espaço em aberto no nosso panorama local.

Com mais de 150 iniciativas e eventos realizados, a Alagamares interagiu com a sociedade, e nela bebeu experiências, tentou rasgar caminhos e ser agente de mudança, um parceiro e actor cultural, para tanto se balizando pela discussão e abordagem permanente de assuntos novos ou em novas perspectivas. Como disse Miguel de Unamuno, “a erudição é, em muitos casos, uma forma disfarçada de preguiça intelectual ou um ópio para adormecer as inquietações íntimas do espírito“. Não somos um núcleo de eruditos, mas continuaremos a ser artífices e artesãos do Saber, sem dirigismos, dogmas ou espírito de capela, assim cumprindo a nossa missão de cidadãos. A participação entusiasta e crítica nas actividades e na vida associativa tem sido a pedra angular do sucesso e eficácia da nossa associação, cujo objectivo é o da promoção da cultura, da região de Sintra e dos seus associados. Em tempos de anemia financeira, não permaneceremos anémicos mas interventivos, cientes de que a cidadania activa deve ser congregadora de sinergias. Rejeitamos a desistência e com entusiasmo e pés no chão proclamamos a nossa vontade de afirmar a Cultura  como um dever social e a acção mobilizadora como propulsora de novos horizontes.

Nestes 10 anos, além da Alagamares, Sintra viu surgir grupos como o Danças com História, o Sintra Estúdio de Ópera, a Três Pontos, a Voando em Cynthia, a Dínamo e o Ardecoro, a revista digital Selene, blogues de intervenção cívica como o Rio das Maçãs, Sintra do Avesso, Retalhos de Sintra, Sintra Deambulada, O Reino de Klingsor, Tudo sobre Sintra ou Serra de Sintra, os Encontros de Alternativas, o trabalho de grupos como o Chão de Oliva, o teatromosca, o Teatrosfera, o Utopia Teatro, o byfurcação ou a Musgo. Restaurou-se o Chalé da Condessa e a Parques de Sintra veio mudar o paradigma na abordagem do Património, abriu o Centro de Ciência Viva, afirmaram-se escritores de Sintra como Miguel Real, Sérgio Luís Carvalho, Raquel Ochoa, Luís Filipe Sarmento, Filomena Marona Beja, Liberto Cruz, Jorge Telles Menezes ou Luís Corredoura, fizeram-se tertúlias e encontros, como os Meninos d’Avó, o Traço Comum, os III e IV Encontro de História de Sintra, nasceu a Saloia TV. E abriu o Museu de História Natural, rotinaram-se festivais como o Córtex e o Periferias, a CMS lançou o Tritão, uma revista digital, e abriu o MU.SA. É todo um panorama que difere dum passado mais rarefeito e esporádico.

 Há muito a fazer, ainda, e nem tudo foram sucessos, num quadro de redução de verbas e dificuldades de sobrevivência de muitos agentes culturais e grupos. Desapareceu o Centro de Arte Moderna e o Museu do Brinquedo, falta dar destino à Quinta da Ribafria, resolver de forma definitiva os problemas do estacionamento, a violência dos abates e podas agressivas, o preço das entradas nos monumentos, dar atenção à formação de públicos, criar um cluster de indústrias da Cultura.

Igualmente muitos partiram nesta década: Maria João Fontaínhas, Xaimix, Pinto Vasques, Simplício dos Santos, Maria Gabriela Llansol, António Caruna, Eduardo Lacerda Tavares, M. S. Lourenço, Ana Daniel, Carlos Viseu, João Benard da Costa, Ernesto Neves, Cláudio Brito, Bartolomeu Cid dos Santos, José Manuel Conceição, Helena Langrouva. A sua memória e testemunho nos guiarão na luta por uma Sintra de Cidadãos, activos e preocupados.

Militar em associações, e por causas, nos tempos que correm, é mais que nunca um dever cívico. Vivemos momentos de vigília, e de não deixar que a frágil árvore desapareça na floresta densa de dificuldades, cortes e silêncios motivados pela ditadura da dívida e do défice. Nestes dias dum Portugal cinzento, é essencial estimular a cidadania, e as boas práticas, pugnar pela educação como plataforma para o conhecimento, descolonizar a memória de imaginários estafados, resgatar a auto-estima e o “sentimento de nós”, e estimular a identidade que constrói a nossa idiossincrasia e peculiar forma de estar no mundo. É lançar pontes e massa crítica, mediar entre o poder público e as comunidades, num trajecto virtuoso que acentue o pathos de ser português, e sê-lo de modo universalista. É estar atento, ser parceiro com a lealdade de criticar, acompanhar as obras e não depois das obras, chamar a agir e interagir, actuar virtuosamente e não como agente de bloqueio ou imbuído de egoístas vaidades e atrás de protagonismos. É tocar a rebate no campanário, sangrar a pena revoltada, cavalgar a comunicação com a serenidade das emergências, visitar, escrever, protestar, ajudar, ouvir e ser ouvido, passar palavra, dar o murro certeiro e alertar o adversário, que muitas vezes é simplesmente a inércia, a ignorância, a incúria ou a miopia. É pugnar pelo valioso presente que resulta da aliança da memória com a auto-estima, da singularidade com o talento, da polis com os seus moradores, dos conventos, palácios e moinhos, com a serra, as tapadas ou os lapiás. É recordar os que trilharam o caminho, erguendo a tocha dos seres maiores, dos eremitas jerónimos aos dandys novecentistas, dos cavaleiros da finança aos poetas proscritos, ou do rei artista ao Carvalho da Pena, jardineiros de Deus na fértil horta de Klingsor.

Neste momento de festa, o orgulho de sem dinheiro nem alcandorados em capelas termos feito o nosso percurso independente, sem subsídios ou interesses encobertos, plurais mas com individualidade, é para nós motivo de orgulho e de afirmação. Não somos políticos, mas temos interesse nas políticas, e assim prosseguiremos, à frente e ao lado, mas nunca atrás.
Dez anos estão volvidos, que venham mais 10 anos.

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