Freguesia fundadora da Sintra reconquistada, sede de diversos monumentos jóias da coroa patrimonial nacional, há contudo diversas chagas e cicatrizes várias no seu valioso e simbólico legado artístico.
A começar no esventrado edifício da Gandarinha. Esteve para ser hotel, para albergar serviços municipais, lá está para mais de quinze anos ao abandono e sem solução à vista. Talvez cenário para um filme de terror de série B, quem sabe...
Quinta da Gandarinha
Mesmo no largo de S.Pedro, a Quinta D.Dinis letárgica suscita o espanto pela negativa de quem lá passa. Não há mão nos proprietários absentistas? Mete dó só de ver.
A Quinta de Santa Theresa, para onde se prometia um hotel, idem. Talvez algum mau olhado vindo do Túmulo dos Dois Irmãos...
Quinta de Santa Theresa
A Capela de Santa Eufémia peca pelos arranjos exteriores inexistentes, que desvalorizam um cenário magnífico sobre Lisboa e a envolvente. E as fontes, de que tanto se gabava José Alfredo nos seus livros? Secas e ao abandono. E outros mais.
S.Pedro, onde se acolheram os cavaleiros cristãos a quem D.Afonso Henriques outorgou o primeiro foral de Sintra em 1154 precisa de intervenção urgente no seu património edificado. Que não pode ser assacada à Junta de Freguesia, ou a uma entidade só. Mas que urge.
O Governo decidiu dar o exemplo e reduziu o número de ministros e secretários de Estado. Aqui ficam algumas sugestões para outras reduções:
Municípios- reduzir em 1/3 o número de vereadores e de membros da Assembleia Municipal.
Tendo o Governo 11 ministros para o país todo justifica-se que Lisboa e Porto tenham 17 vereadores? E justificam-se mais de 100 municípios com menos de 10.000 habitantes e 26 com menos de 4.000?
Juntas de Freguesia- a diminuição deveria ponderar de forma equilibrada e em termos de economia de escala o nº de habitantes e a interioridade, podendo mesmo proceder-se ao "downgrade" de vários municípios para juntas de freguesia.
Em ambos os casos, a redistribuição de competências poderia passar por redução de intervenção de serviços da Administração Central e incorporá-los nos respectivos serviços municipais (administrações hidrográficas, parques naturais, centros de saúde, parque escolar até ao secundário, finanças e museus ou monumentos nacionais, entre outros.
O recurso a outsourcing partilhado e atribuído por concurso poderia igualmente acoplar em grupos de municípios serviços municipalizados, empresas de tratamento de resíduos, agências de promoção turística e cultural.
As direcções de serviços da Administração Central desconcentrados deveriam coincidir com as 5 regiões já de certa forma estabilizadas: Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve. E nesse quadro se estabeleceriam as hierarquias das comarcas, comandos policiais, regiões militares, administrações de saúde e educação, agricultura, ambiente etc. O corpo directivo de tais organismos teria um plafond máximo e o recurso a avenças ou contratados reduzido aos casos em que nunca houvesse a possibilidade de através de meios próprios prosseguir fins públicos.
Empresas Municipais- A redução deveria ter em conta apenas a necessidade de prossecução com meios privados e receitas próprias os fins que ao nível do quadro de pessoal não pudessem ser prosseguidos. Não faz sentido as autarquias explorarem centros culturais com fins lucrativos quando foram pagos com dinheiros públicos e nada pagam pela concessão, ou participar em actividades claramente do âmbito do sector privado (energia, parqueamento, etc)
O critério de entrar 1 funcionário por cada 10 que saiam é redutor e não pode aplicar-se em todos os sectores(enfermeiros, médicos, polícias, funcionários judiciais, magistrados ou professores, por exemplo). O ideal será a adopção de horários reduzidos, teletrabalho, abandono de tarefas burocráticas, redução dos consumos intermédios, gestão por resultados.
Está por fazer um estudo sério sobre quantos funcionários são necessários, prevalecendo por imposição agora um critério meramente economicista, que por apressado, nunca produzirá a verdadeira reforma que se impõe: a que seja pacificamente negociada e aceite por todos os parceiros no processo. De outra forma, apenas se somará conflitualidade e desmotivação e o fim teleológico das reformas ficará por cumprir.
A crise da dívida na Europa ameaça eternizar-se e com isso deixar os governos à beira de um ataque de nervos e todas as medidas que se venham a tomar inócuas e sem efeito prático, como se viu com a insensibilidade das agências de notação financeira (se alguém pensava que a voz de barítono do nosso novo PM era música para elas desengane-se, onde há lucros não há amizades). Estamos assim à mercê do capitalismo especulador financeiro mais atroz que se viu desde a Revolução Industrial. Que fazer?
Antes de mais, actuar em uníssono. Só que a Europa dita de “União” é um saco de gatos sem voz própria ou forte( Rompoy e Barroso são meros eurocratas) e Berlim só vê o umbigo. Como obrigar os países do Directório a atacar de frente o problema? Quanto a mim, só a ameaça de incumprimento em simultâneo nas 3 ou 4 economias mais expostas até ao momento pode levar os “grandes” por pressão dos seus bancos a agir. A crise é transversal e as medidas de quarentena para os “doentes” chegam tarde demais. Como com os pepinos, enganaram-se no alvo e criaram um problema maior do que o existente. Com os EUA em risco de default (quem diria!) a Europa paralisada e a China à espera, não sei que coelho pode a Europa tirar da cartola que não passe por danos colaterais para alguma das partes envolvidas. E afinal, se o euro acabar, ao fim de 10 anos, muitas outras coisas tidas como imutáveis também acabaram: a União Soviética, a Sociedade das Nações, os impérios coloniais. Francis Fukuyama escreveu há uns anos que o fim da URSS significou o “fim da História”. Nunca se deve dizer nunca. Tudo está em aberto, sabe-se lá se sobre as brasas fumegantes do fim do euro...
Por estes dias é ver alguns amigos conectados com o partido do anterior governo preocupados com os lugares que podem vir a deixar de ter e outros adeptos do novo ansiosos por um telefonema para um qualquer lugar na nova administração. Nos bons velhos tempos, era nisto que se traduzia o reviralho e não parece ter mudado muito desde então. Uns falam em boys, mas, afinal, se há jobs...
Um dos problemas endémicos da sociedade portuguesa é que as reformas e os dirigentes não subsistem para lá do tempo de vida dos seus chefes, cabendo a cada governo que se sucede desfazer tudo o que o anterior fez ou fazer tábua rasa desse trabalho, muitas vezes produto do esforço de muitos técnicos sem partido e que ciclicamente se deparam a cada novo dirigente com a afirmação de que “agora é que isto vai mudar…”. Quantos que trabalham em organismos públicos não ouviram ao longo dos anos esse discurso e quantos estudos e relatórios não jazem no pó das gavetas, à espera da ordem para fazer um estudo novo, num dispêndio de energias e trabalho. Como se fosse obrigação de cada um que chega depois ter de afirmar-se mudando rostos e distinguindo-se dos anteriores, nem que seja no estilo ou no título do papel timbrado.
Um país será tanto mais evoluído quanto a sua máquina administrativa estiver oleada, for profissional e pouco permeável ao novo ministro, dirigente ou assessor que chega. Assim acontece na Bélgica, por exemplo, onde há mais de um ano que não há governo (e ninguém parece estar preocupado com isso) ou nas sociais democracias nórdicas (eu sei, eu sei, é longe...). Por cá, enquanto o rotativismo do amiguismo e do cartão partidário não der lugar a outra cultura, as pessoas e os favores hão-de estar sempre à frente da competência ou da gestão por objectivos, pondo o país e a coisa pública depois e o assalto ao poder primeiro. Mas, ou me engano muito, ou alguém daqui a cem anos ainda estará a fazer este discurso e renovar esta constatação. Está nos nossos genes.
Não, não é dessa que vou falar, mas dessa outra do reino animal. Entre as espécies identificadas como ex-libris da serra de Sintra, destacaria cinco. Se virem algum, não matem nem levem em cativeiro. São víboras e morcegos mas fazem menos mal que outros de duas pernas e que também têm Sintra por habitat.
VACA LOURA
Os lucanos (Lucanidae), ou vacas-loiras, são uma família de coleópteros polyphagos de tamanho médio a grande (10–90 mm), com umas 930 espécies descritas. Alguns são conhecidos pelo nome vulgar de vaca-loura ou carocha.Vivem preferentemente em bosques formados por árvores folhosas e alimentam-se da seiva, botões ou folhas. As fêmeas depositam os ovos nos troncos velhos, onde as larvas se desenvolvem. Algumas espécies, como o Lucanus cervus demoram cinco anos ou mais para alcançar o estado adulto.
VÍBORA CORNUDA
A víbora cornuda (Vipera latastei) é uma espécie de cobra da família Viperidae. Esta espécie pode ser encontrada em várias zonas, e habita de preferência nas serranias. É um animal difícil de encontrar, a não ser por mero acaso, pelo que, quando isso acontece, o registo visual é muito próximo, o que torna a situação pouco agradável. Não pelo seu tamanho, que é de cerca de 80 cm, mas sobretudo por ser venenosa. A sua cabeça, como acontece com as restantes víboras, tem uma forma triangular característica. A sua cor, é cinzento azulado, possuindo no dorso uma mancha mais escura, em zig-zag, ao longo de todo o corpo. Se encontrar alguma, não se aproxime, ela vai tentar fugir rapidamente. No entanto, se for mordido por uma destas cobras, não corra e tente ficar calmo, para evitar que o veneno se espalhe e procure imediatamente um hospital, principalmente se a vítima for uma criança, um idoso ou alguém com doenças crónicas. Ao cA víbora cornuda (Vipera latastei) é uma espécie de cobra da família Viperidae. Esta espécie pode ser encontrada em várias zonas, e habita de preferência nas serranias. É um animal difícil de encontrar, a não ser por mero acaso, pelo que, quando isso acontece, o registo visual é muito próximo, o que torna a situação pouco agradável. Não pelo seu tamanho, que é de cerca de 80 cm, mas sobretudo por ser venenosa. A sua cabeça, como acontece com as restantes víboras, tem uma forma triangular característica. A sua cor é cinzento azulado, possuindo no dorso uma mancha mais escura, em zig-zag, ao longo de todo o corpo. Se encontrar alguma, não se aproxime, ela vai tentar fugir rapidamente. No entanto, se for mordido por uma destas cobras, não corra e tente ficar calmo, para evitar que o veneno se espalhe e procure imediatamente um hospital, principalmente se a vítima for uma criança, um idoso ou alguém com doenças crónicas. Ao chegar ao hospital, tente descrever a cobra, para o médico poder fazer o tratamento necessário com antídotos, de forma a que a vida da vítima não seja posta em perigo, nem fiquem lesões graves para o resto da vida. Em Portugal, existe ainda a ideia que não existem cobras venenosas no país. Nada mais errado, o que não existe são cobras com venenos muito tóxicos, o que é significativamente diferente. Importante mesmo é que esta espécie faz parte da fauna portuguesa e a sua existência é muito importante no combate aos pequenos roedores. Em Portugal, existe ainda a ideia que não existem cobras venenosas no país. Nada mais errado, o que não existe são cobras com venenos muito tóxicos, o que é significativamente diferente. Importante mesmo é que esta espécie faz parte da fauna portuguesa e a sua existência é muito importante no combate aos pequenos roedores.
BOGA-PORTUGUESA
A boga-portuguesa é muito mais pequena que as bogas-de-boca-recta e não tem a boca ventral nem o lábio cortante das grandes bogas. É de tamanho e aparência um pouco semelhante ao do ruivaco mas as escamas são muito mais pequenas e numerosas. É um pequeno peixe endémico do nosso país, que só existe na bacia do rio Sado, na parte inferior da bacia do rio Tejo e nas pequenas ribeiras que desaguam no mar a norte de Lisboa, até ao rio Lizandro. Encontra-se muito ameaçada e muitas das suas populações que aparecem nas ribeiras sub-urbanas estão sujeitas a ambientes extremamente poluídos e degradados. É o caso das populações do rio Trancão ou da ribeira da Laje. Há mais duas bogas parecidas e muito aparentadas com a boga-portuguesa. Nas bacias do sudoeste Alentejano e Algarve (do Mira ao Arade) existe uma boga descrita em 2005: a boga do Sudoeste (Iberochondrostoma almacai). Carece também de grande protecção, já que ocorre em pequenos cursos de água muitop sujeitos à acção das secas. No Tejo, no Guadiana e na ribeira de Quarteira existe a boga-de-boca-arqueada (Iberochondrostoma lemmingii) com um pintalgado ainda mais visível que o da boga-portuguesa, que é um endemismo da Península Ibérica. Estas pequenas bogas, tal como os ruivacos e bogas do Oeste, desovam em grupos, lançando os pequenos ovos que aderem às pedras ou plantas aquáticas, onde se desenvolvem. A reprodução tem lugar no meio da Primavera. Comprimento máximo: 12,9 cm Estatuto de conservação: Criticamente em Perigo
MORCEGO-DE-FERRADURA-PEQUENO
Em Portugal há 31 espécies de morcegos, de entre as quais 2 em perigo de extinção e 7 criticamente em perigo de extinção.
A maioria das espécies de morcegos é cavernícola, abriga-se em grutas e minas, no entanto algumas espécies preferem cavidades dos troncos das árvores. Verifica-se, curiosamente, que várias espécies podem partilhar o mesmo local de abrigo.
Em Sintra prepondera o morcego-de-ferradura pequeno (Rhinolophus hipposideros) em estado vulnerável.
RÃ DE FOCINHO PONTIAGUDO
Única rã constante do Livro Vermelho de Portugal.
Taxonomia
Amphibia, Anura, Discoglossidae.Endémica da Península Ibérica.Quase ameaçado.
A espécie apresenta uma área de ocupação entre 1.400 e
2.800 km2. Admite-se que apresente fragmentação elevada e um declínio continuado da área de ocupação, da quantidade e qualidade do habitat, do número de localizações e do número de indivíduos maduros. Endémica da metade oeste da Península Ibérica. admite-se que o número de indivíduos maduros em Portugal seja superior a 10.000. Esta espécie ocorre geralmente nas imediações de pequenas massas de água com uma certa cobertura herbácea, preferindo terrenos encharcados, tais como prados e lameiros. Pode ser encontrada durante a reprodução em charcos sazonais ou permanentes, ribeiros, nascentes, canais de rega e em lagoas litorais, resistindo a níveis de salinidade relativamente elevados.
valter hugo mãe, está na capa dos principais jornais brasileiros por causa da sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty. O romance, “a máquina de fazer espanhóis” esgotou na Livraria da Vila, conhecida cadeia de livrarias de São Paulo, que todos os anos monta um espaço em Paraty durante os dias do festival literário.valter hugo mãe foi o único autor até agora a ter um livro esgotado na feira e ficou quatro horas a dar autógrafos a cerca de duas mil pessoas.
Valor firmado da literatura portuguesa contemporânea, edito aqui a entrevista que lhe fiz o ano passado para o site da Alagamares
O valter hugo mãe distribui-se por diferentes áreas de actividade artística, literária e musical e até é licenciado em Direito.Qual a sua propensão natural de todas estas? Como se definiria?
vhm-Sou um escritor. Não é possível comparar tudo o mais que faço, ou com que me envolvo, com o meu percurso e empenho na escrita. Sou, de facto, alguém que escreve e tem na escrita um eixo fundamental da sua vida.
A sua escrita reflecte uma visão muito contemporânea da nossa sociedade e valores.Que valores predominam hoje na sociedade portuguesa com os quais se revê?
vhm-Isso gostava eu de saber, que o mais que faço é andar à procura de entender. Os meus livros pretendem ajudar-me a conhecer e a aceitar, eventualmente, o lugar do outro. Não creio que sejamos piores do que os outros, creio é que podemos mesmo ser melhores do que já somos. Gosto de uma certa humildade portuguesa, mas lamento o menosprezo, gosto da familiaridade portuguesa, não gosto tanto da intromissão ou da inveja, como bem aponta José Gil. Uma sociedade melhor há-de ser sempre uma sociedade que procure os seus equilíbrios. Precisamos amenizar defeitos e potenciar virtudes, para isso há que diagnosticar e assumir.
Já ganhou um prémio Saramago. Revê-se ou aprecia mais o homem, o político, o escritor ou nenhum?
vhm-O José Saramago é um grande homem, é um grande escritor. Cresci a admirar o seu compromisso constante com as questões sociais e políticas, admiro que se incomode e não preciso de estar sempre de acordo com ele. Acho que é bem verdade aquela máxima que diz que o preocupante não é o barulho dos maus, mas sim o silêncio dos bons. O Saramago escreve magistralmente e nunca se calou, correndo riscos e incomodando-se. Gosto de gente assim, que pense e opine, para que quem detenha o poder não se julgue invisível ou impune.
Quem são para si os grandes escritores vivos da actualidade?
vhm-Saramago e Lobo Antunes (por quem tenho uma paixão avassaladora), Herberto Helder, Agustina, Ramos Rosa, Maria Velho da Costa, Armando Silva Carvalho, José Agostinho Baptista, Adília Lopes
Acha que um blogger é um escritor que não arranjou editor ou é um repentista que gosta de se ouvir a si próprio? Há uma literatura do tempo das redes sociais?
vhm-Um blogger pode ser de tudo. Há-os bons e maus. Há daqueles que hão-de passar a livro em esplendor, e outros que não chegarão lá. Acho que o blogue intensificou algumas características que já vinham a ser exploradas na literatura pós-moderna, a fragmentaridade e a atenção a um sem número de temas menores, aquilo que leva a uma espécie de literatura de tom diarístico. As recolhas do Pedro Mexia mostram isso bem. Penso que serão dos melhores livros resultantes de blogues que tivemos em Portugal. Por consequência o Pedro Mexia será dos nossos bloguers mais interessantes, sem dúvida. Mas ele já vinha dos livros, na verdade, o blogue veio depois.
Acordo Ortográfico: sim ou não?
vhm-Sim, se exactamente como está definido é que tenho dúvida. Mas acho fundamental que procuremos manter a língua coesa no âmbito dos PALOP. Se o mundo nos deixar com o português confinado a Portugal vamos ficar mais sozinhos, muito mais pequenos, numa espécie de claustrofobia que será difícil de ultrapassar e que nos prejudicará a todos os níveis, desde logo, e mais ainda, no que respeita à auto-estima.
O graffitti é uma forma de arte ou vandalismo?
vhm-Amo graffittis. Há gente fabulosa a pintar por aí. Adorava que me pintassem umas paredes, umas telas, uns papéis, o que fosse. Mas compreendo que nem todos os cidadãos pensem assim, e as casas são de quem são. Creio que há graffitters que entendem um pouco melhor a ética da coisa e fazem intervenções em lugares que, por algum motivo, se adequam melhor à filosofia rebelde da coisa. Penso que algumas zonas das cidades deviam ser declaradas de liberdade criativa a este respeito. Seria lindo. Já a malta dos tags é uma treta. Assinam por aí fora num problema de ego mal resolvido. Não gosto.
Porque escreve sempre com minúsculas?
vhm-Porque procuro aproximar-me do modo como verdadeiramente falamos, e não falamos com maiúsculas. O nosso discurso acentua-se naquilo que, pelo sentido das palavras, leva o interlocutor a uma espécie de sublinhado. Nos livros faço isso, ou procuro fazer, que é deixar ao leitor a atribuição da importância relativa de cada palavra. Há uma aceleração do texto e uma democratização da dignidade de cada expressão, de cada vocábulo.
Como vê a juventude portuguesa desta última década?
vhm-Infelizmente parece-me que a minha geração está a retroceder em valores. Nos anos oitenta vivemos numa liberdade, e sobretudo com os olhos postos numa prometida liberdade que, quando passamos a ser pais, voltamos a fechar.
Lamento encontrar em escolas que visito malta dos 15 aos 18 com valores mais antigos dos que os meus. Cheios de preconceitos e caminhando, por exemplo, para uma sociedade mais machista. Abomino essas cantoras tipo putas que se põem nos vídeos de cuecas a esfregarem-se nos carros ou nos gajos com ar de chulos. A América está a vender à juventude de todo o mundo uma imagem dos rapazes como durões antipáticos e das raparigas como descerebradas e no cio. É uma pena, e lamento que a malta nova depois mimetize estes clichés julgando que isso lhes dá poder.
Sintra para si suscita que tipo de sentimentos?
vhm-Tenho vertigens. Tentei um dia subir aí umas ruínas e fiquei petrificado nos primeiros degraus. Tinha vinte anos e foi um pesadelo. Quando penso em Sintra revivo um pouco esse momento em que percebi que o incómodo com as alturas podia ser extremo.
Morreu Jorge Lima Barreto, um dos mais importantes musicólogos portugueses desde 1967. A par da produção musical, desenvolvida no grupo Telectu ou a solo, teve um papel decisivo, editando uma quase vintena de títulos dedicados às diversas músicas,interrelacionando-as historicamente ou confrontando-as com a filosofia: Revolução do Jazz (1972), Jazz-Off (1973), Rock Trip (1974), Rock & Droga (1982), Música Minimal Repetitiva (1990), JazzArte (1994), Música e Mass Media (1996), b-boy (1998), destacam-se entre outros. Se bem que a pertinência de muitas destas edições possa ser discutível, há que reconhecer o papel meritório desta empreitada no panorama nacional. Musa Lusa que editou em 1997 constitui uma generosa lufada de ar fresco, apresentando-se como “vulgata das músicas portuguesas contemporâneas”. Mais do que qualquer outro trabalho anterior, esta publicação de 1997 teve por objectivo identificar e reunir sob um único volume todas as músicas que se fizeram em Portugal no último quartel do século XX, ou seja, no pós 25 de Abril de 1974 – embora a obra também aborde, mais superficialmente, o restante século XX.
Começa hoje e prolonga-se até 17 de Julho o Festival do leitão de Negrais. Festival sobretudo para os estômagos e o paladar e a balança lá de casa... Negrais, no concelho de Sintra, povoação muito próximo de Pêro Pinheiro(conhecida pela sua forte industria pedreira), vive quase exclusivamente dos leitões e para os leitões. Ao que consta, esta actividade tradicional remontará já ao século XVIII, quando terão surgido os primeiros assadores, que faziam negócio vendendo-o em pedaços nas feiras e mercados do concelho. A diferença evidente entre o leitão de Negrais e o da Mealhada, é que o primeiro é assado aberto, enquanto o outro o é inteirinho e atravessado por um espeto. De resto, e em termos de sabor, genericamente não é possível dizer que um é substancialmente melhor que o outro, pois as diferenças terão apenas que ver com os próprios restaurantes em si. Na Bairrada cozem-no depois de recheado com os temperos, é empalado num espeto e assado lentamente em rolagem, manual ou automática, dependendo dos fornos.
O leitão de Negrais não é cozido, é assado inteiro, rachado ao meio como os frangos de churrasco e assado da mesma forma.
Os temperos da pimenta e afins são semelhantes, se bem que a tradição diga que o da Bairrada deve ser acompanhado com batata cozida. É preciso é que vivo o leitão não ultrapasse os 10 quilos e depois de morto não ultrapasse os 8. Destacaria daqueles que conheço três restaurantes na zona: o restaurante "Tia Alice”, no largo principal (há quem diga que este é o melhor dos leitões assados em Negrais, menos gordo (talvez por ser mais novo) e, logo, com pedaços mais estaladiços;"O Caneira", já à saída da aldeia, à beira da estrada, com duas salas grandes e estacionamento privativo, o melhor na minha opinião; e "O Palácio dos Leitões", na zona alta de Negrais, em plena encosta, mas fácil de encontrar porque está bem sinalizado o caminho a partir do centro de Negrais. É talvez maior de todos os restaurantes da terra, com 3 salas enormes e estacionamento privativo. Nos outros nunca comi pelo que não me pronuncio.
O acompanhamento do leitão, em todas as casas, é a tradicional batata frita às rodelas acompanhado com o vinho espumoso da Bairrada(branco ou tinto), sendo temperado com um indispensável molho de pimenta. Os nutricionistas torcerão o nariz mas o prazer do garfo por uns dias,( com conta e medida) fará as suas avarias. Bom apetite!
A crise económica que se faz sentir não se reflecte só nas carteiras ou na segurança dos empregos, afecta também valores essenciais para a democracia como a pluralidade de opiniões e a diminuição de espaços de informação e debate das ideias. São menos livros que se editam, menos jornais que se publicam e compram, com isso diminuindo os espaços para o debate e afirmação de ideias e o plural escrutínio dos decisores e das decisões, ocasionando um verdadeiro défice democrático, filtrado pela opinião dominante e dominadora dos que conseguirem escapar. A crise económica, tolhendo a imprensa e a liberdade de opinião também mata e desvaloriza a qualidade da democracia.
A ditadura da Verba, eterna inimiga do Verbo reflecte-se em menor espaço para o debate ou afirmação de ideias ou tendências, para uma imprensa local anémica e esbracejando para sobreviver, e com isso afectando a qualidade das decisões, por falta de espírito crítico e atento da comunicação social local e da sociedade civil. Quantos jornais regionais e locais sobreviverão no final desta crise? Estará a opinião publicada reduzida à blogosfera, novo espaço de liberdade mas igualmente, por não escrutinada, arriscado espaço de libertinagem, quando usado por motivos pouco éticos?
Vivem-se dias de chumbo, e se pode parecer consolador o discurso vencido da vida de que as crises são oportunidades, corre-se igualmente o risco de ver toda uma geração que pensa e tem ideias e as quer exprimir ir ao fundo agrilhoada num bloco de cimento gizado pelas troikas do nosso descontentamento. Quantos jornais locais, gratuitos ou pagos sobreviverão no final desta crise? E editoras? E rádios? E a liberdade de opinião e divulgação que não se mede no PIB das estatísticas mas pesa no ranking das liberdades, enriquecendo as sociedades e tornando-as por essa via mais abertas? A anomia e a sociedade dos indiferentes espreitam perigosamente, afogando a Sociedade Aberta pela qual tanto se pugnou nos últimos decénios, quando o céu era o limite.
É difícil denunciar o poder quando se depende do anúncio institucional para pagar a despesa, denunciar o patrão abusador quando é precisa a publicidade do seu stand, dizer mal do restaurante quando este paga uma página de anúncios, e sobretudo, manter um quadro de colaboradores quando uma imprensa dinâmica, de investigação e ao serviço da comunidade precisa de carros, gasolina, vencimentos, impressoras, rotativas, criativos. Ou então, ceder á informação tablóide e mercenária, fútil e bajuladora, promotora de vaidades ou interesses inconfessáveis. A Liberdade, tolhida pelo livro de cheques, já conheceu melhores dias.