Follow by Email

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O regresso de Calisto Elói

O deputado do Chega, André Ventura, quer ser o novo justiceiro da politica portuguesa. Depois de alguns anos a perorar sobre o Benfica e sobre casos de polícia (sendo o Benfica também ele um caso de polícia…) na pantalha da CMTV, que o acobertou, bem como a outras personalidades inenarráveis, mais próprias duma tasca de vinho carrascão (quanto mais reles, mais audiências), usando do tempo de antena gratuito que a Cofina lhe deu, chegou a um assento em S. Bento, qual novo Calisto Elói dos indignados com a criminalidade, na defesa estoica dos valores nacionais, na aversão à ciganada, e no incitamento às galés perpétuas para a escória ignóbil, assim captando a aceitação salivante da populaça que exige sangue e fogueiras, dando voz (vox?) aos taxistas irados, aos velhos saudosistas da leitaria de bairro ou aos utentes  suados dos comboios suburbanos ao fim da tarde.
Sob a capa da Justiça, o novo indignado de colarinho branco cavalga a vox pop da espuma dos dias, salivando contra “eles”, mas com uma nuance em relação à direita musculada e exuberante: Ventura tem aquele ar de filho de família que à tarde vai lanchar com a avó, vai à missa, e grita pelo Benfica, português médio e bom pai de família. Ouvindo-o, ninguém o leva preso, ali não se vêm matracas, tatuagens guerreiras, ou cabeças rapadas, tudo é elegantemente bourgeois, a firme voz da razão e o clamor pela justiça, verdadeiros, tardiamente descoberto como o mais recente Nun’Álvares da Pátria. E tem tudo para dar certo: urbano e educado, doutor em Direito, benfiquista indefetível, em cruzada contra os corruptos, a morosidade dos tribunais ou a invasão dos migrantes berberes, sequiosos do RSI. Num tom sereno e cativador, quem verá ali um Fuhrer da Segunda Circular ou um sanguinolento Torquemada de gravata?
Tudo espremido, Ventura é um arrivista que decidiu cavalgar a notoriedade que uma televisão tablóide lhe proporcionou, com exposição diária na pele de provedor dos indignados. Lançado o isco, alguns morderam. Veremos se ao fim de 4 anos, qual Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, a lapidar personagem de Camilo em "A Queda de um Anjo", não veremos o deputado Ventura rendido às prebendas do regime, conquistado que foi o assento (mesmo sem ter sido necessário cortar o corrimão) no conforto de S. Bento.

Sem comentários:

Enviar um comentário