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sábado, 23 de maio de 2020

A Ditadura do Precariado

A pandemia que avassala o mundo fez de 2020 um ano que deixou de existir em muitos campos, com destaque para o das artes performativas e dos espectáculos, pondo a nu a realidade de um sector que em 2018 contabilizava 134 mil trabalhadores de diversas áreas, artísticas e técnicas com um volume de negócios de 6,3 mil milhões de euros. Acalmada que seja a dramática situação de muitos artistas e produtores há que construir um edifício jurídico que em momentos de stress não atire milhares de pessoas para o assistencialismo cultural das esmolas do Estado, que é sujeito de deveres neste campo igualmente.
Os agentes culturais são maioritariamente artistas individuais ou pequenos grupos por vezes com uma estrutura orgânica precária, e raramente se orientam por interesses globais, a não ser em momentos de aperto. Tive essa experiência há dez anos quando com um pequeno grupo de personalidades de Sintra fui um dos promotores e fundadores da PAACS- Plataforma das Associações e Agentes Culturais de Sintra, que juntou na altura 25 grupos e associações, visando potenciar o trabalho em rede e unificar vozes no sentido da optimização e partilha de recursos e da defesa dos interesses da classe, indo dos dançarinos ao pessoal do teatro e cinema, das correntes alternativas à música de vários estilos. Durante mais de um ano, ainda funcionou, Contudo,a hesitação em dar passos resolutos no sentido de criação duma estrutura forte, não engajada a poderes públicos, partidários e fácticos, fez com que, prematuramente, ficasse pelo caminho. Um dos pontos fracos do mundo artístico é a sua atomização, e por vezes rivalidade na disputa dos magros subsídios que um Estado avaro da cultura e que para ela olha como entretenimento e com diletantismo, embora a classe artística sempre esteja disponível para as causas de solidariedade de forma pro bono, porque os artistas são o povo que canta, escreve, e em verso, música ou risos, talha a alma dos povos .
Muitos estão hoje pela fragilidade da sua situação, no limiar da sobrevivência, e há que olhar de frente e de forma estruturada o seu futuro não só imediato como, em termos de futro, a nível da proteção social efectiva, garantia de um rendimento médio, e atribuição de espaços condignos para os seus espectáculos, ensaios e encontros. Há que ser criativo, e encontrar nesta fase novos e transitórios espaços e modelos de levar a Cultura ao povo, pois nem todas as manifestações artísticas se completam só com o online ou o You Tube, há que cheirar os lugares, escutar as vozes, apreender as cores, rir e aplaudir em uníssono e em grupo experimentar a catarse que a arte a todos proporciona, e faz evoluir.
Se os espaços interiores não comportam lotação, façam-se espectáculos nas ruas, nos parques de estacionamento, nos coretos ou nos mercados. Se pode e deve haver distanciamento social nos supermercados, nas farmácias ou nos transportes públicos, porque não nesses locais, reinventando o Espaço para o adequar a este Tempo, transitório e de purgatório?
Ninguém tem culpa da pandemia, mas um Estado avaro e pouco inovador tem culpa da anemia que assola o sector cultural e o coloca à porta da sopa dos pobres.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Os historiadores eunucos.

A polémica em torno de Rui Tavares por causa da utilização dum vídeo de arquivo em que o mesmo fala da Exposição do Mundo Português, usado por um professor do EstudoemCasa, mostra como certas pessoas pensam pequenino e não sabem separar as águas, passeando atitudes ultramontanas e censórias.
Enquanto aluno de Direito, estudei por livros de Marcelo Rebelo de Sousa, então do PSD ou Vital Moreira, do PCP, e vários anos depois do 25 de Abril a referência máxima para o estudo do Direito Administrativo era ainda o Manual de Direito Administrativo do professor Marcelo Caetano, político que nunca apreciei, mas ainda hoje eminente referência da História do Direito e do Direito Público. Muitas figuras do nosso meio cultural militam ou militaram em partidos, e ao mesmo tempo foram ou são académicos brilhantes (só para citar alguns, recordo Adriano Moreira, Fernando Rosas, Freitas do Amaral, Saldanha Sanches, José Hermano Saraiva etc), todos conotados com partidos ou determinado pensamento político, e nem por isso feridos na sua independência e conhecimento científico. E então?
O conhecimento técnico não ostenta nem pode ostentar autocolante partidário na lapela, sobretudo quando a honestidade intelectual não interfere com as convicções pessoais de cada um nem é subvertida para converter os incautos. Como escreveu um autor que não me canso de invocar, Baruch Spinoza, filósofo holandês de origem portuguesa, "interessam-me os factos humanos não para aplaudi-los ou atacá-los, mas meramente para compreendê-los". A Cultura só tem uma trincheira, que é da sua promoção e afirmação pluralista, típico duma sociedade aberta que alguns insistem em coartar. Depois, cada um que aplauda ou ataque, essa a essência da democracia, não a de criar eunucos.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Do Diário do George (um qualquer George)



Chove na mente, é um dilúvio a alma, o fim, sempre ele espreitando, sinistra silhueta da esperança fugidia. Encafuado poeta de café, apátrida dos tempos, sombra envelhecida dos espaços, em silêncio calcorreio o pontão da praia, agora sem gente, cinzenta, onde alguns náufragos em terra circulam, sedentos de miragens. Recolho ao carro, e ao cúmplice rádio de tranquilizantes melodias.
É estranho este novo país desconhecido, onde não se pode abraçar um amigo, beijar uma namorada ou acariciar uma avó, raptados das nossas emoções atrás de aviltantes panos que talvez um dia sirvam para nos enrolar, como múmias nos sarcófagos, mortos por ter de deixar de ser humanos, por ousar respirar a liberdade e, sem o querer, viver capturado por um microscópico ditador, alheio a lágrimas, sorrisos e ilusões.
O mar provoca, desafia a vencer, a cavalgar a onda, ousando, e logo a seguir, uma quebra, um atávico apelo a desistir, vencidos de nós, temerosos. Os amanhãs perdem cor, pardacentos, anunciando um perturbador purgatório, entre o pesadelo e a ilusão. No leitor do carro, oiço Kurt Weil, e, como ele, suplico, onde está o caminho para o próximo whisky bar?…
Escrevo. Apago. Escrevo de novo. Rasgo, despótico. Que fazer? Dar o corpo ao inimigo? A Primavera fugiu, fugaz, em quarentena da Vida e confinamento da Alma. Volta, és nossa, és Sul, e és Sal, és o tónico deste velho e atónito Portugal!
Ululantes e fantasmagóricas hordas de conformados, a medo patrulham a Cidade, raptada e de luto. Mudaram as madrugadas, antes límpidas e ledas, ameaçadoras agora, com a promessa de castigos, cruéis e castradores, e de estivais armagedeões relampejados. Que fazer para não mais despertar, para de vez voltar ao filme onde todos são felizes, que inveja. Ah, como é puro o cheiro límpido do iodo, magnânimo e libertador.
Dedilho umas linhas para a imortalidade, esculpidas no vasto areal, ao lado observo trilhos de passos, na areia molhada. Empolga, a canção do CD, a velha Alabama Song, cantem os Doors ou David Bowie, é Portugal amarelo scotch passando em fundo, albergue de errantes, trôpego de futuro, e sem pedras de gelo. Vamos todos para Alabama e acolhamo-nos num whisky bar esperando o nirvana e acordar do pesadelo!
Num solitário quiosque, anoréticos jornais vendem insegurança e medo, intranquilos, os cardíacos relatos deste diário crepúsculo. Aconselho deixar de ler jornais. De tão abusadas, gastaram-se as palavras, analfabetos, não descobrimos novas, entre silêncios soltamos enredos, esboçamos adjectivos, melhor beber uns copos, fanfarrões talvez salvemos o mundo aí pelo quinto gin. Só o álcool-não o do tal gel- é redentor, e concubino. Amigo certo, presentear-me-à por certo com uma poética cirrose, maleita de intelectual, é o mínimo, os verdadeiros intelectuais sempre se trataram com álcool. Não morrerei de pijama, mas de fraque, que não se vai para o outro mundo de pijama, espero que no tal do Céu haja Visa, parece que não deixam levar dinheiro.
Afastando-me do paredão, posso agora pensar em novas madrugadas, com cravos brancos. Sim, quero cravos brancos sobre uma laje fria, fica bem nas fotos, com o som de Chopin em fundo, talvez o meu velho amigo Fernando me dedique uma estória das dele. Campa. Sim, quero uma campa, grunge, salpicada de cruzes entre memoriais de defuntos imortais, nada do irrespirável e tórrido crematório, que é coisa para frango assado, ou talvez para a Joana d'Arc.
Passou a Ângela no calçadão, trauteio baixinho a Alabama Song, pelo retrovisor vejo o Max sentado no banco de trás, grande Max, já partiu, e de fraque, sete outonos atrás, espera aí Max, vou a caminho!
É cruel, escrever com caneta de aparo. As palavras sangram, e impiedoso o aparo mata, invasiva arma contra as palavras vãs, com caneta de aparo e tinta preta se deviam proclamar revoluções, gritar esperanças, borrar epitáfios e apunhalar palavras errantes em confidenciais cadernos.
Cristo morreu, Marx também, e eu, francamente, não me sinto lá muito bem. São cruéis os dias, mais a merda da máscara, convoca à lassidão do corpo. E ainda hoje é quarta. O homem de Nazaré morreu numa sexta. Aninhado entre pregos de aço, ressuscitou num sábado, hora de Greenwich. Todos os dias ressuscito para tornar a morrer. Melhor ir a um copo no bar. Mas qual?
Esfíngico, o sol põe-se no horizonte, não serviu de nada hoje, fugido do Verão, o leitor no carro repete o Alabama em looping, talvez o Kurt e o Brecht queiram um bourbon. Aguarda, Max, vou já!…
Assina: um poeta das cirroses, mas das elegantes, sempre aconchegadas em copo alto e, se o Valdez fiar, perfumadas com um puro de Havana. A pandemia é uma monotonia.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia Internacional da Língua Portuguesa

Hoje é o Dia Internacional da Língua Portuguesa, em tempos de lay-off, lockdown, take away, burnout, instagram stories, e outras portuguesissimas expressões. De volta dos seus laptops e tablets, fazendo download de programas e upgrade de app's, os portugueses celebram com emojis e GIF's, enquanto devoram happy meals e aguardam under stress que Bruxelas emita recovery bonds, revistos que sejam os ratings. Leiam e-books para providenciar mais royalties aos autores portugueses e aumentar a sua popularidade no ranking dos best-sellers e mainstream. Portuguese is beautifull!

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Carta ao Rogério, em dia de Quarentena

"Caro Rogério
Observo um Glenffidich, com gelo, em fundo, toca a dança dos espíritos abençoados, do Orfeu e Eurídice. Mais um dia de quarentena, tardia que está esta envergonhada Primavera, e o regresso à liberdade. O sol espreita tímido, mas para quê sol nos corpos, quando gelam as almas? Odeio estes dias do dito "confinamento". Dantes a família almoçava aos domingos, depois da missa. Já não há famílias, nem missa. Que saudades do passeio de barco ao Ginjal, no fatinho à marujo, a comer enguias e a visitar a avó, que esperava com bolo de noz e scones com geleia. Nunca mais comi bolo como esse. Também têm passado, os sabores, Rogério, e muitos deles sem futuro. E o rádio, com o relato da bola, que saudades do rádio, gritando cada penalty como se o locutor fosse ter um enfarte.
É, o passado está todo aqui, numa prateleira, nos retratos em álbuns, arquivos mortos de vidas passadas. Cansei do Gluck, agora que deram os mortos da Espanha, oiço agora o Strauss, Rogério, uma valsa, que seja, encerra juventude e nostalgia, só por isso, outro Glenfiddich, raios partam o Famous Grouse, está cada vez mais martelado. Engraçado. Nunca estive nesse passado, com valsas e palácios, mas também ele é passado do meu passado. Cliché. Bonito. É sempre bonito falar do passado, por nostalgia ou arrependimento. Tem uma vantagem: ao menos tem-se passado. Vou apagar a televisão, chega de electrodomésticos e de mortos, por hoje!
Não mexe uma palha lá fora, sabes, só uma velhota sem máscara a caminho da padaria, cá dentro, corre um vento intranquilo. Que presente recordaremos daqui a vinte anos como sendo um bom passado? Os copos que se beberam? A infância dos filhos, ingénuos e puros, azul ou rosa, como os fatinhos lhes enfiámos à nascença? Queria ouvir Jim Morrison, mas estou intemporal, apetece-me música de salão, hoje. Oiço a Annen, Rogério, sim, a polka 117 de Strauss, grande música para um slideshow de vida, feliz e realizada. Para os infelizes, antes Philip Glass ou Bartok, eu quero evadir-me, quero Glenffidich, vou aumentar o som e dizer à vizinha que enlouqueci, e que o som é a conselho médico!
Engraçado, Rogério, sinto-me um pássaro numa melodia de Dvorák. Dantes todos os dias eram de Vida, sem separar por semanas, décadas, gerações. Olha, bebe um copo à minha saúde e diz ao mundo- ou pelo menos ao caseiro- que o Arnaldo da Nóbrega desistiu de viver. Só ouvia vinis, e num mundo onde já não se vendem pontas de diamante, riscou-se de membro do clube. Que partiu, ao som de Annen, levando os livros, os sonhos, o perfume de Sofia, muitos passeios ao Ginjal e o bolo de noz da avó. Auf Wierdersehn! É forte, o adeus em alemão, seguro e sem lamechas. Rogério! Maldito, se não fosse a tia Zita já te tinha esfrangalhado, degenerado! Olha, pensando bem compra mais uma garrafa de Glennfiddich e deixa-me aqui à porta, imprestável!
Assina: Arnaldo Nóbrega, vendedor de insónias"

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Dia Mundial do Livro

Em livros aprendemos as primeiras letras e soubemos dos feitos da nossa História. Em livros a nossa imaginação viajou, com desenhos e por histórias de encantar, primeiro, ou com os heróis de ficção, depois. Em livros descobrimos mosqueteiros, cavaleiros andantes, morgadinhas e jangadas de pedra. Em livros soubemos das ideias, de eternas utopias e filosofias perigosas, também. Em livro bebemos poesia, sofrimento, paixão, sonho, convicções. Em livro viajámos pelo mundo e neles registámos o que o mundo nos deu.
Nada suplanta o cheiro a novo de um livro acabado de publicar ou o odor intenso dum velho pergaminho adormecido num arquivo, a descoberta do folhear, seja para viajar com descobridores, descobrir o assassino improvável, ou descrever terras, paisagens, mundos interiores e palpitantes.
Num livro revisitamos a nossa história, pessoal e coletiva, e nele renovamos valores, apelos à ação e à contemplação. Eternos como as pedras, livros são Vida, e como Vida estão destinados a não morrer, seja dentro de belas encadernações ou cozidos por um singelo fio.
Leia ou releia um Livro, neste Dia Mundial do Livro.

sábado, 18 de abril de 2020

Sortilégios de sábado

Pela manhã daquele frio Abril, na solidão de dias vazios, Jorge passeava no areal da Aguda, onde gaivotas ululantes pairavam sobre o azul encrespado do mar, atlântico e viril.Um mestrado em Antropologia terminado num emprego num call center, a recibo verde, era o seu espólio, o pai e o avô iam ajudando.
Acabara com a Mariana, depois de arrufos que noutros tempos logo se resolveriam mas que um estado depressivo amplificara, estava arrependido, mas não queria ceder. O Filipe prometera ver o que se arranjava no escritório do pai, mas as coisas não estavam fáceis, dos vinte empregados sete tinham sido despedidos, e os restantes estavam a receber do centro de emprego.
A Aguda estava particularmente spleen. Enquanto um pescador solitário apanhava tiagem, Jorge, sem pressas, ia desfolhando o passado recente, os amigos afogando em imperiais a vida a marcar passo, os pais desavindos por causa dos empréstimos, o tempo esgotando-se entre o Instagram e o download dos blues favoritos. Desenhando círculos na areia molhada, que ondas irritantes logo desfaziam, a investida das marés desvendava uma natureza pujante, e por momentos lembrou-se do tsunami da Ásia, e passou-lhe pela frente a imagem dantesca do que seria uma onda igual a consumir toda a praia, pouco provável, contudo, dadas as arribas atlânticas, armadilhadas de recifes e fósseis.
De quando em quando puxava do telemóvel, e detinha-se no número da Mariana, mas desistia de seguida. Talvez fosse melhor assim. Já não havia química, só a saudade egoísta da sua pele macia, porto de abrigo de muitos dias de solidão, onde em pose fetal se acolhia depois de noites de amor. Mas depois, cruel, voltava a cama fria pela manhã, o quarto despido onde fixamente olhava o tecto, a melancolia, a vontade de desistir.
Ao longe, na areia, uma mulher passeava, e um cão de água português corria ofegante, um cigarro na mão, ao aproximar-se, detetou-lhe um olhar suave, mas fechado. Ao cruzarem-se no areal, uma onda ousada molhou-lhes os pés, irrequieto, o cão ladrou a uma gaivota mais atrevida. Tinha uma expressão serena, tal e qual a Angelina Jolie, pensou com os seus botões, inevitavelmente meteu conversa, com o cão- é sempre o cão- como pretexto.
-Estes cães gostam muito de água, quantos anos tem? -uma atracção súbita por aquele olhar seráfico e impenetrável tornou desafiadora a desconhecida passeando na praia.
-Três meses, é cachorro ainda! -respondeu, esboçando um sorriso pouco expansivo, com o cabelo ondulando ante a brisa da nortada.
-É muito bonito. Como se chama?
-Fausto. O meu ex-marido só gostava de animais com nomes clássicos.
Havia um ex-marido, a coisa não parecia assim tão desagradável. Ela devolveu:
-Vem aqui muitas vezes? Nunca o vi por cá!
-É raro, mas acho o ar frio tonificante, quando posso venho, moro aqui perto.
-As praias são locais onde se perdem coisas e outras se ganham, as ondas trazem e levam muitos segredos, não são só botas velhas... –as palavras soavam dramáticas, meneando a cabeça, Jorge concordava, só para continuar a conversa.-O meu avô dizia-me: quando quiseres que algo aconteça, levanta uma pedra e aquilo que procuras, pode lá estar. As praias são muitas vezes cofres de segredos que podem mudar os dias!
Com estas palavras despediu-se, o cão adiantara-se já no vasto areal e um vento gélido ia-lhe flagelando o rosto, apesar do sol de Inverno.De novo só, com o pescador já minúsculo ao longe, continuou, desenhando círculos na areia com um galho de árvore que uma onda trouxera. Em cima de um rochedo decorado de mexilhões e de algas verdes salgadas, deteve-se a ver o mar, o súbito ruído de algo a bater nas rochas, chamou-lhe a atenção. Curioso, deitou o olhar para uma poça que o mar escavara, uma garrafa esverdeada e sem rótulo, fechada, deixava-se levar por um ondulante bailado na água. Algo no entanto o alertou.A garrafa continha um papel dentro. Logo lhe ocorreu alguém mandando uma mensagem, coisa de filme, ali estava ele, náufrago da vida, com uma garrafa na mão, se fosse de gin ao menos… Desdobrado o papel, não muito antigo, como erradamente imaginou, tinha escritas umas palavras enigmáticas:“O destino baralha as cartas. Nós jogamos”. Como assinatura, um smiley, risonho e ingénuo. Atónito, releu a mensagem, e repetidamente apertou-a com a mão firme, como se por azar lhe fosse escapar. Ao longe, irruptivo, o vulto da mulher lançava-se ao mar, uma gaivota ruidosa acompanhava do céu. Ainda tentou ir-lhe no encalço, mas logo desapareceu, só o cão de água, ladrando e abanando o rabo,ficou a vê-la desaparecer no mar, traquina e brincalhão.
Olhou o horizonte, o sol nascia cálido e a brisa pareceu-lhe agora aromatizada.
A vida são túneis de onde por vezes desponta ao fundo a luz, outras onde o negrume entorpece e paralisa.
Bom sábado!

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Ratinhos

Hoje são todos virologistas, epidemiologistas, infeciologistas, imunologistas, com Skype ou sem ele, diariamente peroram sobre tudo o que sabem, julgam saber e se calhar não sabem. Máscaras sim, máscaras, não, ou sim, mas talvez, mas em sítios fechados. Imunidade de grupo sim, distanciamento social não, para outros sim e não. Quarentena de 14 dias sim, para outros não, para outros ainda, 24 dias. Afastamento de 1m, sim, mas se calhar é melhor 2, ou melhor ainda, mantenham-se a 4. Pico em Abril, depois em Maio, depois fim de Maio, agora já é planalto, afinal.O melhor é chamar o bruxo da Areosa ou a Maya, talvez acertem mais, estamos no campo da astrologia, ou pior ainda, da escatologia.
Deixem de fazer de nós ratinhos de laboratório, por favor, e falem a uma só voz, que já estou cansado do ranking diário a ver quem é que tem mais mortos, quando chega ou passou o pico, quando "abre" a economia ou voltam a haver aulas. De Graça Freitas a Marques Mendes, de José Miguel Júdice a José Gomes Ferreira, mais os médicos todos que falam (não devem estar muito ocupados, pois estão sempre na televisão),por favor, salvem-nos ou deixem-nos!

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Versos contra a Pandemia

Estávamos aqui descansados
Sem lhe ligar patavina
Quando nos entrou cá em casa
O novo vírus da China
A princípio não ligámos
Era coisa de chineses
Só que depois ficou sério
Não demorou nem dois meses

Primeiro a Itália do norte
Milão, e a Lombardia
Depois o resto da Europa
E passou a pandemia

Cá o burgo não ligou
Desdenhou de tais maleitas
Nada de preocupações
Garantia a Graça Freitas
Mas a coisa não parou
E logo chegou a Espanha
E a boa da Graça e a Marta
Tiveram surpresa tamanha
Coronavírus lhe chamam
O que é, ninguém imagina
Toca de meter tudo em casa
Até aparecer a vacina

Mascarados nos puseram
Em isolamento social
Depois da troika, o corona
Mas a quem fizemos mal?

É preciso paciência
E ter precauções também
Tudo isto irá passar
Vamos todos ficar bem!

terça-feira, 14 de abril de 2020

Sintra 2045


Sintra, Abril de 2045.O presidente da Câmara, Braima Djaló, descendente de caboverdianos, saía dos Paços do Concelho no velho Sintra Fórum depois de uma videoconferência com o ministro europeu da Economia. Lech Zibrinski despachara localbonds para o financiamento de obras no concelho, Diógenes Durão, o delegado europeu para o distrito de Portugal, acertaria depois as verbas para o novo CICV.
O concelho crescera e tinha já 700.000 habitantes, mais de metade de origem africana. O canal de TV local, o Sintra Sky Network era dirigido por Gustavo Facas, neto dum conhecido DJ dos anos 10 e o vereador dos média, Simeon Pereira descendia de emigrantes romenos radicados no Mucifal.
Djaló era dinâmico e audaz. Antigo rapper, fora eleito através do velhinho Instagram, e tinha projectos para o concelho: o Instituto Graça Freitas de doenças infecciosas abriria em 2046,bem como a Universidade Cristiano Ronaldo, em Colares, em homenagem ao comendador, agora com 59 anos e proprietário do Praia Grande Hilton e dum resort no antigo Palácio da Pena. No plano desportivo, a fusão de todos os clubes desportivos concelhios originara o Sintra Sad, presidido pelo antigo internacional Bruno Fernandes, que depois de adquirir o Sporting em 2024 prosperara na área dos media.
Com 50% de desempregados, designados pelas estatísticas como inactivos orgânicos, número de que nunca recuperara desde a Grande Depressão de 2020, causada pela pandemia do Covid 19, Djaló criara um plano de reforma para aqueles que tivessem frequentado pelo menos dez cursos de formação profissional. Mas o principal problema era a violência.Ganhara as eleições com a promessa de legalizar a violência urbana, desde que não se ultrapassassem cinco roubos por esticão e três assaltos por ano, considerados como falta leve no cadastro digital, controlado por um QR code de 4ª geração, criado por informáticos dum cluster de Alfaquiques. Apesar disso, todas as noites havia desacatos na linha de metro de Mem Martins, obrigando à frequente intervenção por parte da Força Ninja, recrutada entre veteranos da guerra de 2036 contra os Estados Unidos, na qual Portugal participara integrado no Exército Europeu.
Atendendo uma chamada, Simeon, em holograma, anunciava entretanto que o busto do escritor Miguel Real estava pronto para a inauguração na antiga Volta do Duche. Com milhares de downloads de e-books por ano, Real era uma referência de Sintra e da literatura desde que ganhara o Nobel em 2024.Ali ficaria, ao lado do Memorial à Grande Hecatombe de 2020, quando Portugal sofrera a grande pandemia infecciosa, sobreviventes e familiares dos falecidos ali depositavam flores com frequência, exorcizando esses anos de incerteza em que 90% da população perdeu o emprego e sobreviveu mais de sete anos na maior penúria. Muitos ainda usavam máscaras de proteção, e durante anos o vírus ainda deixou um rasto de mortalidade sazonal, combatido agora, contudo, com uma vacina à base de óleo de fígado de bacalhau e leite de coco.
As coisas eram diferentes agora, felizmente,e com Djaló, Sintra voltava a ser cool e progressiva. A imagem romântica em que se insistira no passado não pegara e desde os anos vinte, com o colapso do turismo que se apostava na Sintra tecnológica, com indústrias criativas e a abertura de empresas de base tecnológica em Morelena e Negrais. Os call centers em videoconferência, os transgénicos de estufa, a par de fábricas de carros a biodiesel no Cacém, foram a base da retoma. Doces tradicionais como a queijada ou o travesseiro haviam desaparecido, substituídos por uma versão light sem açúcar nem ovos, dentro do plano de combate à obesidade, e que igualmente banira o courato, o hambúrguer e o cozido à portuguesa.
Anteriores presidentes haviam apostado no teletrabalho e na privatização dos serviços: o urbanismo era agora gerido por uma consultora de Marbella, as obras municipais por um consórcio, um franchisado duma empresa de Taiwan, pelo que a autarquia, agora designada smart village, apenas dispunha de 70 funcionários em permanência, ganhando cerca de 300 yuans digitais por mês (o yuan, moeda chinesa, era agora a moeda mundial, depois do estoiro do euro em 2020, após a Grande Depressão). Até a justiça fora privatizada e entregue por cem anos a uma holding, a Isaltino, Vara e Associados, com sede nas ilhas Caimão, e filial em Lourel.
Depois da conversa com com Zibrinski, Sintra, sob a sua presidência, finalmente teria um Centro Integrado para a Conservação da Vida-CICV, algo em tempos chamado hospital, uma empresa de saúde onde os doentes comprariam quarto e assistência em time-share, podendo trespassá-lo, após o tratamento e a liquidação dos impostos. O acesso seria permitido após um chip do genoma atestar a veracidade da doença e a situação fiscal do candidato, e seria gratuito para todos os que se houvessem reformado aos 90 anos e desde que provassem viver em casa dos pais. Em 2060 terminaria a revisão do 3º Plano Director, e a torre biónica das Azenhas do Mar, com 750m e apta a receber cinquenta marisqueiras ficaria finalmente pronta, mas como o mar sumira, graças às alterações climáticas, grandes projetores e plasmas transmitiam a sensação do que em tempos fora o Oceano Atlântico. Agora, sim, um Admirável Mundo Novo chegaria a Sintra pelas mãos do visionário Djaló.