quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Histórias de Natal

 


O envelope verde

 

Na casa de Janas, desde há muitos anos que na árvore de Natal aparece pendurado um envelope verde, sem remetente ou destinatário. Tudo começou por causa do tio Álvaro. O velho e espartano solteirão detestava o Natal, não porque não estimasse a família, mas para ele massificador de emoções, fazendo da fraternidade algo a que se acrescia lucro e iva. Era avesso às compras, às comezainas pantagruélicas e aos pares de meias com ursinhos embrulhadas com fitas cintilantes, confissão desesperada de quem não tinha nada original para oferecer. Até o Pai Natal fora inventado pela Coca-Cola, alegava reticente.

 

Sabedora do feitio torto, naquele Natal Sofia decidiu deixar de lado as peúgas e gravatas às bolas e foi à procura de algo que ele apreciasse, e a ideia surgiu-lhe um pouco por acaso: Sérgio, o filho mais novo, jogava futebol no colégio, e em meados de Dezembro a sua equipa fora disputar um jogo contra uma de Monte Abraão. Em contraste com os equipamentos limpos e de boas marcas da equipa do Sérginho, os deles eram usados e sujos, sapatilhas esfarrapadas, um mundo cruel e real. O tio Álvaro também foi ao jogo, e sentiu claramente a diferença entre os que têm e os que anseiam, reais mundos deste mundo. Os de Monte Abraão perderam o jogo, mas com o orgulho ferido calaram a derrota, não eram as sapatilhas a única coisa esfarrapada ali. O tio Álvaro, velho adepto de futebol, e do Sporting- nasci para sofrer, dizia - no fim do jogo encolheu os ombros, taciturno:

 

-Os miúdos da outra equipa têm potencial, mas é pena, têm poucas condições, é por isso que muitos deles depois desistem. Apesar de torcer pelo nosso Sérgio, hoje gostava que eles tivessem ganho! -desabafou, um pouco mais expansivo que o habitual.

 

Nos anos sessenta, Álvaro Camacho fora treinador de juniores no Sporting, a alguns viu mesmo singrar nas divisões intermédias, amigos para o resto da vida. Ainda nessa altura, no café do Fernando, com muitos dos putos já veteranos, comentava regularmente as partidas e as carreiras difíceis. O desabafo deu a Sofia uma ideia para um presente que por certo o levaria a mudar de ideias quanto à data. Divorciada e dona duma boutique, com alguma folga financeira que permitira a casa em Janas, tinha um coração generoso. Dias mais tarde, entrou numa loja de desporto, comprou onze pares de sapatilhas e enviou-as à escola de Monte Abraão. Na véspera de Natal, discretamente, pendurou na árvore cintilante um envelope verde, com um bilhete para o tio Álvaro, a oferta das sapatilhas aos miúdos era o presente dela para ele. Surpreendido, esboçou um sorriso discreto mas luminoso e naquele ano, depois da ceia, até comeu filhoses, e bebeu vinho do Porto.

 

Nos anos seguintes, a árvore de Natal passou a contar com um envelope verde pelo qual um grupo de crianças ou pessoas carentes beneficiaria, sem o saber, dum tio que recriminava o Natal, virando mesmo tradição: um ano, foi um cheque a um paralímpico sem meios; outro, um perú para o lar de idosos onde estava a Ercília, antiga criada da casa, o envelope surpresa passou a ser o momento alto do Natal pelo qual o tio Álvaro passou a aguardar, ansioso, sem grandes exuberâncias, mas interiormente feliz. Religiosamente, era sempre o último presente a ser lido na noite de Natal, e com o tempo até o Sérgio e os irmãos mais novos deixaram de lado os brinquedos que já sabiam ir receber, à espera do momento em que, qual entrega dos Óscares, se revelaria o nome dos contemplados desse ano. O tempo foi passando, e as crianças crescendo, mas o inevitável envelope nunca perdeu o seu lugar e encanto.

 

Um dia, um cancro de pulmão fez das suas e o tio Álvaro partiu, levando o velho sportinguista que detestava o Natal, mas involuntariamente fizera vários Natais felizes.

 

O ano passado, ainda chorosos pela perda do carismático tio, Sofia e Sérgio, já adulto, como sempre enfeitaram a árvore junto à lareira onde pontificavam retratos de familiares sorridentes, mortos e vivos, o tio Álvaro em destaque com o seu bigode farto e o nariz achatado. No meio das bolas e luzes, e do presépio da avó Chica, de novo um envelope verde, bem ao centro. Foi Sérgio, cúmplice, quem o colocou. Antes da ceia do Natal, um segundo envelope adornava outra ramagem da árvore, e à noite, mais três se lhe juntaram. Também os irmãos mais novos de Sérgio, fãs do Bruno Fernandes, sem o dizerem, colocaram envelopes, e sorridentes, disfarçaram surpresa, alegando ser coisa do Pai Natal. À meia-noite, depois da ceia e dos presentes, todos à vez foram à árvore e abriram o envelope com a prenda que em memória do tio Álvaro iriam dar: a Joaninha, duas bonecas para o ATL da escola, em Morelinho; o Rui, uma bola de futebol para os filhos do Etelvino, desempregado e em dificuldades; até o Marquitos, na ingenuidade dos seus cinco anos ofereceu um desenho representando o tio Álvaro com um leão, treinando dois meninos a jogar futebol, para o infantário. Nos natais da casa de Janas, o espírito de Natal passou a ser o momento da homenagem àquele velho tio avesso às aparências, e a ser mais importante dar que receber. É Dezembro de Natal, na rádio toca Rudolph the Red Nosed Reindeer, e fico por aqui, que há envelopes verdes para ir comprar. Só eu sei porque não fico em casa.

 

 

 A primeira árvore de Natal

 

 

Os príncipes estavam já no salão, impecáveis nos fatos tiroleses que o tio Augusto comprara para a receção de Natal que sua mãe, a rainha, ofereceria ao corpo diplomático. A noite estava amena nas Necessidades, um presépio gigante, ladeado por serafins de asas abertas, adornava o salão contíguo à sala do trono. Pedro terminara a aula de geografia com o visconde de Carreira, seu preceptor, como sempre, estava sorumbático e calado. Seria rei um dia, o visconde vigiava-lhe a postura. Lipipi, mais bonacheirão, intrigado, contemplava um barco numa garrafa, tentando descobrir como o enfiaram dentro. Pelas sete horas, com o salão profusamente iluminado e decorado com esculturas que Fernando comprara em Paris, chegaram os embaixadores das nações amigas, ministros, e inúmeros convidados. O país estava pacificado por Saldanha, apesar do triunfo dos cabralistas, depois da convenção de Gramido, e a família real, mais descontraída, ocupava-se com a educação dos filhos, sete já, com o nascimento do príncipe Augusto, em Novembro.

 

À hora marcada, a rainha entrou na sala, com Fernando a seu lado, duas camaristas secundavam-nos. As várias gravidezes haviam-na tornado obesa, enfiada num vestido roxo que não lhe favorecia as formas, mais própria de burguesa que de rainha. D. Fernando, fardado de general dos exércitos, com o cabelo louro em desalinho, fazia suspirar as cortesãs. Era um pinga-amor, porém, sempre respeitador de Maria, e zeloso da educação dos filhos. Nessa manhã estivera em Mafra, montando o Monarch, misterioso, avisou que se preparassem, pois faria uma surpresa durante a receção da noite. Tinham nascido poldros à égua da rainha, ia vê-los, no regresso passaria pela Pena a inspecionar as obras, carros de bois transportavam por esses dias pedra para a ala sul, onde já se viam os contornos do palácio.

 

Na sala, rodopiavam os grandes do reino. O príncipe Augusto, irmão de Fernando, de visita para o Natal e para conhecer o novo sobrinho, a quem puseram o seu nome, conversava com o barão Eschwege, que dava pormenores sobre a construção da Pena, a outro canto, o visconde de Carreira comentava com a marquesa de Lavradio como a rainha ficara desgostosa com o óleo que Beaulieu pintara com os príncipes, para ela pouco favorecidos.

 

Após as boas vindas da rainha Maria, Fernando, num português atrapalhado, pediu silêncio, e mandou entrar o coro de S. Vicente de Fora. Doze jovens impecavelmente vestidos e em canto ambrosiano entoaram então algumas canções de Natal, perfeitamente afinados. No final, também D. Fernando fez questão de cantar uma melodia austríaca, Stille Nacht, Heilige Nacht, chamou ao piano Manuel Inocêncio, o professor de música dos príncipes, e como combinado, cantou para a assistência, maravilhada e rendida à sua voz possante. O ambiente, inicialmente formal e protocolar, estava agora desanuviado. Intrigante, D. Fernando pediu a palavra:

 

-Majestade, Excelências, se não vos importais, passemos à biblioteca, tenho uma surpresa para vós!

Era a altura de desvendar o mistério da ida a Sintra de manhã. Aberta a sala contígua, até então fechada, um pinheiro gigante, profusamente engalanado, deslumbrava, repleto de velas e doces. Vários candelabros e uma crepitante lareira compunham o ambiente, irrompendo a sala numa salva de palmas, em sinal de admiração.

 

-Em Coburgo, conta-se a história de São Bonifácio, que certo dia salvou um príncipe que ia ser sacrificado num bosque por alguns druidas. –explicou -Derrubada a árvore onde o príncipe ia ser imolado, nasceu no local um pinheiro, que para nós simboliza a paz. É tradição desde então colocar em todas as casas uma árvore pelo Natal, como símbolo de paz e fraternidade!

 Extasiados, Lipipi e Pedro correram para a árvore, enquanto a rainha Maria, admirada, apreciava as velas que Fernando com o auxílio de Eschwege e dos criados passara a tarde a colocar. Mas não ficavam por ali as surpresas. A um bater de palmas, um indivíduo com enormes barbas brancas entrou na sala, trazendo um saco:

 

-Eis um Weihnachtsmann, não sei como se diz em português, mas é alguém que no Natal premeia quem praticou boas ações, distribuindo prendas, sobretudo às crianças! -explicou, deitando um olhar misterioso na direção dos filhos. Perante a alegria de Lipipi, futuro rei D. Luís, seguiu-se a distribuição de presentes que o homem das barbas tirava do saco e que Fernando entregava um a um. Para Maria, um vestido, do atelier de madame Clochard, em Paris; para Pedro, livros, com anatomia de animais, oferta da rainha Vitória, que adorava os primos portugueses, um chapéu de almirante para Luís. Nenhum convidado foi esquecido, e todos foram presenteados com aguarelas de flores e pássaros, pintadas por Fernando nesse Verão em Sintra.

Naquela noite serena e feliz, iluminava-se pela primeira vez uma árvore de Natal, sendo Fernando um perfeito weihnachstmann do Norte, invadindo as Necessidades naquele seu Natal português. Finda a memorável noite, a todos saudou, de coração cheio:

 

 -Feliz Natal para todos, caros amigos!Frohliche weihnachten!

 

 

A Alcofa

 

 Como de costume Baltasar, Gaspar e Melchior, sócios na ourivesaria e solteirões inveterados, passaram o Natal juntos, à meia-noite trocaram presentes e comeram bolo-rei, agora sem brinde e sem piada, comentava o Gaspar. Baltasar era o mais velho, e gerente da loja, muitas alianças para casamentos vendidas mas nunca a dele, a olho nu distinguia um fio de ouro de um pechisbeque com banho dourado. Com Gaspar iniciara o negócio há oito anos, chegaram a correr o país em feiras e mercados antes de finalmente se estabelecerem numa zona elegante de Lisboa, até hoje sem um assalto, felizmente. Melchior retornara de África com a descolonização, era mestiço, conheceram-se num cruzeiro à Turquia e acabaram partilhando o negócio e a casa no Banzão.

 

Na véspera de Natal tinha havido movimento na loja, apesar da crise, uns brincos, quatro relógios, uma salva em prata, dava para ir mexendo. Pela manhã de 25 de Dezembro coube a Melchior despejar o lixo, caixas e restos dos camarões da ceia, bacalhau não era tradição. Tinham uma empregada duas vezes por semana, a Maria, que por ser feriado estava de folga, eles mesmo acomodavam o essencial. Para espairecer, iriam almoçar à Ericeira, apesar do tempo frio, daria para desentorpecer as pernas.

 

Já Melchior voltava para casa quando ouviu um restolhar junto ao contentor, algum cão buscando sobras, pensou. Curioso, aproximou-se, uma alcofa de estopa atada com um fio de nylon estava depositada mesmo ao lado, parecia conter algo, agitava-se ligeiramente. Espreitando de soslaio, assombrado, deparou-se-lhe um bebé ainda com sangue no corpo, não teria mais que umas horas de vida, ali abandonado na manhã do dia de Natal. Olhou em redor, ainda atónito, tentando descortinar alguém na redondeza, algum carro, quem poderia ter cometido uma barbaridade daquelas, e com o receio de quem nunca pegou num recém-nascido, agasalhou-o com o casaco de lã que levava e correu para casa com o achado nos braços.

 

 Baltasar barbeava-se, enquanto Gaspar ia fazendo zapping, todos os canais passavam a bênção do Papa, o passo assolapado de Melchior com um volume nos braços assustou-os.

 

-Depressa! Vejam só o que estava no lixo! Não há direito! -Melchior exibiu o ensanguentado nascituro, um rapaz, segundo reparou logo. Baltasar e Gaspar correram atarantados, Baltasar ainda com o creme da barba. O pequeno dormitava, inocente, já órfão, porém.

 

-Tem de se avisar a polícia. Mas esperem, vamos dar-lhe banho primeiro -aventou Gaspar, correndo a buscar um alguidar com água quente.

 

 -E comida? Há algum biberão?

 

-Melchior, mete-te no carro e vê qual a farmácia de serviço. Traz fraldas e um biberão. Ah e pergunta o que é que se dá de comer nestas idades! -logo destinou Baltazar, ourives baby-sitter, sem experiência de crianças.

 

O bebé acordou, entretanto, desfazendo-se num pranto. Enquanto Melchior não voltava, vinte minutos que mais pareceram vinte horas, foram-lhe deitando leite morno nos lábios, que ele logo sugou, instintivo. Regressado Melchior, dividiram as tarefas daquela incrível manhã de Natal, uma hora depois dormitava na cama do Baltazar, protegido por almofadas dos lados para não cair, com o trio embevecido com algo que só se via nos filmes.

 

Maria chegou entretanto, apesar do feriado passava a ver se era preciso alguma coisa. Vinte e dois anos, separada do Zé Luís, entretanto despedido do Ikea, ficou abismada com a história, e logo ficou a tomar conta do pequeno anjo. Ela própria fizera recentemente um aborto involuntário e agora, ali estava um presente de Natal naquela radiante manhã no improvável presépio do Banzão. Chegada a polícia, foram todos para a GNR de Colares, onde dois guardas de serviço colocaram a cesta numa secretária, junto a uma árvore de Natal, na televisão um coro cantava o Adeste Fidelis. Seguiria para uma instituição de acolhimento, mas Maria e os outros quiseram seguir o caso, se ninguém o quisesse, estavam interessados em criá-lo, Gaspar, crente, associava o acontecimento a mais que uma coincidência.

 

Reluzindo, com o reflexo das luzes de Natal no rosto minúsculo, o pequeno a quem alguma mãe sem meios abandonara, parecia sorrir na alcofa, com todos a mirá-lo silenciosos, mas com um coração grande.

 

No rio de Colares, duas pombas brancas esvoaçavam soltas e livres, chaminés fumegantes anunciavam o lento acordar da manhã de Natal, a vida renovava-se e o que por certo seria o um drama de mais uma vida madrasta, foi o prenúncio de um novo começo na vida sempre a recomeçar.

 

 -Há-de chamar-se Salvador! -profetizou Maria, uma lágrima no olho adoçou-lhe o sorriso cheio, se tudo corresse bem, veria a maternidade reencontrada e três tios emprestados, para o que desse e viesse. 

 

 

Noite de Natal na linha de Sintra


A farmácia estaria de serviço na noite de Natal, a Mafalda asseguraria o expediente. O comboio para Sintra estava a chegar e Eduardo só pensava em chegar a casa, onde Sónia esperava para um jantar tranquilo, a dois.

 

Cinco anos na farmácia no Cacém, de tudo vira já. A farmácia era um espelho: os unguentos para o reumático da D. Marinela, sempre a aviar receitas e reclamando das artroses, os Gurosan para a fauna da noite, malandreca e ressacada, o antibiótico do Gonçalo, com o pai desempregado e a mãe a dias num infantário, a comparticipação cada vez mais pequena. O pior, eram as noites. O Cacém cada vez mais perigoso, perdido entre seringas da crise, nada como uma farmácia para perceber o mau estar geral.

 

 Levou consigo para casa uma mala com amostras que o delegado de informação médica deixara, no dia seguinte, feriado, entreter-se-ia a folhear a literatura, os laboratórios estavam sempre a inventar produtos, todos produzindo quase o mesmo efeito afinal, a indústria precisava de ser oleada e criar produtos novos, bem vira o que sucedera quando da gripe A.

 

 A viagem seria curta, cerca de dez minutos, já pouca gente ia no comboio, quase todos recolhidos às suas ceias e famílias. Na carruagem, alguns passageiros apenas, um careca amorfo, com o olhar baço refletido no vidro grafitado, duas brasileiras de roupa exuberante a caminho do trabalho, pelo cheiro do perfume barato, um jovem de óculos com um portátil, falando com amigos pelo Facebook. A carruagem seguia silenciosa, intervalada por uma voz melosa indicando a paragem seguinte, até que soava doce a palavra Algueirão naquela voz de aeroporto, quem não conhecesse poderia pensar-se em Paris ou Barcelona.

 

 Em Rio de Mouro saiu o careca, levando uma maleta, a marmita do almoço por certo, o Natal seria a dormir, sem disposição para festejos, mais um ano numa vidinha que não vai, antes vai indo. Duma carruagem contígua, chegaram quatro jovens africanos, com piercings reluzentes como árvore de Natal, boné da NBA e ténis refletores. Depois de ruidosos pontapés nas cadeiras, marcando o território, e do abrir e fechar de portas, invasivas e invasoras, um, com as calças quase pelos joelhos, aproximou-se de Jorge e apontou-lhe uma faca à jugular:

 

-Meu, passa para cá o caroço, e depressa! E não te chibes, que ainda é pior!

 

Eduardo sentiu a lâmina fria na garganta, as brasileiras, surpresas, nada disseram, que nestas coisas o melhor é ficar de fora, indocumentadas por certo. Buscou no bolso das calças a carteira com trinta euros, apenas, o cartão multibanco e cartões-de-visita de delegados de informação médica.

 

 -Só isto, sócio? Então hoje não há festa? -pelos vistos teriam de ir abordar o caixa de óculos, que fazia não ser nada com ele. Eduardo achou melhor ficar calado. Eram quatro, um sacou os trinta euros enquanto o da faca o manteve quieto, não fosse pegar no telemóvel e chamar a polícia, depressa desapareceriam na noite a beber cervejas e enrolar um charro. Junto à porta, um dos sócios, para aí com dezoito anos, subitamente empalideceu, e caiu desamparado no chão da carruagem. Surpresos, os outros começaram a desatinar:

 

-Levanta-te chavalo, estás bezano, meu? -sacudiram-no os outros, como baratas tontas, sem saber o que fazer. As brasileiras entreolhavam-se, parecia coisa do morro.

 

 -O minino bébeu? Nossa, que barra pesada! -comentou uma, sem se levantar, um decote pronunciado deixava descobertos uns peitos rijos e salientes. Eduardo virou-se para o seu sequestrador e interpelou-o:

 

-Oiçam, eu sou farmacêutico, percebo um pouco destas coisas, deixem-me tirar-lhe a pulsação -sugeriu, apesar da situação, era um profissional.

 

O da faca, com um capuz enfiado, hesitou, mas anuiu, desviando a lâmina, o rapaz do computador aproveitando a trégua inesperada, chegou-se, curioso, enquanto o Algueirão ficava para trás sem ninguém aí ter saído, Eduardo, tomando conta da situação, colocou o aparelho no braço do jovem:

 

-É quebra de tensão. Oiçam, trago aqui amostras duns comprimidos novos que estimulam o organismo, isto deve ajudar -diagnosticou, abrindo a mala das amostras que levava para ler no feriado. Abrindo-lhe a boca, ante a passividade dos amigos, enfiou-lhe uma cápsula branca, e cinco minutos depois, sentado num banco da carruagem já o jovem, Vando, era o seu nome, recuperava, com dor de cabeça e ar assustado.

 

 -O melhor é fazeres umas análises, pode ser algo do coração, ainda és novo, puto! -recomendou Eduardo. Apesar de assaltado, não resistiu a pôr a mão no ombro do rapaz, complacente com aquelas vidas perdidas, talvez nunca programadas para ser de outra forma. Acabrunhado, Vando nada disse, os outros, em silêncio, rodeavam-no. O da navalha olhou Eduardo nos olhos e com um ar fechado e inexpressivo, estendeu-lhe a mão onde ainda tinha os trinta euros do assalto. Eduardo olhou-os de relance, e sem aceitar, despediu-se, conformado:

 

 -Bebam um copo à minha saúde! Feliz Natal!

 

E saiu na Portela de Sintra, as brasileiras também, entrando num carro que as esperava, também o moço do computador sumiu na noite fria. Em breve seria Natal, também no cúmplice comboio de rejeições. Os quatro sócios seguiram para a vila, deambulando no largo junto ao paço, com o Vando agora mais descontraído. Metendo a mão ao bolso, encontrou a caixa dos comprimidos, e na frente, escrito a azul, um “Feliz Natal” em letras  salientes.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Alterações climáticas: a um minuto da meia noite...

 


Em Glasgow, onde decorre uma vernissage de salvadores do planeta, Boris Johnson enfatizou que falta um minuto para a meia noite e esse é o tempo para fazer o que décadas de carbonização descuraram. É claro que sem a Rússia, a China ou o Brasil de pouco servirão as palavras, e lentamente caminharemos para o armagedeão, a fazer companhia aos dinossauros.

Só para dar uma ideia do que nos espera, repesco um estudo do prof. Filipe Duarte Santos sobre o panorama que em Sintra poderemos vir a registar.

Em Sintra, segundo o "Plano Estratégico do Concelho de Sintra Face às Alterações Climáticas" coordenado pelo prof. Filipe Duarte Santos, antevê-se que em meados do século XXI as temperaturas médias anuais subam1.7 a 3.3 °C, com maior ênfase no Verão (3.6ºC a 5.4°C em julho) do que no Inverno (0.7 a 1.6 °C em dezembro). No final do século a elevação da temperatura média anual pode chegar a 2 a 3°C acima do que são atualmente no Inverno e 5º a 10º C no Verão, com ondas de calor mais frequentes e noites tropicais em que poucas vezes a temperatura descerá abaixo de 25º C. A precipitação média no final do século baixará de 800 mm para 540 a 700 mm e a radiação solar aumentará até um máximo de 8%.

Haverá reduções anuais no escoamento dos principais cursos de água na ordem dos -30% em meados do século e -50% para o final do século, e para os aquíferos é de esperar uma diminuição da capacidade de exploração sustentável. O impacto no rebaixamento do nível nos aquíferos será ainda modesto, menor que -0,5 m, mas para o final do século já alcançará máximos de -0,7 m no final do semestre húmido, e -0,8 m no final do semestre seco.

 O consumo de água dos sintrenses, agora da ordem de 80 m³ entre 2020 e 2030 será 3% a 15% acima dos valores atuais. O nível médio do ar continuará a subir, com cenários de 0,2 m a 1,4 m para o horizonte de 2100.

Fenómenos de precipitação intensa irão promover a erosão das arribas, e a modificação do regime das ondas associada às alterações climáticas deverá aumentar a deriva litoral e, portanto, o potencial de transporte de sedimentos, predominante para sul, em até mais 20% em relação à situação atual. A configuração das praias aponta para reduções da superfície dos areais, embora muito variáveis de praia para praia. Nas mais encaixadas e instaladas em desembocaduras fluviais, a redução será pequena. Pelo contrário, as praias mais abertas, estreitas e limitadas pelo lado de terra por uma arriba, como a do Magoito, que são extremamente sensíveis à rotação do rumo das ondas, devem perder grande parte do areal.

Os cenários colocados pelos autores do estudo sugerem um aumento do stress ambiental na vegetação florestal. O stress hídrico poderá tornar as árvores mais suscetíveis e aumentar os danos causados pelas pragas e doenças.

No futuro aumentará também o risco de incêndio florestal e a deterioração dos ecossistemas florestais pela dificuldade de regeneração das árvores e pela proliferação de espécies invasoras mais competitivas e melhor adaptadas às novas condições climáticas.

Prevê-se o aumento da incidência de pragas e doenças, assim como o risco de invasão por novas espécies de regiões de clima tropical ou subtropical. É também muito possível que as taxas de crescimento de pragas e doenças sejam estimuladas pelo aumento da temperatura, sobretudo quando têm a possibilidade de ter várias gerações por ano.

O aumento das temperaturas no Inverno, quando acompanhado por humidade elevada, poderá favorecer a expansão de alguns agentes patogénicos, modificando a estrutura e composição da vegetação, com consequência para a restante biodiversidade: a fauna seguirá os destinos do seu habitat e a comunidade de insetos sofrerá com as alterações climáticas, uma vez que são animais de sangue frio.

Algumas populações, especialmente aquelas que têm distribuição geográfica limitada, pequenas áreas de habitat ou reduzido número de indivíduos (como o cravo-romano, o feto-de-folha-de-hera, o miosótis-das-praias ou a boga portuguesa), poderão não ter capacidades para se adaptarem às rápidas alterações climáticas, e a sua extinção pode ocorrer em populações com baixa taxa de reprodução e capacidade de dispersão.

Dentro dos mamíferos o grupo dos morcegos é o mais vulnerável, dada a dependência do seu metabolismo com a temperatura e a sua dieta depender da comunidade de insetos. Nos répteis e anfíbios deverá haver uma diminuição da sua área de distribuição, uma vez que são animais de sangue frio e com fraca capacidade de dispersão.

Os cenários indicam que em finais do século as ondas de calor serão um fenómeno frequente, afetando grupos mais sensíveis como as crianças e os idosos. O problema do ozono poderá persistir e agravar-se pelo menos até meados do século e o número de dias propícios a salmoneloses na região de Sintra aumentará dramaticamente no Verão.

O risco de transmissão de doenças por insetos subirá em todo o concelho. Mesmo no Inverno o clima passará de totalmente desfavorável a ocasionalmente favorável. O Verão continuará de forma geral a ser a estação do ano mais favorável à transmissão, embora em meados do século o clima se torne tão seco que o risco começará a diminuir.

As alterações climáticas em Sintra vão no sentido de aumentar a produção de pólenes ao longo de todo o século, agravado pela diminuição da precipitação que promoverá menos a limpeza da atmosfera. A radiação solar aumentará significativamente, e como o número de dias confortáveis para atividades no exterior aumentará, tudo se conjugará para um maior risco de melanomas.

Apesar da vasta área florestal do Parque Natural Sintra-Cascais (3675 ha), o valor anual de sequestro é de cerca 53 500 toneladas de CO2, ou seja, da ordem de 2% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) dos sintrenses (âmbito total). Segundo os autores do estudo, no caso específico de Sintra duas estratégias surgem como as mais adequadas para sequestro biológico de carbono: o aumento permanente da área florestada e do número de árvores de arruamento, e o aumento da duração média das árvores com vista à meta de longo prazo de sequestro de 8% das emissões de GEE.

Estima-se que o índice de emissões totais (estritas e implícitas) per capita seja da mesma ordem do valor médio nacional, ou seja, 8 toneladas de CO2 eq./habitante. No entanto, este valor pode ser reduzido se houver uma generalização das energias renováveis, edifícios mais eficientes, melhores transportes públicos e mais ciclovias.

Sintra faz parte desde 2015 do consórcio que irá desenvolver a metodologia do projeto ClimAdaPT.Local para aplicação a nível nacional das estratégias municipais para as alterações climáticas, sendo uma das uma das autarquias que já têm estratégias próprias para os seus territórios.

Porque, como alertava um famoso programa televisivo de Luís Filipe Costa nos anos 70, inspirado nos avisos de Gonçalo Ribeiro Telles, “Há Só Uma Terra”…


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Socorro, vem aí o Futuro!

Foto: Obra de Ai Wei Wei, exposta na Cordoaria Nacional sob o tema "Rapture"

No retomar regular deste blogue, com 10 anos e momentos mais regulares que os da intermitência que agora se pretende ultrapassar, escolhi como tema o futuro.

 

Frequentemente, numa visão positivista da História e atenta a tentação para sermos educadamente otimistas (um otimista é um pessimista distraído) achamos que está subjacente ao futuro uma gradativa melhoria material e moral das pessoas e das sociedades, a erradicação das doenças, a resolução dos conflitos, o homem de Platão finalmente vendo a luz na caverna, num processo civilizacional sem retorno e francamente melhor que o passado, de clivagens, usura do poder, infelicidade e sofrimento. E fica bem ter saudades do futuro, desafiadores e modernos, de mentes arejadas e altruístas.

 

Hoje não tenho tanto a certeza de ter pressa desse futuro. Um futuro sem o pão quente e fresco da manhã e sem cheiro a vida e a natureza, asséptico e normalizado pelas ASAE desta vida; um futuro de hipercomunicação  virtual cada vez mais solitários e deprimidos, em silêncio mandando frenéticos SMS uns aos outros a enganar a solidão; um futuro onde os velhos serão convenientemente depositados em armazéns a que se chamam lares e onde esporadicamente esbateremos o remorso em fugazes visitas; um futuro sem partilha que não seja a de ficheiros da net ou do Facebook, ou a fazer patetices no Tik Tok; um  futuro com mais órgãos para transplante e menos almas para transplantar; um futuro sem as coisas boas da vida, da mesa e da floresta, herméticas e com código de barras, transgénicas e clonadas; um futuro anormalmente normalizado, de Verbo coartado pela Verba, de cidadãos sem cidades, pessoas solitárias não solidárias, de erráticos rebeldes confundindo felicidade com euforia, orgasmo com masturbação, solidariedade com caridade e patriotismo com o hino em jogo da seleção. Desse futuro, não tenho saudades, e, meus amigos, se não for para ajudar a construir outro, deixem-me no limbo, construindo outro futuro nos meus poucos palmos de terra e milhões de hectares de imaginação. Aí, previsíveis, as araucárias acrescentarão novas folhas em cada ano, as andorinhas voltarão em março e enquanto não forem desaparecendo na voragem dos dias de chumbo, os meus cúmplices lá irão aparecendo para a escatológica e salvífica imperial das seis.

 

Apetece repetir o slogan a sépia que nos trouxe até aqui: sejamos razoáveis, exijamos o impossível.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

SUGESTÕES CULTURAIS PARA O FIM DE SEMANA- 18 E 19 SETEMBRO

Caros Amigos Com o desconfinamento, a Alagamares está de volta, e em breve teremos o prazer de anunciar novas iniciativas. 
 Para já, divulgamos alguns eventos e iniciativas locais, em cuja participação recomendamos:



TRILOGIA DA GUERRA- AGAMÉMNON 
Até 9 de outubro 
HORÁRIO: quintas, sextas e sábados às 21h30 Pela MUSGO Produção Cultural 

 A Grécia declara guerra a Troia após o rapto de Helena por Páris. Estamos na Antiguidade Clássica. Agamémnon o protagonista desta tragédia que faz derramar muito sangue, desperta enormes paixões e mostra o homem nas suas facetas mais íntimas, comovedoras, filosóficas e animalescas. O dramaturgo Jaime Rocha construiu, a partir deste mito fundador do teatro grego, uma peça, ao mesmo tempo tragédia e comédia, que responde às preocupações, utopias, angústias, ideais não só do homem antigo, como também do homem contemporâneo. O autor introduz neste texto um olhar renovado quer nos conteúdos, quer no vigor e na agilidade dos diálogos e relatos. Sendo por um lado fiel à história narrada e problematizada pelo texto fundador, o Drama Antigo, esta peça traz ao teatro contemporâneo português uma nova visão de uma realidade mitológica muito singular, onde a coragem, a intriga, o ódio, a paixão, a solidariedade, o abandono e a errância são elementos dramatúrgicos fundamentais, uma realidade em que o homem mostra a sua verdadeira face e deixa cair as máscaras. O autor, ao reconstruir este mito grego, reflete também sobre como ele perdura no tempo e como se adapta aos dias de hoje, como chega até nós e é enquadrado no mundo moderno. De facto, a guerra nunca acabou, continua a ser uma presença constante e uma ameaça ainda mais mortífera, já que põe em causa a própria existência humana. FICHA ARTISTICA E TÉCNICA Texto: Jaime Rocha Encenação: Paulo Campos dos Reis Dramaturgia: Jaime Rocha e Paulo Campos dos Reis Interpretação: Miguel Moisés (TEATRO EFÉMERO), Carolina Figueiredo (TEATROMOSCA), Ricardo G. Santos (RUGAS), Filipe Araújo, Rute Lizardo, Regina Gaspar (MUSGO), Clara Marchana, Catarina Rodrigues (MADRASTA DANCE) e um aluno do Curso Profissional de Artes do Espetáculo da Escola Secundária de Santa Maria (Portela de Sintra) Direção de produção: MUSGO Produção Cultural Coprodução: Efémero, Madrasta, Musgo, Rugas e teatromosca Promotor: Fundação Cultursintra 



MUSCARIUM#7 
Até 26 de Setembro, diversos lugares 

 Setembro chegou e com ele vem o festival MUSCARIUM, organizado pela companhia sintrense teatromosca. A sétima edição daquele que é o mais importante festival de artes performativas em Sintra irá decorrer de 10 a 26 de setembro e continua a ter como objetivo espalhar a cultura um pouco por todo o concelho. Serão três semanas totalmente dedicadas ao teatro, música, dança e performance, com espetáculos de artistas nacionais e internacionais, para todos os públicos. A abertura do festival, ocorreu no dia 10 de setembro, a cargo da fadista Gisela João, nos jardins da Quinta da Regaleira. Antes, pelas 20h15, num outro local deste mesmo espaço, o público foi presenteado com o espetáculo de dança “Mapa”, do Colectivo Glovo, vencedor de diversos prémios, proveniente da Galiza. Já no dia 11, às 16h, a Casa da Juventude da Tapada das Mercês recebeu “Eça Agora!”, um espetáculo de teatro para jovens que surge da parceria das companhias Três Irmãos e As Contadeiras, com o propósito de levar obras menos conhecidas de Eça de Queiroz a toda a comunidade Lusófona, através da contação de histórias. 
A segunda semana do evento inicia-se a 17 de setembro, às 21h, no AMAS – Auditório Municipal António Silva, com “Noites Brancas”, uma adaptação do romance homónimo de Fiódor Dostoiévski, pelo Teatro Art’Imagem. No dia seguinte, às 16h, na Casa da Cultura Lívio de Morais, em Mira Sintra, os mais pequenos puderam assistir a “Semente”, espetáculo da RUGAS Associação Cultural, estrutura sintrense que privilegia a criação performativa multidisciplinar. A 18 de setembro, às 21h, o AMAS enche-se de ritmo angolano com Domingos Conceição, mais conhecido por Azulula. Este será um concerto que explora artes visuais e sonoras, com o objetivo de manter viva uma tradição musical que está em vias de extinção. 
A semana termina na Quinta da Ribafria, em Sintra, dia 19, às 18h, com “Iceberg, O Último Espetáculo”, criação para a infância produzida pela Peripécia Teatro que a companhia descreve como não sendo para “meninos de coro, com corações sensíveis e de fácil melindre, habituados a cadeiras estofadas”. Scúru Fitchádu é um dos nomes mais falados do atual panorama musical português e também estará presente no MUSCARIUM#7. 
O funaná punk do alter-ego de Marcus Veiga invadirá o Largo da República em Agualva, no dia 24 de setembro, às 21h e promete acelerar o batimento cardíaco dos presentes. A terceira semana de festival, começa assim, da melhor forma possível, com este concerto de entrada livre. Depois da festa da noite anterior, o Centro Lúdico das Lopas, em Agualva, albergará mais um espetáculo deste MUSCARIUM, continuando a privilegiar o programa em família, com “Somos Pessoa!”,pel’As Contadeiras, no dia 25, às 16h. Aqui, a vida e obra de Fernando Pessoa é contada a partir de uma estrutura narrativa e linguagem teatral pouco convencionais. Já dia 26 de setembro, pelas 16h, haverá uma nova produção com entrada gratuita: “Sómente” pelo Teatro Só, no Largo Rainha Dona Amélia – Palácio de Sintra. A companhia, que tem a sua sede em Portugal e na Alemanha, traz consigo um espetáculo poético que reflete sobre a solidão na velhice e que venceu diversos prémios internacionais. 
Encerrando o festival com chave de ouro, também no dia 26, desta feita às 21h, no AMAS – Auditório Municipal António Silva, será a vez de o coletivo canadiano Mammalian Diving Reflex apresentar a performance “Sexo, Drogas e Criminalidade”, que será criada ao longo de uma semana de residência artística desta companhia com um grupo de jovens da comunidade maiores de 16 anos.  
A programação completa encontra-se disponível no site da companhia em www.teatromosca.com e continuarão a ser divulgados todos os pormenores relacionados com o festival nas páginas oficiais do teatromosca no Facebook e no Instagram. Os bilhetes para os espetáculos da edição deste ano encontram-se à venda na Ticketline e locais habituais. Poderão ser adquiridos individualmente entre 5 € e 7 € ou por via de um passe de acesso a todos os espetáculos do MUSCARIUM#7 pelo valor de 35 €. CONTACTOS | geral@teatromosca.com | 91 461 69 49 | 96 340 32 55 





EXPOSIÇÃO DOS 20 ANOS DA DANÇAS COM HISTÓRIA 
Exposição de 11 de setembro a 31 de dezembro no MUSA 

 Retrospetiva dos 20 anos de atividade da Associação Danças com História, que se tornou um caso singular no panorama nacional, na divulgação da dança antiga, associada aos grandes monumentos nacionais, personagens e acontecimentos representativos da nossa História e cultura. A Associação Danças com História conta com 732 apresentações em Portugal e no estrangeiro, das quais, 340, realizadas em Sintra. Esta exposição, concebida e realizada por Paula Sequeira, através de uma documentada cronologia, está enriquecida com uma mostra de trajes e de acessórios de diferentes épocas, referência a tratados, coreografias, bem como outros elementos simbólicos representativos da missão e trabalho da Associação. 
 Haverá lugar a tertúlias com Miguel Real, Sérgio Luís de Carvalho, e João Rodil no 3º Sábado de Setembro, Outubro e Novembro, pelas 16h. 
 O excelente desempenho na divulgação da dança antiga ao longo dos seus 20 anos de existência, tornou a ADCH uma referência ímpar, em Portugal e no estrangeiro. Com o seu vasto repertório de danças medievais, renascentistas e pré-barrocas, anima espaços, também com história, tendo já atuado no Palácio Nacional de Sintra, na Quinta da Regaleira, na Quinta de Ribafria, no Castelo de S. Jorge, na Torre de Belém, no C. Cultural de Belém, no Mosteiro de Alcobaça, na Catedral Visigótica de Idanha-a-Nova e em diversos museus. Representou Portugal no Festival de Dança Meet theTradition, na Bulgária e mereceu a atenção da cadeia internacional de televisão fracófona-TV5Monde. A imagem da ADCH assenta em alicerces de uma rigorosa investigação sobre coreografias, músicas e trajes das respetivas épocas, associando sempre à dança personagens e acontecimentos históricos de grande relevo cultural. Com Sede em Sintra, esta Associação tem beneficiado de vários apoios, nomeadamente da Câmara Municipal de Sintra. 
https://dancascomhistoria.wixsite.com/dancascomhistoria https://www.facebook.com/dancascomhistoria/ https://teia19.pt/dancascomhistoria 




FESTIVAL DE JAZZ DE SINTRA 
17 a 19 de setembro, no Cento Cultural Olga de Cadaval 

 Este Festival integra a programação do município de Sintra para o projeto cultural metropolitano Mural 18. A programação do Mural 18 é fruto da articulação dos 18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa (AML) para apoio a agentes culturais através do desenvolvimento de uma programação em rede. Através desta iniciativa, que terá uma comparticipação financeira do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional é desenvolvida uma vasta programação cultural, unindo agentes culturais, municípios e cidadãos, em defesa da comunidade artística e do património cultural, imaterial e material. A AML – Área Metropolitana de Lisboa, integra os municípios de Sintra, Alcochete, Almada, Amadora, Barreiro, Cascais, Lisboa, Loures, Mafra, Moita, Montijo, Odivelas, Oeiras, Palmela, Seixal, Sesimbra, Setúbal e Vila Franca de Xira. 
 Bilhetes e informações em festivaljazz.sintra.pt 




A CONDESSA D’EDLA – O ÚLTIMO GRANDE AMOR ROMÂNTICO 
Dias 18 e 19 de Setembro das 10h às 17h, Quinta da Ribafria

Teatro e Património em Sintra 2021 
Novas datas, decorrentes do adiamento motivado pelo luto nacional em memória do Presidente Jorge Sampaio.

Entrada Livre 
Instalação multimédia interativa (texto, atores, instalação cenográfica, digital e sonora). 
Vários sets cenográficos podem ser experimentados pelos visitantes. Através de sensores, o público interage com sons e imagens. Imagens projetadas da condessa d’Edla, permanecendo hirta sobre um pequeno estrado de veludo, como se fosse uma figura dentro de uma caixa de música, vai rodando lentamente. Ouve-se música operática, a partir do “Baile de Máscaras” de Verdi e sons transformados que remetem para o conceito de caixa de música. Durante a instalação vão surgindo imagens das personagens D. Fernando II, Eça de Queirós, Carlos da Maia e Maria Eduarda, em visita ao Chalet da Condessa, do Teatro de S. Carlos, do parque da Pena. Ouve-se a voz da personagem Condessa d’Edla expressando as suas memórias, o seu amor por D. Fernando, já falecido, relembrando episódios das suas vidas. Um trabalho da ÉTER Produção Cultural.




LANÇAMENTO DA 3ª EDIÇÃO DE "MADRUGADA" DE MARIA ALMIRA MEDINA
18 de Setembro, 17h, Centro Cultural Olga Cadaval
 
 Chegando ao fim da comemoração dos 100 anos da Maria Almira Medina, uma singela homenagem que resulta de uma iniciativa conjunta com a Casa das Cenas, o Chão de Oliva associa-se à produção da 3ª edição da obra “Madrugada”. 
Contribuição do Chão de Oliva para que esta obra não deixe de existir para as gerações futuras. Antes do lançamento do livro de poesia, assistiremos à interpretação de um dos textos por alunos, com dinamização da Casa das Cenas. Por coincidência, será um texto que a Companhia de Teatro de Sintra levou à cena, no mesmo edifício, que na altura se chamava Cine-teatro Carlos Manuel. O texto de teatro de Maria Almira Medina é A Menina Girassol. O espírito de assistência mútua e de comunidade que Maria Almira Medina incutiu na dinâmica cultural de Sintra perdura ainda hoje. Graças à sua intervenção, tão subtil quanto infalível e transformadora, vários grupos e artistas contaram com a sua solidariedade ativa – só por isso a Maria Almira merece ser lembrada por todos. “Camarada da Arte”, como lhe chamou Almada Negreiros em 1944, Maria Almira Medina foi artista total, tendo deixado no seu legado obra artística, poética e o seu espírito de serviço à Cultura. Numa homenagem contínua, o Chão de Oliva promove/u diversas iniciativas de tributo, individualmente ou em parceria, fora ou na Casa de Teatro de Sintra, cuja sala recebeu o seu nome.

Bom fim de semana!

domingo, 25 de abril de 2021

Cultura- Participar é Preciso



Colaborar em associações, sejam culturais, sociais ou desportivas, é um desafio nos dias que correm, e eu que integro umas cinco em lugares de responsabilidade bem o constato ao longo dos anos. Desde o longínquo MAEESL (de antes do 25 de Abril, Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa, que realizou a primeira RGA de alunos do secundário no Liceu D. Pedro V, em Maio de 1974, e onde participei, numa fase de aprendizagem, devorando o Manual das Assembleias Gerais do saudoso Roque Laia), à Associação Académica de Direito nos finais de 70, da participação em movimentos e causas como a da Palestina, Timor, a libertação de Nelson Mandela (que depois tive o prazer de cumprimentar na sua vinda a Portugal) e outras, sempre me ficou o estímulo para fazer e inovar, nessa época com o entusiasmo de quem sabe estar a criar pela primeira vez, consolidar amizades, gritar pelas ruas e praças, escrever em folhetos universitários e de análise crítica, cantar e redigir poemas (cheguei a concorrer a um festival da Canção, como autor de uma letra…) etc. Nos anos 90 integrei uma direção do Sintrense, inclusivé, num período de grandes dificuldades financeiras do clube.

Com os anos, nunca esse “bichinho” me largou, tendo fundado a Alagamares com mais um conjunto de “carolas” em 2005, o Núcleo do Sporting de Sintra em 2016, tenho batalhado pelo restauro e manutenção na esfera pública do Salão de Galamares, promovi causas como o restauro do Chalé da Condessa ou a campanha contra alguns atentados no Centro Histórico de Sintra e contra a tentativa de cortar 1400 árvores na Lagoa Azul, e  integrarei a direção dos Bombeiros de Colares. Pelo caminho, muita escrita, dois livros, três blogues, textos em jornais, quase duas centenas de eventos com a Alagamares, o recente envolvimento com a Rede Cultural de Sintra e tudo o que por aí virá.

Ao longo de todos estes anos, tenho sentido como as associações e as coletividades locais sentem profundamente o quanto são o parente pobre do Orçamento e os agentes culturais meros adereços decorativos nas campanhas ou usados para abrilhantar as listas dos apoios.

Pergunta-se se o modelo associativo como o conhecemos tem futuro. Terá, se certos atavios forem debelados de forma enérgica.

Baluartes de resistência e cidadania durante o período do Estado Novo, as associações irromperam no pós-Abril como cogumelos, distribuídas nas vertentes cultural, desportiva, socioprofissional ou de solidariedade. Mas se ser associativista é uma forma de dizer que se quer estar ativo como cidadão-actor em prol duma participação efetiva e do legítimo exercício da democracia -na vertente de cultura para todos, e com todos -tal não impede que a mudança de paradigma que as novas solicitações da sociedade global e da informação impõe permitam e exijam que se ultrapassem algumas patologias.

A falta de formação de novos dirigentes, articulados com as realidades do tempo que passa e sem espírito corporativo, de imobilismo na preservação de lugares ou incapazes de congregar novas sinergias.

A eterna falta de verbas e da perspetiva de olhar para as associações sobretudo para a preservação da vertente patrimonial, das sedes e equipamentos, desenquadrada do fim último de congregar vontades, mobilizar opiniões, e gerar atos de cultura, desporto, etc

A prevalência do individualismo hedonístico, que desvaloriza o trabalho de equipa ou coletivo, em benefício das figuras e dos egos, num estereótipo transmitido por um modelo de sociedade onde o Eu vence o Nós, mas de forma volátil, efémera e perversa.

A falta de investimento na inovação, e na rutura com certas práticas, reproduzindo uma "cultura de corpo" estática, distanciada das necessidades para que muitas vezes essas associações foram criadas, facto espelhado nas múltiplas associações que apenas mobilizam para jogar o dominó ou assar o courato, mas deixaram de ter desporto ativo, de produzir cultura da terra para importar cantores de moda efémeros e dissonantes, ou de se rever com o conjunto da população, num multiplicar por esse país fora de inúmeros Cinema Paraíso decadentes e ansiosos por revitalização.

A subsidiodependência, a suburbanidade de escolhas culturais, o divórcio com as forças mais dinâmicas das comunidades, e o espírito -há que dizê-lo- reacionário e imobilista de certos dirigentes- fazem os pavilhões às moscas, os teatros a cair de podres, os balneários sem água quente, tudo símbolos que ninguém quer herdar ou assumir, e logo de pouca atratividade.

É na subversão deste estado de coisas que o associativismo, com novos modelos de financiamento, com novos e empenhados dirigentes, de braço dado com as novas tecnologias e sob o desígnio de parcerias profícuas poderá e deverá singrar. Daí a necessidade de conjugar esforços com outras associações no sentido de criar elos de fortalecimento do movimento associativo, em prol de mais Participação, mais Organização e mais Capacidade e Alcance. Mas, é preciso, sobretudo, que tal decorra duma interiorização do papel social e comunitário dos agentes culturais, e da manifestação pujante e unida destes perante um Poder que deles faz parente pobre, e a quem, infelizmente, muitos se submetem.

Como escreveu André Malraux, a cultura só morre vítima da sua própria fraqueza. Há que lubrificar as mentalidades e tomar em mãos a força que, mais que qualquer arma, a Cultura e seus agentes devem ter na Sociedade, se se quer viva e fator de mudança. Os agentes da cultura não são bibelôs instrumentalizados para fotos de ocasião ou contagem de espingardas. Oiçam-nos como parceiros de desenvolvimento, pensem nas suas necessidades no momento de elaborar os orçamentos, sentem-nos em órgãos consultivos com visibilidade e representatividade, vão aos seus espetáculos, exposições, debates e mais eventos sem ser em período eleitoral, pensem neles nos regulamentos de taxas e na ocupação das salas municipais. Aos agentes importa interiorizar que participar não é só meter um like no Facebook, a postura critica e ativa é importante e só ela é idónea a produzir a mudança que faz a diferença, e não repetir mimetismos desajustados no tempo e divorciado das pessoas no mundo de hoje. Todos teremos de mudar um pouco, pensar Global para agir Local, exigir a democracia mas respeitá-la no nosso seio, exigir ser ouvido, mas saber ouvir, ter a humildade de Estar e não apenas de Ser e sobretudo Parecer. O futuro a todos convoca, vamos lá agarrá-lo!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Cultura: Memória, Inclusão, Mudança

A Ernst & Young realizou um estudo sobre o impacto da pandemia nas indústrias culturais europeias e concluiu ter havido em 2020 uma quebra de 31% em relação a 2019. O ano passado refletiu-se negativamente em todos os setores, sendo que nas artes de palco e na música as perdas foram de 90% e 75% respetivamente, e que será preciso uma década para a recuperação.

As artes performativas e a música sofreram quebras entre os 20% e os 40%, as artes visuais 38%, a arquitetura 32%, o setor do livro 25%, o audiovisual 22%, além da publicidade (28%) imprensa (23%) e rádio (20%).
Segundo esse estudo, o setor cultural representava em 2019 4,4% do produto interno bruto da União Europeia, com receitas de 643 mil milhões de euros, e empregava 7, 6 milhões de pessoas.
Há pois que encarar este setor como estratégico na retoma da economia no curto e médio prazo, até porque é um segmento onde a transição verde e digital mais rapidamente se pode fazer, sem perder de vista que a Cultura perpetua a Memória, é fator de Inclusão e contribui para a Mudança. E é, sobretudo, Investimento, e não Despesa.

 

 

sábado, 23 de janeiro de 2021

Dia de Reflexão

Esta legislação de 1975 que consagra o dia de reflexão é obsoleta, mas ninguém se atreve a mexer-lhe. Então quem votou antecipadamente no domingo passado, bem como nos lares, nas prisões, no estrangeiro, fez um voto irrefletido? E se há penalizações para quem faça campanha no dia de hoje, quem pode impedir cada um de escrever o que bem entender nas redes sociais ou nos blogues, reforçando até o apelo ao voto em candidatos? O caso do candidato fantasma no boletim de voto é um hino à burocracia paralisante que rege a nossa legislação eleitoral, a par de outra, como a da eleição para as autarquias locais com distribuição de mandatos por método de Hondt (resquício do tempo em que se temiam maiorias de um só partido), as dificuldades em constituir uma lista independente ( sinal da forma como se partidocracizou o sistema) e muitas outras patologias que tornam o sistema mais semântico que ligado à realidade dos dias de hoje. E pronto, calo-me, antes que chegue o fiscal da Comissão Nacional de Eleições.



domingo, 3 de janeiro de 2021

Os putos e a Júlia Florista

A morte de Carlos do Carmo tirou dos arquivos da televisão alguns documentários que só por si são frescos duma Cultura Viva, de poetas e cantores do tempo em que a Cultura saiu à rua e a Utopia foi realidade, momentos de redenção por os termos vivido, mas também de nostalgia, comparados com a boçalidade que hoje qual vento lancinante atravessa o espaço mediático, onde mais que 3 minutos de vídeo já ninguém vê e o português límpido tem de ser lido com o Google ao lado. A gramática dos sentidos vai-se dissolvendo nas ilusões de óptica do Armagedeão tecnológico que nos trouxe a esta Finisterra sem horizonte. Depois do desabafo, volto para os meus baús, de sons eternos e palavras esquecidas. Navegar é preciso, e hoje e amanhã alguns nos reencontraremos com os putos, a Júlia Florista e a mulher das castanhas. Ary e Carlos sorriem, e sobre o castelo de novo poremos o cotovelo.


 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Sombras e Património(s)

Decorreu no Centro Cultural Olga Cadaval a 17 de dezembro um pouco habitual espetáculo que, mais que convocar sentidos e emoções, reuniu o que de melhor Sintra tem e por vezes ignoramos e desvalorizamos, a pretexto da celebração dos 25 anos da Paisagem Cultural de Sintra.

Escancarando as portas tortuosas da pandemia, viveu-se na brumosa noite de Sintra um virtuoso momento de união e criatividade despoletado pelos protagonistas da dispersa comunidade cultural, em boa hora congregados para viver e pensar esta nossa terra de equívocos e contrastes. Como na lenda, em que dois irmãos se digladiam pela mesma mulher, tombando por um amor aziago, também no palco de luz e sombras várias Sintras irmãs se contemplaram, gémeas, mas distantes, sangrando, mas condenadas a estar juntas. É a Sintra do onirismo militante, com a serra ao lado, milenar guardiã e larvar berço de lendas e histórias, de mouros e cristãos, visionários reis e viajantes, aristocratas e feiticeiros, espantados com o renovado verde, em presépio aninhando casas, palácios, fontes e miradouros. E aquela outra ondem batem ritmos e matizes, surpresas e ilusões, alunos para a escola e funcionários para o serviço, senhoras para as compras e reformados para o jardim, agrilhoados contribuintes a pagar o dízimo ou utentes contando cêntimos para pagar a água, sitiada nos bairros disfuncionais, depósitos de vidas por viver, ao sonolento som do comboio pendular, das ruas sujas e das raivas contidas.

Pelo Olga Cadaval desfilou o difuso imaginário dum Éden terreal, frio no inverno e cacimbado no verão, poetizado pela subtileza poética da encenação de Paulo Cintrão e Rui Mário, dos últimos guardiões e druidas desta Sintra que teimamos em venerar e que, muitas vezes destruímos, como os dois irmãos que só puderam viver morrendo.

Utópico altar de poetas, lusitano reino dum palpável Parnasso, pelo palco sedento de Sintra se respirou a vontade de a redescobrir, rodopiando os atores como Prometeu na caverna buscando a luz da caverna impossível, mas logo ali ao lado, afinal, com as suas contradições e verdades.

Apurados os sentidos, sem os ver, alojados no camarote do Tempo, vimos e imaginámos fantasmagóricos castelos, catalépticas condessas, festas e bodos populares, à sombra da Lua argêntea, hoje de novo assolados por ameaças pestilentas.

Foi bom ver e sentir o exército de Sintra, sentinelas fazendo cultura, em generosidade se entregando ao público, no fundo, construindo Cidade e dando sinal de maioridade e de entrega. Sintra precisa dos seus artistas, de quem a sente e pressente, e bem irão os poderes se não perderem de vista este importante ativo, muitas vezes na intermitência de sobreviver, mas senhores do elixir mágico que nos liberta da modorra e recorda como é bom poder guardar e viver este legado secular. Uma noite redentora, pois, não só a repetir, mas a perpetuar.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Para quê juntar o Povo da Cultura?

Para que servem hoje as organizações não -governamentais, as associações cívicas e a dita “sociedade civil “ em geral?

Norberto Bobbio afirmou um dia que o cidadão, ao fazer a opção pela sociedade de consumo de massas e pelo Estado de bem-estar social, sabe que está a abrir mão dos controles sobre as atividades políticas e económicas por ele exercidas em favor de burocracias, privadas e públicas, e que em conjunto com a realização de eleições e a existência da burocracia, a democracia assenta exclusivamente na ideia de que a representatividade constitui a única solução possível nas democracias de grande escala, aí se esgotando a intervenção daqueles que se não assumem como agentes políticos diretos.

Assim não é, nem deve ser. Pode apontar-se Jürgen Habermas como um dos autores que melhor analisaram este alargado entendimento da democracia. A criação de esferas públicas que participem das instituições e as controlem, redesenhando a relação estabelecida com os cidadãos, possibilita a indispensável reconciliação da democracia participativa com a organização política tradicional do Estado, abrindo lugar para a participação dos atores sociais em fóruns amplos de debate e negociação, sem substituir, contudo, o papel dos representantes eleitos. A efetividade democrática estará assim reforçada com uma sociedade civil organizada e com a dinâmica que ela desenvolve. Os movimentos, as organizações e as associações podem, a partir de sua atuação revigorar os sentidos da democracia, ocupando uma arena que lhe é natural e necessária.

O padrão democrático de uma sociedade passa hoje não só pela densidade cívica da sua sociedade civil, mas também pela pluralidade de formas participativas institucionalizadas capazes de inserirem novos atores no processo decisório destas mesmas sociedades. Acredita-se, com isso, que os atores societários deverão não só abordar situações problemáticas e buscar influenciar os centros decisórios, mas também assumir funções mais ofensivas no interior do Estado.

Na linha dos estudos de Habermas, a sociedade civil pode ser compreendida como o espaço público não estatal, composto por movimentos, organizações e associações que captam os ecos dos problemas sociais na esfera privada e os transmitem para a esfera pública.

São elas as ONGs, os movimentos sociais, as comissões, grupos e entidades de direitos humanos e de defesa dos excluídos por causas económicas, de género, raça, etnia, religião, portadores de necessidades físicas especiais; associações e cooperativas, fóruns locais, regionais, nacionais e internacionais de debates e lutas por questões sociais; entidades ambientalistas e de defesa do património histórico e arquitectónico, etc.

De entre os aspetos positivos da ação da sociedade civil organizada destaca-se  potenciarem a pluralidade do discurso e o estabelecimento de diálogos construtivos, tendo-se em vista as múltiplas vozes que se querem fazer ouvir na sociedade civil; a promoção da denúncia, tornando públicas as situações de injustiça e de violação de direitos; a proteção do espaço privado, reforçando os limites do Estado e do mercado; a participação direta nos sistemas políticos e legais, estimulando-se e fortalecendo-se leis e políticas públicas que promovam os direitos humanos; a promoção da inovação social, se possível construindo e participando em redes que evitem a fragmentação e fortaleçam o uso dos recursos.

Vivemos dias de incerteza, mas também de desafio, e se certas patologias, como o desemprego ou a emigração enfraquecem o número e a pujança dos que militam em associações da sociedade civil, novas oportunidades, caldeadas pela experiência e o ânimo de novos colaboradores vão permitindo este renovar de ciclo, com novos protagonistas e novas (ou nem tanto) lutas para abraçar.

Entendo a participação na vida associativa e o papel da sociedade civil como um contributo incontornável para o pluralismo e um reforço essencial da democracia participativa, e tão independente e genuíno será esse trabalho quanto mais distanciadas as associações estiverem dos poderes político-partidários, grupos económicos ou agentes, que a coberto da participação, mais não pretendam que usá-las ou instrumentalizá-las na sua escalada para o poder, e é esse o fio da navalha em que muitas vezes as associações e a sociedade civil se vêm enredados.

Independentes dos políticos, mas não da discussão das políticas, atores e não figurantes, eis o nosso papel, ativo ou reativo, mas sobretudo, vivo. A falta de verbas e um clima pouco propício ao pluralismo nem sempre ajudam, mas só é derrotado quem desiste de lutar por dar sentido à vida em comunidade. Nem todos entendem isto, sobretudo os que encaram a participação como antecâmara para lugares e sinecuras, ou como terreno para projetos pessoais ou umbiguistas. Hoje como sempre, o caminho faz-se caminhando.