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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Maria Germana Tânger, uma aristocrata da palavra


Se fosse viva, Maria Germana Tânger completaria cem anos amanhã, 16 de janeiro. Figura da vida literária e divulgadora da palavra dos grandes poetas, tendo conhecido e privado com autores como Almada Negreiros, Sophia de Mello Breyner ou José Régio, Maria Germana Tânger deixou-nos uma marca a que só interpretes como Vilarett, Sinde Filipe, Carmen Dolores ou Paulo Renato nos habituaram.
Como divulgadora de poesia ao longos de vários anos, percorreu o país com a Pró-Arte, acompanhada por vezes pelo seu amigo, o pianista Adriano Jordão.
Foi professora de dicção no Conservatório Nacional durante 25 anos, e teve vários programas na rádio e na televisão.
Também em Sintra deixou a sua marca, tendo dirigido diversos espetáculos no Festival de Sintra, e  colaborado também com o Chão de Oliva, entre outros grupos. Chegou, aliás, a morar na mesma casa onde ficou Hans Christian Andersen quando visitou Sintra em 1866.
Vivia em Lisboa quando morreu, a 22 de janeiro de 2018, aos 98 anos de idade.


domingo, 12 de janeiro de 2020

As lágrimas não têm raça

Um estudante de Cabo Verde foi morto numa rixa em Bragança. Não se sabe se houve motivação racista, ou se foi um mero crime, onde infelizmente uma vida foi ceifada,e ontem em vários locais pelo país,e não só, centenas de pessoas reuniram-se para repudiar sobretudo a violência.
Portugueses e caboverdianos são povos irmãos, facto que na Alagamares, por exemplo, já sublinhámos por diversas vezes, visitando em tempos o Moinho da Juventude, na Cova da Moura, e o seu extraordinário trabalho cultural e social, e promovendo debates sobre a integração e o respeito pelo multiculturalismo que nos define desde o período dos Descobrimentos, quando apesar do esclavagismo decorrente do pensamento da época, muitos portugueses se uniram em casamento ou mesmo em rebelião contra o poder imperial nesses lugares de "desvairadas gentes", como lhes chamou o poeta.
Ficámos contentes, como se fosse nossa, com a classificação da morna como Património Imaterial da Humanidade, e registamos, com alegria, que nos concertos de Madonna, que hoje começam em Lisboa as batucadeiras e os sons de Cabo Verde inspiraram a cantora na sua fase "portuguesa", acolhendo os sons duma Lisboa do fado, mas também da morna e da coladeira.
A igualdade e a dignidade não têm cor de sangue, género ou religião, nem o têm as lágrimas, como sabiamente escreveu um dia António Gedeão. Não há raças superiores, só há racistas inferiores.


Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.




~
As batucadeiras durante a visita da Alagamares



sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Obrigado, mas não, obrigado


Passa a 11 de janeiro mais um aniversário do famigerado ultimato inglês de 1890, quando o primeiro-ministro Lord Salisbury enviou a Portugal um memorando exigindo a retirada das forças militares portuguesas chefiadas pelo major Serpa Pinto do território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola (atuais Zimbabwe e Zâmbia), a pretexto de um incidente entre portugueses e macololos. A zona era reclamada por Portugal, que a havia incluído no famoso Mapa Cor-de-Rosa, reclamando a partir da Conferência de Berlim uma faixa de território que ia de Angola à contracosta, ou seja, a Moçambique. A concessão de Portugal às exigências britânicas foi vista como uma humilhação nacional pelos republicanos portugueses, que acusaram o governo e o rei D. Carlos de serem os seus responsáveis. O governo caiu, e António de Serpa Pimentel foi nomeado primeiro-ministro. O Ultimato britânico inspirou a letra do hino nacional e prenunciou o princípio do fim da monarquia dos Braganças.
Depois da retirada da família real para o Brasil, em 1807, nunca mais Portugal voltou a ser uma potência relevante no concerto das nações, fosse pelos anos em que estivemos sobre proteção britânica, fosse pela subsistência de um Império apenas formal, e a irrelevância de Portugal foi notória daí em diante, fosse com a questão do ultimato inglês, a participação na I Guerra Mundial ou o isolamento internacional durante as guerras coloniais de 1961-1974. Vem isto a propósito da posição portuguesa face aos recentes acontecimentos no Médio Oriente. Por um lado, nada condenando quando a administração Trump ordenou o assassínio dum general dum estado estrangeiro com quem, pelo menos formalmente, não está em guerra. Mas por outro, condenando de forma clara,  segurando as calças do Tio Sam, a esperada retaliação do país agredido, numa medrosa tomada de posição, supostamente de solidariedade com os nossos “aliados”.
Desde o século XIX que Portugal vive do fantasma dos ultimatos, ingleses, americanos ou chineses (veja-se como fomos desconsiderados por Angola no caso de Manuel Vicente, ou nem sequer fomos convidados para os 20 anos da devolução de Macau). A realpolitik é a dos fortes, aos fracos cabe segui-los, de forma salivar.
Hoje é também o Dia Internacional do Obrigado, hábito criado recentemente nas redes sociais. Ultimatos? Não, obrigado. A não ser que sejamos obrigados… Obrigado pela atenção!



quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

9 de Janeiro, Dia de Sintra

Passam hoje 866 anos do dia em que D. Afonso Henriques deu foral a Sintra. Para quem o desconhece, aqui vai o texto, em português do século XX:



Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amen. Aprouve-me, a mim Afonso, Rei dos Portugueses, filho do Conde Henrique e da Rainha Teresa e neto do Rei Afonso o Grande, e à minha mulher, Rainha Mafalda, filha do Conde Amadeu, dar-vos, a vós que habitais em Sintra, da classe superior ou da inferior e de qualquer ordem que sejais, e a vossos filhos e descendentes, carta irrevogável, de direito, estabilidade e serviço.
Em primeiro lugar, damo-vos trinta casais com suas fazendas em Lisboa, a vós trinta povoadores que ao presente povoais aquele castelo, a fim de que os tenhais, tanto vós como vossos filhos, por direito hereditário, e por eles não pagareis qualquer tributo em Lisboa, mas apenas no vosso castelo. E se vos aprouver pôr trabalhadores nesses casais, não pagarão eles tributo algum a não ser a vós donos dos casais; e se tiverdes ou comprardes alguma herdade em qualquer terra do rei, tê-la-eis pelo foro de Sintra.
Nunca nos dareis parte em qualquer seara.
Por homicídio, violação de mulher e esterco posto na boca, pague o que tais crimes cometer 10 morabitinos, metade para o rei, metade para o queixoso.
Mas se cometer homicídio em ocasião que homens bons o vejam, / ou pague o que lhe seria imosto por crime de violação ou / pague exclusivamente o que for arbitrado pelos homens bons.
Quem assaltar a casa alheia pague 60 soldos, metade para o rei e metade para o queixoso.
Se o salteador, porém, se apresentar com dois ou mais vizinhos que fiquem por ele (comitantibus), mas nunca menos, os que a administrem a vila (illi qui castellum judicaverint) não terão parte em qualquer multa.
Quem ferir outra pessoa com lança, espada ou faca, pague cinco morabitinos, metade para o rei e metade para o queixoso.
Quem se servir de armas sem razão dentro da vila, perda-as; mas se a questão for admitida sob fiança, não se julgue o pleito pelo foro de Sintra no que respeita ao elmo e à loriga, mas apenas quanto ao escudo e à clava.
E não entre cá homem de outra terra: tal o recado que mande, tal lho mandem a ele, igual por igual; e seja a sua caução ou fiança de 1 soldo, se houver junta ou destrinça; mas só se realizará prova testemunhal ou se remeterá a questão a juízo por valor superior a 1 morabitino e abaixo de 1 morabitino nada se faça.
Quanto às demais agressões, feitas à mão, a pontapé, à pedrada e à paulada e ainda em outras queixas apresentadas, não se pague qualquer multa além das acima referidas.
Os agricultores peões que lavrarem com um só boi paguem um sexto de trigo e de cevada, e se lavrarem com dois ou mais entreguem um quarto, entre trigo e cevada, por alqueire do mercado.
E paguem um puçal de vinho a tirar de cinco quinais; e por qualquer outro trabalho (labore) nada paguem.
Quem lavrar com bois, não pague tributo por qualquer outro ganho que ganhar.
O caçador que apanhar cervo ou cerva, ou caça no género, com laçou ou armadilha, entregue meio lombo; se for porco, uma costa. O batedor de coelhos entregue uma vez por ano, três coelhos com suas peles. O colhedor de mel selvagem entregue, uma vez por ano, meio alqueire do que tiver colhido.
Paguem por ano: o sapateiro 1 soldo, o ferreiro ferre um cavalo, o mercador e o peleiro 1 soldo cada.
Aquele que viver amantizado com mulher séria, segundo verificação e julgamento dos homens bons, pague 1 morabitino.
Quando o homem maninho morra sem filhos, devem [os do concelho] entregar os seus haveres aos seus parentes e para bem da sua alma.
Se, porém, alguém for condenado por furto, o dono dos bens recebê-los-á a dobrar, sendo a sétima parte para o príncipe régio.
Quando morra qualquer homem ou mulher, nada pague a sua família e recebam todos os seus bens os seus parentes.
Quem quer que viva no concelho [Sintra] há mais de um ano poderá vender os seus bens de herdade a qualquer vizinho.
Quem não tiver bois e lavrar na sua herdade com bois alheios de outro lugar pague foro somente ao seu vizinho.
O mercador de Sintra não pagará portagem em toda a terra do rei, quer vá vender quer comprar.
Se alguém levar mandado do concelho ou for apresentar queixa ao rei seja alimentado no paço real.
Os cavaleiros devem combater uma vez por ano no exército do rei, para terem o seu estipêndio; mas o rei nada receberá deles. Se não quiserem ou não puderem sair em fossado, nada paguem. No apelido contra cristãos, saiam por maneira que possam regressar a casa no mesmo dia; porém, contra pagãos, farão tudo quanto puderem.
Quando alguém puder ter servidores, no castelo ou fora das muralhas, em herdade sua e habitando em sua casa, o tributo só lhe será pago a ele, dono da herdade.
Quando um cavaleiro morra deixando mulher, fique ela na condição de cavaleiro, enquanto se mantiver viúva.
Se o cavaleiro perder o seu cavalo, continue na sua classe durante cinco anos; depois, se não quiser ou não puder ter cavalo, passe à classe de peão.
Entretanto, se algum dos peões puder adquirir cavalo passe à classe de cavaleiro.
Os filhos de cavaleiro ou peão, enquanto se mantiverem na herdade do pai, morto ou vivo, sejam solidários: um por todos no cumprimento das obrigações comuns.
Se alguém tiver contenda com habitantes de outros lugares e, tendo pedido justiça ao tribunal, se apoderar de qualquer penhor sem o ter requerido, restitua o penhor a dobrar, embora depois venha a ser condenado.
Se qualquer indivíduo tiver lide (intencionem) com homens de fora, ou acordar julgamento com eles, verifique-se este junto às águas correntes do seu castelo, sendo os juízes que julgarem a contenda (intencionem) metade de uma parte e metade de outra.
Se alguém não comparecer no tribunal para responder à acusação que lhe façam, o saião irá penhorá-lo e tomar conta do penhor, mas nunca deverá selar-lhe a casa.
Se o juiz ou o saião for espancado ou ferido em questão pessoal e não em serviço do príncipe, a multa, nesse caso, será igual à de qualquer outro. Se o juiz for ferido em serviço do príncipe, reverterão dois soldos para o saião e um soldo para o rei.
O juiz e o saião serão escolhidos de entre os naturais, entrando e saindo por mão do conselho; e nunca vos será imposto juiz nem saião de outra terra.
O juiz receberá a décima parte do príncipe em toda e qualquer multa e o saião receberá a décima parte do juiz.
Quem ferir ou espancar outra pessoa receberá dez varadas e porá a mão por terra; e a seguir dará satisfação judicial àquele que agrediu, segundo o seu foro.
Os cavaleiro que avistem inimigos do rei, pagãos ou cristãos, dispostos a fazer mal, devem ir com mandato a Lisboa, mas não mais longe; e por outro motivo nem peões nem cavaleiros executem mandato.
Os militares ou peões que saírem para terra alheia serão coutados, e ninguém lhes lance mão para lhes fazer mal, seja qual for a causa; e quem os prender ou derrubar do cavalo pagará cem soldos e depois indemnizá-los-á com o dobro do que eles pedirem na demanda. E se os prejudicar nos seus haveres, indemnizá-los-á com o dobro, como nas demais causas.
Aquele que brigar com armas (homo firidore) e, tendo ido a tribunal não se emendar ao fim de três vezes, e bem assim o libertino (cusculator) que não se queira emendar segundo o foro de Sintra, terão as casas derribadas.
No foro de Sintra haverá seis juízes no julgamento do homicídio; em qualquer outro julgamento bastarão três homens; e nunca haverá mais do que no julgamento de homicídio.
Os cavaleiros de Sintra devem testemunhar no castelo como quaisquer cavaleiros do território do rei, do mesmo modo os peões (pedites similiter).
Os cavaleiros de Sintra que prestarem bom serviço ao seu alcaide receberão dele uma boa dádiva uma vez por ano.
O homem que quiser receber mulher com autorização de seus parentes (per mandatum de suos parentes) dê-lhe como dote seu uma saia, um par de sapatos, uma cinta, e ainda 50 soldos como garantia de futura bênção. Mas se depois se arrepender, perca tudo quanto deu, incluindo a garantia paga. E se a mulher, por si ou por seus parentes, se arrepender ou recusar, restitua tudo quanto recebeu, e depois a garantia em dinheiro.
O homicida e o foragido que se refugiarem no concelho serão admitidos, e do mesmo modo o servo, salvo se for do rei.
Os clérigos terão condição de cavaleiros. O clérigo será natural [morador arreigado] e, pelo foro de Sintra, nunca perderá a sua igreja; tê-la-á por direito hereditário e só a perderá por delitos que o obriguem a depor as ordens, mas nunca pelo poder de qualquer pessoa, nem do rei nem do bispo.
E nós, moradores do sobredito castelo, por este bom foro que o nosso rei e sua mulher nos concederam, prometemos-lhes fiel obediência para sempre, e contra os seus inimigos empenharemos as nossas pessoas e bens.
E se vier tempo em que o rei se decida a povoar os referidos arrabaldes, aqueles que então morarem no castelo receberão cada um seu casal com suas herdades.
Os clérigos de Sintra devem servir o seu bispo e terão alimento em casa dele. E o bispo dar-lhes-á uma boa dádiva uma vez por ano.
Era Mª Cª LX’ª II [nota: Segundo Alexandre Herculano, o X aspado (X’) significava XXXX. Equivalendo a Era Hispânica a menos trinta e oito anos, temos então que 1192 é aos olhos de hoje, 1154 d.C].
Eu, Afonso, por graça de Deus rei portugalense, junto com minha mulher rainha Mafalda. Corroboro + e confirmo + esta carta. E se alguém, inclusive nós próprios, quiser desfazer este contrato, indemnize (pariat) com 500 áureos e com Satanás seja excomungado.
Sejam, pois, os limites desse território (ejus terre), para lavrar e plantar: desde Almosquer, pela vertente vai pelos outeiros, servindo de limite o caminho público que passa em Cabriz até ao monte e que dessa vertente vai pelos outeiros até ao limite de Cheleiros de onde segue até ao rio em Galamares. E se mais crescerem os habitantes (gentes), cresçam para eles os herdamentos, conforme aprouver ao rei.
Testemunhas: dapífero da cúria Fernandes Captivus, Pelagius Zapata, Gunsalvus de Saussa, Petrus Fernandiz, Dominicus Valascus, Gunsalvus Rodriguiz, Menendus Moniz, Laurencius Venegas, Sancius Moniz Egeas, arcediago da Igreja de Lisboa. – Confirmo este contrato: signífero Petrus Pelagii. Príncipe de Lisboa, Alfonsus Menendi, confirmo. Príncipe de Coimbra, Ropdrigus Pelagii, príncipe de Santarém, Johannes Ramiriz, confirmo. Mestre Alberto, notário do rei, escreveu. – Seguem-se os sinais de Alfonsus, rei portugalense, rainha Mafalda e mestre Alberto.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Amizade, essa Utopia


Chamamos amigos a todos os conhecidos com quem de forma amistosa nos relacionamos, no trabalho, no café, no ginásio, no clube de futebol, ou no ativismo, e as relações desenvolvem-se na partilha por vezes esporádica e gratuita de beber juntos um copo, dizer uma piada, praguejar contra um árbitro ou contra o governo. A forma continuada no tempo como fazemos isso faz-nos chamar amigos aos parceiros desses momentos, muitas vezes empolgados pela projeção dum ego grupal ou, se calhar, pelo álcool que a todos liberta e adormece. Gregários que somos, precisamos dessa inclusão, do abraço fácil, ontem feitos de idas ao cinema ou à discoteca, das futeboladas na rua, ou dos namoriscos de liceu, hoje filtrado pelas redes sociais e pelo preço barato de um “gosto”  que a todos faz “amigo”.

Amigos, porém, são os que, porventura tendo começado por ser conhecidos nesse contexto, souberam (soubemos) atravessar a cortina invisível das nossas personas, e olhar para eles, e eles para nós, fora das máscaras sociais com que nos projetamos, inclusive para eles (e muitas vezes, para eles, sobretudo). 

A amizade tem rituais iniciáticos, mas só quem souber ver para lá da caverna das ilusões e sentir o Ser, e não o Parecer, pode, após assentar a poeira dizer: este é um Amigo!. É um processo longo, doloroso por vezes, feito de desilusões e artifícios. Porém, quando uma centelha de Luz nascida de atos, e não só de palavras ou gestos mecânicos e previsíveis aproximar e afirmar essa cumplicidade, grandes momentos, e estradas patrulhados pelo Sol, surgirão, e os verdadeiros amigos se revelarão. A esses é consentida a frase que magoa, mas faz acordar, as lágrimas de desespero que logo um abraço limpará, ou o conselho desinteressado que pode dar força para dar um passo em frente. Eis a Grande Utopia.



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Efemérides Sintrenses em 2020


Vem aí 2020, ano para assinalar algumas efemérides que a Sintra respeitam, nomeadamente o centenário da Escola Militar de Aviação na Granja do Marquês (foto) e o da morte na sua casa da Estrada da Macieira, do Dr. Gregório de Almeida, médico em Sintra desde 1891, e considerado "O Pai dos Pobres".

É em 1920 que Adriano Júlio Coelho funda a Sociedade de Turismo de Sintra, no âmbito da qual se constrói o Casino, o Bairro das Flores e fazem melhoramentos no caminho de ferro. Também neste ano morre em Londres o 2º visconde de Monserrate, Frederick Cook, deixando como herdeiro o filho, Herbert Cook. E, em 29 de agosto, nasce em Tavarede, Figueira da Foz, a poetisa de Sintra Maria Almira Medina,(foto) centenário que igualmente se espera tenha o relevo que Maria Almira merece.
Em 1920 Raul Lino constrói a famosa Casa Branca, nas Azenhas do Mar, e em Outubro é fundado o Sporting Clube de Lourel, filial nº 108 do Sporting Clube de Portugal. Já a 24 de outubro, morre o proprietário da Quinta da Regaleira, António Augusto Carvalho Monteiro,(foto) herdando a quinta o seu filho Pedro, e também este evento deverá ser um momento para revisitar a sua figura de filantropo.
Mas de memória mais recente outras datas são de assinalar em 2020: os 80 anos da morte de Carlos de Oliveira Carvalho, o “Carvalho da Pena”, da fundação do Hóquei Clube de Sintra, e da abertura da biblioteca municipal no Palácio Valenças, os 50 anos do restaurante Apeadeiro, ou os 40 da morte do cantor Max, residente no concelho.
Rumo ao futuro, Sintra não pode esquecer o seu passado, e os construtores de Memória que fazem dela uma experiência mais que um lugar.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

2019 a terminar


2019 chega ao fim com diversas nuvens no horizonte, desde a incerteza quanto à economia mundial, dado o Brexit e a tensão nas relações com a China, quer na evolução do processo democrático em muitas zonas do globo (Hong Kong, Venezuela e Bolívia, entre outras, sem falar no grande debate e nas grandes decisões adiadas sobre o combate às alterações climáticas, que os grandes poluidores teimam em procrastinar, quais avestruzes na areia.
O ano internacional foi marcado, nas Américas, pela irrupção do populista Bolsonaro no Brasil, a braços com o défice democrático, a catástrofe ambiental na Amazónia e as decisões pendulares em torno da Operação Lava Jato, que para já colocaram Lula fora da cadeia, bem como pela tensão política no Chile e na Bolívia, aqui tendo mesmo levado à demissão de Evo Morales, e o regresso do peronismo à Argentina. Mais a norte, a guerra comercial de Trump, a braços com a trapalhada dos telefonemas para a Ucrânia e o processo de impeachment, prometem cenas dos próximos capítulos em 2020, ano de eleições presidenciais.

Na Europa, o Brexit balançou entre os gritos por “order” e as piruetas de Boris Johnson, vencedor duma guerra ganha pelo cansaço, enquanto no universo comunitário uma nova equipa imposta pelo diretório franco-alemão impôs Ursula Von Der Layen como a “senhora que se segue”. Também Espanha esteve na berlinda, com as sentenças dos independentistas catalães e a sucessão de atos eleitorais inconclusivos, fato que também ocorreu em Israel, levando a soluções de compromisso instável ou mesmo a novas eleições no ano que vem.
África mantém-se pouco aberta a grandes mudanças, não obstante as eleições em Moçambique e na Guiné-Bissau terem ocorrido com transparência, segundo os observadores, e Omar El-Bashir e Boutflika tenham sido substituídos por pressão popular, no Sudão e na Argélia, o primeiro ministro etíope tenha ganho o Prémio Nobel da Paz, e Mugabe morrido, já afastado, aos 95 anos.
Produto ou não do clima que se revolta, houve ciclones em Moçambique, nas Bahamas e nos Estados Unidos, tornados nos Açores, fogos no Brasil, na Califórnia e na Austrália. Clima que pôs em destaque Greta Thunberg e as Fridays for Future, e a impotência dos Estados para afrontar o problema, como o fiasco da COP 25 o atesta.
Destaque ainda para os atentados de Christchurch, a prisão de Julian Assange, a entronização de Naruhito no Japão, o incêndio da Notre Dame, a morte de Jacques Chirac, a convulsão social em França e a vontade da Turquia de se tornar uma potência hegemónica na Ásia Central.

Entre nós, o ano fica marcado pela reeleição de António Costa, o fim da “geringonça”, a criação do Aliança, e o aparecimento de novos partidos na Assembleia da República, o caso das golas inflamáveis, as greves dos motoristas de matérias perigosas e dos enfermeiros, a saída de cena de Assunção Cristas e a continuação da atenção mediática em torno de diversos casos judiciais, uns mais políticos (Operação Marquês, Tancos) desportivos (Alcochete) ou criminais (morte de Luís Grilo). Casos como o do bebé sem rosto ou o encontrado no lixo, o aumento da violência doméstica, as atitudes de Joe Berardo no Parlamento, e o estado do Serviço Nacional de Saúde foram notícia ao longo do ano e prometem passar para 2020. De referir também o desaparecimento de Arnaldo de Matos, André Gonçalves Pereira, Alexandre Soares dos Santos e Freitas do Amaral, e de figuras de relevo da cultura portuguesa, como Sequeira Costa, Bigotte Chorão, Maria Alberta Menéres, Agustina Bessa Luís ou Pinharanda Gomes.

No plano cultural e artístico internacional, é significativo o painel dos que nos deixaram este ano: James Ingram, Agnes Varda, Bibi Ferreira, Bruno Ganz, Karl Lagerfeld, André Previn, Beth Carvalho, Doris Day, Franco Zeffirelli, João Gilberto, Rutger Hauer, Peter Fonda ou Anna Karina, num ano marcado pela ascensão da Netflix e do digital e pelas ameaças do 5G chinês. No plano nacional, assinalar a morte de Dina, Roberto Leal, Teresa Tarouca, Argentina Santos, José Mário Branco, Eduardo Nascimento, o reconhecimento dos caretos de Podence como Património Imaterial da Humanidade, o Prémio Camões atribuído a Chico Buarque, e o Pessoa a Tiago Rodrigues.

O desporto continuou a ser marcado pelo futebol e pelas polémicas: a situação explosiva do Sporting, a expulsão de Bruno de Carvalho, os casos e-toupeira, Lex, ou Rui Pinto. Mas também pela vitória do Benfica e de Bruno Lage no Campeonato Nacional, a transferência milionária de João Félix para o Atlético de Madrid, a conquista da Liga das Nações, ou os sucessos nos campeonatos do mundo de hóquei em patins e futebol de praia, a par de troféus individuais, como o do judoca Jorge Fonseca, e o o reconhecimento internacional de Jorge Jesus no Brasil. Morreram, entre outros, Nikki Lauda, Jordão e Fernando Peres.
Last, but not the least, Sintra. 2019 continuou a marcar o crescendo de Sintra como destino turístico, confirmado pelos milhões de visitantes e potenciado pelos inúmeros prémios internacionais e a visibilidade dada este ano pela estreia do filme “Frankie” de Ira Sachs, integralmente filmado entre nós. Destaque fatual para a inauguração de novos centros de saúde, a aprovação do novo Plano Diretor Municipal ou as alterações ao trânsito e regulamentação do transporte turístico. Finalmente, uma nota de saudade para assinalar três amigos que faleceram, a todos deixando saudade: o arquiteto Diogo Lino Pimentel, grande defensor do Centro Histórico e sua autenticidade; o antigo vereador António Correia de Andrade, lutador em prol da resolução de muitos problemas urbanísticos, ligados, sobretudo, com os bairros ilegais; e o anterior presidente da junta de Cacém e S. Marcos, Estrela Duarte, exemplo de trabalho e dedicação às populações por si representadas.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Morrer depois de já ter morrido



Morreu José Lopes, dizem as redes sociais, ator que o meio abandonou, e viveria de forma precária numa tenda, algures no concelho de Sintra. Confesso que nunca ouvi falar dele, nem recordo nenhuma peça, filme ou novela em que tenha entrado. Mas de tantos "amigos" indignados, nas redes sociais, vituperando a sociedade pela falta de auxílio, não haveria um só que lhe pudesse ter valido, encaminhado ou apoiado? Tanto "amigo" e já só morto há dois dias se deu por ele? Tantos amigos que tinha afinal, e contudo...

Hoje a amizade e a compaixão são só nas redes sociais, ao alcançe dum like ou emoji, mais para que outros leiam e vejam que assentes na vida vivida e de sentimentos reais. Logo já outro assunto dominará a rede, e o falecido regressará ao silêncio para onde há muito já estava desterrado. Alguns terão sido amigos de verdade, admito, sem conhecer, mas ninguém que se assuma como amigo pode deixar de se interrogar, se no Inverno duma sociedade de foguetório não há já uma vela de esperança que, tendo podido ajudar José Lopes (n)os tivesse igualmente ajudado a salvar.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O envelope verde

Um Natal sportinguista...

Na casa de Janas, desde há muitos anos que na árvore de Natal aparece pendurado um envelope verde, sem remetente ou destinatário. Tudo começou por causa do tio Álvaro. O velho e espartano solteirão detestava o Natal, não porque não estimasse a família, mas para ele massificador de emoções, fazendo da fraternidade algo a que se acrescia lucro e iva. Era avesso às compras, às comezainas pantagruélicas e aos pares de meias com ursinhos embrulhadas com fitas cintilantes, confissão desesperada de quem não tinha nada original para oferecer. Até o Pai Natal fora inventado pela Coca-Cola, alegava reticente.
Sabedora do feitio torto, naquele Natal Sofia decidiu deixar de lado as peúgas e gravatas às bolas e foi à procura de algo que ele apreciasse, e a ideia surgiu-lhe um pouco por acaso: Sérgio, o filho mais novo, jogava futebol no colégio, e em meados de Dezembro a sua equipa fora disputar um jogo contra uma de Monte Abraão. Em contraste com os equipamentos limpos e de boas marcas da equipa do Sérginho, os deles eram usados e sujos, sapatilhas esfarrapadas, um mundo cruel e real. O tio Álvaro também foi ao jogo, e sentiu claramente a diferença entre os que têm e os que anseiam, reais mundos deste mundo. Os de Monte Abraão perderam o jogo, mas com o orgulho ferido calaram a derrota, não eram as sapatilhas a única coisa esfarrapada ali.O tio Álvaro, velho adepto de futebol, e do Sporting- nasci para sofrer, dizia - no fim do jogo encolheu os ombros, taciturno:
-Os miúdos da outra equipa têm potencial, mas é pena, têm poucas condições, é por isso que muitos deles depois desistem. Apesar de torcer pelo nosso Sérgio, hoje gostava que eles tivessem ganho! -desabafou, um pouco mais expansivo que o habitual.
Nos anos sessenta, Álvaro Camacho fora treinador de juniores no Sporting, a alguns viu mesmo singrar nas divisões intermédias, amigos para o resto da vida. Ainda nessa altura, no café do Fernando, com muitos dos putos já veteranos, comentava regularmente as partidas e as carreiras difíceis. O desabafo deu a Sofia uma ideia para um presente que por certo o levaria a mudar de ideias quanto à data. Divorciada e dona duma boutique, com alguma folga financeira que permitira a casa em Janas, tinha um coração generoso. Dias mais tarde, entrou numa loja de desporto, comprou onze pares de sapatilhas e enviou-as à escola de Monte Abraão. Na véspera de Natal, discretamente, pendurou na árvore cintilante um envelope verde, com um bilhete para o tio Álvaro, a oferta das sapatilhas aos miúdos era o presente dela para ele. Surpreendido, esboçou um sorriso discreto mas luminoso e naquele ano, depois da ceia, até comeu filhoses, e bebeu vinho do Porto.
Nos anos seguintes, a árvore de Natal passou a contar com um envelope verde pelo qual um grupo de crianças ou pessoas carentes beneficiaria, sem o saber, dum tio que recriminava o Natal, virando mesmo tradição: um ano, foi um cheque a um paralímpico sem meios; outro, um perú para o lar de idosos onde estava a Ercília, antiga criada da casa, o envelope surpresa passou a ser o momento alto do Natal pelo qual o tio Álvaro passou a aguardar, ansioso, sem grandes exuberâncias, mas interiormente feliz. Religiosamente, era sempre o último presente a ser lido na noite de Natal, e com o tempo até o Sérgio e os irmãos mais novos deixaram de lado os brinquedos que já sabiam ir receber, à espera do momento em que, qual entrega dos Óscares, se revelaria o nome dos contemplados desse ano. O tempo foi passando, e as crianças crescendo, mas o inevitável envelope nunca perdeu o seu lugar e encanto.
Um dia, um cancro de pulmão fez das suas e o tio Álvaro partiu, levando o velho sportinguista que detestava o Natal, mas involuntariamente fizera vários Natais felizes.
O ano passado, ainda chorosos pela perda do carismático tio, Sofia e Sérgio, já adulto, como sempre enfeitaram a árvore junto à lareira onde pontificavam retratos de familiares sorridentes, mortos e vivos, o tio Álvaro em destaque com o seu bigode farto e o nariz achatado. No meio das bolas e luzes, e do presépio da avó Chica, de novo um envelope verde, bem ao centro. Foi Sérgio, cúmplice, quem o colocou. Antes da ceia do Natal, um segundo envelope adornava outra ramagem da árvore, e à noite, mais três se lhe juntaram. Também os irmãos mais novos de Sérgio, fãs do Bruno Fernandes, sem o dizerem, colocaram envelopes, e sorridentes, disfarçaram surpresa, alegando ser coisa do Pai Natal. À meia-noite, depois da ceia e dos presentes, todos à vez foram à árvore e abriram o envelope com a prenda que em memória do tio Álvaro iriam dar: a Joaninha, duas bonecas para o ATL da escola, em Morelinho; o Rui, uma bola de futebol para os filhos do Etelvino, desempregado e em dificuldades; até o Marquitos, na ingenuidade dos seus cinco anos ofereceu um desenho representando o tio Álvaro com um leão, treinando dois meninos a jogar futebol, para o infantário.Nos natais da casa de Janas, o espírito de Natal passou a ser o momento da homenagem àquele velho tio avesso às aparências, e a ser mais importante dar que receber.É Dezembro de Natal, na rádio toca Rudolph the Red Nosed Reindeer, e fico por aqui, que há envelopes verdes para ir comprar. Só eu sei porque não fico em casa.  
   

domingo, 1 de dezembro de 2019

Portugueses, celebremos...


O momento é solene na Quinta do Espingardeiro. Sua Alteza Real El-Rei D. Duarte II, novo rei de Portugal, recebe neste momento os conjurados que o restauraram na Coroa depois dos extraordinários eventos da última madrugada.

Assinalando-se como de costume o feriado do 1º de Dezembro, grupos monárquicos convocaram durante a noite, através do Twitter, uma manifestação contra o regime, em protesto contra a degradação das instituições e do prestígio do país, e logo pelas cinco da manhã umas dezenas de jovens, vindos do Urban e da Rua Rosa, se juntaram no Terreiro do Paço, local onde em 1908 o saudoso rei D. Carlos foi assassinado por cobardes carbonários.
Rápido alguns milhares acorreram em apoio, a captar o flash mob para o Instagram. Passando na hora, embuçado, o fadista João Braga falou à multidão, incitando contra os corruptos e vendilhões da Pátria, momento em que um grupo mais determinado apelou a que se restaurasse a monarquia no país. Inflamados, e fugindo ao controlo dos poucos policias destacados, marcharam até à fragata Corte-Real, ancorada em Alcântara, onde só um oficial de dia e alguns marinheiros permaneciam. Invadindo a embarcação, e aprisionado o tenente de serviço, fuzileiros veteranos, hoje porteiros de bares na 24 de julho, apoderaram-se do navio e do paiol, para gáudio da populaça, com nacionalistas e skinheads à mistura, conduzindo o amotinado vaso de guerra para Belém, onde via rádio, e já frente ao palácio presidencial, contactaram o Estado Maior das Forças Armadas exigindo a rendição do regime.
Enquanto grupos civis cortaram os acessos a Belém e S. Bento, controlando as saídas dos cacilheiros e do metro, os ocupantes do Corte-Real ameaçaram com fogo sobre Lisboa e o Palácio de Belém, exigindo a rendição do Presidente da República. Apanhado de surpresa, (apesar de saber sempre tudo), este encontrava-se no momento a tirar selfies no Banco Alimentar contra a Fome, e aí encontrou abrigo junto de alguns sem abrigo, tendo sido escondido por Isabel Jonet entre pacotes de esparguete e o leite em pó. Um assessor ainda tentou parlamentar com os revoltosos, mas estes, via grupo de Whatsapp, entretanto criado, mostraram-se intransigentes, e o ex-presidente acaba de ser evacuado num tuk tuk para a Base Aérea nº1, em Sintra.
Alertadas, a CNN e a CMTV enviaram já jornalistas para o terreno, Christiane Amanpour, Tânia Laranjo e Moita Flores estão a comentar em direto, garantindo a mão de Rosa Grilo e de Carlos Santos Silva na rebelião e financiamento do golpe. Em Sintra, no café da Natália, D. Duarte, vai sendo informado por telemóvel e pelos alertas da CMTV do curso dos acontecimentos, roendo as unhas e comendo travesseiros quentinhos.
Reunido no Restelo, o ministro Cravinho ameaçou com a força militar, e com um ciberataque aos revoltosos, para tanto tendo mobilizado alguns estagiários recentemente contratados a 500 euros na Web Summit, e Rui Pinto, que sabemos ter sido solto há pouco no calor dos acontecimentos por Ana Gomes e Francisco J. Marques. Ainda se tentou acionar um dos submarinos, o Tridente, mas este tem a guarnição toda em formação, e nunca fez tiro real, além de que os operacionais e a artilharia estão na República Centro Africana e os poucos que estão de serviço ainda estão de ressaca das comemorações do 25 de Novembro.
No auge da operação, os conjurados, com o apoio de um grupo de forcados e figurantes do programa do Baião, aliciados com a promessa de bilhetes para o Rock in Rio e o Europeu, invadiram o Palácio de Belém, apeando a foto do deposto presidente Marcelo e içando a bandeira monárquica. Uma proclamação ao país circula no Twitter e no Facebook, e muitos populares, arvorando bandeiras azuis e brancas, se multiplicam neste momento nas ruas da Baixa, num Black Friday patriótico. No Palácio da Independência, Mário Centeno e Eduardo Cabrita, amordaçados com golas antifumo, foram defenestrados pela populaça aos gritos, acicatados por Bruno de Carvalho, e pelo Rouxinol Faduncho, ostentando já umas reluzentes dragonas de marechal. Sem derramamento de sangue, reforçado o movimento com o apoio de ex-militares da PJM, com granadas recuperadas de Tancos, alguns amigos de Mustafá e do Macaco, e da própria Cristina Ferreira, caiu de forma abrupta a III República Portuguesa, implantada a 25 de Abril de 1974.As redes sociais estão entupidas de likes e emojis, os telemóveis saturados, e o Hino da Carta é neste momento o vídeo mais visualizado no You Tube, a par dos discursos de Greta Thunberg e do nascimento de pandas no zoo de Budapeste.
Ainda esta manhã, na casa de Sintra, D. Duarte vai receber uma delegação de conjurados que em exaltação patriótica o irão proclamar legítimo herdeiro do trono, gritando real por el-rei de Portugal. Sabe-se já que com o apoio da futura rainha, D. Isabel de Herédia, e dos infantes, Sua Majestade vai aceitar o pesado fardo que o povo português, nação de gente boa, lhe pede neste momento histórico, e em cortejo triunfal partirá ao fim da manhã para a Ajuda num UMM blindado, escoltado por motards e campinos a cavalo. Derrotado em Évoramonte, o bisavô, D. Miguel, exulta por certo, lá onde esteja.
Na sala do trono no Palácio da Ajuda as forças armadas irão prestar lealdade ao novo monarca, que, dirigindo-se ao povo duma das janelas, e envergando o manto que pertenceu a D. Carlos, irá prometer democracia e pluralismo, respeito pela tradição, e julgamentos isentos para os derrotados. Uma banda tocará o Hino da Carta, esperando-se igualmente discursos de Toy, Lili Caneças e Betty Grafstein, duquesa de Mântua.
Segundo nos fizeram saber já, as primeiras medidas do novo regime serão a extinção da Guarda Nacional Republicana, substituída pela Guarda Real, a convocação de Cortes Constituintes e a nomeação dum governo de puro sangue azul, sendo o nome mais falado para o presidir o Marquês das Antas, D. Jorge Nuno. A aclamação oficial de D. Duarte II ocorrerá na Sé de Lisboa daqui a um mês, perante o clero, a nobreza, e os parceiros sociais.
Ainda esta noite o presidente deposto, Marcelo, partirá para o exílio, encontrando-se neste momento a tirar selfies com os militares que o detiveram. Perturbado, fala sozinho, e solta frases sem sentido, como comprar leite para os sem abrigo ou ter ainda trinta e sete condecorações por entregar. O ex-primeiro ministro António Costa, que se encontrava na Índia, em visita oficial, ainda apelou à mediação de Guterres e do videoárbitro, mas reconheceu já a derrota. É impressionante o ambiente nas ruas, o povo exulta, grupos de forcados de Salvaterra, membros do grupo Stromp e até José Cid acorrem a celebrar o novo rei. Uma corrida à antiga portuguesa com pompa celebrará em breve este dia histórico, em que a velha nobreza e os marialvas estão finalmente vingados.
Refreadas as emoções, há que retomar a administração da coisa pública. Na quarta feira, o Conselho de Ministros irá reintroduzir o escudo como moeda nacional, com cotação em paridade com o bolívar venezuelano, e inúmeros dirigentes do PAN partirão para o exílio em Trinidad e Tobago, condenados a comer sandes de courato e febras durante a viagem. Ao deputado Ventura foi prometido um título de duque, e a nomeação como novo Intendente da polícia. Dois conhecidos líderes espirituais negros, Joacine e Mamadu, fugiram para um quilombo perto de Palmela, onde ainda hoje serão detidos e levados a julgamento, do Brasil voltarão exilados como Jorge Jesus, que será ministro do Desporto e feito Visconde de Flamengo.
Instalado na Pena, contemplando os seus domínios e as hordas de súbditos e turistas, D. Duarte II vai finalmente reinar no trono de Portugal. Viva o Rei! Viva o 1º de Dezembro! Antes Rei uma hora no Facebook que pretendente toda a vida!
Em breve num cinema perto de si.