sábado, 18 de julho de 2026

Novo PDM: OUVIR e não apenas AUSCULTAR

 


 Volta a estar na ordem do dia a revisão do PDM de Sintra. Documento estruturante, deve ser um  processo de negociação, debate, transparência e participação que permita aos atores e agentes económicos sociais e culturais verter para um quadro atualizado as preocupações com o desenvolvimento, analisando as patologias e virtualidades do atual PDM, na mira do concelho que se quer para os próximos anos.

 

Nessa perspetiva, e sabendo que o quadro global se centra quase sempre no binómio primário e redutor do mais ou menos betão, alguns aspetos veria com interesse aprofundar, a saber:

 

1) promover a concentração da construção nos espaços urbanos ainda não exauridos e requalificar os existentes, fruto do desordenamento e gestão casuística das décadas anteriores, mas criando em condições de justiça, equidade e proporcionalidade condições para que os proprietários diminuídos na sua possibilidade de edificar possam ver os seus terrenos potenciados e estimulados para outros fins, com o correspondente desagravamento fiscal.

 

2) promover uma carta de redes que permita integrar e orientar as intervenções dos fornecedores de serviços públicos e assim planear o seu modus operandi, bem como reforçar o papel de autoridades locais de transportes e acessibilidades.

 

3) sendo o PDM um plano de estabilidade mais duradoura, agilizar o processo da elaboração de planos de pormenor que estariam em atualização permanente, abertos à sociedade e ao escrutínio dos destinatários duma verdadeira Democracia do Território.

 

Estes e outros temas parecem basilares num momento em que novas realidades se impõe e os cidadãos são cada vez mais penalizados por decisões em que não foram ouvidos e se demonstra não terem razoabilidade senão numa ótica de nada fazer e tudo se acabar por permitir por inação.

 

Tendo em conta a necessidade de uma cultura de participação e sustentabilidade versus planeamento dogmático e redutor, há que adotar critérios de Governação do Território que deixem ao PDM um papel de estratégia e aos planos mais concretizados a ação e intervenção necessários, na ótica teleológica do Direito ao Território e não a do Direito à Construção.

 

Na sua revisão, alguns tópicos mais para discussão:

 

-Ponderar a possibilidade de elementos urbanos em espaços rurais pois o conceito de espaços delimitado é demasiado estanque e redutor, deixando de fora os direitos dos proprietários rurais, suas famílias e atividades económicas (extinguindo-as, na prática).

 

-Definir quais e o que são áreas urbanas programadas (bem como aliás outros conceitos indeterminados e semânticos geradores de duplicidade de apreciação).

 

-Conceber as áreas urbanizáveis com critérios de sustentabilidade e adequação com as infraestruturas existentes, de modo a não criar a necessidade de investimentos não programados ou desejáveis numa lógica de ir atrás em vez de ser fio condutor.

 

-Criar um capítulo para análise do mercado imobiliário e das mais valias expectáveis com as intervenções previstas e permitidas, de modo a “domesticar” a especulação imobiliária.

 

-Definir um quadro prático de promoção de habitação, tendo em conta as suas carências efetivas, bem como, nas zonas rurais, as dos agricultores e suas famílias, as segundas residências, etc, travando a política de “expulsão” que tem atirado as segundas gerações de moradores para os subúrbios e criando bolsas de terrenos que pela dificuldade de construir apenas podem ser adquiridos por segmentos endinheirados que nenhuma atividade económica multiplicadora trazem consigo.

 

-Mapear com maior rigor as zonas de risco e as dos recursos naturais (ex. mapa das zonas de incêndio, cheias, sismos, energia etc, também elas zonas sensíveis mais que as ambíguas zonas de “proteção e enquadramento”, verdadeira cartola donde tudo pode surgir ainda que tudo simule proibir)

 

-Definir a rede ferroviária e a rede de acessibilidades não só tendo o automóvel como centro mas a localização de serviços e os corredores para os empregos, escolas e equipamentos de saúde como prius.

 

-Alterar a obrigatoriedade de plano de pormenor (moroso) para a aprovação de empreendimentos turísticos, criando uma figura de plano mais simplificado com a obrigatoriedade de estudo económico favorável vinculativo. Este aspeto subjaz a um outro mais profundo que é o de saber que tipo de turismo se pretende para Sintra, de molde a acabar com o atual modelo de excursionistas de 1 dia do triângulo Pena-Vila-Cabo da Roca e potenciar a oferta de sol mar natureza e cultura, dinamizando o turismo cultural, de natureza, e de congressos.

 

-Alterar as regras do uso de solos da RAN. De que serve desafetar um solo se depois se pede 1 hectare para construir? Esta afigura-se ser uma medida classista e discriminatória exemplificativa do “território para ricos” que por vezes emana do atual PDM.

 

-Criar na área de Paisagem Cultural de Sintra, (englobando a área do concelho, do Parque Natural, POOC, Rede Natura 2000 e Centro Histórico) uma homogeneidade de gestão. Esta foi a primeira a ser criada em 1994 depois da classificação como património mundial e paradoxalmente nunca foi expressa em nenhum instrumento de gestão territorial como merecedora de uma unidade orgânica autónoma e específica.

 

-Criar um Agência Municipal de Investimentos, que promova as atividades económicas essenciais (na ótica do turismo, empregabilidade, fixação no terciário, lazer, habitação qualificada) e proponha uma política de apoios tributários que seja apelativa, passando pela prática reiterada de celebração de protocolos ou contratos programa que desenvolvam um partenariado positivo e gerador de sinergias que se manifestem de modo permanente e propulsivo e não só no momento do licenciamento ou instalação.

 

-Apostar numa cultura de participação de todos, reforçando as garantias dos particulares, a articulação com as entidades e clarificando as competências da autarquia. Se há sector onde a cultura de participação é menos visível é no urbanismo e ordenamento do território, onde muitos tecnocratas vêm em planos imperfeitos e conjunturais a Vaca Sagrada imutável e intolerante remetendo as aspirações de quem quer investir ou promover para o campo dos pecados veniais.

 

É preciso não esquecer que o PDM  será um documento para vários anos e que cabe aos cidadãos, associações ambientalistas, proprietários, autarcas e investidores em particular colaborar nas suas linhas mestras, de que os tópicos acima descritos são pontos a deixar sobre a mesa. Que devem ser efetivamente OUVIDOS e não só burocraticamente AUSCULTADOS.

 

Como escreveu Vitor Hugo, “saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo”.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Sintra e a Cultura

 


Agora que se aproximam eleições autárquicas, normal será que frenéticos candidatos se desdobrem em promessas de apoio ao associativismo cultural, fazendo juras de para eles a Cultura ser estruturante e preocupação escrita em letra grande nos programas com que se apresentarão a sufrágio. Contudo, as associações e colectividades locais sentem profundamente o quanto são o parente pobre do Orçamento e os agentes culturais muitas vezes meros adereços decorativos nas campanhas ou usados para abrilhantar as listas dos apoios.

 

Pergunta-se se o modelo associativo como o conhecemos tem futuro.

Terá, se certos atavios forem debelados de forma enérgica.

 

Baluartes de resistência e cidadania durante o período do Estado Novo, as associações irromperam no pós-Abril como cogumelos, sendo numericamente hoje mais de 40.000, distribuídas nas vertentes cultural, desportiva, sócio-profissional ou de solidariedade. Mas se ser associativista é uma forma de dizer que se quer estar activo como cidadão-actor em prol duma participação efectiva e do legítimo exercício da democracia cultural -na vertente de cultura para todos, e com todos -tal não impede que a mudança de paradigma que as novas solicitações da sociedade global e da informação impõe permitam e exijam que se ultrapassem algumas patologias.

 

A falta de formação de novos dirigentes, articulados com as realidades do tempo que passa e sem espírito corporativo, de imobilismo na preservação de lugares ou incapazes de congregar novas sinergias.

 

A eterna falta de verbas e da perspectiva de olhar para as associações sobretudo para a preservação da vertente patrimonial, das sedes e equipamentos, desenquadrada do fim último de congregar vontades, mobilizar opiniões, e gerar actos de cultura, desporto, etc

 

A prevalência do individualismo hedonístico, que desvaloriza o trabalho de equipa ou colectivo, em benefício das figuras, num estereótipo transmitido por um modelo de sociedade onde o Eu vence o Nós, mas de forma volátil, efémera e perversa.

 

A falta de investimento na inovação, e na ruptura com certas práticas, reproduzindo uma "cultura de corpo" estática, distanciada das necessidades para que muitas vezes essas associações foram criadas, facto espelhado nas múltiplas associações que apenas mobilizam para jogar o dominó ou assar o courato, mas deixaram de ter desporto activo, de produzir cultura da terra para importar cantores de moda efémeros e dissonantes, ou de se rever com o conjunto da população, num multiplicar por esse país fora de inúmeros Cinema Paraíso decadentes e ansiosos por revitalização.

 

A subsidiodependência, a suburbanidade de escolhas culturais, o divórcio com as forças mais dinâmicas das comunidades, e o espírito -há que dizê-lo- reaccionário e imobilista de certos dirigentes- fazem os pavilhões às moscas, os teatros a cair de podres, os balneários sem água quente, tudo símbolos que ninguém quer herdar ou assumir, e logo de pouca atractividade.

 

É na subversão deste estado de coisas que o associativismo, com novos modelos de financiamento, com novos e empenhados dirigentes, de braço dado com as novas tecnologias e sob o desígnio de parcerias profícuas poderá singrar. Daí a necessidade de conjugar esforços no sentido de criar elos de fortalecimento do movimento associativo cultural, em prol de mais Cultura com mais Organização e mais Capacidade e Alcance. Mas, é preciso, sobretudo, que tal decorra duma interiorização do papel social e comunitário dos agentes culturais, e da manifestação pujante e unida destes perante um Poder que deles não faça parente pobre, e ao qual, infelizmente, muitos se submetem.

 

Como escreveu André Malraux, a cultura só morre vítima da sua própria fraqueza. Há que lubrificar as mentalidades e tomar em mãos a força que, mais que qualquer arma, a Cultura e seus agentes devem ter na Sociedade, se se quer viva e factor de mudança.

 

Não se pode olhar para as gentes da cultura como bibelôs instrumentalizados para fotos de ocasião ou contagem de espingardas.Oiçam-nos como parceiros de desenvolvimento, pensem nas suas necessidades no momento de elaborar orçamentos usurários, sentem-nos num orgão verdadeiramente  consultivo com visibilidade e representatividade, oiçam-nos antes de tomarem decisões, vão aos seus espectáculos, exposições, debates e mais eventos sem ser em período eleitoral, pensem neles nos regulamentos de taxas e na ocupação das salas municipais. Aí terão cumprido parte do vosso papel cidadão.

 

A revitalização cultural de Sintra passará sempre por uma necessária criação de sinergias e parcerias entre os agentes culturais dispersos com o apoio dos poderes públicos, apostando num conceito de cidade criativa e aprofundando a conjugação de 3 linhas de força, a que Richard Florida no seu livro The Rise of the Creative Class chamou os 3 T: Talento,Tolerância e Tecnologia. Mas para quem começa por baixo, os passos a dar passam antes de mais pela mobilização dos agentes culturais e disponibilização de espaços que possam ser centros de criatividade, encontro e troca de informação, algo como os ingleses fizeram com os Fab Labs , pequenos ateliers ou estúdios onde se possam instalar associações e pequenas empresas, fomentando uma economia criativa, com equipamentos básicos, máquinas de impressão, material gráfico, nas mais diversas áreas e onde se possa promover a troca de informação. Este conceito catapultou cidades anteriormente adormecidas para novos paradigmas, como Sheffield, em Inglaterra, ou Helsínquia, com o seu Design Distrit. Em Amesterdão, o envolvimento de 9% da população em actividades e indústrias criativas ajudou ao crescimento do emprego. Na Suécia, a instalação de uma escola de artes circenses em Botkyrka, a 20 km de Estocolmo originou um centro de criatividade denominado Subtopia.

Chamar quem trabalha nas artes, ciência, arquitectura, design, moda, música, arte urbana e artesanato ou novas tecnologias e potenciar sinergias é o desafio que um espaço privilegiado como Sintra pode e deve agarrar. Junte-se o Sintra-Cinema, na Portela, por exemplo, ou instalações encerradas, como a casa de Francisco Costa, numa base de arrendamento ou protocolo, e com um mínimo de condições de funcionamento, nada de faraónico ou de fachada, promovendo-se a virtuosa junção de criadores e criativos. Afinal a Cultura também contribui para o PNB e com relevo, como um conhecido estudo de Augusto Mateus já demonstrou. 
Sintra Criativa, essa sim pode e deve ser uma Marca, projectando uma verdadeira Economia da Cultura num território onde existem condições naturais, população jovem e criativa e factores de localização que podem gerar efeitos multiplicadores e dinamismo social. Na Estefânea e noutros muitos outros locais do concelho de Sintra, criando novas e profícuas centralidades nas periferias desordenadas.

Cabe igualmente ao sector financeiro e à banca apoiar nesse âmbito pequenas empresas startup de índole cultural, que firmas gestoras de fundos de venture capital podem ajudar com conhecimentos de gestão, acesso a redes de negócios e ajuda à obtenção de competências no posicionamento estratégico para a venda de produtos criativos inovadores e atracção de colaboradores, que nesse campo poderão inclusivé criar os seus postos de trabalho. Também aqui Sintra pode vir a mexer!

 

segunda-feira, 7 de julho de 2025

O desígnio de escrever

Voltei a escrever, confesso.Escrever é fazer um eletrocardiograma da alma. mas onde, ao contrário da vida, a arritmia liberta e a normalidade mata, inimputavelmente desmascarando verdades não confessadas.

O escritor é um carteiro: uma vez vertida a alma no papel-confessionário, envia-a definitivamente ao seu destino, como se simples origami, e quem o lê, com um olhar por certo maculado por uma história de vida pessoal e única, aí captará por certo algo novo e diferente, de reconhecimento ou discordância. A obra, essa, uma vez escrita, partirá definitivamente ao seu destino, fora do controle do escritor, até aí um tirano entrincheirado, e o leitor poderá descobrir outros  mundos, estados de alma, intenções, só ele em segredo guardará o enigma das letras reveladas.

Ventríloquo do indizível, visionário de uma Cidade Utópica, capturado pelo verbo, ao escrever desfilo pela porta da alma,  Vagabundo da palavra, fingidor sem fingimento, invisível peregrino da vida, da Vida e da Luz que só cegos podem ver, pois maior cegueira não há que a da paixão.Morcego inquieto, de máscara em máscara patrulho as sombras, perdido num desfiladeiro lúdico. Posta a catarse do seminal momento de escrever, outras se sucederão, enquanto a Lua cintilar e o sangue o exigir. São de brumas os tempos, de ódio aos outros, tempos da indiferença que mata e da estupefação que congela- ainda não tínhamos afinal descido ao mais fundo que é possível descer, uma vez mais lobos dos outros homens e sanguinolenta alcateia que nenhuma inteligência artificial ou algoritmo absolverão. 

Escrever será sempre um refúgio. Em cacos, a Cidade fumega e o vulcão agita-se. Saberemos sair da Caverna?



quinta-feira, 28 de novembro de 2024

E o Sporting vai jogar...



Foi no bar Saloon, em Sintra, que em 2016 um grupo de amigos começou a juntar-se para ver jogar o Sporting, e aí, semana após semana, as devoções tornaram-se amizades e um impulso fundador apossou-se dum punhado de sportinguistas, que não mais parou, e se lançou mãos à obra, para dar à luz do dia a nova casa do Leão.


José Alvalade teve o desejo de transformar o Sporting num "grande clube, tão grande como os maiores da Europa". No desejo de abrir caminho numa altura em que o desporto em Portugal, era ainda uma atividade pioneira num estágio de desenvolvimento de características elitistas, os primeiros sportinguistas conseguiram fundar há 110 anos aquele que se tornou no Sporting Clube de Portugal, hoje com mais de 3 milhões de adeptos, 136.000 sócios e um museu com mais de 5000 taças. Internacionalmente, o Sporting venceu a Taça dos Vencedores de Taças 1963-64 e foi vice-campeão da Taça UEFA 2004-05 e campeão da Taça Ibérica em 2000.E não se ficará por aqui.

O lema do Sporting é Esforço, Dedicação, Devoção e Glória.

Esforço bem patente na singeleza e abnegação dos voluntários que desde há oito anos  celebram o Sporting nos bons e nos maus momentos, e hoje, encetando esforços, estão a abrir o seu terceiro espaço em Sintra, depois de uma atribulada vida de saltimbanco a que contingências várias, entre elas a pandemia, obrigaram.

Dedicação expressa em horas de trabalho, sofrimento e entrega por parte de uns “doidos da cabeça” que "não quiseram ficar em casa”, e assim deram horas da sua vida para honrar as cores e o legado de Travassos, Joaquim Agostinho, Damas, Yazalde, Moniz Pereira, Figo ou Carlos Lopes, ícones do Sporting e de Portugal.

Devoção nos cânticos, na fé, na crença e na paixão inexplicável que um estranho sentimento de pertença a todos convoca, despertando amizades improváveis e solidariedades sem contrapartida num imenso altar de verde e branco.

Glória por um passado honroso, um presente com planeamento e um futuro promissor, com condições financeiras, de infraestruras e talentos que garantem um Sporting moderno, pujante, vencedor e sempre na luta, hoje animado por um ciclo virtuoso de vitórias e desafios ultrapassados.

Curiosamente, também o Sporting Clube de Portugal tem origens em Sintra, mais propriamente em Belas, e no Belas Football Clube, criado em 1902 por iniciativa dos irmãos Francisco e José Maria Gavazzo. Dois anos depois, tendo o Belas Football Clube realizado um único jogo de futebol contra o Sport Lisboa, alguns dos seus sócios fundadores criaram o Campo Grande Football Clube, até que, em 13 de Abril de 1906, durante uma Assembleia Geral, José Alvalade manifestou a intenção de formar um novo clube recorrendo à ajuda financeira de seu avô, o Visconde de Alvalade, Alfredo Augusto das Neves Holtreman, que tutelou a criação do novo emblema e disponibilizou terrenos para o campo de jogos na sua própria quinta, e mais tarde no seu primeiro campo, no Sítio das Mouras, em 1907.

Com a abertura este mês do novo Núcleo de Sintra, um dinâmico grupo de adeptos e uma nova Direção liderada pelo Tiago Marques dispôs-se a levar mais longe e mais alto o espírito e garra do nosso clube, para em conjunto gritar as vitórias,  dar ânimo nas derrotas, do sofrimento fazendo força e da unidade fazendo um trunfo, uma arma e um desígnio. A Fénix renasce.

Viva o Sporting Clube de Portugal!

domingo, 24 de novembro de 2024

25 de novembro- Quando o PREC deixou de estar em curso

 


O 25 de Novembro foi mais um evento na disruptiva história do PREC que a 25 de Abril de 1974 devolveu a liberdade ao povo português, desencadeando uma série de fenómenos enquadrados por falta de vivência democrática durante 48 anos e por Portugal, num quadro de Guerra Fria, se ter tornado palco para experimentalismos ideológicos, mais ou menos utópicos, que hoje, pousada a poeira, se viu terem sido explosivos, e poderiam ter feito resvalar o processo democrático ainda em fase de consolidação.

Eu, que vivi o período, percecionei que a triunfarem os intuitos das partes político-militares em confronto, tanto poderíamos ter-nos tornado num regime populista de esquerda, caudilhista e terceiro-mundista, como um regime onde a esquerda teria sido eliminada, com retorno ao 24 de Abril. Prevaleceu o bom senso de Melo Antunes, de Costa Gomes, de Mário Soares, e também, não é de mais realçá-lo, de Ramalho Eanes, Otelo e Álvaro Cunhal, que, sabendo ler a conjuntura, puseram freio aos militares mais impulsivos, evitando o triunfo uma extrema direita vingativa.
Recordo momentos significativos em que participei: a manifestação a Pinheiro de Azevedo no Terreiro do Paço ("é só fumaça!"), passear em Lisboa à noite em pleno recolher obrigatório embrenhado no turbilhão de manifestações e contramanifestações que faziam o dia a dia de um jovem estudante do 7º ano do liceu (hoje 11º) utopica mas apaixonadamente tentando salvar o mundo, perdido na última Revolução romântica do século XX.
Sem o bom senso de todos, o regime iniciado em 25 de Abril poderia ter soçobrado ali, espicaçado que foi pela maioria silenciosa spinolista em 28 de Setembro de 1974 e pelos raids aéreos contra o RALIS em 11 de Março de 1975. Contudo, em paz e pluralismo conseguimos chegar a 2 de Abril de 1976 e à promulgação duma Constituição democrática, a eleições legislativas e presidenciais livres e à normalização democrática. Dores de crescimento.
O 25 de Novembro foi o anticlimax duma catarse de dezoito meses de explosão descontrolada, mas que não resultou,, felizmente,, no resultado que alguns militares pretendiam, e que passava por eliminação dos partidos de esquerda e imposição duma visão segmentada do país e do regime.
Mais que uma fação, triunfou a razão e o bom senso, e acima de tudo a democracia, que não sendo um sistema perfeito, é pelo menos o menos mau de todos.
Quem hoje escava num passado que não viveu, erguendo supostas bandeiras e ajustes de contas, não deve ignorar que a História é o que é, por muitas voltas que se pretenda dar para a maquilhar ou deturpar.E como se diz a propósito do futebol, na história do 25 de novembro, interessa mais como acabou do que como começou.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Balanço de 2023

Caros Amigos  Vai a Alagamares realizar o seu jantar de Natal no dia 21 de dezembro, 5ª feira, no Páteo do Garrett, Várzea de Sintra, com o menu e preços abaixo indicados, e gostariamos de contar com a vossa presença. 

Inscrições para alagamaressintra@gmail.com ou 924203824 até dia 19 de dezembro.

Há aqueles que olham para as coisas como são, e perguntam porquê. Eu sonho com coisas que nunca foram e pergunto: porque não?    Robert Kennedy

                                

2023 assinalou o retomar duma certa normalidade na vida da Alagamares. 

Retomámos  eventos de ar livre, organizámos palestras, fizemos parcerias com o Coral Allegro e a associação brasileira Olhar Pela Língua Portuguesa no Mundo, e, momento alto do ano, levámos a cabo o VII Encontro de História de Sintra no Palácio Nacional de Queluz. Em 2024 continuaremos a aprofundar o debate a reflexão em torno dos temas da cidadania, património, promoção cultural e ligação com demais instituições da sociedade civil, sobretudo.  2024 será um momento luminoso no aprofundar destes temas à luz de 50 anos de democracia, que iremos celebrar, refletindo sobre as tendências culturais e sociais deste nosso mundo desregulado e num país e num mundo que enfrentam novos desafios mantendo velhos problemas, no fundo e como sempre, a luta do Homem, animal aflito, em busca da luz no topo da Caverna. Em 2024 passarão 200 anos da morte de Lord Byron, ou 50 do desaparecimento de Raúl Lino e Ferreira de  Castro, além de centenários relevantes como os de António Ramos Rosa, Bernardo Santareno, ou Alexandre O'Neill, e a todos a Alagamares irá dar relevo, não esquecendo a atividade cívica em prol da defesa do património, literacia cultural e preocupações ambientais. Contamos com todos porque estamos cá para todos, os nossos e os outros, neste teatro de sombras onde nos desfocamos por vezes do essencial e fixamos no acessório. Sendo a marcha dos dias inexorável, há que vivê-los inscrevendo novidade, alegria, reflexão, angústia e desafio. Sempre na estrada, nunca na berma! Abaixo, pequeno resumo das nossas atividades em 2023:

21 de janeiro-Caminhada em busca de cogumelos na serra de Sintra

 

2 de fevereiro- Eleição dos órgãos sociais 2023-2026

10 de março-Jantar dos 18 anos da Alagamares

14 de abril-Sessão literária na Biblioteca de Sintra com a presença de Moita Flores e Miguel Real


6 de maio-Visita ao EVOA, em Vila Franca de Xira, em ação de sensibilização para o estudo das aves


25 e 26 de maio- VII Encontro de História de Sintra, no Palácio de Queluz


16 de julho-Roteiro cultural pedonal O Caminho das Cruzes, com visita ao Convento dos Capuchos


26 de setembro-Encontro literário com escritores da associação brasileira Olhar a Língua Portuguesa no Mundo


25 de outubro-Apresentação do livro de Marco Oliveira Borges “Entre Céu e o Inferno” na Biblioteca Municipal de Sintra.


28 de outubro- Evento histórico e musical em colaboração com o Coral Allegro na Casa da Juventude da Tapada das Mercês



25 de novembro-Evento histórico cultural em parceria com o Coral Allegro na SFR Os Aliados, orador Nuno Miguel Gaspar

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Ainda há tertúlias?

Há dias convidaram-me para uma tertúlia na qual o tema seria precisamente se ainda haveriam hoje tertúlias. Por motivos familiares não pude participar, mas não deixei de refletir sobre o tema.

Na tradição portuguesa, as tertúlias mais conhecidas tiveram o aliciante de juntar, geralmente em cafés, personalidades que, sem critério determinado, iam discorrendo sobre a política, as artes, os ódios e as paixões de estimação, sendo que algumas deixaram rasto, como a da Brasileira, do Nicola e do Café Gelo, em Lisboa, ou a do Magestic, no Porto, e onde entre um café ou um brandy se deitavam governos abaixo, se fustigavam os inimigos e os rivais ou comentavam as novidades locais ou vindas de fora. Eram catedrais do livre pensamento, vivo e vibrante, onde nasceram muitos debates, se prepararam os jornais do dia seguinte, ou, no período da ditadura, se vociferava baixinho contra o regime. Em Sintra, até há poucos anos tivemos igualmente o exemplo dos Meninos d'Avó, por inspiração do desaparecido Jorge Telles de Menezes, e onde a poesia e o debate marcavam presença regular, num registo infelizmente descontinuado.
A magia das tertúlias sempre foi não terem uma agenda ou encontro marcado, atraindo pelo prazer de frequentar o espaço, a procura de cumplicidades, ou tão só ouvir e fazer-se ouvir, num cenário marcado pelo álcool e pelo fumo, muito ao estilo do filme noir francês. Quantos poemas, epístolas ou discursos não começaram em guardanapos de papel entre duas bicas ou um copo de vinho, num ambiente dominado por um espírito peripatético, ao estilo aristotélico de refletir sem agenda ou mote condutor?
As redes sociais mataram o espírito da tertúlia, substituída pelos podcasts, a venialidade hedonista do Instagram ou Tik Tok ou a sarjeta do ex-Twitter. Hoje importam menos as convicções ou o debate esvoaçante,e mais o número de seguidores, a reflexão com número de carateres limitado e resumido a slogans e lugares comuns recolhidos na opinião publicada ou matraqueada nas televisões, onde pululam políticos travestidos de comentadores e influenciadores do fútil, efémero e banal. Por isso, sim, as tertúlias esfumaram-se, por entre a boquilha de Natália Correia, a aguardente de Pessoa ou o cigarro do Almada, e o Nós foi devorado pelo Eu, tudo se desvanecendo entre um inebriante cheiro a nicotina.