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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Cultura: Memória, Inclusão, Mudança

A Ernst & Young realizou um estudo sobre o impacto da pandemia nas indústrias culturais europeias e concluiu ter havido em 2020 uma quebra de 31% em relação a 2019. O ano passado refletiu-se negativamente em todos os setores, sendo que nas artes de palco e na música as perdas foram de 90% e 75% respetivamente, e que será preciso uma década para a recuperação.

As artes performativas e a música sofreram quebras entre os 20% e os 40%, as artes visuais 38%, a arquitetura 32%, o setor do livro 25%, o audiovisual 22%, além da publicidade (28%) imprensa (23%) e rádio (20%).
Segundo esse estudo, o setor cultural representava em 2019 4,4% do produto interno bruto da União Europeia, com receitas de 643 mil milhões de euros, e empregava 7, 6 milhões de pessoas.
Há pois que encarar este setor como estratégico na retoma da economia no curto e médio prazo, até porque é um segmento onde a transição verde e digital mais rapidamente se pode fazer, sem perder de vista que a Cultura perpetua a Memória, é fator de Inclusão e contribui para a Mudança. E é, sobretudo, Investimento, e não Despesa.

 

 

sábado, 23 de janeiro de 2021

Dia de Reflexão

Esta legislação de 1975 que consagra o dia de reflexão é obsoleta, mas ninguém se atreve a mexer-lhe. Então quem votou antecipadamente no domingo passado, bem como nos lares, nas prisões, no estrangeiro, fez um voto irrefletido? E se há penalizações para quem faça campanha no dia de hoje, quem pode impedir cada um de escrever o que bem entender nas redes sociais ou nos blogues, reforçando até o apelo ao voto em candidatos? O caso do candidato fantasma no boletim de voto é um hino à burocracia paralisante que rege a nossa legislação eleitoral, a par de outra, como a da eleição para as autarquias locais com distribuição de mandatos por método de Hondt (resquício do tempo em que se temiam maiorias de um só partido), as dificuldades em constituir uma lista independente ( sinal da forma como se partidocracizou o sistema) e muitas outras patologias que tornam o sistema mais semântico que ligado à realidade dos dias de hoje. E pronto, calo-me, antes que chegue o fiscal da Comissão Nacional de Eleições.



domingo, 3 de janeiro de 2021

Os putos e a Júlia Florista

A morte de Carlos do Carmo tirou dos arquivos da televisão alguns documentários que só por si são frescos duma Cultura Viva, de poetas e cantores do tempo em que a Cultura saiu à rua e a Utopia foi realidade, momentos de redenção por os termos vivido, mas também de nostalgia, comparados com a boçalidade que hoje qual vento lancinante atravessa o espaço mediático, onde mais que 3 minutos de vídeo já ninguém vê e o português límpido tem de ser lido com o Google ao lado. A gramática dos sentidos vai-se dissolvendo nas ilusões de óptica do Armagedeão tecnológico que nos trouxe a esta Finisterra sem horizonte. Depois do desabafo, volto para os meus baús, de sons eternos e palavras esquecidas. Navegar é preciso, e hoje e amanhã alguns nos reencontraremos com os putos, a Júlia Florista e a mulher das castanhas. Ary e Carlos sorriem, e sobre o castelo de novo poremos o cotovelo.


 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Sombras e Património(s)

Decorreu no Centro Cultural Olga Cadaval a 17 de dezembro um pouco habitual espetáculo que, mais que convocar sentidos e emoções, reuniu o que de melhor Sintra tem e por vezes ignoramos e desvalorizamos, a pretexto da celebração dos 25 anos da Paisagem Cultural de Sintra.

Escancarando as portas tortuosas da pandemia, viveu-se na brumosa noite de Sintra um virtuoso momento de união e criatividade despoletado pelos protagonistas da dispersa comunidade cultural, em boa hora congregados para viver e pensar esta nossa terra de equívocos e contrastes. Como na lenda, em que dois irmãos se digladiam pela mesma mulher, tombando por um amor aziago, também no palco de luz e sombras várias Sintras irmãs se contemplaram, gémeas, mas distantes, sangrando, mas condenadas a estar juntas. É a Sintra do onirismo militante, com a serra ao lado, milenar guardiã e larvar berço de lendas e histórias, de mouros e cristãos, visionários reis e viajantes, aristocratas e feiticeiros, espantados com o renovado verde, em presépio aninhando casas, palácios, fontes e miradouros. E aquela outra ondem batem ritmos e matizes, surpresas e ilusões, alunos para a escola e funcionários para o serviço, senhoras para as compras e reformados para o jardim, agrilhoados contribuintes a pagar o dízimo ou utentes contando cêntimos para pagar a água, sitiada nos bairros disfuncionais, depósitos de vidas por viver, ao sonolento som do comboio pendular, das ruas sujas e das raivas contidas.

Pelo Olga Cadaval desfilou o difuso imaginário dum Éden terreal, frio no inverno e cacimbado no verão, poetizado pela subtileza poética da encenação de Paulo Cintrão e Rui Mário, dos últimos guardiões e druidas desta Sintra que teimamos em venerar e que, muitas vezes destruímos, como os dois irmãos que só puderam viver morrendo.

Utópico altar de poetas, lusitano reino dum palpável Parnasso, pelo palco sedento de Sintra se respirou a vontade de a redescobrir, rodopiando os atores como Prometeu na caverna buscando a luz da caverna impossível, mas logo ali ao lado, afinal, com as suas contradições e verdades.

Apurados os sentidos, sem os ver, alojados no camarote do Tempo, vimos e imaginámos fantasmagóricos castelos, catalépticas condessas, festas e bodos populares, à sombra da Lua argêntea, hoje de novo assolados por ameaças pestilentas.

Foi bom ver e sentir o exército de Sintra, sentinelas fazendo cultura, em generosidade se entregando ao público, no fundo, construindo Cidade e dando sinal de maioridade e de entrega. Sintra precisa dos seus artistas, de quem a sente e pressente, e bem irão os poderes se não perderem de vista este importante ativo, muitas vezes na intermitência de sobreviver, mas senhores do elixir mágico que nos liberta da modorra e recorda como é bom poder guardar e viver este legado secular. Uma noite redentora, pois, não só a repetir, mas a perpetuar.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Para quê juntar o Povo da Cultura?

Para que servem hoje as organizações não -governamentais, as associações cívicas e a dita “sociedade civil “ em geral?

Norberto Bobbio afirmou um dia que o cidadão, ao fazer a opção pela sociedade de consumo de massas e pelo Estado de bem-estar social, sabe que está a abrir mão dos controles sobre as atividades políticas e económicas por ele exercidas em favor de burocracias, privadas e públicas, e que em conjunto com a realização de eleições e a existência da burocracia, a democracia assenta exclusivamente na ideia de que a representatividade constitui a única solução possível nas democracias de grande escala, aí se esgotando a intervenção daqueles que se não assumem como agentes políticos diretos.

Assim não é, nem deve ser. Pode apontar-se Jürgen Habermas como um dos autores que melhor analisaram este alargado entendimento da democracia. A criação de esferas públicas que participem das instituições e as controlem, redesenhando a relação estabelecida com os cidadãos, possibilita a indispensável reconciliação da democracia participativa com a organização política tradicional do Estado, abrindo lugar para a participação dos atores sociais em fóruns amplos de debate e negociação, sem substituir, contudo, o papel dos representantes eleitos. A efetividade democrática estará assim reforçada com uma sociedade civil organizada e com a dinâmica que ela desenvolve. Os movimentos, as organizações e as associações podem, a partir de sua atuação revigorar os sentidos da democracia, ocupando uma arena que lhe é natural e necessária.

O padrão democrático de uma sociedade passa hoje não só pela densidade cívica da sua sociedade civil, mas também pela pluralidade de formas participativas institucionalizadas capazes de inserirem novos atores no processo decisório destas mesmas sociedades. Acredita-se, com isso, que os atores societários deverão não só abordar situações problemáticas e buscar influenciar os centros decisórios, mas também assumir funções mais ofensivas no interior do Estado.

Na linha dos estudos de Habermas, a sociedade civil pode ser compreendida como o espaço público não estatal, composto por movimentos, organizações e associações que captam os ecos dos problemas sociais na esfera privada e os transmitem para a esfera pública.

São elas as ONGs, os movimentos sociais, as comissões, grupos e entidades de direitos humanos e de defesa dos excluídos por causas económicas, de género, raça, etnia, religião, portadores de necessidades físicas especiais; associações e cooperativas, fóruns locais, regionais, nacionais e internacionais de debates e lutas por questões sociais; entidades ambientalistas e de defesa do património histórico e arquitectónico, etc.

De entre os aspetos positivos da ação da sociedade civil organizada destaca-se  potenciarem a pluralidade do discurso e o estabelecimento de diálogos construtivos, tendo-se em vista as múltiplas vozes que se querem fazer ouvir na sociedade civil; a promoção da denúncia, tornando públicas as situações de injustiça e de violação de direitos; a proteção do espaço privado, reforçando os limites do Estado e do mercado; a participação direta nos sistemas políticos e legais, estimulando-se e fortalecendo-se leis e políticas públicas que promovam os direitos humanos; a promoção da inovação social, se possível construindo e participando em redes que evitem a fragmentação e fortaleçam o uso dos recursos.

Vivemos dias de incerteza, mas também de desafio, e se certas patologias, como o desemprego ou a emigração enfraquecem o número e a pujança dos que militam em associações da sociedade civil, novas oportunidades, caldeadas pela experiência e o ânimo de novos colaboradores vão permitindo este renovar de ciclo, com novos protagonistas e novas (ou nem tanto) lutas para abraçar.

Entendo a participação na vida associativa e o papel da sociedade civil como um contributo incontornável para o pluralismo e um reforço essencial da democracia participativa, e tão independente e genuíno será esse trabalho quanto mais distanciadas as associações estiverem dos poderes político-partidários, grupos económicos ou agentes, que a coberto da participação, mais não pretendam que usá-las ou instrumentalizá-las na sua escalada para o poder, e é esse o fio da navalha em que muitas vezes as associações e a sociedade civil se vêm enredados.

Independentes dos políticos, mas não da discussão das políticas, atores e não figurantes, eis o nosso papel, ativo ou reativo, mas sobretudo, vivo. A falta de verbas e um clima pouco propício ao pluralismo nem sempre ajudam, mas só é derrotado quem desiste de lutar por dar sentido à vida em comunidade. Nem todos entendem isto, sobretudo os que encaram a participação como antecâmara para lugares e sinecuras, ou como terreno para projetos pessoais ou umbiguistas. Hoje como sempre, o caminho faz-se caminhando.





quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Junte-se à Rede Cultural de Sintra

 


 

Carta de Intenções da Rede Cultural de Sintra

Sintra é um espaço multifacetado onde confluem através do testemunho de várias gerações valores consagrados e emergentes nas artes e na vida cultural, constituindo um panorama diversificado composto pelos testemunhos visuais, literários e performativos de quem no seu seio cria, produz e divulga as mais diversas formas de expressão.

É nos tempos crepusculares como o que vivemos que o seu trabalho carece de maior atenção, forjando união e convergência de atitudes e propostas no sentido de dar maior visibilidade e apoio a todos os que à sua maneira têm algo para dar e comunicar, acrescentando massa crítica e substância à vida quotidiana.

Para tanto, um grupo de indivíduos ligados à cultura em Sintra vem propor e convidar os destinatários desta Carta de Intenções, bem como todos os que se lhes queiram juntar, à criação duma Rede Cultural com o objetivo central de promover a coesão e desenvolvimento local através do acesso e dinamização das diferentes práticas culturais em Sintra, em todo o seu espectro, desde a arte tradicional à arte contemporânea.

A estrutura ora criada terá natureza informal, não visa substituir-se ou federar nenhum dos agentes culturais ou grupos aderentes, surgindocom base na colaboração voluntária dos seus integrantes, e respeitando sempre as orientações estéticas, criativas e inovadoras dos mesmos, apenas rejeitando contributos ou colaboradores que pretendam usar a Rede no sentido da propaganda político- partidária, de promoção de religiões ou confissões religiosas, ou de eventos que apelem à xenofobia, racismo, discriminação de género ou ofensa do bom nome de terceiros, sejam pessoas ou instituições, no que exceda a crítica saudável e razoável

Para alcançar esse objetivo propõe:

1) potenciar sinergias entre os diversos atores culturais presentes no território;

2) implementar estratégias de divulgação das ações culturais dos seus aderentes e desenvolver diálogos com as comunidades locais;

3) apoiar os agentes culturais em aspetos legais, logísticos, informativos e de produção.

A Rede Cultural de Sintra pretende ser um espaço de encontro livre e informal de indivíduos, tendo em vista a diversidade, interligação e diálogo intercultural, sem submissão a qualquer ideologia pré-definida (religiosa, partidária, estética ou outra), no respeito pela liberdade criativa de cada um. Consideramos que o importante é fazer e ajudar a fazer dentro de um espírito de respeito mútuo e cooperação.

Do ponto de vista prático, propomos:

- a organização de uma tertúlia de encontro regular e um evento também regular, ao vivo, que reúna artistas consagrados, artistas emergentes e as gentes de Sintra, tendo em vista a diversidade, interligação e diálogo intercultural, sem submissão a cartilhas estéticas ou pré-definidas, no respeito pela liberdade criativa de cada um;

- a construção dum site da Rede com uma listagem dos diversos criativos com toda a informação sobre o trabalho e iniciativas dessa pessoa ou grupo, bem como à sua página e links;

- a criação de uma Agenda Semanal dos Eventos em que participem os grupos e agentes culturais integrantes da Rede, no âmbito do site e das redes sociais, a ser divulgada pelas redes, comunicação social e bases de dados, bem como a possibilidade de registar em vídeo ou em streaming eventos em que participem integrantes da Rede, com criação de um canal YouTube da mesma;

- a criação de um espaço de apoio a todos os integrantes, nomeadamente no plano jurídico, técnico e artístico, a realização de workshops e ações de formação para os membros, em áreas técnicas e artísticas, a ministrar por elementos da Rede ou personalidades por si convidadas, bem como informação atualizada sobre candidaturas a apoios públicos ou privados, mecenato, crowdfunding, direito autoral, residências artísticas, etc.

A Rede Cultural de Sintra é um projeto em construção de todos e para todos. E será o que quisermos que ela seja, com o contributo de cada um. Assumindo a responsabilidade para com a comunidade em que se insere, da comunidade para com o artista e das potencialidades criativas inerentes a uma rede de amizade e entreajuda.

A adesão às ideias e propostas da Rede Cultural de Sintra é simples, e opera nesta fase pelo simples envio de um mail para redeculturaldesintra@gmail.com com indicação de nome, endereço e contacto (mail e telefónico) área cultural onde desenvolve iniciativas (a sós ou em grupo), página web (se tiver) e indicação da disponibilidade para colaborar, e em que áreas.

Já estamos a trabalhar, e queremos que se juntem a nós, seja para construir e gerir o site e a informação, para escrever e comentar a vida cultural, organizar um workshop, colóquio ou webinar bem como um evento ao vivo que regularmente demonstre o que se passa na cena local.

ADERENTES A 2 DE DEZEMBRO: António Bartolomeu, produtor, do Teatro Efémero; André Fausto, ator, músico, grupo de teatro Identidades; Vanessa Muscolino, artista plástica e poeta;Vanessa Oliveira, organizadora do Poetry Slam Sintra, divulgadora ambiental; Raquel Ochoa, escritora; Fernando Morais Gomes, jurista, Presidente da Alagamares-Associação Cultural; Raul Pinto, pianista; Ricardo Pereira, Presidente da Sociedade União Sintrense; Rita da Fonseca, da Dream Makers; Miguel Moisés, ator, Teatro Efémero; Rosa Borges Jacinto, fadista; Filomena Marona Beja, escritora; Ivo Ramad, músico; João Antoniotti, organizador de eventos; Fernanda Botelho, autora de livros sobre Botânica e Natureza; David Cabral, autor e técnico de multimédia; Joana Correia, divulgadora cultural; Thalliz Duque, divulgador cultural; Salomé Pais Matos, harpista; Tiago Pereira, teatro Lordes do Caos; Marco Oliveira Borges, historiador; Daniel André, divulgador cultural e guia de montanha; Maria Barracosa, atriz, Voando em Cynthia; Carlos Manique, historiador; Thiago Bradell, arquiteto; Luciano Reis, formador, animador sociocultural e autor; Eurico Leote, professor e encenador; Alexandre Gabriel, músico, da Zéfiro e Casa do Fauno; Luís Filipe Sarmento, escritor; Rui Zilhão, artista plástico, cartunista, músico; Nuno Miguel Gaspar, historiador; Nuno Correia Pinto, encenador, Chão de Oliva; Nuno Bastos, escritor, performer, artista plástico; Massimo Mazzeo, maestro, fundador do grupo Divino Sospiro; Susana C. Gaspar, atriz e encenadora; Cláudia Faria, atriz; Sílvia Rocha, advogada; Renato Epifânio, filósofo, diretor da revista Nova Águia; Francisco Andrade, podcast Sessão da Meia Noite; Filipa Guimarães, técnica de Relações Internacionais; Inês Franco, estudante universitária grupo de Flamencas Ai a Dança!, tunas da Faculdade de Letras e Poetry Slam; Jorge Trigo, escritor e historiador; Analua Zoé, poeta, pintora, atriz, fotógrafa; Maria José Ferreira, artista plástica; Pedro Rodil, ator; Rodrigo Figueiredo, designer gráfico; Frederico Pais, professor de música; Adriano Reis, ator, contador de histórias; Rute Moura, autarca; Bruno Caseirão, musicólogo; Vasco Nascimento, guia turístico; João Maria, street artist;Hugo Ginjas, baixista da banda rock Trotil, técnico de som free lance; Paulo Lawson, músico, vocalista da banda D. Elvira; João Reis Pedreira, músico; Filomena Barata, técnica superior do Museu Nacional de Arqueologia; Paulo Croft, músico; Sérgio Fontão, maestro; Paulo Cintrão, produtor e ator, byfurcação; Rui Cardoso, produtor radiofónico; Eduardo Sérgio, operador poliestético, músico prospectivo, performer, filósofo, professor universitário; João Aguiar, advogado; Pedro Neto, diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal; Cristina Félix, autora; Cláudia Ferreira, professora, Coletivos Cirandart; João Mais, ator; Vítor Amaro, presidente da Associação de Artesãos do Concelho de Sintra; Ofélia Cabaço, autora; Criaatividade Cósmica, Associação Cultural;Marcos Félix Gomes, ilustrador, desenhador; Célia Colimão, pintora; Andreia João, cantora; José Manuel Anes, professor universitário; Daniel Alves, produtor de vídeo;Miguel Real, escritor e ensaísta; Luís Martins Pereira, Café Saudade; Maria Rolim, Colares Editora; Rugas Associação Cultural; Clara Saraiva, presidente da Associação Portuguesa de Antropologia; Raúl Tomé, sociólogo; Sérgio Moura Afonso, ator; Cláudio Marques, conservador do Palácio da Vila de Sintra; Vanessa Henriques, realizadora; Coral Allegro, grupo coral; News Museum-Museu das Notícias de Sintra; Rui Oliveira, divulgador de História Local; Vítor Pena Viçoso, professor e ensaísta; Sandra Canelas, animadora cultural; Rui Mário, ator e encenador; Liberto Cruz, escritor; André Filipe, músico; Marina Ferraz, escritora e blogger; Ariadne Castro, animadora cultural; Nuno Antunes, fotógrafo; Filipa Vieira, designer e fotógrafa; António Luís Lopes, sociólogo; António Carlos Cortez, escritor, vencedor do Prémio Ruy Belo 2020; Paula Pedregal, atriz; Samuel Saraiva, ator; Hélder Silva, músico; Sara Vinagre, animadora cultural; Pedro Jardim de Figueiredo, cenógrafo e escultor; José Manuel Gonçalves, técnico superior, aposentado; Odete Dias, organizadora de eventos culturais; André Rabaça, produtor cultural; Cíntia Costa, licenciada em comunicação e marketing; João Rodil, historiador; Helena Tomaz, técnica superior de turismo, guia intérprete oficial e monitora de turismo cultural; Júlio Cortez Fernandes, autor do blogue "Tudo de Novo a Ocidente"; Andrea Vertessen, psicóloga; Clara Maia; Carminda Antunes, atriz; Maria João Rodil, Cultursintra; José Palma, designer.


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A Esquizofrenia da Pandemia

 

Porque Portugal é um Estado de Direito Democrático, de acordo com o artº 2º da Constituição”, no respeito e na garantia de efetivação dos direitos e liberdades fundamentais” a validade das leis e dos demais atos do Estado, das regiões autónomas, do poder local e de quaisquer outras entidades públicas depende da sua conformidade com a Constituição (nº 3 do artigo 3º), sendo tarefa fundamental do Estado garantir os direitos e liberdades fundamentais, e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático (artigo 9º, alínea b). 

Nos termos do artigo 18º os preceitos constitucionais respeitantes aos direitos, liberdades e garantias são diretamente aplicáveis e vinculam as entidades públicas e privadas, e a lei só pode restringir os direitos, liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição, devendo as restrições limitar-se ao necessário para salvaguardar outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos, não podendo os órgãos de soberania conjunta ou separadamente suspender o seu  exercício, salvo em caso de estado de sítio ou de emergência, declarados na forma prevista na Constituição, e por períodos de 15 dias, devidamente balizados e fundamentados. Igualmente, nos termos do artigo 26º, a todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à proteção legal contra quaisquer formas de discriminação. Mais claramente, dispõe o artigo 35º que a  informática não pode ser utilizada para tratamento de dados referentes a convicções filosóficas ou políticas, filiação partidária ou sindical, fé religiosa, vida privada e origem étnica, salvo mediante consentimento expresso do titular, autorização prevista por lei com garantias de não discriminação ou para processamento de dados estatísticos não individualmente identificáveis, rezando o nº 4 desse normativo: “ É proibido o acesso a dados pessoais de terceiros, salvo em casos excecionais previstos na lei”.

Com estes constrangimentos legais, há que evitar dar o passo que abriria a caixa de Pandora para uma sociedade concentracionária, condicionada, e com um leque das liberdades claramente profanado.

Sabemos que cada telemóvel que usamos há muito põe estes valores em causa: podemos ser georreferenciados, podem desenhar-nos perfis para uso comercial, político ou policial, e são recentes os casos da Cambridge Analytica e da campanha de Trump, em 2016, baseada em perfis recolhidos ilegitimamente,  ou  ainda a invasão de propostas comerciais baseadas nas escolhas que fizemos ao comprar online uma vez que fosse, ou ao consultar certos sites ou bases de dados, aí deixando uma pegada digital.

Contudo, mal ou bem, é ainda nossa opção dispormos dessa privacidade quando decorre da nossa vontade individual,  mais ou menos esclarecida, numa sociedade onde estar na montra é cada vez mais uma hedonística prova de vida e a manifestação de opinião se reduz a um like ou um emoji.

A máscara que hoje nos protege, pode porém ser um dia o açaime que nos silencia, e o telemóvel que nos liga ao mundo a torre de marfim onde nos vigiam.  

Que a pandemia não nos deixe escorregar para a esquizofrenia.



sexta-feira, 26 de junho de 2020

Os nossos amigos "bifes"

  
Estes ingleses ditos nossos mais velhos aliados nem sempre o foram. E se ajudaram em Aljubarrota também foram ajudados quando, estando Carlos II na penúria foi o casamento com Catarina de Bragança quem lhes levou o dinheiro, as possessões e até o chá que hoje bebem.

Já durante as invasões francesas, foi por causa deles que Napoleão mandou invadir Portugal, por sermos fieis à velha aliança e recusado o Bloqueio Continental, tendo eles, depois de nos "ajudar"  feito do país um protetorado até 1822, e mandado entretanto enforcar Gomes Freire de Andrade. Como ponto alto da "amizade", o famoso Ultimato com que nos humilharam após o Mapa Cor de Rosa, bem retratado na letra do nosso Hino, cuja primeira versão, indignada, era "contra os bretões, marchar, marchar."

Sejamos claros: após o desconfinamento, os países mais afetados esconderam os mortos e os infetados, e só Portugal, ingénuo, não se apercebeu de que era "the economy, stupid!". Por um lado, seriam de dispensar as hordas de proletários ingleses bêbados, de peúga branca e sandálias, que anualmente fazem do Algarve o seu quintal de férias. Por outro, não há que fugir ao facto de a british pound pesar muito na economia local, culpa de nos termos tornado um país de serviços cujo maior ativo é o sol. Venham aos menos os irlandeses e os escoceses, que também bebem muito, mas ao menos sabem cantar.


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Todos iguais, mas todos diferentes

A morte de George Floyd foi um momento triste numa América violenta e onde a discriminação racial permanece latente e pronta a manifestar-se a qualquer fósforo incendiário. Contudo, tal não pode nem deve levar a manifestações de racismo de sinal contrário, como o derrube e vandalização de monumentos parece demonstrar, ou o protesto traduzido no assalto a lojas de marca para roubos e pilhagens sem justificação.
A escravatura foi um momento negro (passe a ironia) na História do Mundo. Mas, infelizmente desde sempre existiu, porque o homem é o lobo do outro homem, seja branco, negro ou amarelo, e a dominação pelo poder, por alimentos ou honrarias sempre moveu a natureza humana. Quando o infante D. Henrique comprou os primeiros escravos na Guiné, quem lhos vendeu? Régulos locais que se digladiavam entre si e escravizavam os inimigos para seu belo prazer, ou vendê-los aos europeus como coisas, com o beneplácito da Santa Madre Igreja. Tal como a Inquisição, a escravatura é execrável, mas podemos transpor para o século XXI a mentalidade de tempos imemoriais que só no século XIX europeu se interrompeu? À violência de séculos devemos responder com o apagar do passado ou com intolerância de sinal contrário? Vamos fazer fogueiras com a "Cabana do Pai Tomás", "Chaimite" e "O Feitiço do Império", ou cuspir e derrubar as estátuas de Mouzinho de Albuquerque ou do Infante D. Henrique? Já agora, em Sintra, vamos acabar com a Casa do Preto, esse antro escravocrata, o Jardim da Preta, no Palácio da Vila, ou mudar o nome a Negrais, tenebrosa terra onde se oferecem leitões em holocausto?. Também dirigentes africanos, muitos ditos libertadores do colonialismo se tornaram ditadores e até racistas de sinal contrário, como Mobutu, Bokassa, Idi Amin ou Mugabe, torturando e perseguindo o seu povo, após se livrarem do europeu explorador.
Haja bom senso, e assuma-se a História com clarividência e sem vinganças ou ajustes de contas ,ensinando e incentivando a tolerância em todos os níveis das sociedades modernas, sem esquecer a profética frase de Brecht: "do rio que tudo arrasta dizem ser violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem". Há negros, e brancos, latinos e eslavos, árabes e ameríndios, mongóis e índios de várias proveniências, e também entre eles e no confronto com eles nem sempre vislumbrou o Outro, igual e parceiro,mas inimigo e desconfiado. Acima de tudo, está a  raça humana e é a Humanidade a nossa comunidade de Destino.


terça-feira, 2 de junho de 2020

"Deixem-nos respirar"!

O coronavírus, tal como o racismo e a violência policial contra as minorias, apesar de combatidos por muitos, propagam-se de forma viral numa sociedade com poucos e fracos anticorpos, e geralmente assintomática, apenas reagindo quando o medo e o excesso acordam os espíritos dolentes e conformados. O vírus andava aí, mas foi só quando bateu à porta da Europa que reagimos, defensivamente. O racismo e violência contra os negros ou outros grupos aí esteve sempre, mas foi só quando um telemóvel transmitiu a morte em direto que reagimos de forma grupal.
“Não consigo respirar”, foram as últimas palavras do mais recente mártir desta guerra desigual. Todos nós dificilmente poderemos respirar num mundo onde os Trump, Bolsonaro e outros títeres, alguns portugueses, também, nos apertam o pescoço com a perna, até nos derrotarem ou liquidarem. Respirar é preciso, e eliminar a perna opressiva que nos quer fazer desaparecer como seres diferentes e distintos, onde a cor da pele, o sexo ou as convicções acobertados numa farda, num posto ou numa autoridade são motivo para matar ou oprimir. Se nos cuidados intensivos das vítimas do Covid ventiladores são precisos, é toda uma sociedade também a precisar do ventilador da tolerância, da justiça e da equidade. Deixem-nos respirar!