Dia 27 de Setembro, 17.30h, no MU.SA, Sintra, debate sobre integração de refugiados e imigrantes. Com Teresa Tito de Morais, do Conselho Português dos Refugiados, Mamaduh Bah, da SOS Racismo, e Ana Couto, da Câmara Municipal de Sintra. Entrada Livre.
domingo, 16 de setembro de 2018
segunda-feira, 30 de abril de 2018
Conferência- A Economia da Cultura-8 de Maio
No âmbito do Ano Europeu do Património Cultural, realiza-se no dia 8 de maio pelas 17h30m, promovida pela Câmara Municipal de Sintra no MU.SA-Museu das Artes de Sintra, a conferência "A Economia da Cultura" que abordará as potencialidades da cultura como motor de desenvolvimento económico, as cidades criativas e a experiência e desafios de Sintra. Oradores: Basílio Horta, presidente da CMS, Guilherme d'Oliveira Martins, coordenador do Ano Europeu do Património Cultural, Augusto Mateus, antigo governante e autor de um importante estudo sobre as industrias culturais e João Cabral, diretor executivo da StartUp Sintra. Entrada Livre.
quarta-feira, 11 de abril de 2018
22 de abril, Sintra evoca 150 anos de Viana da Motta
22 DE ABRIL 18H30M
PALÁCIO NACIONAL DE QUELUZ
CONCERTO-150 ANOS DO NASCIMENTO DE VIANA DA MOTTA
EXECUTANTE:JOÃO BETTENCOURT DA CÂMARA
ENTRADA LIVRE
SOBRE VIANA DA MOTTA
Figura incontornável da música e composição em Portugal no
séc XX foi Viana da Motta.
José Viana da Motta nasceu no dia 22 de Abril de 1868 na
Ilha de São Tomé. Com dois anos de idade veio para a Metrópole, passando a
residir em Colares (Sintra), em local assinalado, em 1971, com uma lápide da
autoria de Anjos Teixeira, no nº38 da R. da República. Os seus
dotes musicais precoces foram desde logo notados, nomeadamente pelo seu pai,
também um amante da música, que soube incitar a vocação do filho. Aos sete anos
ingressa no Conservatório e aos 13 apresentou-se pela primeira vez em concerto
no Salão da Trindade, com obras da sua autoria. O rei D. Fernando nota o seu
talento e a partir de então Viana da Motta torna-se seu protegido. Terminado o
curso do Conservatório com distinção, o rei e a Condessa d’Edla patrocinam uma
bolsa de estudo para piano na Alemanha, no Conservatório de Scharwenka. Em
1882, Vianna da Motta parte então para Berlim,e inicia uma carreira nacional e
internacional de renome.
Mas voltou sempre a estas terras de acolhimento na sua
infância e, inclusive contribuiu para o seu progresso. Reza a imprensa da época
que, não existindo rede elétrica pública em Galamares e Colares, Viana da Mota
realizou um concerto, gratuito, no salão de Galamares, a 15 de Setembro de 1923,
a fim de se obterem fundos para a instalação de energia elétrica em Colares,
sendo a luz para tal concerto fornecida, a título precário, pela companhia
Sintra-Atlântico, através da sua rede de tração.
A parte mais significativa da sua produção artística foi
confiada à música para piano e para canto e piano, onde musicou tanto textos
portugueses como alemães. Esta é talvez a sua música de cariz mais íntimo,
resultando nas páginas mais belas da sua criação. No entanto, a sua obra mais
simbólica é a Sinfonia "A Pátria", em Lá Maior, Op.13. Composta em
1895 e estreada dois anos mais tarde no Porto, cada um dos seus quatro
andamentos é expressão musical da obra de Camões, Os Lusíadas. Emblemática da
corrente nacionalista, fruto do Ultimato Inglês a Portugal, esta obra constitui
a primeira sinfonia bi-temática escrita por um compositor português.
SOBRE JOÃO BETTENCOURT DA CÂMARA
João Bettencourt da Câmara concluiu em 2006 com a
classificação máxima o Curso de Piano no Conservatório Nacional, ao mesmo tempo
que os estudos secundários no Colégio do Sagrado Coração (Lisboa). Em Portugal
estudou ainda com V. Viardo, H. Sá e Costa, T. Achot, Sequeira Costa, A.
Pizarro, P. Burmester, D. Bashkirov, G. Eguiazarova e A. Ciccolini. Recebeu,
entre outros, os 1ºs prémios no Concurso Cidade do Fundão (1999 e 2000) e
Concurso Maria Cristina Lino Pimentel (2001); 2º Prémio no Concurso de Piano
Florinda Santos (1998); Prémio Especial do Júri no II Concurso “Veo Veo”
Internacional da Radiotelevisão Espanhola (1999).
Deu o seu primeiro recital público aos sete anos de idade e
estreou-se como solista aos doze, executando o Concerto K. 414 de Mozart e,
poucos meses depois, o Terceiro concerto de Beethoven, com a Filarmonia das
Beiras, a que se seguiram outros com diferentes orquestras portuguesas
(Concerto de Grieg, Rhapsody in Blue de Gershwin). Obtendo sempre elevadas
classificações (“First Class Honours”), licenciou-se em 2010 com uma das
melhores classificações da história do RCM, pelo que recebeu o Sarah Mundlak
Memorial Prize For Piano, atribuído ao melhor finalista do ano. Para o
mestrado, foi novamente admitido nas mesmas escolas londrinas, escolhendo desta
feita a Guildhall School (City University), onde concluiu o curso com distinção
como aluno do pianista Martin Roscoe.
Iniciou a sua carreira internacional em 2007, com uma
digressão nos Estados Unidos da América. Em recitais e concertos em Portugal
(Casa da Música, Centro Cultural de Belém, Fundação Calouste Gulbenkian,
Fundação Eugénio de Almeida, entre outros), Inglaterra, França e Espanha,
vem-se afirmando como intérprete do grande repertório clássico (Bach, Mozart,
Beethoven), romântico (Liszt, Chopin, Brahms, Rachmaninoff) e moderno (Debussy,
Prokofieff). O seu primeiro disco comercial, consagrado a algumas das maiores obras
de Liszt, foi recentemente editado pela Numérica. Desde 2013, é docente de
Piano na Universidade de Aveiro onde se encontra a concluir o Doutoramento.
PROGRAMA
J. Vianna da Motta - Balada
Francisco de Lacerda - Levantinas
- Na Acrópole - Dança Grega
- Dos minaretes de Suleiman-Djami
- Ao crepúsculo - Dança grega
F. Liszt - Sonata em Si menor
segunda-feira, 26 de março de 2018
2 de abril, sessão evocativa de Francisco Costa
30 ANOS DO DESAPARECIMENTO DE FRANCISCO COSTA
SESSÃO EVOCATIVA
PALÁCIO VALENÇAS 2
DE ABRIL 16H. Entrada livre
Francisco Costa (1900-1988) foi um escritor genuinamente
sintrense: nasceu, casou, viveu, trabalhou e morreu em Sintra, a 2 de abril de
1988, passam este ano 30 anos. Foi muitos anos contabilista na Adega Regional
de Colares e, em 1939 transitou para a Câmara Municipal de Sintra, onde fundou
a Biblioteca e o Arquivo Municipal, no Palácio Valenças.
Foi autor de Pó, livro de poemas, em 1920, recebendo
louvores críticos de Ferreira de Castro. Posteriormente, em 1925, publicou
Verbo Austero, que colheu os favores de Fidelino de Figueiredo, crítico
literário classicista, e de Fernando Pessoa, que lhe pediu alguns poemas para a
sua revista Athena. Neste livro, é publicado o soneto Cruz Alta, inscrito no
cume da Serra da Sintra. São seus, entre outros, os romances A Garça e a
Serpente (1943) Primavera Cinzenta (1944) Revolta de Sangue (1946) e Cárcere Invisível
(1949).
Na década de 50
publicou a trilogia a que deu o título geral de Em Busca do Amor Perdido:
Acorde Imperfeito (1954) Nocturno Agitado (1955) e Cântico em Tom Maior (1955).
Em 1964, publica o romance Escândalo na Vila e em 1973 Promontório Agreste.
No plano da
história, são de sua autoria os três volumes dos Estudos Sintrenses. Em 1962
criou no palácio Valenças uma sala onde recolheu a documentação produzida pela
Administração do Concelho de Sintra, os livros de atas da Camara Municipal
produzidos desde 1794 e os forais manuelinos de Sintra e Colares atribuídos em
1514 e 1516, respetivamente. Estava dado o primeiro passo no sentido de uma
efetiva ação de recolha e tratamento sistemático da informação arquivística
então existente. Encontra-se em fase de recuperação por parte da CMS a casa
onde viveu em Sintra, projeto de Raul Lino e destinado a um Centro de
Interpretação Literário.
Assinalando os 30 anos do seu desaparecimento,
realizar-se-á uma sessão evocativa, promovida pela Câmara Municipal de Sintra,
sendo oradores Carlos Manique da Silva, historiador, Miguel Real, escritor, e
Júlio Cardoso, coordenador do Arquivo Municipal de Sintra.
Artigos sobre Francisco Costa:
Miguel Real
Artigos sobre Francisco Costa:
Miguel Real
Carlos Manique
Eugénio Montoito
sexta-feira, 9 de março de 2018
Sintra, uma terra (também) de música
Marco primordial da actividade musical em Sintra, é o Festival de Sintra, com origens em 1957 nas Primeiras Jornadas Musicais do Município de Sintra, em resultado de um esforço significativo de dinamização artístico-cultural, e marcadamente destinado à pianística, por ele tendo passado os mais reputados executantes mundiais. Nos anos sessenta alargou o seu âmbito a outras expressões artísticas, como o bailado, a música de câmara, o teatro e a ópera, tendo apenas sido interrompido entre 1974 e 1983. Distribuído pelos luxuriantes palácios e quintas de Sintra, dele foi mecenas principal Olga Maria Nicolis di Robilant Álvares Pereira de Melo, Marquesa de Cadaval, e participaram nomes como Roland Petit, Grigori Sokolov ou Artur Rubinstein.
Em 2001
a organização do Festival de Sintra passou para a responsabilidade da empresa
municipal SintraQuorum e desde 2002 passou a contar com o novo espaço de
espectáculos de Sintra, o Centro Cultural Olga Cadaval.
Tem
Sintra igualmente tradições musicais em centenárias agremiações dedicadas à
música, algumas muito antigas, como a Sociedade Filarmónica Boa União
Montelavarense, fundada em 1890, a Banda dos Bombeiros Voluntários de Colares,
em 1891 ou a Sociedade Recreativa e Musical de Almoçageme, de 1892. No dealbar
do século XIX marcaram a vida cultural sintrense a Fanfarra União Sintrense, a
Estudantina Maquieira, o Trio Paulus, que várias vezes actuou no desaparecido
Teatro Minerva, em Colares, o sol-e-dó do grupo dos 20, ou o Grupo dos 14, que
organizou diversas récitas e bailes
Em
Agosto de 1924 foi inaugurado o Casino de Sintra, iniciativa da Sociedade de
Turismo de Sintra Lda, de Adriano Júlio Coelho, projecto de Norte Júnior,
construído por Júlio da Fonseca. Durante anos espaço de lazer, ficaram célebres
as atuações do sexteto dirigido pelo concertista Francisco Benetó, da cantora
espanhola Tina de Jarque ou de Les Demos, bailarinos franceses. Marcaram a cena
musical sintrense nesse período o Orpheon de Sintra, a Sociedade União
Sintrense, a Tuna Operária de Sintra, Os Aliados e o 1º Dezembro
O Estefânea Jazz, 1935
O Estefânea Jazz, 1935
Em 19
de Março de 1941 ocorre o primeiro Baile das Camélias, em que a ainda jovem
escritora Maria Almira Medina recita “Camélias de Sintra”, e canta “várias
canções em americano…”, abrilhantando a festa o agrupamento musical Os
Caprichosos. Ainda ocorre todas as primaveras decorre este Baile, matricial na
vida cultural sintrense.
Nos
anos quarenta foi a orquestra dos "Aliados" em S. Pedro, apadrinhada
por Maria Clara, e nos anos cinquenta foram frequentes concurso das
colectividades do concelho, com espectáculo no ringue do Hóquei no Parque da
Liberdade, ou as Noites do Mambo, no Sport União Sintrense, ou do Baião, na
SUS, onde actuaram entre outros o tenor Tomé de Barros Queirós e Mimi Gaspar.
Por essa altura, fizeram furor as bandas “Os Mexicanos” de Galamares, ou a Orquestra
Royal Star, de Sintra.
No
plano da música folclórica, destaque para a Filarmónica de Pêro Pinheiro que em
1962 obteve o 2º Lugar no Festival Mundial de Bandas, em Kerkrade, na Holanda,
tendo uma recepção apoteótica à chegada.
Em 1975
é criado o Conservatório de Música de Sintra e em 1979 a orquestra de Pêro
Pinheiro, em 1987 a Orquestra Regional de Colares e em 1991 a Orquestra Ligeira
de Almoçageme, sintoma da existência de sinergias e valores misturando
elementos populares e eruditos.
Com a
inauguração em 13 de outubro de 2001 do Centro Cultural Olga Cadaval, Sintra
passa a dispor de condições ímpares para a realização de grandes eventos
musicais, ali tendo atuado o Ballet e a Ópera Nacional de Novosibirsk, a Companhia
Nacional de Bailado, Pablo Milanés, Chico César, Ivan Lins, o Ballet du Grand
Theatre de Geneve, a Companhia Nacional de Dança de Espanha, o Scottish Dance
Theatre Tito Paris, Celina Pereira, o Scapino Ballet de Roterdão, o Teatro Negro
Nacional de Praga, o Teatro Nacional e Ópera da Moldávia, o Moscow Tchaikovsky
Ballet, o Ballet Estatal Russo de Rostov, Cesária Évora,em como todos os
grandes nomes da música portuguesa. Destaque para a abertura às escolas e
conservatórios, ou os famosos concertos para bebés.
Sintra
dispõe de diversos grupos de música clássica, música popular
tradicional, orquestras, ranchos folclóricos adultos e infantis, bandas filarmónicas,
sete grupos de música erudita, grupos de música tradicional, de cantares e orquestras
escolares ,a que acrescem os
diversos grupos de hip hop, jazz, rock, música ligeira e fado. É pois também Sintra uma terra de música e onde Richard Strauss comparou a Pena ao castelo de Klingsor, do celebrado Parsifal de Wagner.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
Um conto de Natal
Alfredo
Regaleira ganhara as autárquicas de 2021 pelo Partido dos Verdadeiros
Sintrenses, formado nas redes sociais. Oriundo duma família abastada, fora
administrador de empresas municipais, vereador e suplente da distrital. Depois
da inesperada morte de João Xavier, o candidato preferido do partido, o recurso
foi o cinzento tecnocrata, eleito pela margem mínima presidente da Câmara de
Sintra, para um mandato de quatro anos.
Era uma
pessoa amarga e seca, enfiado em estatísticas, telemóveis e impessoais powerpoints. Raramente visitava as
associações ou recebia os munícipes, o Orçamento pautava-se por cortes cegos,
ferrenho adepto do fim do estado social. Os funcionários odiavam-no, mas
receavam pronunciar-se. A introdução de controlo da assiduidade através da
retina, a diminuição dos funcionários para metade, as câmaras de vigilância nos
serviços, controladas a partir da presidência, aconselhavam prudência, Ivone, a
secretária, detestava-o, sempre carrancudo, um sorriso de plástico apenas para
televisão ver, implicara até com um retrato da filha que tinha na secretária.
Familiaridades a mais, dizia, mal-humorado. Aos que lhe pediam apoio,
despachava sem contemplação, "não há
dinheiro, não sou a Santa Casa", respondia, insensível. Até um
lancinante pedido dos pais da pequena Sandra para ajudar a fazer um transplante
de medula enviara para o Querida Júlia, “as
pessoas são lamechas”, desabafava entediado, “haveriam de lançar um peditório.” Divorciado e sem filhos, morava
na Beloura com Sócrates, um labrador
ainda cachorro, e aí se isolava quando se conseguia livrar das aborrecidas
cerimónias nos infantários e lares de idosos, distribuindo beijos a crianças
ranhosas e velhas sempre a queixar-se.
Uma
noite, já tarde e de regresso a casa, passado o Ramalhão, um vulto sumido e
esbranquiçado arrastando correntes nos pés, surgiu-lhe à frente do carro.
Esfregou os olhos, alguma digestão mal feita, pensou. O vulto, translúcido,
entrou pelo vidro do carro e sentou-se no banco a seu lado:
-Boa noite Alfredo! -saudou numa voz
metalizada. Sou eu, o Mário!
Atónito,
reconhecia Mário Rabaçal, seu correligionário político e antigo administrador da empresa municipal de
educação, falecido meses antes num acidente perto dali.
-Não é possível! Mas tu não morreste? Estive
no teu funeral, c’um raio…
-Estou morto sim, Alfredo. Mas venho para
te avisar que ainda estás a tempo de emendar a mão. Os cortes no leite das
escolas, a comida estragada que servíamos nas cantinas, o desfalque na
tesouraria, tudo paguei bem caro, errando agora como uma alma penada! -e exibiu
um grilhão, pesado, parecia uma cena de thriller
americano. -Venho avisar-te que ainda
esta noite receberás três visitas, às quais deves estar muito atento.
-Mas…E antes que tivesse tempo de
concluir, o banco do lado ficou de novo vazio, eclipsando-se o vulto no éter.
Chegado
a casa, bebeu um chá de limão e foi deitar-se. Devia ter sonhado, pensou. Meia
hora não era volvida quando uma figura irradiando luz, de casaca e cartola, lhe
surgiu no quarto. Sobressaltado, pensando chamar a Policia, logo o vulto o
advertiu que não abrisse a boca.
-Boa noite Alfredo Regaleira. Eu sou a
Sintra do passado. Levanta-te e acompanha-me!
Mal
tivera tempo de reagir, e de pijama, já o vulto o levava voando nos céus de
Sintra, para logo pousarem no Palácio da Pena. Candelabros com velas
profusamente espalhados iluminavam a noite, lá dentro uma orquestra tocava no
salão grande, onde vistosas damas e dignitários envergando fardas coloridas
deslizavam dançando. Animado, o rei D. Fernando conduzia uma corada cortesã ao
som da Marcha Radetsky. Lá em baixo, na vila, carruagens passeavam dandys com casadoiras donzelas, na
estação do Larmanjat, saloios com seus jumentos esperavam novos forasteiros,
para os transportarem ao Lawrence e ao Nunes. Felicidade e harmonia reinavam.
Alfredo, absorto, admirava aquele quadro de beleza, Sintra no seu esplendor,
romântica e aristocrática. Ia interpelar o espírito, quando de novo se viu na
cama, sentado e baralhado. Foi à cozinha beber água, apaziguando o torpor em
que se achava. Minutos depois, encostada ao frigorífico, outra figura o
aguardava já, um homem de fato e óculos escuros, fumando um cigarro e com um
jornal debaixo do braço. Conformado, abordou-o:
-Suponho que sejas Sintra do presente…
O vulto
assentou com a cabeça, e de automóvel saíram para Sintra, deserta à noite. Num
lar de idosos racionava-se a luz por falta de verba, uma família de
desempregados vasculhava caixotes buscando comida, enquanto na Volta do Duche,
um jovem fazia carjacking a um
incauto turista, logo se pondo em fuga. Encolheu os ombros, suspirando, e pediu
que voltassem, esta realidade conhecia ele, mais pelos relatórios que por
experiência.
De
volta a casa, inquieto e pensativo no sofá da sala, com o labrador aos pés,
receava a terceira visita. Das traseiras, minutos depois, surgiu um jovem
desdentado, com um capuz na cabeça e dois piercings
no lábio. Olhando-o com desprezo, fez sinal que o seguisse. Acabrunhado, de
motorizada foram ver a Sintra do futuro: sem-abrigo aqueciam-se em fogueiras na
zona pedonal da Estefânea, na Vila, no lugar da Periquita, surgira uma loja
chinesa, apenas sete moradores resistiam, a igreja ruíra por falta de obras. Na
Volta do Duche, alinhavam-se contentores onde moravam famílias sem tecto depois
dos despejos por si ordenados. A pequena
Sandra morrera por falta de transplante, desesperados, os pais não haviam
conseguido o dinheiro para a operação. Parando no cemitério do Chão Frio, o
jovem dos piercings apontou-lhe uma lápide grafitada onde se lia: “Alfredo Regaleira 1970-2024”, descontraído,
um cachorro urinava-lhe em cima. Estarreceu, com suores frios.
Mal
refeito, acordou na cama, em sobressalto. Abriu os olhos, o labrador que
dormitava ergueu-se e lambeu-lhe as mãos, brincalhão. Amanhecia lá fora.
Vestiu-se
num ápice, meteu-se no carro e correu para a Câmara. Pelo caminho, sorridente,
distribuiu bons dias aos atónitos munícipes, acenando e buzinando, e parou numa
florista a comprar um bouquet para a Ivone, a quem entregou com um beijo na
mão.
-Ivone, mande chamar os pais daquela pequena,
a Sandra, desmarque todas as reuniões, e convoque o director do departamento de
assuntos sociais, é urgente. Ah, nunca lhe disse que o seu penteado é muito
charmoso?
Ivone
hesitava entre o boquiaberto e o espantado, derretendo-se dengosa, ante o
piropo. Correu a dar andamento, o homem tinha-se passado, com certeza.
Daí em
diante, as pessoas foram a prioridade de Alfredo Regaleira. Inaugurou o novo
hospital, apoiou os artistas do concelho, aboliu o controlo de assiduidade,
criou empregos. Foi reeleito duas vezes, sempre com maioria absoluta. À
cabeceira da cama, na casa da Beloura, onde agora a pequena Sandra, curada,
brinca com o labrador, está sempre um inspirador livro da autoria de Charles
Dickens…
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
V Congresso da Cidadania Lusófona
Adriano Moreira, Duarte de Bragança e Ruy Mingas são alguns dos nomes que vão marcar presença no V Congresso da Cidadania Lusófona, no Palácio Valenças, em Sintra, no próximo dia 13 de novembro, num encontro que reunirá personalidades que têm vindo a bater-se pelo reforço dos laços entre países e regiões da lusofonia.
Este congresso tem como principal finalidade agregar associações da sociedade civil de todos os países e regiões do espaço lusófono, em torno do tema “Liberdades de Circulação & e outras liberdades para o espaço lusófono”, procurando promover uma reflexão conjunta sobre a liberdade de circulação e de residência.
Pretende-se que seja uma experiência concreta de uma mesma cidadania e de uma mesma fraternidade lusófona.
O V Congresso da Cidadania Lusófona irá decorrer no Palácio Valenças (13 de novembro), e, também, no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa (14 de novembro), em parceria com a Associação Nacional de Professores de Português.
A sessão de abertura decorrerá em Sintra, pelas 15h00, com a presença do presidente da Câmara Municipal, Basílio Horta.
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Sintra, Cidade Criativa
Amarante,
Barcelos e Braga foram designadas como Cidades Criativas pela UNESCO. Braga na
categoria de Artes Mediáticas, Barcelos na categoria de Artesanato e Arte
Popular, e Amarante na categoria de Música. A Rede de Cidades Criativas da
UNESCO foi criada em 2004 para fortalecer a cooperação entre cidades que
consideram a criatividade um fator estratégico de desenvolvimento urbano
sustentável com impacto social, cultural e económico. Em Portugal havia até
aqui dois concelhos com a classificação: Óbidos, no domínio da literatura, e
Idanha-a-Nova, na música. E Sintra, porque não?
Sintra
conta com um vasto capital de heranças, recordações e aspirações de um lugar e
capital intelectual, com as ideias e potencial inovador, a diversidade pode
funcionar como factor positivo e concorrencial.
A
economia criativa é hoje em dia reconhecida como um dos sectores em crescimento
na actual economia global, por exemplo, no Reino Unido, as indústrias criativas
criam 1.9 milhões de postos de trabalho em 121,000 empreendimentos e geram 8%
do valor nacional bruto. Cinema, rádio, media digitais, música, artes visuais,
teatro, arquitectura, moda, design, etc., são áreas afins à indústria criativa.
As indústrias criativas também são notáveis pela permeabilidade entre o
económico e o social, podendo alcançar objectivos sociais e culturais, lado a
lado com as produções económicas.
Sintra
tem grandes potencialidades como espaço de literacia cultural, pois cidade é
comunicação na sua capacidade para reconhecer, descodificar e encontrar o
significado e a essência de uma cidade. Todo o conhecimento é cultural. Valorizar
a importância do subjectivo e sensorial sobre a cidade como também o
conhecimento verificável e objectivo. Promover a Literacia cultural é usar o
conhecimento cultural que implica um enfoque interdisciplinar trazendo
múltiplas visões e uma diversidade de saberes.
Sintra
pode ensinar, e nela se pode e deve aprender, e dela fazer um centro de
aprendizagem criativa. Uma cidade de aprendizagem é uma cidade inteligente que
reflecte sobre si mesma, apreende do fracasso e demonstra visão estratégica,
repelindo aquilo a que José Gil chamou a «desactivação da acção».
As
Câmaras Municipais não devem ser
programadoras de eventos culturais ad-hoc, antes devem assumir um papel
de catalisadoras e facilitadoras dos processos criativos dos diversos agentes
culturais, e a estes deve estar cometido o papel propulsor e não reativo da construção de Cidade.
A
revitalização cultural de Sintra passa pela criação de sinergias e parcerias
entre os agentes culturais dispersos apostando num critério de cidade criativa,
aprofundando a conjugação de 3 linhas de força, a que Richard Florida no seu
livro The Rise of the Creative Class chamou os 3 T:Talento,Tolerância e
Tecnologia. Mas para quem começa por baixo, os passos a dar passam não pela
proliferação de eventos culturais contratados fora, mas antes de mais, a fim de
criar um espírito grupal, pela disponibilização gratuita de espaços que possam
ser centros de criatividade, encontro e troca de informações, algo como os
ingleses fizeram com os Fab Labs, pequenas fábricas, ateliers, estúdios onde se
possam instalar associações e pequenas empresas, fomentando uma economia
criativa, com equipamento digital base, maquinas de impressão, equipamento
gráfico, nas mais diversas áreas e onde possa haver troca de informação. Este
conceito catapultou já cidades antes adormecidas para novos paradigmas, como
Sheffield, em Inglaterra, ou Helsínquia, com o seu Design Distrit. Em
Amesterdão, o envolvimento de 9% da população em actividades e indústrias
criativas ajudou ao crescimento do emprego. Na Suécia, a instalação de uma
escola de artes circenses em Botkyrka, a 20 km de Estocolmo originou um centro
de criatividade chamado Subtopia.
Chamar
quem trabalha na ciência, arquitectura, design, moda, música, tecnologias e
potenciar sinergias é o desafio que um espaço privilegiado como Sintra poderia
agarrar. Pegue-se no Sintra-Cinema, na Portela, por exemplo, ou em instalações
industriais encerradas, e com um mínimo de condições de funcionamento, nada de
faraónico ou de fachada, promova-se a junção dos criadores e criativos. Afinal
a Cultura também contribui para o PNB e com relevo, como o estudo de Augusto
Mateus elencou. Sintra Criativa, pegando nos modelos que já estão inventados,
essa sim, pode ser uma Marca, criando uma verdadeira Economia da Cultura num
território onde existem condições naturais, população jovem e criativa e
factores de localização que podem gerar efeitos multiplicadores.
Cabe
ao sector financeiro igualmente apoiar nesse âmbito empresas startups de índole
cultural, em que as firmas gestoras de fundos de venture capital podem ajudar
com conhecimentos de gestão, acesso a redes de negócios e ajuda à obtenção de
competências no posicionamento estratégico para a venda de produtores criativos
inovadores e atracção de colaboradores. Recorde-se que o Sillicon Valey é o
centro mundial de referência neste modelo. Efectivamente a par do apoio das
instituições aos criadores e criativos, essencial se torna o apoio à formação
de clusters tecnológicos, muitas vezes junto das universidades e centros
tecnológicos com altos níveis de formação. Tais clusters e tais apoios são
essenciais para estancar a fuga de cérebros, e que só apoios e um ambiente de
empreendedorismo podem reverter.
É
essencial que os criadores e criativos, depois das universidades ou de
experiências desapoiadas entrem na esfera dos negócios, assim também atraindo a
comunidade não só para a sua produção cultural como para novos nichos de
oportunidade, criando empresas startup, apoiadas por parceiros estratégicos,
como fundos de investimento, universidades ou as autarquias. Pode Sintra também
aqui vir a mexer. Uma só palavra de ordem: mexamo-nos!
terça-feira, 31 de outubro de 2017
Quatro "estórias" para o Halloween
Palmira
-Está lá?
– esfregando os olhos, António tentava
acordar- Está sim?
Já
prestes a desligar o telemóvel, uma voz respondeu do outro lado:
-Sim... António? Sou eu, o Marco.
-Marco! Que se passa, já viste que
horas são?
-António, tinhas razão. Nunca me devia ter
metido com ela…
-De que estás a falar? Metido com
quem?
-Veio buscar-me, eu sei... Está à
janela, desde que anoiteceu.
-Marco –
insistiu António, tentando manter a calma – andaste
a beber? Quem está à janela?
-Palmira…
A
ligação caiu. António levantou-se, num misto de raiva e preocupação. Não era a
primeira vez que Marco o acordava a meio da noite, mas havia algo diferente
neste telefonema, Marco parecia assustado. Pegou no telemóvel e ligou para o
amigo, mas a chamada foi parar à caixa das mensagens.
-Ah, que se lixe!
– apagou a luz do candeeiro, estava bêbado, por certo, nem sequer se iria
lembrar no dia seguinte. No entanto não conseguiu voltar a adormecer, ficou com
a sensação de que algo havia acontecido. Olhou para o despertador, 4:30h da
manhã. Se saísse de carro, chegaria à casa de Marco já dia. Isto é de loucos,
pensou enquanto se vestia. -Bolas, Marco,
se te encontro a dormir e a curá-la, vais ter de te ver comigo!
Saiu
de Colares e apontou à casa de Marco, na Vila Velha. Marco tinha-se mudado para
lá recentemente, escritor, trabalhava num livro inspirado na vida do conde de
Valenças, antigo proprietário do edifício hoje na posse da Câmara. Luís Jardim morrera há anos, para Marco era
uma interessante fonte de informações sobre Sintra em finais do século XIX.
Tentou lembrar-se do que ele disse, algo sobre alguém que teria ido
buscá-lo...Palmira. Quem seria essa Palmira? Uma familiar do conde descontente,
por certo, Marco tinha um talento especial para se meter onde não devia.
Passava
das cinco da manhã quando chegou ao casarão, com uma localização magnífica,
perto do velho Paço. A porta da frente estava aberta, empurrou-a, lá dentro,
tudo em silêncio, ninguém respondeu. Vasculhada a casa, nenhum sinal de
violência ou de arrombamento, talvez Marco nem estivesse em casa quando lhe
ligou. De qualquer forma, decidiu-se a esperá-lo, queria saber como ia o livro
e quem era a tal Palmira. O escritório tinha uma enorme janela com vista para a
serra, numa escrivaninha, aberto, estava um computador portátil e na parede um
quadro reproduzia a paisagem que se via da janela, com o Palácio Valenças
destacado a uns duzentos metros, conquanto no quadro um pequeno vulto branco
surgisse miniatural numa janela. Nem sinais de Marco. Sentou-se diante do
computador, estava aberto numa mensagem de e-mail: “Caro Marco. Seguem em anexo as cópias dos documentos que pediu. Um
abraço. Montoito ”Anexados, três documentos.
A
curiosidade começou a mordê-lo. Abriu um dos documentos, era a escritura da
compra do palácio pela Câmara, no final dos anos 30. Um outro documento
continha a cópia de um contrato de comodato entre a Câmara e dois criados do
conde, Albertino e Palmira, um casal a quem não quis deixar na rua,
garantindo-lhes morada para o resto da vida nuns anexos do palácio, com a venda
quase todo destinado à nova biblioteca. Noutro anexo, a foto de uma mulher
jovem, a sépia, tirada aí sessenta anos antes. Havia ainda uma pasta chamada
Palmira com uma série de artigos de jornal, num deles, já antigo, o recorte de
uma gazeta de Lisboa relatava a bizarra morte em Sintra de uma criada traída
por uma paixão impossível por um patrão a quem a classe social apartava e que,
em desespero, se lançara da janela da mansão, desesperando de um amor
impossível.
António
recostou-se numa cadeira, pensativo. Voltando ao computador, abriu mais um
ficheiro. Outro recorte, com uma foto do conde de Valenças, sorrindo, em baixo
uma legenda “Aristocrata vende palacete em
Sintra ”. Observou-a com atenção e virou-se para o quadro atrás de si, era
a mesma casa renascentista: janelas trabalhadas, a serra sobranceira atrás.
Luís Jardim, o conde, morrera há muito, era a inspiração de Marco para o novo livro,
muitas vezes pusera os belos jardins do Duche à disposição do povo, para
fruição e lazer.
Havia
uma foto familiar num salão com a família do conde, a um canto, uma jovem de
olhos penetrantes servia chá num bule de Limoges, uma criada, cujas feições
chamaram a atenção de António, uma Pola Negri da plebe, pensou. No verso da
foto, os nomes de todos: Luís, Adelaide, o conde da Idanha, de visita, e
Palmira, a criada do bule. Começou a abrir mais ficheiros, à procura de partes
do livro em que Marco estava a trabalhar, embrenhado já naquela história
intrigante. Eram histórias de aparições, e relatos de cenas estranhas ocorridas
no palácio, em anos recentes. E por que motivo Marco lhe falara duma tal
Palmira ao telefone? O rascunho do livro levantava suspeitas sobre esses
incidentes no Palácio Valenças, insinuando que algo misterioso na velha casa
estaria na origem de algumas mortes, aparentemente de causas naturais, a
última, a de um subdirector do Arquivo, aparentemente de ataque fulminante,
certa vez que ficara a fazer serão. Só se deu conta que o tempo passara quando
o sol começou a aparecer no horizonte. Pela janela pôde ver os raios nascendo,
e o ruído de uma charrete enferrujada, já próximo da casa. Levantou-se,
preocupado, pensando se não seria melhor chamar a polícia, o amigo continuava
desaparecido, afinal. Na parede, o quadro já não era igual, porém. A visão do
palácio Valenças continuava a mesma, mas a janela central estava agora aberta,
e atrás dum cortinado branco via-se tenuemente um vulto de mulher idosa, o
ponto branco que inicialmente vira minúsculo no quadro. Saiu da casa a correr,
e quando chegou à rua, já na Volta do Duche, descortinando a janela do palácio
aberta, atrás do grosso cortinado foi nítida a visão dum vulto branco, igual ao
do quadro em casa de Marco, segundos antes. Palmira, já velha, espreitava,
antes que o dia nascesse. Quem levaria desta vez?
Fogueiras
na noite
Vinte
e três anos e filho de pescadores da Ericeira, Raul gostava das noites de
sábado para as suas conquistas nos bares da vila, cheia de turistas e em busca
das marisqueiras. Certa noite conheceu Vanda, uma morena de cabelos anelados e
generosa de formas, pernas roliças escondidas atrás dum vestido de chita, um
sinal na testa tornava-a ainda mais interessante. Depois duma noite de copos,
entregaram-se apaixonados no areal escuro mas cúmplice. Apesar do céu carregado
de nuvens, a primeira noite foi vivida com emoção, as estrelas brilhavam e o
luar, magnético, tinha contornos prateados.
Uns
dias mais tarde, saiu com o pai e os homens para a faina da pesca, apesar de
futuro advogado, havia que ajudar a família, dali vinha o dinheiro para o
curso. No meio da pescaria, a nortada chegou de mansinho, para logo o mar ficar
encrespado com vagas de três metros. Com a borrasca, a embarcação não conseguiu
voltar ao porto e acabaram arrastados para lá de Santa Cruz, aí lançando ferro.
Extenuados, levando o barco para junto da praia e sem rede de telemóvel para
contactar a capitania, acomodaram-se num pinhal vizinho, pensando ali passar a
noite e regressar no outro dia, no barco se possível. Atento, Feliciano, um dos
pescadores, apontou uma clareira donde vinha uma luz e dirigiram-se para lá. Já
perto, começaram a escutar cantos, um refrão repetitivo de vozes estridentes e
femininas, soltando gargalhadas e palavras ininteligíveis numa língua
indecifrável. Seguindo em frente, o clarão de fogo ficou mais visível no escuro
da noite, e como por encanto, abriu-se uma clareira, onde protegidas pelo
negrume da noite, umas vinte mulheres de rostos angulados e narizes pontiagudos
e disformes dançavam envergando túnicas negras. As mãos eram nodosas,
terminando em longas unhas, o cabelo cor de galho seco. Insistente, o vento
norte sibilava, mas nada mexia na zona da clareira.
Ruidosas,
as mulheres dançavam em torno do fogo, sobre uma pedra que mais parecia uma
mesa estavam objectos de metal e pedra, relógios, fios de ouro, pares de óculos
e outras coisas, por certo pertencentes a pessoas. Abismados, Raul e os demais,
escondidos e a alguma distância, tinham agora a certeza de assistir a uma
espécie de missa negra ou sabath. Raul já lera sobre o assunto, eram frequentes
na serra de Sintra, as mulheres lidavam com objectos de pessoas a quem queriam
mal ou dominar.Na clareira, continuaram cantando sem cessar loas
ensurdecedoras, interrompidas por gritos e risos macabros enquanto ao centro um
caldeirão exalava vapor e uma delas ia remexendo com uma grossa colher de pau.
Pegando em canecas de barro e provando da mistela, gritavam excitadas a cada
gole.
A
dada altura, uma delas parou de cantar e saiu da roda, aproximando-se da moita
onde se escondiam os homens e surpreendendo-os e soltando uma gargalhada
estridente atraiu os olhos faiscantes das outras sobre eles. Parando a dança,
uma risada em uníssono assustou Raul e os companheiros, pondo-os em fuga de
volta ao barco. Elas não os seguiram mas para eles, porém, todas as bruxas da
terra estavam ali naquele momento reunidas, antes uma noite lutando contra o
vento e as ondas, que aquela cena de terror. Depois de uma noite no barco, de
manhã e com o mar mais calmo lá voltaram à Ericeira, tão depressa não
esqueceriam o que viram.
Nessa
noite Raul encontrou Vanda no Ouriço e ainda fora de si deu-lhe conta do
ocorrido. Ela ouviu, impávida, quando terminou estranhou a placidez no rosto da
namorada. Afagando-lhe a cara, e olhando-a de perto, Raul sentiu um frémito,
com aterradora certeza sentiu já haver visto aqueles olhos antes. Eram iguais
aos da bruxa que descobrira os homens no pinhal na noite anterior, avermelhados
e hipnóticos.
Não
disse nada, sentiu que não adiantaria, estava já inexoravelmente dominado.
Pegando a mão gelada de Raul, Vanda passeou-o junto ao miradouro, disfarçando
um esgar de caçadora, segurou a presa amestrada, o sinal na testa parecia
saliente agora.
A
Terra dos Lázaros
Foi
há três anos que André se decidiu a avançar com o projecto, um filme sobre a Gafaria
de S. Pedro, a mal conhecida leprosaria no Arrabalde de Sintra. Lázaros
escorraçados e errantes ali encontraram refúgio até ao século XVI, sob a
protecção do Espitral do Espírito Santo, o argumento seria fascinante. Se não
arranjasse produtor, faria uma curta. Atraíam-no os filmes grunge, Murnau e Tod
Browning, lendo nas sombras e angustias dessas fitas grandes semelhanças com o
mundo actual.
Da
pesquisa feita para o filme, chamou-lhe a atenção uma tal Mabília, leprosa que
ali morrera em 1567, tida como feiticeira e de quem se dizia ter contraído
lepra como castigo pela prática de magia que usava para seduzir os homens e depois os roubar. Morrera
deformada e no maior sofrimento, jurando vingança.
Falando
com os mais velhos de S. Pedro, André verificou que apesar do tempo decorrido,
a história ainda era lembrada, notando porém silêncios cúmplices a cada tentativa
de saber mais, havendo quem jurasse ter visto missas negras nos Capuchos
orquestradas por Mabília, enquanto velas rodeavam animais oferecidos em
sacrifício.
Por
essa altura alguns casos ocorreram reveladores de anormalidade numa terra
geralmente bucólica e pacata, surgindo notícias em tablóides relatando o
desaparecimento de diversas pessoas sem deixar pistas ou testemunhas. Um em
Ranholas, em Março, outro no Ramalhão, um mês depois, outro ainda a quem haviam
visto pela última vez na Mourisca, pouco antes da meia-noite. Vozes delirantes,
dos que habitualmente viam filmes de terror, associavam mesmo o facto à
tenebrosa Mabília, séculos após ter morrido, se bem que sempre emprestando um
ar trocista aos comentários.
Três
pessoas estavam desaparecidas, não havia pistas, uma testemunha que fosse.
André, absorvido na concepção do seu filme e desafiado pela adrenalina do
perigo, decidiu investigar por conta própria. Passadas algumas semanas,
contudo, nada descobrira. Os desaparecidos não voltaram a ser vistos e a GNR
pensava em arrumar o assunto, para ela a dispensar grandes cuidados. Até nem
eram da terra, comentavam, se calhar até tinham fugido zangados com os familiares.
Importante, eram os gangues da linha de Sintra, e fechar bares por causa do
ruído aos sábados à noite.
Uma
noite, visivelmente alterado, André irrompeu arfando e agitado no posto da GNR
de Sintra. Não dormira na noite anterior, assaltava-o uma intuição que se
adensava no seu espírito. Visivelmente fora de si, pediu ao cabo Inácio que o
acompanhasse com alguns guardas a S. Pedro, tinha a certeza de ter descoberto
algo aterrador, tendo o grupo seguido para o local onde pela sua pesquisa a
bruxa Mabília havia dado o último suspiro, uma encosta perto da igreja de S.
Lázaro. Movido por uma força estranha, André começou a escavar e arrancar as
pedras da calçada, perante o ar surpreso dos agentes, seguros de já lhes terem
estragado a noite. Estranhamente, a terra, já no enfiamento com o largo de S.
Pedro parecia mole e húmida, como se ali tivessem cavado recentemente. Perturbadores,
restos de um braço putrefacto começaram a ficar visíveis. Nessa altura, o rosto
de André transfigurou-se, e começou a gritar palavras incompreensíveis,
cabeceando possesso. Percebia agora o que se passara. Era como se um inquilino
invisível e usurpador habitasse o seu corpo, manietando-lhe os movimentos,
vexando-o como presa ocasional para lhe parasitar o espírito e assim concretizar
uma ânsia de vingança que de tempos havia que saciar. O corpo era de um dos
desaparecidos, fora André, possuído por Mabília, quem o havia morto, tal como
os outros, embora nada recordasse.
Arrancou
a camisa e desatou a gritar, descobrindo-se marioneta sem alma e capturada por
um dono invasivo do qual não se conseguia apartar, dos seus olhos chispavam os
de Mabília. Sem o saber, ao tanto querer descobrir sobre ela na pesquisa para o
filme, o seu corpo fora por si possuído, e assim se vingava séculos depois de
ter morrido numa enxerga imunda, usando André como títere impotente do seu
plano predador.
André
recupera hoje numa casa de repouso em Mértola, quebrantado, com os olhos sempre
fixos num horizonte invisível. Mabília, dizem, ainda hoje pode ser avistada em
S. Pedro em noites de lua cheia, sentada no Túmulo dos Dois Irmãos e esperando
as infelizes presas nas noites de lua cheia.
Noite
de Halloween
Fim
do verão prolongado em Sintra, e tempo dum já esperado inverno, finalmente a
natureza retomava rotinas e cheiros de finais de Outubro. Para a velha
Gracinda, médium de Galamares e por muitos levada a sério em conselhos e
mezinhas, os espíritos dos mortos do ano voltariam nessa altura, predadores dos
vivos para neles viver no ano seguinte, dissera-o à Virgínia, durante uma sessão
espírita onde por mil euros a pusera a “falar” com o defunto Inácio. Zombando
mas ainda assim cautelosos, os homens temiam sempre esses dias de Outubro,
refugiando-se na água-pé e castanhas, bem mais espirituosos que os propalados
espíritos agoirados pela velha, perita em pragas, em tempos providencial
parteira da aldeia. Chegava o Dia de Todos os Santos e o dia de fiéis defuntos,
os velhos rumariam aos cemitérios, os mais novos, retomando a tradição pediria
pão por Deus no renovado e ruidoso ritual anual.
Na
noite de 31 de Outubro, agora também recente e celebrado Halloween, Hugo e
Jaime montaram-se na motorizada a caminho duma festa na garagem da Vera, em
Cabriz, combinada com os amigos do liceu. Vestidos a preceito, de vampiro,
abóboras com velas adornavam-lhes o muro da casa, antevia-se uma noite de
copos, fria mas aquecida pelo álcool e algum “bruxedo” mais noite dentro,
depois de providenciais dentadinhas no pescoço. Estava frio e sem vivalma,
animados, tomaram o caminho do Torrado, nessa noite silencioso e perturbador.
Apenas alguns rotweilers ladravam, à
passagem, sentado atrás de Hugo, Jaime com uma capa preta acossava ainda mais
os cães inquietos, segurando as garrafas do vodka com que a festa enfim
animaria. Junto ao moinho em ruínas, a scooter
em segunda mão acusou o peso em excesso e qual burro velho “pifou”, ainda
metade do caminho não estava percorrido.
-Bolas, é preciso azar, meu, esta
treta não quer andar mais!- rosnou Hugo, os olhos pintados de
negro, mais parecia um Zorro de segunda classe, montado numa pileca cansada - acho que por hoje não vai dar mais! -
conformou-se, dando um pontapé na roda da velha motorizada.
-Fogo, meu, ganda cena! Vamos a pé,
daqui lá é pouco mais de meia hora! Amanhã a ver se o Leonel vê o que se passa!
Bora!
Encetado
o caminho a pé, ainda mandaram um SMS a avisar do atraso, nenhum dos amigos
estava de carro que os pudesse apanhar. À passagem pela casa ao abandono do
velho Vicente, um cão preto, rafeiro, saiu-lhes ao caminho. Manso, escanzelado,
ali ficara desde a morte do velho amolador três meses antes, vadiando e
ladrando aos rapazes, conhecidos de longa data:
-Tejo, anda cá!-
gritou o Jaime- vai para dentro, meu,
andas às cadelas? Vai, vai!
O
cachorro, sem dono agora, ainda os acompanhou uns metros. Em noite sem estrelas
e falhado o candeeiro já perto da Várzea, um repentino breu envolveu-os, entre
a folhagem densa e as árvores frondosas que antecediam a povoação. Ao longe,
uma luz na casa da velha Gracinda, subitamente apagada, a velha recolhia-se por
certo, no meio das suas velas e mesas pé de galo.
Um
pouco mais à frente, uma voz roufenha cantava um velho fado de Marceneiro. Era
o Seca Adegas, bêbedo como sempre, a pé para casa. Um vulto indistinto seguia-o
a poucos metros, cambaleante mas em silêncio, à primeira não vislumbraram quem
fosse, algum companheiro de copos, Seca, borracho como todos os dias, pronto a
recomeçar no café do Sérgio na manhã seguinte. Ruborizado, cantava, com voz de
cana rachada, à vista dos dois jovens mascarados, ensaiou um ar de surpresa e
empunhou a garrafa de tinto como se fosse uma espada em riste:
-Quem são vocês os quatro, homens
de Deus? Se é para roubar vêm enganados, daqui não levam nada!
-Pôe-te lá manso, ó Seca, somos nós
não nos reconheces?
O
velho ébrio cerrou os olhos e agarrou os dois pelo ombro, mudando de atitude, o
bafo a aguardente quase contagiante:
-Oi, rapaziada! Então onde é o Carnaval? Não
pagam um copo aqui ao vosso amigo? Estou com uma sede danada, quase não bebi
nada hoje…- arrastou a voz, completamente borracho
-Vai-te mas é deitar, meu!-
afastando o braço do seu ombro, Jaime procurava libertar-se do bafo e do cheiro
a bosta, não deveria tomar banho há semanas- então e esse aí quem é?
-Esse quem?-
questionou meio zonzo o velho funileiro- não
está aqui ninguém, só vocês!...-arengou
-Aquele ali, com um casaco pre…
Antes
que terminasse a conversa, um objecto contundente tombou brutalmente sobre a
cabeça de Jaime, decepando-a do corpo, deixando o resto do corpo a cair
desgovernado, o fato de vampiro jorrando sangue na estrada de macadame. Hugo
ficou gélido, Boris Karloff de ocasião disfarçado para o Halloween. Sem que o
Seca Adegas reagisse, o vulto chegou-se à frente, para zona iluminada,
boquiaberto, Hugo reconheceu o rosto desfigurado do Vicente, lívido, e coberto
de terra, segurando um machado de cortar lenha. Atónito, esfregou os olhos, o
Vicente morrera três meses antes, como podia estar ali.
Olhando
quer o vulto do Vicente quer o alheado Seca Adegas, viu chegar ladrando
contente o Tejo, a roçar-se no regressado dono. Sem dizer nada, desatou a
fugir, a capa de vampiro ondulando, embrenhando-se no mato e deixando o corpo
inerte do amigo na viela sem luz.
Ao
passar pela casa da velha Gracinda, esta estava à porta, segurando um candeeiro
a petróleo, como se já esperasse por ele. Com um riso aberto e sórdido,
apontou-o com a mão enrugada e carcomida e sentenciou:
-Acreditas agora no regresso dos
mortos? O Vicente veio buscar a sua presa. Para o ano, será o Jaime quem virá
buscar a sua! E como quem lança uma praga rematou
ameaçadora:
-Assim é, na Noite das Bruxas. Hoje
e na noite dos tempos!- e voltando para dentro apagou a
luz, desaparecendo na escuridão da casa isolada no Torrado.
Em
Cabriz, os amigos do liceu já eufóricos com a vodka preta e à luz de velas,
faziam a festa, divertidos. Vera estranhou a demora dos amigos, e comentou com
Pedro, escondido atrás dum disfarce de Scream:
-Onde estarão aqueles dois? Já
tinham tempo de cá estar, meu!
-Não te preocupes, já devem estar
com uma de caixão à cova…
Lá
fora, a serra vigiava perturbadora e a noite silenciosa escondia mais um crime
de 31 de Outubro. Alheio e brincalhão, o Tejo ladrava às cadelas no caminho do
Torrado…
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