Alfredo
Regaleira ganhara as autárquicas de 2021 pelo Partido dos Verdadeiros
Sintrenses, formado nas redes sociais. Oriundo duma família abastada, fora
administrador de empresas municipais, vereador e suplente da distrital. Depois
da inesperada morte de João Xavier, o candidato preferido do partido, o recurso
foi o cinzento tecnocrata, eleito pela margem mínima presidente da Câmara de
Sintra, para um mandato de quatro anos.
Era uma
pessoa amarga e seca, enfiado em estatísticas, telemóveis e impessoais powerpoints. Raramente visitava as
associações ou recebia os munícipes, o Orçamento pautava-se por cortes cegos,
ferrenho adepto do fim do estado social. Os funcionários odiavam-no, mas
receavam pronunciar-se. A introdução de controlo da assiduidade através da
retina, a diminuição dos funcionários para metade, as câmaras de vigilância nos
serviços, controladas a partir da presidência, aconselhavam prudência, Ivone, a
secretária, detestava-o, sempre carrancudo, um sorriso de plástico apenas para
televisão ver, implicara até com um retrato da filha que tinha na secretária.
Familiaridades a mais, dizia, mal-humorado. Aos que lhe pediam apoio,
despachava sem contemplação, "não há
dinheiro, não sou a Santa Casa", respondia, insensível. Até um
lancinante pedido dos pais da pequena Sandra para ajudar a fazer um transplante
de medula enviara para o Querida Júlia, “as
pessoas são lamechas”, desabafava entediado, “haveriam de lançar um peditório.” Divorciado e sem filhos, morava
na Beloura com Sócrates, um labrador
ainda cachorro, e aí se isolava quando se conseguia livrar das aborrecidas
cerimónias nos infantários e lares de idosos, distribuindo beijos a crianças
ranhosas e velhas sempre a queixar-se.
Uma
noite, já tarde e de regresso a casa, passado o Ramalhão, um vulto sumido e
esbranquiçado arrastando correntes nos pés, surgiu-lhe à frente do carro.
Esfregou os olhos, alguma digestão mal feita, pensou. O vulto, translúcido,
entrou pelo vidro do carro e sentou-se no banco a seu lado:
-Boa noite Alfredo! -saudou numa voz
metalizada. Sou eu, o Mário!
Atónito,
reconhecia Mário Rabaçal, seu correligionário político e antigo administrador da empresa municipal de
educação, falecido meses antes num acidente perto dali.
-Não é possível! Mas tu não morreste? Estive
no teu funeral, c’um raio…
-Estou morto sim, Alfredo. Mas venho para
te avisar que ainda estás a tempo de emendar a mão. Os cortes no leite das
escolas, a comida estragada que servíamos nas cantinas, o desfalque na
tesouraria, tudo paguei bem caro, errando agora como uma alma penada! -e exibiu
um grilhão, pesado, parecia uma cena de thriller
americano. -Venho avisar-te que ainda
esta noite receberás três visitas, às quais deves estar muito atento.
-Mas…E antes que tivesse tempo de
concluir, o banco do lado ficou de novo vazio, eclipsando-se o vulto no éter.
Chegado
a casa, bebeu um chá de limão e foi deitar-se. Devia ter sonhado, pensou. Meia
hora não era volvida quando uma figura irradiando luz, de casaca e cartola, lhe
surgiu no quarto. Sobressaltado, pensando chamar a Policia, logo o vulto o
advertiu que não abrisse a boca.
-Boa noite Alfredo Regaleira. Eu sou a
Sintra do passado. Levanta-te e acompanha-me!
Mal
tivera tempo de reagir, e de pijama, já o vulto o levava voando nos céus de
Sintra, para logo pousarem no Palácio da Pena. Candelabros com velas
profusamente espalhados iluminavam a noite, lá dentro uma orquestra tocava no
salão grande, onde vistosas damas e dignitários envergando fardas coloridas
deslizavam dançando. Animado, o rei D. Fernando conduzia uma corada cortesã ao
som da Marcha Radetsky. Lá em baixo, na vila, carruagens passeavam dandys com casadoiras donzelas, na
estação do Larmanjat, saloios com seus jumentos esperavam novos forasteiros,
para os transportarem ao Lawrence e ao Nunes. Felicidade e harmonia reinavam.
Alfredo, absorto, admirava aquele quadro de beleza, Sintra no seu esplendor,
romântica e aristocrática. Ia interpelar o espírito, quando de novo se viu na
cama, sentado e baralhado. Foi à cozinha beber água, apaziguando o torpor em
que se achava. Minutos depois, encostada ao frigorífico, outra figura o
aguardava já, um homem de fato e óculos escuros, fumando um cigarro e com um
jornal debaixo do braço. Conformado, abordou-o:
-Suponho que sejas Sintra do presente…
O vulto
assentou com a cabeça, e de automóvel saíram para Sintra, deserta à noite. Num
lar de idosos racionava-se a luz por falta de verba, uma família de
desempregados vasculhava caixotes buscando comida, enquanto na Volta do Duche,
um jovem fazia carjacking a um
incauto turista, logo se pondo em fuga. Encolheu os ombros, suspirando, e pediu
que voltassem, esta realidade conhecia ele, mais pelos relatórios que por
experiência.
De
volta a casa, inquieto e pensativo no sofá da sala, com o labrador aos pés,
receava a terceira visita. Das traseiras, minutos depois, surgiu um jovem
desdentado, com um capuz na cabeça e dois piercings
no lábio. Olhando-o com desprezo, fez sinal que o seguisse. Acabrunhado, de
motorizada foram ver a Sintra do futuro: sem-abrigo aqueciam-se em fogueiras na
zona pedonal da Estefânea, na Vila, no lugar da Periquita, surgira uma loja
chinesa, apenas sete moradores resistiam, a igreja ruíra por falta de obras. Na
Volta do Duche, alinhavam-se contentores onde moravam famílias sem tecto depois
dos despejos por si ordenados. A pequena
Sandra morrera por falta de transplante, desesperados, os pais não haviam
conseguido o dinheiro para a operação. Parando no cemitério do Chão Frio, o
jovem dos piercings apontou-lhe uma lápide grafitada onde se lia: “Alfredo Regaleira 1970-2024”, descontraído,
um cachorro urinava-lhe em cima. Estarreceu, com suores frios.
Mal
refeito, acordou na cama, em sobressalto. Abriu os olhos, o labrador que
dormitava ergueu-se e lambeu-lhe as mãos, brincalhão. Amanhecia lá fora.
Vestiu-se
num ápice, meteu-se no carro e correu para a Câmara. Pelo caminho, sorridente,
distribuiu bons dias aos atónitos munícipes, acenando e buzinando, e parou numa
florista a comprar um bouquet para a Ivone, a quem entregou com um beijo na
mão.
-Ivone, mande chamar os pais daquela pequena,
a Sandra, desmarque todas as reuniões, e convoque o director do departamento de
assuntos sociais, é urgente. Ah, nunca lhe disse que o seu penteado é muito
charmoso?
Ivone
hesitava entre o boquiaberto e o espantado, derretendo-se dengosa, ante o
piropo. Correu a dar andamento, o homem tinha-se passado, com certeza.
Daí em
diante, as pessoas foram a prioridade de Alfredo Regaleira. Inaugurou o novo
hospital, apoiou os artistas do concelho, aboliu o controlo de assiduidade,
criou empregos. Foi reeleito duas vezes, sempre com maioria absoluta. À
cabeceira da cama, na casa da Beloura, onde agora a pequena Sandra, curada,
brinca com o labrador, está sempre um inspirador livro da autoria de Charles
Dickens…
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