quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O Novo Secretário




O telegrama não deixava dúvidas: o doutor Salazar convidava o presidente da Câmara de Sintra, César Moreira Baptista, para Secretário Nacional da Informação. O convite datava de 1 de Fevereiro, a posse seria a 26. Ufano, o homem que há cinco anos “ a bem da Nação” conduzia os destinos do concelho, era chamado a um alto cargo, porfiara a postura labiosa e reverente, acondicionando o cabelo, sentiu que chegara a sua hora. Chamando a secretária, para reunir os colaboradores, deparou no claustro da Câmara com o Brousse, funcionário há muitos anos e não resistiu a espalhar a notícia:
-Ó Brousse, ainda bem que o vejo! Já sabe da novidade? O doutor Salazar chamou-me para o governo!
Habituado à rotação dos presidentes, Brousse, exteriorizando um moderado júbilo, felicitou o novo secretário, a Nação só beneficiaria com o seu eloquente contributo. Moreira Baptista, que aguardava os correlegionários, chamou-o para o seu gabinete:
-Ah, mas vou sentir saudades disto, Brousse. Já avisei o Medina do Jornal de Sintra, e o Américo Santos, vêm aí agora!
-E logo agora que anunciou o teleférico para Sintra…- recordou o Brousse.
-Ah, sim, mas dentro de seis meses será uma realidade! E o hospital, se tudo correr bem, para o ano arranca! A política de fomento do senhor presidente do Conselho trouxe Portugal ao reencontro com o progresso! -enfatizou, só chafarizes inaugurara sete recentemente.
No ano anterior, Sintra passara por momentos de bulício na sua tradicional pacatez. Maria Almira Medina, poetisa em ascensão, editara Madrugada, a orquestra de Domingos Vilaça abrilhantara A Tarde das Estrelas, e o presidente Craveiro Lopes inaugurara a electrificação da linha de Sintra. A operadora do PBX, também recentemente inaugurado, anunciava uma chamada, era D. António Corrêa de Sá, Visconde de Asseca, o homem da União Nacional anunciava estar a caminho. Duas horas depois e todos reunidos, a hora era de júbilo. Após os abraços, e chegado o Medina do Jornal de Sintra, D. António usou da palavra:
-Meus senhores, é com a voz embargada pela emoção mas com o peito inchado e explodindo de alegria que saúdo a nomeação para as altas funções de que vai ser investido, o Sr. Dr. César Moreira Baptista! Recordo a sua extraordinária obra, a inauguração do campo do 1º de Dezembro, a compra do Casino, a abertura de Seteais ou as extraordinárias piscinas da Praia das Maçãs. Creia-me, Excelência, consigo o progresso chegou a Sintra, ombreando com as terras mais prósperas de Portugal e até do mundo, onde Portugal é farol de fé e exemplo de tenacidade!
O homenageado corava, a bem dizer limitara-se a inaugurar, e muitas obras eram particulares, as palmas e os muito bem dos presentes acicataram-lhe a vaidade. O Medina, tirando notas, aplaudia, outros presidentes haviam passado e várias vezes noticiara obras que nunca saíram do papel. Matreiro, comentou com o Brousse em voz baixa:
-Então e agora? Já se sabe quem será o substituto?
-Ainda não. Pode ser o visconde, ou o doutor Joaquim Fontes, o médico…
-Seja lá quem for, que seja melhor que este penteadinho. Agora vai lidar com a Censura…- Medina aludia ao exame prévio, um dos pelouros do novo secretário, já tivera problemas, e a Almirinha era suspeita de companhias indesejáveis. Dos presentes, discursou também Eduardo Gaio, Medina e Brousse, mecanicamente, acompanharam nas palmas sem escutar o que dizia, o Medina acabou mesmo por se cruzar com jardineiros que lhe pediram para divulgar a Festa da Dália nos Aliados, onde Os Marmorites de Pêro Pinheiro actuariam.
Parada no tempo e a sépia, Sintra crescia às portas da cidade grande. Zona balnear em expansão, só algumas terras porém tinham luz e água canalizada, o festival de Sintra e o baile das Camélias animavam a saison, altura em que a sociedade local mostraria chapéus e filhas casadoiras, em tempo de jogos florais e construções na areia. Em S. Pedro ,continuava a guerra entre caracóis e papos-secos, contra e a favor da fusão entre os Aliados e o 1º de Dezembro, e o Carlos Manuel passava filmes em Cinemascope, com direito a camioneta fretada e excursão. A serra, serena, assistia imutável.
Marcado o jantar de homenagem com que a sociedade local se despediria do amado e jovem presidente, Brousse e Medina saíram para a vila, a comentar o caso na Camélia. Joaquim Fontes, soube-se depois, seria o sucessor, Asseca teria de esperar.
A 25 de Abril de 1974, César Moreira Baptista era ministro do Interior, e um dos que acompanharam Marcelo Caetano no Quartel do Carmo e com ele seguiram para o exílio no Funchal. Em Sintra, ninguém mais lembrou o presidente de 1953 a 1958, e outros foram passando. O Brousse, esse, foi ficando sempre, até aos anos noventa.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

As chagas de Sintra



Sintra é um microcosmos onde o natural muito se interpenetra com o humanizado, decorrente de, morfologicamente, a serra ser o que hoje é muito graças à intervenção humana e florestação exótica a partir de D.Fernando II, isto para o bem, mas também por ser o jardim às portas da Grande Urbe que já lhe ameaça as fronteiras naturais e a invade com as  avassaladoras hordas de turistas e excursionistas, que pouco ou nada deixam dormitar as pedras seculares ou as armérias e camélias com que um dia a quiseram presentear.

E temos assim uma Sintra do desleixo, da ruína desmazelada promovida a vestígio sagrado, onde se mexe estraga se não mexe morre; a Sintra do excursionismo de fim de semana, do turista do circuito Vila-Piriquita-Regaleira-Comboio; a Sintra do plano de urbanização mais antigo de Portugal e ao mesmo tempo da incapacidade de planear o que quer que seja para levar ao terreno; a Sintra onde muitos mandam, poucos executam e nenhum respeita; a Sintra onde o que cheire a ouvir as pessoas cheira a heresia, onde se olha o património como o faqueiro precioso que se compra no dia do casamento, mas que quase nunca vai à mesa ao longo dos anos, com medo de estragar; a Sintra dos proprietários urbanos que, donos de vasto património o deixam ruir esperando mais valias urbanísticas, mas que apesar disso, são agraciados com comendas pela sua benemerência e filantropia (vamos a ver agora com os aumentos do IMI...); a Sintra do comércio ora débil ora elitista, da restauração ora precária ora do bolso cheio, da hotelaria do hostel barato ou da byroniana suite, mas onde o meio termo dificilmente tem lugar.

Tudo isto é muito antigo, nada novo, velhos problemas e também velhas críticas à incapacidade de resolver, o que é muito nosso aliás.

Hoje, uma pequena viagem pela Sintra que fenece, culpa de todos e que por isso talvez a não mereçam. Alguns exemplos soltos, dos muitos que por aí pululam:


Hotel Neto. Uma chaga já antiga. Antigo poiso de Ferreira de Castro no seu veraneio por Sintra, é o contraponto do inenarrável Hotel Tivoli, homenagem de Sintra a essa nobre espécie chamada patos bravos. Parece que foi ou vai ser adquirido pela Parques de Sintra-Monte da Lua. A ver.

Hospital da Misericórdia .Recuperado, fechado,não é já tempo demais? (Foto Blogue Rio das Maçãs)
 
Quinta do Relógio. D.Carlos passou aqui a lua de mel,a ver vamos que outras festas aqui poderão ocorrer.A Câmara parece que ia comprar.Mas assim é que não.


Obras na Junta de Freguesia de S.Maria e S.Miguel. Mais um mamarracho. A velha junta entaipada, a nova,(o “caixote”) parada há anos por  se escolherem uns empreiteiros sem capacidade. Um dia algo acontecerá, quando a força para mudar for relevante e os autarcas perseverantes.(Foto Blogue Sintra em Ruínas)
 



Casal de S. Domingos, R. Alfredo Costa. Já foi espaço expositivo, mas a cultura segue dentro de momentos. Mais um espaço que podia estar ao serviço da comunidade mediante protocolo com agentes culturais ou artistas.(Foto Blogue Sintra em Ruínas)





Cúpula do Café Paris, na Vila. O que aconteceu à cúpula em ruínas desse edifício, que desapareceu misteriosamente? (Foto Blogue Rio das Maçãs)


A forma como o mobiliário urbano é arrumado de forma “discreta” ou enquadrado na paisagem, surgindo casos em que muitas vezes é ele em si quase a peça mais dominante do espaço envolvente, como  muitos dos  recipientes de lixo, dominantes na paisagem ou erradamente colocados, o atestam.


Outros aspectos a ter em atenção, tendo em conta a existência de um Elucidário Arquitectónico aprovado, são os letreiros, a adequar à imagem de conjunto e não dissonantes, como o da imagem abaixo; e a necessidade de aos poucos ir retirando as “espinhas de carapau” das antenas antigas.


E outros exemplos, mais na zona de S.Pedro de Penaferrim: a Gandarinha, esventrada, a Quinta D.Diniz, que ao lado da realeza, dos Marialvas e outros fidalgos, parece o solar do Cavaleiro sem Cabeça. Alguém com cabeça para viabilizar isto? Já lá se realizaram actividades culturais muito interessantes nos anos 90.Quando o interesse público for mais forte que o direito de herdeiros, o Estado de Direito vencerá o imoral direito a estar neste estado…E a Quinta de Santa Teresa? Nem hotel, nem solar, nem habitação. Assim é que está bem, talvez à espera que os Dois irmãos do túmulo à porta ali dancem à noite uma valsa walpurgiana entre fluidos inspirados em De Groer. E muito mais. Apontar não é escarnecer, é lembrar para que não saia das preocupações.Só assim seremos dignos de Sintra Património da Humanidade, maravilha natural onde estas coisas não podem nem devem ser naturais. Tarefa para os novos autarcas deitarem a mão, sem direito a adiamento.



Deixa sobre as ruínas crescer heras,

Deixa-as beijar as pedras e florir!

Que a vida é um contínuo destruir

De palácios do Reino das Quimeras!

Florbela Espanca   

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O fogo e as cinzas




2013 confirmou a alarmante tendência desde pelo menos 2003 da existência duma época de incêndios tal como há uma época balnear. O que aconteceu com o Grupo de Especialistas de Fogo Controlado (GeFoCo) que desde 2007 terá contribuído para conter mais de 50 fogos florestais ou com o Grupo de Análise e Uso do Fogo (GAUF) estrutura dedicada à prevenção e combate aos incêndios florestais, que nos últimos anos combateu mais de 300 grandes incêndios?. E a regulamentação sobre o uso de fogo técnico?. Igualmente, ao pretender-se parar o processo de enquadramento e facilitação da realização de queimadas para a pastorícia em épocas de baixo risco de incêndio, o que se propôs em alternativa? E o investimento em conhecimento, estratégia e antecipação, transferindo verbas do Fundo Florestal Permanente para a contratação de meios aéreos para o combate?



Como estamos de Plano Nacional de Uso do Fogo? Quantos meios estão ao dispor? Qual a estratégia de longo prazo? As brutais imagens do fogo destruindo floresta, ecossistemas e a economia entram-nos diariamente pela televisão, quando não casa adentro.Com troika ou sem troika, assuntos suficientes para incendiar responsabilidades e alimentar telejornais.



É  bonito falar da floresta, do pinhal de Leiria, da serra de Sintra ou do Gerês. No terreno da realpolitik, o que sucede, porém? Segundo parece, aproximando-se o fim do quadro comunitário, apenas 1/10 dos 441 milhões de euros disponíveis terão sido executados, numa área intervencionada de  mais de 5000 hectares. A regulamentação das medidas previstas no PRODER é lenta e desde 2007 foram reflorestados poucos hectares apenas, quando nos anos noventa períodos houve em que num só ano a reflorestação ultrapassou 30 mil hectares, dos quais 681 de carvalho e 341 de pinheiro, e quando anualmente mais de 3,5 milhões de hectares são assolados pelos fogos.


Que anda o Ministério da Agricultura a fazer? Alem de que estão a ser exigidos no âmbito de processos altamente burocráticos planos de gestão florestal que cada agricultor candidato deve apresentar, planos esses que os próprios serviços não definiram o que querem que sejam, nem têm tido capacidade para os analisar?. Dias de perigo espreitam a floresta(ou o que resta dela).