sábado, 18 de julho de 2026

Novo PDM: OUVIR e não apenas AUSCULTAR

 


 Volta a estar na ordem do dia a revisão do PDM de Sintra. Documento estruturante, deve ser um  processo de negociação, debate, transparência e participação que permita aos atores e agentes económicos sociais e culturais verter para um quadro atualizado as preocupações com o desenvolvimento, analisando as patologias e virtualidades do atual PDM, na mira do concelho que se quer para os próximos anos.

 

Nessa perspetiva, e sabendo que o quadro global se centra quase sempre no binómio primário e redutor do mais ou menos betão, alguns aspetos veria com interesse aprofundar, a saber:

 

1) promover a concentração da construção nos espaços urbanos ainda não exauridos e requalificar os existentes, fruto do desordenamento e gestão casuística das décadas anteriores, mas criando em condições de justiça, equidade e proporcionalidade condições para que os proprietários diminuídos na sua possibilidade de edificar possam ver os seus terrenos potenciados e estimulados para outros fins, com o correspondente desagravamento fiscal.

 

2) promover uma carta de redes que permita integrar e orientar as intervenções dos fornecedores de serviços públicos e assim planear o seu modus operandi, bem como reforçar o papel de autoridades locais de transportes e acessibilidades.

 

3) sendo o PDM um plano de estabilidade mais duradoura, agilizar o processo da elaboração de planos de pormenor que estariam em atualização permanente, abertos à sociedade e ao escrutínio dos destinatários duma verdadeira Democracia do Território.

 

Estes e outros temas parecem basilares num momento em que novas realidades se impõe e os cidadãos são cada vez mais penalizados por decisões em que não foram ouvidos e se demonstra não terem razoabilidade senão numa ótica de nada fazer e tudo se acabar por permitir por inação.

 

Tendo em conta a necessidade de uma cultura de participação e sustentabilidade versus planeamento dogmático e redutor, há que adotar critérios de Governação do Território que deixem ao PDM um papel de estratégia e aos planos mais concretizados a ação e intervenção necessários, na ótica teleológica do Direito ao Território e não a do Direito à Construção.

 

Na sua revisão, alguns tópicos mais para discussão:

 

-Ponderar a possibilidade de elementos urbanos em espaços rurais pois o conceito de espaços delimitado é demasiado estanque e redutor, deixando de fora os direitos dos proprietários rurais, suas famílias e atividades económicas (extinguindo-as, na prática).

 

-Definir quais e o que são áreas urbanas programadas (bem como aliás outros conceitos indeterminados e semânticos geradores de duplicidade de apreciação).

 

-Conceber as áreas urbanizáveis com critérios de sustentabilidade e adequação com as infraestruturas existentes, de modo a não criar a necessidade de investimentos não programados ou desejáveis numa lógica de ir atrás em vez de ser fio condutor.

 

-Criar um capítulo para análise do mercado imobiliário e das mais valias expectáveis com as intervenções previstas e permitidas, de modo a “domesticar” a especulação imobiliária.

 

-Definir um quadro prático de promoção de habitação, tendo em conta as suas carências efetivas, bem como, nas zonas rurais, as dos agricultores e suas famílias, as segundas residências, etc, travando a política de “expulsão” que tem atirado as segundas gerações de moradores para os subúrbios e criando bolsas de terrenos que pela dificuldade de construir apenas podem ser adquiridos por segmentos endinheirados que nenhuma atividade económica multiplicadora trazem consigo.

 

-Mapear com maior rigor as zonas de risco e as dos recursos naturais (ex. mapa das zonas de incêndio, cheias, sismos, energia etc, também elas zonas sensíveis mais que as ambíguas zonas de “proteção e enquadramento”, verdadeira cartola donde tudo pode surgir ainda que tudo simule proibir)

 

-Definir a rede ferroviária e a rede de acessibilidades não só tendo o automóvel como centro mas a localização de serviços e os corredores para os empregos, escolas e equipamentos de saúde como prius.

 

-Alterar a obrigatoriedade de plano de pormenor (moroso) para a aprovação de empreendimentos turísticos, criando uma figura de plano mais simplificado com a obrigatoriedade de estudo económico favorável vinculativo. Este aspeto subjaz a um outro mais profundo que é o de saber que tipo de turismo se pretende para Sintra, de molde a acabar com o atual modelo de excursionistas de 1 dia do triângulo Pena-Vila-Cabo da Roca e potenciar a oferta de sol mar natureza e cultura, dinamizando o turismo cultural, de natureza, e de congressos.

 

-Alterar as regras do uso de solos da RAN. De que serve desafetar um solo se depois se pede 1 hectare para construir? Esta afigura-se ser uma medida classista e discriminatória exemplificativa do “território para ricos” que por vezes emana do atual PDM.

 

-Criar na área de Paisagem Cultural de Sintra, (englobando a área do concelho, do Parque Natural, POOC, Rede Natura 2000 e Centro Histórico) uma homogeneidade de gestão. Esta foi a primeira a ser criada em 1994 depois da classificação como património mundial e paradoxalmente nunca foi expressa em nenhum instrumento de gestão territorial como merecedora de uma unidade orgânica autónoma e específica.

 

-Criar um Agência Municipal de Investimentos, que promova as atividades económicas essenciais (na ótica do turismo, empregabilidade, fixação no terciário, lazer, habitação qualificada) e proponha uma política de apoios tributários que seja apelativa, passando pela prática reiterada de celebração de protocolos ou contratos programa que desenvolvam um partenariado positivo e gerador de sinergias que se manifestem de modo permanente e propulsivo e não só no momento do licenciamento ou instalação.

 

-Apostar numa cultura de participação de todos, reforçando as garantias dos particulares, a articulação com as entidades e clarificando as competências da autarquia. Se há sector onde a cultura de participação é menos visível é no urbanismo e ordenamento do território, onde muitos tecnocratas vêm em planos imperfeitos e conjunturais a Vaca Sagrada imutável e intolerante remetendo as aspirações de quem quer investir ou promover para o campo dos pecados veniais.

 

É preciso não esquecer que o PDM  será um documento para vários anos e que cabe aos cidadãos, associações ambientalistas, proprietários, autarcas e investidores em particular colaborar nas suas linhas mestras, de que os tópicos acima descritos são pontos a deixar sobre a mesa. Que devem ser efetivamente OUVIDOS e não só burocraticamente AUSCULTADOS.

 

Como escreveu Vitor Hugo, “saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo”.

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