sábado, 3 de novembro de 2012

A ressaca do protesto



-A desobediência civil é um direito dos cidadãos, reprimir é encarcerar a consciência, senhor agente. Palavras de Gandhi, já ouviu falar, ao menos? –explicou o Saraiva a um atávico polícia de bigode, ao ser libertado da prisão onde passara a noite com  colegas, após um protesto contra a troika. Manifestando-se irados, haviam sido removidos depois dum protesto frente à Assembleia, a força ganha com o engrossar de apoiantes levara-os a atear fogueiras, ameaçando dali não sair. O velho Saraiva, professor de Desenho, à volta dos sessenta, e mandado para a mobilidade, era o mais enérgico, nos anos setenta activo contra a repressão e agora contra a destruição das carreiras. Parando para o pequeno-almoço num café, a recuperar da noite no calabouço, retomaram a diatribe contra o poder, esse velho e familiar inimigo, comiciando entre meias de leite e cafés duplos:
-Um homem não deve desistir da sua consciência nem um único instante, pois senão para que é que ela serve? Devemos ser homens, nunca súbditos, amigos! Não podemos meter o respeito pela lei ao mesmo nível do respeito pelos direitos. A única obrigação que temos, é fazer a qualquer momento aquilo que julgamos certo. Costumava-se dizer que uma corporação só por si não tem consciência, mas uma corporação de homens conscienciosos já passa a ser uma corporação com consciência! –arengou o Saraiva, dando uma passa no cigarro. O Bruno, professor de História, foi desfiando, também:
- Sabem, enquanto estive naquela espelunca, fui observando as paredes e as grades, e não pude deixar de perceber a idiotice de uma instituição que nos trata como carne e osso apenas. Eles têm uma muralha mais difícil de vencer antes de conseguirem ser tão livres quanto nós - as nossas consciências! Nem por um momento me senti preso, sabem, as paredes são um desperdício. Não há paredes que confinem a força indomável dum homem livre!
No escaparate dum quiosque em frente, noticiavam-se escaramuças em Atenas, e até em Roma, Lisboa restolhava já nas ruas também, após o sussurro nos cafés e nos empregos. O Telmo, de Matemática, orgulhoso por ter sido preso, teve uma tirada que a todos agradou:
-“Anima-te por teres de suportar as injustiças; a verdadeira desgraça consiste em cometê-las.", dizia o Pitágoras. E maior violência não haverá que a violência das amarras, de fazer dos homens servos, da opinião rebeldia, ou da diferença ofensa? Onde está a democracia? Somos homens ou somos escravos?
-Meu caro, a democracia é algo que se tem de refundar todos os dias. Porque sendo a tentação do poder o seu maior inimigo, impõe-se mantê-la montando guarda às consciências, e tendo sempre como fronteira estreita a ignomínia que leva à perda da dignidade, e com ela da humanidade! -Abel falava como um tribuno, relembrando as épicas RGA’s da sua juventude, de novo rebelde com uma causa e vendo a história repetir-se, não como farsa, como o velho Marx profetizara, mas perigosamente como tragédia.
Nessa manhã, os trilhos da liberdade apareciam aos velhos compagnons de route cheios de escolhos, emboscados pelo assalto aos direitos, lançando a violência e esperando a mansidão do rebanho como resposta. O Portugal de 2012 era outro, mais individualista, na penumbra da net ou do Facebook, do cada um por si e para si, o 15 de Setembro, apesar do lento acordar ao som arrepiante do hino de Lopes Graça, não chegava, ainda. A Abel e aos amigos, mais que a afronta aos direitos, chocava a flacidez da resistência e a anemia de viver, um viver fatalista, vendo os jovens buscando futuro noutros lados, melancólicos conjugando os verbos desistir e partir. E o drama é que sabiam que não seria um golpe militar ou a simples convocação dos Abris adormecidos que fariam a diferença, desta vez. A ele e aos amigos, contaminados pela estirpe da resistência, adormecida mas alojada ainda, a disposição para a luta poderia ainda despertar os genes da esperança, guardados no cofre do idealismo, mas e aos outros? E a anomia perante as injustiças, a indiferença perante os direitos, a submissão perante os grilhões?
Com a roupa desalinhada, deambularam pelas ruas, levas de turistas e funcionários públicos caminhavam já pela cidade que acordava, solitária e povoada de caras consumidas, almas penadas do Portugal dos anos dez. Como esperançosamente lhes haviam vendido o futuro como um mundo tecnológico, com cápsulas espaciais e teletransporte, vida eterna e sem doenças, o admirável mundo novo de Huxley e do Star Treck, e como ironicamente se sobrevivia hoje sobre as ruínas da sociedade da abundância, no dealbar de novas pobrezas, injustas, desiguais, em nova pré-história da fraternidade e do sonho.
No Rossio, e com cara de poucos amigos, elementos do Corpo de Intervenção buscavam acampados da noite, insurrectos do megafone. Olhando de soslaio, os professores sem escola e agora órfãos de alunos, seguiram cabisbaixos e cansados, interiormente contentes, apesar de tudo. Não tinham salvo o mundo, as suas consciências salvariam ao menos. Já na Praça da Figueira, e passando o 28 para a Graça, Abel fez sinal aos amigos, acelerando o passo:
-Despachem-se, depressa! Com sorte ainda o apanhamos!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Dias de Resistência

Decorreu no dia 31 no Café Saudade uma tertúlia sobre o estado do património em Sintra, tendo como ponto de partida a leitura encenada de 4 textos de Nuno Vicente, teatralizados pela Carla Dias e a Susana Gaspar (foto acima), actrizes bem conhecidas em Sintra, e elas próprias militantes destas causas.Em tempo de penúria, falar de património é como pedir caviar quando mal se consegue um caldo verde. Porém, há que resistir, em nome da auto estima, do respeito pela memória colectiva, e da cidadania activa. Apesar de o representante do FMI para Portugal ser um etíope, ainda não chegámos à fase de ter de lutar por uns bagos de arroz, e, seja nesta, como nas causas da cultura, dos direitos humanos e da luta pela justiça e dignidade, sempre haverão pessoas dispostas a, com a sua generosidade, e até com a raiva que a hora que passa lhes suscita, erguer a voz e cerrar fileiras, sejam muitos ou poucos os mais activos nessa caminhada. Quando se tinha já por adquirido um percurso de ganhos no plano dos direitos e da qualidade de vida, regredimos, não por culpa dos portugueses "despesistas" que viveram à sombra dos bancos, mas de políticos reles que não zelaram, outros que não fiscalizaram, e quase todos que sempre puseram os interesses ou lógicas partidárias à frente da defesa deste país secular que tão mísera classe política gerou. 
Na Cultura, na Cidadania, com o povo português, causa maior de tudo o que nos move, continuaremos, poucos ou muitos,  bem sabendo o difícil que a muita gente da cultura é hoje lutar por causas quando começa a faltar a comida na mesa, o dinheiro para as rendas ou o emprego, precário quando há. A História, se não o Povo antes, julgarão o genocídio económico que se abateu sobre Portugal, e saberão dar a volta, colocando-os de novo no lugar que merecem. Como escreveu Goethe "Apenas é digno da vida aquele que todos os dias parte para ela em combate".

A pérola do Atlântico



A aproximação ao aeroporto do Funchal trazia a Ralph a lembrança da primeira vez que visitara a ilha, trinta anos antes, para a lua-de-mel com Marjorie. Jornalista dum diário de Manchester, vinha cobrir as novas realidades da ilha, para o suplemento de domingo, o governo da Madeira, interessado na promoção, pagaria as despesas. Nessa altura, a pequena pista era o terror de qualquer piloto, não aterrando à primeira, teria de voltar a levantar, e travar a fundo, para não ir cair no mar, recordava como Marjorie lhe segurara as mãos, assustada.
No aeroporto, segurando um ramo de estrelícias, uma menina vestida com um traje regional acolhia o periodista, e logo atrás dela, o doutor Ornelas, delegado regional do turismo, e seu cicerone, durante três dias correriam a ilha, a ver as novas infra-estruturas e atracções para o turismo.
Do que se recordava, o Funchal crescera muito, auto-estradas, novos hotéis, túneis, muitos, os locais chamavam-lhe os “furados”, esventrando a ilha e ligando em poucos minutos o que antes levava horas a percorrer. Lembrava-se bem da impressão que na altura lhe causara uma aldeia num imenso vale, o Curral das Freiras, onde, apesar de ficar a poucos quilómetros do mar, muitos nunca o haviam visto, ou saído até ao Funchal.
O doutor Ornelas há muitos anos trabalhava para o governo regional, chefiado por um político truculento, na manhã do segundo dia, apanhou Ralph no Reid’s e partiram para a volta a ilha. O Funchal pululava de turistas, vindos em cruzeiros, pela manhã, no mercado das flores, captou fotos das coloridas hortênsias, um dos emblemas da ilha. O novo teleférico levou-os à parte alta, enquanto Ornelas ia distribuindo folhetos e explicando as obras executadas:
-Como vê, o meu governo tem modernizado a cidade. A capacidade hoteleira triplicou e o movimento de paquetes vai ser muito valorizado com o novo terminal junto ao Machico. Aqui fazemos obra! -atirou, ufano, como que fazendo um paralelo com o resto do país, assolado pela crise.
-E é investimento privado? -questionou Ralph, tomando notas.
-A maior parte é esforço do governo regional. A zona franca ajuda, também, mas o nosso presidente entende que não se deve olhar a dificuldades no esforço modernizador. E vê-se. Aqui e no Porto Santo.
-E a oposição não questiona o endividamento em obras? -quis apurar o inglês -porque a iliteracia parece ser grande ainda, segundo li.
-Ora… a oposição local é invejosa e não chega aos pés do doutor Jardim. Grande homem, grande homem!. Um dia há-de ter uma estátua no Chão da Lagoa, a olhar para o Funchal e para a sua grande obra!.
Ralph sorriu, bem vistas as coisas nem sabia porque perguntara algo de que já calculava a resposta.
Pelos novos túneis seguiram para o Cabo Girão, em Câmara de Lobos, duas gulosas ponchas, oferta do Ornelas, predispuseram para uma suculenta espetada no Estreito de Câmara de Lobos, antes da visita a Santana. Ornelas ia apontando novos centros de saúde, escolas, acessibilidades, trinta anos de empolgante bailinho sob a batuta do timorato dirigente. Anotando tudo, Ralph perguntou por preços e custos, a obra mostrada era francamente superior à receita arrecadada junto dos pouco mais de duzentos e sessenta mil habitantes, Ornelas fez-lhe um briefing:
-Sabe, temos tido acesso a muitos fundos comunitários, e os nossos deputados em Lisboa são tipos experientes, têm sabido negociar com o governo apoios e transferências. Olhe, a um governo dos socialistas até conseguimos que nos perdoassem a dívida, veja lá como eram tansos. Mas é tudo em prol da Madeira. Está lindo, tudo, não está? -e mudando de assunto, seguiram para um revigorante cálice de Madeira.
Em São Vicente, grandes obras públicas estavam em curso, bem como no Porto Moniz, atravessando o maciço central, Ralph deteve-se a fotografar as levadas e a floresta laurissilva. Nessa tarde, Ornelas teve de ir a despacho no Funchal e Ralph internou-se montanha abaixo, abrigos em madeira ofereciam acolhedores alojamentos de natureza. Sem se identificar, entrou num, como cliente, a saber preços e se havia vagas. Relutante, um recepcionista, pediu desculpa, mas só telefonando para o chefe. A medo ainda confessou ao suposto hóspede:
-Sabe, aqui é só para amigos do Alberto João…sorry, sir!
Passados três dias, recolhida a informação para o jornal, terminou a visita com um jantar na Camacha, ao som do tradicional folclore e saboreando o bolo do caco. Após brindar com o doutor Ornelas, que em jeito de despedida lhe ofereceu bordados e livros sobre a ilha, ainda o questionou sobre a captação de investimento, com a crise internacional e os cortes orçamentais impostos por Lisboa. Terminando uma semelha e erguendo o cálice em jeito de brinde, Ornelas, seguro, e com a experiência de muitos anos pelas secretarias do Funchal, rematou sem hesitar:
-Ralph, acredite. Pode faltar dinheiro em Lisboa, mas sempre haverá na Madeira. E sabe porquê? Como no futebol, o ataque é sempre a melhor defesa…
A cem metros, e apesar do acordo de resgate com o Continente, uma perfuradora rasgava a montanha para mais um “furado”, símbolo da enorme obra de fomento do mais desafiador dos políticos. Ainda que em Lisboa não houvesse um tostão “furado”, a Madeira trilharia o progresso na mão de homens de visão, calejados na arte de fazer política.

Obama, No Drama

A poucos dias das eleições americanas (não obstante alguns eleitores há já algum tempo venham a exercer o direito de voto, de acordo com as diversas leis estaduais) parece claro que aos defensores duma política para as pessoas, e pelo crescimento sustentável, só a reeleição de Barack Obama poderá trazer alguma esperança, atento o discurso mobilizador e o projecto levado a cabo, sobretudo por quem iniciou o primeiro mandato herdando a crise financeira de 2008.
Obama propôs a revolucionária reforma do serviço nacional de saúde, pôs fim à guerra do Iraque, marcou um prazo para a retirada do Afeganistão, travou os falcões de Israel, e, se mais não fez, tal é resultado do bloqueio levado a cabo pela maioria republicana no Congresso, a partir de meio do mandato, impondo delicadas negociações com a oposição. Obama, porém, distendeu as relações internacionais, fez da América um parceiro, e não um patrão, e não propala o discurso belicista que Romney traz latente, ameaçando com novas aventuras no Irão ou na Síria, ou propondo baixar impostos para os  mais abastados, na velha concepção de que dando dinheiro aos ricos, ele cairá como gotas de chuva igualmente em cima dos pobres.
Como europeu e português, atentas as especificidades do sistema americano, e não obstante ser certo inexistirem actualmente líderes providenciais, a reeleição de Obama garante no actual quadro internacional a manutenção duma política de defesa da paz, e de estímulo, como garante e propulsor do crescimento económico, coisa que deste lado do Atlântico tem poucos seguidores, atenta a pressão do novo Reich de Berlim. A ver vamos no dia 6.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A vingança das águas



-Que chatice! -protestou Ana Maria a caminho do Instituto, maçada com a chuva persistente, ela bem sabia que aí vinha, fazia 5 dias que o forecast de satélite o prognosticava. Sismologista no Instituto de Meteorologia há 4 anos, cabia-lhe a monitorização da actividade sísmica. Na véspera, 23 de Outubro, domingo, apenas um registo insignificante, um abalo na latitude 36,96 longitude -13,58, magnitude 2.0 na escala de Richter, registara o sismógrafo, em Lisboa. Nesse mês, o registo mais forte fora dia 7, pelas 22h18m, 4.0 na escala de Richter, nos Açores, com epicentro a 50 km oeste-noroeste de Ginetes, em S.Miguel.
Aproximando-se mais um aniversário do terramoto de 1755, iria trabalhar na comunicação que faria a 31 na Gulbenkian, com a ajuda de Tomás Moreira, jovem e entusiasta colaborador, um nerd, segundo a filha Bárbara, que tendo-se cruzado com ele uma vez no Instituto, logo o achou um chato, com óculos de massa e o cabelo cheio de caspa. Nessa manhã, também Tomás chegou cedo, para alinhavarem a comunicação:
-Bom dia, doutora? Bela chuvinha, hã…Já cá faltava!
-Sim, ao menos não teremos problemas com a falta de água em Bragança, Tomás. Como estamos de comunicação?
-Tenho o powerpoint quase pronto, doutora- adiantou-se, terminando um croissant, e querendo mostrar serviço- veja!
Abrindo o computador, foi passando uma sequência de quadros sobre o terramoto de Lisboa, explicando-os em detalhe:
-Em 1914, Harry Fielding Reid, um americano, disse que a origem teria sido no Atlântico, a cerca de 100 quilómetros a ocidente de Portugal. Em 1940, um catálogo da sismicidade na Península Ibérica, de um autor espanhol, propôs uma zona a norte do Gorringe.Foi o Gorringe, a 200 quilómetros a sudoeste do Cabo de São Vicente e a 300 de Lisboa, que durante muito tempo concentrou as atenções. Essa montanha submarina tem 200 quilómetros de comprimento, está a 50 metros de profundidade e está rodeada de planícies abissais que descem aos cinco mil metros. E parece que tem estado activo por estes dias, não tem ouvido as notícias sobre as erupções submarinas nas Canárias, doutora?
-Sim, mas essas já são frequentes- desvalorizou a sismóloga- Se fossemos a levar a sério todos os abalos dos Açores, por exemplo, vivíamos em alerta laranja…
Compenetrado, Tomás continuou:
-É uma estrutura geológica que está numa zona crítica para a tectónica de placas, na fronteira entre a euroasiática e a africana, que começa nos Açores e se segue com facilidade até ao Gorringe, mas aí, deixa de se perceber a transição. O traço da fronteira desaparece, porque passa a ser distribuído em várias falhas. O ponto onde se dá essa viragem é o Gorringe, por isso chamou tanto a atenção. Depois do sismo de 28 de Fevereiro de 1969, com uma magnitude de 7.5, passou a considerar-se que a origem do terramoto de 1755 teria sido a mesma. Ou seja, a sul do Gorringe, na Planície Abissal da Ferradura...
-Sim, Tomás, mas não esqueça que a chegada à costa dava tempos superiores aos dos registos históricos. Daí que se tenha vindo a eliminar esse local. Em 1998 apresentaram-se novas teorias em artigos no Journal of Geodynamics. O Nevio Zitellini, do Instituto de Geologia Marinha de Bolonha, descobriu uma falha geológica a 100 quilómetros a oeste do Cabo de São Vicente. Chamou-lhe "Marquês de Pombal", num artigo publicado em 2001, foi essa a localização provável da origem do terramoto de Lisboa!
-O problema é que essa falha, com 60 quilómetros de comprimento, não chegava para gerar um sismo de 8,7 de magnitude, doutora. Mesmo se se rompesse todo o segmento do Marquês de Pombal, a energia libertada corresponderia a metade da do sismo de 1755. Há de certeza uma segunda localização! O Zitellini descobriu uma origem dupla para o terramoto: para ele, deveu-se a uma ruptura da Falha do Marquês de Pombal, em conjugação com o rompimento da crosta ao longo do banco do Guadalquivir.
Entrando nessa altura, o doutor Guedes, também cientista do Instituto, ajudou ainda mais à especulação, introduzindo nova teoria:
-Meus amigos, somos cientistas ou charlatães? É claro que o epicentro foi no arco de Gibraltar! Ali é uma zona de subducção activa, na qual um bloco de uma placa velha mergulha e, ao descer no manto, deforma a superfície. Acreditem, foi aí que nasceu o terramoto de 1755!
Montada a apresentação, na tarde de 31 de Outubro lá apresentaram o trabalho. Bárbara, a filha de Ana Maria compareceu, sentando-se contudo longe de Tomás, que a aborrecia com as suas teorias sobre sismos e tsunamis. A sala estava composta, poucos minutos antes de subir ao palco, o telemóvel de Ana começou a tocar, interrompendo a conversa com o prof. Jenkins, de Liverpool, uma autoridade mundial em tsunamis e orador essa tarde. Como não parasse o toque, do Instituto por sinal, acabou desligando o telemóvel.
A comunicação foi muito aplaudida, se bem que as várias teses de epicentro permanecessem irredutíveis. Eram oito horas, e dali seguiriam para um jantar com os convidados, na zona das Docas, em Lisboa. Chuvosa, a noite de Lisboa, passada a porta da Gulbenkian, tinha um ar pesado, uma claridade esquisita, mais chuva para o resto da semana, pensou Ana Maria, enquanto Tomás enfiava um chapéu patusco que a fazia lembrar o Professor Pardal. Só chegados às Docas voltou a ligar o telemóvel. O Tejo estava revolto, e todos os restaurantes tinham recolhido as esplanadas. Procurou um telheiro, e ao sinal de ligação, vários SMS foram despejados em cadeia, todos iguais:” Liga Instituto. Urgente
-Nem a esta hora me largam! -protestou, ligando para o Instituto, estavam lá o Guedes e o Vasco, porque lhe ligariam a essa hora, e em véspera de feriado? Estabelecida a ligação, o Guedes, agitado e deixando escapar um arfar de pânico, mal deixava entender o que dizia:
-Ana, onde estás?! Temos um caso grave, muito grave! O sismógrafo de Mafra indica actividade sísmica muito alta com origem em El Hierro, nas Canárias. Para cima de 8.5! É uma catástrofe! E foi dado um alerta de tsunami, em 90 minutos as ondas podem atingir a costa portuguesa…Sem bateria, a chamada caiu, deixando Ana Maria atónita, com Tomás e Bárbara a caminho, noutro carro.
Olhando para o Tejo, a ondulação era forte agora, galgando a margem na Rocha do Conde Óbidos, invasivo, um abalo fortíssimo fez tombar um candeeiro a seu lado, abrindo uma racha no solo. Uma sirene do INEM ecoou ao longe, a onda teria chegado a terra firme. Correu para o lado da estrada, subindo o viaduto da Infante Santo, em baixo, carros jaziam esmagados pelo desabar de alguns prédios mais antigos. Ao longe, mastodôntica, uma vaga com mais de seis metros recortava-se por trás da Ponte sobre o Tejo, o cacilheiro para Porto Brandão em segundos foi sugado, como casca de noz.
Em pânico, Ana fugiu para a zona alta, a onda assassina e inesperada engolia já Alcântara e as Docas e contentores desgovernados entravam pelas ruas, arrastados pela força das águas. Correu, sem olhar para trás, como muitos outros, apanhados no local, até que a onda os capturou, furiosa e prepotente. Trezentos anos depois, a Velha Senhora voltava a Lisboa, invasiva e diluviana. Presa num varandim, a pasta com a comunicação de Ana Maria ficou ondulando, desfeita, com o powerpoint definitivamente desactualizado.

Sintra, 1 de Novembro de 1755



Amanhecia o dia 1 de Novembro e a Igreja celebrava a festa de Todos os Santos. Sábado sereno, sol claro e céu nimbado, findava o ano de 1755 e reinava tranquilo o senhor D. José. Cadenciados, os fiéis afluíam à missa em S.Martinho, celebraria D. Raimundo Miranda Henriques. O juiz dos órfãos, o vigário da vara, o capitão-mor e todas as famílias de Sintra enchiam a nave em dia grande no calendário litúrgico. Chamativo, o sino na Torre da Vila repicava. Francisca Aires, a filha Tomásia e Maria Lemos, viúva de Teodósio dos Santos, mesário da Santa Casa, foram as primeiras a chegar, roupa a condizer com a solenidade, recordando os que já estavam no descanso do Senhor.
-Que dia bonito! Nem parece Novembro! -comentou Tomásia para a mãe, dezassete anos incompletos e cabelo cor de azeitona.
-É o Verão de S. Martinho, minha filha! –lembrou a mãe, com a mantilha cobrindo os cabelos, também o marido se finara já.
D. Raimundo, há vinte anos pároco em Sintra, nomeado pelo cardeal D. José, uma vez mais cumpria o ritual dos sagrados mortos, o negro, farda da dor, por longos meses lembrava os que partiam para junto de Deus, só a esperança na redenção das almas ajudava a aliviar a perda. Em todas as casas havia um falecido a lembrar, uma novena para rezar, sepulturas para cuidar, vivos e mortos no temor a Deus.
-O Senhor esteja convosco! –cumprimentou à porta da igreja, fazendo o sinal da cruz, a muitos casara e baptizara os filhos.
Todos acomodados, deu-se início à missa, num latim imperceptível e abafado. Ajoelhados, os penitentes prometiam arrependimento, mea culpa, o esconjuro dos pecados. Pouco depois das nove, perorava D.Raimundo a homilia, num trepidar contínuo e incontrolável, a terra começou a tremer, um abalo forte e tombou o tecto, sucumbindo vinte fiéis sob escombros, perto da nave central. D.Raimundo, atingido por uma viga do altar-mor, morreu com o peito trespassado, sendo o altar num ápice consumido pelas velas. Os que puderam, fugiram, gritando, só parte da abside se aguentou. Ao segundo minuto, edifícios começaram a cair, arruinados, e um cenário apocalíptico e de fumo denso cobriu toda a vila.
A igreja da Misericórdia estava em escombros, a ermida de S. Sebastião ruiu, na Alpendrada, colarejas em pânico rezavam erguendo as mãos ao céu, enquanto galinhas e patos corriam desvairados. Lancinante, um cão uivava na base do pelourinho. Francisca Aires, caída na igreja, sangrava, um lenho pontiagudo quase lhe decepara a cabeça, ao lado, Tomásia, donzela e serena, jazia morta, o missal na mão e um santo em cacos junto ao peito.
Duraram os abalos seis para sete minutos, interrompidos por breves intervalos. Em todo este tempo um estrondo subterrâneo, qual trovão, soou ao longe. Escureceu-se o sol e exalações sulfúreas empestaram o ar. Por todo o lado abriram fendas na terra, qual Inferno abocanhando a Terra, para que Belzebu a todos sequestrasse e levasse para o mundo das trevas. Na igreja, criados de Maria Aires lograram encontrá-la viva, e descomposta a levaram para a casa do Arraçário, ou o que dela sobrara: animais mortos, pipas de vinho vertendo, viva entre mortos e morta para a vida. Ao longe, o mar encapelado galgava as arribas desmoronando-as como grãos de areia soltando um ruído ampliado pelo vento.
Em casa ou nas ruas, muitos outros foram vítimas da gadanha mortal e predador  armagedeão, e os gritos, alaridos e clamores, sucederam-se, num carpir lancinante e impotente. Ninguém cuidava senão de se salvar e pedir a salvação da alma. Trinta e seis mortos se contaram só na Vila, emboscados nas missas de finados, um fogo propagou na R. da Pendôa, cinzas e fumo toldaram as chaminés do Paço, de onde a guarnição desertou em pânico, deixando sete cavalos mortos no estábulo. Em menos de uma hora, o mundo desfigurava-se ante a violência dos elementos, terra e mar uniam-se contra os indefesos mortais, sem o adivinhar, as missas de finados tornavam-se de corpo presente no imenso cemitério em que a Vila e o Reino se transformava. Era Verão de S. Martinho.