quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Alexandre Herculano e os paraquedistas



“O meu desejo é ver-me entre quatro serras, dispondo de algumas leiras próprias, umas botas grosseiras e um chapéu de Braga” – terá dito Alexandre Herculano em plena fase de negação e frustração política, acometido do desejo de retirar-se definitivamente para Vale de Lobos, ancorando-se em porto tranquilo e seguro. Dono de grande energia e carácter, eleito deputado por Sintra nas eleições de 1858, apenas poucos dias depois renunciou ao lugar, por entender não ser razoável representar um círculo onde não vivia, nem os eleitores o conheciam, convicto de que nenhum círculo eleitoral deve escolher para representante um indivíduo que lhe não pertença e não conheça as suas necessidades e misérias, os seus recursos e esperanças. Dirão alguns, hoje, e numa altura em que se aproximam eleições autárquicas, que para defender os interesses de Sintra basta metê-la na alma, puxar pelos projectos, falar com as gentes, que o marketing, o facebook ou a televisão farão o resto na aritmética do assalto aos lugares. Porém, como escreveu Herculano em carta aos seus eleitores, por ocasião da renúncia ao mandato, é entre filhos da terra que os círculos devem escolher os seus representantes, com a redução dos grandes círculos a círculos de eleição singular, que um dia possam servir à restauração da vida municipal, da expressão verdadeira da vida pública do país, e de garantia da descentralização administrativa, sendo esta a garantia da liberdade real.
E acrescentou: é honroso merecer a confiança dos nossos concidadãos, mas é mais honroso viver e morrer honrado! Para ele, só a eleição de campanário era o sintoma e o preâmbulo de uma reacção descentralizadora e condição impreterível da administração do país pelo país, e esta a realização material, palpável, efectiva da liberdade na sua plenitude. “Para obter este resultado, é necessário que a vida pública renasça. É preciso que o país da realidade, o país dos casais, das aldeias, das vilas, das cidades, das províncias acabe com o país inventado nas secretarias, nos quartéis, nos clubes, nos jornais, e constituído pelas diversas camadas do funcionalismo. Dantes, os frutos que dá o predomínio da centralização, supunha-se colhê-los o rei: hoje colhem-nos seis ou sete homens chamados ministros”,escreveu.
 A carne é fraca, porém, e décadas depois, pululam autarquias pejadas de paraquedistas com longevidade de mandatos, para muitos dos actuais autarcas, insuficientes até, agarrada que lhes está a máscara à cara depois de muitos anos a trabalhar pelo “progresso”. Sejam quais forem as nossas aspirações quanto ao futuro, vivemos no presente, e deixámos que os partidos e os insectos que em seu torno saltitam, invadissem a esfera pública qual hemorragia pestilenta e estranha, assim descurando as gentes das terras, os que lhe conhecem os ventos e as marés, o tempo das colheitas ou da apanha dos frutos. Que lhes interessa o eleitor anónimo que nunca viu o candidato ou tão pouco sabe quem é o paraquedista que lhe caiu no quintal ou varanda, e tão pouco este sabe o nome das localidades onde moram os eleitores, o dos rios que atravessam as suas terras ou as datas das suas festas seculares?
 Herculano definitivamente, decidiu-se e escreveu aos eleitores a renunciar ao seu mandato de deputado por Sintra. O seu apreço por ela impunha-o, não seria procurador por Sintra, ao menos seria regedor da sua consciência. Os anos passaram, e Sintra, hoje desamparado cais duma amálgama suburbana e sem identidade (ou com identidades) prepara-se para de novo se render aos candidatos da imagem, que não saberão onde é Galamares ou Pernigem, mas que a Sintra farão loas e para as câmaras e fotos se hão-de atafulhar de queijadas a mostrar o quanto prezam a vila e suas delícias, depois de rapidamente lerem umas linhas na wikipédia. Afinal, numa terra onde há quarenta anos não há maternidade e ninguém nasce a não ser nalguma ambulância, identidade é cada vez mais coisa a enfraquecer ganhando a cor sépia do passado. A televisão une, as redes sociais promovem e os pára-quedas hão-de continuar a lançar novos aventureiros, de quem mais tarde poucos recordarão o nome, mas que em Sintra e de Sintra se servirão. Herculano, esse, amargurado, descansa esquecido à sombra do campanário, com a razão que os sem razão lhe não reconheceram. Não haverão já sintrenses que possam governar a sua terra?

Alagamares convida Maria Teresa Horta




Na continuação duma série de tertúlias iniciadas pela Alagamares a 15 de Setembro em Sintra, e moderadas por Miguel Real, a próxima convidada será a escritora Maria Teresa Horta. Dia 19 de Outubro, em Sintra.
Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa em 20 de Maio de 1937, oriunda, pelo lado materno, de uma família da alta aristocracia portuguesa, contando entre os seus antepassados a célebre poetisa Marquesa de Alorna.Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Dedicou-se ao cine-clubismo, como dirigente do ABC Cine-Clube, ao jornalismo e à questão do feminismo tendo feito parte do Movimento Feminista de Portugal juntamente com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. Em conjunto lançaram o livro "Novas Cartas Portuguesas".Também fez parte do grupo Poesia 61.
Publicou diversos textos em jornais como Diário de Lisboa, A Capital, República, O Século, Diário de Notícias e Jornal de Letras e Artes, tendo sido também chefe de redacção da revista Mulheres.
Obras:Espelho Inicial (1960) (Poesia)  Tatuagem (1961)  Cidadelas Submersas (1961)  Verão Coincidente (1962)  Amor Habitado (1963)  Candelabro (1964)  Jardim de Inverno (1966)  Cronista Não é Recado (1967)  Minha Senhora de Mim (1967) (poesia)  Ambas as Mãos sobre o Corpo (1970)  Novas Cartas Portuguesas (1971) (obra conjunta))  Ana (1974)  Poesia Completa I e II(1983)  Os Anjos (1983)  O Transfer (1984)  Ema (1984)  Minha Mãe, Meu Amor (1984)  Rosa Sangrenta (1987)  Antologia Política (1994)  A Paixão Segundo Constança H. (1994)  O Destino (1997)  A Mãe na Literatura Portuguesa (1999)  As Luzes de Leonor (2011).

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Tributo a João de Oliveira Cachado


Conheci o professor João de Oliveira  Cachado a 17 de Novembro de 2006, quando a ainda jovem Alagamares entendeu empreender uma campanha pelo restauro do então abandonado Chalé da Condessa d’Edla, no Parque da Pena. Técnico de educação e pedagogo, ligado anteriormente também à Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra, dele pudemos então escutar valiosas informações sobre o trabalho de campo já executado por essa escola em prol da reabilitação do local, e as suas ponderadas e fundamentadas palavras denotadoras dum vasto conhecimento das patologias e carências na recuperação da jóia da coroa, sangrando esfaqueada por supostos guardiães usurpadores e acossada pela incúria, para muitos provavelmente “romântica” até.
Desde essa noite, nasceu e consolidou-se um sentimento de respeito e consideração que nos aproximou civica e intelectualmente, tendo desde então mantido contactos regulares que se traduziram no acompanhamento das iniciativas tendentes ao restauro do chalé (e de que destaco, entre várias, a jornada cívica de 4 de Março de 2008, com a visita não autorizada de um punhado de sintrenses ao local ainda em ruínas, à cabeça dos quais se destacou Maria Almira Medina, foto abaixo) e posteriormente as denúncias em torno da usurpação dos jardins de Seteais durante o período de obras que afrontou a carta de aforamento de 1801, entre outras causas.
Presença frequente na imprensa local e na blogosfera, dele se ouviram e ouvem avisadas palavras e opiniões denunciando ou contestando a perpretação de atentados ou desatenções do poder em temas como o tanque de Seteais e as construções ali erigidas em zona sensível, a frustrada aquisição da Quinta do Relógio, o caravanismo selvagem no Rio do Porto, a falta de legendas explicativas em muitos dos locais simbólicos de Sintra ou a limpeza e falta de civismo que a consciência de todos convoca, como cidadãos, munícipes e sintrenses.
Melómano inveterado, entusiasta militante da Mozartwoche de Salzburgo, que nunca perde, perdendo-se no perfume inebriante da sua música, pedonal caminheiro dos “seis quilómetros à hora”, como a si próprio se define, Sintra habitou-se há muito à sua voz independente, construtiva, e acima de tudo, cidadã, duma estirpe que hoje vai rareando e nos relembra emocionados um José Alfredo ou um Francisco Costa, guerreiros da pena e príncipes da palavra, D.Fernando ou o Carvalho da Pena, os jardineiros de Deus.
No próximo dia 28 de Setembro, no momento em que a brisa da tarde e um derradeiro ressoar de cascos de cavalo quebrar o torpor e os silêncios da serra sagrada, regressando à vila, os homens, finitos e tangíveis, tratarão de se reconciliar exorcizando o Silêncio e saudando o Homem, momento em que a edilidade de Sintra irá homenageá-lo na Quinta da Regaleira, num merecido acto simbólico, felizmente certeiro, no  espaço e no tempo. Escreveu ele de si próprio:
“Sem dar muito pelo tempo que passa, a verdade é que há cinquenta anos que celebro a música constantemente, em directo, em Portugal e por essa Europa fora, especialmente, em Salzburg onde, há muito tempo, fiquei preso, perfeitamente cativo. De facto, tenho o incrível privilégio e o invejável poder de marcar a agenda da minha vida a partir dos compromissos musicais.
(…)No meu caso pessoal, não será preciso fazer um grande esforço para perceber como o melómano se confunde com o diletante, com o viajante, e, em certos casos, com o de peregrino, como acontece com Salzburg (tão especialmente, no Inverno, por altura da Mozartwoche) ou Bayreuth, sempre em busca do instantâneo momento em que Arte, Beleza e a centelha do Divino acontecem”.
Como escreveu Oscar Wilde, “Chamamos  Ética ao conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão a olhar. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém  olha ou repara, chamamos Carácter”.
Parabéns e continue, João Cachado! Sintra ainda tem Memória!

Zink, o Irónico



Rui Zink continua irónico e subtil e isso ficou patente na sua passagem pela tertúlia que a Alagamares promoveu no Café Saudade, em Sintra, moderada por Miguel Real.
Discorrendo em torno do papel do escritor e dos ódios de estimação que muitos cultivam entre si, durante 2 horas foi passando revista à maneira de ser português, tendo afirmado mesmo que a relação de Vasco da Gama com o Adamastor foi uma relação de extremo amor e classificando Vasco da Gama como o pai da psicanálise em Portugal. Sobre Saramago, tempo para discorrer sobre amores e ódios nutridos por Lobo Antunes, e do stresse que é ser um escritor nobelizado, fiel à imagem do patrono de causas, venerado nos altares das livrarias. Admirador do Sr.Oliveira da Figueira, o português caixeiro viajante dos álbuns de Tintin, sempre em tom bem humorado, Zink confessou-se um escritor de sucesso, traduzido em várias línguas e por isso  já com estatuto para uma casa na Provença, benefício de que muitos dos seus colegas indígenas ainda não desfrutarão, os trastes…, trazendo boa disposição aos presentes. Sempre num registo de ironia, falou de Dário Fo, de Don DeLillo, de Hertha Muller, e da temporalidade da literatura, travestindo uma postura diletante e displicente e assumindo-se um pouco docente também, num serpentear da palavra que me trouxe à memória Pedro Paixão, Woody Allen, Diniz Machado ou esse seu counterpart Miguel Esteves Cardoso. Foi uma noite sem (muita) má língua, mas onde também as questões da língua escrita se colocaram de forma bem falada, e em dia de manifestação de protesto, um final de noite aproveitado para ladrar a algumas caravanas que por aí passam…Mas com elegância, como é próprio de quem passa férias na Provença…
Se a ironia é o pudor da Humanidade, como escreveu Pessoa, ela é também o principal indício de que a consciência se tornou consciente. No fundo, não se pode levar a vida muito a sério. É preciso não esquecer que a vida, afinal, nasceu de um momento de gozo…

domingo, 16 de setembro de 2012

O meu 15 de Setembro

Os dias de chumbo podem ser também dias de esperança. O povo de Abril e Maio, ao alcance dum like e acossado pelo provocatório anúncio de ataque à sua dignidade, silenciosamente retomou as ruas que são suas, onde nascem e caem governos, onde a luta pode ser festa e novas madrugadas excepcionais e límpidas podem renascer, 38 anos depois de num dia diferente ali termos estado, num exorcismo colectivo.
Dizem que é a 15 de Setembro que nascem mais crianças em Portugal. A 15 de Setembro nasceu a consciência de que há limites para a displicência, que o povo não são números em folhas de excel nem está disposto a ser o bombo da festa neste número na pantomina dos títeres da "ajuda externa". Algumas imagens: