quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Histórias de Natal

 


O envelope verde

 

Na casa de Janas, desde há muitos anos que na árvore de Natal aparece pendurado um envelope verde, sem remetente ou destinatário. Tudo começou por causa do tio Álvaro. O velho e espartano solteirão detestava o Natal, não porque não estimasse a família, mas para ele massificador de emoções, fazendo da fraternidade algo a que se acrescia lucro e iva. Era avesso às compras, às comezainas pantagruélicas e aos pares de meias com ursinhos embrulhadas com fitas cintilantes, confissão desesperada de quem não tinha nada original para oferecer. Até o Pai Natal fora inventado pela Coca-Cola, alegava reticente.

 

Sabedora do feitio torto, naquele Natal Sofia decidiu deixar de lado as peúgas e gravatas às bolas e foi à procura de algo que ele apreciasse, e a ideia surgiu-lhe um pouco por acaso: Sérgio, o filho mais novo, jogava futebol no colégio, e em meados de Dezembro a sua equipa fora disputar um jogo contra uma de Monte Abraão. Em contraste com os equipamentos limpos e de boas marcas da equipa do Sérginho, os deles eram usados e sujos, sapatilhas esfarrapadas, um mundo cruel e real. O tio Álvaro também foi ao jogo, e sentiu claramente a diferença entre os que têm e os que anseiam, reais mundos deste mundo. Os de Monte Abraão perderam o jogo, mas com o orgulho ferido calaram a derrota, não eram as sapatilhas a única coisa esfarrapada ali. O tio Álvaro, velho adepto de futebol, e do Sporting- nasci para sofrer, dizia - no fim do jogo encolheu os ombros, taciturno:

 

-Os miúdos da outra equipa têm potencial, mas é pena, têm poucas condições, é por isso que muitos deles depois desistem. Apesar de torcer pelo nosso Sérgio, hoje gostava que eles tivessem ganho! -desabafou, um pouco mais expansivo que o habitual.

 

Nos anos sessenta, Álvaro Camacho fora treinador de juniores no Sporting, a alguns viu mesmo singrar nas divisões intermédias, amigos para o resto da vida. Ainda nessa altura, no café do Fernando, com muitos dos putos já veteranos, comentava regularmente as partidas e as carreiras difíceis. O desabafo deu a Sofia uma ideia para um presente que por certo o levaria a mudar de ideias quanto à data. Divorciada e dona duma boutique, com alguma folga financeira que permitira a casa em Janas, tinha um coração generoso. Dias mais tarde, entrou numa loja de desporto, comprou onze pares de sapatilhas e enviou-as à escola de Monte Abraão. Na véspera de Natal, discretamente, pendurou na árvore cintilante um envelope verde, com um bilhete para o tio Álvaro, a oferta das sapatilhas aos miúdos era o presente dela para ele. Surpreendido, esboçou um sorriso discreto mas luminoso e naquele ano, depois da ceia, até comeu filhoses, e bebeu vinho do Porto.

 

Nos anos seguintes, a árvore de Natal passou a contar com um envelope verde pelo qual um grupo de crianças ou pessoas carentes beneficiaria, sem o saber, dum tio que recriminava o Natal, virando mesmo tradição: um ano, foi um cheque a um paralímpico sem meios; outro, um perú para o lar de idosos onde estava a Ercília, antiga criada da casa, o envelope surpresa passou a ser o momento alto do Natal pelo qual o tio Álvaro passou a aguardar, ansioso, sem grandes exuberâncias, mas interiormente feliz. Religiosamente, era sempre o último presente a ser lido na noite de Natal, e com o tempo até o Sérgio e os irmãos mais novos deixaram de lado os brinquedos que já sabiam ir receber, à espera do momento em que, qual entrega dos Óscares, se revelaria o nome dos contemplados desse ano. O tempo foi passando, e as crianças crescendo, mas o inevitável envelope nunca perdeu o seu lugar e encanto.

 

Um dia, um cancro de pulmão fez das suas e o tio Álvaro partiu, levando o velho sportinguista que detestava o Natal, mas involuntariamente fizera vários Natais felizes.

 

O ano passado, ainda chorosos pela perda do carismático tio, Sofia e Sérgio, já adulto, como sempre enfeitaram a árvore junto à lareira onde pontificavam retratos de familiares sorridentes, mortos e vivos, o tio Álvaro em destaque com o seu bigode farto e o nariz achatado. No meio das bolas e luzes, e do presépio da avó Chica, de novo um envelope verde, bem ao centro. Foi Sérgio, cúmplice, quem o colocou. Antes da ceia do Natal, um segundo envelope adornava outra ramagem da árvore, e à noite, mais três se lhe juntaram. Também os irmãos mais novos de Sérgio, fãs do Bruno Fernandes, sem o dizerem, colocaram envelopes, e sorridentes, disfarçaram surpresa, alegando ser coisa do Pai Natal. À meia-noite, depois da ceia e dos presentes, todos à vez foram à árvore e abriram o envelope com a prenda que em memória do tio Álvaro iriam dar: a Joaninha, duas bonecas para o ATL da escola, em Morelinho; o Rui, uma bola de futebol para os filhos do Etelvino, desempregado e em dificuldades; até o Marquitos, na ingenuidade dos seus cinco anos ofereceu um desenho representando o tio Álvaro com um leão, treinando dois meninos a jogar futebol, para o infantário. Nos natais da casa de Janas, o espírito de Natal passou a ser o momento da homenagem àquele velho tio avesso às aparências, e a ser mais importante dar que receber. É Dezembro de Natal, na rádio toca Rudolph the Red Nosed Reindeer, e fico por aqui, que há envelopes verdes para ir comprar. Só eu sei porque não fico em casa.

 

 

 A primeira árvore de Natal

 

 

Os príncipes estavam já no salão, impecáveis nos fatos tiroleses que o tio Augusto comprara para a receção de Natal que sua mãe, a rainha, ofereceria ao corpo diplomático. A noite estava amena nas Necessidades, um presépio gigante, ladeado por serafins de asas abertas, adornava o salão contíguo à sala do trono. Pedro terminara a aula de geografia com o visconde de Carreira, seu preceptor, como sempre, estava sorumbático e calado. Seria rei um dia, o visconde vigiava-lhe a postura. Lipipi, mais bonacheirão, intrigado, contemplava um barco numa garrafa, tentando descobrir como o enfiaram dentro. Pelas sete horas, com o salão profusamente iluminado e decorado com esculturas que Fernando comprara em Paris, chegaram os embaixadores das nações amigas, ministros, e inúmeros convidados. O país estava pacificado por Saldanha, apesar do triunfo dos cabralistas, depois da convenção de Gramido, e a família real, mais descontraída, ocupava-se com a educação dos filhos, sete já, com o nascimento do príncipe Augusto, em Novembro.

 

À hora marcada, a rainha entrou na sala, com Fernando a seu lado, duas camaristas secundavam-nos. As várias gravidezes haviam-na tornado obesa, enfiada num vestido roxo que não lhe favorecia as formas, mais própria de burguesa que de rainha. D. Fernando, fardado de general dos exércitos, com o cabelo louro em desalinho, fazia suspirar as cortesãs. Era um pinga-amor, porém, sempre respeitador de Maria, e zeloso da educação dos filhos. Nessa manhã estivera em Mafra, montando o Monarch, misterioso, avisou que se preparassem, pois faria uma surpresa durante a receção da noite. Tinham nascido poldros à égua da rainha, ia vê-los, no regresso passaria pela Pena a inspecionar as obras, carros de bois transportavam por esses dias pedra para a ala sul, onde já se viam os contornos do palácio.

 

Na sala, rodopiavam os grandes do reino. O príncipe Augusto, irmão de Fernando, de visita para o Natal e para conhecer o novo sobrinho, a quem puseram o seu nome, conversava com o barão Eschwege, que dava pormenores sobre a construção da Pena, a outro canto, o visconde de Carreira comentava com a marquesa de Lavradio como a rainha ficara desgostosa com o óleo que Beaulieu pintara com os príncipes, para ela pouco favorecidos.

 

Após as boas vindas da rainha Maria, Fernando, num português atrapalhado, pediu silêncio, e mandou entrar o coro de S. Vicente de Fora. Doze jovens impecavelmente vestidos e em canto ambrosiano entoaram então algumas canções de Natal, perfeitamente afinados. No final, também D. Fernando fez questão de cantar uma melodia austríaca, Stille Nacht, Heilige Nacht, chamou ao piano Manuel Inocêncio, o professor de música dos príncipes, e como combinado, cantou para a assistência, maravilhada e rendida à sua voz possante. O ambiente, inicialmente formal e protocolar, estava agora desanuviado. Intrigante, D. Fernando pediu a palavra:

 

-Majestade, Excelências, se não vos importais, passemos à biblioteca, tenho uma surpresa para vós!

Era a altura de desvendar o mistério da ida a Sintra de manhã. Aberta a sala contígua, até então fechada, um pinheiro gigante, profusamente engalanado, deslumbrava, repleto de velas e doces. Vários candelabros e uma crepitante lareira compunham o ambiente, irrompendo a sala numa salva de palmas, em sinal de admiração.

 

-Em Coburgo, conta-se a história de São Bonifácio, que certo dia salvou um príncipe que ia ser sacrificado num bosque por alguns druidas. –explicou -Derrubada a árvore onde o príncipe ia ser imolado, nasceu no local um pinheiro, que para nós simboliza a paz. É tradição desde então colocar em todas as casas uma árvore pelo Natal, como símbolo de paz e fraternidade!

 Extasiados, Lipipi e Pedro correram para a árvore, enquanto a rainha Maria, admirada, apreciava as velas que Fernando com o auxílio de Eschwege e dos criados passara a tarde a colocar. Mas não ficavam por ali as surpresas. A um bater de palmas, um indivíduo com enormes barbas brancas entrou na sala, trazendo um saco:

 

-Eis um Weihnachtsmann, não sei como se diz em português, mas é alguém que no Natal premeia quem praticou boas ações, distribuindo prendas, sobretudo às crianças! -explicou, deitando um olhar misterioso na direção dos filhos. Perante a alegria de Lipipi, futuro rei D. Luís, seguiu-se a distribuição de presentes que o homem das barbas tirava do saco e que Fernando entregava um a um. Para Maria, um vestido, do atelier de madame Clochard, em Paris; para Pedro, livros, com anatomia de animais, oferta da rainha Vitória, que adorava os primos portugueses, um chapéu de almirante para Luís. Nenhum convidado foi esquecido, e todos foram presenteados com aguarelas de flores e pássaros, pintadas por Fernando nesse Verão em Sintra.

Naquela noite serena e feliz, iluminava-se pela primeira vez uma árvore de Natal, sendo Fernando um perfeito weihnachstmann do Norte, invadindo as Necessidades naquele seu Natal português. Finda a memorável noite, a todos saudou, de coração cheio:

 

 -Feliz Natal para todos, caros amigos!Frohliche weihnachten!

 

 

A Alcofa

 

 Como de costume Baltasar, Gaspar e Melchior, sócios na ourivesaria e solteirões inveterados, passaram o Natal juntos, à meia-noite trocaram presentes e comeram bolo-rei, agora sem brinde e sem piada, comentava o Gaspar. Baltasar era o mais velho, e gerente da loja, muitas alianças para casamentos vendidas mas nunca a dele, a olho nu distinguia um fio de ouro de um pechisbeque com banho dourado. Com Gaspar iniciara o negócio há oito anos, chegaram a correr o país em feiras e mercados antes de finalmente se estabelecerem numa zona elegante de Lisboa, até hoje sem um assalto, felizmente. Melchior retornara de África com a descolonização, era mestiço, conheceram-se num cruzeiro à Turquia e acabaram partilhando o negócio e a casa no Banzão.

 

Na véspera de Natal tinha havido movimento na loja, apesar da crise, uns brincos, quatro relógios, uma salva em prata, dava para ir mexendo. Pela manhã de 25 de Dezembro coube a Melchior despejar o lixo, caixas e restos dos camarões da ceia, bacalhau não era tradição. Tinham uma empregada duas vezes por semana, a Maria, que por ser feriado estava de folga, eles mesmo acomodavam o essencial. Para espairecer, iriam almoçar à Ericeira, apesar do tempo frio, daria para desentorpecer as pernas.

 

Já Melchior voltava para casa quando ouviu um restolhar junto ao contentor, algum cão buscando sobras, pensou. Curioso, aproximou-se, uma alcofa de estopa atada com um fio de nylon estava depositada mesmo ao lado, parecia conter algo, agitava-se ligeiramente. Espreitando de soslaio, assombrado, deparou-se-lhe um bebé ainda com sangue no corpo, não teria mais que umas horas de vida, ali abandonado na manhã do dia de Natal. Olhou em redor, ainda atónito, tentando descortinar alguém na redondeza, algum carro, quem poderia ter cometido uma barbaridade daquelas, e com o receio de quem nunca pegou num recém-nascido, agasalhou-o com o casaco de lã que levava e correu para casa com o achado nos braços.

 

 Baltasar barbeava-se, enquanto Gaspar ia fazendo zapping, todos os canais passavam a bênção do Papa, o passo assolapado de Melchior com um volume nos braços assustou-os.

 

-Depressa! Vejam só o que estava no lixo! Não há direito! -Melchior exibiu o ensanguentado nascituro, um rapaz, segundo reparou logo. Baltasar e Gaspar correram atarantados, Baltasar ainda com o creme da barba. O pequeno dormitava, inocente, já órfão, porém.

 

-Tem de se avisar a polícia. Mas esperem, vamos dar-lhe banho primeiro -aventou Gaspar, correndo a buscar um alguidar com água quente.

 

 -E comida? Há algum biberão?

 

-Melchior, mete-te no carro e vê qual a farmácia de serviço. Traz fraldas e um biberão. Ah e pergunta o que é que se dá de comer nestas idades! -logo destinou Baltazar, ourives baby-sitter, sem experiência de crianças.

 

O bebé acordou, entretanto, desfazendo-se num pranto. Enquanto Melchior não voltava, vinte minutos que mais pareceram vinte horas, foram-lhe deitando leite morno nos lábios, que ele logo sugou, instintivo. Regressado Melchior, dividiram as tarefas daquela incrível manhã de Natal, uma hora depois dormitava na cama do Baltazar, protegido por almofadas dos lados para não cair, com o trio embevecido com algo que só se via nos filmes.

 

Maria chegou entretanto, apesar do feriado passava a ver se era preciso alguma coisa. Vinte e dois anos, separada do Zé Luís, entretanto despedido do Ikea, ficou abismada com a história, e logo ficou a tomar conta do pequeno anjo. Ela própria fizera recentemente um aborto involuntário e agora, ali estava um presente de Natal naquela radiante manhã no improvável presépio do Banzão. Chegada a polícia, foram todos para a GNR de Colares, onde dois guardas de serviço colocaram a cesta numa secretária, junto a uma árvore de Natal, na televisão um coro cantava o Adeste Fidelis. Seguiria para uma instituição de acolhimento, mas Maria e os outros quiseram seguir o caso, se ninguém o quisesse, estavam interessados em criá-lo, Gaspar, crente, associava o acontecimento a mais que uma coincidência.

 

Reluzindo, com o reflexo das luzes de Natal no rosto minúsculo, o pequeno a quem alguma mãe sem meios abandonara, parecia sorrir na alcofa, com todos a mirá-lo silenciosos, mas com um coração grande.

 

No rio de Colares, duas pombas brancas esvoaçavam soltas e livres, chaminés fumegantes anunciavam o lento acordar da manhã de Natal, a vida renovava-se e o que por certo seria o um drama de mais uma vida madrasta, foi o prenúncio de um novo começo na vida sempre a recomeçar.

 

 -Há-de chamar-se Salvador! -profetizou Maria, uma lágrima no olho adoçou-lhe o sorriso cheio, se tudo corresse bem, veria a maternidade reencontrada e três tios emprestados, para o que desse e viesse. 

 

 

Noite de Natal na linha de Sintra


A farmácia estaria de serviço na noite de Natal, a Mafalda asseguraria o expediente. O comboio para Sintra estava a chegar e Eduardo só pensava em chegar a casa, onde Sónia esperava para um jantar tranquilo, a dois.

 

Cinco anos na farmácia no Cacém, de tudo vira já. A farmácia era um espelho: os unguentos para o reumático da D. Marinela, sempre a aviar receitas e reclamando das artroses, os Gurosan para a fauna da noite, malandreca e ressacada, o antibiótico do Gonçalo, com o pai desempregado e a mãe a dias num infantário, a comparticipação cada vez mais pequena. O pior, eram as noites. O Cacém cada vez mais perigoso, perdido entre seringas da crise, nada como uma farmácia para perceber o mau estar geral.

 

 Levou consigo para casa uma mala com amostras que o delegado de informação médica deixara, no dia seguinte, feriado, entreter-se-ia a folhear a literatura, os laboratórios estavam sempre a inventar produtos, todos produzindo quase o mesmo efeito afinal, a indústria precisava de ser oleada e criar produtos novos, bem vira o que sucedera quando da gripe A.

 

 A viagem seria curta, cerca de dez minutos, já pouca gente ia no comboio, quase todos recolhidos às suas ceias e famílias. Na carruagem, alguns passageiros apenas, um careca amorfo, com o olhar baço refletido no vidro grafitado, duas brasileiras de roupa exuberante a caminho do trabalho, pelo cheiro do perfume barato, um jovem de óculos com um portátil, falando com amigos pelo Facebook. A carruagem seguia silenciosa, intervalada por uma voz melosa indicando a paragem seguinte, até que soava doce a palavra Algueirão naquela voz de aeroporto, quem não conhecesse poderia pensar-se em Paris ou Barcelona.

 

 Em Rio de Mouro saiu o careca, levando uma maleta, a marmita do almoço por certo, o Natal seria a dormir, sem disposição para festejos, mais um ano numa vidinha que não vai, antes vai indo. Duma carruagem contígua, chegaram quatro jovens africanos, com piercings reluzentes como árvore de Natal, boné da NBA e ténis refletores. Depois de ruidosos pontapés nas cadeiras, marcando o território, e do abrir e fechar de portas, invasivas e invasoras, um, com as calças quase pelos joelhos, aproximou-se de Jorge e apontou-lhe uma faca à jugular:

 

-Meu, passa para cá o caroço, e depressa! E não te chibes, que ainda é pior!

 

Eduardo sentiu a lâmina fria na garganta, as brasileiras, surpresas, nada disseram, que nestas coisas o melhor é ficar de fora, indocumentadas por certo. Buscou no bolso das calças a carteira com trinta euros, apenas, o cartão multibanco e cartões-de-visita de delegados de informação médica.

 

 -Só isto, sócio? Então hoje não há festa? -pelos vistos teriam de ir abordar o caixa de óculos, que fazia não ser nada com ele. Eduardo achou melhor ficar calado. Eram quatro, um sacou os trinta euros enquanto o da faca o manteve quieto, não fosse pegar no telemóvel e chamar a polícia, depressa desapareceriam na noite a beber cervejas e enrolar um charro. Junto à porta, um dos sócios, para aí com dezoito anos, subitamente empalideceu, e caiu desamparado no chão da carruagem. Surpresos, os outros começaram a desatinar:

 

-Levanta-te chavalo, estás bezano, meu? -sacudiram-no os outros, como baratas tontas, sem saber o que fazer. As brasileiras entreolhavam-se, parecia coisa do morro.

 

 -O minino bébeu? Nossa, que barra pesada! -comentou uma, sem se levantar, um decote pronunciado deixava descobertos uns peitos rijos e salientes. Eduardo virou-se para o seu sequestrador e interpelou-o:

 

-Oiçam, eu sou farmacêutico, percebo um pouco destas coisas, deixem-me tirar-lhe a pulsação -sugeriu, apesar da situação, era um profissional.

 

O da faca, com um capuz enfiado, hesitou, mas anuiu, desviando a lâmina, o rapaz do computador aproveitando a trégua inesperada, chegou-se, curioso, enquanto o Algueirão ficava para trás sem ninguém aí ter saído, Eduardo, tomando conta da situação, colocou o aparelho no braço do jovem:

 

-É quebra de tensão. Oiçam, trago aqui amostras duns comprimidos novos que estimulam o organismo, isto deve ajudar -diagnosticou, abrindo a mala das amostras que levava para ler no feriado. Abrindo-lhe a boca, ante a passividade dos amigos, enfiou-lhe uma cápsula branca, e cinco minutos depois, sentado num banco da carruagem já o jovem, Vando, era o seu nome, recuperava, com dor de cabeça e ar assustado.

 

 -O melhor é fazeres umas análises, pode ser algo do coração, ainda és novo, puto! -recomendou Eduardo. Apesar de assaltado, não resistiu a pôr a mão no ombro do rapaz, complacente com aquelas vidas perdidas, talvez nunca programadas para ser de outra forma. Acabrunhado, Vando nada disse, os outros, em silêncio, rodeavam-no. O da navalha olhou Eduardo nos olhos e com um ar fechado e inexpressivo, estendeu-lhe a mão onde ainda tinha os trinta euros do assalto. Eduardo olhou-os de relance, e sem aceitar, despediu-se, conformado:

 

 -Bebam um copo à minha saúde! Feliz Natal!

 

E saiu na Portela de Sintra, as brasileiras também, entrando num carro que as esperava, também o moço do computador sumiu na noite fria. Em breve seria Natal, também no cúmplice comboio de rejeições. Os quatro sócios seguiram para a vila, deambulando no largo junto ao paço, com o Vando agora mais descontraído. Metendo a mão ao bolso, encontrou a caixa dos comprimidos, e na frente, escrito a azul, um “Feliz Natal” em letras  salientes.

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