sábado, 31 de março de 2012

Sintra do Passado ao Presente: um passeio pela memória

José Alfredo Costa Azevedo, o cronista de Sintra do século XX descreveu nas suas crónicas do Jornal de Sintra, depois reunidas em livro, a história da vila no dealbar da primeira metade do século XX. Uma das zonas por si em detalhe analisadas foi o então “novo” bairro da Estefânea, resultado da expansão urbana da Vila Velha com a chegada em 1873 do Larmanjat, o efémero “tramway” monocarril, primeiro, e do comboio depois, em 1887. Baptizado em homenagem à rainha D.Estefânea, a jovem e malograda esposa de D.Pedro V, esse bairro compreendia a zona “nova”, a partir dos Paços do Concelho (também eles recentes, inaugurados em 1909, construídos no local onde antes estava uma capela dedicada a S.Sebastião, demolida em 1904) e as actuais Av.Nunes Carvalho e Largo do Morais(embora a ligação à Portela e Lourel seja hoje quase contínua, detenhamo-nos nestes limites.

Numa viagem ao passado, com fotos de hoje, uma memória de locais onde se fez História, embora a Memória hoje nem sempre retenha.

Começamos pelo  edifício contíguo ao actual Gabinete de Apoio ao Munícipe.

Aí funcionou a Escola Oficial Conde Ferreira, homem rico que falecendo jovem e sem filhos deixou em testamento que se construíssem 120 escolas para ambos os sexos em vilas sede de concelho. Nesta escola exerceu durante muitos anos António Joaquim das Neves, conhecido pelos antigos como Mestre Neves e que foi tio do antigo Presidente do Concelho Marcelo Caetano, e depois regente de português na Escola Primária Superior, que existiu em Sintra, na escola do Morais entre 1919 e 1925. Este mestre Neves foi igualmente avô do jornalista e antifascista Mário Neves.

Ao longo da actual R.Alfredo Costa (médico, o mesmo da maternidade em Lisboa), alguns edifícios de nota.

Logo à esquerda, a antiga estalagem da Raposa e actual sede do Espaço Llansol, por aí ter também vivido durante alguns anos essa escritora nossa contemporânea.

Este edifício foi propriedade do abastado proprietário José Antunes dos Santos, que aí viveu e morreu, e aí viveu também o Dr. Álvaro Vasconcelos, presidente da Câmara entre 1930 e 1938 (foto abaixo)e muitos anos conservador do Registo Predial de Sintra e presidente nos anos 40 e 50 da União Nacional.

No nº 9, foi a tesouraria das Finanças, e um clube com jogo clandestino no tempo da monarquia, e aí teve escritório o advogado Porfírio de Sousa Martins.

Na cave do prédio com entrada pelo nº28 existiu o Clube dos 40, fundado em 1928, que mais tarde se mudou para o local da actual Pensão Nova Sintra.

Neste pátio foi igualmente a estação do Larmanjat, o efémero monocarril que Saldanha entendeu introduzir em Portugal depois de o ver em funcionamento em França.

No nº30 existiu uma vivenda, já demolida, chamada Casa das Magnólias onde viveu o republicano e governador civil de Lisboa depois da República Eusébio Leão.

No r/c dos nº 38 e 39, a actual Casa dos Frangos, muitos anos passou o Verão João de Deus, o autor da “Cartilha Maternal”. No 1º andar funcionou a Loja Maçónica Luz do Sol, de que foi Venerável o médico Gregório de Almeida, de que fizeram parte José Bento Costa, Nunes Claro, Virgílio Horta e o próprio José Alfredo, com o nome de “António Oliveira”.
Dr. Gregório de Almeida

 O chalé avermelhado do lado oposto da rua foi propriedade do comandante Fernando Branco, um dos criadores da esquadrilha de submersíveis portugueses e ministro dos Estrangeiros e da Marinha, e avô do presidente Jorge Sampaio. Também o pai deste, o médico Arnaldo Sampaio aí residiu, mantendo-se a casa na esfera da família.


No prédio verde onde durante anos funcionou o Departamento de Urbanismo e as Varas Mistas do Tribunal de Sintra, agora de novo um serviço camarário, morou há muitos anos Carlos dos Santos Silva, um dos fundadores do Banco Fonsecas, Santos e Viana, mais tarde Banco Fonsecas e Burnay.

No prédio com o nº 43, viveu no período de Verão o general Correia Barreto, primeiro ministro da Guerra depois da República e que aqui faleceu em 15 de Agosto de 1939.Em 1900 inventou a pólvora sem fumo.

Aqui foi homenageado pela Banda da Sociedade União Sintrense, depois de os revoltosos monárquicos de Monsanto terem sido repelidos, e ovacionado pelos populares.

No 53 viveu a Ti Gertrudes, ou a “Bonecreira”, a parteira da terra, que durante anos ajudou a vir ao mundo centenas de crianças em Sintra.


De seguida passamos ao Largo D.Manuel, anteriormente chamado R.Vasco da Gama. As pérgolas e arranjo urbanístico do local são do tempo do capitão Craveiro Lopes, presidente da Comissão Administrativa depois do 28 de Maio e mais tarde Presidente da República, sendo vereador responsável o capitão Mário Alberto Soares Pimentel, então presidente da Comissão Municipal de Iniciativa e Turismo.

Antes destas obras, haviam aqui uns barracões onde a CP fazia a recolha das carruagens.

À esquerda fica a Correnteza, antes Av. Barão de Almeida Santos, grande amigo de Sintra. Na rua paralela, R.Francisco Gomes de Amorim, viveu este escritor, no nº3. A rua tem o seu nome desde 1899.

No nº5 nasceu o escritor sintrense Francisco Costa em 12 de Agosto de 1900. 


Ao fim da rua, actual acesso à Biblioteca Municipal, ficava a casa que a viúva Mantero adquiriu a um tal Peixoto, proprietário do nº15, depois da trágica morte dum filho deste num acidente de viação na Volta do Duche.

Toda esta fiada de casas teve inicio com a construção do Larmanjat, para alojar os engenheiros que vieram trabalhar na linha, pois a viagem até Lisboa nesse tempo não permitia deslocações diárias como hoje.

Uma curiosidade: foi por influência de Tomé de Barros Queirós, o homem que proclamou a República em Sintra, e tinha uma casa na rua com o seu nome desde 1926, que a partir de 1913 se iniciou o arranjo urbanístico deste jardim.

E curiosamente, os candeeiros hoje ainda aí existentes vieram da sua loja em Lisboa, conforme se pode verificar a uma aproximação atenta.

Contornando a Correnteza para a R.Câmara Pestana chegamos ao Centro Cultural Olga de Cadaval. Nos anos 30 funcionou aí o Sintra-Cinema  

Só em 1948 foi inaugurado o Cineteatro Carlos Manuel, projecto do arquitecto Norte Júnior mandado construir por António Marques de Sousa.
Onde fica o Centro de Arte Moderna foi muitos anos o Casino, de Norte Júnior também e mandado construir por Adriano Júlio Coelho. 

Funcionou nos anos 20 com récitas e espectáculos, entre eles os do Orpheon de Sintra, e foi adquirido pela Câmara nos anos 50, tendo depois lá funcionado a Escola D.Fernando II e as Finanças. Em 1997 abriu como Centro de Arte Moderna, albergando alguns anos a Colecção Berardo, e agora sub-utilizado. O Orpheon de Sintra funcionou até 1927 e chegou a ter duzentos elementos.Uma imagem de 1927:
Tornejando para a Av. Heliodoro Salgado (deixaremos outras artérias para outra ocasião), algumas notas soltas, entre a cacofonia existente pouco digna dum burgo como Sintra.
Esta artéria, hoje pedonal, chamava-se anteriormente D.Maria Pia, no tempo da monarquia, e tem hoje  o nome dum maçon e jornalista que nada tem a ver directamente com Sintra, mas com o fervor republicano de alguns dos dirigentes da época. Anteriormente era mais estreita, e parcialmente ajardinada do lado esquerdo na direcção do Largo Afonso de Albuquerque.
A 1 de Maio de 1974 assistiu à maior manifestação que até hoje teve lugar em Sintra.
Em frente do supermercado houve em tempos um varão de ferro onde os saloios amarravam os burros quando vinham às compras.

Onde fica a pastelaria Tirol( inaugurada em 1950) funcionou uma carpintaria, de um Raio, da Várzea de Sintra.

Atrás do prédio onde ficava o Jornal de Sintra existiam terras e terrenos de cultura, tudo conhecido como o Casal dos Cosmes. No prédio de gaveto, existiu um hotel com o nome de Europa. 


Na zona destes prédios hoje em recuperação, existiu antes de 1931 um estabelecimento de recuperação de bicicletas, propriedade de António Augusto de Carvalho,(foto abaixo) vencedor da I Volta a Portugal em Bicicleta, em 1927.

Descendo na direcção da Av. Miguel Bombarda, antes José Luciano de Castro, temos o Café Elite, inaugurado em 14 de Outubro de 1937, e onde se realizaram muitos saraus com o Estefânea Jazz, (foto abaixo) grupo criado em 1930 por Martins de Oliveira (quem diria…).

A estação dos caminhos de ferro sofreu inúmeras alterações no tempo de Adriano Júlio Coelho (o do Casino). O primeiro comboio eléctrico chegou a Sintra em 29 de Novembro de 1956.
Em frente da estação fica o Café Cynthia, que anteriormente se chamou Bijou.

 A praça de táxis, ontem e hoje.
Onde fica hoje o parqueamento frente à estação, esteve previsto o Hospital de Sintra, projecto de Pardal Monteiro(abaixo)

O Presidente da República da época, Teixeira Gomes, chegou a vir a Sintra lançar a primeira pedra. Mas como outras obras, nunca saiu do papel...
Descendo para os Paços do Concelho, na primeira casa morou o arqueólogo Félix Alves Pereira.

E um pouco mais à frente, onde hoje fica o Café Saudade, foi a fábrica de queijadas da Mathilde, fundada em 1850. Depois de encerrada, ali funcionou um escritório de advogado, a papelaria ABC e uma agência de viagens.

Finalmente, onde fica hoje o restaurante Apeadeiro, inaugurado em Setembro de 1970, foi a tipografia Minerva Comercial Sintrense, de João Roberto Rosado, que em 1966 se transferiu para a R.João de Deus.

Pouco alterada pelo tempo, mas para pior, Sintra não tem sabido estar à altura dos seus antepassados. Produto dum casuísmo urbanístico, deixando degradar casas com História, aqui se deixa este “relambório” para que, pelo menos, muitos de nós ao passar na sua rotina diária por estas pedras e paredes silenciosas se lembrem que também aqui se fez Sintra, infelizmente quase sem memória para os seus habitantes de hoje.Talvez só a sombra de José Alfredo contemple a sua vila e suspire, contendo a vontade de como em 1934 voltar a tocar a rebate os sinos da igreja da Torre da Vila contra os atentados já então anunciados. Josés Alfredos, precisam-se!

quarta-feira, 28 de março de 2012

Eu, prego, me confesso

Diz o primeiro ministro que a quem anda com um martelo na mão, tudo parece um prego. Fala certeiro do seu governo martelado pela troika, pois crucificados já estamos com pregos, cavilhas e brocas que sem dor e sem pudor nos tem cravado.
Com o martelo dos impostos, da supressão de direitos e da dignidade se vai pregando a cruz sem ressurreição. Mas se para uns é o prego sem compaixão, para outros é o mero alfinete, numa clara demonstração de que há marteladas e pancadinhas, e sobretudo que para muitos não há outro futuro senão meter tudo no prego. É esta a Carpintaria Portugal. Portugal a martelo.E a esperança, foi-se?

sábado, 24 de março de 2012

Teatro em Galamares nos anos 20

                                        
            Guilherme Oram,fundador do teatro de Galamares
 
Existe em Galamares um cine-teatro datado do princípio do século, onde durante anos, mercê da generosidade do visconde de Monserrate se realizaram récitas musicais, teatro amador, cinema, etc, num espaço romântico de fim de século, com balcão e plateia, decorado com pinturas murais e baixos relevos.
O restauro deste espaço é importante. Trata-se do único espaço público de Galamares, ali tocou Viana da Mota em 1923,e se fez teatro desde 1920.
Sobre o mesmo teatro e sua actividade, escrevia o “Ecco Artístico” em Dezembro de 1924:
 “Todos os que frequentam a pitoresca villa de Cintra conhecem o verdejante logarejo de Gallamares, na estrada nova de Collares.Situado entre quintas e prados floridos, a sua disposição é lindíssima, apresentando toda esta região um aspecto rústico e cheio de frescura, que caracteriza o nosso campo.
Pois n’esta pequenina aldeia,semi escondida entre arvoredos, existe um theatro há pouco construído,digno de ser anotado nas colunas do Ecco(….).A ideia da construção do theatro data de 1916.O Sr Guilherme Oram, intelligente administrador das propriedades do Visconde de Monserrate é a alma d’esta iniciativa artística. Grande amante de tudo o que se relacione com o theatro, já há muitos annos que nas épocas das ferias da escola de Monserrate organisava recitas no salão d’essa escola, recitas em que se representavam comedias mais ou menos applaudidas. D’essas noites bem passadas veio a verdadeira origem da construcção d’um pequeno theatro  onde se podessem entreter as principaes famílias d’aquelles sítios,aliando-lhe o sympatico fim de tirar os operários das vias do jogo e da taberna, por isso que lhes proporcionava um passatempo agradável, pois Guilherme Oram pensou e pensa em organizar um orpheon para aquella gente humilde e trabalhadora poder cantar os cânticos das nossas províncias, as quadras nascidas na alma triste e romântica do nosso povo.
O theatro em pouco tempo appareceu, tendo trabalhado n’elle com raro denodo os operários de Monserrate, sob a direcção de Guilherme Oram.Antonio Graça, mestre dos pintores da casa Monserrate,pintou os panneaux da salla e o panno de boca. Infelizmente, este artista morreu pouco tempo depois da inauguração do theatro. Os restantes scenarios teem sido pintados por Júlio Fonseca e Garibaldi Martins, que teem demonstrado muita habilidade e fino gosto.
O sr.Oram com o seu ideal artístico assim realizado, tem organizado recitas muito interessantes, e já neste theatro deu um recital de piano o pianista Vianna da Motta.
O verão passado fomos pela primeira vez ao theatro Monserrate, em uma noite em que se representou uma revista em 2 actos e 3 quadros, intitulada Sem pés nem cabeça, crítica engraçada aos costumes e pessoas conhecidas de Cintra, original de José Teixeira. Este novel escriptor soube produzir uma revista cheia de ditos engraçados e de profunda crítica, sem nunca usar d’um termo picante, obsceno, caso raro entre nós!
Todos os amadores representaram com distinção, tendo havido números muito bem cantados; no entanto, devemos destacar D.Lily Pereira Teixeira, D.Delfina Domingues, D.Umbelina Silva, D. Amália Cardoso, José Teixeira, Francisco Cardoso e Urbano James.
                                            José Teixeira
                                      Lily Pereira Teixeira
                                  Maria do Carmo Fructuoso
Os compéres foram Guilherme Oram e Eduardo Fructuoso,que mais pareciam artistas feitos do que simples amadores.
A sra D.Maria do Carmo Cunha Fructuoso acompanhou no piano todos os trechos da revista, com a maxima correcção.
Do guarda roupa,que era luxuoso,encarregou-se a Exma Sra D.Maria Oram.
                                         Umbelina Silva
                                           Urbano James
                                          Amália Cardoso 

O theatro,que tinha uma enchente,representada pelas principaes famílias que estavam em Cintra,em Collares e na Praia,applaudiram com enthusiasmo, havendo muitas chamadas especiaes aos principaes interpretes, aos srs Oram e José Teixeira.
Para este inverno e futuro verão já se preparam outras recitas”
                     
                          O teatro, hoje,quase recuperado

Marconi em Sintra

Inventor do primeiro sistema prático de telegrafia sem fios, em 1896,  Marconi  fez a sua primeira transmissão pelo Canal da Mancha. A teoria de que as ondas electromagnéticas poderiam propagar-se no espaço, comprovada pelas experiências de Heinrich Hertz, em 1888, foi utilizada por Marconi entre 1894 e 1895. Tinha apenas vinte anos, em 1894, quando transformou o celeiro da casa onde morava num laboratório e estudou os princípios elementares de uma transmissão radiotelegráfica, uma bateria para fornecer electricidade, uma bobina de indução para aumentar a força, uma faísca eléctrica emitida entre duas bolas de metal gerando uma oscilação semelhante às estudadas por Heinrich Hertz, um coesor, como o inventado por Branly, situado a alguns metros de distância, ao ser atingido pelas ondas, accionava uma bateria e fazia uma campainha tocar.
Marconi esteve em Portugal duas vezes, em 1912, quando fez uma palestra na Sociedade de Geografia, e em 1920, altura em que visitou Sintra, como se pode ver na foto abaixo, nas escadarias do Paço.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Florbela, no Dia Mundial da Poesia


À Tua Porta Há um Pinheiro Manso

À tua porta há um pinheiro manso
De cabeça pendida, a meditar,
Amor! Sou eu, talvez, a contemplar
Os doces sete palmos do descanso.

Sou eu que para ti atiro e lanço,
Como um grito, meus ramos pelo ar,
Sou eu que estendo os braços a chamar
Meu sonho que se esvai e não alcanço.

Eu que do sol filtro os ruivos brilhos
Sobre as louras cabeças dos teus filhos
Quando o meio-dia tomba sobre a serra...

E, à noite, a sua voz dolente e vaga
É o soluço da minha alma em chaga:
Raiz morta de sede sob a terra!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

quinta-feira, 15 de março de 2012

Destruído património em Pego Longo



Foi destruído por incúria e desconhecimento o monumento megalítico do Pego Longo, localizado na pedreira de Santa Luzia, nesse bairro, e classificado como de interesse público desde 1990.Identificado e  escavado no último quartel do século XIX, o monumento megalítico do Pego Longo erguia-se a menos de um quilómetro da anta de Monte Abraão, no topo dum maciço localizado entre os vales das ribeiras de Castanheira e de Carenque. Investigado nos anos cinquenta por Octávio da Veiga Ferreira e Vera Leisner, e, já nos inícios de oitenta, por Eduardo da Cunha Serrão, foi escavado na rocha configurando uma câmara funerária rectangular, restando hoje apenas alguns elementos originais das paredes e do tecto, conquanto algumas fossem removidas na década de noventa pelo proprietário do terreno. Os investigadores integraram-no no grupo de sepulcros destinados à inumação colectiva, frequente durante o neolítico final e o calcolítico (entre c. de 2700/2500 e c. de 2300 a.C.) Alguns artefactos recolhidos no local durante intervenções arqueológicas, nomeadamente lascas de sílex, encontravam-se já depositados no Museu dos antigos Serviços Geológicos de Portugal.
Com mais este atentado, resultante da falta de tratamento museológico e informação no local, mais depauperado fica o património arqueológico de Sintra, cuja listagem reproduzimos de anterior post neste blogue:


terça-feira, 13 de março de 2012

20 perguntas sem resposta em Sintra



Se o quotidiano de Sintra é marcado pela tensão entre a serra e suas faldas e os suburbanos depósitos de gente que como tumor cercam a vila ainda incólume, nesta muito ainda há a fazer, e para tanto, aqui se deixam algumas perguntas às quais, creio, muitos sintrenses gostariam de ver serem dadas respostas. A saber:

1-Por onde anda o fontário que durante anos adornou o largo junto à Correnteza e que misteriosamente desapareceu sem ter sido reposto ou dada explicação para o ocorrido?

2-Porque é que não há uma revista cultural à semelhança da saudosa “Vária” que deixou de ser publicada sem se ter encontrado um substituto adequado?

3- Porque demora a aprovação do novo Plano de Groer, bem como do Plano da Praia das Maçãs?

4-Para quando uma homenagem no Parque da Pena a Carlos de Oliveira Carvalho, seu administrador florestal durante mais de 30 anos?

5-Para quando a atribuição do nome de M.S.Lourenço, escritor e filósofo nascido em Sintra e falecido em 2009 a uma rua na freguesia de S.Martinho?

6-Para quando a recuperação das casas arruinadas no Rio do Porto?

7-Para quando a abertura do Hospital da Misericórdia na Vila?

8-Para quando a abertura de um parque de campismo e uma pousada de juventude, que há anos fazem falta em Sintra?

9-Para quando a introdução de acessos adequados para deficientes em todos os monumentos de Sintra?

10-Para quando a criação de contratos-programa para parcerias estratégicas entre as entidades públicas locais e as associações e agentes culturais locais?

11-Para quando uma digna homenagem a João Melo Alvim, hoje já um dos decanos da vida cultural local e no ano em que o Chão de Oliva assinala o 25º aniversário?

12-Para quando a recuperação museológica dos monumentos romanos no Vale de S.Martinho, à saída de Sintra para Lourel?

13-Para quando a revitalização do Instituto de Sintra que tão boas provas deu já no passado?

14-Para quando a revitalização com apoio das associações locais do subocupado Centro de Arte Moderna, agora que perdeu a colecção Berardo?

15-Para quando a recuperação do Hotel Netto, verdadeira gangrena em pleno centro histórico?

16-Porque não instalar um Centro de Estudos do Romantismo em Monserrate?

17-Para quando um fundo de apoio à cultura com uma percentagem da cobrança das coimas e taxas provindas das actividades económicas, gerido em cada freguesia pela respectiva junta?

18-Para quando uma campanha agresssiva de combate aos tags que vandalizam o património público e privado e dão uma imagem de incúria e desleixo?

19-Para quando a criação de hortas comunitárias em muitos baldios, agora que se propugna o regresso à terra?

20- E, por fim, e para já, porque não submeter os abates e podas agressivas de árvores ao parecer vinculativo dum Conselho Municipal de Ambiente onde tivessem assento as instituições e representantes das comunidades locais?

sábado, 10 de março de 2012

No 7º Aniversário da Alagamares


Sete são as maravilhas do mundo antigo, sete as virtudes humanas, sete os pecados mortais e sete as cores do arco-íris. Sete as colinas de Lisboa e sete também os anos que a Alagamares completou dia 9 de Março.

Projecto de carolas gisado em fins de tarde nos cafés de Galamares, Alagamares se lhe decidiu chamar, por ser esse o primitivo topónimo da aldeia onde a maioria dos fundadores morava e, porque tal como o mar alagava o rio das maçãs quando este era navegável, também assim se desejou, que como a água purificadora, o conhecimento e o desafio de alargar o espírito alagassem as mentes dos que connosco abraçaram este projecto.

Fizemos colóquios e passeios, oficinas artísticas e debates, convívios e conferências. Não esquecemos valores locais, em carne e em pedra. Zelámos para que um chalé arruinado revisse portentoso a luz de Sintra e o seu cheiro inebriante. Demos a conhecer e aprendemos. E, apesar do mar revolto e dos pequenos adamastores, continuamos nessa senda, por vezes quixotesca, mas que por isso mesmo nos torna cidadãos mais reconciliados connosco próprios, caminhando na Estrada e não nas bermas, nesta terra com uma serra por sentinela, milenar guardiã e larvar berço de lendas e histórias, de mouros e cristãos, visionários e viajantes, aristocratas e feiticeiros, espantados com o sempre odorífico triunfo do verde e em presépio aninhando casas, palácios, fontes e miradouros, na pretérita lembrança do Cruges e Calisto Elói, de Garrett e Zé Alfredo, de Anjos Teixeira e M.S.Lourenço, da feiticeira Llansol e de Nunes Claro, ou mesmo até do Carvalho da Pena cavalgando na serra, druida da floresta e dos lagos.

Utópico altar de poetas, lusitano reino dum palpável Parnasso, invocamos hoje todos os vivos, de Maria Almira a Rui Mário, de Jorge Menezes a João Mello Alvim, de Miguel Real a Sérgio Luís Carvalho, e todos os generosos artistas de muitas gerações, rodopiando em danças medievais ou em bailes das camélias, ovacionando os vitoriosos patins de Raio e Cipriano, na terra que em queijadas e travesseiros descobriu os prazeres do açúcar e orgias do paladar à sombra tutelar do Paço.

De entre eles, destacámos alguns este ano, homens e mulheres que na sua área se distinguiram e muito ainda têm a dar. A Filomena Oliveira, pitonisa da ágora sintrense e consistente entusiasta do teatro no grande palco do mundo; o Fernando Sousa, activista dos direitos do homem, em prol do império da liberdade, essa vela ainda apagada em muitos recantos deste nosso desconexo cosmos; o Jorge Menezes, eremita da casa branca, sacerdote desta terra lunar em busca da redentora luz, tecendo novelos nos labirintos da alma.

Aqui assentámos arraiais e hipnotizados mirámos o castelo onde invisíveis ogres lançam caldeirões de azeite e soturnas bruxas invadem a noite em holográficas vassouras. Aqui escutámos os passos dum rei prisioneiro e o ecoar das festas joaninas, um amargurado Camões lendo para um rei alucinado, a condessa d’Edla e D.Fernando, acorrendo à Vila com o repicar do sino em S. Martinho ao fundo.

Invisíveis faunos e visíveis heróis, incensados e perdidos, esperançosos e idealistas tomam lugar no camarote do tempo, com escolta dos pássaros e camélias, anunciando o lauto festim de Sintra à sombra da argêntea Lua.

A Alagamares está na estrada e não na berma. Sem dinheiro, mas enriquecida pelo contributo dos que amam Sintra e a querem como vila criativa e nicho de cultura, onde cada cidadão seja um jardineiro e cada munícipe um laborioso operário dessa utópica Pólis, voltado para o primado do Nós e refreando os Egos que todos juntos apenas subtraem e nada somam.

Estaremos no abate injustificado de cada árvore, na divulgação dos artistas sem luzes da ribalta e dos arredados da fama. Estaremos na luta pelo restauro do património público e privado que sangra em muitas vielas da Vila Velha ou nos iníquos depósitos de gente e frustrações que são os subúrbios a que chamam áreas metropolitanas. Estaremos no desfolhar deste livro ainda incompleto que é Sintra e as suas gentes.

É tempo de celebrar. E além de celebrar, lembrar. Lembrar que a esperança se constrói e não é só um estado de alma; que o Futuro sem desafio em breve será um passado desolador, que é este o momento e a hora da nossa geração deixar marcas e pegadas que um dia nos possam deixar dizer: valeu a pena. E ao dar a conhecer a nossa História e tradições, artistas e artesãos, tendo sempre em mira a necessidade da inscrição, como escreveu José Gil, de ter espírito crítico e modelador da cidadania na nossa apreensão das expressões culturais, atentos àquilo que com a cultura se pode alterar, inscrevendo a verdadeira mudança e não a mera reprodução de modelos e estereótipos, fazer da cultura e da expressão cultural uma arma para transformar intrinsecamente a sociedade e não apenas um camarote de vaidades ou manifestações culturais acríticas e folclóricas, pindericamente estrangeiradas e serôdias.

Somos poucos, mas seremos aquilo que nenhum triunvirato de usurários da finança conseguirá que deixemos de ser: livres e com opinião, livres para ouvir e para falar, construtivos no objectivo de destruir atavismos mentais e abrir portas à suave brisa da mudança.

Pelo ano fora, haveremos de nos ver por aí, em debates e roteiros, em intervenções e denúncias, e cúmplices, saberemos quem somos e ao que vimos, e dia a dia, evento a evento, haveremos de escrever com letra grande a palavra Cidadão.



domingo, 4 de março de 2012

Na partida de Dalila Pereira da Costa




«Pois o que vejo neste instante de passagem, é a presença de dois mundos, separados, irredutíveis (contíguos no espaço e sincrónicos no tempo?): o mundo profano onde estava há pouco e o mundo divino onde penetrei subitamente, e que subitamente me envolveu totalmente. Me envolveu e separou do mundo onde estava no momento imediatamente precedente, e que agora era exterior e distante:invisível e inexistente. Aí onde penetrei, era uma esfera de cristal, onde tudo era luz e silêncio - tudo isso que subitamente veio e me envolveu. Esfera feita duma substância poderosamente dura e frágil. Irradiante e geometricamente definida. Fremente e calma: a verdadeira vida nesse lugar desvendada. Impondo-se por uma potência irresistível, uma autoridade incontestável; mas vulnerável, susceptível de ser posta em fuga à menor falta da minha parte.»
A Força do Mundo, Dalila Pereira da Costa

Dalila Pereira da Costa, oriunda de uma família do Douro, nasceu no dia 4 de Março de 1918, tendo falecido no passado dia 2 aos 94 anos. Dalila Pereira da Costa foi uma pensadora e uma poeta que, nas suas obras, privilegiou o arquétipo, o símbolo e a saudade como meios de realização espiritual, tendo sido uma pensadora fundamental da filosofia portuguesa, corroborando a ideia de que Portugal, enquanto país messiânico, possui a chave que abre a porta dos mistérios humanos. A postura de Dalila Pereira da Costa foi própria de quem, como ela, esteve mergulhado numa tradição e num passado profundíssimos e neles se inspirou para olhar e cuidar do Futuro. Dalila deu à Saudade uma atenção especial, como única categoria ontológica e escatológica capaz de driblar a morte e conferir a imortalidade. Agora que partiu, tempo para ler ou reler as suas obras.

Bibliografia: O esoterismo de Fernando Pessoa (1971)A força do mundo (1972) Encontro na noite (1973)Duas epopeias das Américas (1974)Introdução à Saudade (1976) A nova Atlântida (1977)A nau e o Graal (1978)Orpheu, Portugal e o homem do futuro (1978) A cidade e o rio (1982 ) Elegias da terra-mãe (1983) Da serpente à imaculada (1984) Místicos portugueses do século XVI (1986) Gil Vicente e sua época (1989)Os sonhos: porta de conhecimento (1991)O novo argonauta (E a Ilha Firme) (1996)Entre desengano e esperança: ensaios portugueses (1996)D. Sebastião, El-Rei ungido: Rei eleito (1996)Os instantes nas estações da vida (1999)Dos mundos contíguos (1999)Mensagens do Anjo da Aurora (2000)As Margens Sacralisadas do Douro Através de Vários Cultos (2006)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Os tortuosos caminhos para a liberdade

As primaveras árabes estão como a nossa, anormais, tacteantes e sem certezas de que uma solução democrática e participada venha a ser o corolário das ansiedades da  rua árabe. 
Vem isto a propósito de um caso ilustrativo do muito que há a fazer ainda na afirmação do Estado de Direito e da tolerância em muitos desses Estados, alguns tentando por operações de cosmética mostrar uma suposta abertura mas sem que tal se reflicta nas práticas e no exercício do poder ou alterando o status quo: Aayat Al-Qormozi (foto acima) uma estudante de 20 anos da Universidade do Bahrein,  quando participava num comício pró-reforma na capital do Bahrein em 2011,leu um poema escrito por si no qual  criticava o rei e o primeiro-ministro daquela monarquia do golfo. Foi obrigada a entregar-se à polícia, depois de homens encapuzados terem revistado a casa dos seus pais e ameaçado de morte os seus irmãos. Na prisão foi espancada e torturada, até ser forçada a assinar documentos e a gravar um vídeo em que pedia desculpas ao rei, vídeo que foi mais tarde transmitido na televisão nacional do Bahrein.

A Amnistia Internacional pretende que a sua condenação seja anulada e que qualquer outra acusação pendente seja retirada, tendo em curso uma petição, cuja assinatura se recomenda.

 Longo e tortuoso é o caminho para a liberdade.