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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A Guiné Equatorial e a Pena de Morte

Assinala-se hoje o Dia Internacional contra a Pena de Morte, e uma vez mais se trás à colação a questão da Guiné Equatorial, país onde a mesma ainda é uma realidade, apesar de suspensões sem garantias entretanto ocorridas, face ás denuncias da comunidade internacional. 
Em 2010, este país descoberto pelos portugueses (antigas ilhas de Fernando Pó e Ano Bom)  instituiu o português como 3ªlíngua oficial do país, apesar de a nossa língua aí não ser falada. Em grande medida devido à intervenção de Portugal e, não obstante o apoio do Brasil e de Angola, abriram-se portas a um país que arbitrariamente aplica essa pena, assim envergonhando a comunidade de países civilizados a que pertencemos e para cuja abolição contribuímos de forma dianteira em meados do século XIX.
Na Guiné Equatorial até hoje o que houve foram alterações legislativas semânticas, fingindo suspender a pena de morte, que estão longe de ter alterado o paradigma existente, continuando o país na lista negra da Human Rights Watch., não tendo esse país demonstrado avanços claros na democratização das instituições, na defesa dos direitos humanos e na partilha equitativa das riquezas naturais.
Recorde-se que Portugal se tem oposto a tais práticas típicas de épocas medievais, e que em Sintra o Grupo Local 19 da Amnistia Internacional se tem destacado em campanhas pela libertação de diversos presos políticos, antigos membros do Partido Progressista da Guiné Equatorial (proibido) que também estiveram no corredor da morte. 
É este o país que, acenando às Mota-Engil, Teixeira Duarte e outras empresas mancha a CPLP, tendo sido admitido em nome da “diplomacia económica”. Depois da inépcia em lidar com a questão da Guiné Bissau, e do relativo desinteresse do Brasil e Angola pela organização, esta poderá mais não servir que para alimentar alguns burocratas africanos e portugueses, vestidos em lojas de marca no centro de Lisboa, e fazendo da lusofonia uma realidade política irrelevante e completamente dispensável, não só no quadro bilateral como no contexto da comunidade internacional. Defender a pena de morte nunca pode ser um modo de vida.


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Os 108 anos do Sport União Sintrense


São contraditórias e muito discutidas as datas da fundação do Sport União Sintrense mas certo é que dia 7 de Outubro de 1911 conforme dizem os estatutos, é a data adotada para as comemorações do seu nascimento.
Quanto à ideia de se criar um clube de Futebol em Sintra também não é consensual entre todos a iniciativa. Vejamos. Nas primeiras décadas do Séc. XX como sabem Portugal era uns pais empobrecido à beira da revolução, e é precisamente nessa época que o desporto começa pouco a pouco a dar os seus primeiros passos. As primeiras bolas de futebol ao que parece terão chegado a Portugal através de Guilherme Basto vindas de Inglaterra e também por sua iniciativa, tiveram lugar em Cascais e Lisboa entre 1888 e 1889, os primeiros contactos com a modalidade. Depressa se espalhou por entre todos esta nova modalidade que rapidamente ia conquistando praticantes de todas as idades e classes sociais.
O primeiro Clube que se conhece é o Lisbonense mas rapidamente foram constituídos outros clubes, como o Real Ginásio Club e a Casa Pia de Lisboa, que deram um impulso gigante ao futebol. Em Sintra, mais propriamente na Estefânia, o primeiro Clube a dar esses passos foi o Grupo Sport União Sintrense, criado por seis jovens entusiastas da modalidade que frequentavam a Escola Primária José Domingos Morais, no Bairro da Estefânia. Foram eles Jorge Gomes, Alfredo Duarte, Salvador de Almeida, Augusto Reis, João Veludo e Fernando Mata. Entre todos concordaram por unanimidade que fosse Augusto Reis o primeiro presidente do Sintrense.
O Sport União Sintrense na sua história oficial conta-nos que “Os primeiros contactos com o futebol em Sintra provavelmente dão-se através de um grupo de operários Lisboetas que vieram para Sintra para se ocuparem das obras de restauro do Palácio Real desta Vila em 1908. Nas suas horas de lazer, alguns destes operários entretinham-se a jogar à bola no terreiro fronteiro ao Palácio, o que concitou desde logo a admiração e o entusiasmo de alguns jovens Sintrenses que se trataram de os imitar, o que os levou a persistirem e começarem por sua vez a aprender os primeiros passos sobre este aliciante jogo. Os primeiros jogos começaram no Bairro da Estefânia, nos terrenos onde existia uma velha Praça de Touros, e que hoje são ocupados pelo Mercado Municipal. Os tais rapazes que frequentavam a Escola Primária volveram todas as suas atenções para os mais velhos que se exibiam diariamente com uma bola muito artesanal, mas que era para eles um autêntico fascínio. Mais firmes nas suas convicções e dispondo de mais tempo e maior espírito organizador, fundam o clube a que deram o nome de Sport União Sintrense, conseguindo apesar de a sua juventude ganhar com os anos, um grande espírito de grupo, que constituiu o primeiro triunfo para a consolidação da sua iniciativa”.
Durante esse tempo, a prática desportiva era suportada pelos próprios atletas, as chuteiras eram um luxo que nem todos podiam suportar, e muitas vezes jogava-se com botas de uso quotidiano. Para contornar esta situação, recorria-se a subscrições, sendo essa a única alternativa para a compra de material necessário.
À medida que que a estrutura do Clube se consolidava em Sintra iam aparecendo outros clubes na Estefânia na primeira década do Séc. XX nomeadamente os extintos- Morais Foot-Ball Club, Académico Foot-Ball Club e o New Cruzaders, Infantis Sintrenses que acabariam por se fundir ao Sport União Sintrense. Nos Anos 20, o Sintrense obtém o seu primeiro título ao disputar o Torneio de Futebol de Sintra ,ficando conhecido como o campeão de Sintra, logo se estabelecendo uma forte rivalidade bairrista entre a Estefânia, São Pedro e a Vila. Foram renhidos e entusiásticos os embates que se travaram no largo fronteiro do Palácio dos Seteais, que o Conde de Sucena, proprietário do dito Palácio, disponibilizou para que os clubes da vila de Sintra ali jogassem. É o chamado período do futebol "de balizas às costas", dado que os jogadores percorriam as ruas de Sintra, equipados e levavam consigo as balizas, arrastando consigo os adeptos que se divertiam e provocavam, por vezes com apupos e não poucas vezes em cenas de pancadaria na defesa das cores das suas equipas.
Em 1930 o Sport União Sintrense não tinha estatutos nem filiação associativa e não tinha consentimento legal para a prática desportiva. Pelas mãos de Veloso Lima, Humberto Costa, Manuel Macedo e Elísio Duarte sofreu uma remodelação total a nível organizativo, criando-se os primeiros estatutos e os corpos gerentes e obtendo autorização do Governo Civil de Lisboa. Nesse ano, o clube filia-se na Associação de Futebol de Lisboa com o nº 269. Foi nesta data que se modificaram as cores do equipamento, que era camisola vermelha e calção branco, para camisola vermelha com calção azul. Modificou-se também o emblema do Clube, adquiriu-se a primeira bandeira e elevou-se o grupo à categoria de Clube. Foi nesta altura, na tarde gloriosa de 5 de Outubro de 1930 que jogou com a 1ª categoria do Sport Lisboa e Benfica ,encontro que marcou a a inauguração do campo da Portela de Sintra.
Entretanto, o Sport União Sintrense ganhou maior estrutura e solidez como clube, modificando o seu parque de jogos e criando várias secções de diferentes modalidades. O ténis de mesa, o basquetebol, o voleibol, a ginástica, o judo, o xadrez e a pesca desportiva, são marcas de um ecletismo que se mantém. A pesca desportiva como secção no clube, conheceu momentos de grande relevo. Com efeito, o Sintrense foi o primeiro clube do país a ter uma representação de pesca desportiva. Deu brado a sua representação que desfilou, em 1944, única, na inauguração do Estádio Nacional, pela novidade e pelo impacto que causou, bem com os primeiros concursos de pesca desportiva levados a efeito no rio de Colares, a nível nacional.
Em 19 de Abril de 1944 foram aprovados novos estatutos para adaptar o clube as realidades jurídico-desportivas da época. A direcção era composta por sete membros efectivos: presidente, vice-presidente, secretário-geral, secretária adjunto, tesoureiro e dois vogais eleitos anualmente pela assembleia geral, e em 1946 foi criada a Comissão de Propaganda do Sport União Sintrense com vista a divulgação pública da entidade bem como angariação de fundos. Uma das primeiras iniciativas foi o primeiro Torneio Popular de Futebol no concelho de Sintra, que na final, teve a audiência de três mil pessoas de todos os pontos do concelho.
O futebol ganhou no clube grande notoriedade com a subida à almejada II Divisão Nacional, em 1964, conquistando no ano da sua estreia um honroso quinto lugar. (foto)

Com o aumento do profissionalismo no futebol e as suas consequentes exigências, o Sintrense não pôde acompanhar todo este movimento, quedando-se num patamar mais modesto, entre a II Divisão B e a III Divisão.
A 30 de Março de 1985 foi-lhe conferido o estatuto de utilidade pública.
De salientar uma faceta importante no seu historial que tem a ver com a instalação durante muitos anos de uma Escola Primária que funcionou na velha sede do clube durante muitos anos. 
Destaque entre os dirigentes históricos para Domingos Veloso Lima (a ele ficou a dever-se a legal constituição do clube, a aquisição da sede na rua Gomes Amorim e o campo da Portela em 1930) Manuel Soares Barreto, Barros Queirós (vitima do estado novo em 1942, o seu nome foi censurado para os órgãos sociais do clube). Mário Travassos Valdez, António Forjaz (em cujo mandato o clube sobe à segunda divisão nacional), António Manata, José Nunes, Fernando Ventura ou Adriano Filipe

terça-feira, 1 de outubro de 2019

China, dentro da Muralha



Escreveu um dia Alain Peyrefitte que quando a China despertar, o mundo tremerá. Setenta anos depois da proclamação por Mao Tsé-Tung da Republica Popular da China, que hoje se assinalam, o gigante adormecido está cada vez mais acordado e presente no mundo globalizado, com expressão mais recente no novo projeto da Rota da Seda com que deseja afirmar uma dominação imperial, embora só fora de portas.

Até aqui chegarmos, a uma China de capitalismo de Estado e afirmação tecnológica, houve a anexação do Tibete, a luta contra o Kuomintang, 45 milhões de mortes entre 1958 e 1961, principalmente por causa da fome, e entre 1 e 2 milhões de proprietários de terra executados sob a acusação de serem "contrarrevolucionários". Nos anos sessenta, a Revolução Cultural, uma das maiores tragédias do século XX, afirmou um modelo comunista diverso do soviético, que só se esbateria com a morte de Mao, em 1976, e a prisão do Bando dos Quatro, feitos bodes expiatórios dos excessos desses anos de fanatismo. Deng Xiaoping rapidamente arrebatou o poder ao sucessor de Mao, Hua Guofeng, e embora nunca tenha sido chefe do partido ou do Estado, foi o "líder supremo" de fato da China na época e a sua influência dentro do Partido levou o país a importantes reformas económicas e à criação de pontes com o Ocidente, materializadas com a politica de "um país , dois sistemas", adotado a quando do regresso de Hong Kong e Macau à China. Posteriormente, o Partido Comunista afrouxou o controle governamental sobre a vida dos cidadãos e as comunas populares foram dissolvidas, sendo que muitos camponeses receberam arrendamentos de terras, aumentando os incentivos para a produção agrícola. Estes eventos marcaram a transição da China de uma economia planificada para uma economia mista com um ambiente de mercado cada vez mais aberto, um sistema chamado por alguns de socialismo de mercado e que o Partido Comunista da China oficialmente descreveu como "socialismo com características chinesas", e que tem vindo a permitir que o Império do Meio seja hoje já dominante a nível mundial. Mas se a economia passou de socialista a capitalista de Estado quase sem se dar por isso, a democracia não acompanhou o fenómeno, com os eventos da Praça Tiananmen em 1989, a perseguição aos dissidentes e a falta dum sistema democrático e plural  o demonstraram.
Quando passam setenta anos da gloriosa jornada rumo a um socialismo que nunca existiu, falta à China a abertura à democracia, o respeito pelos direitos humanos e sociais, baseados em trabalho escravo, o respeito pelo ambiente, marcado pela delapidação dos recursos naturais e a afirmação da força da repressão contra a força da razão, ante um mundo salivante e temeroso de afrontar esse mercado e fonte de financiamento muitas vezes obscuro e sem regras. Abertura económica e política, é algo que tarda em despertar para lá das pedras da Grande Muralha.





domingo, 29 de setembro de 2019

A Quinta do Cosme

Juan Francisco Affaitatti, de Cremona, fixou-se em Lisboa no final do século XV, ligado ao tráfico negreiro, ao comércio do açúcar da Madeira e às especiarias. Foi armador da segunda frota que foi à Índia em 1502, e nos primeiros anos actuou como espião de Veneza informando-a dos descobrimentos portugueses. Entre 1508 e 1514, a troca de um contrato de pimenta, ficou obrigado a pagar as despesas das praças militares de África, das Casas da Suplicação e do Civil.
As suas origens são obscuras. Segundo alguma bibliografia, seria filho natural ou irmão do conde Ludovico de Cremona. Por sua vez, o conde de la Vauguyon afirma que o biografado era filho de um modesto negociante lombardo. Existiam mesmo rumores de existir sangue judaico nos Affaitati.A partir de Juan Francisco, encontravam-se entre as proles de mercadores que controlavam as rotas comercias entre o sul e o norte da Europa, sendo pioneiros no comércio de pedras preciosas. Antuérpia era a sede desses negócios que se disseminavam por outros focos mercantis europeus. Foi ainda no decorrer do século XV que João Francisco Affaitati se estabeleceu em Lisboa. Tinha a missão de informar Veneza sobre os resultados das expedições ultramarinas portuguesas, mantendo, assim, uma estreita relação com os representantes da Sereníssima na capital portuguesa, nomeadamente com Pietro Pasqualigo. Quando a frota de João da Nova regressou da Índia, Affaitati escreveu, com data de 10 de Setembro de 1502, uma carta a Pasqualigo, então em Madrid.
Nesse mesmo ano, Affaitati armara uma das naus que partiram rumo à Índia, acompanhando a segunda armada de Vasco da Gama. O seu feitor Matteo di Bergamo seguia nessa nau. Esta viagem foi-lhe particularmente lucrativa segundo revela numa carta escrita a 14 de Setembro de 1503 e dirigida a Domino Lucha e aos seus irmãos em Cremona: “de nostra parte sempre haveremo tante spiziarie vellerano zercha ducati 5000, et lo capital fo ducati 2000, pocho piú […]”.
Dedicado ao comércio de especiarias, estabeleceu negócios com os cristãos-novos Francisco e Diogo Mendes. Entre 1508 e 1514, os Affaitati e os Gualterrotti, por concessão de D. Manuel, tinham o monopólio da venda de especiarias nos Países Baixos, período durante o qual fizeram contratos no valor de 117 004 880 réis. Juntaram-se a esse contrato outros mercadores italianos, os Fugger e os Welser. O sobrinho Gian Carlo Affaitati e o genro João Carlos Doria eram os seus representantes em Antuérpia.
A 10 de Junho de 1513, D. Manuel renovou por mais um ano o contrato em que Affaitati se comprometia a comprar dois mil quintais de pimenta, por ano, à coroa. Segundo um outro alvará desse mesmo ano, o mercador encontrava-se obrigado a carregar a pimenta para o Levante sem poder vendê-la em Lisboa. Em 1525, João Francisco assinou um contrato com o rei sobre a compra de 13 mil quintais de pimenta a 34,25 cruzados o quintal, 400 quintais de cravo a 50 cruzados, 700 quintais de canela a 65 cruzados e 2 mil quintais de gengibre a 30 cruzados.
Affaitati negociava também no açúcar da Madeira. Em 1502, em conjunto com Jerónimo Sernigi e João Jaconde arrematava trinta mil arrobas de açúcar destinadas a Águas Mortas, Livorno, Roma e Veneza. Dois anos depois, celebrava um contrato para a compra de 3500 arrobas e, em 1512, um novo contrato para a compra de seis mil arrobas de açúcar. Passados quatro anos, arrematava os quintos e os dízimos sobre o açúcar branco, contratos que repetiu em 1518, 1520 e 1521, estes dois últimos anos em parceria com Janim Bicudo. Entre 1502 e 1529, comercializou 177907,5 arrobas de açúcar da Madeira, notabilizando-se como o maior negociante desta mercadoria durante aqueles anos.
A sua fortuna e os seus negócios tornaram-no credor da coroa. Em 1509, o rei ordenava que lhe fossem entregues 8283 arrobas e 5,5 arráteis de açúcar em pagamento de diversas dívidas. Num mandado de 28 de Abril de 1528, a rainha ordenava que se pagasse a Affaitati 512400 réis que tinha em dívida.
Dada a prosperidade dos seus negócios, desfrutava de uma posição social privilegiada, similar à dos florentinos Sernigi e Marchionni. Foram-lhe mesmo confiados privilégios semelhantes aos que tinham os mercadores alemães.
O prestígio da família continuou com os seus descendentes. Após a sua morte, quem ficou a representar os interesses dos Affaitati em Portugal foi o genro e sobrinho, João Carlos Dória, o qual se casara com a sua filha Lucrécia. Em Carvalhal do Bombarral, construiu um solar conhecido por Solar da Quinta dos Loridos .
Nunca se chegou a casar, embora lhe sejam conhecidos seis filhos: Cosme, Agostinho, Inês e Madalena Affaitati, filhos de Maria Gonçalves, cristã-nova e fanqueira; Lucrécia e Antónia Affaitati, filhas de Branca de Castro, cristã-nova de Setúbal.
Através dos enlaces matrimoniais dos seus filhos, Affaitati consolidou a sua rede de influências e a sua posição social. Cosme e Agostinho Affaitati, casados com D. Maria de Vilhena e D. Maria de Távora, e de Inês Affaitati, esposa de D. Leonardo de Sousa. Agostinho foi trinchante-mor de D. João III.
Cosme, aportuguesado Lafetá, será o comandante das forças portuguesas na tomada do morro de Chaul, na Índia, em 1540. Francisco de Andrade, nos Comentários, apresenta-o como«general da nossa gente de guerra em tôda a costa do Norte com muitos poderes, que o Viso-Rei lhe dera, um fidalgo de grande ânimo e conselho chamado Cosmo de Lafetar”
Cosimo Affaitati, por volta de 1540 também, construiu no sopé da Serra de Sintra, junto a Colares, um palácio renascentista, numa altura em que  havia já adaptado o apelido de Lafetá. Quem de Galamares siga para Colares, na estrada nacional, quinhentos metros depois encontra um sítio a que os locais chamam Quinta do Cosme( foto abaixo).Cosme era Cosimo, e o palazzo jaz em ruínas, apenas restando uma fachada consumida pelo tempo,  classificada como de interesse concelhio mas ao abandono. Quando forem até à praia, detenham-se um pouco e recuem quatrocentos anos, e aí poderão imaginar Juan Francisco e Cosimo Affaitati, ou Lafetá.
Foto de Pedro Macieira

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Globalistas e Patriotas

Na sessão de ontem da Assembleia Geral das Nações Unidas confrontaram-se duas perspetivas do nosso mundo  claramente antagónicas. Por um lado, os defensores, como Trump, dum mundo isolado, olhando o vizinho de soslaio, para quem o Outro é um estranho, um rival ou um inimigo, chamando de patriotas aos que negam a integração num mundo cada vez mais interligado, seja pelos problemas, como os do clima, do comércio ou da internet. Ou  os seus sequazes tropicais, como Bolsonaro, negando ser a Amazónia um pulmão património da Humanidade e tão só um problema brasileiro. Para ambos, a presença no principal areópago da comunidade internacional é como participar numa reunião de condomínio onde se vai exigir o pagamento da quota pelos condóminos,  mas se adia a realização das obras necessárias, com gradual degradação do imóvel.
Ao contrário, e muito oportunamente, Marcelo Rebelo de Sousa habilmente desmontou no seu discurso este falacioso argumento. O patriotismo implica ser orgulhosamente igual entre iguais, ecuménico e atento, caminhando COM e não APESAR DE. 
As desigualdades criadas pela globalização desregulada levam os países a fechar-se sobre si, e os profetas de grandezas passadas a ganhar ascendente prometendo o regresso ao soberanismo bacoco e a um mundo great again. Só o medo do Outro, num mundo desregulado e onde a abundância prometida pelos baby boomers se revelou ser finita e sujeita a choques e confrontos alimenta estes cantos de sereia. O mundo de hoje não se compadece com as aldeias de Astérix, até porque a poção mágica está a acabar, e já não são só os gauleses quem teme que o céu lhes caia em cima da cabeça.
Ser patriota hoje é assumir que o mundo é só um, os problemas são globais e sermos individuais e diferentes tem de ser a forma como contribuímos para a soma positiva, e não para a subtracção em capacidade de mobilização, visão de futuro e possibilidade de triunfo. Já não há "orgulhosamente sós".


terça-feira, 24 de setembro de 2019

A serra enquanto redenção


Visitar Sintra não é só realizar um mero roteiro cultural, impõe-se, sobretudo, como uma experiência sensorial. Importa ao visitá-la, ver as pedras para lá das formas, ouvir e deixar-se inebriar pelo silêncio, esse direito não consagrado nos códigos, encetar um regresso à terra e ao solo húmido e orvalhado. Ali pairam os fantasmas de improváveis faunos, líricas condessas e nórdicos príncipes numa ópera dos sentidos, ali se capta o imenso e melodioso cântico que só o silêncio propicia.
Em Sintra são inesgotáveis as palavras por escrever, as esculturas por esculpir e os sonhos por idealizar, por entre a parafernália do clorofila e odor. Apressados visitantes não verão os etéreos faunos, mas eles lá estão, tocando flautas de Pã, não verão gamos e bambis, mas traquinas pulam no bosque, bebendo nos lagos, não verão fadas, igualmente, mas felizes esvoaçam sobre a Pena, até uma holográfica Elise espreita do alto das pedras atlantes, e sorri. Em Sintra é preciso sentir, para então ver, e só então se passará para Shangri-La, paraíso de melódicas sinfonias de verde onde os deuses plantaram o seu Jardim.
Em Sintra, a felicidade é possível, primeiro como aguarela, depois como emoção, em catártica e eterna redenção.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Sintra e as alterações climáticas

   Foto: Pedro Macieira, Rio das Maçãs


O tema do clima está na ordem do dia com cada vez maior premência, levando a que na próxima semana de novo os líderes mundiais se voltem a sentar, para discutir documentos jurídicos que de pouco servirão se os grandes poluidores não se esforçarem no terreno para contrariar a carbonização e o aquecimento global.
Entre nós, o tema entrou na agenda política, alternando entre o catastrofismo e o disparate, alimentando modas e novos clichés mais para alimentar as redes sociais que para inverter a tendência no terreno.
Até Sintra, o tradicional Delicious Eden das sombras frescas e da brisa amena se verá confrontada no futuro com uma realidade que por ora se estranha, mas má será se vier a entranhar-se.
Em Sintra, segundo o "Plano Estratégico do Concelho de Sintra Face às Alterações Climáticas" em tempos coordenado pelo prof. Filipe Duarte Santos, antevê-se que em meados do século XXI as temperaturas médias anuais subam1.7 a 3.3 °C, com maior ênfase no Verão (3.6ºC a 5.4°C em julho) do que no Inverno (0.7 a 1.6 °C em dezembro). No final do século a elevação da temperatura média anual pode chegar a 2 a 3°C acima do que são atualmente no Inverno e 5º a 10º C no Verão, com ondas de calor mais frequentes e noites tropicais em que poucas vezes a temperatura descerá abaixo de 25º C. A precipitação média no final do século baixará de 800 mm para 540 a 700 mm e a radiação solar aumentará até um máximo de 8%.
Haverá reduções anuais no escoamento dos principais cursos de água na ordem dos -30% em meados do século e -50% para o final do século, e para os aquíferos é de esperar uma diminuição da capacidade de exploração sustentável. O impacto no rebaixamento do nível nos aquíferos será ainda modesto, menor que -0,5 m, mas para o final do século já alcançará máximos de -0,7 m no final do semestre húmido, e -0,8 m no final do semestre seco.
O consumo de água dos sintrenses, agora da ordem de 80 m³ entre 2020 e 2030 será 3% a 15% acima dos valores atuais. O nível médio do ar continuará a subir, com cenários de 0,2 m a 1,4 m para o horizonte de 2100.
Fenómenos de precipitação intensa irão promover a erosão das arribas, e a modificação do regime das ondas associada às alterações climáticas deverá aumentar a deriva litoral e, portanto, o potencial de transporte de sedimentos, predominante para sul, em até mais 20% em relação à situação atual. A configuração das praias aponta para reduções da superfície dos areais, embora muito variáveis de praia para praia. Nas mais encaixadas e instaladas em desembocaduras fluviais, a redução será pequena. Pelo contrário, as praias mais abertas, estreitas e limitadas pelo lado de terra por uma arriba, como a do Magoito, que são extremamente sensíveis à rotação do rumo das ondas, devem perder grande parte do areal.
Os cenários colocados pelos autores do estudo sugerem um aumento do stress ambiental na vegetação florestal. O stress hídrico poderá tornar as árvores mais suscetíveis e aumentar os danos causados pelas pragas e doenças.
No futuro aumentará também o risco de incêndio florestal e a deterioração dos ecossistemas florestais pela dificuldade de regeneração das árvores e pela proliferação de espécies invasoras mais competitivas e melhor adaptadas às novas condições climáticas.
Prevê-se o aumento da incidência de pragas e doenças, assim como o risco de invasão por novas espécies de regiões de clima tropical ou subtropical. É também muito possível que as taxas de crescimento de pragas e doenças sejam estimuladas pelo aumento da temperatura, sobretudo quando têm a possibilidade de ter várias gerações por ano.
O aumento das temperaturas no Inverno, quando acompanhado por humidade elevada, poderá favorecer a expansão de alguns agentes patogénicos, modificando a estrutura e composição da vegetação, com consequência para a restante biodiversidade: a fauna seguirá os destinos do seu habitat e a comunidade de insetos sofrerá com as alterações climáticas, uma vez que são animais de sangue frio.
Algumas populações, especialmente aquelas que têm distribuição geográfica limitada, pequenas áreas de habitat ou reduzido número de indivíduos (como o cravo-romano, o feto-de-folha-de-hera, o miosótis-das-praias ou a boga portuguesa), poderão não ter capacidades para se adaptarem às rápidas alterações climáticas, e a sua extinção pode ocorrer em populações com baixa taxa de reprodução e capacidade de dispersão.
Dentro dos mamíferos o grupo dos morcegos é o mais vulnerável, dada a dependência do seu metabolismo com a temperatura e a sua dieta depender da comunidade de insetos.
Os cenários indicam que em finais do século as ondas de calor serão um fenómeno frequente, afetando grupos mais sensíveis como as crianças e os idosos. O problema do ozono poderá persistir e agravar-se pelo menos até meados do século, e o número de dias propícios a salmoneloses na região de Sintra aumentará dramaticamente no Verão.
O risco de transmissão de doenças por insetos subirá em todo o concelho. Mesmo no Inverno o clima passará de totalmente desfavorável a ocasionalmente favorável. O Verão continuará de forma geral a ser a estação do ano mais favorável à transmissão, embora em meados do século o clima se torne tão seco que o risco começará a diminuir.
As alterações climáticas em Sintra vão no sentido de aumentar a produção de pólenes ao longo de todo o século, agravado pela diminuição da precipitação que promoverá menos a limpeza da atmosfera. A radiação solar aumentará significativamente, e como o número de dias confortáveis para atividades no exterior aumentará, tudo se conjugará para um maior risco de melanomas.
Apesar da vasta área florestal do Parque Natural Sintra-Cascais (3675 ha), o valor anual de sequestro é de cerca 53 500 toneladas de CO2, ou seja, da ordem de 2% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) dos sintrenses (âmbito total). Segundo os autores do estudo, no caso específico de Sintra, duas estratégias surgem como as mais adequadas para sequestro biológico de carbono: o aumento permanente da área florestada e do número de árvores de arruamento, e o aumento da duração média das árvores com vista à meta de longo prazo de sequestro de 8% das emissões de GEE.
Estima-se que o índice de emissões totais (estritas e implícitas) per capita seja da mesma ordem do valor médio nacional, ou seja, 8 toneladas de CO2 eq./habitante. No entanto, este valor pode ser reduzido se houver uma generalização das energias renováveis, edifícios mais eficientes, melhores transportes públicos e mais ciclovias.
Sintra faz parte desde 2015 do consórcio que irá desenvolver a metodologia do projeto ClimAdaPT.Local para aplicação a nível nacional das estratégias municipais para as alterações climáticas, sendo uma da uma das autarquias que já têm estratégias próprias para os seus territórios. O tempo urge, porém, e o que até há pouco eram profecias catastrofistas boas para filmes de ficção, pode efetivamente descambar num panorama sem retorno. Há que tomar medidas no terreno, desde já, alertando os peritos que 2030 pode ser o ano em que se nada for feito, se poderá dar a batalha como perdida.
Como alertava um famoso programa televisivo de Luís Filipe Costa nos anos 70, inspirado nos então premonitórios avisos de Gonçalo Ribeiro Telles, “Há Só Uma Terra”.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Hoje quero ser reacionário


Confesso. Gosto de carne, de vinho, e ainda mais duma imperial fresquinha, como sandes de courato à porta do estádio do meu clube e adoro leitão e arroz de pato, gosto de Mozart, Leonard Cohen, Eric Clapton, Sérgio Godinho, Ivan Lins e de música celta. Não sou gay, nem vegan, nem marialva, nem racista. Não fumo charros, não gosto de trance, gosto vagamente de hip hop e regaton. Também não sou apreciador de touradas (divirto-me mais quando é o toiro a perseguir os forcados), nem de novelas lamechas, de fotos idiotas no Instagram, da música da Romana ou das piadas do Fernando Rocha. Mas convivo com isso tudo, até com o José Castelo Branco, a Cristina Ferreira, o Marques Mendes ou os clubes de futebol rivais, ciente que há espaço para a diversidade, excepto quando alguém quer acabar com ela. Convivo com os que acham que a Venezuela de Maduro é uma democracia, que Salazar foi o Midas das Finanças, que o Benfica é o melhor clube do mundo ou que o Padre António Vieira foi um perigoso esclavagista. Sem deixar de pensar como penso, oiço, assimilo e mantenho-me nas convicções que julgo serem certas, sem veleidades de estar sempre certo ou já ter nascido quando outros ainda eram projetos de embrião.
Há porém modas que se tornam idiotas, e comportamentos da moda que ganham estatuto não pelo seu mérito, mas porque se tornaram "virais". As greves climáticas resolvem o quê, tirando um dia sem aulas a acumular o lixo dos cartazes nas ruas ao fim do dia? Vamos passar todos de repente a andar de comboio e de bicicleta? Vamos combater o uso do plástico em manifestações para onde levamos garrafas de água (de plástico…)?
A esta altura quem me lê já me catalogou como “cota” reacionário” e colocou no Index do pensamento desalinhado, preparando-se para me insultar com algum comentário idiota. É o paradoxo das novas ditaduras do pensamento único e das certezas que reduzem. Transmite-se, mas não se pensa, ou dialoga.
A virtude maior da natureza humana é a inteligência para viver em comunidade sem perder a individualidade, respeitar quem não pensa como nós, e exigir respeito por parte de quem não pensa. Tudo o resto é barbárie em versão android, onde a liberdade cede para a alarvidade, a tolerância para a jactância e falar de democracia se torna heresia. Paulatinamente, vamos esvaziando as ideias e ensaiando a cegueira, venerando gurus inventados nas redes sociais que se esvaem no final do dia ou quando deixam de ser novidade.
Deixemos de ser Dead Men Walking em luta por uma Guerra dos Tronos, a vida não é um holograma na Netflix nem uma mensagem de Whatsapp dentro dum pequeno eletrodoméstico hipnotizador, que qual Big Brother a todos arrasta para uma nova Nave dos Loucos, um mundo fake e salivante.  Acordemos!.

Parabéns, dr Sampaio!

Jorge Sampaio completa hoje 80 anos, durante os quais foi espetador e protagonista dos acontecimentos que marcaram a vida nacional entre a ditadura e a democracia. Neto dum oficial da Marinha, o comandante Fernando Branco, que construiu a sua casa de Sintra que durante quinze anos diariamente contemplei da janela do meu gabinete, e onde várias vezes o vi, passeando no jardim, filho conceituado médico Dr. Arnaldo Sampaio, de ascendência judaica pelo lado materno, desde os anos 60 se destacou como líder estudantil na célebre greve académica de 1962, e depois como advogado de presos políticos e opositor à ditadura. Após o 25 de abril, depois duma passagem pelo já desaparecido MES, foi líder socialista, presidente da câmara de Lisboa, secretário geral do PS e presidente da república, num período marcado pela Expo 98, o drama de Timor, o handover de Macau e a polémica demissão de Santana Lopes, em 2005. Sportinguista de sempre, viajado e cosmopolita, depois da presidência abraçou uma agenda internacional que passou pela Aliança das Civilizações, a luta contra a tuberculose e o apoio aos estudantes sírios expatriados. Uma vida de causas, um percurso de mundividências, um olhar humanista e preocupado sobre um mundo que quando assumiu a presidência vira já a primeira guerra do Golfo, a perestroika e a queda do muro de Berlim, e ainda veria o 11 de setembro, a invasão do Iraque e do Afeganistão. Foi, porém, Timor a grande causa nacional do seu período, num esforço do país em corrigir o que a inevitabilidade histórica não conseguiu controlar em 1975, fazendo desse processo a nossa “boa” descolonização, que depois da invasão indonésia em 1975, do massacre de Santa Cruz, da prisão de Xanana em Cipinang e do referendo de 1999 permitiu, numa corrente de solidariedade mundial, que Timor Leste fosse, enfim, a última parcela do império a trilhar os caminhos da autodeterminação e da independência.E todos nós acendemos velas, entoámos a canção de Luís Represas e nos emocionámos com o Nobel de Ramos Horta e Ximenes Belo. Por uma vez, o país estava todo do mesmo lado, em reconciliação com a História, que assim fechava a última página desde que se desembarcara em Ceuta num solarengo agosto em 1415.

Na serenidade dos seus oitenta anos, vividos intensamente, Sampaio é hoje um senador da República, um homem que viveu vários regimes e esteve presente em muitas lutas, escolhendo sempre a barricada da ética republicana e da luta pelo valor supremo sem o qual viver não vale a pena: a Liberdade.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

As eleições enquanto reality show


Não sendo comentador político, mas não sendo apolítico, gostaria de aqui deixar algumas notas sobre o ato eleitoral de 6 de outubro, apontando algumas ilações que dele (e dos últimos atos eleitorais, em geral), em minha opinião se devem extrair.
Em primeiro lugar, ver se se confirma a consolidação da abstenção como fenómeno endémico e que veio para ficar, ampliada agora pelo alargamento dos inscritos a mais um milhão de residentes no estrangeiro, dos quais só cerca de 1 a 2% deverá votar. Não chega o argumento de que o fenómeno é já corrente nas democracias ocidentais, e, não deslegitimando de forma alguma no plano das regras os vencedores da noite, dá que pensar, e, apesar de sempre que ocorrem eleições se falar da necessidade de refletir sobre a abstenção e suas causas, a verdade é que contados os votos, deitados os foguetes e distribuídos os empregos ninguém volta a falar do assunto ou faz mea culpa, dando um contributo para a reversão da situação.
Os partidos em Portugal tornaram-se corporações de interesses e sindicatos de lóbis, divorciados da sociedade e agarrados a dogmas, capelas e clientelas, e aqui incluo até os ditos antissistema, no fundo também ela em busca de um sistema.
Toda a nossa cultura e praxis política carece, porém, de ser alterada, a começar nas mentalidades, algo difícil, pois até os jovens que se envolvem na política acabam por corporizar e encaixar no discurso dominante e suas representações formais, reproduzindo tiques e mimetismos das gerações anteriores e promovendo a cultura de fação, apesar das novas roupagens e recursos supostamente irreverentes e modernos, mas no fundo em tirocínio para mais do mesmo.
A causa para este estado comatoso deve ser procurada essencialmente na sociedade blindada e supérflua em que nos tornámos, atávica no maniqueísta apontar dos bons e dos maus, reduzindo a política a um fait-divers ou concurso de simpatias e a um reality show em prime time. Tudo espetáculo, e contudo, com total ausência de discussão das escolhas ou real debate de ideias, se é que ainda há ideias, mortos que estão os Ideais.
A sociedade portuguesa é avessa e diletante no que a um profundo e cirúrgico debate de ideias efetivamente respeita, deixando o debate político nas mãos de dois ou três grupos de media politicamente engajados e veiculando uma opinião publicada que nem sempre traduzem a verdadeira opinião pública, permeável ao tilintar de sound bites e chamando política às folclóricas arruadas que anunciam a chegada do circo à cidade. Daí que, instalado e larvar, o novo rotativismo vá secando o país que pensa, que tem ideias, que quer inovar, qual eucalipto invasivo neste pinhal à beira-mar plantado, capturado pelos rituais tribais, a emulação dos chefes, a domesticação dos conversos e a frenética venda de realidade virtual. Esse país continua por aprofundar, com ou sem eleições, e só quando o ciclo das claques sem cérebro se esgotar (se alguma vez se esgotar) e todos, transversalmente, oriundos daquilo  que até há pouco se chamava esquerda e direita refletirmos seriamente sobre o que somos e queremos, poderemos começar então a tentar mudar este país na sua essência, forças e fraquezas, para lá da mera troca de rostos e protagonistas. Tarefa difícil, porém, aquela que vale a pena perseguir, por difícil ou ciclópica que seja.
Na liturgia do reality-show eleitoral, uns ganharão o poder, parabéns, outros perderão, para a próxima será, a verdadeira mudança, contudo, está ainda longe de ganhar nas urnas (se o voto é a festa da democracia é tétrico celebrá-lo em urnas…) pois enquanto tal revolução de ideias e comportamentos não ocorrer, o Portugal que quer e tem de mudar ciclicamente ficará entregue aos burocratas de serviço, esperando instruções de Bruxelas. Alguém porventura vê os partidos organizar debates aprofundados, sentar a massa cinzenta à mesa a discutir soluções, e ouvir, argumentar, pensar o país real, para lá dos brejeiros beijos às peixeiras, as arruadas ruidosas e os comícios (e bebícios...) de bifanas e febras durante infindáveis e esquizofrénicos dias?
Novos paradigmas precisam-se, auscultando a sociedade, deitando-a no psicanalista, aprofundando o diagnóstico. Não podem nem devem os sequiosos de mudanças ficar, porém, por aí ou mero protesto, nas acampadas folclóricas, nas greves climáticas ou nas páginas do Facebook. Mudar impõe uma atitude ativa, não por reação ao adversário ou sem saber para onde, arregaçando as mangas e interiorizando a verdadeira democracia virada para as pessoas e o seu anseio por felicidade e futuro. Esse o debate, essa a causa mobilizadora que a sociedade portuguesa ainda não levou a sério, sobretudo por tacanhez e fraqueza das suas anémicas elites, insistindo em não ver a floresta para além da árvore. Enquanto tal estado de coisas continuar, enquanto a forma se sobrepuser à essência, a abstenção e o divórcio dos cidadãos continuarão a aumentar e o país enfrentará o desencanto que perigosos chamamentos de sereia poderão um dia atrair para perigosos rumos.
PS- Esta não é a opinião de um pessimista. É a opinião de um otimista avisado.