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quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Hoje quero ser reacionário


Confesso. Gosto de carne, de vinho, e ainda mais duma imperial fresquinha, como sandes de courato à porta do estádio do meu clube e adoro leitão e arroz de pato, gosto de Mozart, Leonard Cohen, Eric Clapton, Sérgio Godinho, Ivan Lins e de música celta. Não sou gay, nem vegan, nem marialva, nem racista. Não fumo charros, não gosto de trance, gosto vagamente de hip hop e regaton. Também não sou apreciador de touradas (divirto-me mais quando é o toiro a perseguir os forcados), nem de novelas lamechas, de fotos idiotas no Instagram, da música da Romana ou das piadas do Fernando Rocha. Mas convivo com isso tudo, até com o José Castelo Branco, a Cristina Ferreira, o Marques Mendes ou os clubes de futebol rivais, ciente que há espaço para a diversidade, excepto quando alguém quer acabar com ela. Convivo com os que acham que a Venezuela de Maduro é uma democracia, que Salazar foi o Midas das Finanças, que o Benfica é o melhor clube do mundo ou que o Padre António Vieira foi um perigoso esclavagista. Sem deixar de pensar como penso, oiço, assimilo e mantenho-me nas convicções que julgo serem certas, sem veleidades de estar sempre certo ou já ter nascido quando outros ainda eram projetos de embrião.
Há porém modas que se tornam idiotas, e comportamentos da moda que ganham estatuto não pelo seu mérito, mas porque se tornaram "virais". As greves climáticas resolvem o quê, tirando um dia sem aulas a acumular o lixo dos cartazes nas ruas ao fim do dia? Vamos passar todos de repente a andar de comboio e de bicicleta? Vamos combater o uso do plástico em manifestações para onde levamos garrafas de água (de plástico…)?
A esta altura quem me lê já me catalogou como “cota” reacionário” e colocou no Index do pensamento desalinhado, preparando-se para me insultar com algum comentário idiota. É o paradoxo das novas ditaduras do pensamento único e das certezas que reduzem. Transmite-se, mas não se pensa, ou dialoga.
A virtude maior da natureza humana é a inteligência para viver em comunidade sem perder a individualidade, respeitar quem não pensa como nós, e exigir respeito por parte de quem não pensa. Tudo o resto é barbárie em versão android, onde a liberdade cede para a alarvidade, a tolerância para a jactância e falar de democracia se torna heresia. Paulatinamente, vamos esvaziando as ideias e ensaiando a cegueira, venerando gurus inventados nas redes sociais que se esvaem no final do dia ou quando deixam de ser novidade.
Deixemos de ser Dead Men Walking em luta por uma Guerra dos Tronos, a vida não é um holograma na Netflix nem uma mensagem de Whatsapp dentro dum pequeno eletrodoméstico hipnotizador, que qual Big Brother a todos arrasta para uma nova Nave dos Loucos, um mundo fake e salivante.  Acordemos!.

Parabéns, dr Sampaio!

Jorge Sampaio completa hoje 80 anos, durante os quais foi espetador e protagonista dos acontecimentos que marcaram a vida nacional entre a ditadura e a democracia. Neto dum oficial da Marinha, o comandante Fernando Branco, que construiu a sua casa de Sintra que durante quinze anos diariamente contemplei da janela do meu gabinete, e onde várias vezes o vi, passeando no jardim, filho conceituado médico Dr. Arnaldo Sampaio, de ascendência judaica pelo lado materno, desde os anos 60 se destacou como líder estudantil na célebre greve académica de 1962, e depois como advogado de presos políticos e opositor à ditadura. Após o 25 de abril, depois duma passagem pelo já desaparecido MES, foi líder socialista, presidente da câmara de Lisboa, secretário geral do PS e presidente da república, num período marcado pela Expo 98, o drama de Timor, o handover de Macau e a polémica demissão de Santana Lopes, em 2005. Sportinguista de sempre, viajado e cosmopolita, depois da presidência abraçou uma agenda internacional que passou pela Aliança das Civilizações, a luta contra a tuberculose e o apoio aos estudantes sírios expatriados. Uma vida de causas, um percurso de mundividências, um olhar humanista e preocupado sobre um mundo que quando assumiu a presidência vira já a primeira guerra do Golfo, a perestroika e a queda do muro de Berlim, e ainda veria o 11 de setembro, a invasão do Iraque e do Afeganistão. Foi, porém, Timor a grande causa nacional do seu período, num esforço do país em corrigir o que a inevitabilidade histórica não conseguiu controlar em 1975, fazendo desse processo a nossa “boa” descolonização, que depois da invasão indonésia em 1975, do massacre de Santa Cruz, da prisão de Xanana em Cipinang e do referendo de 1999 permitiu, numa corrente de solidariedade mundial, que Timor Leste fosse, enfim, a última parcela do império a trilhar os caminhos da autodeterminação e da independência.E todos nós acendemos velas, entoámos a canção de Luís Represas e nos emocionámos com o Nobel de Ramos Horta e Ximenes Belo. Por uma vez, o país estava todo do mesmo lado, em reconciliação com a História, que assim fechava a última página desde que se desembarcara em Ceuta num solarengo agosto em 1415.

Na serenidade dos seus oitenta anos, vividos intensamente, Sampaio é hoje um senador da República, um homem que viveu vários regimes e esteve presente em muitas lutas, escolhendo sempre a barricada da ética republicana e da luta pelo valor supremo sem o qual viver não vale a pena: a Liberdade.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

As eleições enquanto reality show


Não sendo comentador político, mas não sendo apolítico, gostaria de aqui deixar algumas notas sobre o ato eleitoral de 6 de outubro, apontando algumas ilações que dele (e dos últimos atos eleitorais, em geral), em minha opinião se devem extrair.
Em primeiro lugar, ver se se confirma a consolidação da abstenção como fenómeno endémico e que veio para ficar, ampliada agora pelo alargamento dos inscritos a mais um milhão de residentes no estrangeiro, dos quais só cerca de 1 a 2% deverá votar. Não chega o argumento de que o fenómeno é já corrente nas democracias ocidentais, e, não deslegitimando de forma alguma no plano das regras os vencedores da noite, dá que pensar, e, apesar de sempre que ocorrem eleições se falar da necessidade de refletir sobre a abstenção e suas causas, a verdade é que contados os votos, deitados os foguetes e distribuídos os empregos ninguém volta a falar do assunto ou faz mea culpa, dando um contributo para a reversão da situação.
Os partidos em Portugal tornaram-se corporações de interesses e sindicatos de lóbis, divorciados da sociedade e agarrados a dogmas, capelas e clientelas, e aqui incluo até os ditos antissistema, no fundo também ela em busca de um sistema.
Toda a nossa cultura e praxis política carece, porém, de ser alterada, a começar nas mentalidades, algo difícil, pois até os jovens que se envolvem na política acabam por corporizar e encaixar no discurso dominante e suas representações formais, reproduzindo tiques e mimetismos das gerações anteriores e promovendo a cultura de fação, apesar das novas roupagens e recursos supostamente irreverentes e modernos, mas no fundo em tirocínio para mais do mesmo.
A causa para este estado comatoso deve ser procurada essencialmente na sociedade blindada e supérflua em que nos tornámos, atávica no maniqueísta apontar dos bons e dos maus, reduzindo a política a um fait-divers ou concurso de simpatias e a um reality show em prime time. Tudo espetáculo, e contudo, com total ausência de discussão das escolhas ou real debate de ideias, se é que ainda há ideias, mortos que estão os Ideais.
A sociedade portuguesa é avessa e diletante no que a um profundo e cirúrgico debate de ideias efetivamente respeita, deixando o debate político nas mãos de dois ou três grupos de media politicamente engajados e veiculando uma opinião publicada que nem sempre traduzem a verdadeira opinião pública, permeável ao tilintar de sound bites e chamando política às folclóricas arruadas que anunciam a chegada do circo à cidade. Daí que, instalado e larvar, o novo rotativismo vá secando o país que pensa, que tem ideias, que quer inovar, qual eucalipto invasivo neste pinhal à beira-mar plantado, capturado pelos rituais tribais, a emulação dos chefes, a domesticação dos conversos e a frenética venda de realidade virtual. Esse país continua por aprofundar, com ou sem eleições, e só quando o ciclo das claques sem cérebro se esgotar (se alguma vez se esgotar) e todos, transversalmente, oriundos daquilo  que até há pouco se chamava esquerda e direita refletirmos seriamente sobre o que somos e queremos, poderemos começar então a tentar mudar este país na sua essência, forças e fraquezas, para lá da mera troca de rostos e protagonistas. Tarefa difícil, porém, aquela que vale a pena perseguir, por difícil ou ciclópica que seja.
Na liturgia do reality-show eleitoral, uns ganharão o poder, parabéns, outros perderão, para a próxima será, a verdadeira mudança, contudo, está ainda longe de ganhar nas urnas (se o voto é a festa da democracia é tétrico celebrá-lo em urnas…) pois enquanto tal revolução de ideias e comportamentos não ocorrer, o Portugal que quer e tem de mudar ciclicamente ficará entregue aos burocratas de serviço, esperando instruções de Bruxelas. Alguém porventura vê os partidos organizar debates aprofundados, sentar a massa cinzenta à mesa a discutir soluções, e ouvir, argumentar, pensar o país real, para lá dos brejeiros beijos às peixeiras, as arruadas ruidosas e os comícios (e bebícios...) de bifanas e febras durante infindáveis e esquizofrénicos dias?
Novos paradigmas precisam-se, auscultando a sociedade, deitando-a no psicanalista, aprofundando o diagnóstico. Não podem nem devem os sequiosos de mudanças ficar, porém, por aí ou mero protesto, nas acampadas folclóricas, nas greves climáticas ou nas páginas do Facebook. Mudar impõe uma atitude ativa, não por reação ao adversário ou sem saber para onde, arregaçando as mangas e interiorizando a verdadeira democracia virada para as pessoas e o seu anseio por felicidade e futuro. Esse o debate, essa a causa mobilizadora que a sociedade portuguesa ainda não levou a sério, sobretudo por tacanhez e fraqueza das suas anémicas elites, insistindo em não ver a floresta para além da árvore. Enquanto tal estado de coisas continuar, enquanto a forma se sobrepuser à essência, a abstenção e o divórcio dos cidadãos continuarão a aumentar e o país enfrentará o desencanto que perigosos chamamentos de sereia poderão um dia atrair para perigosos rumos.
PS- Esta não é a opinião de um pessimista. É a opinião de um otimista avisado.

domingo, 15 de setembro de 2019

O teleférico para a Pena

O rol de promessas feitas e nunca cumpridas é coisa de sempre e não só de hoje, como o famigerado teleférico para a Pena, várias vezes anunciado e nunca concretizado.
A título de nota histórica, mais uma promessa, desta feita conforme transcrição do jornal (já desaparecido) “A Voz de Sintra” de 18 de Janeiro de 1958. Era director Paulo Carreiro e redactor principal José António de Araújo.
“Numa reunião do Conselho Municipal, realizada na passada quinta-feira no edifício do antigo casino, foi resolvido, por maioria de votos, criar o teleférico para o Palácio da Pena, uma velha aspiração e cuja execução se ficará devendo ao espírito dinâmico e empreendedor do senhor Dr. César Moreira Baptista, ilustre presidente da Câmara de Sintra. Assistiram a essa reunião, alem do senhor Presidente e dos membros do Conselho, Dr. Arnaldo Sampaio, Engenheiros Seisal e Ricardo Graça, Eduardo Frutuoso Gaio, Manuel Dias Pereira  e Olegário Joaquim Maria, o chefe da secretaria, senhor José António de Araújo, vereadores Prof.Dr. Joaquim Fontes, Rui da Cunha e José Maria Tavares, e os presidentes das Juntas de Freguesia de S. Maria, S. Martinho, S. Pedro e Colares, respectivamente senhores António Rovisco de Andrade, João Barradas, Mário Lage e Dr. Branco Guerreiro.
O senhor Presidente do Município, ao abrir a sessão, explicou largamente e com sólidos argumentos as vantagens que trazia para Sintra a criação do teleférico, não só do ponto de vista turístico mas também no económico, pois convencia-se que o número de 120 mil pessoas que visitaram o Palácio da Pena no ano passado subiria a mais do dobro se houvesse um meio de transporte acessível.
Dada a palavra ao senhor Eng. Seisal, este argumentou que não concordava com a criação do teleférico nem com o local de onde o mesmo está projectado partir, pois, a seu ver, ele iria prejudicar a beleza da paisagem da serra.
O mesmo ponto de vista defendeu também o senhor Dr. Arnaldo Sampaio, mas sobre o assunto pedia licença para se abster de votar.
Seguidamente falou o senhor Eng. Ricardo Graça, para dizer que gostava muito de Sintra e que, para a sua sensibilidade, achava que o teleférico em nada prejudicaria as belezas naturais da serra, dando por isso o seu voto favorável.
O senhor Eduardo Frutuoso Gaio manifestou-se também favorável à criação do teleférico, o mesmo fazendo os vogais Manuel Dias Pereira e Olegário Joaquim Maria.
O senhor Rovisco de Andrade, presidente da Junta de S. Maria, como intérprete de muitos paroquianos, pediu ao senhor Presidente da Câmara para que fosse criado o teleférico, uma obra que virá valorizar extraordinariamente Sintra e que é a aspiração de todos.
O senhor Dr. Moreira Baptista rebateu a argumentação contrária à criação do teleférico e pôs o assunto à votação, verificando-se cinco votos favoráveis e dois contra, pois o Dr. Arnaldo Sampaio também votou desfavoravelmente, por não lhe ser permitido, por lei, abster-se, como era seu desejo.”
Até hoje. 

sábado, 14 de setembro de 2019

Comentadores na idade das dores

Nos dias que passam é corriqueiro e quase inevitável falar mal de tudo e de todos. A maledicência está promovida a patologia, ampliada pelas sarjetas sociais que são os veículos de "comunicação" disponibilizados na Rede, e não se passa sem ela, nos jornais, nos cafés, no emprego, no parlamento, creio mesmo que sem ela, a sensação de orfandade será tão grande quanto o nosso sadismo colectivo. Desde Alcácer Quibir que assim é, é endémico. O certo é que vamos estando (aliás, em Portugal, país do gerúndio, não se vai , vai-se andando ...)
Vem isto a propósito da responsabilidade que em minha opinião têm certas elites e certa opinião publicada nos estados de alma que moldam o carácter nacional dos portugueses. O pathos nacional é marcado pelos vencidos da vida de várias gerações, desde o conformado "ainda o apanhamos" do Eça até essa peça sublime e igualmente derrotista que é a Mensagem, de Pessoa. Obras belas, plástica e literáriamente, mas hinos à descrença, à resignação e ao fatalismo. Se olharmos com atenção, todos os grandes gurus nacionais são-no na medida em que se assumem como profetas da desgraça, (os optimistas chamam-lhes "visionários...). Quanto mais baterem no ceguinho mais premiados e idolatrados, pois eles, premonitórios é que viram para lá da nuvem. Um exemplo: a nossa cena de comentadores, os ditos opinion makers. Quem são os mais convidados e “respeitados”? Os que autofagicamente anunciam a “piolheira” dum país povoado por “indígenas”, os frustrados, os que querem  ajustes de contas com os adversários ou ex-amigos. Dê-se-lhes uma caneta ou um teclado e ei-los a zurzir inflamados a desgraça nacional e o fado de ser português, o "isto só cá", como se todos soubessem em profundidade como é exactamente "lá". Já Almada dizia que o pior de Portugal eram os portugueses, e eles aplaudiram claro, porque nunca é nada "connosco", mas tudo com"eles".
Leia-se Vasco Pulido Valente, por exemplo, e veja-se qual o contributo positivo desse profeta da desgraça para melhorar o estado das coisas. Profeta, claro, depois da desgraça ocorrer, na onda do “estava-se mesmo a ver, eu avisei”, mas, entretanto, nada viu e nada avisou.
Entre nós, as veneradas elites pensadoras são sobretudo elites faladoras, e sobretudo maldizentes, imensamente responsáveis pela degeneração da ideia de Portugal, e nisso,  pouco ou nada mudou desde a fuga de D. João VI para o Brasil e o ciclo de declínio que se seguiu. Porém, mal ou bem cá vamos, e sobretudo, cá estamos, apesar de sermos o país que nasceu com o filho a bater na mãe. Somos uma matriz da civilização ocidental e um berço de culturas, (eu sei, cheira a discurso de 10 de Junho, mas é verdade!), O que faria então se nos entendêssemos sobre as grandes questões, separando a árvore da floresta e fazendo planos para a floresta que não seja atear-lhe fogo?
Temos a particularidade de estarmos sempre desavindos uns com os outros e desconfiarmos mais depressa de outro português do que do primeiro estrangeiro desqualificado que nos metam na frente.Com crise ou sem crise, os povos não acabam, apesar de poder suceder como nos vírus da gripe, com o tempo estes degenerarem noutros, com novas roupagens e atitudes, e a geração que abriu o século XXI poder vir a sair mal na fotografia da História. Mas depois do tempo, tempo vem, e um pouco de azul sempre é melhor que o cinzento. 
Como um dia disse o general De Gaulle, "o fim da esperança é o começo da morte". E aos velhos do Restelo, uma temporada nas termas não faria nada mal.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Quando deitar beatas não dava lugar a multa

Sinal das mudanças ocorridas na nossa vida colectiva é-nos dado pela leitura de alguns regulamentos municipais mais antigos. Um exemplo é Código das Posturas Sanitárias de Sintra, datado de 1970.


Assim,era punido com multa de cem escudos( cinquenta cêntimos) “fazer alarido”, “cantar, tocar e fazer descantes ou serenatas depois das 22 horas”, “arrastar pelos pavimentos latas e outros objectos, provocando ruídos”, “bater carpetes e tapetes entre as 8h e as 23h”. Igualmente se um cão incomodasse com uivos ou latidos a vizinhança, ficava o dono sujeito a multa, desde que os vizinhos provassem com duas testemunhas já o terem advertido.


Igualmente era punido deitar-se nos bancos de jardim ou nos arrelvamentos e lançar pedras às árvores, lavar ou fazer barrela, catar ou pentear pessoas. Nos Santos Populares podiam fazer-se fogueiras, desde que a 1m do lancil dos passeios, e as estradas não fossem alcatroadas.


Isto além duma criteriosa regulamentação dos lavadouros e chafarizes para uso público, dos talhos e do apascentamento de animais dentro das localidades. A divagação de galinhas, por exemplo, dentro das localidades, dava direito a multa de cinco escudos por cada animal, burros e vacas, 20 escudos cada.


Também a rega de plantas era proibida entre as 8 e as 23h, e cuspir na via pública era punido com multa de 80 escudos.
Em tempos de multas para as beatas no chão, um sorriso amarelo para um mundo menos ecológico, mas, certamente, mais biológico...

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Cidadania e Sentimento de Nós

Estimular a cidadania ao promover a educação e as boas práticas para a defesa do Património deve ser tarefa de todos ao serviço do interesse colectivo. Com a vida moderna, as memórias do passado e a diversidade criada pela natureza têm vindo a ser destruídas ou adulteradas sistematicamente. Não se respeita a história (as tradições e as obras das gerações anteriores) nem a natureza (os ecossistemas na sua diversidade). Para que as futuras gerações tenham uma ideia da riqueza do que foi produzido, para que sobrevivam amostras dos valores produzidos pela natureza ou pela história, é necessário defender esse legado contra a miopia cultural ou devassa inconsciente. O processo de reconhecimento do valor do património por parte da sociedade no seu todo, é tarefa urgente que deve ser incentivada na senda da cidadania pró-activa e na construção de uma prática colectiva de respeito pelos bens patrimoniais (materiais e imateriais) que nos cercam.
O valor que atribuímos aos locais, objectos ou memórias é decorrente da importância que lhes atribui a memória colectiva. E é esta memória que nos impele a desvendar o seu significado histórico, valorizando-os como traço de união com o futuro que é já hoje. É possível e necessário um desiderato que permita e exija a participação cívica e que gere o envolvimento da sociedade com os bens patrimoniais e naturais que são a nossa Herança Comum.
A educação deve primar pelo desenvolvimento de acção pedagógica que valorize os bens patrimoniais formando uma consciência visando a sua preservação, compreensão e divulgação, como instrumento de alfabetização cultural, através do diálogo cultural com outros e de processos de sensibilização, sacudindo  as mentalidades, cultivando a sensibilidade inter-cultural e a consciência necessárias à formação de  um novo paradigma. De certa forma, consagrando um novo Direito/Dever do Homem.
Este processo pode interagir com o ensino formal (escolas), e o não formal (comunidade, actores culturais, associações culturais ou de defesa do património etc). A cultura tem de ser transmitida propiciando a possibilidade de manter a própria identidade. É a alma dum país expressa através de saberes, celebrações e formas de expressão do povo, “materializados” no artesanato, nos costumes das comunidades, na gastronomia, nas danças e músicas, festas religiosas e populares, nas relações sociais de uma família ou de uma comunidade, nas manifestações artísticas, literárias, cénicas e lúdicas, seja em espaços públicos, populares, colectivos ou religiosos.
É imperioso que as escolas se empenhem nesta missão, levando os alunos aos locais degradados para os sensibilizar sobre o que ali existiu e ainda pode vir a existir, contar a História, seja do grande guerreiro seja da simples lagartixa ou do doce conventual, impregnar o desejo de ver o património recuperado, incentivar o voluntariado cultural para a vigilância da natureza e civismo (evitando graffittis, piqueniques selvagens, passeios de mota selvagens ou despejo de detritos, p.e). Esse o desígnio e tarefa dos actores sociais e culturais, na Escola ou na Sociedade, e das associações ao nível local. Porque não visitar a Sintra das ruínas e dos monos, consciencializando e formando jovens para serem cidadãos e autênticos Guardiães do Património?
Nesse sentido, o processo de ensino e aprendizagem pode tornar-se um instrumento no despertar de uma consciência crítica e de responsabilidade para com a sua preservação, indo ao encontro do pensamento de Paulo Freire, na busca de uma  atitude  que capacite o educando na escola ou o cidadão  na sua rua ou cidade a compreender a sua identidade cultural e a  reconhecer-se  de forma consciente nos seus valores próprios, aumentando o seu "sentimento do nós". A postura que tomarmos diante do ambiente em que interagimos transforma-o, propiciando a nossa própria transformação. E para tanto, torna-se necessário interagir pela percepção do que o outro nos possa revelar e fornecer em conhecimentos e costumes, saberes inatos que nos servirão de material para a comunicação do nosso saber. Aprender e Defender o Património é também fazer Portugal.


Por fim, e materializando o atrás descrito, uma proposta e um desafio: porque não criar e promover núcleos de defesa do património envolvendo autarcas e sociedade civil e funcionando ao nível das juntas de freguesia, de modo permanente, informal e interventivo? Uma ideia a desenvolver.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Torres de Setembro

Dezoito anos depois,todas as teorias da conspiração continuam válidas no que ao 11 de Setembro respeita, o que é adensado por nem um suspeito ter sido capturado vivo, não ter havido sobreviventes para contar a história de nenhum dos aviões (com o voo 93 envolto no maior mistério), os vivos nunca terem sido julgados e o alegado mentor ter sido abatido quando podia ter sido capturado e julgado. Quem esconde o quê e porquê? Porque se esqueceu o mundo dos detidos de Guantanamo quando é tão ufano a condenar a Venezuela, o Irão ou a Guiné Equatorial?
A história do 11 de Setembro está por fazer, e de concreto permitiu sobretudo as intervenções pantanosas no Iraque e Afeganistão e a emergência dum clima securitário em que todos passamos a suspeitos num pathos que um destes dias conduzirá à obliteração da democracia e dos valores da afluent society com que nos acenavam os baby boomers.E assim por paradoxal que pareça, a era da comunicação se vai tornando na era das cortinas de desinformação, das verdades construídas e da usura democrática. Quando desabaram as torres, também todo um mundo imaginado desabou deixando a nu uma perturbante sensação de coação.

Setembro



Setembro com surpresa trouxe de volta o Verão perdido, bafejando de dias quentes almas amornadas por quotidianos duros, embora sob o zumbido de palavrosas campanhas eleitorais. As escolas reabrem, ruidosas e alegres, as folhas amarelecem, ameaçando cair, como autómatos, clientes entram e saem das compras, apressados, compulsivamente olhando para os telemóveis. É o país do faz de conta, na mão de ilusionistas estafados, aflitos clamando por um milagre ao fim do segundo ato, que obvie um terceiro, de morte e sem glória. E as segundas iguais às sextas, a meia de leite da manhã, os jornais com manchetes da crise, os golos marcados e os penalties roubados, a necrologia, a ver quem deixou de fumar. E mais um escândalo, doméstica violência irrompendo das gretas da alma, um despedimento, um gritar catártico na secretária ou balcão, no autocarro ou no médico. É da Europa, salivam especialistas em generalidades. É estrutural, alvitra um ex-ministro, com reforma dourada e piedoso com os pobres. No jardim, putos rasgam os ares com acrobacias de skate, adultos sem skate derrapam nas esquinas da vida, vidinha apenas, anémica e perigosa. Lê-se a opinião publicada para se ter opinião, há culpados, e os culpados são “eles”. “Eles”, sacrossanta tríade do nosso descontentamento, “eles”, que roubam, conspiram, tiram partido, servem-se. “Eles”, que são o corpo alienígena, possuídos mutantes e criaturas esfaimadas, adamastores de gravata e ogres de notebook, justiceiros de pecados por expiar.
Setembro levou a praia e devolveu a cidade. Asfixiante. Com coisas demais para dinheiro a menos, propinas a mais para livros a menos, cirurgias a mais para órgãos a menos. O costume. Nas notícias desfila a galeria dos horrores chegados e a chegar, e as certezas dum amanhã perturbantemente perturbador, levada a alegria inocente nos oníricos dias da Expo. Assim és hoje, Portugal, velha corista de lantejoulas estafadas, apagadas que foram as luzes da ribalta.
Uma romena pede esmola, trespassado que foi o lugar a um mendigo morto de cirrose ou solidão, alheios, miúdos atafulham-se em pizzas e cola, velhos de todos os Restelos ocupam os bancos de jardim, no areópago do povo, esconjurando tudo, e sobretudo o tempo. O tempo que não conta com eles, e onde se limitam a passar o tempo.
Em Setembro ontem tombaram torres, e, desafiadores, bispos fizeram xeque ao rei. Não caiu, que os cavalos tomaram o tabuleiro, mas as regras mudaram, e Setembro mudou. À vindima das uvas sucedeu o pisar dos protestos, é Primavera nas mesquitas e logo virá fogo incontido ardendo nas cidades da Europa alagada de refugiados da esperança, náufragos da humanidade, do Inferno de lá. Por cá, a cidade lusa promete mudar, ou talvez não, envolta na parafernália dos debates, do plafonamento e das pizzas com pepperoni. No quiosque dos jornais compram-se desgraças matinais, recebidas com torcer de nariz, valem as páginas eróticas, oferecendo ninfas a cinquenta euros ou a foto de mais um rosto que deixou de fumar.
As árvores decepadas cresceram, crescem sempre, vingando o corte, altivas e ondulando. Zelosos, polícias de colete amarelo fazem por deixar os condutores de sorriso mais amarelo ainda, no quotidiano jogo de gato e rato, terminado como sempre na costumada multa e no miar dos gatos. Deus criou o mundo, previdente, o homem urbano criou a multa. Teria Deus licença para exibir maçãs, cobras e homens nus na via pública? Coima garantida, asseveram os de amarelo, se multar pudessem esse tal Deus infrator…
Diminuem os dias. É bom. Menos horas cedidas ao spleen, menos multas, a serra exalando um cheiro a húmus em cada matinal despertar. Concentrado, um varredor recolhe os primeiros vestígios do Outono que se espalham nas ruas e nas almas, cumpridas as orgias de verde, folhas que foram de Verão e de Primavera.
Os deuses do Sul preparam a Viagem, deixando aflitos seres de regresso às cavernas, sem alegorias, assustados, passarão luas até regressarem, deixados a si próprios e ao Inimigo: “Eles”. Com sorte, alguns sobreviverão, portadores da esperança e da seiva fecunda numa renovada Primavera. Outros, tombados com as folhas de Setembro, e nos setembros que se vão seguir, provavelmente não, a romena continuará a pedir esmola, alegres miúdos comerão mais pizzas, circunspectos polícias aplicarão mais multas. Os jornais trarão novas capas, renovados, os rostos continuarão esculpidos pelos tempos e por eles marcados, como marca de água. É Setembro também, no lento adeus ao Sol em anacrónicas terras do Sul.

sábado, 31 de agosto de 2019

Dia Internacional do Blogue


Hoje é o Dia Internacional do Blogue, comunidade de que faço parte, tendo eu até hoje produzido o Alagablogue e o Café com Adoçante (2005-2011) e O Reino de Klingsor, (desde 2011), http://reinodeklingsor.blogspot.com/além de gerir o Sintra Deambulada, com mais de 40 contribuidores. 

Segundo alguns trendsetters, o português do futuro preferirá causas e acções de protesto pontuais, e procurará amigos temáticos fruto de diversidade cultural. As pessoas estarão menos disponíveis para aderir por períodos muito longos a organizações fixas e preferirão actuar por impulso, vincando um individualismo em que é mais estimulante o que se passa na vida de cada um ou do seu núcleo de amigos do que o que se passa na sociedade. Isto coincide com o incremento da Internet e o fim do televisor único em casa, com vários aparelhos por habitação e a possibilidade de pré-escolher os programas e as horas a que passam, fazendo de cada um um programador de televisão.
Neste quadro, a oferta cultural tenderá para ser feita à medida, com um quadro social fragmentado e de nichos onde a visão de bloco tenderá a desaparecer. É a idade do indivíduo em rede.
O mundo dos blogues é hoje um hedonista mundo de silêncios gritados ou partilhados,onde virtuais activistas podem impor tendências, divulgar problemas, congregar causas, através da sua difusão, hoje alargada com a promoção permitida pelas redes sociais.
Os primeiros blogues surgiram em Dezembro de1997, através do conceito de Weblog, criado por Jorn Barger, a partir das palavras “web” (Internet) e “log” (registo). No entanto, segundo Dave Winer, o primeiro weblogue criado foi o primeiro web site, http://info.cern.ch/, criado por Tim Berners-Lee no CERN -European Organization for Nuclear Research. Esta página funcionava como um apontador, no qual Tim Berners-Lee referenciava os novos web sites que iam surgindo na World Wide Web. Posteriormente surgiram as páginas “What’s New” do NCSA- National Center for Supercomputing Applications e da Netscape. Nestas duas páginas “What’s New” já podemos encontrar duas características principais dos weblogues, a datação das entradas e a sua colocação por ordem inversa. Em 1996 e 1997 surgem os primeiros blogues pessoais como o Scripting News de Dave Winer, o Robot Wisdom de Jorn Barger, o Tomalak’s Realm ou o CamWorld.Em 1999, existiam 23 weblogues referenciados. Nesse mesmo ano, Peter Merholz defendeu que se deveria pronunciar “wee-blog”, por se tratar de um meio para comunidades. Este acontecimento acabou por conduzir à utilização “abreviada” da palavra “blog” e à referência do seu editor como o “blogger”.
A partir de 1999, o número de weblogues foi aumentando cada vez mais, sobretudo graças ao aparecimento de novas ferramentas de publicações de conteúdos, como o “blogger” da Pyra, que permitiram que qualquer pessoa, sem ter necessidade de quaisquer conhecimentos de HTML, pudesse ter o seu próprio blogue na Web, com o surgimento das ferramentas dos sistemas baseados na Web, como o Blogger e o Groksoup, lançados pela Pyra em Agosto de 1999.
Os blogues originais eram um misto de links, comentários e pensamentos pessoais. Com a entrada em cena do Blogger, em 1999, começaram a aparecer inúmeros blogues, actualizados várias vezes por dia, cujo tema central não eram os pensamentos do blogger ou blogueiro, mas sim, algo que ele tinha reparado no seu local de trabalho, notas sobre o seu fim-de-semana ou, por exemplo, reflexões sobre um determinado assunto. Os links dentro dos blogues levavam-nos para outros blogues, nos quais havia alguma referência ao tema abordado ou nos quais existia simplesmente também um link para o blogue de partida.
A diferença entre o conteúdo dos blogues originais, anteriores a 1999 e os blogues mais recentes, posteriores ao aparecimento do Blogger, fazem repensar o conceito e conteúdo dos blogues. E suscitam uma nova realidade: há ética e deontologia na comunidade blogueira (ou bloguista?). Não será um paradoxo alargar a comunicação refugiado na penumbra dum quarto ou na solidão de um sotão, clicando para o mundo?
Em minha opinião, são hoje uma importante ferramenta de suporte e congregação de sinergias para causas, valores e regiões. Em Sintra, como em todo o lado, pululam por aí, uns de crítica mordaz, outros de divulgação e outros até de promoção de actividades. Ao fim de alguns anos, e depois de me ter iniciado com o Alagablogue e o Café com Adoçante, a par de O Reino de Klingsor, tenho tentado criar um magazine de opinião através do Sintra Deambulada,e queria hoje salientar no panorama local o Rio das Maçãs, do activo e atento Pedro Macieirahttp://riodasmacas.blogspot.com/. Deontologia, afinidades, fontes ou interesses poderiam ganhar muito com o estreitar desta comunidade, talvez a mais efectiva rede de comunicação social local depois do ocaso da imprensa escrita ou a ausência de uma opinião publicada crítica e interventiva nesse espaço em vias de extinção