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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Cidadania e Sentimento de Nós

Estimular a cidadania ao promover a educação e as boas práticas para a defesa do Património deve ser tarefa de todos ao serviço do interesse colectivo. Com a vida moderna, as memórias do passado e a diversidade criada pela natureza têm vindo a ser destruídas ou adulteradas sistematicamente. Não se respeita a história (as tradições e as obras das gerações anteriores) nem a natureza (os ecossistemas na sua diversidade). Para que as futuras gerações tenham uma ideia da riqueza do que foi produzido, para que sobrevivam amostras dos valores produzidos pela natureza ou pela história, é necessário defender esse legado contra a miopia cultural ou devassa inconsciente. O processo de reconhecimento do valor do património por parte da sociedade no seu todo, é tarefa urgente que deve ser incentivada na senda da cidadania pró-activa e na construção de uma prática colectiva de respeito pelos bens patrimoniais (materiais e imateriais) que nos cercam.
O valor que atribuímos aos locais, objectos ou memórias é decorrente da importância que lhes atribui a memória colectiva. E é esta memória que nos impele a desvendar o seu significado histórico, valorizando-os como traço de união com o futuro que é já hoje. É possível e necessário um desiderato que permita e exija a participação cívica e que gere o envolvimento da sociedade com os bens patrimoniais e naturais que são a nossa Herança Comum.
A educação deve primar pelo desenvolvimento de acção pedagógica que valorize os bens patrimoniais formando uma consciência visando a sua preservação, compreensão e divulgação, como instrumento de alfabetização cultural, através do diálogo cultural com outros e de processos de sensibilização, sacudindo  as mentalidades, cultivando a sensibilidade inter-cultural e a consciência necessárias à formação de  um novo paradigma. De certa forma, consagrando um novo Direito/Dever do Homem.
Este processo pode interagir com o ensino formal (escolas), e o não formal (comunidade, actores culturais, associações culturais ou de defesa do património etc). A cultura tem de ser transmitida propiciando a possibilidade de manter a própria identidade. É a alma dum país expressa através de saberes, celebrações e formas de expressão do povo, “materializados” no artesanato, nos costumes das comunidades, na gastronomia, nas danças e músicas, festas religiosas e populares, nas relações sociais de uma família ou de uma comunidade, nas manifestações artísticas, literárias, cénicas e lúdicas, seja em espaços públicos, populares, colectivos ou religiosos.
É imperioso que as escolas se empenhem nesta missão, levando os alunos aos locais degradados para os sensibilizar sobre o que ali existiu e ainda pode vir a existir, contar a História, seja do grande guerreiro seja da simples lagartixa ou do doce conventual, impregnar o desejo de ver o património recuperado, incentivar o voluntariado cultural para a vigilância da natureza e civismo (evitando graffittis, piqueniques selvagens, passeios de mota selvagens ou despejo de detritos, p.e). Esse o desígnio e tarefa dos actores sociais e culturais, na Escola ou na Sociedade, e das associações ao nível local. Porque não visitar a Sintra das ruínas e dos monos, consciencializando e formando jovens para serem cidadãos e autênticos Guardiães do Património?
Nesse sentido, o processo de ensino e aprendizagem pode tornar-se um instrumento no despertar de uma consciência crítica e de responsabilidade para com a sua preservação, indo ao encontro do pensamento de Paulo Freire, na busca de uma  atitude  que capacite o educando na escola ou o cidadão  na sua rua ou cidade a compreender a sua identidade cultural e a  reconhecer-se  de forma consciente nos seus valores próprios, aumentando o seu "sentimento do nós". A postura que tomarmos diante do ambiente em que interagimos transforma-o, propiciando a nossa própria transformação. E para tanto, torna-se necessário interagir pela percepção do que o outro nos possa revelar e fornecer em conhecimentos e costumes, saberes inatos que nos servirão de material para a comunicação do nosso saber. Aprender e Defender o Património é também fazer Portugal.


Por fim, e materializando o atrás descrito, uma proposta e um desafio: porque não criar e promover núcleos de defesa do património envolvendo autarcas e sociedade civil e funcionando ao nível das juntas de freguesia, de modo permanente, informal e interventivo? Uma ideia a desenvolver.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Torres de Setembro

Dezoito anos depois,todas as teorias da conspiração continuam válidas no que ao 11 de Setembro respeita, o que é adensado por nem um suspeito ter sido capturado vivo, não ter havido sobreviventes para contar a história de nenhum dos aviões (com o voo 93 envolto no maior mistério), os vivos nunca terem sido julgados e o alegado mentor ter sido abatido quando podia ter sido capturado e julgado. Quem esconde o quê e porquê? Porque se esqueceu o mundo dos detidos de Guantanamo quando é tão ufano a condenar a Venezuela, o Irão ou a Guiné Equatorial?
A história do 11 de Setembro está por fazer, e de concreto permitiu sobretudo as intervenções pantanosas no Iraque e Afeganistão e a emergência dum clima securitário em que todos passamos a suspeitos num pathos que um destes dias conduzirá à obliteração da democracia e dos valores da afluent society com que nos acenavam os baby boomers.E assim por paradoxal que pareça, a era da comunicação se vai tornando na era das cortinas de desinformação, das verdades construídas e da usura democrática. Quando desabaram as torres, também todo um mundo imaginado desabou deixando a nu uma perturbante sensação de coação.

Setembro



Setembro com surpresa trouxe de volta o Verão perdido, bafejando de dias quentes almas amornadas por quotidianos duros, embora sob o zumbido de palavrosas campanhas eleitorais. As escolas reabrem, ruidosas e alegres, as folhas amarelecem, ameaçando cair, como autómatos, clientes entram e saem das compras, apressados, compulsivamente olhando para os telemóveis. É o país do faz de conta, na mão de ilusionistas estafados, aflitos clamando por um milagre ao fim do segundo ato, que obvie um terceiro, de morte e sem glória. E as segundas iguais às sextas, a meia de leite da manhã, os jornais com manchetes da crise, os golos marcados e os penalties roubados, a necrologia, a ver quem deixou de fumar. E mais um escândalo, doméstica violência irrompendo das gretas da alma, um despedimento, um gritar catártico na secretária ou balcão, no autocarro ou no médico. É da Europa, salivam especialistas em generalidades. É estrutural, alvitra um ex-ministro, com reforma dourada e piedoso com os pobres. No jardim, putos rasgam os ares com acrobacias de skate, adultos sem skate derrapam nas esquinas da vida, vidinha apenas, anémica e perigosa. Lê-se a opinião publicada para se ter opinião, há culpados, e os culpados são “eles”. “Eles”, sacrossanta tríade do nosso descontentamento, “eles”, que roubam, conspiram, tiram partido, servem-se. “Eles”, que são o corpo alienígena, possuídos mutantes e criaturas esfaimadas, adamastores de gravata e ogres de notebook, justiceiros de pecados por expiar.
Setembro levou a praia e devolveu a cidade. Asfixiante. Com coisas demais para dinheiro a menos, propinas a mais para livros a menos, cirurgias a mais para órgãos a menos. O costume. Nas notícias desfila a galeria dos horrores chegados e a chegar, e as certezas dum amanhã perturbantemente perturbador, levada a alegria inocente nos oníricos dias da Expo. Assim és hoje, Portugal, velha corista de lantejoulas estafadas, apagadas que foram as luzes da ribalta.
Uma romena pede esmola, trespassado que foi o lugar a um mendigo morto de cirrose ou solidão, alheios, miúdos atafulham-se em pizzas e cola, velhos de todos os Restelos ocupam os bancos de jardim, no areópago do povo, esconjurando tudo, e sobretudo o tempo. O tempo que não conta com eles, e onde se limitam a passar o tempo.
Em Setembro ontem tombaram torres, e, desafiadores, bispos fizeram xeque ao rei. Não caiu, que os cavalos tomaram o tabuleiro, mas as regras mudaram, e Setembro mudou. À vindima das uvas sucedeu o pisar dos protestos, é Primavera nas mesquitas e logo virá fogo incontido ardendo nas cidades da Europa alagada de refugiados da esperança, náufragos da humanidade, do Inferno de lá. Por cá, a cidade lusa promete mudar, ou talvez não, envolta na parafernália dos debates, do plafonamento e das pizzas com pepperoni. No quiosque dos jornais compram-se desgraças matinais, recebidas com torcer de nariz, valem as páginas eróticas, oferecendo ninfas a cinquenta euros ou a foto de mais um rosto que deixou de fumar.
As árvores decepadas cresceram, crescem sempre, vingando o corte, altivas e ondulando. Zelosos, polícias de colete amarelo fazem por deixar os condutores de sorriso mais amarelo ainda, no quotidiano jogo de gato e rato, terminado como sempre na costumada multa e no miar dos gatos. Deus criou o mundo, previdente, o homem urbano criou a multa. Teria Deus licença para exibir maçãs, cobras e homens nus na via pública? Coima garantida, asseveram os de amarelo, se multar pudessem esse tal Deus infrator…
Diminuem os dias. É bom. Menos horas cedidas ao spleen, menos multas, a serra exalando um cheiro a húmus em cada matinal despertar. Concentrado, um varredor recolhe os primeiros vestígios do Outono que se espalham nas ruas e nas almas, cumpridas as orgias de verde, folhas que foram de Verão e de Primavera.
Os deuses do Sul preparam a Viagem, deixando aflitos seres de regresso às cavernas, sem alegorias, assustados, passarão luas até regressarem, deixados a si próprios e ao Inimigo: “Eles”. Com sorte, alguns sobreviverão, portadores da esperança e da seiva fecunda numa renovada Primavera. Outros, tombados com as folhas de Setembro, e nos setembros que se vão seguir, provavelmente não, a romena continuará a pedir esmola, alegres miúdos comerão mais pizzas, circunspectos polícias aplicarão mais multas. Os jornais trarão novas capas, renovados, os rostos continuarão esculpidos pelos tempos e por eles marcados, como marca de água. É Setembro também, no lento adeus ao Sol em anacrónicas terras do Sul.

sábado, 31 de agosto de 2019

Dia Internacional do Blogue


Hoje é o Dia Internacional do Blogue, comunidade de que faço parte, tendo eu até hoje produzido o Alagablogue e o Café com Adoçante (2005-2011) e O Reino de Klingsor, (desde 2011), http://reinodeklingsor.blogspot.com/além de gerir o Sintra Deambulada, com mais de 40 contribuidores. 

Segundo alguns trendsetters, o português do futuro preferirá causas e acções de protesto pontuais, e procurará amigos temáticos fruto de diversidade cultural. As pessoas estarão menos disponíveis para aderir por períodos muito longos a organizações fixas e preferirão actuar por impulso, vincando um individualismo em que é mais estimulante o que se passa na vida de cada um ou do seu núcleo de amigos do que o que se passa na sociedade. Isto coincide com o incremento da Internet e o fim do televisor único em casa, com vários aparelhos por habitação e a possibilidade de pré-escolher os programas e as horas a que passam, fazendo de cada um um programador de televisão.
Neste quadro, a oferta cultural tenderá para ser feita à medida, com um quadro social fragmentado e de nichos onde a visão de bloco tenderá a desaparecer. É a idade do indivíduo em rede.
O mundo dos blogues é hoje um hedonista mundo de silêncios gritados ou partilhados,onde virtuais activistas podem impor tendências, divulgar problemas, congregar causas, através da sua difusão, hoje alargada com a promoção permitida pelas redes sociais.
Os primeiros blogues surgiram em Dezembro de1997, através do conceito de Weblog, criado por Jorn Barger, a partir das palavras “web” (Internet) e “log” (registo). No entanto, segundo Dave Winer, o primeiro weblogue criado foi o primeiro web site, http://info.cern.ch/, criado por Tim Berners-Lee no CERN -European Organization for Nuclear Research. Esta página funcionava como um apontador, no qual Tim Berners-Lee referenciava os novos web sites que iam surgindo na World Wide Web. Posteriormente surgiram as páginas “What’s New” do NCSA- National Center for Supercomputing Applications e da Netscape. Nestas duas páginas “What’s New” já podemos encontrar duas características principais dos weblogues, a datação das entradas e a sua colocação por ordem inversa. Em 1996 e 1997 surgem os primeiros blogues pessoais como o Scripting News de Dave Winer, o Robot Wisdom de Jorn Barger, o Tomalak’s Realm ou o CamWorld.Em 1999, existiam 23 weblogues referenciados. Nesse mesmo ano, Peter Merholz defendeu que se deveria pronunciar “wee-blog”, por se tratar de um meio para comunidades. Este acontecimento acabou por conduzir à utilização “abreviada” da palavra “blog” e à referência do seu editor como o “blogger”.
A partir de 1999, o número de weblogues foi aumentando cada vez mais, sobretudo graças ao aparecimento de novas ferramentas de publicações de conteúdos, como o “blogger” da Pyra, que permitiram que qualquer pessoa, sem ter necessidade de quaisquer conhecimentos de HTML, pudesse ter o seu próprio blogue na Web, com o surgimento das ferramentas dos sistemas baseados na Web, como o Blogger e o Groksoup, lançados pela Pyra em Agosto de 1999.
Os blogues originais eram um misto de links, comentários e pensamentos pessoais. Com a entrada em cena do Blogger, em 1999, começaram a aparecer inúmeros blogues, actualizados várias vezes por dia, cujo tema central não eram os pensamentos do blogger ou blogueiro, mas sim, algo que ele tinha reparado no seu local de trabalho, notas sobre o seu fim-de-semana ou, por exemplo, reflexões sobre um determinado assunto. Os links dentro dos blogues levavam-nos para outros blogues, nos quais havia alguma referência ao tema abordado ou nos quais existia simplesmente também um link para o blogue de partida.
A diferença entre o conteúdo dos blogues originais, anteriores a 1999 e os blogues mais recentes, posteriores ao aparecimento do Blogger, fazem repensar o conceito e conteúdo dos blogues. E suscitam uma nova realidade: há ética e deontologia na comunidade blogueira (ou bloguista?). Não será um paradoxo alargar a comunicação refugiado na penumbra dum quarto ou na solidão de um sotão, clicando para o mundo?
Em minha opinião, são hoje uma importante ferramenta de suporte e congregação de sinergias para causas, valores e regiões. Em Sintra, como em todo o lado, pululam por aí, uns de crítica mordaz, outros de divulgação e outros até de promoção de actividades. Ao fim de alguns anos, e depois de me ter iniciado com o Alagablogue e o Café com Adoçante, a par de O Reino de Klingsor, tenho tentado criar um magazine de opinião através do Sintra Deambulada,e queria hoje salientar no panorama local o Rio das Maçãs, do activo e atento Pedro Macieirahttp://riodasmacas.blogspot.com/. Deontologia, afinidades, fontes ou interesses poderiam ganhar muito com o estreitar desta comunidade, talvez a mais efectiva rede de comunicação social local depois do ocaso da imprensa escrita ou a ausência de uma opinião publicada crítica e interventiva nesse espaço em vias de extinção

domingo, 18 de agosto de 2019

Querido mês de Agosto

A greve dos motoristas ainda não terminou mas é já um case study e suscita temas a discutir na próxima legislatura na Assembleia da República e na concertação social. A saber, qual a legalidade de greves por "tempo ilimitado", a figura da "suspensão da greve", o alcance dos "serviços mínimos", a "requisição civil preventiva" e os "mecanismos de mediação", numa ótica de proporcionalidade e defesa do interesse público. Por outro lado, a elaboração e promoção de um plano nacional de proteção civil que assegure a segurança e normalidade da circulação de pessoas e bens em momentos de crise, o papel das forças armadas e de segurança em conflitos laborais ou a menor dependência dos combustíveis fósseis e seus modos de distribuição, ponto fraco que permitiu a meia dúzia de empresas e cerca de 800 motoristas (quase) paralisar a economia. Não é admissível a redução de direitos, mas também o não é o alarme social que deixou o país durante uma semana de olho nas bombas de gasolina e na porta das refinarias, no quadro dum novo sindicalismo mais disruptivo e por isso menos dependente das lógicas políticas e ideológicas das atuais centrais sindicais.
Um ponto que sobressaiu de forma clara deste conflito, foi a constatação da forma como fora do quadro da função pública se desenvolvem ainda relações de trabalho na base de salários vergonhosos e escandalosa violação de direitos sem que as entidades fiscalizadoras intervenham de forma eficaz e dissuasora. O que fazem a ACT ou a Autoridade Tributária? Não podemos estar no século XXI com comportamentos do século XIX e leis do tempo do PREC, como este "querido mês de Agosto" provou à saciedade.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Madiba



Hoje é o Dia Internacional Nelson Mandela.
Há muito imortalizado, o mais conhecido prisioneiro de Robben Island e sagaz lutador contra o regime do apartheid fez já a Grande Viagem, qual velho e pachorrento elefante a caminho da derradeira morada. Com Nelson Mandela partiu o derradeiro lutador icónico do século XX, depois de Ghandi, Luther King, Che Guevara ou Madre Teresa de Calcutá.
Com Mandela, o mundo assistiu ao exemplo da perseverança na luta pelos ideais, à reconciliação para lá da cor da pele, ao orgulho das convicções e ao exemplo em quem todos se querem rever. Madiba para o seu povo, Madiba de todos nós, é justo recordá-lo no seu dia e quando tem já página garantida nos manuais de História. Não na dos caudilhos ou demagogos, mas na dos inspiradores e idealistas, como o foi na África do Sul Shaka Zulu. 
Recordo a sua viagem a Portugal, em Outubro de 1993, e como foi inspirador escutar ao vivo na Aula Magna um homem a quem 27 anos de prisão não deixaram sombra de ressentimento e com serenidade nos falou do futuro, e de como o perdão com olhos no devir é atributo que só grandes homens têm o dom de possuir.
No dia em que, sereno como quem acabava de dar um simples passeio pelo jardim, saiu de mão dada com Winnie de Robben Island, o mundo pela CNN, viu pela primeira vez o rosto envelhecido mas sereno do homem que esteve 27 anos encarcerado e em trabalhos forçados, junto com outras figuras emblemáticas do ANC. Nesse dia, já Mandela era imortal, e os anos que seguiram o demonstraram. Obrigado Madiba! 


terça-feira, 21 de maio de 2019

Efemérides

Hoje é o Dia Internacional do Desenvolvimento Cultural, instituído pela UNESCO, data marcada igualmente pelo desaparecimento de duas figuras relevantes da vida cultural de Sintra: Em 1929, a condessa d'Edla, mecenas de artistas e ela própria uma cantora lírica; e há 10 anos, em 2009, João Benard da Costa, escritor e cinéfilo, com ligações fortes ao nosso concelho. Desenvolvimento Cultural é, além de incutir à participação, valorizar os patrimónios, escutar os artistas e dotá-los de condições para um trabalho criativo e independente, mas também cultivar a Memória, e as figuras que neste dia nos deixaram são bem a Memória dum passado de exemplo, entrega, luta e valorização dos nossos Eus, gravados na pedra ou na palavra, na ação e no exemplo.




quinta-feira, 16 de maio de 2019

Redes sociais ou cavernas sociais?


Um conjunto de países e empresas decidiram lançar o designado “Apelo de Christchurch", que visa combater a difusão da violência na Internet, na sequência do ataque de há dois meses contra mesquitas na Nova Zelândia.
Nesse apelo, lançado pelo Presidente francês Emmanuel Macron e pela primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern e já secundado por diversos países, as plataformas da Internet – incluindo o Facebook, o WhatsApp, o Instagram, e a Google -- comprometem-se a combater os conteúdos terroristas ou extremistas violentos difundidos on line.
O Facebook foi o veículo utilizado pelo atirador de Christchurch para difundir em direto o ataque de 15 de março que matou 51 muçulmanos, e apesar de ter sido retirado inúmeras vezes, foi sendo sempre recolocado no YouTube.
O Apelo de Christchurch pretende que os países e as grandes empresas de conteúdos digitais atuem contra o extremismo e a violência na rede.
O Facebook anunciou entretanto restrições ao uso do Facebook Live, e os utilizadores que já tenham desrespeitado as regras da sua utilização deixam de ter acesso durante algum tempo. Já o YouTube recordou que, no primeiro trimestre de 2019, retirou 89.968 vídeos e encerrou 24.661 contas que faziam a promoção da violência ou do extremismo violento. Segundo o Google/YouTube,76% destes vídeos foram retirados antes que um utilizador pudesse visioná-los.
São cada vez piores as consequências do mau uso das redes sociais, dominadas pela ignorância, intolerância, e agressividade, além do insulto fácil, da propagação do boato ou da simples boçalidade. Não vivemos na era da informação, vivemos na era do ruído, em que utilizadores mal-intencionados ou premeditadamente apenas repetem o que outros dizem, sem o menor sentimento ou raciocínio sobre os factos, ou sequer apurar da sua veracidade.
Agir sem pensar, especialmente com o fim da vingança, intolerância e na maior boçalidade, é o que nos iguala aos períodos pré-históricos. O ataque a Alcochete foi preparado pelo Whatsapp, o de Christchurch difundido no Facebook, recrutamento para o Daesh e radicalização de terroristas ocorrem pelas redes sociais.
Estas, infelizmente, são hoje cavernas sociais e cadinho da intolerância, do ódio ou tão só do boato maldoso. O Leviathan está de volta ao alcance duma password ou dum like.


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Pairam grifos sobre Bruxelas


Hoje, 9 de maio, assinala-se o Dia da Europa. Uma Europa moribunda e em fase de estertor, como os motores falseados da Volkswagen, acossada pelo Brexit, o populismo eurocéptico e as pressões duma América errática e duma China expansionista.
Em 1953, em Hamburgo, Thomas Mann defendeu que devemos ambicionar ter uma Alemanha europeia e não uma Europa alemã. Vinte e cinco depois da unificação, sobre o papel da Alemanha na Europa e no mundo, ninguém se preocupou, com os alemães ocupados nessa altura consigo próprios e com a integração económica dos novos Estados federados do Leste, tanto que no final dos anos noventa a Alemanha era tida como um caso problemático na Europa, a quem se haveria de cuidar da questão do endividamento estatal, com níveis de desenvolvimento abissais entre o Leste e o Oeste, e canalizando muitos dos fundos (grande parte deles comunitários) para nivelar as economias. Era impensável então que a Alemanha um dia pudesse apresentar-se como modelo nas questões de política fiscal e do saneamento orçamental. E com a introdução do euro, pareceu que a Alemanha tinha aberto mão do seu mais importante instrumento de poder frente às outras economias europeias, o marco alemão.
O problema é que a Europa mudou e, na medida em que mais países entraram na União Europeia, o projecto dos Estados Unidos da Europa distanciou-se cada vez mais. O que parecia possível na Europa dos Seis, tornou-se impossível com as ampliações para Sul, Norte e Leste.
A crise do euro posterior a 2008 tornou visíveis as contradições da Europa. Querendo-se ou não, a Alemanha é, com os seus recursos e capacidades, o único país que pode manter a coesão da Europa heterogénea e ameaçada por forças centrífugas. Na Europa, tem a possibilidade de manter a coesão na União Europeia, e no mundo, tem de cuidar para que a economia europeia não seja marginalizada através da ascensão da Ásia. Mas não seria isto, na verdade, uma tarefa das instituições europeias? Não foram tais instituições, principalmente o Parlamento, fortalecidas nos últimos anos, para assumir essas tarefas, nomeadamente depois do Tratado de Lisboa? O que resultou foi exactamente o contrário. Valorizado anteriormente, o Parlamento Europeu não desempenhou praticamente nenhum papel no apogeu da crise do euro, ficando as decisões a cargo das reuniões intergovernamentais, e a "cabeça" da UE dividida entre a Comissão e o Conselho Europeu. Uma coisa parece ser certa: estão a ser as crises que indicam se as instituições são robustas ou não. E nas crises actuais, de que ressaltam a saída da Grã-Bretanha, os populismos com ou sem colete, ou a crise dos refugiados, as instituições europeias mostram-se incapazes e dissonantes. Talvez porque elas foram criadas a pensar no “funcionamento normal” da Europa enquanto não surgissem grandes problemas e as questões pudessem ser resolvidas em consenso. 


A Alemanha contribui sozinha com mais de um quarto do poderio económico na zona euro, e são seus os riscos maiores nos programas de ajuda aos países endividados do Sul da Europa. Com isto, coube-lhe a posição decisiva na fixação das condições para a ajuda, achando que pelo facto de a austeridade ter funcionado na Alemanha nos anos noventa, tal pode ser copiado a papel químico para países com outros estádios de desenvolvimento e outras políticas e práticas fiscais, orçamentais ou bancárias. Essa falta de tolerância e compreensão está pois a levar cada vez mais a uma Europa alemã longe da Alemanha europeia de Adenauer, Willy Brandt ou Helmut Kohl. É uma Europa em cadeira de rodas, e cada vez mais comatosa. O Parlamento Europeu a eleger no dia 26 será por certo um bordel espanhol e uma quinta com muitas raposas dentro do galinheiro, enquanto a ascensão de Manfred Weber a provável futuro presidente da Comissão nada promete de bom. Salva-se o Hino à Alegria de Beethoven, aqui e ali riscado e a querer puxar para o Anel dos Nibelungos com atarantadas valquírias apertando o cerco em Bruxelas.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Santa Evita


Há precisamente 100 anos nascia Eva Perón, mulher da vida com uma vida excecional, Santa para os descamisados num período de turbulência política na Argentina. A sua meteórica ascensão ao casar com Juan Domingo Perón, general e presidente, o seu papel de ícone popular hoje ampliado por obras literárias e artísticas, fizeram dela uma pop star e figura emblemática dum certo caudilhismo sul americano. A par de figuras como Luther King, Fidel Castro ou Che Guevara, Eva- ou Evita, como ficou popularizada- encarnou o culto providencial dos salvadores, como mais recentemente foi seguido por Hugo Chavez. Todos eles, embora de matriz ideológica diversa, misturaram uma proveniência popular com um providencialismo a roçar a santidade, daí a sua veneração por alguns segmentos da população anos depois da sua morte, ela própria parte do mito, seja por ter sido precoce, seja por ter sido de perto acompanhada pelos seus seguidores.
Evita encarnou um populismo precoce nos anos quarenta e cinquenta, talvez por, tal como nas novelas, ter nascido pobre e chegado aos corredores do poder, o que sempre inculcou nas massas o fascínio de a origem não ser travão para certos contos de fadas, apimentado com drama, conspiração, paixões e traições.
Ao morrer, Evita nasceu para a eternidade Santa Evita, uma Passionária sem armas e provavelmente sem causas, mas uma palpitante história de veneração popular que ainda hoje a Argentina chora.