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quarta-feira, 1 de maio de 2019

Perturbante Mundo Novo

É hoje generalizado o uso das redes sociais, seja por figuras públicas, marcas, políticos ou o mais anónimo dos utilizadores. Estar ligado na rede é fazer prova de vida, voyeurismo, combate à solidão, descarga de ódios e emoções ou tão só repetição de informações. Paradoxo dos paradoxos, estar na rede, se é um estado avançado da comunicação, é ao mesmo tempo traduzido por cada vez menos se falar com o vizinho do lado, o amigo ou o colega e se estar de olhos pregados no ecrã, seja do computador, tablet ou smartphone a “cuscar” a vida dos outros, denegrir, ou somente a dizer um aflito “estou aqui” para atenuar a solidão. Estranho mundo novo onde se grita no silêncio do dedilhar, como se premindo esse gatilho virtual os outros soubessem da nossa existência. Assim é hoje em muitos domínios: dantes, punham-se anúncios no jornal quando falecia um parente, agora coloca-se na rede e recolhem-se os emojis e smileys correspondentes, as ementas dos restaurantes estão online, a vida de cada um é pública e publicada, desde o prato do almoço ao gato brincalhão, a bravata contra o clube rival ou a busca de encontros amorosos.
O mundo como o conhecemos hoje é feito dessa nova realidade que é a democratização do acesso à informação, mas também a possibilidade de perversão totalitária que a sua manipulação pode originar, reproduzindo mentiras como se de verdades se trate, inventando factos e acicatando rivalidades. Veja-se como realidades completamente díspares como a propaganda do Daesh ou a eleição de Trump beneficiaram dessa ferramenta letal, que doutrina os novos fanatismos na época da dita pós-verdade.
Numa conferência recente, Mark Zuckerberg, fundador do Facebook lançou algumas previsões relativas ao futuro das redes sociais nos próximos dez anos. As principais tendências, na sua perspectiva são que para lá do crescimento exponencial dos utilizadores, será mais provável que o envio de mensagens se faça via fotos e SMS e que os antigos web interfaces percam a viabilidade, uma comunicação avançada e sem distrações. Os meios alternativos de envio de mensagens, também estão em evidente expansão. Por exemplo, a Whatsapp já ultrapassou as SMS em número de mensagens enviadas. O Snapchat, mecanismo de comunicação através de fotografias momentâneas, também cresceu exponencialmente tendo agora cerca de 100 milhões de utilizadores.
Na perspectiva de Zuckenberg, a grande novidade será a realidade aumentada. Nos próximos 10 a 15 anos, haverá uma nova plataforma, ainda mais natural e ainda mais engrenhada nas nossas vidas que os telemóveis, algo que possamos vestir ou usar que será tão natural como usar óculos e que nos fornecerá um contexto do que se está a passar no mundo, da realidade em redor. Seremos então meros chips controlados por quem dominar as redes, em teias onde conviverão de modo predador as novas aranhas e as minúsculas moscas, à mercê do totalitarismo tecnológico que nos orientará desde a escolha política até ao abastecimento do frigorífico. De Admirável Mundo Novo a caminho dum Perturbante Mundo Novo…

terça-feira, 30 de abril de 2019

A morte de Hitler- uma "estória" da História

30 de Abril de 1945.No bunker  de Berlim surgia uma nota confidencial: "O Reichsführer SS Himmler estabeleceu negociações com o Alto-Comando anglo-americano".Os efectivos soviéticos já se encontravam na Alexanderplatz e uma chuva de granadas começava a cair sobre o abrigo secreto de Adolfo Hitler. Pela uma da tarde, este, no estertor final, realizava o casamento com Eva Braun, tendo como testemunhas Goebbels e Bormann. A cerimónia terminou com um brinde aos novos cônjuges que minutos depois se retiraram para os seus aposentos, onde Gertrude Junge, a secretária lhe anotou o testamento. Doze anos de paranóia caminhavam paulatinamente para o fim.
Os soviéticos já estavam perto do abrigo onde os soldados que o defendiam do lado de fora disparavam furiosamente. No testamento, Hitler ditou “não quero cair em mãos do inimigo, que quer oferecer um novo espectáculo com o único objectivo de divertir as massas histéricas. Consequentemente, decidi ficar em Berlim e escolher, voluntariamente, a morte, no momento em que considere que a posição do Führer e a da Chancelaria não possam ser mantidas por muito tempo. Morro com a alegria no coração, consciente dos imensas realizações do nosso povo e da contribuição incomparável que a juventude que leva o meu nome deu à História” .Cumprimentou, um a um, todos os seus assistentes e almoçou com as duas secretárias e o cozinheiro. Depois, despediu-se dos outros e acompanhado por Eva Braun, dirigiu-se para o quarto, para o desfecho planeado. Uma vez fechada a porta, por uma passagem secreta Otto Gunche fê-los atravessar um corredor que dava acesso a um hospital próximo e dai os levou, disfarçados de médico e enfermeira, numa ambulância, para fora de Berlim.
 No bunker, eram três e quarenta e cinco quando no quarto se escutou um disparo, posto o que Bormann entrou no aposento acompanhado pelo criado, Linge. Um corpo, morto, estava inerte numa cadeira, um outro, de mulher, estendido num divã, a seu lado duas pistolas, uma Walter PPK, e outra menor que Hitler sempre trazia no bolso, do corpo feminino exalava um forte cheiro a cianeto.
Bormann voltou à sala onde se encontravam Goebbels, Burgdorf e outros e anunciou, solene e hirto:"O Führer está morto." Em seguida, os cadáveres foram rapidamente envolvidos em mantas e levados para fora do abrigo onde foram regados com gasolina e ateado o fogo em seguida. Hitler e uma época acabavam de desaparecer, deixando a Alemanha derrotada e nas mãos dos ocupantes.
Portugal, 7 de Maio de 1945. Berlim fumegava, destruída, os russos vitoriosos controlavam já a cidade depois da rendição total. Longe dali, no extremo ocidental da Europa, alheio a tudo, Joaquim Gregório, banheiro da Praia da Adraga, no litoral de Sintra, recolhia mexilhões para uma patuscada na taberna do Zé Patrocínio. Mar encrespado, apesar de dia claro, nada como a praia pela manhã, ainda sete horas não eram e o dia raiava, primaveril. Ao fundo, uma traineira dirigia-se para o porto da Ericeira, dolente e rodeada de gaivotas. Um vulto negro e compacto pareceu surgir junto da traineira, emergindo do mar, a idade entorpecia-lhe já a vista, era ilusão de óptica, por certo, foi até à taberna emborcar um tinto retemperador.
Junto à traineira, e longe dos olhares, um submergível vinha agora à superfície, um U-BOOT tipo XXI alemão, a suástica do Reich não deixava dúvidas. Depois de aberta a escotilha e de na traineira estranhos pescadores de gabardine e chapéu baixarem uma escada, um homem e uma mulher saíam do submarino entrando de imediato na traineira. Ele aparentava cinquenta anos, magro, cabelo cortado rente, ela algo mais nova, assustada e seguindo-o obediente. Pelo comportamento dos homens da gabardine seria alguém importante, a PIDE encarregara aqueles inspectores de uma missão secreta, de recepção a importantes dignitários alemães fugidos da guerra, nada mais se adiantando, a neutralidade do país não podia arriscar notícias de envolvimento com o Eixo.
Dali a traineira rumou a Cascais, não sem que o comandante do submarino fizesse a saudação nazi, dizendo para o homem que nunca abriu a boca  “Até sempre, mein Führer!”.As instruções eram de, após deixar o casal na costa portuguesa, acordada com o governo local, desembarcarem perto de Leixões e afundar o submergível, desmobilizando depois da Marinha alemã, cada um a um novo destino.
Com discrição, o casal foi alojado numa casa na Malveira da Serra, de longe guardada por agentes da polícia internacional de Portugal, embarcando em Agosto seguinte sob identidade holandesa e passaportes fornecidos por Lisboa num vapor com destino a Buenos Aires. Na Malveira, apenas constava serem refugiados judeus em trânsito para a América, era o que se dizia na vizinhança, nunca saíram da casa enquanto lá permaneceram.
Rio Gallegos, Argentina, Setembro de 1964. Entre consternação geral, gaúchos a cavalo escoltavam o funeral de Marcus Schoof, fazendeiro de origem holandesa há quase vinte anos radicado na Patagónia e um dos maiores proprietários locais, uma fazenda com um milhão de hectares e a melhor carne da Argentina. Muitos outros europeus, sobretudo alemães e austríacos radicados na província compareciam ao enterro. A viúva, a senhora Eva seguia atrás, numa charrette, vários dos presentes, amigos de Schoof esticavam o braço saudando em sinal de respeito. Pablo, que fora feitor da fazenda nos últimos anos lamentava com Juanita a morte do patrão, vítima de sífilis, dizia-se à boca pequena, comentando a estranha colecção de dentes de ouro que guardava num cofre, algo bizarra, mas de onde se dizia provir muito do rendimento com que adquirira a propriedade em 1945 ao chegar de Portugal. Junto a Eva, uma velha amiga dos tempos da Europa, uma senhora que fazia filmes, segundo Juanita, Leni Riefensthal, inconsolável já lhe confidenciara como quando novo e na terra dele o siñor Schoof fora um grande orador em prol de grandes causas e grande amigo dos pobres.


quarta-feira, 24 de abril de 2019

Sintra em 1974

Em vésperas de mais um 25 de Abril, recordar Sintra nesses já remotos dias:
Inaugurado o campo de futebol do Ginásio 1º de Maio, em Agualva Cacém
Entra em funcionamento o Centro Operacional de Satélites em Alfouvar, perto de Negrais 
Janeiro 
5- Abre o restaurante Ad Hoc, de Francisco Catalão
12-Inauguração da sede da Liga dos Amigos da Rinchoa 
13-Festa dos Avós em S. Pedro, onde Marcelo Caetano participa como "avô" 
20- O Ministro do Interior, Moreira Baptista, visita Sintra.


26-Francisco Cordeiro Baptista administrador do Bairro Administrativo de Queluz


O bacalhau custa por essa época trinta escudos o quilo (15 cêntimos).
Fevereiro
O Grupo Dramático do Mucifal leva à cena nos Bombeiros Voluntários de Colares a peça “Recordar é Viver”.
António Casul Reis é presidente do Sport União Colarense.
IV Encontros de Sintra. 
Março
1- Entrada em funcionamento do Centro de Saúde de Sintra, dirigido por Aires Gouveia
António Nunes é treinador do Sintrense
Abril
2-Visita a Sintra do Lord Mayor de Londres, Sir Hugh Wontner 
Com o 25 de Abril, demite-se a Câmara. No Jornal de Sintra de 27 de Abril, o edital 38 da CMS anuncia estar aberto concurso para "desinfectação e desratização no concelho"... 
Maio
1-Grande manifestação em Sintra assinala o primeiro 1º de Maio e a recente revolução de 25 de Abril. 

24- Vitor Roneberg preside ao grémio, agora Associação de Comerciantes do concelho de Sintra 
25- Reúne-se em Colares a comissão local da CDE, o partido que vinha da oposição democrática, intervindo José Alfredo Azevedo e Maria da Graça Forjaz
Junho
14-Toma posse a Comissão Administrativa da CMS pós 25 de Abril, composta por José Alfredo Costa Azevedo (presidente) José Joaquim de Jesus Ferreira, Aristides Campos Fragoso, Lino Paulo, Jorge Pinheiro Xavier, Cortêz Pinto, Álvaro de Carvalho, Manuel Monteiro Vasco, Carlos Quintela, António Manuel Carvalheiro, Manuel Maximiano e Mário Barreira Alves. 

Valério Chiolas é presidente da Comissão Administrativa de Colares. 
11-Carlos Galrão preside aos Espeleólogos de Sintra 
19- Comício do MDP/CDE no Carlos Manuel, com José Tengarrinha
19- Fundação do Grupo Cultural e Recreativo de Rio de Mouro 
Jornal de Sintra custa nessa altura dois escudos (1 cêntimo). 

24-Luis Pedroso Miguel é presidente do Mem Martins Futebol Clube.  
28- Morre o padre José Oliveira Boléo 
29-Morre o escritor e grande amigo de Sintra Ferreira de Castro.
Julho
1- Comício da Comissão Administrativa da Câmara no ringue do Parque da Liberdade
Fecha a fábrica de queijadas Mathilde, de Manuel Soares Barreto. 
O PCP ocupa o edifício da cadeia comarcã. 
10-
13-Morre Raul Lino, arquitecto com vasta obra em Sintra.

24-Comício do PS no Cineteatro Carlos Manuel, com Sargo Júnior, Maria Barroso, Jorge Campinos e José Alfredo.
O Liceu Nacional de Sintra aprova uma moção defendendo a sua professora Maria Almira Medina, injustamente atacada.
Decorre uma polémica em torno da não abertura do Hospital de Sintra.
Agosto
15- Abre em Cabriz o restaurante "Curral dos Caprinos"
Setembro 
8-Festas de Nossa Senhora do Cabo em S. João das Lampas
20-Hermínio Lopes de Sousa presidente do Sintrense
24-Assinada a cedência do espólio dos escultores Anjos Teixeira, pai e filho, à Câmara de Sintra.
António Costa Alcobia é presidente da Comissão Administrativa da Junta de S. Martinho.Compõe a junta António Luís Pedro Baptista, Luís Oram Soares,Maria da Graça Macedo Forjaz e Albino Morais Calinas. Outras juntas: Agualva Cacém-José Manuel Cunha Ferreira, Algueirão-Mem Martins, Rogério Solano da Silva; Almargem do Bispo Alberto Rodrigues Almeida; Belas Guilherme Dias; Colares Valério Chiolas; Montelavar Romualdo Cipriano;Queluz Salvador da Luz; Rio de Mouro Américo Serronha; S. Maria e S. Miguel António Faria; S. João das Lampas Joaquim Pedro;  S. Pedro, Pedro Soares Santos;  Terrugem Josué Duarte Gaspar.
30- O Hockey Clube de Sintra sobe à I Divisão
Outubro
31-Inauguração da luz eléctrica no CF Os Montelavarenses
Novembro
15-Armando Esteves Pereira presidente do HCS
Flagelo da construção clandestina em Casal de Cambra 
Um ministro nesta altura ganha 26 contos (cento e trinta euros) que podem chegar a 35 com ajudas de custo.
Dezembro
13-Abre o supermercado Carôço em Mem Martins
19- Norberto Lopes Leal presidente dos Bombeiros de S. Pedro 
21-Pelo DL 735/74 o monumento do Outeiro das Mós, na Praia das Maçãs (tholos) é classificado como monumento nacional. 

Francisco Barreto das Neves passa a gerência da Sapa para Maria Fernanda das Neves

sábado, 20 de abril de 2019

O rasto da serpente

Passam hoje 20 anos do massacre de Columbine, na Columbine High School em Jefferson County,Colorado. Além do tiroteio, o ataque envolveu o uso de bombas para afastar os bombeiros, tanques de propano convertidos em bombas, 99 dispositivos explosivos, e carros-bomba. Os autores do crime, Eric Harris e Dylan Klebold, mataram 12 alunos e um professor e feriram outras 21 pessoas, tendo depois cometido suicídio. De então para cá, uma América cada vez mais violenta e em negação sobre a repressão na aquisição livre de armas,cultivada pela Administração Trump e hoje pelo Brasil de Bolsonaro, assistiu a inúmeros massacres, sinal duma sociedade desestruturada e herdeira dos velhos cowboys do Oeste. Uma coisa é certa: violência gera violência, e apesar de Rousseau e Voltaire, Hobbes e o seu homem lobo do outro homem ainda campeiam por aí.Ironicamente, o massacre ocorreu na data do nascimento de Adolf Hitler em 20 de Abril de 1889, passam hoje 130 anos.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Paris já está a arder


Vendo a Notre Dame em chamas, recordo a minha primeira viagem a Paris, nos idos de 1979. O velho Sud-Express, testemunha de muitas partidas dolorosas e excitadas chegadas, de emigrantes a salto e camones louros que de fora traziam a Europa ao rincão, em tempos de chumbo e melancolia, foi a minha porta de embarque para um primeiro banho de Europa e para muitos que fora de portas pouco ou nada conheciam. Aos castanhos de Portugal e Espanha, recortados pelos picos nevados dos Pirenéus, a Europa surgiu molhada, em Irun, na mudança para comboio mais moderno e paisagens de vinha e castelos, a Provença e a França industrial. A verdadeira Europa começava aí. Paris foi uma sensação esquisita: a tão aguardada Cidade Luz, fosse pelo tardio da chegada ou pelo cansaço da viagem, pareceu sombria e soturna: uma ratazana coquette serpenteando nos carris, em Austerlitz, já na gare, um clochard sem abrigo dormindo e fazendo duma caixa de sapatos uma almofada. Paris, enfin!...
O dinheiro não era muito, mas a diversão imensa: passeios em Pigalle, fotos no Moulin Rouge, a aventura dumas ostras no Boulevard des Italiens, que se danasse, a vida eram dois dias. Ao fim da segunda noite, na esplanada do Café de La Paix, não estavam Breton nem Hemingway, mas alguns portugueses e o mundo, razoáveis exigindo o impossível, despreocupado, um velho acordeonista tocava canções de Chevalier e Trenet.
A Notre Dame era a velha senhora, do alto dominada por Montmartre, impondo a grandeza do tempo das catedrais feitas para distanciar os Homens de Deus, entre anjos, vitrais e esfíngicas estátuas. Entrando reverente, lembrei o corcunda da história, quiçá escondido num torreão entre as gárgulas, o suplício de Jacques de Molay, ali perto, ou o casamento de Bonaparte com uma pouco provável Josefina. E dali, a vista para a Rive Gauche, de Sartre e Levi Strauss, de alfarrabistas, pintores e poetas parnasianos, Toulouse-Lautrec ou Edith Piaf.
E os versos de Eluard:”et d’abord j’ecriverai ton nom: liberté”.
Arde Paris e ardem séculos de holográficas epopeias e insuportáveis misérias. Não arderá a memória, pois se para glória de Deus foi feita esta glória dos Homens, do engenho dos Homens ressurgirá de novo a silhueta gótica da vetusta e senhorial catedral.


Maria Alberta Menéres

Leio no Twitter que morreu a professora e escritora Maria Alberta Menéres. Recordo-a como minha professora de Português na Escola Preparatória Pedro de Santarém, em Benfica, nos idos de 1971, e as suas exaltantes aulas nas quais descobri o gosto por Homero, tendo com prazer, e pela sua palavra e energia descoberto as aventuras de Ulisses nessa tortuosa mas trepidante viagem para Ítaca que ela nos desfiava como se para lá nos transportasse. Pedagoga, possuidora dum sorriso envolvente, é com mágoa que a vejo partir, exemplo maior dum tempo de professores missionários em prol da Educação e da Escola como formadores de Cidadãos. Ulisses voltou a Ítaca e a professora Maria Alberta, sorrindo, entrou no Olimpo.

domingo, 14 de abril de 2019

Phubbing, ou o medo de existir

Estão a ver quando quatro ou cinco pessoas estão à mesa de um café e ninguém fala com ninguém com os olhos postos no telemóvel? Estamos perante uma nova doença da classe das esquizofrenias chamada phubbing, onde o que o que se passa para lá do retângulo mágico é a realidade e a realidade o seu avatar.
Vivemos tempos de mudança. Vidrados na Sarjeta Mágica que nos diz quão verdadeiras são as notícias falsas, cá vamos arregimentados pelo Big Brother que já não está watching you mas nos devorou, apoderou da alma, filtrou a realidade, tornou a democracia um depositório de likes ululantes e de forma desvairada odiando e amando tudo o que mexe várias vezes ao dia, seja o clube de futebol, a política ou o video amador do amigo, tudo entrecortado por muitas selfies, a comer uma lasanha, a ver o por do sol na praia, com o Toy ou o professor Marcelo, numa perturbadora necessidade de mostrar. 
E no meio de tudo, não desligar do eletrodoméstico mágico, não se vá perder um comentário, uma "boca" ou a salvação do mundo entre duas imperiais ou um zapping na televisão.
Ele é nas paragens de autocarro,  nos cafés, nos centros de saúde ou nos cabeleireiros, como sarna incurável umbilicalmente ligando-nos a tal mundo. Por lá passam os novos hedonismos, a vaidade pessoal, a solidão de muitos que nesse novo confessionário se refugiam ante os altares dos download. Morre alguém? O RIP na rede social chora o defunto, com smileys adequados e gifs à escolha. Há uma festa de anos? Cria-se um evento no Facebook. Quer-se dar para uma causa para estar na moda? Promove-se um crowdfunding que muitas vezes não passa do contributo virtual do promotor, mas nos deixa com o espírito filantrópico do Live Aid de centro comercial. É este o Admirável Mundo Novo, paradoxalmente dito de era da comunicação mas onde provavelmente se janta em família (quem ainda janta em família...) a olhar para o ecrã mágico e sem nada para dizer ou partilhar. 


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Conversa com João Rodil, 31 de Janeiro

Templários, druidas, ordens religiosas e mistérios profanos, de tudo é feita a mística de Sintra, terra de brumas e promontórios onde o mistério nos surge a cada canto. Para nos falar dessa Sintra de símbolos e crenças, João Rodil, escritor e historiador estará à conversa com os participantes na primeira de dez tertúlias designadas "Conversas sem Rede", todas as últimas quintas feiras do mês até Dezembro, com exceção de Julho e Agosto, e sempre com temas e convidados diferentes. Biblioteca Municipal de Sintra, dia 31 de janeiro, 17h30m. Entrada Livre. Mais informações através de dcul@cm-sintra.pt e 219236110



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Encontros mensais com Gonçalo M. Tavares




 


A partir de 19 de janeiro, e uma vez por mês, a Biblioteca Municipal de Sintra-Sala Vergílio Ferreira- vai receber o escritor Gonçalo M. Tavares que livremente debaterá com os participantes temas candentes da nossa vida contemporânea. Tais sessões, designadas “Conversas com Gonçalo M. Tavares”, terão início às 15h e a duração de 2 horas, serão de entrada livre, mas limitadas a 30/35 participantes, os quais, querendo, podem inscrever-se antecipadamente para dcul@cm-sintra.pt
A sessão de 19 de janeiro será dedicada ao tema "A Morte"
Nas próximas sessões serão abordados os seguintes temas:
23 de fevereiro- A saúde, a alegria
16 de março- Racionalidade e loucura
27 de abril- A tecnologia
25 de maio- A linguagem, a verdade e a mentira
22 de junho- Imagens e imaginação
28 de setembro- O poder, a politica
26 de outubro- A Identidade
23 de novembro- O amor
28 de dezembro- As utopias
 
Gonçalo M. Tavares é já um dos escritores mais traduzidos de sempre da literatura portuguesa, (estando em curso traduções e edições internacionais de todos os seus livros, em mais de 50 países). Gonçalo M. Tavares recebeu importantes prémios em Portugal e no estrangeiro, nos mais diversos géneros literários. Como Aprender a Rezar na Era da Técnica recebeu o Prix du Meilleur Livre Étranger 2010 (França), prémio atribuído antes a Robert Musil, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Elias Canetti, entre outros. Recebeu inúmeros prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi por diversas vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina.
Em Portugal recebeu, entre outros, o Grande Prémio do Romance e Novela da APE, Prémio José Saramago, Prémio Fernando Namora. Jerusalém foi o livro mais escolhido pelos críticos do jornal Público para romance da década e Uma Viagem à Índia foi escolhido pelo jornal DN, por diferentes críticos, como uma das 25 obras essenciais da história da literatura portuguesa.

Compareçam!



quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Por uma Liga dos Amigos do Festival de Sintra











Marco primordial da actividade musical em Sintra, é o Festival de Sintra, com origens em 1957 nas Primeiras Jornadas Musicais do Município de Sintra, em resultado de um esforço significativo de dinamização artístico-cultural, e marcadamente destinado à pianística, por ele tendo passado os mais reputados executantes mundiais. Nos anos sessenta alargou o seu âmbito a outras expressões artísticas, como o bailado, a música de câmara, o teatro e a ópera, tendo apenas sido interrompido entre 1974 e 1983. Distribuído pelos luxuriantes palácios e quintas de Sintra, dele foi mecenas Olga Maria Nicolis di Robilant Álvares Pereira de Melo, Marquesa de Cadaval, e participaram nomes como Roland Petit, Grigori Sokolov ou Artur Rubinstein. Em 2001 a organização do Festival de Sintra passou para a responsabilidade da empresa municipal SintraQuorum e desde  13 de outubro desse ano o Centro Cultural Olga Cadaval passou a dispor de condições ímpares para a realização de grandes eventos musicais, ali tendo atuado o Ballet e a Ópera Nacional de Novosibirsk, a Companhia Nacional de Bailado, o Ballet du Grand Theatre de Geneve, a Companhia Nacional de Dança de Espanha, o Scottish Dance Theatre, o Scapino Ballet de Roterdão, o Teatro Negro Nacional de Praga, o Teatro Nacional e Ópera da Moldávia, o Moscow Tchaikovsky Ballet, o Ballet Estatal Russo de Rostov, entre outros, bem como todos os grandes nomes da música portuguesa. Sintra dispõe de diversos grupos de música clássica, música popular tradicional, orquestras, ranchos folclóricos adultos e infantis, bandas filarmónicas, grupos de música erudita, grupos de música tradicional, de cantares e orquestras escolares, a que acrescem os diversos grupos de hip hop, jazz, rock, música ligeira e fado. É, pois, também Sintra uma terra de música, onde Richard Strauss comparou a Pena ao castelo de Klingsor, do celebrado Parsifal de Wagner.

O Festival de Sintra é uma marca que pode e deve ser utilizada como marca de água na futura promoção de Sintra como cidade criativa da UNESCO, e um evento que cada vez menos deve ser visto como isolado na programação de grandes festivais europeus, ou condenado a só ser divulgado e promovido no período que antecede a sua realização. A recuperação das memórias de outros anos, de instrumentistas, músicos ou cantores, bem como a divulgação de outros festivais congéneres, merece que a sociedade civil melómana e os atores institucionais congreguem esforços no sentido de constituir uma Liga dos Amigos do Festival de Sintra, que agregue personalidades  do mundo musical com ligações ao Festival, agentes culturais, sociais e políticos sintrenses e faça da sua memória, defesa e promoção um projecto permanente ao longo do ano, seja pela criação de um site e blogue dedicados ao Festival, (aos do passado e do futuro), seja pela divulgação de músicos e festivais congéneres, realização de palestras e encontros, e parceiro ativo na sua promoção, enquanto referencial comunitário e em apoio às iniciativas que para a sua concretização, bem como da candidatura a Cidade Criativa se imponham, como novo e virtuoso stakeholder. O que pensam os sintrenses?