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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Padre António Vieira, perigoso genocida?





É ridículo ver gente que devia ter dois dedos de testa acusar o Padre António Vieira do etnocídio do povo ameríndio, e mais demencial ainda é ver a sua estátua recentemente inaugurada “protegida” por hammerskins de quem ele por certo se distanciaria se fosse vivo.
O mundo do século XXI não é o mesmo do século XVII, e não se pode exigir a quem viveu nesse tempo, anterior à Revolução Francesa e à emergência das sociedades com direitos que felizmente se sucedeu, e de que Portugal foi pioneiro ao ser dos primeiros países do mundo a abolir a escravatura, o mesmo tipo de enfoque. Pelos cânones de hoje o infante D. Henrique seria um perigoso esclavagista e D. João II um tirano e um déspota.
Recordemos, contudo,  o seu Sermão Vigésimo Sétimo: «Oh trato desumano, em que a mercancia são homens! Oh mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas, e os riscos das próprias!... Os senhores poucos e os escravos muitos; os senhores rompendo galam, os escravos despidos e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros.»
Admitindo o cativeiro dos negros vindos de África, considerado legal, e não o dos índios, acrescenta Vieira: «Bem sei que alguns destes cativeiros são justos, os quais só permitem as leis, e que tais se supõem os que no Brasil se compram e vendem, não dos naturais, senão dos trazidos das outras partes: mas que teologia há ou pode haver que justifique a desumanidade e sevícia dos exorbitantes castigos com que os mesmos escravos são maltratados?»
Vieira era pelos índios chamado de "Paiaçu" (Grande Padre/Pai, em tupi), e foi um exemplo de tolerância e grande defensor da comunidade indígena, num tempo que a muitos interessava mais o vil metal e a ganância do poder. Assistir pois aos eventos ocorridos na Lisboa de 2017 conspurca a sua memória e deixa mal na fotografia ambos os lados, uns por fanatismo etnocêntrico, outros por nacionalismo bacoco e de quem nunca terá lido uma linha da sua obra. Como ele escreveu “O não ter respeito a alguns, é procurar, como a morte, a universal destruição de todos.”




quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Novo evento da Alagamares no dia 14

   

Discutir as cidades do futuro, dotadas de instrumentos inovadores e disruptivos, é o mote para o evento que a Alagamares promove dia 14 de Outubro pelas 16h30m no auditório da Escola Secundária de Santa Maria, na Portela de Sintra, com Entrada Livre.
Oradores:
LEONEL LOURA

Leonel Moura (26 de Dezembro de 1948, Lisboa) é um conceituado artista português cuja obra nos fins da década de 1990 passou da fotografia para a inteligência artificial e arte robótica. Desde então, o artista tem produzido vários Robôs Pintores e o Robotarium, um zoo para robots, o primeiro deste tipo no mundo. Uma das suas criações, o RAP (Robotic Action Painter) de 2006, é um robot que faz desenhos baseados em emergência e estigmergia, decide quando a obra está pronta e a assina. O RAP é exibido como instalação permanente no American Museum of Natural History em Nova York.

SER-rA


O atelier SER-ra, fundado pelos arquitectos Gonçalo Moleiro e João Bilbao, ambos naturais de Sintra, foi formalizado em 2017, apesar da sua existência enquanto colectivo desde 2012.
O trabalho desenvolvido pelos SER-ra não se limita à elaboração de projectos, procurando repensar a cidade através da Arquitectura.

NEXT REALITY

A Realidade Aumentada permite transformar espaços reais com elementos digitais – é sobre esse potencial e a forma como iremos viver as cidades no futuro que vamos falar. E depois vamos demonstrar um pouco do que já é esta tecnologia.
A NextReality é uma empresa do IT People Group, dedicada à produção de soluções em Realidade Aumentada, Realidade Virtual e Mixed Reality desde 2010. Somos Microsoft Gold Partners, temos quatro produtos lançados com esta tecnologia e um deles – o ARchitect – visa precisamente facilitar a simulação de edifícios no espaço urbano.  Será orador Luís Martins.

MIGUEL PORTELINHA
Designer, fundador da empresa MalAmados, street artist, com formação no IADE.

Autarquias, dar passos em frente




Com o cair do pano sobre as eleições autárquicas, é chegado o momento também do virar de página no quadro territorial, de competências e de gestão das autarquias, impondo-se um novo modelo, pois realidades há que exigem novas abordagens, pesem os bloqueios de paróquia que se não devem afirmar no quadro da representação institucional. No quadro da gestão, vê-se com bons olhos a criação de sistemas de gestão partilhada de serviços e pessoal, num quadro intermunicipal e regional, potenciando economia de meios e reforço de recursos. Porquê a proliferação de serviços de águas, lixo, cultura, proteção civil por cada município, quando num quadro integrado se poderão obter vantagens de gestão, força de reivindicação, e operacionalidade reforçada? O quadro deverá contudo ser complementado com a maleabilidade do outsourcing, a eliminação de serviços duplicados, derramas sobre as mais-valias a favor de obras ou ações de interesse comunitário e uma maior participação na fatia dos impostos nacionais. No quadro do planeamento, prioridade à reabilitação urbana, agilizando os planos de pormenor, reduzindo os pareceres de entidades sempre que haja plano diretor aprovado e dispensando prazos de apreciação quando os pedidos se ajustem a plano-tipo que a autarquia poderia disponibilizar. O recurso a empresas externas para a apreciação de projetos ou a manutenção de equipamentos num quadro de igualdade de oportunidades seria igualmente interessante, numa vertente de menos Estado e não só Estado diferente. Afigura-se correto que a gestão das áreas da educação, saúde, polícia municipal, cultura ou cobrança de impostos possa ser feita num âmbito intermunicipal, por exemplo, a que se acrescentem competências na área das zonas marítimas e portuárias, estacionamento, ou simplificação administrativa.

Como pontos menos claros, nas propostas recentemente vindas a lume, a relação de forças entre diversos níveis de poderes locais (freguesias, câmaras e as novas entidades intermunicipais) misturando entidades emanadas do voto popular com outras criadas pela lei e sem tal legitimação, e que na prática, dada a panóplia de poderes que podem vir a ter em abstrato, podem configurar o cavalo de Troia da Administração Central, sobretudo se ficar por esclarecer a forma de financiamento e os recursos humanos e materiais a elas adstritos. Igualmente por clarificar o papel futuro das CCDR.

O Governo teve em consulta pública o projecto da nova lei quadro de transferência de competências para as autarquias e entidades intermunicipais. Nota menos positiva para a redação do nº 1 do artº 2º do projeto: “A transferência de competências efetua-se para a autarquia local que, de acordo com a sua natureza, se mostre mais adequada ao exercício da competência em causa”. Afigura-se que esta cláusula aberta pode permitir tudo, mas também nada, esperando que a legislação complementar prometida no artº 4º concretize mais estas balizas.

Deverá vincar-se a possibilidade de transferência da  gestão da rede de transportes terrestres de passageiros, que tanta importância têm na solução de questões de mobilidade, e que no caso dum município como Sintra, claramente marcado por uma lógica metropolitana, deverá ser aprofundado.

Abandona-se uma enumeração taxativa das atribuições e competências das autarquias para adotar um sistema de cláusula geral, onde tudo podem ser atribuições em correlação com o princípio da subsidiariedade. A baralhação pode vir a ser grande, contudo, se, aplicada a possibilidade de delegação legal de competências das câmaras nas freguesias, ou das câmaras nas entidades intermunicipais, ou até do governo diretamente nestas, se vier a criar um quadro em que umas fiquem sobrecarregadas e sem verbas, e outras vejam o controlo democrático pelos eleitores subtraído por uma comunidade intermunicipal ou área metropolitana que não foi objeto de sufrágio e tenderá a repercutir a vontade das maiorias políticas nelas representadas, e não a dos eleitores ou órgãos dos municípios.

O projeto de lei aparentemente reforça no papel as competências das freguesias, como prometido na proposta de reorganização administrativa, mas sem ficar claro o correspondente envelope financeiro, nem de quem partirá a iniciativa de contratualizar, correndo-se o risco de duplicação de serviços e de funcionários adstritos às mesmas funções.

Importante se torna contudo a vontade de prossecução do desiderato do artº 6º da CRP na concretização do princípio da subsidiariedade, da autonomia das autarquias locais e da descentralização democrática da administração pública. Progresso, Participação, Planeamento, eis os três P essenciais duma Politica Profícua e Patriótica.

 

 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Sintra e o Dia Mundial do Turismo








Envolvido por um centro histórico de Sintra despovoado e idoso (em todo o Centro Histórico, incluindo S. Pedro, Vila e Estefânea moram 3400 pessoas, e na Vila apenas cerca de 380, tendo um terço mais de 64 anos), com edifícios a precisar de intervenção urgente e alguns em completa ruína, afigura-se ser necessário pensar global, atenta a sua realidade de burgo encavalitado com uma serra serpenteante e densa a envolve-la, com todas as contingências que isso acarreta.

No Dia Mundial do Turismo, a nova galinha dos ovos de ouro da economia nacional, algumas sugestões para um turismo não turisficado, com uma palavra prévia de reconhecimento para nomes que no passado projetaram o nosso turismo, do elétrico da Praia das Maçãs aos hotéis de charme como o Costa, o Bragança ou o Central, na Vila Velha: empresários como Adriano Júlio Coelho, que edificou o Casino, Diamantino Tojal, promotor da piscina da Praia das Maçãs, Miguel Rebelo, da primitiva Pensão Nova Sintra ou António Raio e técnicos como Consiglieri Martins ou Mário João Machado.

Como tarefas fulcrais a desenvolver, sob a égide dum órgão coordenador abrangente, com competências claras e executivas, e fundo de maneio próprio e proveniente de fundos e programas de financiamento, sugeriria, enquanto municipe:

-aprofundar a promoção de medidas que fixem e tragam jovens e moradores para o Centro Histórico, apostando no arrendamento, contemplando benefícios fiscais para quem recupere património existente;

-a construção dum Sintra Welcome Center, ou Centro de Visitas, na Vila Alda, no Casal de S. Domingos, ou no estacionamento fronteiro à estação da CP (onde se poderiam localizar os pontos de venda dos guias turísticos);

-a implementação de sinalética com informação exaustiva, WI-FI e QR codes em todos os locais de relevo;

-o lançamento de obras de recuperação dos imóveis em péssimo estado, ou sua alienação, com a condição de recuperação em prazo certo e curto;

-o aprofundamento da apresentação das candidaturas com viabilidade de serem elegíveis para uma série de fundos europeus, onde se podem ir captar verbas  significativas para vários programas operacionais;

-a criação de parques periféricos no Ramalhão, Portela e Estefânea dotados de sanitários, pontos de divulgação turística e paragens para transportes colectivos;

-o lançamento de obras na sede dos escuteiros, na antiga cadeia comarcã, visando apoio para mostra e venda de artesanato e produtos regionais, exposições, espaço internet e venda de produtos biológicos), bem como garantir a fruição pública do Parque dos Castanheiros, em Seteais, e recuperar as casas em ruínas na Volta do Duche e Escadinhas do Hospital, entre outras;

-a revisão e revitalização do Elucidário Arquitetónico da Vila de Sintra;

-elaboração dum Plano de Marketing Turístico e Comercial de médio prazo;

-alterar e adaptar as localizações e horários dos transportes públicos e praça de táxis da Vila;

-dotar o Centro Histórico de mais sanitários públicos, evitando o uso excessivo dos locais de restauração, que se queixam de muitas vezes serem utilizados para esse fim apenas;

-criar uma programação de eventos contínua e adequada às características de Sintra;

-ponderar o futuro do eléctrico, sendo eu particularmente contra a sua continuação até à Vila, pelo impacto no trânsito e pelo impacto visual negativo das catenárias;

 -ponderar a não execução do teleférico, pois tal abreviaria a visita a Sintra dos inúmeros visitantes, levá-los-ia apenas à Pena e frustraria a possibilidade de se “sentir” Sintra em benefício dum turismo de massas que não se deve preconizar, sofrendo a vila e a serra já hoje a consequência das hordas diárias de visitantes trazida pelo aumento de viagens low-cost tendo Lisboa como destino primário e Sintra como destino complementar. Além de que dificilmente se encontrará alguém para pagar os 20 milhões de euros previstos para a sua construção;

-ponderar a possibilidade de criação de um posto de informação no Rossio ou no Turismo de Lisboa, especificamente visando Sintra, e onde se possam obter informações prévias e adquirir bilhetes compostos transporte-visita para os visitantes que pretendam visitar Sintra;

-replantar árvores na Praça da República, e classificar todo o arvoredo da zona da ARU como de interesse municipal, impedindo cortes, e promovendo apenas os que decorram de parecer fitossanitário devidamente fundamentado;

-criar novas zonas e percursos pedonais (sem corte de trânsito, ou corte parcial) junto ao Pelourinho da Vila, no largo fronteiro à Câmara, e na Rua Alfredo Costa;

-transferir o GAM e o Espaço do Cidadão para a Rua Heliodoro Salgado ou para o mercado da Estefânea;

-uniformizar o mobiliário urbano e remover as antenas obsoletas;

-relocalizar os caixotes do lixo e os ecopontos;

Estas, sem ser exaustivo, nem descurar outras soluções, algumas sugestões para um plano para o qual se podem canalizar verbas do Portugal 2020, do Reabilitar para Arrendar, Life+2014-2020,Fundo Jessica, Plano Nacional de Ação para as Energias Renováveis, Fundo Português do Carbono, e outros.

 

 

 

 


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A nostalgia de dizer não




Passem os regimes, governos e administrações públicas que passem, um dos defeitos congénitos do pathos nacional é o culto da burocracia. Se se tem de legislar, criam-se logo intermináveis portarias e regulamentos, certidões e atestados, fotocópias e pedidos de licença, sinal da pouca confiança no utente e por vezes sintoma dum tique autoritário que tanto pode ser o de quem dirige como muitas vezes a prova de vida do mais modesto colaborador. Há sempre o porteiro cioso da sua porta onde até um ministro tem de pedir para passar, o burocrata desesperado por encontrar uma deficiência para ufanamente pedir mais um papel, o fiscal revistando o processo para poder multar por cinco centímetros de afastamento ou falta duma coleção de cópias que na prática de nada servem senão para engrossar o processo, infernizar o utente e mostrar zelo perante o chefe.

É a herança do modelo napoleónico e centralista, do Estado-Carrasco em vez do Estado-Amigo, tudo em nome da “legalidade”, e do “rigor” se bem que ao mesmo Estado não pareça dever ter os administrados como utentes mas mais como vassalos do papel e da certidão. E, se os tempos modernos permitem o uso de plataformas digitais expectavelmente aceleradoras da análise e da decisão, ainda estamos a anos luz da simplificação.

O Estado pouco faz e pouco deixa fazer, e ainda se arroga o direito de sancionar quem faz e aposta. E raramente dá o exemplo: se para o utente o prazo é peremptório e a falta de resposta conduz ao arquivamento, para os serviços pressa não consta do dicionário, que o respeito é muito bonito, e se avançar sem o abençoado papelinho lá estará o embargo correctivo, a contraordenação castigadora, o auto sacramental. E ainda que o discurso dominante seja o da simplificação, há nos genes do funcionário o sentimento de orfandade sempre que um assunto se resolve à primeira.  Ainda um destes dias num serviço público uma senhora com tantos anos como a secretária de madeira que a viu envelhecer se regozijava por um processo ter demorado “apenas” quatro meses, “rápido” na sua escala de prioridades.

Muito se tem feito, é certo, no sentido de colocar a Administração próxima dos seus “clientes”, mas muito há ainda a fazer. É precisa uma descolonização mental séria e uma cultura de procedimento nova, rapidez com quem quer investir e aproveitar o “momentum”, rapidez com quem precisa de uma cirurgia e não pode esperar meses a fio, rapidez com quem quer construir a sua casa e vê o tempo e o dinheiro esvaídos em projectos, cópias e certidões que apenas servem para arquivar após facturar a bendita taxa. É tendo esse objectivo como prioritário que poderemos avançar, sem leis obtusas e semânticas que se invocam para obstaculizar ou atavios mentais do tempo das mangas de alpaca a bem da Nação.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Lançamento do livro do Dr. Hermínio Santos





A monografia INSTITUIÇÕES DE SINTRA- ABORDAGEM SOBRE INSTITUIÇÕES EXTINTAS, da autoria de Francisco Hermínio Santos, obra editada com o apoio da União das Freguesias de Sintra, vai ser lançada no próximo dia 23 de Setembro de 2017, sábado, pelas 15.30 h no anfiteatro da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Sintra.

Colabora na cerimónia a ACTIS-Universidade Sénior de Sintra, através da apresentação do grupo Cavaquinhos da ACTIS, bem como terá lugar um momento de poesia sintrense a cargo do Grupo de Leitores de Poesia da ACTIS. Serão igualmente exibidas três curtas fitas cinematográficas sobre Sintra dos anos 20, 30 e 40 do século XX.
Francisco Hermínio Santos é um conhecido publicista e divulgador da História de Sintra.  Natural de Sintra, onde nasceu em 1940, tem formação na área do Serviço Social, tendo desenvolvido parte do seu labor no antigo Ultramar Português. Regressado a Portugal, fixou-se na sua vila natal onde estabeleceu profícuos laços com os movimentos associativos, de solidariedade social e humanitários, mas envolvendo-se, também, na causa pública como autarca.
Apreciando, sobretudo, o seu percurso profissional, solidário, associativista e como coleccionador de «coisas de Sintra», o livro Instituições de Sintra – Abordagem Sobre Instituições Extintas afigura-se como um corolário natural do seu percurso de vida. Porquanto, meticulosa e pacientemente, compilou informação escrita e iconográfica acerca das instituições extintas no território da União das Freguesias de Sintra, constituindo, deste modo, um corpus de mais valia incontornável, não só como fundamental para o resgate das memorações perdidas das nossas reminiscências colectivas, mas afigurando-se, ainda, como incontornável instrumento de trabalho, isto no âmbito da historiografia sintrense. Instituições de Sintra – Abordagem Sobre Instituições Extintas disponibiliza conteúdos, desde a Idade Média até à nossa contemporaneidade plena, e, muito em particular, os alusivos aos séculos XIX e XX, quando, no seio do Romantismo, as mais diversas agremiações conheceram um período de florescimento que se prolongou pelo evo novecentista.
A Alagamares há muito acompanha a atividade de Francisco Hermínio Santos, sendo que a temática da obra ora lançada foi já objeto de uma sua intervenção no III Encontro de História de Sintra, promovido pela Alagamares-Associação Cultural em Maio de 2007, sob o título “Instituições Desaparecidas de Sintra”, e representa um claro contributo para a nossa História Local dos últimos cento e cinquenta anos.
Deixamos pois o convite a comparecer neste evento de reconhecido interesse cultural.



 






 









segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Haverá sempre onzes de Setembro




Do rio que tudo arrasta dizem violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem” Bertoldt Brecht


Hoje 11 de Setembro, reflictamos sobre a violência. A de terroristas contra o poder americano em Nova Iorque e Washington, há 16 anos. A de Pinochet contra o legítimo governo de Allende há 44 anos, e outras, ao longo da História. Pensar a violência é pensar a história da humanidade. A civilização foi fundada sobre conflitos. Quando Caim mata Abel, inaugura a violência entre os homens. E depois o dilúvio, Babel, as pragas do Egipto, mostrando que o próprio Deus dos hebreus era um deus violento. E a mitologia grega, e os impérios, toda a História é a história da violência e da dominação. Já Freud defendia a tese de que a natureza do homem se estabelece através de duas classes de instintos que visam a auto-preservação: o instinto sexual, ou de vida, também chamado de Eros; e o instinto destrutivo, ou de morte, cognominado de Tanatos. O instinto destrutivo será responsável pela violência, a partir do facto de que deve ser desviado para fora de si mesmo, evitando desta forma a autodestruição. Neste sentido, infere-se na teoria de Freud de que o homem será violento por natureza, não só para se auto-preservar, como também para evitar a ameaça que o outro representa para a sua vida. Tem-se assim o sentido de que a violência será sempre uma resposta a outra violência. Assim é, e continuará a ser. Porque o homem é e será sempre o lobo do outro homem. De Gengis Khan a Hitler, de Ivan o Terrível a Estaline, de Donald Trump a Kim Jong-Un, há sempre um Irma descontrolado a devastar os Homens no furacão da ganância, do poder e do supremacismo.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Welcome to India!



Nos setenta anos da independência da Índia, e em dia feriado, ocasião para relembrar o meu primeiro contacto com esse vasto país há cerca de dezoito anos. 
Depois de um voo de quatro horas desde Hong Kong, o periclitante avião da Air India aterrou no Indira Gandhi International Airport. Após a experiência do Aeroporto de Hong Kong, o moderno Kai Tak, numa ilha artificial construída perto de Chek Lap Kok, a aventura de pouco mais de quatro horas até Nova Deli mostrou-se decepcionante: passageiros tirando os sapatos e dobrando as pernas sobre os assentos, um entediante filme de Bollywood com enredo e cantores pimba, caril de frango logo pelas seis da manhã, para cúmulo, a casa de banho de bordo avariara e estava atolada em trampa nem meia hora depois que o avião descolara.
Depois das verdes selvas do Camboja e Vietname, a aridez castanha do Rajasthan foi-se desenhando lá em baixo, os casebres periclitantes e a ausência de estradas ou algo que se parecesse antevia uma realidade bem diversa da pujante China onde estivera três semanas, em progresso e modernizada. Tocado o solo, logo um bando de velhas com saris azuis e rosa se precipitou para a porta. Deixei-me estar, não tinha pressa, um guia da agência deveria esperar-me com um carro para me acompanhar nos dias que iria estar em Nova Deli.
Olhando pela janela, o cenário era pior do que o esperado: o aeroporto da capital da Índia era um barracão de madeira a lembrar a Rodoviária Nacional em Castro Verde, nos anos setenta. Nada de “mangas”, pista esburacada, os passageiros tinham de ir pelo seu pé para a zona da alfândega, sob um calor forte e seco. Dentro do barraco a que chamavam aeroporto, impotentes ventoinhas de plástico faziam  por atenuar o calor abrasador, o ar condicionado ainda não chegara àquelas bandas. Dezenas de indianos de bigode e cabelo escuro oleoso deambulavam carregados de embrulhos enrolados em cordas, muitos com barrigas proeminentes, exterior sinal do excesso de tandoori. Comecei  a ficar com náuseas e só esperava que o hotel de cinco estrelas que escolhera fossem cinco estrelas mesmo, e não cinco estrelas da Índia. Aquela viagem fora um fetiche romântico e exótico de entusiasta pela História, só para as vacinas passara duas horas no Egas Moniz semanas antes, pelo que a expectativa era grande.
Entre setas que tanto mandavam virar à esquerda como à direita, lá cheguei à zona de recolha de bagagem, um indiano desdentado e sorridente descarregava malas de mais de vinte pessoas, quase todas trouxas de roupa e material informático adquirido em Hong Kong, pelo aspecto encomenda de alguém, pois o indiano que o recolhia não parecia distinguir um computador dum micro ondas. As minhas  malas, duas, levaram vinte minutos a aparecer, uma cinzenta grande, com a roupa, e outra azul onde levava os souvenirs adquiridos na China: um conjunto de guerreiros terracota adquiridos em Xian, um dragão trabalhado em jade, miniaturas de pagodes e alguma roupa contrafeita adquirida em Xangai, boas imitações de uma mala Louis Vuitton e chás vários, para oferecer aos amigos. Ao passar na passadeira, a mala azul foi marcada com um giz branco por um polícia com odor a caril, que ia marcando aleatoriamente algumas malas, aí de cinco em cinco, para controlo na zona da alfândega. Peguei nelas e no passaporte e meti-me na fila, era o único português, e europeu, segundo me pareceu.
Chegada a vez, mostrei o passaporte, o visto estava em dia, para 6 meses. Já me preparava para seguir quando um polícia com bigode escuro e barba mal aparada mandou abrir a mala azul. Lá seguiam os guerreiros terracota e o dragão de jade, alguma roupa da manhã que não me apetecera arrumar na mala grande e o China Morning Herald. O polícia, com ar de Poirot asiático, pegou num dos guerreiros, mirou-o cirurgicamente, e sondou com ar sério, num inglês com sotaque arrastado:
-What’s this?- perguntou, com ar de quem detectara a jóia da coroa ou o ceptro do marajá de Jaipur. Descontraído mas saturado do calor e do cheiro a caril apressei-me a explicar, em inglês:
-Souvenirs. Venho da China, de férias, são coisas para os amigos, vou ficar uma semana. O trivial, sabe: Deli, Jaipur, Taj Mahal, o Triângulo Dourado….
O polícia colocou um ar grave e meneou a cabeça, estava só e o passageiro seguinte a mais de três metros:
-Hummm… não sei… não será roubado? É preciso licença para entrar com isto na Índia!- pareceu desencantar na altura. Nunca tal escutara, eram meras estatuetas das que se vendiam às centenas nas feiras  de Xian e Beijing.
-Pode crer, são souvenirs. Onde está escrito que é proibido?
O polícia chegou perto, e, baixando a voz, abordou com voz complacente:
-Bom… digo-lhe o que vou fazer. Você dá-me 50 dólares, e eu, para provar a  minha boa vontade para com sahib, deixo-o ir. Se não…
Pasmei, o polícia “fazia-se” a uma propina. Olhei em volta, nenhum europeu, estava entre a espada e a parede. Tentei refilar, mas, acabado de chegar e sem conhecer as praxes locais, saquei de 50 dólares, enfiei-os no passaporte e entreguei ao polícia, que, sorrindo, discretamente surripiou a nota, meteu-a no bolso e carimbou o passaporte, não sem desejar um sonoro “welcome to India!” que danado já mal ouvi.
Era demais! Bem me haviam avisado, países do terceiro mundo, mas logo a polícia, e ainda no aeroporto! Lá fora deveria estar um guia com um Tata para me levar ao Taj Palace, acelerei o passo suando de raiva a caminho da saída. Poucos passos faltavam para transpor a porta, suja de milhares de dedadas e rangendo por falta de óleo, outro polícia, quase sósia do primeiro, chamou-me, pedindo os papéis e que abrisse a mala azul, a marca do giz ainda recente alertara para a mala, era supostamente suspeita, fosse lá porque razão fosse. Ruborescido, abri e lá repeti que não, não ia fazer negócio com as peças e que os malditos guerreiros eram para oferecer aos amigos, “souvenirs, bloody souvenirs, only, understand?”.
Com uma calma de jumento e enrolando o bigode, o polícia colocou um ar clemente e lá repetiu o “formulário” de boas vindas à Índia:

-Bom, digo-lhe o que vou fazer….- espumando, lá saquei de mais 50 dólares, logo correndo para a porta antes que o dinheiro acabasse e outro zeloso funcionário me quisesse aliviar a carteira com mais um fraterno welcome. Não há como o turismo para aprofundar a relação entre os povos… Depois, o fascínio com os contrastes da extrema pobreza com ratazanas veneradas como deusas, os esgotos a céu aberto e a espectacularidade do Taj Mahal, o profundo Rajasthan e a parafernália de Mumbai, tudo terminando no longo palmeiral a sul de Kerala onde Vasco da Gama, sem malas nem souvenirs chegara hà mais de quinhentos anos. E pronto, é feriado, e vou ouvir um pouco de Ravi Shankar a recordar o pôr do sol de Goa, os búfalos de Agra e os chás de Udaipur.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Parabéns, Rui Mário!



Conheci o Rui na Primavera de 2005 nas Caves de S. Martinho, mítico café de Galamares, hoje fechado, onde um mês antes nascera a Alagamares, sob o impulso de 46 entusiastas. Procurávamos quem declamasse poesia num evento de apresentação da nova associação, após um dia de actividades que envolveria visita a Monserrate e jantar, e alguém nos falou dum grupo de jovens actores, entre eles o Rui Mário e o Pedro Hilário, músico e inseparável companheiro, que logo se disponibilizaram para o efeito.
Do Rui retive logo a imagem dum ser apaixonado pelo seu trabalho, pela representação como dádiva, e do teatro como palco de vida, e nasceu uma amizade feita de diversas partilhas, duma forte ligação pessoal e do Tapafuros com a Alagamares, vertida nas noites de poesia no 2 ao Quadrado ou no Legendary, nas cinco oficinas de teatro por si orientadas para a Alagamares, das colaborações sempre pro bono que nunca nos recusou, de modo a considerá-lo não só um grande amigo mas um compagnon de route, fosse nos eventos na penumbra da Regaleira, nos bares e palcos de Sintra ou nas longas noites de conversa mole e líquida…
Sintra tem os seus ícones históricos, mas também formiguinhas laboriosas que vivem fazendo Cultura e fazem Cultura vivendo. E nos últimos anos, com Rui Mário, angustiado Ser mas seguro Mestre dando instruções e atento aos detalhes, (criar sonhos também é feito de muitos pesadelos), invisível arconte e alquimista na noite escura, atrás das árvores da Regaleira ou do Parque da Liberdade conduzindo aflitos mortais na valsa lenta de Ser/Fazer Teatro, colocar máscaras e construir sombras, convocando para a grandeza das fragilidades que só o Teatro, vivo e próximo, cúmplice e agrilhoante permite, assim invadindo e alimentando públicos, ávidos e fáceis no aplauso umas vezes, avaros na presença ou no incentivo outras. Com Rui Mário, o teatro é a Vida- um libelo de resistência, a sobriedade da loucura, a poção do druida que a todos tonifica e fortalece.
Ontem como hoje, o sonho continua! Parabéns, Rui!





quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Aura, o barulho das luzes




A realização do festival Aura em Sintra, de 10 a 13 de Agosto, suscita para lá do espectáculo visual e da animação de rua uma reflexão sobre a luz e a sua (omni)presença por vezes despercebida no nosso quotidiano, seja enquanto elemento estético, seja enquanto metáfora, por oposição às trevas.
Filosoficamente, a Luz tem uma conotação positiva.Para Heráclito, o fogo era um princípio de purificação e de geração de poder. Zeus, rei de todos os deuses, tem um nome cuja etimologia indica a palavra Dyeus, significava “luz”, “brilho”, “luminosidade”, “dia” ou “céu”. Antigas crenças, provenientes da Pérsia e da Babilónia ligavam o destino dos mortos com as estrelas do céu e com a sua luz, brilhante ou baça, segundo a ventura de cada pessoa. Em Platão, assim como a luz do sol torna visíveis os objetos materiais, a luz do Bem torna as Formas inteligíveis e visíveis aos olhos da mente. Na alegoria da caverna, o nosso mundo é colocado em contraste com o mundo real e perfeito das formas pela analogia com o sol. Os homens presos na caverna podem ver somente as sombras projetadas nas paredes pela iluminação do fogo externo sobre os objetos que passam pelo lado de fora. Neste contexto, a filosofia representava uma ponte pedagógica que serviria para que esses homens pudessem passar, gradualmente, da completa obscuridade para a luz do sol que permitiria o conhecimento verdadeiro da realidade. Criou-se, por conseguinte, o problema filosófico que consiste na caminhada das trevas para a Luz e da ignorância para o conhecimento. Lembre-se Descartes, e a sua ideia de que a luz natural da razão ilumina os objetos que podem ser conhecidos clara e distintamente, ou a força exercida pelo pensamento iluminista na filosofia contemporânea, período aliás conhecido como século das Luzes.
Já no plano da realidade palpável, a luz desde há muito suscita problemas estéticos e ambientais, muito se reflectindo hoje sobre a sua correcta ou má utilização, bem como da poluição ocasionada pela luz excessiva que interfere nos ecossistemas, causa efeitos negativos à saúde, ilumina a atmosfera das cidades, reduzindo a visibilidade das estrelas e interferindo na observação astronómica. Este tipo de poluição é considerado um efeito colateral da industrialização, resultando da má utilização das luzes das casas, dos anúncios publicitários, da iluminação viária e sinalização aérea e marítima, bem como todas as fontes artificiais de luz, o aumento crónico e temporário da iluminação seja de edifícios, ruas, barcos de pesca, luzes de segurança, veículos ou plataformas petrolíferas.
Alguns processos naturais só podem acontecer na escuridão, como o repouso, a predação ou recarga dos sistemas. Por esta razão, a escuridão possui importância igual à da luz do dia. A poluição luminosa pode confundir a navegação animal, alterar relações entre presas e  predadores e afectar a fisiologia dos animais. O aumento da claridade do céu à noite representa o efeito mais visível, e os astrónomos já o reconhecem. Numa escala global, aproximadamente 20% de toda a electricidade utilizada é no período da noite. O produto final da iluminação eléctrica gerada pela carbonização de combustíveis fósseis é a descarga dos gases do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global e pela exaustão dos recursos não renováveis.
Para além de ser prejudicial para os animais nocturnos, migratórios ou em voo, o efeito da luz na forma de fogo ou de lâmpadas atrai as aves migratórias e não migratórias durante a noite, e tem sido utilizado como uma forma de caça, já que a desorientação das aves que usam o horizonte como orientação é interrompida pela claridade. A luz artificial provoca graves efeitos nas tartarugas que procuram locais para postura e nas crias, que têm que encontrar o mar. Muitos estudos mostram que os peixes evitam fontes de luz branca, e existem espécies que são atraídas pela luz, o que é utilizado para os apanhar, dada a adaptação dos olhos dos peixes a um ambiente escuro e possíveis danos nos olhos devido a luzes mais brilhantes. Na aquacultura do salmão, a luz que se encontra submersa aumenta a profundidade de natação e reduz a densidade do salmão do Atlântico em jaulas de reprodução.
Devido ao facto de os oceanos possuírem menos fontes de luz artificial comparando com ambiente terrestres, o efeito e alcance de uma única fonte é muito mais elevado. Como consequência destas circunstâncias, as aves marinhas são altamente atraídas pelos faróis das plataformas e podem ficar directamente aleijadas ou morrer devido ao efeito de armadilha da luz que faz com que as aves circulem à volta da fonte de iluminação, reduzindo as suas reservas energéticas e tornando-as incapacitadas para alcançar a costa mais próxima ou diminuindo a sua habilidade para sobreviver ao inverno e à reprodução.
Sistemas de iluminação inadequados estão relacionados a diversos problemas de saúde. A iluminação noturna pode causar problemas de sono, depressão e cancro. O efeito atrativo que a luz exerce sobre os insetos também tem consequências sanitárias. Insetos transmissores de doenças tais como malária ou a leishmaniose podem ser atraídos por luzes e assim aproximar-se de populações humanas.
Para minimizar os efeitos negativos da iluminação artificial, são necessárias novas estratégias de iluminação. A luz tem que ser usada de um modo preciso e as regulações devem ser implementadas através de leis. O senso comum diz que ambientes urbanos mais iluminados são mais seguros, por isso, gasta-se muito com a iluminação pública. Porém vários estudos indicam que a iluminação pública, quando mal planeada, pode ser mais maléfica que benéfica. As lâmpadas ofuscam os olhos das pessoas, permitindo que os criminosos que se escondem em locais que não são diretamente iluminados não sejam vistos. Ou seja, mesmo que as pessoas tenham uma sensação de segurança maior em ambientes bem iluminados, isso não quer dizer que elas realmente estejam mais seguras.
Enfim, todo o mundo da Luz está para urbanistas, planeadores e decisores ainda muito às escuras, e não entrou a sério da forma de construção das cidades. Para já, com o Aura, teremos luz em Sintra por estes dias, ela que já é a Cynthia promontorial donde atlantes poetas sempre partiram em busca da Luz, e para se reflectir, quiçá, sobre o barulho das luzes.