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sábado, 22 de abril de 2017

A espuma e as ondas


Todos os dias são efémeros, mas hoje estamos apostados em perpetuar a efemeridade, galgando pelos acontecimentos com uma avidez consumista que os torna requentados poucas horas depois. As televisões carentes de novidade e de audiências alimentam este animus frenético, condimentado de alertas e últimas horas que, pouco tempo passado, já ninguém recorda. Esta semana foi o sarampo, o atentado de Paris, o Sporting-Benfica, mas alguém se lembra já do atentado de Estocolmo, do acidente de Lamego ou dos irmãos iraquianos em Ponte de Sor?  É a espuma dos dias, na feliz expressão de Boris Vian, com o mundo reduzido a um tablet ou uma rede social onde qual orgasmo se sublimam frustrações e silêncios para depois tudo voltar à mesma, neste cosmos contraditório, de avanços da ciência mas retrocessos civilizacionais, onde se matam adeptos de futebol rivais e transeuntes inocentes, mas também se abatem suspeitos de terrorismo a sangue frio e promovem muros no pior exemplo dum mundo onde o homem é, sem sombra de dúvida, o lobo do outro homem, qual cão de Pavlov esperando o sinal para salivar ódio e libertar frustrações.
Triste mundo da pós verdade e dos factos alternativos onde se lançam adeptos de futebol do alto da bancada, se deseja a morte violenta a adversários feitos inimigos de sangue e se manda bombardear países no intervalo de bolos de chocolate e gaseiam crianças com armas químicas.

Um Pacto de Humanidade num mundo onde se atente às ondas e não à espuma é preciso.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Por uma gestão democrática e municipal das florestas




Pretende o governo que até ao final da legislatura as autarquias sejam responsáveis pela gestão de 19% da receita pública, através da nova lei de partilha de responsabilidades e descentralização para diversos níveis de autarquias locais, visando maior proximidade na decisão, maior eficiência e eficácia nos serviços prestados aos cidadãos, maior participação das autarquias na gestão dos recursos públicos e, sobretudo, concretizando a autonomia do poder local.
Só uma dimensão de proximidade permite gerir com maior eficácia e com melhor eficiência os recursos públicos. A gestão florestal e informação cadastral, visando a prevenção dos fogos florestais e as políticas de defesa da floresta devem ser de responsabilidade municipal, por duas grandes ordens de razões: são as autarquias quem melhor conhece os territórios e suas gentes, e são elas quem pode ser responsabilizado politicamente em caso de divergência de entendimento quanto às políticas adoptadas, por derivarem do voto popular.
O presente caso da interferência do ICNF, estrutura burocrática sedeada em Lisboa, visando o abate de árvores na serra de Sintra e nas costas das autarquias respectivas, é uma distorção do poder local e resquício dum poder bafiento e tecnocrático onde a discricionariedade impera. Sendo Sintra, no caso vertente, a guardiã dum Património da Humanidade na categoria de Paisagem Cultural para cuja classificação contou sobremaneira o espaço cénico e a imagem humana e natural construída, não deveriam ser os seus representantes mais directos a ter a última palavra quando se montam este tipo de operações ditas de "segurança"? Devem critérios fitossanitários duvidosos ou burocratas cinzentos presidir a decisões que são antes de mais políticas e estratégicas visando uma política de ordenamento florestal participada, sustentável e amiga das populações que dela fazem parte também, quer como produtores, quer como fruidores?
Venha a nova lei e dê-se a César o que é de César, para que de vez se possa fazer política para a floresta e não só para a árvore. Com mecanismos de controle, vigilância, escrutínio e transparência, claro está.



quarta-feira, 19 de abril de 2017

Árvores de Sintra: nada está garantido ainda




Nada está garantido no sentido de se considerar ultrapassado o risco de abate de árvores em massa na Serra de Sintra, e que tantos cidadãos, associações e políticos tem trazido preocupados.

Ontem, 18 de Abril, foi ouvido no Parlamento o presidente do ICNF, Rogério Rodrigues, entidade que superintende a nível nacional da gestão das áreas protegidas e da floresta, a pedido do PEV- Os Verdes, o qual veio defender ser de imposição legal o abate preconizado, como defesa contra os incêndios e visando garantir uma faixa de protecção às estradas de 50m de sul para norte naquela zona, atenta a pendência dos ventos dominantes.Por ele, mais de 5000 árvores deveriam já ter sido abatidas, muitas por terem ciclos de vida já findos, na ordem dos 80 anos, caso dos pinheiros, que serão 85% das árvores marcadas para abate. Contudo, admitiu terem sido numa segunda análise reduzidas de 1400 para 1355 as árvores a abater.

Invocada foi também legislação sobre medidas fitossanitárias contra o nemátodo do pinheiro (que reconheceu não existir em Sintra), e os próprios planos municipais de defesa da floresta de Sintra e Cascais, que impõe faixas de gestão de combustíveis, e a necessidade de substituir as espécies invasoras (acácias, sobretudo) por medronheiros e sobreiros.

Não foi explicado o porquê de 4 carvalhos alvarinhos com mais de 100 anos estarem também assinalados, nem porque se não promovem podas cirúrgicas regulares em vez de abates de “fim de vida” quando se acaba por confessar que afinal muitas árvores ainda podem durar mais 10 ou 20 anos, e outras têm fungos e ramos mortos ou amarelecidos que bem poderiam ser cortados selectivamente e com critério (bem como o vasto mato, esse sim, a precisar de ser limpo, e autêntico combustível…)

Estar-se-á na primeira de várias fases, motivada por questões de “segurança”, a que se seguirá a substituição do eucaliptal da Penha Longa por folhosas e pinhal, com erradicação de acácias (sem prazo), num projecto com um custo global de 200.000 euros. E nesta fase, continuam marcadas para morrer na Penha Longa 316 pinheiros bravos verdes, 10 pinheiros bravos secos, 9 cedros e 1 acácia, e no perímetro florestal da serra de Sintra 774 pinheiros bravos verdes, 32 pinheiros bravos secos, 125 cedos e 78 acácias. Estudos individuais? Parece não haver, a não ser o conselho de uma professora do Instituto Superior de Agronomia. Quem será a “sumidade”, que segundo o presidente do ICNF terá mesma aconselhado a ir mais longe no Cabeço da Raposa, por exemplo?

Da venda das madeiras em hasta pública espera o ICNF obter um valor próximo dos 50.000 euros, atento um valor de 20 € por metro cúbico de madeira.

Subsistem quanto à Alagamares diversas questões por esclarecer, nomeadamente:

-porque não foram as autarquias de Sintra e Cascais, bem como as associações e populações das áreas envolvidas ouvidas, se se afirma estar a ser posto em prática um plano municipal de defesa da floresta que a elas em primeiro lugar cabe gerir e aplicar?

-onde está o plano de replantação após o abate, para além de meros anúncios sem data?

-deve o critério florestal e fitossanitário ser visto separadamente do critério paisagístico e da relação com a classificação como Património da Humanidade na categoria de Paisagem Cultural?

Ficou da intervenção do presidente do ICNF que este compasso de espera é meramente para explicações aos “chatos” e que mais tarde se retomará o processo, depois do Verão, admitiu, depois da “época de fogos”. Há que voltar à estaca zero e fazer estudos criteriosos, ouvir as pessoas, consultar o comité da UNESCO e obrigar a que qualquer árvore que tenha de ser abatida (em última circunstância, e atenta a segurança de pessoas e bens estritamente necessária)) seja de imediato substituída, a par dum plano activo para reflorestar a serra. A procissão ainda vai no adro, e é preciso um sinal claro dos superiores hierárquicos do ICNF de que assim será, com um novo plano e calendário, mais abertura e mais diálogo.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Socialismos e Gavetas



Em 2017 passam 100 anos sobre a Revolução Russa. A paixão e multidões que tal fenómeno arrastou, com os descamisados de Outubro marchando ao som da Internacional até à vitória final é visualmente cénico e catalisador de emoções, gera a catarse de frustrações e alimenta a fé em algo que não se sabe se virá um dia.
Uma das características do ser humano é a sensação de insegurança e a necessidade de protecção e de amparo, e o Partido condutor e o seu líder vanguardista foram durante muitos anos o protector sem dúvidas existenciais a caminho da sociedade de iguais, essa terra do leite e do mel socialista.
A constante necessidade de ter um pai ou uma mãe nasce dos desejos mais intensos do ser humano, e das suas fragilidades. Aflitos de todo o mundo, uni-vos pois, para celebrar as certezas que a outros tantas dúvidas suscitam. E cantem-se hinos revolucionários de punho cerrado. Não resolve nada mas, tal como a aspirina, atenua a dor de cabeça sem curar a doença. 
O debate que a Alagamares promoveu ontem no News Museum, em Sintra, dedicado aos 100 anos da revolução russa demonstrou que o tema da revolução de Outubro  não sendo consensual, a ninguém deixa indiferente, sendo o maior pomo da discórdia o período em que José Estaline governou a URSS com mão de ferro. Há uma barreira intransponível, contudo, que nunca reconciliará revolucionários e reformistas, a das liberdades, ora prevalecendo a pessoa humana e o indivíduo, ora o sacrifício à vontade do colectivo na senda dum destino comum. Há vários socialismos, não sei se todos socialistas, divididos pela ideia de estado, de propriedade e de liberdade, áreas onde a ruptura epistemológica a todos afasta. Uns, sonhando os amanhãs que cantam, outros rendidos a um modo de vida hedonista e dito burguês,s proporcionado pelo Welfare State. Quem não é revolucionário aos vinte, não tem coração, quem o é aos quarenta, não tem cabeça, disse um dia Clemenceau, o velho político francês. Será? Talvez não. Mas isso sou eu, ex-revolucionário que também por lá andou nos idos de Abril.
Ninguém é perfeito, e, qual céptico relativista, apenas me interessam os feitos humanos não para ataca-los ou defendê-los, mas tão só para compreendê-los, como sabiamente escreveu Spinoza. Cristo morreu, Marx também, e eu não me sinto lá nada bem. Estará o socialismo de vez na gaveta, ou voltará a abrir-se a caixa de Pandora? A História o dirá.


terça-feira, 4 de abril de 2017

A força das causas



A recente mobilização contra o abate de 1400 árvores em plena Lagoa Azul mostra que as causas ainda mobilizam os cidadãos para lá do simples like ou desabafo nas redes sociais.

Há 2 semanas fomos alertados para a proliferação anormal de círculos laranja ao longo dum percurso de quilómetros entre a Peninha e a recta do Hotel da Penha Longa. Novas, velhas, eucaliptos, pinheiros, até um posto de electricidade (era de madeira…) estavam assinaladas para abate. Doença, perigo, infestante, em dois ou três parágrafos se despachou informação sobre o arboricídio em congeminação. Cidadãos estrangeiros amantes de Sintra ficaram apreensivos, e contactaram-nos, apelando à mobilização, e campanhas foram desenvolvidas a partir de Espanha, lançou-se uma petição, que vai em 3330 subscritores em 5 dias, plantaram-se árvores, em sinal de protesto, associações como a Alagamares, Canaferrim e SintraPenaferrim juntaram esforços, uma ação popular deu entrada no tribunal, e partidos como o Bloco de Esquerda e Os Verdes protestaram no Parlamento. Fomos diversas vezes ao local, fizeram-se vídeos, a Câmara de Sintra e todas as forças políticas nela representadas repudiaram a iniciativa, vinda de quem deveria ser a primeira entidade a defender a Natureza, juntámos personalidades da politica, das artes e do mundo académico. Duas semanas intensas, por causa duma causa em que muito está em causa. 

Ainda não acabou, mas ganhou-se um elan, e redescobrimos juntos quanto Sintra é importante no nosso imaginário e para o equilíbrio da natureza que espontaneamente, umas vezes, pela mão do homem, outras, lhe conferiu o dom que permitiu ser Património da Humanidade, logo de todos e cada um de nós. Aquelas são as NOSSAS árvores, a NOSSA floresta e o NOSSO legado.

Limpeza? Sim. E porque não começar pelas toneladas de restolho e lenha seca que é o combustível dos incêndios e rastilho permanente? Prevenção contra os incêndios, caminhos para combate a incêndios, vigilância reforçada? Sim. Optar pela solução radical e de contornos duvidosos como a que à sucapa se estava a preparar, não.  

A floresta é um microcosmo milenar de biodiversidade que se ajusta a si própria, não um parque feito à medida do Homem que decide que árvores têm direito a viver ou não, como se fosse uma plantação onde se tem de retirar o joio do trigo. Os cidadãos têm de ser ouvidos, e não podem ser tecnocratas de gabinete entretidos a grafitar árvores para morrer a decidir o que fazer com a serra. Porque somos uma república de cidadãos e não de vassalos, herdeiros dum Património comum do qual todos devemos ser guardiães e jardineiros.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Quem sabe da poda?




Num colóquio em tempos promovido pela Alagamares, enfatizando o papel da árvore no jogo entre o colectivo e o convívio, o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles lembrou ser a eco indispensável ao desenvolvimento, ironizando ter sido por a ter descurado que o homem foi expulso do paraíso. Vivemos na era do Caos, prosseguiu, o que dificultou a potencialidade da fixação. Segundo ele, são os países que garantem a biodiversidade os que mais têm potencialidade de segurança, tendo sido a compartimentação dos espaços agrícolas o que permitiu o desenvolvimento da civilização actual.
A serra de Sintra é uma zona de eucaliptos, pinheiro bravo e espécies invasoras, sendo uma tarefa a longo prazo das entidades que superintendem no território a arborização de áreas intervencionadas. Estão georreferenciadas cerca de 18.000 árvores na zona da PSML e mais de 35.000 árvores dentro do Parque da Pena, devendo as podas ter sobretudo em vista a segurança dos visitantes e os abates serem precedidos de relatórios fitossanitários com base numa avaliação técnica consciente, mas sem descurar o facto de Sintra ter sido classificada como Paisagem Cultural também pela imagem cénica e pelo conjunto.
Tem de se fazer mais para salvar as árvores, e nesse processo a auscultação das pessoas é fundamental, e de mais que uma opinião, bem como trazer as populações para a gestão das zonas verdes. Daí a urgência de suspender desde já a escandalosa devastação agora agendada para a Lagoa Azul, mobilizando activistas, associações e cidadãos em geral, antes que seja tarde demais.
Porque, espécie invasora, a bem dizer, é o Homem.

 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Arboricídio em curso na serra de Sintra







Laranja, a cor da morte. Foto de Carmo Moser.
O ICNF, estrutura que devia pugnar pela defesa da floresta, tem em marcha uma “intervenção” nos Perímetros Florestais da Serra de Sintra e Penha Longa e mais especificamente, na envolvente aos arruamentos públicos (EN9-1 troço entre a Lagoa Azul e a Malveira da Serra, Estrada Florestal Malveira-Portela e acesso à Barragem do Rio da Mula) segundo ele visando “melhorar a segurança de pessoas e bens e garantir o bom desenvolvimento das espécies autóctones presentes no sob-bosque, as quais estão na base dos bosquetes de folhosas características da zona”
Para tal fim, foi feito um auto de marca, a incidir sobre exemplares arbóreos em fim de vida, e incidindo sobre exemplares de espécies como os pinheiros-bravos, ciprestes e acácias, visando o abate destes mesmos exemplares.
Pergunta-se: se estavam doentes, quem as deixou de tratar, ou esqueceu-se de espaço para rega, e danificou as raízes quando se realizaram obras no subsolo? Matar quem se deixa morrer, é desculpa que nada justifica.
Será que a Árvore Morta se seguirá um momento de Árvore Posta? É que não é só a situação fitossanitária que deve ser tida em conta, mas também o direito à imagem, que conforma a paisagem, e contou sobremaneira na classificação de Sintra como paisagem cultural. Como em muitas e pouco exemplares situações, raramente um abate tem sido seguido de reposição do coberto vegetal, no que de crime ambiental tal se reveste, e agora a caminho de mais um arboricídio sob a capa de defesa dos passantes e da segurança.
A Alagamares opõe-se vigorosamente a este desbaste anunciado, que técnicos auscultados dizem ser desnecessário, até pela dimensão de que se vai revestir, e tudo fará para que seja evitado. As árvores marcadas para morrer têm uma marca laranja e é em alerta laranja que os defensores da floresta e da “nossa “serra devem permanecer, pois esta não é dos tecnocratas nem dos madeireiros, mas sim daqueles que a amam, nela vivem e respiram e que não desejam ver decepada por muitas e boas décadas.
Entretanto, e em contra ciclo, sábado vamos plantar 50, 50 vozes de protesto, 50 formas de dizer não a uma atitude dita de prevenção que mais não é que o triunfo da moto serra.



terça-feira, 21 de março de 2017

No dia da poesia

"As mãos" de Manuel Alegre




Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar.
Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas de mãos.


E estão no fruto e na palavra as mãos
que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas: nas tuas mãos começa a liberdade

segunda-feira, 20 de março de 2017

No Dia Internacional da Felicidade


As Nações Unidas aprovaram recentemente uma proposta do reino do Butão no sentido de ser admitido o conceito de medição da Felicidade Interna Bruta (FIB) em contrapartida ao Produto Interno Bruto (PIB). O conceito nasceu em 1972, elaborado pelo rei Jigme Singya Wangchuck, e desde então, o reino de Butão, com o apoio do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), começou a colocar esse conceito em prática, e atraiu a atenção do resto do mundo com a sua nova fórmula para medir o progresso de uma comunidade baseado na premissa de que o objectivo principal de uma sociedade não deveria ser só o crescimento económico, mas a integração do desenvolvimento material com o psicológico, o cultural e o espiritual. São as seguintes as premissas da medição: BEM-ESTAR PSICOLÓGICO- Avalia o grau de satisfação e de optimismo que cada indivíduo tem em relação à sua própria vida. Os indicadores analisam a auto-estima, sensação de competência, stress e actividades espirituais. SAÚDE- Mede a eficácia das políticas de saúde, com critérios como auto-avaliação da saúde, invalidez, padrões de comportamento arriscados, exercício, sono, nutrição, etc. USO DO TEMPO- Este é um dos mais significativos factores na qualidade de vida, especialmente o tempo para o lazer e socialização com família e amigos. A gestão equilibrada do tempo é avaliada, incluindo tempo no trânsito, no trabalho, nas actividades educacionais, etc. VITALIDADE COMUNITÁRIA- Examina o nível de confiança, a sensação de pertença, a vitalidade dos relacionamentos afectivos, a segurança em casa e na comunidade, a prática do voluntariado. EDUCAÇÃO- Leva em conta factores como participação em educação formal e informal, competências, envolvimento na educação dos filhos, educação ambiental, etc. CULTURA -Avalia as tradições locais, festivais, valores nucleares, participação em eventos culturais, oportunidades para desenvolver capacidades artísticas, e discriminação por causa de religião, raça ou género. MEIO AMBIENTE: Mede a percepção dos cidadãos quanto à qualidade da água, do ar, do solo, e da biodiversidade. Os indicadores incluem acesso a áreas verdes, sistema de recolha de lixo, etc. GOVERNANÇA- Avalia como a população vê o governo, os media, os tribunais, o sistema eleitoral, e a segurança pública, em termos de responsabilidade, honestidade e transparência. Também mede a cidadania e o envolvimento dos cidadãos em decisões e processos políticos. PADRÃO DE VIDA: Avalia o rendimento individual e familiar, a segurança financeira, o nível de endividamento, a qualidade das habitações, etc.

Desde o início do século XXI, as Conferências Internacionais sobre FIB começaram a ser promovidas primeiro no Butão, depois na Nova Escócia, no Canadá (2005) Bangkok (2007) Butão (2008) e no Brasil em 2009. Durante esse período também, o Centro para Estudos do Butão, sob o patrocínio do Programa para o Desenvolvimento Económico das Nações Unidas, juntamente com um grupo de especialistas internacionais, desenvolveu um indicador de FIB para medir esse conceito, quantitativa, qualitativa e estatisticamente. Baseando-se na premissa de que medições de bem-estar de natureza subjectiva são tão importantes como as medidas de consumo do PIB, o bem-estar ou a felicidade de uma população é analisado pela medição dos factores que levam a esse estado. Uma nova disciplina tem sido recentemente desenvolvida, chamada Hedónica e desenvolvida pelo psicólogo Daniel Kahneman, que ganhou o prémio Nobel da Economia em 2002. De acordo com esses estudos, até um certo nível de riqueza, o sucesso material de facto traz mais felicidade, quando uma pessoa progride de um estado de absoluta pobreza e miséria até uma vida confortável e um certo grau de luxo. Contudo, após um certo ponto, mais bens materiais não trazem mais satisfação. O que importa a esta altura são os factores não materiais, tais como companheirismo, famílias harmoniosas, relacionamentos amorosos, e uma sensação de viver uma vida significativa. As pesquisas sobre felicidade definem-na a combinação de três aspectos: o grau e a frequência de sentimentos positivos; o nível médio de satisfação que a pessoa reporta durante um período mais alongado de tempo; e o grau de ausência de sentimentos negativos. Até recentemente os cientistas sociais evitavam discutir o tema da felicidade porque acreditavam que seria muito difícil medi-la. Mas nos últimos anos as pesquisas hedónicas tiveram um crescimento exponencial, com mais de 27 mil artigos publicados em jornais científicos só nos últimos 2 anos. Novas ferramentas, como ressonâncias magnéticas funcionais e medição de níveis hormonais, têm permitido que os cientistas vejam quais as áreas do cérebro que se tornam activas sob determinadas circunstâncias quando alegamos estarmos felizes. Assim, os cientistas actualmente medem a felicidade sob diversos ângulos: através de tomografia cerebral, electromiografia facial, níveis hormonais, etc. E também fazem uso de questionários que avaliam o bem-estar subjectivo e que podem e devem ser usados apara mapear políticas públicas visando a qualidade de vida da sociedade. Em síntese, o FIB é um catalisador de mudança, um processo de mobilização social em prol do bem-estar colectivo e do desenvolvimento sustentável. Também é um processo de consciencialização das lideranças locais para a formação de parcerias entre os principais sectores da sociedade: governo, empresas, cidadania e academia, visando o bem-estar social e a felicidade de todos. A recente matança de Breivik na Noruega pode ser um case study: tendo o maior PNB do mundo, qual o real índice de FIB numa sociedade onde os bens materiais não são a primeira preocupação das pessoas? Afinal, também há noruegueses infelizes…

Defesa do Património e Empowerment dos Cidadãos




Estimular a cidadania ao promover a educação e as boas práticas para a defesa do Património deve ser tarefa de todos ao serviço do interesse colectivo. Com a vida moderna, as memórias do passado e a diversidade criada pela natureza têm vindo a ser destruídas ou adulteradas sistematicamente. Não se respeita a história (as tradições e as obras das gerações anteriores) nem a natureza (os ecossistemas na sua diversidade). Para que as futuras gerações tenham uma ideia da riqueza do que foi produzido, para que sobrevivam amostras dos valores produzidos pela natureza ou pela história, é necessário defender esse legado contra a miopia cultural ou devassa inconsciente. O processo de reconhecimento do valor do património por parte da sociedade no seu todo, é tarefa urgente que deve ser incentivada na senda da cidadania pró-activa e na construção de uma prática colectiva de respeito pelos bens patrimoniais (materiais e imateriais) que nos cercam.
O valor que atribuímos aos locais, objectos ou memórias é decorrente da importância que lhes atribui a memória colectiva. E é esta memória que nos impele a desvendar o seu significado histórico, valorizando-os como traço de união com o futuro que é já hoje. É possível e necessário um desiderato que permita e exija a participação cívica e que gere o envolvimento da sociedade com os bens patrimoniais e naturais que são a nossa Herança Comum.
A educação deve primar pelo desenvolvimento de acção pedagógica que valorize os bens patrimoniais formando uma consciência visando a sua preservação, compreensão e divulgação, como instrumento de alfabetização cultural, através do diálogo cultural com outros e de processos de sensibilização, sacudindo  as mentalidades, cultivando a sensibilidade inter-cultural e a consciência necessárias à formação de  um novo paradigma. De certa forma, consagrando um novo Direito/Dever do Homem.
Este processo pode interagir com o ensino formal (escolas), e o não formal (comunidade, actores culturais, associações culturais ou de defesa do património etc). A cultura tem de ser transmitida propiciando a possibilidade de manter a própria identidade. É a alma dum país expressa através de saberes, celebrações e formas de expressão do povo, “materializados” no artesanato, nos costumes das comunidades, na gastronomia, nas danças e músicas, festas religiosas e populares, nas relações sociais de uma família ou de uma comunidade, nas manifestações artísticas, literárias, cénicas e lúdicas, seja em espaços públicos, populares, colectivos ou religiosos.
É imperioso que as escolas se empenhem nesta missão, levando os alunos aos locais degradados para os sensibilizar sobre o que ali existiu e ainda pode vir a existir, contar a História, seja do grande guerreiro seja da simples lagartixa ou do doce conventual, impregnar o desejo de ver o património recuperado, incentivar o voluntariado cultural para a vigilância da natureza e civismo (evitando graffittis, piqueniques selvagens, passeios de mota selvagens ou despejo de detritos, p.e). Esse o desígnio e tarefa dos actores sociais e culturais, na Escola ou na Sociedade, e das associações ao nível local. Porque não visitar a Sintra das ruínas e dos monos, consciencializando e formando jovens para serem cidadãos e autênticos Guardiães do Património?
Nesse sentido, o processo de ensino e aprendizagem pode tornar-se um instrumento no despertar de uma consciência crítica e de responsabilidade para com a sua preservação, indo ao encontro do pensamento de Paulo Freire, na busca de uma  atitude  que capacite o educando na escola ou o cidadão  na sua rua ou cidade a compreender a sua identidade cultural e a  reconhecer-se  de forma consciente nos seus valores próprios, aumentando o seu "sentimento do nós". A postura que tomarmos diante do ambiente em que interagimos transforma-o, propiciando a nossa própria transformação. E para tanto, torna-se necessário interagir pela percepção do que o outro nos possa revelar e fornecer em conhecimentos e costumes, saberes inatos que nos servirão de material para a comunicação do nosso saber. Aprender e Defender o Património é também fazer Portugal.
Por fim, e materializando o atrás descrito, uma proposta e um desafio: porque não criar e promover núcleos de defesa do património envolvendo autarcas e sociedade civil e funcionando ao nível das juntas de freguesia, de modo permanente, informal e interventivo? Uma ideia a desenvolver.