Follow by Email

segunda-feira, 13 de março de 2017

Alagamares: Venham mais doze!



Nunca devemos julgar que aquilo em que acreditamos é efectivamente a verdade, escreveu um dia Agostinho da Silva, daí a necessidade de questionar, ouvir e duvidar sempre, numa dúvida que cria e reconstrói, esse o desafio de quem quer pensar  no pleno exercício da liberdade.

Foi há 12 anos já, poucos na História do tempo, mas um intenso tempo de regeneração para aqueles que quiseram sair do conforto da passividade, e do pessimismo militante para a militância optimista, o desassossego e um renovado sentido da vida em sociedade.

E assim rimos em convívios e discussões, tomámos posições fugindo ao cómodo limbo das meias verdades, juntámos artistas, escritores, ativistas, decisores, não para a crispada conspiração do cliché mas para uma límpida e generosa busca de caminhos, soluções, para ser parte de algo, com as pessoas e nunca contra elasm senão as que neguem o direito a ter ideias.

Em mais um aniversário, agradecemos a presença dos muitos amigos e companheiros deste projecto que numa fria noite de Inverno juntou um punhado de idealistas nas saudosas Caves de S. Martinho, quando com generosidade partimos para a aventura de ser solidários ainda que por vezes solitários, idealistas mas nunca idiotas, empenhados no desempenho e chamando aqueles e aquelas que têm coisas para dizer e desde então quiseram dizer presente.

Vivemos na era do Me, Myself and I, do hedonismo egoísta e do Eu como centro de todas as coisas, em que todos têm uma página numa rede social mas onde sobretudo explanam estados de alma, fotos de si próprios, partilhando vulgaridades e apregoando solidariedades frívolas com pessoas e causas, que deviam ser simples e desinteressadas. Aí se destilam ódios, rancores, frustrações e silêncios desde chingar o clube de futebol adversário, exibir o cão, a foto do filho pequeno, ou o  marisco que se foi comer à beira mar, tudo desabafando no confessionário digital, à espera de caridosos likes, veniais lols ou dum qualquer emoji repetido pela enésima vez.

O Homem Narcisista em que muitos nos tornámos não acredita no futuro, é pressionado pelo individualismo competitivo, ansioso, entediado, cínico e supérfluo, produzido para consumo imediato. O “eu primeiro” e a falta de percepção do outro chega a extremos em alguns casos.

Errantes, corremos o risco de virar zombies zurzindo telemóveis e tablets como antes puxávamos das armas no tempo das guerras. Desejamos ser compreendidos, mas dispomo-nos a compreender cada vez menos, queremos ser ouvidos, mas não ouvimos senão a nós mesmos.

Todos os dias vemos nos media o quanto o respeito ao próximo é aviltado e o quanto é mais importante TER do que SER, numa distorção dos vínculos afetivos sem limites ou parâmetros. Ouve-se e vive-se a falta de perspectiva ou de sentido no trabalho, na educação, na saúde, na vida.

Essa falta de perspectiva decorre da convicção de que há que aproveitar o dia de hoje, pois teme-se o amanhã. Para quê estudar, se não haverá trabalho no futuro? Para quê dar o melhor de si no trabalho, se se pode ser despedido a qualquer momento?

Falta comprometimento, e isso é fruto da falta de perspectiva. Como buscar objectivos de longo prazo numa sociedade com valores e expectativas a prazo? Como manter relações duráveis se o que se busca é o imediatismo?

Este Admirável mundo global da Comunicação é afinal um esquizofrénico mundo de solidões gritadas para amigos virtuais que mais não são que surdos electrodomésticos, onde a emoção, a demonstração da amizade ou a opinião são estereotipados e a massificação das emoções virou um ritual

É na revolta contra este estado das coisas que continuamos na Alagamares animados por valores, sem certezas nem dogmas, a não ser o de que o futuro já não é o que era.

Em dia de festa, não quisemos deixar também de homenagear alguns de nós, pois não somos anónimos ou números.

Não quisemos deixar de lembrar um cidadão ativo e presente como o Pedro Macieira, testemunha ocular da predadora mão humana na paisagem, da beleza parnasiana do voo duma garça no rio ou duma flor clorofilando os ares. Com o seu blogue de referência, o Rio das Maçãs, quase contemporâneo da Alagamares, tem sabido pela acutilante imagem e pela pertinente insistência em causas comuns amar Sintra e as suas gentes. Com Pedro Macieira, o repórter está sempre lá, bombeiro das causas da polis, cronista dos dias simples ou marcantes.

No David e na Ilesa, temos particulares amigos e parceiros, devotados à causa das artes, onde se mesclam os sons da cidade gutural com a sonoridade açucarada da África virginal. Mais que um projecto musical, a Uno é um projecto de solidariedade, a que souberam dar sentido, eles e mais companheiros, com o trabalho desenvolvido no apoio à grande mátria lusófona, a todos inspirando e motivando.

Em Sérgio Luís Carvalho homenageamos um senhor da palavra escrita, que trata a História como um fresco e onde qualquer um de nós poderia ser parte das tramas apresentadas. Autor, entre uma vasta obra, do celebrado Anno Domini 1348, ano em que a peste ceifou Sintra, ao lermos essas páginas palpitantes sentimos que também estivemos lá, pelo epidérmico da sua escrita, iluminura resplandecente e singela. Nele queremos hoje celebrar a obra consistente e didática dum autor de Sintra e que em Sintra situou também algumas das suas histórias e enredos

Agradecer também ao Grupo Desportivo e Cultural de Galamares, ao Ardecoro, à Uno, ao Conservatório de Música de Sintra, ao Ars-Collares-Trio, ao duo de guitarras de Queluz, ao Paulo Campos dos Reis e a todos os companheiros destes 12 anos, às instituições, parceiros e amigos que connosco colaboram, pelo seu empenho e contributo, que em nada nos surpreende, pois sabemos com quem contamos.

Já no dia 25 vamos fazer a nossa Caminhada da Primavera, e plantar 50 árvores na Tapada de Monserrate, bem como apresentar o novo livro de André Freire “Para lá da Geringonça”. Dia 9 de Abril vamos reunir políticos e pensadores no News Museum para o primeiro de um ciclo de debates sobre a pertinência das ideologias quando passam 100 anos da revolução russa. E empenhadamente, continuaremos a dar contributo crítico e positivo para as questões que nos convocam como cidadãos empenhados, da recuperação do património material e imaterial às questões do ordenamento do território, da promoção dos artistas e criadores locais, do ambiente, da memória histórica ou na área da solidariedade social.

Escreveu Albert Camus “A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente”. Somos deste presente, e queremos dizer presente.

Vivam os que lutam, sonham, sofram e fazem andar o mundo!

Vivam os que querem uma Sintra criativa, inclusiva e com massa crítica!

Vivam os que com o seu empenho e emoção constroem a Liberdade pela afirmação de espaços de tolerância, diálogo, confronto de ideias e quebrando inércias.

Viva a Alagamares, espaço onde não há o Outro, mas o Nós, soma de eus e não de Egos,

Uma dúzia já está. Aguardem-nos para mais doze!

 


 

quarta-feira, 8 de março de 2017

Património, Memória e Herança





A Paisagem Cultural de Sintra, aprovada a 6 de dezembro de 1995, em Berlim, enquadra-se nas categorias II, IV e V do parágrafo 24, estabelecidas pela UNESCO na "Orientations devant guider la mise en oeuvre de la Convention du Patrimoine Mondial". Durante o século XIX Sintra exerceu uma influência considerável sobre o desenvolvimento da arquitetura romântica europeia. No entanto, o seu interesse não se resume certamente a um ou dois edifícios de evidente importância, antes se espraiando numa plêiade de palácios e parques, de casas senhoriais, com os seus jardins e bosques, palacetes e chalés, envoltos numa vegetação exuberante, ou trechos de muralhas que serpenteiam nos cumes da serra, e a tal singularidade não foi alheia a UNESCO, compreendendo a harmoniosa complementaridade entre paisagem natural e uma intervenção humana riquíssima.
Na promoção e defesa deste património, dos monumentos e sítios classificados, há que juntar cidadãos, associações cívicas, técnicos e  moradores. Só se pode acarinhar uma ideia como a de Paisagem Cultural se ela for originada em consensos e como instrumento de desenvolvimento para quem habita no seu seio, e não se funcionar como o eucalipto que tudo seca e põe a comunidade contra si. Não há paisagem cultural sem pessoas, e não há gestão bem sucedida sem consensos.
Recorde-se que aqui foi aprovada a Declaração de Sintra, que procurou unir esforços para a mitigação e adaptação às alterações climáticas, documento onde se procurou recolher experiências das várias zonas classificadas, criar plataformas de conhecimento para promoção de boas práticas, consolidar a valorização do património, criar e manter parcerias e contribuir para um debate global sobre alterações climáticas.
Sintra integra igualmente desde há alguns anos a Aliança das Paisagens Culturais, uma rede internacional vocacionada para preservar espaços declarados Património da Humanidade pela UNESCO.Em 2008 produziu-se a Declaração de Aranjuez, onde os sítios classificados expuseram as suas inquietações e analisaram a necessidade de compatibilizar a preservação dos lugares com um adequado desenvolvimento económico e social das terras e gentes em seu torno.
Um dos pontos chave desta declaração faz referência ás políticas de difusão do património cultural entre a população, assinalando que a melhor forma de gerar cultura entre os cidadãos passa por estes valorizarem o seu próprio património, pois só se pode valorizar o que se conhece.
O texto exige “implicação, cumplicidade e compromisso” do mundo científico na melhoria destes lugares, e na garantia da sua sustentabilidade, e apela à participação cívica das comunidades locais, enquanto elemento fundamental para um desenvolvimento sustentável das áreas classificadas.
Traduz este anseio o reconhecimento da necessidade duma cultura democrática de participação e transparência na gestão da Paisagem Cultural, chamando os stakeholders, parceiros da sociedade civil mais vezes em ligação com os técnicos. Paisagem Cultural sim,mas pró-activa e não repressiva e distante.
O sucesso de qualquer empreendimento depende da participação das partes interessadas e por isso é necessário assegurar que as expectativas e necessidades sejam conhecidas e consideradas pelos gestores.O envolvimento de todos os intervenientes não maximiza obrigatoriamente o processo, mas permite achar um equilíbrio de forças e minimizar riscos e impactos negativos na execução do mesmo.
Vem isto a propósito de na gestão de empresas ou projectos com implicação em certos grupos, e na sociedade civil em geral, as organizações internacionais recomendarem hoje a auscultação e participação activa de stakeholders locais na implementação e prossecução de projectos com repercussão na comunidade, na perspectiva de a todos envolver, convidando-os para reuniões e visitas, recolhendo contributos e mudando o paradigma com uma filosofia de "abrir para obras" acompanhando as recuperações em curso é internacionalmente aconselhada, tendo já sido verificada no caso do Chalé da Condessa ou na recuperação do Castelo dos Mouros. Mas muito trabalho há a fazer ainda, e necessário se torna criar estrutura física e mental para que o trabalho em curso não seja resultado apenas do maior ou menor voluntarismo das equipas directivas que estão no momento. O modelo de gestão e a correlação acionista adoptada podem ser melhorados, com uma maior intervenção decisória por parte da Câmara, legítima representativa das comunidades e única estrutura eleita e sufragada. Mas tal como é dever das instituições abrirem-se à sociedade, imperioso se torna uma maior tomada de consciência da sociedade de que não deve deixar as respostas todas em mãos alheias e se deve empenhar mais em causas que são de todos. Só assim a democracia será madura e os cidadãos o serão em plenitude.
Sintras aprovou a criação duma área de Reabilitação Urbana com cerca de 180 hectares para o Centro Histórico de Sintra.
Sobre o Centro Histórico muito já foi dito, subsistindo velhas questões como a da sobreposição de planos e entidades, que criam uma cacofonia de gestão e não permitem aos decisores uma assunção plena do seu papel. Persiste igualmente um segmento do turismo baseado no excursionismo, com uma média de dormidas no concelho de 2,3 noites (Cascais tem 3,4) e apenas cerca de 1500 camas entre hotéis, pensões e demais alojamentos, não obstante se registe o aparecimento de novos espaços de alojamento.
A degradação do Centro Histórico, desertificado, sem plano actualizado e sem atractividade para moradores e visitantes, e o envelhecimento da sua  população não incentivam a mobilidade social ou o surgimento de massa crítica e criativa a partir de dentro, a par da falta de um plano de marketing territorial assente nas virtualidades das pessoas e não só no património histórico, sendo que apesar da marca romantismo, esta não é idónea a caracterizar na globalidade um concelho onde apenas 10% da população vive na Sintra dita “romântica”. Como problema central por todos reconhecido continua a sentir-se o da mobilidade, faltando bolsas de estacionamento e uma rede de mini buses que atravesse as zonas críticas a carecer de preservação ambiental, problemas que estamos a enfrentar e a combater.
Apostar no transporte público no acesso à serra e seus polos turísticos, com preços moderados para quem aceda aos palácios de transporte público, sendo o bilhete de entrada e transporte vendidos em conjunto, e com um diferencial de preço significativo, pode ser uma das medidas entre outras, bem como o apoio fiscal, o reforço da sinalética e o incremento de placas explicativas dos monumentos a visitar. Adoptar benefícios em sede de taxas ou impostos a quem voluntariamente recupere património, bem como destinar parte do montante cobrado em sede de contra-ordenações a um fundo de reabilitação urbana, são iniciativas que se afiguram plausíveis, no quadro de uma estrutura que promova o emprego e o crescimento, as actividades económicas essenciais (na óptica do turismo, empregabilidade, fixação no terciário, lazer e habitação qualificada) passando pela celebração de protocolos ou contratos programa que desenvolvam um partenariado positivo e gerador de sinergias, que se manifestem de modo permanente e não só no momento do licenciamento ou instalação.
As lojas têm igualmente que desenvolver um conjunto de especificidades, que determinarão não apenas a sua sobrevivência, como também o seu sucesso em termos de futuro, devendo a política de estacionamento ponderar a mobilidade das pessoas mas num quadro que reconheça a particularidade do Centro Histórico e a indesejável massificação turística redutora do “espirito do lugar”.
Defender o património é vivê-lo, e com ele conviver, como se cada peça, cada cheiro, cada sabor ou recanto fossem a mais preciosa relíquia deixada pelos nossos avós e que os nossos netos um dia receberão, estranhando primeiro, orgulhando-se depois.


terça-feira, 7 de março de 2017

Doze anos depois




Estão a passar esta semana 12 anos da fundação da Alagamares. Foi uns dias depois duma assembleia geral de uma associação local onde eu e mais alguns amigos estivemos que achámos, face ao pobre panorama da vida associativa local ser chegado o momento de algo de novo, que agregasse jovens e menos jovens em causas para lá das festas de aldeia, dos jogos de futebol entre solteiros e casados ou do bailarico de verão. Mas também sem ser um clube snob ou enfatuado, de dandys e tios pseudo intelectuais.
Sintra estava por esses dias no fio da navalha com a possibilidade de desclassificação do Património Mundial, os monumentos envelhecidos e ao abandono, e a dita sociedade civil amorfa ou pouco participativa, para lá de alguns bons mas poucos exemplos de associativismo cultural.
Foi assim que depois de um boca a boca se juntaram a 9 de Março de 2005 nas Caves de S. Martinho, café já desaparecido de Galamares, 46 amigos que por aclamação fundaram a Alagamares. Do nome medieval de Galamares, um alagamar é um terreno pantanoso, como o era a várzea circundante, alagada desde tempos imemoráveis pelo mar que sulcava o rio das Maçãs trazendo seixos e búzios, até ao seu assoreamento. E, tal como o mar invadiu o rio, também a ação propulsora dos dinamizadores da nova associação quiseram invadir as consciências, agitar, desassossegar.E assim ficou Alagamares.
Passaram 12 anos, 150 eventos, caminhadas, dois encontros de História de Sintra, eventos com pessoas como Miguel Real, Rui Zink, Gonçalo Ribeiro Teles, Maria Teresa Horta, Gabriela Canavilhas, Galopim de Carvalho, José Rodrigues dos Santos, Sidónio Pardal, Richard Zimler, João de Melo, Filomena Marona Beja, Cardim Ribeiro ou Pinharanda Gomes e muitos outros, representantes do pensamento e da sociedade civil local. E causas como o Chalé da Condessa, a luta contra as podas agressivas, a divulgação da nossa História e património local, as oficinas de teatro do Rui Mário, as homenagens a Zeca Afonso, Maria Almira Medina ou Luís Filipe Sarmento.
Vai ser uma semana cheia de emoções e de empenho na continuação do trabalho esforçado, abertos à juventude e à inovação, sem esquecer quem trabalha e quem do nosso reconhecimento é credor. Sempre na estrada, e nunca na berma. Uma dúzia já foi, venham mais doze!
 


quarta-feira, 1 de março de 2017

Dilúvios da Alma

 

Chove na mente, é um dilúvio a alma, o fim, sempre ele espreitando, sinistra silhueta da esperança fugidia. Encafuado poeta de café, apátrida dos tempos, sombra velha dos espaços, em silêncio calcorreio o pontão, cheio de gente a ver o mar em circenses acrobacias, como medonha e bela está a praia, espumosa bátega de poder.

 

É Inverno ainda no país das flores, de vez  se foram já os cravos furtados das armas, agora apontadas a subjugados prisioneiros num país que já foi de Zeca. Volta Zeca, volta de teu túmulo, adormecida guitarra talhada no ventre dum povo acusado de ousar sonhar. O mar provoca, desafia a vencer, qual Gama, da nau catrineta, cavalgar a onda, ousando, e logo atávico o apelo a desistir, vencido de si, temeroso. Os amanhãs perdem cor, pardacentos, longe, muito longe, no chamuscado purgatório entre o pesadelo e a ilusão. Recordo Kurt Weil, por onde escapar para o próximo whisky bar?…

 

Escrevo. Apago. Escrevo de novo. Rasgo, despótico. Que fazer? Dar o corpo à arma? Recomeçar, com novos cravos em cano velho agora, distraído apontado a nós? Brancos, desta vez querem-se brancos, alvos e puros. A Primavera tarda… Volta, és nossa, és Sul, és Sal, não fiques longe de Portugal…

 

Somos uns idiotas, ululantes hordas de conformados seres patrulham a Cidade, raptada pelo tédio e pelo spleen, assustam, cercam. Mudaram as madrugadas, antes límpidas e ledas perigosas agora, promessa de castigos, cruéis e castradores, e de estivais armagedeões relampejados. Que fazer para não mais despertar, para de vez voltar ao filme onde todos são felizes, que inveja, ah, como é puro o cheiro límpido do iodo. É avaro o Verão em chegar, mas magnânimo o iodo.

 

Caneta, papel, umas linhas para a imortalidade esculpidas no areal, ao lado trilhos de passos na areia molhada. Empolga, a canção do CD, a velha Alabama Song, sejam Doors ou David Bowie, é Portugal amarelo cor de scotch passando em fundo, albergue de errantes, trôpego de futuro e sem pedras de gelo. Vamos todos para Alabama, acolhidos no whisky bar!. Cheers! Lá vai a Sílvia com o caniche, a caminho do Angra, e eu gelado aqui.

 

O Chico emigrou, cansado de desesperar, emigrou não, globalizou-se, como se diz agora, o Zé Luís morre aos poucos, licenciado em currículos e catedrático de bares. Ao Manel surpreendi ouvindo o Zeca e Doors, cinco aguardentes durou, no esconso da casa do Rafa, só alta madrugada alcançou o nirvana, enroscado no sofá do canto.

 

No quiosque, anoréticos jornais vendem insegurança e medo, intranquilos, invasores, cardíaco relato dum diário crepúsculo. Aconselhado deixar de ler jornais. Aliás, deixar de ler em absoluto. De tão abusadas, gastaram-se as palavras, analfabetos, não descobrimos novas, entre silêncios soltamos enredos, esboçamos adjectivos, talvez salvemos o mundo aí pelo quinto gin. Limão. É o limão que tira a piada à vida, amancebados que nos tornamos com o álcool redentor e concubino.

 

Penso na morte, e, não, não morrerei de pijama, mas de fraque, não se vai para o outro mundo de pijama, espero que no tal Céu haja Visa, parece que não deixam levar dinheiro. Até lá cogito novas madrugadas com cravos brancos, quero cravos brancos sobre uma laje fria, fica bem nas fotos, com Chopin em fundo, talvez o Jorge faça um poema. Campa, sim, quero uma campa, grunge, alistado no exército de cruzes entre memoriais de defuntos imortais, nada do irrespirável e tórrido crematório, coisa para frango ou Joana d'Arc.

 

Passa a Ângela no calçadão, trauteio baixo a Alabama Song, pelo retrovisor vejo o Max no banco de trás, grande Max, já partiu, e de fraque, sete Outonos atrás, espera aí Max, vou a caminho!

 

É cruel, a caneta de aparo. As palavras sangram e impiedoso  o aparo mata, invasiva arma contra as palavras vãs, com tinta preta se deviam proclamar revoluções, gritar esperanças, borrar  epitáfios, apunhalar palavras errantes  em confidenciais cadernos.  

 

É feriado. Cristo morreu, Marx também, e não me sinto lá muito bem. São cruéis os feriados no Inverno, convocam à lassidão do corpo. O homem de Nazaré morreu numa sexta, aninhado entre pregos de aço, ressuscitou num feriado à noite, hora de Greenwich. Todos os dias ressuscito para tornar a morrer. Melhor ir a um copo no bar. O sol, esfíngico, põe-se no horizonte, não serviu de nada hoje, fugido do Verão, na cabeça ecoa o Alabama Song em looping, talvez o Kurt e o Brecht queiram um bourbon, fico-me pela cerveja à espera da Libertação. Com Visa.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Zeca:Quando a revolução era em vinil





 

Zeca, trinta anos. Tão distante e tão perto. A voz dum povo revolto e revoltado, num tempo em que as utopias eram reais. Várias vezes te vi, sempre com aquele ar de quem estava em casa a cantar para amigos, e todo um povo plasmado em letras amalgamadas atrás da mordaça que alguns quiseram impor e outros não deixaram calar.

Recordo o Zeca do Orfeão Académico e da Tuna, com Adriano, António Portugal, Manuel Alegre, José Niza ou Rui Pato. Mas revejo com emoção sobretudo os gritos serenos que a sua musica sempre provocou, dos Vampiros às Cantigas do Maio, do Venham mais Cinco ou dos Filhos da Madrugada a Trás Outro Amigo Também.

Se a resistência à ditadura teve ícones na música, Zeca foi o maior deles, dum naipe onde se destacaram Sérgio Godinho, José Mário Branco, Luís Cília ou Francisco Fanhais.

De certo modo, nós que fomos filhos da madrugada respondemos à chamada, de sangue na guelra para as causas generosas, razoavelmente exigindo os impossíveis, pois só salvando o mundo nos poderíamos salvar. Salva-se hoje a memória, o orgulho de ter tentado e a certeza de nunca ter desistido. Apesar de tudo, a democracia, o menos mau dos regimes aí está, e a Liberdade, esse bem sagrado, também, imperfeitas, mas desafiadoras por isso mesmo.

Atrás de tempo, tempo vem, muitos anos passaram, valeu a pena. O som dos Vampiros, metálico e dolente, soa agora como música de fundo deste texto. Hoje como ontem, o tempo ainda é feito de mudança, e é lutando pela mudança, pelo dialético desassossego das mentes e por um mundo onde se acrescente e construa que melhor celebraremos Zeca Afonso, a voz gutural desse Portugal cinzento, em uivo magistral num apelo a quebrar grilhões.

Na Alagamares por algumas vezes o homenageámos, com destaque para o espectáculo e exposição que promovemos na Sociedade União Sintrense em 2007, por ocasião dos 20 anos da sua morte, e no Sport União Sintrense, por ocasião dos 25. Mas a maior homenagem é ouvi-lo, sempre, e em particular nos momentos de desânimo, pois quando falece a vontade e a angústia sobrevem, lá está o Zeca, com o seu ar de quem pede desculpa por nos entrar na sala e a dizer: Trás outro amigo também!.





domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Herói no Inverno



Recordo com saudade e emoção essa madrugada de 12 de Agosto de 1984 quando um olímpico Carlos Lopes, com um ar ladino e fresco, entrou para a História ao transpor o portentoso Estádio Olímpico de Los Angeles, repleto de gente para o encerramento dessa extraordinária olimpíada, e entre flashes e cor a Portuguesa ecoou bem alto, a todos que em Portugal e pelo mundo fora assistiam ao primeiro ouro de Portugal deixando lacrimejantes. Ainda hoje, com o fundo da magnífica música de John Williams, autor do, para mim, mais emblemático hino olímpico composto até hoje, recordo esse momento, a que assisti noite dentro em Lisboa, na companhia de minha avó, que para acompanhar o momento fez chá e uns bolos, também ela torcendo. A marca atingida, 2h 9m e 21s, foi recorde olímpico até aos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, e Carlos Lopes, bem como o saudoso Mário Moniz Pereira, entrou para a História restrita dos deuses do Olimpo, um franzino sportinguista de Vildemoinhos que aos 38 anos e treinando ao fim de tarde, depois do trabalho, assim batia os craques mundiais. Já em 1976 deixara um cheiro a pouco quando Lasse Viren, um polícia finlandês perito em transfusões sanguíneas lhe roubara o ouro nos 10000m em Montreal, daí para a frente, foi a geração de Rosa Mota, António Leitão, os irmãos Castro, Fernanda Ribeiro e Fernando Mamede, entre outros.

Na altura, entre outras homenagens, atribuiu-se o seu nome ao Pavilhão dos Desportos de Lisboa, local onde vi muitos espectáculos, jogos de hóquei, comícios e festas, recordo ali ter apertado a mão a Yasser Arafat em 1979, na sua única vinda a Portugal, bem como ter escutado Mitterrand e Olof Palme e ter até ouvido cantares alentejanos e cançonetistas da moda. Com o correr dos anos, tal como Carlos Lopes, também o  "seu"Pavilhão foi fenecendo, chaga aberta no centro da cidade, apesar da altivez dos seus azulejos, estátuas e cantarias. Lisboa nova rica virava a Oriente, e o Pavilhão Carlos Lopes sobrava como memória a sépia que aos poucos desaparecia da vida da cidade, como aconteceu com o Parque Mayer, o Monumental, o Éden, o café Gelo ou o mercado das Picoas.

Na reunião de um circunstancialismo virtuoso, o Pavilhão renasceu das cinzas, e Lopes lá assinalou ontem os seus 70 anos, eternizado numa exposição permanente no centro de Lisboa. Porque um país sem memória dos seus e do seu património, não pode ter futuro que se veja.

Parabéns Carlos Lopes, campeão das pistas e também da humildade. Porque como lembrou um dia Cervantes, “a humildade é a base e o fundamento de todas as virtudes, e sem ela não há nenhuma que o seja”

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O ocaso das amendoeiras




Mouro nado em terra de amendoeiras, ainda jovem o hoje Grande Historiador foi mandado estudar na madrassa, contas e álgebra foram a sua vocação. Alto e esguio, tímido e encavacado, partiu depois para o grande bazar, onde se dedicou à banca. Legumes, frutos, amêndoas, de tudo vendeu o jovem, mouro de trabalho, poupando para o futuro, professor mais tarde na madrassa onde estudara. Tudo registando em cadernos azuis, para mais tarde se ving… digo, relatar, tinha um sentido apurado da História e do seu papel incontornável na mesma, quem se não ele pois para contar a única verdade possível, a sua?

Estando o Emirado dominado pelos almorávidas e tendo adquirido um camelo novo, anunciou a jihad, ele que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, e pregando a guerra santa chegou a emir. Allah u akbar!- gritou quando de cimitarra em punho entrou em Ushbuna, seguido pelas tropas do Crescente Laranja. Como emir fez obras, mas, mandado pelo Califado, mandou arrancar amendoeiras e figueiras, encostar os barcos e vender o gado, deu trabalho porém, e os muezzin do minarete chamavam por ele como se o próprio Profeta fosse, senhor do Islam e pavor dos infiéis kafir, para ele apenas camelos. Cansado, e tendo-se retirado dez anos, entendeu, ouvida uma moura encantada, voltar para aplicar a sharia, mas os tempos haviam mudado e teve de o fazer em luta com o vizir Youssuf El Socas, estudioso de Filosofia e chefe das tribos do norte. Disputando ambos a interpretação do Corão, deixou que se esbanjassem os dinares, obrigando a que, enviados pelo Califado, três reis do Oriente chegassem trazendo ouro, incenso e mirra. Envelhecido e agastado, Al Zeimer arrastou-se nos últimos anos sem dinheiro nos cofres ou tâmaras na tenda, sem primavera árabe, restou-lhe o inverno em Bulik Eime, quando um novo emir, conhecido pelos afectos, o mandou desamparar a tenda. Mas como registará a História este personagem das mil e uma (tenebrosas) noites? Guardará de Al Zeimer a memória de Ali Babá, que abrindo a gruta com palavras mágicas, logo, qual bolo-rei, se deixou levar por quarenta ladrões? Ou como Grande e avisado Sultão que domou os insurrectos e ora relata ele mesmo a sua versão dessas noites, e também de muitas quintas feiras, enganado por vizires, vestais e cortesãos sem preparação, não fosse ele, que Alá o guarde?

Salam‟alek, Al Zeimer, emir de Bulik Eime e senhor do Gharb Al Andaluz! Sem a certeza de a História o absolver, escreveu ele já a sua História, não hajam erros comuns de percepção, como se diz hoje em terras do Crescente, e o opróbio e o anátema soez caiam sobre o justo dos Justos e maior que Saladino. Nunca fiando nos escribas geringonçeiros, a verdade é só uma e é a dele, pois então. Nada pois como uma pequena vingança para aumentar a adrenalina a um  velhaco marafado enquanto degluta umas pataniscas com grelos. Não há muito tempo para moldar a Eternidade. A dele, sobretudo.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A kasbah de Sintra




Quem por estes dias chega a Sintra, para lá da névoa ou do skyline da serra polvilhada de castelos de imediato se depara com a nuvem de vendedores de tours, tuk tuks, bicicletas, carros eléctricos, e tudo o mais, num frenesim mais próprio dum kasbah do que duma cidade europeia património da Humanidade.
Sem colocar em questão que a prestação desse tipo de serviços é necessária, e tem mercado, razão do número crescente de oferta que lota a zona fronteira à estação da CP, alguma ordem há que por na prestação de tais serviços, visando a qualidade, uma prática concorrencial disciplinada e a satisfação do visitante, sobretudo.
Se antes, no tempo do Eça, era a parafernália de burriqueiros disputando levar os veraneantes para o Lawrence ou o Hotel Bragança, hoje são já dezenas as pequenas máquinas coloridas e ruidosas que trespassam a placidez da Vila Velha, por entre hordas de turistas apeados, autocarros de turismo e lojas em busca do excursionista em trânsito que em poucas horas quer ver os palácios, o Cabo da Roca ou a serra. Porque não criar um ponto fixo onde os mesmos, devidamente identificados possam colocar as suas bancas e prestar tal serviço (no estacionamento ao lado da antiga cadeia comarcã, por exemplo). E já agora, para quando a colocação de sanitários públicos no exterior da estação, libertando os cafés da zona dos turistas que apenas entram para se aliviar e sem nada consumir?
Já nem se fala da péssima qualidade das carreiras da Scotturb, motivada pela falta de concorrência, das carreiras 403 e 434, sobretudo, as que mais fazem trajectos turísticos. Ou não saem a horas, esperando encher e transportar os passageiros para uma hora e mais de viagem levados como gado, com máquina fotográfica e selfie stick, ou, não raras vezes, saltam horários identificados no local quando sabem não haver certeza de encher o veículo (ao fim de semana é mais frequente, pois os comboios a partir de Lisboa são menos frequentes).
É sabido que este tipo de serviços é muitas vezes feito de forma informal, não obstante haver bons profissionais e jovens empreendedores entre os que em tempos de crise aproveitam a galinha dos ovos de ouro de Sintra. Mas, por favor, não matem a galinha por excesso de milho. Há que definir pontos referenciáveis para localizar as partidas das tours, verificar as condições laborais e legais de muitos dos que ali se plantam desde manhã cedo, e potenciar o surgimento de mais qualidade. Para que uma visita a Sintra seja a memória dum canto do paraíso e não um caos generalizado entre castelos.
Acresce a endémica falta de estacionamentos, as filas intermináveis que chegado Abril ou Maio de novo afunilarão o Centro Histórico, e a necessidade de, uma vez por todas, olhar para a floresta e não só para algumas árvores. Água mole em pedra dura...



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Sportinguistas de Sintra



Ser adepto dum clube desportivo e da organização local do apoio a esse clubismo é igualmente uma realidade desafiadora, sobretudo se em comparação com a do associativismo cultural e cívico, como tem sido a minha de há muitos anos.
Como é por muitos sabido, sou sportinguista de há muitos anos, e desde o ano passado integro o grupo fundador e órgãos sociais do Sporting Clube de Portugal em Sintra. Sociologicamente, é uma realidade distinta, porquanto a emoção suplanta a razão muitas vezes e a noção de pertença, mais que por matrizes culturais ou ideológicas se faz de imediato pela simples exibição de um cachecol, uma bandeira ou um cântico.

Foi na designada mesa K1 do bar Saloon, em Sintra, que um grupo de amigos começou a juntar-se para ver jogar o Sporting, e aí, semana após semana, as devoções tornaram-se amizades e um impulso fundador apossou-se dum punhado de sintrenses que não mais parou até que um espaço foi adquirido, se lançou mãos à obra, para dar à luz do dia a nova casa do Leão.

O lema do Sporting é Esforço, Dedicação, Devoção e Glória.
Esforço bem patente na singeleza e abnegação dos voluntários que em pouco mais de 2 meses denodadamente realizaram a obra, com destaque para os contributos de Daniel Silva, Nuno Silva, João Aguiar, Rui Feixeira, o André e a Patrícia, o João Ribeiro e a Bárbara, o Bernardo, o José Nascimento, o David Cabral, o Luís da Rosa, o Jorge, e muitos que se têm vindo a juntar, sendo os associados para lá da centena, em pouco tempo.
 



Dedicação expressa em horas de trabalho, sofrimento e entrega por parte de uns “doidos da cabeça” que "não quiseram ficar em casa”, e assim deram horas da sua vida para honrar as cores e o legado de Travassos, Joaquim Agostinho, Damas, Yazalde, Moniz Pereira, Figo ou Carlos Lopes, ícones do Sporting e de Portugal.
Devoção nos cânticos, na fé, na crença e na paixão inexplicável que um estranho sentimento de pertença a todos convoca, despertando amizades improváveis e solidariedades sem contrapartida num imenso altar de verde e branco.
Glória por um passado honroso, um presente com planeamento e um futuro promissor, com condições financeiras, de infraestruras e talentos que garantem um Sporting moderno, pujante, vencedor e sempre na luta.

Com a fundação do Núcleo de Sintra, um grupo de adeptos dispõe-se a levar mais longe e mais alto o espírito e garra do nosso clube, para em conjunto gritar as vitórias, de braço dar ânimo nas derrotas, do sofrimento fazendo força e da unidade fazendo um trunfo, uma arma e um desígnio. Há contudo que mobilizar para a distribuição de tarefas, articular melhor a realidade dos núcleos com a máquina de Alvalade, articular normas para a venda de bilhetes e merchandising, ponderar a realidade que são os sócios dos núcleos que não são simultaneamente sócios do SCP, e sobretudo, tornar uma realidade diária o diálogo do clube com os quase 300 mini estádios de Alvalade que de norte a sul do país quando não podem acompanhar o clube nas suas diversas modalidades, sofrem e cantam, derramam cerveja e bifanas, roem as unhas e entreolham-se com orgulho e raça, abraçando-se no fim sempre que a vitória nos sorri ou cumplicemente dando força e alento quando o resultado é menos bom.
 
Um traço de união envolve todos estes tipos de associativismo: a vontade de construir Comunidade, fazer pontes, entrelaçar objectivos e dessa disruptiva aventura tribal fazer um desígnio que serve para a vida colectiva e para a nossa maneira de com paixão nos envolvermos.
Este fim de semana decorreu em Viseu o Congresso dos núcleos do Sporting, afirmação de vitalidade e demonstração de como este é um clube nacional e intergeracional, de homens bons e fibra vencedora. E Sintra marcou presença, e deixou ideias, sinal de que o núcleo de Sintra veio para afirmar esta realidade em Sintra, mas para ser diferente, generoso, criativo e com vontade de inscrever massa crítica e empenho. Com a equipa que temos,outra coisa não poderia ser...






Lembrando Agostinho da Silva




Tu podes, com certeza, conviver com os outros, mas nunca seres os outros. Eles podem ser muito bons, mas tu és sempre melhor porque és diferente e o único com as tuas características.” Isto escreveu em Os Três Dragões, Agostinho da Silva, cujo aniversário natalício passaria hoje, se fosse vivo.

Figura singular do pensamento português, é dele também esta sábia afirmação: “Ser companheiro vale mais do que ser chefe. É preciso que os homens à sua volta nunca tenham nenhuma angústia, não sofram nunca por o sentirem a você superior a eles; a sua superioridade, se existir, deve ser um bálsamo nas feridas, deve consolá-los, aliviar-lhes as dores. A sua grandeza, querido Amigo, deve servir para os tornar grandes, no que lhes é possível, não para os humilhar, para os lançar no desespero, no rancor, na inveja.” (Sete Cartas a um Jovem Filósofo)

Espirito libertário, dele deixo esta verdade insofismável e guia de vida “Deve-se estar atento às ideias novas que vêm dos outros. Nunca julgar que aquilo em que se acredita é efectivamente a verdade. Fujo da verdade como tudo, porque acho que quem tem a verdade num bolso tem sempre uma inquisição do outro lado pronta para atacar alguém; então livro-me de toda a espécie de poder - isso sobretudo.”