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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A kasbah de Sintra




Quem por estes dias chega a Sintra, para lá da névoa ou do skyline da serra polvilhada de castelos de imediato se depara com a nuvem de vendedores de tours, tuk tuks, bicicletas, carros eléctricos, e tudo o mais, num frenesim mais próprio dum kasbah do que duma cidade europeia património da Humanidade.
Sem colocar em questão que a prestação desse tipo de serviços é necessária, e tem mercado, razão do número crescente de oferta que lota a zona fronteira à estação da CP, alguma ordem há que por na prestação de tais serviços, visando a qualidade, uma prática concorrencial disciplinada e a satisfação do visitante, sobretudo.
Se antes, no tempo do Eça, era a parafernália de burriqueiros disputando levar os veraneantes para o Lawrence ou o Hotel Bragança, hoje são já dezenas as pequenas máquinas coloridas e ruidosas que trespassam a placidez da Vila Velha, por entre hordas de turistas apeados, autocarros de turismo e lojas em busca do excursionista em trânsito que em poucas horas quer ver os palácios, o Cabo da Roca ou a serra. Porque não criar um ponto fixo onde os mesmos, devidamente identificados possam colocar as suas bancas e prestar tal serviço (no estacionamento ao lado da antiga cadeia comarcã, por exemplo). E já agora, para quando a colocação de sanitários públicos no exterior da estação, libertando os cafés da zona dos turistas que apenas entram para se aliviar e sem nada consumir?
Já nem se fala da péssima qualidade das carreiras da Scotturb, motivada pela falta de concorrência, das carreiras 403 e 434, sobretudo, as que mais fazem trajectos turísticos. Ou não saem a horas, esperando encher e transportar os passageiros para uma hora e mais de viagem levados como gado, com máquina fotográfica e selfie stick, ou, não raras vezes, saltam horários identificados no local quando sabem não haver certeza de encher o veículo (ao fim de semana é mais frequente, pois os comboios a partir de Lisboa são menos frequentes).
É sabido que este tipo de serviços é muitas vezes feito de forma informal, não obstante haver bons profissionais e jovens empreendedores entre os que em tempos de crise aproveitam a galinha dos ovos de ouro de Sintra. Mas, por favor, não matem a galinha por excesso de milho. Há que definir pontos referenciáveis para localizar as partidas das tours, verificar as condições laborais e legais de muitos dos que ali se plantam desde manhã cedo, e potenciar o surgimento de mais qualidade. Para que uma visita a Sintra seja a memória dum canto do paraíso e não um caos generalizado entre castelos.
Acresce a endémica falta de estacionamentos, as filas intermináveis que chegado Abril ou Maio de novo afunilarão o Centro Histórico, e a necessidade de, uma vez por todas, olhar para a floresta e não só para algumas árvores. Água mole em pedra dura...



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Sportinguistas de Sintra



Ser adepto dum clube desportivo e da organização local do apoio a esse clubismo é igualmente uma realidade desafiadora, sobretudo se em comparação com a do associativismo cultural e cívico, como tem sido a minha de há muitos anos.
Como é por muitos sabido, sou sportinguista de há muitos anos, e desde o ano passado integro o grupo fundador e órgãos sociais do Sporting Clube de Portugal em Sintra. Sociologicamente, é uma realidade distinta, porquanto a emoção suplanta a razão muitas vezes e a noção de pertença, mais que por matrizes culturais ou ideológicas se faz de imediato pela simples exibição de um cachecol, uma bandeira ou um cântico.

Foi na designada mesa K1 do bar Saloon, em Sintra, que um grupo de amigos começou a juntar-se para ver jogar o Sporting, e aí, semana após semana, as devoções tornaram-se amizades e um impulso fundador apossou-se dum punhado de sintrenses que não mais parou até que um espaço foi adquirido, se lançou mãos à obra, para dar à luz do dia a nova casa do Leão.

O lema do Sporting é Esforço, Dedicação, Devoção e Glória.
Esforço bem patente na singeleza e abnegação dos voluntários que em pouco mais de 2 meses denodadamente realizaram a obra, com destaque para os contributos de Daniel Silva, Nuno Silva, João Aguiar, Rui Feixeira, o André e a Patrícia, o João Ribeiro e a Bárbara, o Bernardo, o José Nascimento, o David Cabral, o Luís da Rosa, o Jorge, e muitos que se têm vindo a juntar, sendo os associados para lá da centena, em pouco tempo.
 



Dedicação expressa em horas de trabalho, sofrimento e entrega por parte de uns “doidos da cabeça” que "não quiseram ficar em casa”, e assim deram horas da sua vida para honrar as cores e o legado de Travassos, Joaquim Agostinho, Damas, Yazalde, Moniz Pereira, Figo ou Carlos Lopes, ícones do Sporting e de Portugal.
Devoção nos cânticos, na fé, na crença e na paixão inexplicável que um estranho sentimento de pertença a todos convoca, despertando amizades improváveis e solidariedades sem contrapartida num imenso altar de verde e branco.
Glória por um passado honroso, um presente com planeamento e um futuro promissor, com condições financeiras, de infraestruras e talentos que garantem um Sporting moderno, pujante, vencedor e sempre na luta.

Com a fundação do Núcleo de Sintra, um grupo de adeptos dispõe-se a levar mais longe e mais alto o espírito e garra do nosso clube, para em conjunto gritar as vitórias, de braço dar ânimo nas derrotas, do sofrimento fazendo força e da unidade fazendo um trunfo, uma arma e um desígnio. Há contudo que mobilizar para a distribuição de tarefas, articular melhor a realidade dos núcleos com a máquina de Alvalade, articular normas para a venda de bilhetes e merchandising, ponderar a realidade que são os sócios dos núcleos que não são simultaneamente sócios do SCP, e sobretudo, tornar uma realidade diária o diálogo do clube com os quase 300 mini estádios de Alvalade que de norte a sul do país quando não podem acompanhar o clube nas suas diversas modalidades, sofrem e cantam, derramam cerveja e bifanas, roem as unhas e entreolham-se com orgulho e raça, abraçando-se no fim sempre que a vitória nos sorri ou cumplicemente dando força e alento quando o resultado é menos bom.
 
Um traço de união envolve todos estes tipos de associativismo: a vontade de construir Comunidade, fazer pontes, entrelaçar objectivos e dessa disruptiva aventura tribal fazer um desígnio que serve para a vida colectiva e para a nossa maneira de com paixão nos envolvermos.
Este fim de semana decorreu em Viseu o Congresso dos núcleos do Sporting, afirmação de vitalidade e demonstração de como este é um clube nacional e intergeracional, de homens bons e fibra vencedora. E Sintra marcou presença, e deixou ideias, sinal de que o núcleo de Sintra veio para afirmar esta realidade em Sintra, mas para ser diferente, generoso, criativo e com vontade de inscrever massa crítica e empenho. Com a equipa que temos,outra coisa não poderia ser...






Lembrando Agostinho da Silva




Tu podes, com certeza, conviver com os outros, mas nunca seres os outros. Eles podem ser muito bons, mas tu és sempre melhor porque és diferente e o único com as tuas características.” Isto escreveu em Os Três Dragões, Agostinho da Silva, cujo aniversário natalício passaria hoje, se fosse vivo.

Figura singular do pensamento português, é dele também esta sábia afirmação: “Ser companheiro vale mais do que ser chefe. É preciso que os homens à sua volta nunca tenham nenhuma angústia, não sofram nunca por o sentirem a você superior a eles; a sua superioridade, se existir, deve ser um bálsamo nas feridas, deve consolá-los, aliviar-lhes as dores. A sua grandeza, querido Amigo, deve servir para os tornar grandes, no que lhes é possível, não para os humilhar, para os lançar no desespero, no rancor, na inveja.” (Sete Cartas a um Jovem Filósofo)

Espirito libertário, dele deixo esta verdade insofismável e guia de vida “Deve-se estar atento às ideias novas que vêm dos outros. Nunca julgar que aquilo em que se acredita é efectivamente a verdade. Fujo da verdade como tudo, porque acho que quem tem a verdade num bolso tem sempre uma inquisição do outro lado pronta para atacar alguém; então livro-me de toda a espécie de poder - isso sobretudo.”

 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Estado: pouco, muito ou nada?


 


A expressão “menos Estado, melhor Estado" entranhou-se no léxico político, mas sobretudo entre os que mais beneficiam com a intervenção do Estado a seu favor. A apologia de um Estado minguado ganhou apoio porque se pretende que ele cada vez mais se afaste do seu papel de assegurar uma organização social tendente à eliminação de assimetrias sociais, garantindo ao mesmo tempo igualdade e liberdade. Mas foram os mesmos que hoje fazem essa apologia, os responsáveis pela degradação da qualidade do serviço público e mais contribuiram para tornar mínimos os serviços essenciais, e, uma vez chegados aos governos, o tal Estado minimal. Sendo que é paradoxal que os políticos que defendem esse princípio, são os que se candidatam aos lugares cimeiros nesse mesmo Estado, para a partir daí e à sua sombra controlar negócios privados. Um exemplo: sendo adepto de menos Estado, porque razão um ex-Primeiro-Ministro se candidatou ao lugar e ao invés não abriu uma empresa, demonstrando, como liberal, o apego ao empreendedorismo que agora acusa os outros, os tais piegas, de não promover? Porque ocupam lugares na órbita do Estado, quando para eles, este é a fonte do mal e da indesejável regulação?

"Melhor Estado", significa "melhor" para uns,” e “ pior” para outros. Melhor para quem o quer usar para o tráfico de influências ou centro de negócios. Pior, para quem quer um sistema público de ensino de qualidade, um serviço de saúde universal e gratuito, apoio à arte e cultura, justiça atempada, segurança pública, protecção ambiental, etc.

"Menos Estado" cavalga a tese de que se reduzirmos a despesa pública, poderemos diminuir os impostos. Certo é que, enquanto o tal "melhor Estado" continuar a ser melhor apenas para banqueiros, empresários ou donos das cadeias de distribuição, os impostos continuarão a crescer, e os profetas ditos liberais continuarão a apregoar a livre iniciativa, mas, sempre a comer à mesa do Orçamento. Sempre assim foi em Portugal, das companhias pombalinas à venda dos bens nacionais no período liberal, dos monopólios dos tabacos ao proteccionismo industrial de Salazar, das indemnizações das nacionalizações, e dos fundos comunitários às parcerias público-privadas. Tudo em nome da iniciativa privada, ou do progresso, tudo porém à sombra do Estado, afinal, como sempre em mais de 200 anos.

Apesar de termos ao longo das últimas décadas assistido a uma diminuição do peso do Estado na economia em geral, a carga fiscal - principalmente sobre os rendimentos do trabalho - não tende a diminuir, antes pelo contrário. Ora, o problema não é de quantidade de Estado, é o da sua independência e fixação de objectivos. Muitas vezes os governos metem-se naquilo para que não têm vocação,  promovendo “certos” sectores (banca, construção civil, etc) mas não se preocupam em fazer aquilo que o Estado e só ele pode e deve fazer (como a administração da justiça, por exemplo.)

O que precisamos, pois, é de um Estado capaz de gerir a coisa pública com independência, que defenda os fracos e regule os interesses.

O argumentário neoliberal insiste no “menos Estado, melhor Estado”. Porém, apenas a primeira parte se tem revestido de veracidade, posto que se tem assistido ao esvaziamento das funções estatais na economia e na sociedade, e que se verifica que a ideia de “menos Estado”, é totalmente falaciosa e oportunista.

Primeiro, ao nível económico. Após a crise de 2008, que expôs as debilidades do modelo neoliberal, numa época em que a natureza especulativa do capital assumiu importância central, os governos dogmaticamente marcados pelo neoliberalismo apressaram-se a injectar milhões nos bancos, de forma a acudir às fortunas de alguns, em detrimento dos rendimentos de muitos. Aí, claramente se viu que quando se trata de salvar o capital financeiro, lá se vai o “menos Estado”…, ou que "tem de se actuar por causa do risco sistémico..."O caso português é particularmente esclarecedor, e para o provar aí tivemos o BPN, o BES, o BPP e o Banif…

Mas, repare-se que ao recuo nos serviços públicos, onde se pretende libertar espaço para o mercado, corresponde por outro lado um reforço das polícias e forças de segurança, e aí, sim, vemos o aparelho do Estado ao serviço do “menos Estado”, pois, paradoxalmente, só assim se consegue alcançar "menos Estado" para alguns...

Um exemplo de “menos Estado” vem das associações cívicas e de muitas organizações não-governamentais, mas aí, o poder não hesita em recorrer a todos os meios para as apoucar. Porquê? O que se pretende, afinal, é roda livre para os mercados especulativos.

Escreveu o velho Engels que o Estado se resume a um grupo de homens armados que garantem a dominação de uma classe, e mais tarde Max Weber que o Estado é uma estrutura que detém o monopólio do uso da violência legítima. Traduzindo por miúdos, isto corresponde nos dias de hoje a algo como “menos Estado Social, mas melhor Estado Policial” ou “menos Estado para quem vive do seu trabalho, e mais e melhor para os especuladores de casino”. Como escreveu Shakespeare, no seu "Júlio César", words, words, words.... Estamos conversados.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Me, Myself and I




Vivemos na era do Me, Myself and I, do hedonismo egoísta e do Eu como centro de todas as coisas. De tal modo que todos têm uma página na rede social onde sobretudo explanam estados de alma, fotos de si próprios, partilha de vulgaridades, em que a envolvente apenas serve para destacar mais o quanto nos valorizamos nos mais diversos contextos, desde o apregoar a solidariedade com pessoas e causas, que devia ser simples e desinteressada, até destilar ódios, rancores, frustrações e silêncios que se gritam, como simplesmente desejar feliz aniversário, chingar o clube de futebol adversário, exibir o cão, o filho pequeno, ou o prato do marisco que se foi degustar à beira mar. Até o sexo já é virtual, dispensando o parceiro, seus odores e humores no after hours.Tudo sempre acompanhado de desabafos no confessionário digital, à espera de caridosos likes, veniais lols ou dum qualquer emoji repetido pela enésima vez.

O Homem Narcisista não acredita no futuro, é pressionado pelo individualismo competitivo, ansioso, entediado, cínico e volátil, produzida para consumo imediato. O “eu primeiro” e a falta de percepção do outro em todas as relações, afetivas, profissionais, sociais e até sexuais, chega a extremos em alguns casos.

Errantes, as pessoas são zombies carregando telemóveis e tablets como armas no período das guerras, desejam ser compreendidas, mas dispõem-se a compreender cada vez menos, querem ser ouvidas, mas ouvem cada vez menos. Temos o motorista que quer passar à frente de todos, mas não deixa ninguém passar à sua frente e quando,  inadvertidamente alguém entra à sua frente, é capaz de descer do carro para tirar satisfações, ou coisa pior. A mãe que pára em segunda fila, atrapalhando o trânsito, porque o filho não pode dar dois passos até ao carro, quando vai buscá-lo à escola. E quando alguém reclama por conta da tal infração, o errado é o outro, nunca ela. O filho vê essa cena, e acredita que isso é que é correcto. Me, Myself and I

Alguns professores são veementemente desrespeitados no exercício de sua atividade porque alguns alunos acham-se no direito de fazer o que bem entendem, o que lhe dá prazer naquele momento, independente de um mínimo de respeito às regras de convivência, e isso pode ir desde fumar na sala de aula, atender o telemóvel ou falar em voz alta como se só estivesse ele na sala, desrespeitar os professores e usar palavrões, o que reforça a liderança da tribo.

Todos os dias vemos nas manchetes de jornais o quanto o respeito ao próximo é aviltado e o quanto é mais importante TER do que SER. Vivencia-se uma distorção dos vínculos afetivos, a falta de limites e de parâmetros. Ouve-se e vive-se a falta de perspectiva ou de sentido no trabalho, na educação, na saúde, na vida.

Parece-me que essa falta de perspectiva decorre da convicção de esse caminho ser visto como a única alternativa, há que aproveitar hoje, pois não se sabe nada sobre o amanhã, e então que se tenha prazer hoje e agora! Para quê estudar, se não vai haver trabalho no futuro? Para quê dar o melhor de si num trabalho, se se pode ser mandado embora a qualquer momento?

Falta comprometimento, e isso é fruto da falta de perspectiva. Como buscar objectivos de longo prazo numa sociedade com valores e expectativas de curto prazo? Como manter relações duráveis se o que se busca é o imediatismo?

Este Admirável mundo global da Comunicação é afinal um esquizofrénico mundo de solidões gritadas para amigos virtuais que mais não são que electrodomésticos, onde a emoção, a demonstração da amizade ou a opinião são estereotipados e a massificação das emoções fê-las venais e rituais. Homem, inútil compreender esse animal aflito!

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Refugiados: por quem os sinos dobram?




Existe hoje no mundo um contingente de cerca de 160 milhões de refugiados, pessoas que foram forçadas a fugir por recearem pela sua vida e liberdade, e que na maioria dos casos, abandonaram tudo – casa, bens, família e país – rumo a um futuro incerto em terras estrangeiras.

 

Guerras, perseguições políticas e religiosas, intolerância de natureza étnica e racial, os refugiados são, em larga escala, pessoas indefesas ante a violação cabal dos seus direitos, que foram objeto de mais que uma centena de tratados, acordos e protocolos internacionais visando de forma direta e indireta protegê-los, mas que no terreno esbarram com a rejeição e o desdém do Outro, vizinho ou conterrâneo.

 

Hoje, os novos escravos têm um nome: refugiados, e o mundo em que vivemos revela o pior da natureza humana, capitaneado por arautos da intolerância que cavalgam as inseguranças e medos de cada um, ampliados pela desinformação e uma comunicação social tendenciosa e desinformadora.

 

 De uma maneira generalizada, os refugiados não têm encontrado ambientes receptivos quando buscam estabelecer-se noutros países e são, em maior ou menor grau, mal recebidos pela população do país receptor por representarem perigo imediato à manutenção de seus próprios empregos. São indesejados, ameaçam a estabilidade económica e social e fazem florescer sentimentos cruéis e desumanos como tão somente podemos ver se manifestando através de ações xenófobas.

 

Como criar e fazer valer políticas humanitárias de inclusão social? O refugiado é aquele que perdeu quase tudo. E somente não foi tudo porque subsistiu a esperança. Forçado a deixar seu país, deambula pelo mundo esmolando a cidadania e implorando por liberdade, estima, emprego ou educação.

 

Segundo o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, o ACNUR, em cada dez refugiados no mundo, sete são acolhidos por países pobres. Esta constatação deveria fazer corar de vergonha os dirigentes dos países industrializados e servir como uma advertência para que venham a, efetivamente, assumir um papel proeminente na proteção dessas massas humanas, em constante movimento, em diáspora permanente das suas pátrias, buscando apenas ter assegurado o sagrado direito à vida. É de todo incompreensível ver a falta de solidariedade demonstrada pelos países ricos para com os expatriados daa guerras, da fome ou da perseguição, falta de solidariedade mais perceptível quando vemos a eclosão de novos e mais violentos conflitos no Médio Oriente, África, ou leste da Europa. Conflitos que demonstram ser inadiável um Pacto de Humanidade visando a superação do estado de insegurança colectiva em que o mundo vive, em colapso ético e moral, pacto esse que destaque a urgência da compreensão do género humano, respeite a sua diversidade e as diferentes culturas e crenças religiosas e políticas. E se hoje é Trump o novo anti-Cristo, não se deve esquecer o muro de Orban na Hungria, os acordos com Erdogan para os manter para lá duma linha sanitária, as deportações preconizadas por Estados do antigo Leste europeu ou a forma desumana como muitos passam um rigoroso inverno na Grécia, Bulgária ou Turquia, fugindo dum Inferno para logo cair noutro.

 

O enfraquecimento da ONU como actor global agudiza a crise presente, e aumenta o desafio e o risco de ser refugiado. O pedido de asilo por parte dos migrantes tem sido, na grande maioria das situações, a única opção disponível. E é nesse clima de instabilidade internacional que tem proliferado o fenómeno perverso que é o tráfico de seres humanos: os traficantes são motivados pela expectativa de receberem grandes somas de dinheiro para transportar os migrantes por distâncias enormes. Devido à ilegalidade dessa prática que infelizmente se vem tornando corriqueira, os migrantes sofrem duplamente. Primeiro porque se arriscam ainda mais do que o razoável   e depois porque são largados em locais diferentes daqueles que lhes foram prometidos.

 

A presente ordem mundial é defeituosa, entre outros motivos, porque não tem conseguido aplacar problemas milenares como a fome e a miséria e muito menos criar o ambiente adequado a um melhor relacionamento entre o capital e o trabalho, além de ter demonstrado a sua incompetência quando se trata de manter uma paz mundial duradoura.

 

Um dos maiores paradoxos do nosso tempo, marcado pelo fenómeno da globalização, é o do ressurgimento de discursos etnocêntricos. A virulência com que líderes políticos têm feito a apologia da supremacia de uma raça ou religião em detrimento de outras é algo que preocupa qualquer pessoa bem intencionada. Ao mesmo tempo que assistimos à liberalização dos mercados, ocorre em muitos países, a expulsão sumária dos estrangeiros sejam eles brancos ou de outra cor qualquer. Ressalta daí a questão da responsabilidade do governo do mundo.

 

A humanidade constitui um único povo, e apresenta desafios fundamentais para o modo como a maioria das instituições da sociedade contemporânea cumpre suas funções. A questão dos refugiados traz consigo muitos desafios. Em primeiro lugar, o desafio de ser aceite. Todos buscam aceitação no meio em que vivem. É através dessa aceitação que uma pessoa se sente cidadã em uma sociedade. Esta aceitação contribui para que, gradativamente, o refugiado se sinta incluído no processo das novas relações sociais que necessita estabelecer. É bem conhecido o facto de que todos temem o que lhe é desconhecido, o que não lhe é de alguma forma familiar. O refugiado por vir de outro país sofre a dor da não aceitação, uma vez que não domina os códigos da comunicação e os códigos culturais que sempre têm reforçado “o sentimento de pertença”. Com o crescimento das práticas xenófobas esta aceitação tem sido por demais árdua pois além de não contar com o domínio desses códigos, o refugiado é visto com solene indiferença quando não com patente hostilidade. Prover um curso intensivo de adaptação à nova sociedade em que irá viver é factor decisivo para que seja assegurado o bem-estar do refugiado. Tal curso deveria sempre buscar privilegiar o estudo do idioma do país em que está passando a residir, bem como o conhecimento dos principais traços culturais da nova sociedade. Ter uma visão panorâmica sobre o sistema jurídico prevalecente é também de importância capital.

 

Há que aprovar leis que garantam aos refugiados o acesso à cidadania nacional. A começar pela concessão de sua documentação legal. Possuir um documento de identidade é assegurar ao refugiado a sua existência legal perante a sociedade e em decorrência, significa lhe assegurar direitos e deveres para com a mesma sociedade. É através do acesso a uma “identidade” que o refugiado pode ser beneficiário do conjunto de políticas sociais providas pelo Estado a seus nacionais. Dentre outros aspectos podemos citar o desafio de constituir e de manter sua unidade familiar, o reconhecimento do casamento e também do nascimento de seus filhos. Sem a superação desse desafio temos um crescimento no contingente de párias sociais, reforçando-se dessa forma, estereótipos discriminatórios de uns em relação a outrem. É através da cidadania que pode votar e ser votado, entrar e sair de um país sem ser visto como suspeito potencial de práticas ilícitas.

 

Depois, o desafio de manter as suas crenças religiosas, manter a sua língua e o direito a preservar o seu património cultural, ter acesso ao progresso educacional e independência financeira, de se sentir em segurança e poder transitar livremente dentro dum país e deste para o exterior

 

O maior desafio que temos pela frente tanto a refugiados como a não refugiados é o desafio de sermos humanos.  Por quem dobram os sinos afinal?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

D. Fernando II contado às crianças




Os pássaros estavam a chegar, chilreando, pareciam tocar a rebate, despertando as flores perfumadas. Ruidosos, os bandos regressavam, comandados por ruidosas andorinhas, voltando do Inverno Branco, exércitos de borboletas invadiam os ares em  sagração, poisando nas pétalas bafejadas por generosos raios de sol.

No alto do penedo, Fernando, que o destino fizera rei de Portugal, contemplava contente os gamos e colibris, as libelinhas e os lagartos, toda a Floresta colorida que um dia plantara ao chegar à sua nova terra.

Fernando era um príncipe do Norte e casara com a rainha de Portugal. Ao chegar ao seu novo país, de céu azul e mar imenso, logo a floresta de Sintra o atraiu, aí se esconderiam bruxas e duendes, criaturas sinistras e coelhos bravos, e, pondo mãos à obra, juntou os jardineiros do palácio, mandou vir sábios de fora e dedicou-se a plantar, a semear, a fazer crescer novas plantas e árvores que, contentes e alegres, brotavam como feijoeiros encantados subindo em direcção ao céu.

Aí passou a ser o seu refúgio e contente passeava a cavalo, espantando os coelhos saltitantes, sempre rodeado de pássaros que o reconheciam e vinham saudar.

Nas aldeias do Reino, as terras pediam sementes, e as árvores folhagens, os chilreios nos beirados prometiam fertilidade, o toque de uma flauta acompanhava o rei nos seus passeios, logo em coro acompanhado pelos rouxinóis e toutinegras.

Gostando mais da floresta que da vida na cidade, decidiu o bom rei Fernando fazer um palácio no alto daquela serra verdejante, algo que lhe lembrasse o seu país natal, lá longe, e encontrou o lugar no cume da serra de Sintra. Uma ruína abandonada inspirou-o e decidiu: seria ali o lugar. Chamou pedreiros e arquitectos, e ele mesmo passou a traçar os planos para o novo palácio, o mais belo que alguma vez se vira neste reino, onde o vento do mar chegava refrescante e limpo. Vários anos levou nesse trabalho, até que um dia, o palácio ficou pronto, imponente e colorido. Mas o bom rei Fernando, a quem os anos foram passando, não descansou, e mandou vir plantas de terras estranhas, flores coloridas, construiu lagos e estufas, e pequenos cantos onde pintava e passeava, longe da corte e das intrigas.

O povo gostava do rei Fernando. Era um artista, não gostava de ver as igrejas e palácios em mau estado, queria que os meninos soubessem ler e escrever, que não passassem fome e pudessem brincar e correr na floresta. Ele mesmo às vezes brincava com eles, ou os levava no seu cavalo, a mostrar a serra e os lagos. E assim foi envelhecendo, feliz.

Um dia a rainha morreu, e Fernando ficou sozinho, cada vez mais retirado para o palácio em Sintra. Mas não foi por muito tempo. Certo dia, uma bela jovem, vinda da sua terra natal, apareceu na cidade, a cantar belas melodias, e canções de encantar. E Fernando, que já se conformara a viver só, dedicado a Sintra e ao seu palácio, voltou a ser feliz. E nos jardins do palácio mandou fazer uma casa mais pequena, onde nas noites de Verão Elisa, a jovem que o encantara, e Fernando, juntavam os amigos e cantavam, felizes, respirando o ar perfumado da serra à sombra da Lua Cheia, uma Lua que só havia em Sintra e que, sempre que Fernando a mirava lhe parecia sorrir, brilhando intensamente.

Fernando partiu, já velho, e muitas das plantas e árvores que em Sintra plantou ainda lá estão, sentinelas ao serviço do seu senhor, e os meninos de hoje, ao vê-las, sorriem, lembrando o velho rei e o seu carinho pela  terra que, vindo de longe, acarinhou e venerou.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Redes sociais:Aranhas e Moscas




É hoje generalizado o uso das redes sociais, seja por figuras públicas, marcas, políticos ou o mais anónimo dos utilizadores. Estar ligado na rede é fazer prova de vida, voyeurismo, combate à solidão, descarga de ódios e emoções ou tão só repetição de informações. Paradoxo dos paradoxos, estar na rede, se é um estado avançado da comunicação, é ao mesmo tempo traduzido por cada vez menos se falar com o vizinho do lado, o amigo ou o colega e se estar de olhos pregados no ecrã, seja do computador, tablet ou smartphone a “cuscar” a vida dos outros, denegrir, ou somente a dizer um aflito “estou aqui” para atenuar a solidão. Estranho mundo novo onde se grita no silêncio do dedilhar, como se premindo esse gatilho virtual os outros soubessem da nossa existência. Assim é hoje em muitos domínios: dantes, punham-se anúncios no jornal quando falecia um parente, agora coloca-se na rede e recolhem-se os emojis e smileys correspondentes, as ementas dos restaurantes estão online, a vida de cada um é pública e publicada, desde o prato do almoço ao gato brincalhão, a bravata contra o clube rival ou a busca de encontros amorosos.

O mundo como o conhecemos hoje é feito dessa nova realidade que é a democratização do acesso à informação, mas também a possibilidade de perversão totalitária que a sua manipulação pode originar, reproduzindo mentiras como se de verdades se trate, inventando factos e acicatando rivalidades. Veja-se como realidades completamente díspares como a propaganda do Daesh ou a eleição de Trump beneficiaram dessa ferramenta letal, que doutrina os novos fanatismos na época da dita pós-verdade.

Numa conferência recente, Mark Zuckerberg, fundador do Facebook lançou algumas previsões relativas ao futuro das redes sociais nos próximos dez anos. As principais tendências, na sua perspectiva são que para lá do crescimento exponencial dos utilizadores, será mais provável que o envio de mensagens se faça via fotos e SMS e que os antigos web interfaces percam a viabilidade, uma comunicação avançada e sem distrações. Os meios alternativos de envio de mensagens, também estão em evidente expansão. Por exemplo, a Whatsapp já ultrapassou as SMS em número de mensagens enviadas. O Snapchat, mecanismo de comunicação através de fotografias momentâneas, também cresceu exponencialmente tendo agora cerca de 100 milhões de utilizadores.

Na perspectiva de Zuckenberg, nos próximos 10 a 15 anos, haverá uma nova plataforma, ainda mais natural e ainda mais entranhada nas nossas vidas que os telemóveis, algo que possamos vestir ou usar que será tão natural como usar óculos e que nos fornecerá um contexto do que se está a passar no mundo, da realidade em redor. Seremos então meros chips controlados por quem dominar as redes, em teias onde conviverão de modo predador as novas aranhas e as minúsculas moscas, à mercê do totalitarismo tecnológico que nos orientará desde a escolha política até ao abastecimento do frigorífico. Do Admirável Mundo Novo a caminho do Perturbante Mundo Novo…

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

"Silêncio" ou a intermitência do grito



O recente filme de Martin Scorsese “Silêncio” vem colocar sérias questões em torno de áreas metafísicas como as da fé, da devoção, do confronto de culturas e da fragilidade da natureza humana, o que, só por si, não é de menos.
Que Deus é este que deixa sofrer o seu rebanho, como se constantemente o esteja a por à prova, e que só com a promessa de redenção no “paraíso” atenua o tormento da incerteza das convicções em seres aflitos, mas no fundo, os únicos que distinguem a água da água benta?
Pessoalmente agnóstico, embora baptizado, comunhão e crisma feitos, vestido de anjinho em procissões na minha infância, e padrinho de 4 afilhadas de baptismo e 2 casais pelo casamento , tudo sobre as normas da Santa Madre Igreja de Roma (processo mais cultural que de fé), descortino neste filme de Scorsese, que é apimentado por os protagonistas serem jesuítas portugueses no Japão do século XVII, uma reflexão sobre a natureza humana, a força da fé e a fé imposta à força, de deuses oficiais e clandestinos que sublinham sobretudo a necessidade de através da fé se afirmar antes de mais a fé na própria força interior, seja ela dominada pelas crenças e convicções seja pelo afirmar do Eu individual perante o Outro diferente e desconhecido.
Pessoalmente, não acredito na existência de Deus (com D, grande, fruto duma formatação cultural judaico-cristã) mas não contesto a sua possível existência. Sobre a sua existência se moldaram civilizações, guerras, correntes artísticas e feitos heroicos. Não acredito, mas acredito nos que acreditam, e isso leva-me a um profundo respeito pelos crentes de diversos credos, como minha avó com o seu santinho padre Cruz no missal de mesa de cabeceira, ou minha mãe, acedendo velas nos dias dos meus exames (não tivesse eu estudado, e nem a “cábula” de Cristo ajudaria…). Mas o respeito por essa fé era imenso, era terapêutico e unificador, no que tinha de afirmação de unidade na família e de referência e ligação entre passado e futuro. Lá estava a igreja no momento do baptizado, do crisma, do casamento, da Páscoa e Natal e do funeral, muitas vezes já sem questionar as convicções mas como fenómeno cultural assumido como natural.
Pirro de Élis, o fundador da escola filosófica do cepticismo, caracterizado por negar ao conhecimento humano a capacidade de encontrar certezas, acompanhou Alexandre, o Grande na conquista do Oriente, ocasião em que entrou em contato com os faquires da Índia. Estudou filosofia com o atomista Anaxarco de Abdera, durante e após esta expedição e ao estudar a pluralidade de discursos filosóficos do seu tempo, concluiu que todas as doutrinas eram capazes de encontrar argumentos igualmente convincentes para a razão. Desdobrou a sua filosofia em três questões: qual a natureza das coisas, como devemos portar-nos ante elas e o que obtemos com esse comportamento. Para ele, toda a intenção de ir além das aparências está condenada ao fracasso pelas deficiências dos sentidos e pela fraqueza da razão.
Não é possível afirmar que Deus ou os deuses não existam, e a refutação científica do Big Bang ou mesmo uma eventual comprovação de algo como a vida após a morte, também não serão por si provas da existência de algum deus em particular ou de deuses de modo geral.
Sou pois um agnóstico teísta, mas não fora do debate: haja Deus ou não haja, o mundo seguirá o seu caminho e a Terra girará à volta do Sol (como também disse -e desdisse- Galileu…). E ele continuará presente ou ausente nos que acreditam ou não, a uns gritando, a outros sendo mudo, mas a ninguém sendo indiferente. Todos precisamos dessa intangibilidade difusa que nos preserve a Esperança, seja a mística religiosa, o militantismo político ou a devoção a causas e ideais, por muito pessoais que eles sejam. A História do Homem é a permanente busca da Luz no topo da Caverna.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Por autarquias de proximidade



É chegado o momento do virar de página no quadro territorial, de competências e de gestão das autarquias, impondo-se um novo modelo, pois realidades há que exigem novas abordagens, pesem os bloqueios de paróquia que mais se devem afirmar no quadro de afirmação cultural que na representação institucional.
No quadro da gestão, vê-se com bons olhos a criação de sistemas de gestão partilhada de serviços e pessoal, num quadro intermunicipal e regional, potenciando economia de meios e reforço de recursos. Porquê a proliferação de serviços de águas, lixo, cultura, proteção civil por cada município, quando num quadro integrado se poderão obter vantagens de gestão, força de reivindicação, e operacionalidade reforçada? O quadro deverá contudo ser complementado com a maleabilidade do outsourcing, a eliminação de serviços duplicados, derramas sobre as mais-valias a favor de obras ou ações de interesse comunitário e uma maior participação na fatia dos impostos nacionais. No quadro do planeamento, prioridade à reabilitação urbana, agilizando os planos de pormenor, reduzindo os pareceres de entidades sempre que haja plano diretor aprovado e dispensando prazos de apreciação quando os pedidos se ajustem a plano-tipo que a autarquia poderia disponibilizar. O recurso a empresas externas para a apreciação de projetos ou a manutenção de equipamentos num quadro de igualdade de oportunidades seria igualmente interessante, numa vertente de menos Estado e não só um Estado maquilhado. Afigura-se correto que a gestão das áreas da educação, saúde, polícia municipal, cultura ou cobrança de impostos possa ser feita num âmbito intermunicipal, por exemplo, a que a presente proposta acrescenta competências na área das zonas marítimas e portuárias, estacionamento ou simplificação administrativa.

Como pontos menos claros, a relação de forças entre diversos níveis de poderes locais (freguesias, câmaras e as novas entidades intermunicipais) misturando entidades emanadas do voto popular com outras criadas pela lei e sem tal legitimação, e que na prática, dada a panóplia de poderes que podem vir a ter em abstrato, podem configurar o cavalo de Troia da Administração Central, sobretudo se ficar por esclarecer a forma de financiamento e os recursos humanos e materiais a elas adstritos. Igualmente por esclarecer o papel futuro das CCDR.

O Governo tem em consulta pública o projecto da nova lei quadro de transferência de competências para as autarquias e entidades intermunicipais.Nota menos positiva para a redação do nº 1 do artº 2º do projeto: “A transferência de competências efetua-se para a autarquia local que, de acordo com a sua natureza, se mostre mais adequada ao exercício da competência em causa”. Afigura-se que esta cláusula aberta pode permitir tudo, mas também nada, esperando que a legislação complementar prometida no artº 4º concretize mais estas balizas.

Estranha-se a ausência de uma clara possibilidade de transferência da  gestão da rede de transportes terrestres de passageiros, que tanta importância têm na solução de questões de mobilidade, e que no caso dum município como Sintra, claramente marcado por uma lógica metropolitana, deveria ter sido mais concretizado.

O projeto abandona a enumeração taxativa das atribuições e competências das autarquias para adotar um sistema de cláusula geral, onde tudo podem ser atribuições em correlação com o princípio da subsidiariedade. A baralhação pode vir a ser maior, se, aplicada a possibilidade de delegação legal de competências das câmaras nas freguesias, ou das câmaras nas entidades intermunicipais, (nova figura, agora criada), ou até do governo diretamente nestas, se vier a criar um quadro em que umas fiquem sobrecarregadas e sem verbas, e outras vejam o controlo democrático pelos eleitores subtraído por uma comunidade intermunicipal ou área metropolitana que não foi objeto de sufrágio e tenderá a repercutir a vontade das maiorias políticas nelas representadas e não a dos eleitores ou órgãos dos municípios.

O projeto de lei aparentemente reforça no papel as competências das freguesias, como prometido na proposta de reorganização administrativa, mas sem ficar claro o correspondente envelope financeiro, nem de quem partirá a iniciativa de contratualizar, correndo-se o risco de duplicação de serviços e de funcionários adstritos às mesmas funções.

O nº2 do artº 29º do projeto pode conduzir a uma paralisação de decisão ao impor que o exercício das novas competências pelas entidades intermunicipais dependa do acordo da totalidade dos municípios que as integram, pelo que seria melhor uma outra redação sobre a forma de tomada de decisões.

Saliente-se, contudo, a vontade de prossecução do desiderato do artº 6º da Constituição da República Portuguesa na concretização dos princípios da subsidiariedade, da autonomia das autarquias locais e da descentralização democrática da administração pública.