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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Dois centenários em 2017







Em 2017, passarão 100 anos sobre as aparições de Fátima e da Revolução Russa, dois fenómenos igualmente religiosos pelos seguidores, altares e liturgias que daí em diante suscitaram. Em Fátima, a superstição, em Moscovo, a ilusão, que desde então passaram a levar milhões à Cova da Iria e à Praça Vermelha.
Escreveu um dia Freud que o homem comum entende a religião como um sistema de doutrinas e promessas que, por um lado lhe explica os enigmas do mundo com uma perfeição invejável, e que por outro lhe garante que uma Providência atenta cuidará da sua existência e o compensará, numa futura existência, por qualquer falha nesta vida. Trata-se pois do reconhecimento de que o homem por si só nunca poderá triunfar como indivíduo sem a totémica sombra do Partido ou de Deus, acima de si e da sua circunstância, errando como eterno animal aflito procurando o Fogo no topo da Caverna. Tanto a crença nos pastorinhos e na senhora de branco que lhes apareceu (nunca percebi onde aprendeu a senhora português, ou se os pastorinhos falavam aramaico…) como nos descamisados de Outubro marchando ao som da Internacional até à vitória final, são fenómenos visualmente cénicos e catalisadores de emoções, catarse de frustrações e espécie de fé (ou fezada…) em algo que no fundo se sabe que nunca virá, mas fica bem pensar que sim.
Uma das características do ser humano é a sensação de insegurança e a necessidade de protecção e de amparo. A religião surge como o mecanismo de defesa perante as ameaças da natureza e a avareza da sociedade, e a senhora de branco,como protectora suprema que alivia as angústias e os medos perante a realidade, tal como o Partido e o seu líder vanguardista foram o protector sem dúvidas a caminho da sociedade de iguais, nova terra do leite e do mel socialista.
A constante necessidade de ter um pai ou uma mãe nasce dos desejos mais intensos do ser humano, e das suas fragilidades. Aflitos de todo o mundo, uni-vos pois para celebrar as certezas que tantas dúvidas suscitam. E se puderem, vão a Fátima de joelhos, ou cantem hinos revolucionários de punho cerrado. Não resolve nada, mas tal como a aspirina, atenua a dor de cabeça sem curar a doença.
Mas isso sou eu, agnóstico confesso e ex-revolucionário que também por lá andou, de vela na mão em Fátima ou nas Festas do Avante. Ninguém é perfeito. Como escreveu Bernard Henry-Levi, "Cristo morreu, Marx também, e eu não me sinto lá nada bem".





terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Um aceno em Santa Apolónia







Mário Soares ficará indelevelmente na História de Portugal como uma das grandes personalidades do século XX, a par de Afonso Costa, Salazar ou Álvaro Cunhal, todas na sua circunstância e enquadramento histórico.


De compagnon de route do PC a fundador do MUD Juvenil, de apoiante de Delgado à deportação em S. Tomé, foi com o espanto dos meus catorze anos que vi anunciar a chegada a Santa Apolónia naquele final de Abril de 1974 daquele político exilado, de quem só uma vez ouvira falar em casa de meu avô. E com ele e com outros estive nesse épico 1º de Maio de 1974, nesses dias frenéticos em que tudo parecia ser possível. Crismado como o Kerensky português por Kissinger, foi graças a ele que após a luta contra a ditadura se travou a luta pelo pluralismo e pelas liberdades, como se viu com o caso República, o 11 de Março, o Verão Quente de 1975 ou o cerco à Constituinte. Homem de esquerda, mas sobretudo humanista e moderado, nele se reviu a maioria do povo português em eleições para a Constituinte e para a primeira Assembleia da República. E apesar de alguns estigmas que lhe quiseram colar- o pisar da bandeira em Londres, a descolonização, etc- foi já um político com os pés na terra que nos levou à democracia institucionalizada, ao Serviço Nacional de Saúde ou à entrada na então CEE. Com ou sem socialismo na gaveta, com ele Portugal enfileirou com as democracias europeias, nunca se negando a um combate, e ao mesmo tempo sendo um homem de letras mundano, no que de mundo tem a mundanidade. Lá fora esteve com as democracias, visitou Arafat em Beirute, pugnou pela sua família política e trouxe Portugal ao século XX, apesar do socialismo na gaveta ou dos salários em atraso e das duas vindas do FMI com que o país se teve de defrontar.


Envelheceu como senador, e aos adversários políticos nunca olhou como inimigos, fez de Portugal uma sociedade aberta, democrática e cosmopolita. Quase a despedir-se, recordo a sépia e com emoção essa chegada a Santa Apolónia nesse Abril madrugador, o 1º de Maio de 1974, a adesão à Europa ou até o passeio de tartaruga nas Seychelles. ou de elefante na Índia. Na História está já, e mais que num parágrafo de rodapé, com outros portugueses de destaque merece o nosso tributo e orgulho por a par de outros ao longo dos anos, ter sabido haver um tempo para construir um modo. O nosso Tempo.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O 28 de Maio de 1926 em Sintra




Em 28 de Maio de 1926, tropas e metralhadoras vindas de Mafra dirigiram-se para a Granja do Marquês, para a Escola de aviação, em apoio ao movimento, bem como para Sintra, assustando as populações, tendo alguns escapado para a Praia das Maçãs. As tropas da Escola de Aplicação de Infantaria, com os oficiais do Depósito de Remonta, marcharam sobre Sintra a reunir com a aviação, tendo o comandante das forças revoltosas de Sintra, coronel Oliveira Gomes feito uma proclamação em nome do movimento revolucionário que o general Gomes da Costa iniciara em Braga. Na Granja do Marquês juntaram-se 6 aviões Vicher’s e 1500 homens da Escola de aviação, do grupo de esquadrilhas da Amadora, Grupo de Metralhadoras Pesadas e da infantaria de Mafra. Quatrocentos marinheiros que os iam enfrentar em Mafra bateram em retirada. Entretanto, no dia 30, chegam a Sintra 250 praças vindas da Granja para se dirigirem ao posto de comando de Gomes da Costa na Amadora, pelo caminho juntaram-se mais 300 no Algueirão, comandados pelo tenente Pires da Silva. 
Triunfante o golpe, logo a Câmara de Sintra foi dissolvida, e substituída por uma Comissão Administrativa onde pontificava o capitão Craveiro Lopes, mais tarde Presidente da República, a censura prévia é introduzida e  Sintra alinhou num golpe que, se começou por juntar facções republicanas desavindas, terminou alguns anos depois na consolidação do Estado Novo por um professor de Coimbra.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Sintra e Sporting, duas paixões

A Sporting TV esteve recentemente a conhecer o Núcleo do Sporting Clube de Portugal de Sintra, tendo gravado um programa da rubrica Núcleo Duro, onde intervenho falando de Sintra e da sua História, como sintrense apaixonado e presidente da Assembleia Geral do Núcleo, bem como da vida do mesmo. Veja aqui, em dia de derby, e antes do jogo:
 

domingo, 27 de novembro de 2016

Minhas memórias de Cuba





Aterrei em Cuba no verão de 1997, após uma viagem nas Linhas Aéreas de Moçambique, com a curiosidade de descobrir o socialismo tropical que um grupo de barbudos impusera em 1959 e de que a minha memória ia recheada de imagens da juventude, da iconografia do Che às canções revolucionárias e de incentivo à luta. A primeira imagem foi a de um mergulho no passado: apesar do clima quente e húmido, o aeroporto era um velho barracão, com televisões a preto e branco, alguns carros dos anos cinquenta que faziam lembrar alguns filmes americanos, turistas alguns já. Estávamos no “período especial”, quando Cuba privada do apoio russo após a perestroika ensaiava abertura no turismo e onde paradoxalmente todas as trocas eram feitas em dólares do inimigo yankee.

Havana transpirava de calor no fim de tarde, com os ritmos  do danzon invadindo as vielas, velhas de charuto arengavam e abordavam os turistas  nas calles do Malecón, numa terra onde o Che aparecia como o  Cristo Redentor no altar da Revolução e a voz de Omara Portuondo, Ibrahim Ferrer e Compay Segundo soava em alguns rádios roufenhos como um passado nostálgico mas vivo.

Não foi sem emoção que peregrinei nos santos lugares onde a Revolução fora prometida como terra do leite e do mel, ainda para mais com águas a vinte nove graus e orgíacos mojitos castigando o corpo na noite do Caribe. Como suspeitava, a revolução não vingara para lá do discurso inflamado, um povo alegre e culto mas pobre pululava nas ruas, serpenteando em torno dos turistas e dos dólares. Prateleiras vazias nas lojas e frágeis balsas para Miami eram os legados do socialismo, à mercê de tubarões na fuga para a liberdade. Comprei Cohibas e Havana Club, T-Shirts do Che, músicas do Che, livros do Che, o Che D. Sebastião dos trópicos, espectro dum socialismo que há-de vir,  o patriarca Fidel  vigiava ainda sentinela, cadáver dum socialismo latino americano. Dengosas mulheres da vida desafiavam turistas na praça da catedral, corpos escaldantes por cinco euros, sida não incluída, as trovoadas tropicais açoitavam o mar e despertavam agitados cardumes de peixes na calmaria da península de Ancón.

Por essa altura, alguns patos bravos de Sintra, pedreiros de gravata enriquecidos no boom da construção civil, enchiam os resorts e ostentavam charutos que lhes conferiam o ar de gringos europeus e novos ricos, chingando Fidel nos lobbys dos hotéis, ante o sorriso complacente mas silencioso dos empregados, muitos engenheiros e arquitectos, mas a quem o ordenado real de 37 dólares mensais e uma magra caderneta de senhas para o racionamento pouco ajudavam, encontrando alternativa nos hóteis de Varadero e Cayo Largo

A noite do Tropicana pareceu-me demasiado turística, melhor a simpatia dos pequenos bares na zona velha, onde pontificavam miúdos pedindo lembranças, atraídos pelo  dólar salvífico. Um placard que retive proclamava, seguro.”200 milliones de niños en el mundo duermen hoy en las calles.Ningún es cubano”.


Recordo um povo alegre e musical, o som inebriante de El Bodeguero, de Richard Egues, a minha música cubana favorita, as trovoadas tropicais no mar do Caribe, as noivas de Cienfuegos, o calor e a canchancha de Trinidad, cidade de escravos e da cana do açúcar, os supermercados vazios as águas cristalinas e  tépidas.


Uma nota de humor: num bar de colmo na Marina Hemingway, certa noite, com uma tempestade tropical a aproximar-se, num palco improvisado três cegos com óculos escuros cantavam os hinos da revolução, anunciando os amanhãs que cantam a três dólares, solo monedas, compañeros, non tarjetas. O som familiar das canções que  galvanizado entoara em anos  já passados, tornaram-nos nostálgicos. Três mojitos e seguímos embalados com “tu, querida presencia, Comandante Che Guevara”. 

No fim, chapéu circulando, e lá caíram três dólares para a revolução, cegos, mas dignos, e com talento, pensámos,  entregando os solidários dólares. No dia seguinte, após um jantar num paladar, espécie de restaurante em casa de famílias a quem ao de leve era permitido o que hoje chamaríamos de empreendedorismo, e onde comemos lagosta grelhada na chapa e apanhada na hora, voltámos a um bar do Malécon. Sem óculos escuros e com umas camisas estampadas, lá estavam os três cegos da marina, vendo perfeitamente e cantando, “hasta la victoria, siempre”.Nada como Cuba e a Revolução para até os cegos voltarem a ver, milagre do socialismo  real a três dólares por cabeça.


  



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Lembrar o 25 de Novembro



Há 41 anos Portugal era um caso perdido para Kissinger e os americanos, que consideravam Mário Soares o Kerensky português. Lembro bem esse Verão Quente de 1975 onde a esquizofrenia duma democracia à deriva pautava a nossa vida diária, entre a utopia dos amanhãs que cantam e os interesses das potências numa fase ainda de dolorosa experiência com a descolonização.
Andei por Lisboa a romper o estado de sítio e o recolher obrigatório decretado por Costa Gomes, participei activamente na vida estudantil desse período, de saneamentos, passagens administrativas, serviços cívicos e dias de trabalho para a Nação, de juramentos de bandeira guevaristas e de balcanização de Portugal no jogo das potências da Guerra Fria. Os cravos murcharam, a normalidade instalou-se e, bem ou mal, lá encetámos o único caminho que hoje me parece ter sido o mais razoável, embora já não voem gaivotas nem nos juntemos em cantos livres. Disse Jorge de Sena, um pouco cinicamente, "Quem não é revolucionário aos 20, é porque não tem coração. Quem é revolucionário aos 40 é porque não tem cabeça".No entanto, a revolução que se tem de continuar a fazer é sobretudo a da cabeça, a das mentalidades, limpando fantasmas e varrendo fados sebastianistas, descolonizando a memória sem medo do futuro, que, definitivamente, já não é como era.
A geração de hoje não guarda senão uma memória atónita do que se passou em 74-75, talvez porque também não saiba o que foi Portugal de 1926 a 74. Toda a acção tem uma reacção, é da História, e esta está ainda por fazer, a que farão os que despidos de emoção olharem para ela com um conjunto de fact checks ou assunção de não verdades, como está na moda dizer. Para mim, insatisfeito mas não desiludido, entendo que todos os dias se faz a revolução, na mudança de atitudes, no respeito pelo Outro e pelo diferente, na assunção de que o Nós não pode engolir o Eu e vice-versa, na resistência quotidiana a unanimismos e verdades feitas. No tempo das redes sociais, à revolução que fez Portugal renascer, embora com escolhos de percurso, definitivamente eu ponho um like. LOL.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Os reis de Portugal pelo buraco da fechadura


Tirando D. Pedro V, de quem não se conhecem casos, e que terá morrido virgem, bem como sua esposa, Estefânea, os nossos últimos reis eram particularmente atraídos pelo sexo oposto.
De D. Fernando, que terá tido vários casos ( com uma corista francesa do desaparecido Teatro D. Fernando, Pauline Chevalier, uma costureirinha francesa do Chiado, Charlotte Hanriot, além de Elise Hensler, com quem depois casou morganaticamente e fez condessa), até D. Manuel II, vários são os casos de que a petit histoire nos deixou registo.
D. Luís I, após o nascimento do infante D. Afonso, teve as suas aventuras. D. Luís teve várias amantes descaradas, que andavam atrás do seu dinheiro. Amigo  da   boémia  e  muito  mulherengo,  olhava  intencionalmente  para  as  damas  nas  corridas  de  cavalos,  nas  touradas  e  teatros.  Sob  o  pseudónimo  de  Dr. Tavares,   escapulia-se  de  noite  na  companhia  do  Dr.  Magalhães  Coutinho,  médico  do  paço  e seu secretário  particular,  para  se  encontrar  com  as  amantes.  Dessas  aventuras  amorosas,  destaca-se  a  que  manteve  com  Rosa  Damasceno,  célebre actriz da época.  Com  base  na  interpretação  do seu  testamento,  é  de  crer  que  o  rei  tenha  tido  também  uma  relação   com  uma  mulher  de  nome  Marina  Mora,  e  que  um tal Pedro  Luiz  Antonio  Pretti  fosse  o  fruto  desses  amores;  se  assim  não  fosse,  estranho  seria  o  facto  do  rei  português  lhes  deixar  a  terça  parte  da  sua  fortuna,  o  que  constituía,  sem  dúvida,  uma  pesada  quantia  que  não  seria  seguramente  legada  senão  a  pessoas  muito  íntimas  do  rei,  que  inexplicavelmente   não   contempla   naquele   documento,   nem   o  pai,   o   rei   D.   Fernando,  nem  sua   esposa, Maria Pia de Sabóia.
Esta  tinha  conhecimento  das  aventuras  amorosas  do  marido, mas  condescendia,  denominando-as  com  benevolência  "divertimentos  de  fóra  de  portas".  No  entanto,  há  alusões  ao  facto  do  rei  D.  Luís  levar  ao paço  da  Ajuda,  pela  calada  da  noite,  pelo  menos  a   actriz   Rosa   Damasceno.  Perante  a   situação,  certa vez a  rainha terá  tapado  com  um  lenço  de  rendas  o  buraco  da  fechadura  do  aposento  onde  a  amante  do  rei  era  recebida.
Também D. Carlos usufruiu do sexo feminino. Quando ia para Cascais de férias, era frequente vê-lo na Boca do Inferno, onde amíude ficava à conversa com as donzelas e as damas. Das suas aventuras, conhecem-se casos com a condessa de Paraty, a viúva de César Viana de Lima e a condessa da Guarda. O caso mais conhecido e ao mesmo tempo misterioso terá sido o que terá tido com uma tal Maria Amélia Laradó e Murcia, com quem teve uma filha, nascida a 13 de Março de 1907 (Maria Pia) baptizada em Madrid, no Hotel Paris, com o seu nome registado como progenitor. 
D. Manuel, como filho de D. Carlos, não podia também deixar de ter as suas aventuras. Em 1909, durante uma visita oficial, conheceu em Paris no teatro Capucines a actriz e bailarina Gaby Deslys com quem teve uma relação duradoura, que foi pública, tendo-a trazido a Sintra e Lisboa em Março de 1910, e ficando mesmo alojada no Palácio das Necessidades.A oferta de um colar de pérolas de 70.000 dólares foi mesmo reportada pela assanhada imprensa da época, incluindo a americana. A rainha mãe, D. Amélia, não gostava nada desta relação e tinha medo que D. Manuel tivesse intenções de ter uma vida amorosa tão intensa como a do pai. Depois de deposto, em 1910, continuaram a ver-se em Londres, mas D. Manuel acaba por casar em 1913 com Augusta Victória de Hohenzollern- Sigmaringen, e Gaby continuou a espalhar glamour e a ter casos amorosos, acabando por morrer prematuramente com um tumor na garganta, em 1920, aos 38 anos.
 Gaby Deslys, a amante de D. Manuel II