Follow by Email

sábado, 19 de novembro de 2016

Personalidades notáveis que moraram e estiveram em Sintra


Muitos foram os estrangeiros que escolheram Sintra para residência, ou para visitas prolongadas. Se no século XIX temos o exemplo de Beckford, Byron ou Francis Cook, no século XX muitos foram os atraídos pela serra lunar. Alguns exemplos:
TENNESSEE CLAFLIN
220px-tennessee_c_claflin
Tennessee Celeste Claflin, Lady Cook, segunda esposa de Francis Cook e Viscondessa de Monserrate, nascida em 1843, foi uma sufragista americana e uma das primeiras mulheres a abrir uma firma de correctores em Wall Street. Empenhada no movimento sufragista, foi igualmente um dos rostos pela legalização da prostituição nos Estados Unidos.
O casamento com Francis Cook foi infeliz, embora nas deslocações a Portugal predominasse do casal uma visão aristocrática e filantrópica por parte dos locais. Cook morreu em 1901 e Tennie a 18 de Janeiro de 1923, com 77 anos, em casa da neta, Lady Utica Celeste Beecham, em Inglaterra, sem testamento.
CHRISTOPHER ISHERWOOD
9788862943093-uk-300
No Natal de 1935 Christopher Isherwood e Stephen Spender, escritores da chamada Geração Auden, que incluiu W. H. Auden, Louis MacNeice, Cecil Day-Lewis e Stephen Spender viveram por algum tempo em Sintra, daí resultando um livro publicado apenas em 2012, em italiano. Isherwood, nascido em Inglaterra, foi o autor do famoso Adeus a Berlim, que serviu de base ao filme Cabaret, de Bob Fosse, bem como de Um Homem Singular e Encontro à Beira Rio. Em Sintra viveu na Vila Alecrim do Norte, em S. Pedro.
ADRIAN CONAN DOYLE
Der berühmte englische Schriftsteller Conan Doyle der berühmte Veter der bekannten Cherlock-Holmes-Romane ist, 71 Jahre alt, in London gestorben.Unser Bild zeigt den berühmten englischen Schriftsteller Conan Doyle bei der Arbeit an seinem Schreibtisch. Stehend sein Sohn Adrian Doyle.
Também a família de Sir Arthur Conan Doyle, o “pai” de Sherlock Holmes, viveu em Sintra, nomeadamente a irmã, Annette, em Portugal desde 1890, onde foi governanta, e o filho mais novo, Adrian (na foto com o pai) que por cá esteve na década de 50. Playboy e caçador reputado, continuou alguns livros de Sherlock Holmes depois da morte do pai, passando algumas temporadas na Quinta da Bela Vista
ALEISTER CROWLEY
indicehg
Em Setembro de 1930, Aleister Crowley, conhecido satanista inglês, vem a Portugal conhecer Fernando Pessoa, que lhe fizera uma carta astrológica, e aí terá ficado instalado no Casal de Santa Margarida, propriedade do representante da Shell em Portugal. Alegadamente terá vindo jogar xadrez.
05042012985
Escreve Crowley no seu diário em 25 de setembro de 1930: Sat[urday] 20. She left by Lloyd Bremen And I get on with the Job. To Cintra Hotel Europe by 1.48.“Armstrong” Amer[ican] Consul: she said the most wooden headed idiot, even for a consul (USA) she had ever known. I agree, and add “the kind of bastard that cheats at cards even when he has a winning hand, and no stake in the game”. Cintra perfectly gorgeous. Long starlight walk.Two games with Pellen. Lost first through trying to win a drawn position.
STEFAN ZWEIG
zweigstefanwriting
De visita a Portugal em Fevereiro de 1938, Zweig, que depois se suicidou no Brasil, esteve com Ferreira de Castro em Sintra. A sua vinda terá estado relacionada com recolha de dados para o seu livro sobre Fernão de Magalhães.
CONDES DE PARIS
A Quinta do Anjinho, na Abrunheira, foi descoberta pelo embaixador de Espanha em   Lisboa,  Nicolau  Franco.  Tinha-a, aliás, proposto ao conde de  Barcelona,  pai  do  actual  rei  de  Espanha,  que  rejeitou  a  ideia  por  ser  muito  grande e, sobretudo, estar longe do seu querido golf do  Estoril.
Os Condes de Paris instalam-se definitivamente  na  Quinta  do Anjinho,  em  Março  de  1947,  e  é  a  partir  desta data que a história da Quinta se mistura com a  história da família, príncipes, reis sem coroa e membros  das  grandes  monarquias  europeias  que  encontram em Portugal um refúgio real. Em 20 de Janeiro de 1948 nasceu Thibault, o mais novo dos príncipes de França. Pouco depois recebem a visita do Rei Leopoldo da Bélgica. No baptismo, foi seu padrinho o rei Humberto de Itália e madrinha a rainha D. Amélia, então exilada em França. Convidados foram todos os  príncipes  que viviam em Portugal.
10_1-apresentacaoenb-sintra_3
Nas festas que os Condes de Paris davam em casa, o fado tinha quase sempre lugar cativo: Amália Rodrigues era presença regular tal como  a  condessa  de  Sabrosa,  D.  Maria  Teresa  de  Noronha.  Sobre o tempo  que  aqui  viveu,  num  eixo  que  ligava  Sintra  Lisboa, Cascais e Estoril, a Condessa de Paris deixou nas suas memórias sobre a vida em Portugal: «entre todas as famílias reais, o exílio teceu laços fortíssimos e quando nos encontrarmos, agora que nos dispersámos todos,  não  conseguimos  nunca  deixar  de  evocar esta época da nossa vida com saudade».
ROY CAMPBELL
by Jane Bown,photograph,1951
O poeta sul africano Roy Campbell viveu em Galamares em 1952 e no Linhó em 1956 e deixar-nos ia um relato confessadamente pessoal e afectivo, intitulado simplesmente
“Portugal”, do seu  envolvimento  com o nosso país, as suas gentes, paisagens, actividades, costumes e tradições.  Como escreve na Introdução, I have not tried to write a travel book, or a guide book, or a text book about  Portugal. This is a personal book, about a country which I love and admire and about a people among whom I can number countless friends in all walks of life. […]
Terá morado na Quinta dos Bochechos, manifestamente próximo da Ribeira das Maçãs, ([…]. On my Quinta dos Bochechos, near Sintra, where we had an inexhaustible water supply and could irrigate the whole farm in  fifteen minutes, my wife and I had the delight of growing our own bread on ten acres of virgin soil which  we cleared of scrub, so that the finest corn in the whole district, according to the Government threshers at  Varzea [sic], was grown by us.” (Campbell, 1956), e em Galamares, numa casa cor de rosa, segundo Joaquim Paço d’Arcos (perto do actual picadeiro)
Escreveu ele “It is one of the few faults of […] the Portuguese, that they drink more per head than any other people in  the world, including Scots, Irish or American, but they’ve got it growing on their doorstep, and they can  stand up to it better than most of us can. But on Sundays you can see some of them shepherding invisible sheep along the main roads, from side to side: so, on Sundays, you motorists should drive carefully in Portugal.”
Por infeliz coincidência, Campbell seria precisamente vítima de um acidente rodoviário mortal, no domingo de Páscoa de 1957,perto de Setúbal, sendo o carro conduzido pela esposa.
Em Portugal escreveu uma nova versão da sua autobiografia Light on a Dark Horse e ainda Lorca (1952) , traduziu o Primo Basílio para inglês, e escreveu ainda  The Mamba’s Precipice (1953) Nativity (1954)  e Portugal (1957)
GLORIA SWANSON
250px-gloria_swanson_1921
Esta actriz americana chegou a ter casa no Rodízio, e frequentava a Praia das Maçãs com frequência. Estreou como figurante, no filme The Song of Soul, em 1914 e actuou em diversas comédias de Mack Sennette. Em 1922 entrou no filme mudo Beyond the Rocks com Rodolfo Valentino.
Em 1950, actuou em Crepúsculo dos Deuses dirigida por Billy Wilder onde interpretou “Norma Desmond”, uma actriz do cinema mudo incapaz de aceitar o esquecimento. Gloria Swanson interpretou-se a si mesma no seu último filme Aeroporto 75, de 1975. Segundo a revista de sábado do DN de 16 de Julho de 2011, “Diz-se que a primeira vinda a Portugal se deveu ao desgosto de ter perdido o Óscar para Judy Holliday. Gloria não perdoou a Hollywood a ingratidão, e desde então as suas aparições rarearam limitando-se a alguns peplum italianos e espectáculos na Broadway. (…)Hoje, ninguém sabe que a Praia das Maçãs era frequentada por uma das derradeiras divas. Gloria caminhava discreta pelas arribas para cá e para lá, ladeada pelo sobrinho, oculta por lenços violeta e óculos negros de grandes aros. Dispensava o social e as abordagens de algum fã mais atento. Não dispensava o blush. À tarde, preferia os toldos e as esplanadas às festas dos nobres da vila. Gostava de amêijoas e de tremoços. Apreciava a humidade e a bruma, o eléctrico, os pescadores empoleirados nas rochas e os berros das gaivotas. Lia Eça, Byron e Rimbaud. Escrevia poemas a lápis de cor que rasgava logo a seguir ou pegava-lhes fogo.Consta que terá passado uma noite inteira de insónia na varanda a contemplar o oceano e a beber moscatel. Gloria chegou a Nova Iorque doente e as praias de Sintra foram as suas últimas férias.(…)”
PIERRE SCHLUMBERGER
920x920
Pierre Schlumberger foi presidente da Well Surveying Corporation, com actividade em Houston e sede em Curaçao, desde 1956. Seu pai, Marcel e seu tio Conrad haviam iniciado os proveitosos negócios da Schlumberger em 1927.Petróleo, equipamentos eléctricos, mais de 343 milhões de dollares em vendas só em 1966, era apenas parte do império construído em quarenta anos.
Magnata francês do petróleo e herdeiro de uma das maiores fortunas do mundo, conheceu a mulher, a portuguesa São num jantar nos Estados Unidos, em 1961. Foi amor à primeira vista, e ambos casaram em Houston. A cerimónia foi simples e discreta, ao estilo dos Schlumberger – uma família protestante que cultivava a frugalidade apesar se ser das mais ricas de França -, nada condizente com as estridentes e propaladas festas que São haveria de dar mais tarde ao longo da sua vida. Como o grande baile “La Dolce Vita”, em 1968, que São organizou na Quinta do Vinagre, em Colares, a casa onde passavam férias de verão, na mesma semana em que os Patiño deram a sua grande festa. Segundo se conta, São não queria ficar atrás da sua rival Beatriz Patiño, que desdenhava dela. Por isso organizou uma festa na ambição de ser tão grande e imponente como a dos Patiño, onde estiveram presentes 1200 pessoas num desfile de luxo, celebridades e fama. Viviam entre Houston, no Texas, onde era a sede da petrolífera Schlumberger, Paris e Colares.
Pierre tinha uma vasta coleção de obras numa colecção que incluía muitos Picasso, Braque, Monet, Degas, Bonnard ,Rothko, Rauschenberg e Lichtenstein, e acabou por se tornar grande amiga de Andy Warhol. A senhora Schlumberger foi a única portuguesa com um retrato seu pintado por Warhol e por Salvador Dali, outro artista que ficou seu amigo. Em 1969, apenas um ano depois do grande baile em Portugal, Pierre teve um AVC durante umas férias em Portugal. Em 1984 Pierre teve novo AVC, para falecer 14 meses depois.
PAUL MORAND
paulmorand_big
Paul Morand (Paris, 13 de março de 1888 – Paris, 24 de julho de 1976) foi um diplomata, novelista, dramaturgo e poeta francês, considerado um modernista. Foi membro da Academia Francesa. Apaixonado por Sintra. Visitante de Sintra, escreveu em 1959 O Prisioneiro de Sintra, cinco contos em torno de uma família aristocrática residente em Sintra. Escreveu igualmente “Lorenzaccio”, onde o personagem,Tarquínio Gonçalves, o proscrito de «Lorenzaccio», teria sido visto em Portugal como um ofensivo retrato de Oliveira Salazar. Em 1956, numa entrevista a Stéphane Sarkany, Paul Morand fez esta revelação surpreendente: Construí a personagem de «Lorenzaccio» inspirando-me num amigo meu, um jovem português que era o chefe dos pederastas de Lisboa. Divertiu-me transformá-lo num ditador, isto dois anos antes de Salazar ter aparecido e quando Portugal estava muito longe da ditadura! Mas os Portugueses julgaram que eu tinha feito um retrato de Salazar, e andámos de candeias às avessas durante vinte anos.
972371115x
Este escritor, este diplomata de carreira, esteve quinze anos sem voltar a Portugal; teve vistos de entrada negados pela polícia política portuguesa e o seu amigo José dos Santos, director da Casa de Portugal em Paris, fez-lhe saber que era persona non grata no nosso país. Mas tão forte azedume de fronteiras teria sido alimentado por uma associação directa entre a personagem Tarquínio Gonçalves e Salazar.
Escritor, diplomata e académico (no fim da vida), Paul Morand (1888-1976) é uma figura desagradável da literatura francesa. Não tanto pela sua colaboração com o regime de Vichy (a que aderiu voluntariamente, abandonando as funções diplomáticas em Londres em 1940 e aderindo ao governo de Pétain, que o nomearia ministro plenipotenciário em Bucareste) mas pela sua personalidade intriguista e mesquinha. Tendo convivido de perto com a maior parte dos escritores (e não-escritores) homossexuais franceses, como Proust, Gide, Cocteau, aproveitou todas as ocasiões para os criticar e para exaltar a sua pretensa virilidade e a sua paixão pelas mulheres, o que, dada a insistência com que o faz, não deixa de levantar suspeitas sobre o carácter das relações que manteve com muitas das personalidades citadas nas suas memórias, o Journal Inutile. Como escritor, foi brilhante mas superficial, e não tendo conseguido fazer-se eleger para a Academia Francesa antes da Ocupação alemã, só viria a sentar-se entre os “imortais” em 1968, já que De Gaulle (por óbvias razões), como patrono da Academia, sempre se opusera a essa eleição, que só se concretizaria no período final do mandato presidencial do general.
JACQUES CHARDONNE
jacques-chardonne-autographe
De ascendência norte-americana pelo lado materno, Jacques Chardonne, pseudónimo do escritor Jacques Boutelleau formado a partir do nome de uma aldeia suíça (Chardonne-sur-Vevey), iniciou a sua atividade literária com Catherine, um primeiro romance escrito em 1904 mas que o autor só daria à estampa sessenta anos mais tarde, em 1964. Outras obras se seguiram com particular destaque para L’Épithalame (1921), romance com o qual o escritor quase obteve o prémio Goncourt, Claire (1931), uma obra com grande tiragem aquando da sua publicação, a trilogia Les Destinées Sentimentales, publicada entre 1934 e 1936, Romanesques (1937), Chimériques (1948) e Vivre à Madère (1953).
Os primeiros contactos diretos com Portugal tiveram lugar no início de Março de 1951, período em que Jacques Chardonne chegou a Lisboa por comboio. A sua estadia não se circunscreveu apenas à capital portuguesa já que a prosseguiu em Sintra e na Madeira, ilha à qual se dirigiu por hidroavião, vindo a instalar-se no hotel Savoy no Funchal.Uma segunda visita a Portugal teve lugar entre 15 de Abril e 15 de Maio de 1955. Privilegiando a localidade de Óbidos, escolhida por José dos Santos, então diretor da Casa de Portugal em Paris, esta segunda estadia incluiu ainda uma incursão ao Norte do País e ao Algarve. Reflexos dela podem ser encontrados na obra Matinales, publicada em 1956, que se constitui como um conjunto heterogéneo de reflexões e impressões escritas na sua maioria ao longo de 1955 e sem relação entre si. Particularmente na secção IV, o escritor aborda diversas localidades e regiões portuguesas como Óbidos, Sintra, Lisboa, Nazaré, o Algarve e ainda a Madeira.
Em 1959, Jacques Chardonne efetua uma terceira e última deslocação a Portugal, a convite do então ministério da Informação e do Turismo. Anunciada a sua chegada para o dia 15 de Março a Sintra, em carta de 4 de Fevereiro de 1959 ao escritor Michel Déon o escritor visita e revisita localidades com Queluz, a Ericeira, Cascais, Sintra e, a seu pedido expresso, Óbidos. Várias destas visitas foram aliás feitas na companhia de Michel Déon e do editor Jean-Paul Caracalla, e respetivas esposas.
De resto, os contactos com Portugal à distância não deixaram de ser significativos. Recebido por José dos Santos e pela esposa Suzanne Chantal na Casa de Portugal em Paris, foi nessa instituição que Jacques Chardonne comemorou o seu septuagésimo quinto aniversário, em Janeiro de 1959, tendo sido nessa mesma ocasião que conheceu pessoalmente Amália Rodrigues. Uma celebração semelhante e no mesmo local ocorreu ainda em 1964, aquando do octogésimo aniversário do escritor.
Finalmente, em 1963, Michel Déon publicou Le Portugal que j’aime…, obra acompanhada de numerosas ilustrações, legendadas por Paul Morand, na qual aquele autor aborda diversos aspetos relativos à História, monumentos, costumes do povo português. A apresentação do livro ficou a cargo de Jacques Chardonne sob a forma de um curto texto introdutório ao longo do qual se encontram diversos excertos, com alterações, extraídos dos textos relativos a localidades portuguesas contidos na obra Matinales.
WIM WENDERS
80-state-2
Sintra e o seu litoral também no cinema marcaram a sua presença. Em 1982 aqui esteve Wim Wenders para a realização, em grande parte na Praia Grande, do filme que lhe rendeu o Leão de Ouro em Veneza, quase todo rodado em Portugal, e onde num ambiente intimista vários personagens, a preto e branco, dissertam sobre a sua existência, aqui e ali se reconhecendo paisagens a todos familiares, de Almoçageme à Praia Grande.
Rodado em Portugal há  mais de  30 anos, «O Estado das Coisas», de Wim Wenders, decorre durante as filmagens,( na Praia Grande), de uma fita de ficção científica de série B intitulada «Os Sobreviventes», a qual é o remake de um velho título de Roger Corman, «The Day the World Ended». (Corman aparece brevemente no final, em Los Angeles, numa das muitas piscadelas de olho cinematográficas que Wenders faz ao longo da história).
Sendo um filme que glosa um tema caro a Wenders, a passagem do tempo sobre pessoas errantes ou, no caso, inactivas (o dinheiro e a película acabam e a equipa de «Os Sobreviventes» fica sem fazer nada num hotel à beira-mar), e que confronta, nas pessoas de um realizador europeu (Patrick Bauchau) e do seu produtor americano (Allen Goorwitz), duas formas opostas de fazer cinema, «O Estado das Coisas» transformou-se sem querer, e pela acção inexorável do tempo num filme de fantasmas. Lá estão, já desaparecidos Henri Alekan, Samuel Fuller e o seu charuto, Robert Kramer silencioso, Artur Semedo e a sua luva preta.
Em redor deles, surge um Portugal tristonho e apático, ainda com vestígios do PREC visíveis nos muros e paredes, sem telemóveis nem computadores, e com preços arqueológicos (bife grelhado, 125 escudos, lê-se num menu do hotel da praia).
GLAUBER ROCHA
indicenb
O consagrado realizador brasileiro Glauber Rocha, um dos percursores do Cinema Novo e premiado director de Deus e o Diabo Na Terra do Sol (1963) e Terra em Transe (1967) viveu na casa abaixo, na Vila Velha.25 anos depois da sua morte, a sua companheira, Paula Gaitan voltou a Portugal e filmou Diário de Sintra, um filme sobre a sua vida e legado.
AYRTON SENNA
indice
Sempre que Arton Senna vinha a Lisboa, ficava na Quinta que Braguinha, dono do Bradesto, comprara em Sintra. Foi ali que uma vez foi conduzido pelo taxista João Justino a quem deu uma gorjeta fenomenal.
Braguinha dava instruções aos empregados e cozinheira para alimentarem bem Ayrton. Bife com Batatas fritas, passou a ser o prato favorito. Com o tempo, aquela passou a ser a casa de Senna. Nos números 22 e 24 da Calçada da Penalva, em São Pedro de Sintra. Um refúgio com 30 assoalhadas, entre quartos, salas, copas, cozinhas, adega, jardins, piscinas. Protegido pelas colinas de Sintra.
7498578_orig
Aquele lugar transformou-se no refúgio, na conchinha de Senna na Europa. A sua Angra dos Reis europeia. Por Sintra vivia. O Autódromo do Estoril ali ao pé, a praia do Guincho, para correr e treinar. Ali amou e foi amado.
PAUL AUSTER
200px-paul_auster_in_new_york_city_2008
Paul Auster , o escritor norte-americano autor de vários best-sellers como Timbuktu O Livro das Ilusões A Noite do Oráculo e A Música do Acaso, é também realizador de cinema, e o seu segundo filme A Vida Interior de Martin Frost (o último que realizou até hoje, depois de Lulu on the Bridge e da co-realização de Smoke e Blue in the Face, com Wayne Wang), foi filmado nas Azenhas do Mar, numa casa térrea com um jardim imenso a dar para o Atlântico, tendo vivido por cá durante as filmagens.
ROMAN POLANSKI E JOHNNY DEPP
the-ninth-gate-a-nona-porta-sintra-no-cinema
A Nona Porta, uma adaptação de Roman Polanski em 1999 da obra literária O Clube Dumas, do espanhol Arturo Pérez-Reverte, com Johnny Depp como actor principal, foi em parte filmada em Sintra, no Hotel Central e no Chalet Biester.
RAUL RUIZ
indicejg
Raul Ruiz, cineasta chileno radicado em França, país no qual se exilou aquando a ocorrência do golpe de Estado no Chile em 11 de Setembro de 1973, que depôs Salvador Allende.
Fez parte de uma geração de cineastas chilenos politicamente comprometidos, como Miguel Littín e Helvio Soto. Mas aos poucos foi sendo considerado um autor distinto, que criava filmes cada vez mais criativos, surrealistas, irónicos e experimentais. É, por muitos, considerado o cineasta chileno mais importante da história. Em Sintra gravou em 1981 “O Território” e já perto da morte, em 2011, “Mistérios de Lisboa”, com exteriores na Quinta da Ribafria.
VISITANTES FAMOSOS
03032013233
 Rei Eduardo VII de Inglaterra, 1903
A visita de Eduardo VII a Portugal foi a primeira deslocação que o monarca realizou ao estrangeiro após a sua coroação. A visita a Sintra decorreu no dia 3 de Abril de 1903, tendo os reis D. Carlos e Eduardo VII saído da estação do Rossio às 11h17 e chegado a Sintra 20 minutos depois. Aí, visitaram a Pena, onde lhes foi servido um almoço, percorrendo depois o parque. Eram cinco horas quando o comboio real chegou à estação do Rossio, levando de volta os monarcas e a comitiva. Eduardo VII, Rei da Grã-Bretanha e da Irlanda, tinha embarcado com destino a Portugal no dia 31 de Março de 1903, em Portsmouth, a bordo do iate Victoria and Albert. O iate cruzou a barra do Tejo às 14h30 de 2 de Abril, acompanhado dos couraçados ingleses Minerva e Vénus.
Na sua recepção reuniram-se entre Algés e Belém os cruzadores D. Carlos, D. Amélia e Adamastor e um conjunto de vapores. Cerca das 16 horas, altura em que o iate ancorou, o rei D. Carlos dirigiu-se-lhe no bergantim real, encaminhando-se depois para o Cais das Colunas. Após a recepção oficial, organizou-se um cortejo de seis coches, cada qual ladeado por criados da casa real e um vasto conjunto de forças militares.
O programa de viagem do sucessor da rainha Vitória contou com uma visita a Sintra e Cascais, noite de fogo de artifício e iluminações no rio, inauguração do clube inglês nas Janelas Verdes, sessão na Sociedade de Geografia, tourada no Campo Pequeno e ainda uma récita de gala no Teatro São Carlos, com a ópera O Barbeiro de Sevilha.
A visita a Portugal, que teve como objectivo estreitar os laços entre as duas nações, terminou a 7 de Abril, quando “às vergas dos navios subiram os marinheiros a soltar os vivas da ordenança”.
marconi-em-sintra-3-5-1920-ilustracao-portuguesa
Marconi, 1920
Inventor do primeiro sistema prático de telegrafia sem fios, em 1896,  Marconi  fez a sua primeira transmissão pelo Canal da Mancha. A teoria de que as ondas electromagnéticas poderiam propagar-se no espaço, comprovada pelas experiências de Heinrich Hertz, em 1888, foi utilizada por Marconi entre 1894 e 1895. Tinha apenas vinte anos, em 1894, quando transformou o celeiro da casa onde morava num laboratório e estudou os princípios elementares de uma transmissão radiotelegráfica, uma bateria para fornecer electricidade, uma bobina de indução para aumentar a força, uma faísca eléctrica emitida entre duas bolas de metal gerando uma oscilação semelhante às estudadas por Heinrich Hertz, um coesor, como o inventado por Branly, situado a alguns metros de distância, ao ser atingido pelas ondas, accionava uma bateria e fazia uma campainha tocar.
Marconi esteve em Portugal duas vezes, em 1912, quando fez uma palestra na Sociedade de Geografia, e em 1920, altura em que visitou Sintra, como se pode ver na foto abaixo, nas escadarias do Paço.
dsc_0028
Lloyd George, antigo primeiro ministro britânico, 1934
Sintra (Portugal) 1948: Seated are T. S. Eliot and our Editor. — Middle row (from the left): Robert de Traz, Jacques de Lacretelle, Mme de Lacretelle, Mme. A Ferro, António Ferro — Upper row (from the left): Máximo Buontempelli, Aldo Bizarri, Eng. J. Silva Dias.
T.S.Elliott, escritor, 1938 (segundo da esquerda para a direita)
josephine-baker-1941
Josephine Baker, cantora americana, 1941
princesa-margarida-001
Princesa Margarida de Inglaterra, 1959
549858_431126976962517_161645903_n
Richard Nixon, 19 de Junho de 1963
grace-kelly-principe-rainier-noivado
Rainier e Grace do Mónaco, 1964
A 12 de abril de 1964, visitavam Portugal os príncipes do Mónaco, Rainier e Grace, e nesse dia, um domingo, faziam uma visita a Sintra. A chegada faz-se por S.Pedro em direcção ao Palácio da Vila, tendo depois sido servido um almoço na Quinta da Ribafria, precedido de missa celebrada pelo reitor do Seminário Salesiano de Manique.
Após o almoço, campinos do Ribatejo dançaram algumas danças tradicionais enquanto estudantes de Coimbra, de capa e batina, davam vivas aos príncipes. A princesa Grace, actriz norte-americana que atingiu o estrelato em Hollywood, mostrou interesse nas filigranas portuguesas, enquanto Jorge de Melo, proprietário da Quinta, acompanhado dos seus 8 filhos, acompanhou o príncipe Rainier numa visita pela quinta, observando os cavalos e poldros nas cavalariças.
Dia 16, o casal monegasco voltou a Sintra, mas aí para uma recepção oficial, oferecida pelo presidente Américo Tomás no Palácio de Queluz.
tony-banks-e-peter-gabriel-palacio-da-pena-1975
Peter Gabriel, 1975
21052013308
Mikhail Gorbachev, 1995
200px-u2_-_how_to_dismantle_an_atomic_bomb
U2, gravação da capa do LP na discoteca Concha, Praia das Maçãs, 2004



























sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Coisas do Clima: Trump, Marrakesh e Sintra




Termina hoje em Marraquexe mais uma Cimeira do Clima, onde se verá até onde os países estão dispostos a ir para respeitarem o compromisso que assumiram em Paris de limitar a subida da temperatura abaixo dos 2 graus Celsius relativos à era pré-industrial e a continuar os esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus Celsius.


Quando relatórios das Nações Unidas voltam a lembrar a urgência em agir rapidamente para reduzir as emissões de gases com efeito estufa, defrontamo-nos com a nova doutrina Trump, que alega serem as alterações climáticas uma invenção chinesa e aponta para a nomeação para a Agência americana de protecção ambiental de Myron Ebbers, um conhecido negacionista das ditas alterações e defensor dos combustíveis fósseis.


Trump quer que os Estados Unidos se desvinculem do Acordo de Paris antes do fim do período de quatro anos que o país ficou obrigado a respeitar. Recorde-se que o acordo, assinado por 195 países, entrou em vigor a 4 de novembro, e recentemente líderes de 360 grandes empresas enviaram uma carta a Trump a pedir que respeite o Acordo de Paris.


Se até há pouco tempo, o clima era de satisfação por, finalmente, os dois maiores poluidores, China e Estados Unidos, terem chegado a acordo quanto às metas a cumprir para minorar os efeitos das alterações climáticas, agora já ninguém está seguro quanto ao futuro. Apesar de não ter poder para bloquear o cumprimento do tratado por parte de outros países ou alterar as regras do acordo, pode a nova administração americana optar por não o executar o que pode por em causa o objetivo de limitar o aquecimento global a um máximo de dois graus centígrados acima dos níveis pré-industriais.


Para não ter de esperar até 2020, Donald Trump pode sempre sair da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que enquadra o acordo de Paris. No entanto, esta seria uma decisão polémica tendo em conta que se trata de uma convenção aprovada pelo Senado.

 

Até ao momento 97 dos 197 signatários ratificaram o Acordo de Paris, considerado histórico, mas três grandes emissores de gases não o ratificaram: a Rússia, a Austrália e o Japão.


Quando é sabido que nos próximos 15 anos será preciso levar a cabo reduções sem precedentes nas emissões de gases com efeito de estufa e fazer esforços para resistir a aumentos dos impactos climáticos, são precisas estratégias nacionais até 2050, como aumento da ajuda financeira aos países em desenvolvimento, assistência técnica para a criação de uma política de incremento das energias renováveis, aposta em transportes alternativos e reflorestação do planeta.


O objectivo do limite de 2º C foi definido em 2009, em Copenhaga. Cumprir este objectivo será também particularmente importante para Portugal, onde, se não for invertido o actual ciclo de aquecimento global, a paisagem tornar-se-á globalmente desertificada até 2100.


Sintra e as alterações climáticas


Em Sintra, segundo o "Plano Estratégico do Concelho de Sintra Face às Alterações Climáticas" coordenado pelo prof. Filipe Duarte Santos, antevê-se que em meados do século XXI as temperaturas médias anuais subam1.7 a 3.3 °C, com maior ênfase no Verão (3.6ºC a 5.4°C em Julho) do que no Inverno (0.7 a 1.6 °C em Dezembro). No final do século a elevação da temperatura média anual pode chegar a 2 a 3°C acima do que são actualmente no Inverno e 5º a 10º C no Verão, com ondas de calor mais frequentes e noites tropicais em que poucas vezes a temperatura descerá abaixo de 25º C. A precipitação média no final do século baixará de 800 mm para 540 a 700 mm e a radiação solar aumentará até um máximo de 8%.


Haverá reduções anuais no escoamento dos principais  cursos de água na ordem dos -30% em meados do século e -50% para o final do século, e para os aquíferos é de esperar uma diminuição da capacidade de exploração sustentável. O impacto no rebaixamento do nível nos aquíferos será ainda modesto, menor que -0,5 m, mas para o final do século já alcançará máximos de -0,7 m no final do semestre húmido, e -0,8 m no final do semestre seco.
 

O consumo de água dos sintrenses, agora da ordem de 80 m³ entre 2020 e 2030 será 3% a 15% acima dos valores actuais. O nível médio do ar continuará a subir, com cenários de 0,2 m a 1,4 m para o horizonte de 2100.



Fenómenos de precipitação intensa irão promover a erosão das arribas, e a modificação do regime das ondas associada às alterações climáticas deverá aumentar a deriva litoral e portanto o potencial de transporte de sedimentos, predominante para sul, em até  mais 20% em relação à situação actual. A configuração das praias aponta para reduções da superfície dos areais, embora muito variáveis de praia para praia. Nas mais encaixadas e instaladas em desembocaduras fluviais, a redução será pequena. Pelo contrário, as praias mais abertas, estreitas e limitadas pelo lado de terra por uma arriba, como a do Magoito, que são extremamente sensíveis à rotação do rumo das ondas, devem perder grande parte do areal.


Os cenários colocados pelos autores do estudo sugerem um aumento do stress ambiental na vegetação florestal. O stress hídrico poderá tornar as árvores mais susceptíveis e aumentar os danos causados pelas pragas e doenças.


No futuro aumentará também o risco de incêndio florestal e a deterioração dos ecossistemas florestais pela dificuldade de regeneração das árvores e pela proliferação de espécies invasoras mais competitivas e melhor adaptadas às novas condições climáticas.


Prevê-se o aumento da incidência de pragas e doenças, assim como o risco de invasão por novas espécies de regiões de clima tropical ou subtropical. É também muito possível que as taxas de crescimento de pragas e doenças sejam estimuladas pelo aumento da temperatura, sobretudo quando têm a possibilidade de ter várias gerações por ano.


O aumento das temperaturas no Inverno, quando acompanhado por humidade elevada, poderá favorecer a expansão de alguns agentes patogénicos, modificando a estrutura e composição da vegetação, com consequência para a restante biodiversidade: a fauna seguirá os destinos do seu habitat e a comunidade de insectos sofrerá com as alterações climáticas, uma vez que são animais de sangue frio.


Algumas populações, especialmente aquelas que têm distribuição geográfica limitada, pequenas áreas de habitat ou reduzido número de indivíduos (como o cravo-romano, o feto-de-folha-de-hera, o miosótis-das-praias ou a boga portuguesa), poderão não ter capacidades para se adaptarem às rápidas alterações climáticas, e a sua extinção pode ocorrer em populações com baixa taxa de reprodução e capacidade de dispersão.


Dentro dos mamíferos o grupo dos morcegos é o mais vulnerável, dada a dependência do seu metabolismo com a temperatura e a sua dieta depender da comunidade de insectos. Nos répteis e anfíbios deverá haver uma diminuição da sua área de distribuição, uma vez que são animais de sangue frio e com fraca capacidade de dispersão.


Os cenários indicam que em finais do século as ondas de calor serão um fenómeno frequente, afectando grupos mais sensíveis como as crianças e os idosos. O problema do ozono poderá persistir e agravar-se pelo menos até meados do século e o número de dias propícios a salmoneloses na região de Sintra aumentará dramaticamente no Verão.


O risco de transmissão de doenças por insectos subirá em todo o concelho. Mesmo no Inverno o clima passará de totalmente desfavorável a ocasionalmente favorável. O Verão continuará de forma geral a ser a estação do ano mais favorável à transmissão, embora em meados do século o clima se torne tão seco que o risco começará a diminuir.


As alterações climáticas em Sintra vão no sentido de aumentar a produção de pólenes ao longo de todo o século, agravado pela diminuição da precipitação que promoverá menos a limpeza da atmosfera. A radiação solar aumentará significativamente, e como o número de dias confortáveis para actividades no exterior aumentará, tudo se conjugará para um maior risco de melanomas.


Apesar da vasta área florestal do Parque Natural Sintra-Cascais (3675 ha), o valor anual de sequestro é de cerca 53 500 toneladas de CO2, ou seja da ordem de 2% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) dos sintrenses (âmbito total). Segundo os autores do estudo, no caso específico de Sintra duas estratégias surgem como as mais adequadas para sequestro biológico de carbono: o aumento permanente da área florestada e do número de árvores de arruamento, e o aumento da duração média das árvores com vista à meta de longo prazo de sequestro de 8% das emissões de GEE.


Estima-se que o índice de emissões totais (estritas e implícitas) per capita seja da mesma ordem do valor médio nacional, ou seja, 8 toneladas de CO2 eq./habitante. No entanto, este valor pode ser reduzido se houver uma generalização das energias renováveis, edifícios mais eficientes, melhores transportes públicos e mais ciclovias.



Sintra faz parte desde 2015 do consórcio que irá desenvolver a metodologia do projeto ClimAdaPT.Local para aplicação a nível nacional das estratégias municipais para as alterações climáticas, sendo uma das uma das autarquias que já têm estratégias próprias para os seus territórios.


Porque, como alertava um famoso programa televisivo de Luís Filipe Costa nos anos 70, inspirado nos avisos de Gonçalo Ribeiro Telles, “Há Só Uma Terra”…

 

 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Pensar e Agir na Paisagem Cultural




Desde 2006 que a UNESCO considera não existirem motivos para inscrever Sintra na lista de património mundial em perigo, dada a recuperação desde então ocorrida na zona "inscrita" (parte da serra e da vila). Há, contudo, que continuar a zelar para que se evite o risco dum crescimento urbanístico não planeado nas zonas "tampão" (da serra até ao mar) e de "transição" (que inclui a área do Parque Natural Sintra-Cascais). 

 

O caminho passará por aos poucos ir modelando uma entidade forte e decisiva que supervisione toda a designada área da Paisagem Cultural de Sintra classificada como Património da Humanidade, a ela estendendo as competências de fiscalização e licenciamento agora distribuídas pela autarquia de Sintra e pelo Parque Natural de Sintra-Cascais, entidades que se atravessam em muitas e desnecessárias situações, o que poderia passar também pela redefinição do objecto estatutário da Parques de Sintra-Monte da Lua, da redistribuição de poderes de influência entre os actuais intervenientes, incluindo até a consignação da Área de Paisagem Cultural como uma área recortada no PDM de Sintra. 

 

À Parques de Sintra-Monte da Lua compete para já, no actual quadro, não só a boa gestão e optimização dos recursos que lhe ficam adstritos, como a prossecução de uma política de investimentos e obtenção de receitas que conjuguem as necessidades operacionais com o direito à fruição e gozo dos mesmos espaços e equipamentos. Mas de forma moderada, e sem derivas economicistas, pois se o óptimo é inimigo do bom, essencial se torna não esquecer que sem visitantes não há receitas, e sem receitas não há recuperação do património, mas com demasiados visitantes perde-se em qualidade, em imagem e na afirmação da marca Sintra, que só perderá na vertente dum turismo de excursionistas de um dia que tudo afunilam e pouco vêm ou compram. 


A UNESCO vem afirmando que a pressão turística tem sido controlada, com a diversificação de locais e centros de interesse, e novos circuitos e melhor distribuição dos visitantes, tendo sugerido igualmente a recuperação de outros edifícios dentro do parque da Pena, bem como a criação de uma escola para jardineiros ou um museu explicativo dos sistemas de irrigação da serra de Sintra. Mas tem também recomendado que as comunidades locais sejam mais envolvidas na gestão da área classificada, e que os proprietários e as associações locais -os designados stakeholders - sejam consultados com regularidade.

 

A gestão dos parques e jardins requer o apoio de escolas de conservação especializadas similares às que já existem para o património edificado, com trabalho de investigação. Houve porém já uma mudança de paradigma na gestão da "jóia da coroa", com a filosofia de "abrir para obras" acompanhando as recuperações em curso, o que é internacionalmente aconselhado, já se tendo verificado no caso do Chalé da Condessa ou no castelo dos Mouros, tendo o diálogo com a sociedade civil e os stakeholders dado passos importantes. Mas tudo é um work in progress, e permanecem por resolver questões importantes, como o do acesso de visitantes, dificultado por cada vez maiores constrangimentos no trânsito e estacionamento, sobretudo os que se deslocam em carro ou autocarro, ou o elevado custo dos bilhetes para visitar os monumentos.  E aí, permanecemos em alerta laranja, e possivelmente só soluções radicais poderão colmatar um problema que não terá solução com paliativos enquanto as low cost para Lisboa e os turistas forem aumentando, o trânsito até ao Centro Histórico não for severamente desaconselhado, e o estacionamento com deslocações confortáveis e regulares para os pontos de interesse não seja de vez adoptado.


A previsão de harmonização de fachadas de edifícios, de painéis publicitários, de toldos e esplanadas é uma necessidade, todavia é importante definir qual é a harmonização em concreto, para que não se repita o caso do toldo na esplanada do Hotel Central.


Ainda no eixo estratégico da qualificação do ambiente urbano há que resolver a questão das barreiras arquitectónicas que se impõem diariamente às pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, construir um grande parque periférico junto do tribunal de Sintra, aproveitando as estruturas viárias existentes e subaproveitadas, abandonar de vez a ideia peregrina do teleférico, repavimentar a Av. Heliodoro Salgado, reconvertendo o seu piso em calçada portuguesa, definir zonas interditas às charretes e aos “tuk-tuk” para não criarem congestionamentos, construir um Welcome Center na Vila Alda, no Casal de S. Domingos ou no Museu Ferreira de Castro, se este vier a ser deslocado para outro sítio. Importante também a implementação de sinalética com informação exaustiva, com introdução de wi fi e QR codes em todos os locais de relevo, alterar e adaptar as localizações e horários dos transportes públicos e praça de táxis da Vila (com novas paragens e praças junto aos parques periféricos), bem como regulamentar os “tuk-tuk” e operadores turísticos privados, hoje a actuar na sua quase totalidade de forma descontrolada.


Há que replantar árvores na Praça da República, e classificar todo o arvoredo da zona da ARU como de interesse municipal, impedindo cortes, e promovendo apenas os que decorram de parecer fitossanitário devidamente fundamentado; criar uma zona de parqueamento de caravanas no Ramalhão, Chão de Meninos e/ou junto ao Tribunal; uniformizar o mobiliário urbano e remover as antenas obsoletas.


A sustentabilidade económica e social é fundamental, pois sem as pessoas o centro histórico não poderia subsistir. As pessoas que habitam o centro histórico, que o vivem e que o visitam são as criadoras, no seu tempo, do espírito do lugar. Deve relevar-se a cultura como pilar económico do centro histórico, nomeadamente com as oficinas de artesãos, os grupos de teatro, as bandas musicais, as galerias de pintura e escultura, as livrarias, entre outras actividades que criem emprego e fixem residentes no centro histórico. Nesse sentido, seria bem vista a celebração de contratos de comodato de cedência de imóveis privados da CMS, entre autarquia e as associações culturais, agentes culturais e artesãos que se obriguem a criar emprego nesses espaços (acreditamos que os imóveis situadas nas escadinhas do hospital da vila teriam potencial para este projecto).


A elaboração de um relatório anual de monitorização a apresentar junto da CMS e da Assembleia Municipal e que recolha os pareceres de entidades, stakeholders, visitantes e comerciantes poderá fazer a avaliação regular do estado das coisas, introduzindo nuances e reflectindo as experiências no terreno, mais do que planos formais e de difícil alteração quando esta se imponha. Se o óptimo é inimigo do bom, procuremos pelo menos o razoável.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A lenta viagem para Utopia



Utopia foi um termo inventado por Thomas Morus e título da sua principal obra, escrita por volta de 1516, passam agora quinhentos anos. Segundo a versão de alguns historiadores, Morus apaixonou-se pelas narrações do navegador português Rafael Hitlodeu que navegara com Américo Vespúcio e ficara no litoral da América, enquanto este regressava à Europa. Aí conheceu múltiplas regiões e visitou uma ilha cuja situação geográfica Rafael nunca mencionou. O encontro com Thomas Morus foi mediado por Pedro Gilles e deu-se em Antuérpia. O longo diálogo com Rafael, divide-se em duas partes: na primeira, Morus tece duras críticas à sociedade em que vive, aspirando por uma sociedade perfeita; a segunda parte consta da narração por Rafael da ilha idealizada, e que conhecera com todos os pormenores: a organização política, social, como se organizavam as famílias, a divisão do trabalho, as cidades, a alimentação, etc. Nessa ilha todos viviam felizes e cada um tinha o que necessitava. Tal ilha imaginária mostrava-nos uma sociedade constituída com base na razão humana e onde só com esta se podiam resolver as questões da justiça e do bem comum.
Passam agora 500 anos da edição de tal obra, e a busca dessa mirífica Utopia ainda nos assalta, relendo Morus, o arauto de futuros que hão-de vir, todos buscando a Luz resplandecente e redentora que nos devolva um mundo hoje capturado, onde em cavernas da alma somos espeleólogos de amarguras e arqueólogos da ansiedade.
A poção da impaciência fervilha no caldeirão, mas não é ainda a hora de beber e soltar a Palavra, disforme sombra ainda na escura pedra da Caverna-Mundo onde deambulamos. Pululam os ditadores da era do Twitter, demagogos vendendo holográficos futuros, as gárgulas dos Trumps, Farages, das Marines e dos Dutertes, e muitos outros títeres plantados nas  matas penumbrosas dessa Utopia onde tarda o amanhecer e se digladiam poderes erráticos, usurários do vil metal, senhores da guerra e torquemadas do Verbo.

Falta o Fogo. O Fogo da Caverna, quente e aconchegado, mas castigador e purificante, e nela somos ainda prisioneiros, como faunos na noite. Na escuridão que se abate, tarda a Claridade e faróis pirilampos  que nos guiem à  fogueira utópica, quando, com um cálice de cidra enfim saciaremos a sede de justiça e liberdade.

Rafael Hitlodeu erra ainda, na Caverna ainda fria e ululante,  exilado nessa Elba Lunar donde, quem sabe, sairá uma radiosa manhã para dias de Luz, desafiadores e labirínticos. Assim o esperamos, há quinhentos anos, e há muitos mais quinhentos.

Por essa Utopia já várias vezes morremos, e logo qual Fénix renascemos, libertos e libertadores, peregrinando como anacoretas aflitos em busca da luz vaginal. E apesar das contrariedades de dias de incerteza, haveremos um dia de escrever poemas cristalinos, e gritar perfurantes palavras  que gravaremos em pedra. Porque ainda não é a hora de Rafael, e também em Ítaca outra aflita Penélope faz e desfaz os seus novelos, aguardando pelo desejado regresso de Ulisses, e pela salvífica Hora, cujo sinal talvez chegue no bico de uma gaivota rasgando as costas da Finisterra.

É negra a espera pela Hora de Utopia. Mas, como escreveu Simone de Beauvoir, “em todas as lágrimas há uma esperança”.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Autarquias locais, 40 anos depois




Quarenta anos de experiências autárquicas demonstram que é chegado o momento do virar de página no quadro territorial, de competências e de gestão das mesmas. Litoralizado o país, florescendo conurbações interligadas nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, sobretudo, impõe-se um novo quadro, pois realidades há que exigem novas abordagens, unificando concelhos ou reajustando outros, pesem os bloqueios de paróquia que mais se devem afirmar no quadro de afirmação cultural que na representação institucional. Por outro lado, mais ágil e adequado se afigura um modelo eleitoral em que as candidaturas sejam para a Assembleia Municipal, sendo presidente o candidato da lista mais votada, e os demais tendo assento na Assembleia, esta com poderes reforçados, modelo que, por interesses partidários, não vingou até hoje. O presidente, livre de escolher a sua equipa, apresentaria programa à Assembleia, poderia ser objecto de censura, em tudo acompanhando o modelo actualmente usado com o Governo. Sugeriria que, introduzindo a “nuance” da obrigação de, derrubado um executivo, os opositores deverem apresentar alternativa clara, a sós ou em coligação, em nome do princípio da governabilidade (moção de censura construtiva). Os membros da vereação poderiam ser livremente nomeados e demitidos pelo presidente, e este teria poderes reforçados, havendo vantagens na presidencialização do presidente da câmara, evoluindo do actual modelo para outro mais eficaz. O mesmo quadro para as juntas de freguesia. No quadro da gestão, haveria que criar sistemas de gestão partilhada de serviços e pessoal, num quadro inter-municipal e regional, potenciando economia de meios e reforço de recursos. Porquê a proliferação de serviços de águas, lixo, cultura, protecção civil por cada município, quando num quadro integrado se poderia obter vantagens de gestão, força de reivindicação, e operacionalidade reforçada? O quadro das despesas deveria contemplar a maleabilidade do outsourcing, a eliminação de serviços duplicados, e o das receitas, derramas sobre as mais-valias a favor de obras ou acções de interesse comunitário e maior participação na fatia dos impostos nacionais. O cheque para a cultura, em que 1% dos impostos e taxas cobrados serviria para financiar um fundo de promoção cultural gerido pela autarquia e pelos agentes culturais, e as isenções de parte do IMI para os proprietários que reabilitassem seriam outras medidas bem vistas. No quadro do planeamento, prioridade à reabilitação urbana, agilizando os planos de pormenor, reduzindo os pareceres de entidades sempre que haja plano director aprovado e dispensando prazos de apreciação quando os pedidos se ajustassem a plano-tipo que a autarquia disponibilizaria. O recurso a empresas externas para a apreciação de projectos ou a manutenção de equipamentos num quadro de igualdade de oportunidades seria igualmente interessante. No que a Sintra concerne, seria curial um número de vereadores não superior a 7 e uma assembleia municipal reduzida em 1/3). A gestão das áreas da educação, saúde, polícia municipal, cultura ou cobrança de impostos poderia ser feita num âmbito intermunicipal, por exemplo. Tudo isto são só ideias e sugestões. Seria no entanto útil que os visados tivessem uma palavra a dizer em vez de virem a ser surpreendidos com uma reforma autárquica feita a partir de cima e às pressas, e numa lógica meramente economicista.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Era uma vez uma freguesia



Hoje é dia de S. Martinho, ocasião para falar da extinta e histórica freguesia de S. Martinho. A extinção da freguesia, por agregação com Santa Maria e S. Miguel e S. Pedro de Penaferrim, centralizando a sede da nova União das Freguesias de Sintra em Santa Maria e S. Miguel, constituiu um acto impensado e atentatório da vontade dos seus fregueses, que, no mínimo, deveriam merecer a consideração de uma justificação adequada, decorrente de estudos sérios e participados que levassem a essa conclusão, e que fosse objecto de auscultação da população, pela pronúncia favorável dos seus órgãos próprios ou pela convocação de um referendo local. Deveria ser assim, nas democracias. Nesta não. Até porque não foi dada a oportunidade de exercer o contraditório, por audiência aos interessados, apenas tendo havido pronúncia das assembleias de freguesia pela não extinção ou agregação em abstracto.
S.Martinho, da Vila a Janas e de Galamares a Nafarros, construiu uma identidade ao longo de décadas em torno das suas festas, símbolos, colectividades e património. A ela se dedicaram autarcas como Noel Cunha, Álvaro Ramires, João Pedro Miranda, Adriano Filipe ou Fernando Pereira, nela se situam várias das instituições emblemáticas de Sintra. Com os anos, foi das poucas freguesias que viu a população crescer, ampliou e modernizou instalações e serviços e dinamizou a acção social, pelo que o mínimo exigível seria o reconhecimento do trabalho feito por autarcas de várias cores mas com uma só camisola. Com a agregação, que muitos contestaram mas hoje já esqueceram, não foi S.Martinho quem mais perdeu, foi Sintra, o poder local e a democracia. Não por medo do "outro", dos actuais dirigentes, das freguesias vizinhas ou da perda de identidade, mas, sobretudo, por a voz do seu povo ter sido abastardada e tratada como vã e inútil. Quem subestima o povo tarde ou cedo lhe ficará às mãos (ou aos votos...).A saga continua, e por vezes a História repete-se, quem sabe.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A América ganhou o seu Nero


 



Agora que chegou onde queria, Donald Trump já pode voltar a ser o que nunca deixou de ser: um banal troglodita que durante uns meses virou um troglodita político, não para regenerar o sistema americano ou ser a voz dos deserdados de Washington, mas para o narcísico cumprimento de um capricho: o de, depois de milionário, apresentador de televisão, e socialite depravado ser presidente dos Estados Unidos. Podia tê-lo feito entrando numa série da Netflix ou num filme de Clint Eastwood, mas não, tal como o coronel do Apocalipse Now, que precisava do cheiro de napalm pela manhã, Trump precisava de agarrar a Casa Branca como agarrou as vaginas das concorrentes de The Apprentrice. O poder é afrodisíaco, dizem, e Trump está a ter o seu, Nero dos tempos modernos pondo a culpa nos imigrantes como antes este nos cristãos, sacrificando Hillary como este a mãe, Agripina, e pegando fogo a Roma e culpando islâmicos, latinos, mulheres, com os seus cowboys pronto a devolver os Speedy Gonzalez aos desertos do México ou os refugiados às ruinas de Alepo.

Tudo teria graça não fosse uma desgraça. Donald Trump, o construtor civil, vai agora dedicar-se a construir muros, cimentar a segregação, humilhar, deportar, ameaçar, qual novo e requentado doutor Strangelove com o botão nuclear ao lado do champanhe francês e de alguma playmate contemplando a "sua" América da janela da Sala Oval. É claro que pouco ou nada do que disse ou prometeu sairá do papel, mero soundbite para abrir telejornais e ganhar votos nos rodeos do Kansas ou Arizona. Mas o mundo vai ficar mais perigoso, desconfiado, fechado nos seus medos e numa perigosa esquizofrenia isolacionista. A América que produziu Obama, também pode produzir um Trump. Os dados estão lançados, e a hora é de Trump, o dono do salloon.

Um ecossistema para o associativismo



Para que servem as organizações não -governamentais, associações cívicas e a dita “sociedade civil “ em geral, nas quais associações como a Alagamares se inserem e pretendem desempenhar um papel?

Norberto Bobbio afirmou um dia que o cidadão, ao fazer a opção pela sociedade de consumo de massas e pelo Estado de bem-estar social, sabe que está a abrir mão dos controles sobre as atividades políticas e económicas por ele exercidas em favor de burocracias, privadas e públicas, e que em conjunto com a realização de eleições e a existência da burocracia, a democracia assenta para muitos na ideia de que a representatividade constitui a única solução possível nas democracias de grande escala, aí se esgotando a intervenção daqueles que se não assumem como agentes políticos directos.

Pode apontar-se Jürgen Habermas como um dos autores que melhor analisaram este alargado entendimento da democracia. A criação de esferas públicas que participem das instituições e as controlem, redesenhando a relação estabelecida com os cidadãos, possibilita a indispensável reconciliação da democracia participativa com a organização política tradicional do Estado, abrindo lugar para a participação dos actores sociais em fóruns amplos de debate e negociação, sem substituir, contudo, o papel dos representantes eleitos. A efectividade democrática está assim reforçada com uma sociedade civil organizada e com a dinâmica que ela desenvolve. Os movimentos, as organizações e as associações podem, a partir de sua actuação revigorar os sentidos da democracia, ocupando uma arena que lhe é natural e necessária.

O padrão democrático de uma sociedade passa hoje não só pela densidade cívica da sua sociedade civil, mas também pela pluralidade de formas participativas institucionalizadas capazes de inserirem novos actores no processo decisório destas mesmas sociedades. Acredita-se, com isso, que os actores societários deverão não só abordar situações problemáticas e buscar influenciar os centros decisórios, mas também assumir funções mais ofensivas no interior do Estado.

Na linha dos estudos de Habermas, a sociedade civil pode ser compreendida como o espaço público não estatal, composto por movimentos, organizações e associações que captam os ecos dos problemas sociais na esfera privada e os transmitem para a esfera pública.

São as ONGs, os movimentos sociais, as comissões, grupos e entidades de direitos humanos e de defesa dos excluídos por causas económicas, de género, raça, etnia, religião, portadores de necessidades físicas especiais; associações e cooperativas, fóruns locais, regionais, nacionais e internacionais de debates e lutas por questões sociais; entidades ambientalistas e de defesa do património histórico e arquitectónico, etc.

De entre os aspectos positivos da ação da sociedade civil organizada destaca-se a pluralidade do discurso e o estabelecimento do diálogo construtivo, tendo-se em vista as múltiplas vozes que se querem fazer ouvir na sociedade civil; a promoção da denúncia, tornando públicas as situações de injustiça e de violação de direitos; a protecção do espaço privado, reforçando os limites do Estado e do mercado; a participação directa nos sistemas políticos e legais, estimulando-se e fortalecendo-se leis e políticas públicas que promovam os direitos humanos; a promoção da inovação social, se possível construindo e participando em redes redes que evitem a fragmentação e fortaleçam o uso dos recursos.

Vivemos dias de incerteza, mas também de desafio, e se certas patologias, como o desemprego ou a emigração enfraquecem o número e a pujança dos que militam em associações da sociedade civil, novas oportunidades, caldeadas pela experiência e o ânimo de novos colaboradores vão permitindo este renovar de ciclo, com novos protagonistas e novas (ou nem tanto) lutas para abraçar.

Entendo a participação na vida associativa e o papel da sociedade civil como um contributo para o pluralismo e um reforço essencial da democracia participativa, e tão independente e genuíno será esse trabalho quanto mais distanciadas as associações estiverem dos poderes político-partidários, grupos económicos ou agentes que a coberto da participação mais não pretendam que usá-las ou instrumentalizá-las na sua escalada para o poder, e é esse o fio da navalha em que muitas vezes as associações e a sociedade civil se vêm enredados. Independentes dos políticos, mas não da discussão das políticas, actores e não figurantes, eis o nosso papel, activo ou reactivo, mas sobretudo, vivo. A falta de verbas e um clima pouco propício ao pluralismo nem sempre ajudam, mas só é derrotado quem desiste de lutar por dar sentido à vida em comunidade. Nem todos entendem isto, sobretudo os que encaram a participação como antecâmara para lugares e sinecuras, ou como terreno para projectos pessoais ou umbiguistas. Na Alagamares há um desígnio comunitário e identitário afirmado em 11 anos de estimulante vida cívica de que não queremos abdicar nem adulterar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Há lobos na planície




A vitória de Trump é sintoma de que falta a esperança, essa palavra talismã, e falta mostrar o osso com que, como o cão de Pavlov, de novo voltaremos a ladrar. Para que tal aconteça, há que levantar do sofá, largar o comando da televisão e o asténico isolamento das redes sociais, silencioso espaço para gritar desesperos, buscar cumplicidades, e, todavia, nada decidir que altere o pathos desta anormal normalidade com que os populismos e cantos de sereia invadem o ecossistema político.
Já muitos de nós no passado lutámos contra a liberdade raptada, guerras anacrónicas e por um futuro que por gerações nos foi negado. Um dia tudo voltou a ser possível, e o Futuro teve rosto, calendário, protagonistas, muitos cães e muitos Pavlovs, ladrou-se e latiu-se, e apareceram ossos, carne, ração. Fez-se a democracia, mudaram-se retratos, discursos, atitudes. Mas ao sétimo dia o povo descansou, contente com a obra feita, e entregou-se à volúpia consumista, ao hedonismo egoísta, à anomia social, de bom selvagem, o indígena ficou tão só selvagem, com casas a crédito, férias no estrangeiro ou carro novo cada três anos. Barato, o vil metal abundou, o maná igualmente, triunfantes mas cegos pelo sol, achou-se que se tinha alcançado a Terra Prometida, depois de anos a errar no deserto, e depois dos grilhões do faraó. Silencioso, o veneno do inimigo fervia no caldeirão, acelerado pelos trinta dinheiros com que a ele nos rendemos. Um dia, legiões de cobradores, subprime, agências de rating e fundos abutres chegaram a exigir o dízimo, e, qual Sodoma atónita, tudo ruiu então, transformado em sal às mãos dos que na sombra manobravam, sabedores da fraqueza dos deslumbrados.
Como na caverna de Platão, onde agora, cegos e aprisionados uivamos a perda da esperança e buscamos um rumo, haverá de chegar a luz, do fogo primeiro,anunciando um novo tempo, depois. Mas tal não virá de sortilégio do Olimpo, antes imporá a necessária revolta dos escravos, o quebrar das algemas, a união denudada e sem temores. Imporá pôr à prova se os escravos merecem um futuro ou, erraticamente, serão um mero quilombo de deserdados em fuga e com liberdade vigiada.
Os dias são de surpresa e desnorte, chamamentos de Circe e apelos a fugir de Ítaca, para, assustados, sulcar fronteiras, ziguezagueando a vida e trocando voltas ao futuro, dias de sofrimento, exaustão, entre a loucura e a entropia, o estilhaçar de sonhos ou o seu cruel adiamento. É chegado o momento da renovação, do regresso da alva Iemanjá e dum assomo de magia que faça das fraquezas forças, dos rebeldes líderes e das ideias planos. O grande exército do Futuro, dos que se indignem com consequência, ajam com sabedoria, tracem planos consistentes e de diferença, e que, reconquistada a chama, a reponham na pira sagrada onde se venere a dignidade e perspective um Devir ainda tem de ser formado em catártica e lenta caminhada. Até lá, vão vencendo as hordas bárbaras e é Inverno nas almas. O futuro já não é como era.


terça-feira, 8 de novembro de 2016

A democracia na enfermaria



O maior paradoxo das sociedades modernas e altamente mediatizadas é que a democracia pode facilmente ser capturada pelo autoritarismo ou prevalecer a sua desvalorização se uma representação de massas de valores ditos democráticos ocupar o espaço público e o espaço da representação política.

Nos Estados Unidos, em pleno folclore das presidenciais, o jogo da democracia privilegia o candidato que dela pouco sabe ou pensa poder comprar, o inefável Trump, incrível Hulk da sociedade mediática, prometendo esmagar os vizinhos preguiçosos e o Estado islâmico, seja lá o que isso for na sua testa onde pouco mais cabe que a descabelada cabeleira loura. E os cidadãos espectadores aplaudem, reféns da democracia-ecrã, transformada em reality show de soundbites, mistificações e encenação.

O mesmo se diga da forma como é governada a “União” Europeia. A Europa da paz de Schuman e Monet, unida do Atlântico aos Urais, não é mais que uma mera representação de pseudo democracia, dominada pelos poderes erráticos e não eleitos que ao mesmo tempo que posam para a “foto de família” de líderes iguais entre iguais, o fazem quando os grandes já tudo decidiram no jogo dos interesses, assim gerindo uma Europa à beira dos Grexit, Brexit e outros exit que a breve trecho deixarão definitivamente de fora os cidadãos, cansados de não se sentirem representados e sujeitos aos apelos a nacionalismos defensivos de que o internacionalismo dos interesses os não defende.

Também na política doméstica assim sucede, num jogo de máscaras que afasta os eleitores dos eleitos, com a mentira e a dissimulação elevados a valor táctico e o cansaço com a democracia a resvalar para a procura de causas de franja que mais não exijam que mero protesto nas redes sociais ou aglutinados em movimentos inorgânicos.

Este o mundo em que vivemos, de rebeldes sem causa por causa de mavericks e demagogos que descobriram o poder mágico da mentira como maneira de chegar ao Poder e em completo desnorte ideológico e doutrinário, e de ilusionistas manipuladores que transformaram o slogan em doutrina, o vómito em discurso e a imagem virtual em realidade. Nunca a informação circulou tanto e no entanto nunca a cegueira foi tão grande, todos erraticamente deambulando num mundo perdido, como na obra de Saramago, sem encontrar o fogo no topo da caverna, como angustiadamente o procuramos desde Platão. Perante a anomia de uns e a taquicardia de outros, continuamos ligados à máquina. Até quando?