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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Sintra: 40 anos de poder local



Depois do 25 de Abril, só a 14 de Junho, toma posse uma Comissão Administrativa, composta por José Alfredo Costa Azevedo (presidente) José Joaquim de Jesus Ferreira, Aristides Campos Fragoso, Lino Paulo, Jorge Pinheiro Xavier, Cortêz Pinto, Álvaro de Carvalho, Manuel Monteiro Vasco, Carlos Quintela, António Manuel Cavalheiro, Manuel Maximiano e Mário Barreira Alves.





É um período conturbado e de mudanças. Em Maio de 1975, procede-se à inumação das cinzas de Ferreira de Castro na serra de Sintra e em Junho desse ano à inauguração a estátua de D. Fernando II no Ramalhão, tributos pelos quais se bateu José Alfredo Costa Azevedo. José Alfredo abandona a Comissão Administrativa em Fevereiro de 1976, agastado, ficando no seu lugar até às primeiras eleições autárquicas, em Dezembro desse ano Cortêz Pinto.



Inicia-se então o período democrático regular, com vereações eleitas por 3 anos, e a partir de 1985, para mandatos de quatro, num total de 11 vereadores (presidente+10).



A12 de Dezembro de 1976, o tenente-coronel Júlio Baptista dos Santos  foi eleito primeiro presidente da Câmara depois do 25 de Abril, e Maria Barroso presidente da Assembleia Municipal(depois substituída por José Valério Vicente). PS-33285 (39,64%) 6; FEPU-20911 (24,90%) 3; PPD/PSD-11093(13,21%) 1; CDS-9164 (10,91%) 1; GDUP’s- 4422 (5,27%)0;MRPP-1266 (1,51%) 0; PCP (ML)- 890(1,06%)0





O PS elege 6 vereadores (Júlio Baptista dos Santos, Rui Fonseca, Sérgio Melo, Alcides Matos, Oliveira Barbosa e Valério Chiolas) a FEPU 3(Lino Paulo, Cortêz Pinto e Mário Alves) o PPD 1(Eduardo Lacerda Tavares) e o CDS 1(Fernandes Figueira).



Nesse período é inaugurada em Mem Martins a cooperativa de ensino A Papoila e o miradouro de Santa Eufémia. Em Setembro de 1977, o Museu Anjos Teixeira. Em 1978, a Academia da Força Aérea na Granja do Marquês.



Em Dezembro de 1979, o despachante alfandegário José Lopes é eleito presidente da CMS pela AD. Nesse início da década de oitenta, Sintra assiste a um crescimento ainda moderado do urbanismo e das zonas urbanas, a par das preocupações com a protecção da serra e o litoral. Politicamente a década é marcada por gestões autárquicas da Aliança Democrática com forte presença da Aliança Povo Unido na gestão da CMS.





AD- 42403 (40,16%) 5; APU-31930 (30,24%) 3; PS-25597 (24,24%) 3; UDP-2974 (2,82%) 0;PCTP/MRPP-718 (0,68%) 0.



Na Câmara presidida por José Lopes são vereadores Lino Paulo, Júlio Baptista dos Santos, Germano Coutinho, Jaime da Mata, Machado de Souza, Mário Alves, Teves Borges, Jaime Alcobia, Frederico Estêvão e José Valério Vicente. Jaime Figueiredo Gonçalves é presidente da Assembleia Municipal. Por esses dias é inaugurada a sede da Associação de Comerciantes de Sintra, na Estefânea, e o polémico Hotel Tivoli, na Vila. Também criada a Área de Paisagem Protegida de Sintra-Cascais e inaugurados a escola primária da Várzea de Sintra, o Museu Ferreira de Castro e a Repartição de Finanças do Cacém, entre outros melhoramentos.



Em Dezembro de 1982, é a vez de Fernando Tavares de Carvalho da AD vencer as eleições autárquicas com 37379 votos, ficando a APU a 1500 votos com 35997. Foram vereadores Lino Paulo, Raúl Curcialeiro, Salvador Correia de Sá, Jaime da Mata, Correia de Andrade, Hermínio dos Santos, Vera Dantas, Fernando Costa, Megre Pires e Felício Loureiro.  Joaquim Bento Sabino preside à Assembleia Municipal.





Tavares de Carvalho cumpre dois mandatos, até Dezembro de 1989, período no qual renasce o Instituto de Sintra, com António Pereira Forjaz como presidente e Francisco Costa presidente da Assembleia Geral, abre a estação dos correios da Portela de Sintra e ocorrem as calamitosas cheias de 1983. A Câmara aprova a primeira fase das urbanizações do Grajal e de Fitares, com projecto inicial de 2000 fogos e é lançada a primeira pedra do Hóquei Clube de Sintra em Monte Santos, inauguradas escolas primárias na Portela de Sintra, Magoito e Lourel. A vida cultural tem algum realce, na década, com o aparecimento do grupo de teatro CIDRA, o I Encontro de Poetas Populares do Concelho de Sintra ou o Congresso Internacional do Romantismo.



AD-37379 (32,96%) 4; APU-35997 (31,74%) 4; PS-34776 (30,66%) 3;UDP-1233 (1,09%) 0; PCTP/MRPP-611 (0,54%) 0.



Em Dezembro de 1985 a AD (PSD/CDS) volta a ganhar as eleições autárquicas, com 32185 votos, sendo Fernando Tavares de Carvalho reconduzido, a APU de Lino Paulo fica a cerca de 700 votos com 31475.



PPD/PSD-32185 (32,27%) 4; APU-31475 (31,56%) 4; PS-21392 (21,45%) 2; PRD-12542 (12,57%) 1; UDP-1103 (1,11%) 0; PCTP/MRPP-454 (0,46%) 0.



O brigadeiro Machado de Souza é eleito presidente da Assembleia Municipal de Sintra. A Rádio Ocidente inicia emissões, é criado o GRAUS com vista à recuperação do centro histórico de Sintra, nasce a CHESMAS -Cooperativa de Habitação Económica, e o teatro  Chão de Oliva, impulsionado por João Melo Alvim e Maria João Fontaínhas. Decorrem as I Jornadas de Teatro de Sintra, participando grupos como Os Filhos do Povo, de Montelavar, o Teatro da Sociedade, de Sintra, Masgiruz, de Queluz e outros, e nasce a Orquestra Regional de Colares, sob inspiração de David Tomás e Fernando Moreira.



Em 1988 Algueirão-Mem Martins é elevada a vila e é criado o Instituto D. Fernando II. A Assembleia da República aprova a criação da freguesia de Pêro Pinheiro e Sintra gemina-se com a cidade marroquina de El Jadida (antiga Mazagão), abre a Escola Profissional de Recuperação do Património.



Chega Dezembro de 1989 e o industrial e comendador João Francisco Justino é eleito presidente da Câmara como independente pela lista PSD/CDS, com 33% dos votos. A CDU tem 30% e o PS 28%.





PPD/PSD-CDS-PPM-31546 (33,07%) 4; PCP/PEV-28686 (30,07%) 4; PS-26870 (28,17%) 3; PRD-1912 (2,00%) 0; PCTP/MRPP-1211 (1,27%) 0; PPM-793 (0,83%)0; MDP/CDE-459(0,48%) 0;FER-143(0,15%) 0.



Da nova Câmara fazem parte Rui Silva, Ferreira dos Anjos, João Carlos Cifuentes, Lino Paulo, Jaime da Mata, Felício Loureiro, Vera Dantas, Correia de Andrade, Álvaro de Carvalho e Pinto Simões. Rómulo Ribeiro é presidente da Assembleia Municipal. Decorre a I Trienal de Arquitectura de Sintra, inaugura-se o novo relvado do Sintrense, mas ao longo do ano de 1990 degrada-se a relação entre o presidente Justino e o vereador do CDS Ferreira dos Anjos, originando sindicâncias à Câmara de Sintra, até que em Outubro desse ano o PSD lhe retira o apoio político. Abre o mercado de Mem Martins e surge a cooperativa cultural Veredas. Depois dum período conturbado João Justino perde o mandato no Tribunal Administrativo, sendo substituído em 1992 pelo vice-presidente Rui Silva, do PSD, que completa o mandato, no meio de alguma turbulência política.





De 1994 e até 2001 (2 mandatos) ocupa a presidência a socialista Edite Estrela, num período em que Sintra sobe a Património Mundial da Humanidade, se conclui o IC-19, abrem o Centro Cultural Olga de Cadaval e o Museu de Arte Moderna, a Câmara adquire a Quinta da Regaleira e é criado o Parque Natural de Sintra-Cascais. Sintra tem agora 20 freguesias e roça os 400.000 habitantes.





São vereadores nesse período Álvaro de Carvalho, Herculano Pombo, Pinto Simões, Lino Paulo, Estrela Ribeiro, Viegas Palma, Fausto Caiado, Matos Manso, Paula Alves, Rui Pereira, Baptista Alves entre outros. Fernando Reino e Jorge Trigo presidem à Assembleia Municipal.



Resultados de 1993: PS:43959(34,63%) 4; PCP/PEV-36592(28,83%) 4; PPD/PSD-34298 (27,02%) 3; CDS-PP-4668 (3,68%) 0; MPT-1463 (1,15%) 0; PSN-989 (0,78%) 0; PCTP/MRPP-709 (0,56%) 0



Resultados de 1997-PS-60166 (48,59%) 6; PCP/PEV-28682 (23,16%) 3; PPD/PSD-23247 (18,77%) 2;CDS-PP-3820 (3,09%) 0; PCTP/MRPP-1620 (1,31%)0; PSR-677(0,55%) 0; UDP-639 (0,52%) 0



Em Janeiro de 2002 o social-democrata Fernando Seara vence as eleições, ocupando o lugar por três vezes, com mandato até  2013.São vereadores neste período Marco Almeida, Luís Patrício, Lino Ramos, Ana Duarte, Paula Simões, Cardoso Martins,Luís Duque, Baptista Alves, Guadalupe Simões, João Soares, Ana Gomes, Rui Pereira, Domingos Quintas, Eduardo Quinta-Nova e Ana Queirós do Vale. Ribeiro e Castro e Ângelo Correia são presidentes da Assembleia Municipal. Neste período assistiu-se à transferência para a câmara de muitas competências na área da educação, sendo a prioridade orçamental a acção social, numa altura em que Sintra se encontra a à beira de destronar Lisboa como primeiro concelho do país, um dos mais jovens e multiculturais. Sintra adere à Aliança das Paisagens Culturais e surge a Parques de Sintra-Monte da Lua como gestora da área do património mundial, inaugurou-se o Centro de Ciência Viva, a Casa Mantero e o novo Tribunal, o Museu de História Natural e a Casa de Cultura de Mira Sintra.





Resultados de 2001-PPD/PSD.CDS-PP-49126 (39,32%) 5; PS-45470 (36,39%) 4; PCP-PEV-19698 (15,76%) 2; B.E-3362 (2,69%) 0; PCTP/MRPP-1406 (1,13%) 0;MPT-1021 (0,82%) 0



Resultados de 2005-PPD/PSD.CDS-PP.PPM.MPT-59307(43,50%) 6; PS-42195 (30,95%) 4; PCP-PEV-16858 (12,36%) 1; B.E-8909 (6,53%) 0; PCTP/MRPP-1405(1,03%) 0; PH-707 (0,52%) 0



Resultados de 2009-PPD/PSD.CDS-PP.PPM.MPT-62368 (45,29%) 6; PS-46472 (33,75%)4; PCP-PEV-15388 (11,18%) 1; B.E-8168 (5,93%) 0; PCTP/MRPP-1356(0,98%).



Desde 23 de Outubro de 2013 ocupa o lugar o independente Basílio Horta, eleito na lista do Partido Socialista. São vereadores neste mandato: Rui Pereira, Piedade Mendes e Eduardo Quinta Nova (PS) Marco Almeida, Paulo Veríssimo, Paula Simões e José Matias da Silva (Sintrenses com Marco Almeida) Luís Patrício e Paula Neves (PSD) e Pedro Ventura (CDU). Domingos Linhares Quintas preside à Assembleia Municipal. Basílio Horta teve 26,83% dos votos (4 mandatos) Marco Almeida (Independente), candidato preterido pelo PSD, conseguiu reunir 25,42% dos votos (4 mandatos), enquanto a coligação PSD-CDS/PP-MPT de Pedro Pinto, obteve o pior resultado de sempre, com 13,79% dos votos (2 mandatos) e Pedro Ventura (CDU) somou 12,50% dos votos (1 mandato). Sem mandatos ficaram os candidatos, Luís Fazenda (BE) e 4,52% dos votos, seguido de Barbosa de Oliveira (Independente) com 2,23% e António Laires (PCTP-MRPP) com 2,03%. Nuno Azevedo (PAN) somou 1,93% dos votos, enquanto Nuno da Câmara Pereira (PND) obteve 1,03% e José Lucena Pinto (PNR) obteve 0,61%.








quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A Web Summit e Sintra





Deve ser um objectivo estratégico a proximidade com quem investe, centrado nos objectivos de combate ao desemprego, apoio ao desenvolvimento económico e reforço da coesão social, sendo o investimento o motor dinamizador da economia, e as empresas centrais na criação de emprego. Em Sintra, além dum Conselho Estratégico Empresarial, que define e orienta estratégias pró-activas de dinamização da economia, foi já criado igualmente um  Gabinete de Apoio Empresarial, que é o interlocutor privilegiado entre os empresários e investidores e os serviços municipais, por um lado, e serviços da Administração Central, por outro, focado na concretização das melhores condições e oportunidades de negócio e investimento em Sintra, e que se pretende que dinamize a economia e promova o emprego, funcionando como um facilitador dos processos de licenciamento. Procura ainda desenvolver-se a figura de “gestor de cliente”, cuja função será de intermediar entre as empresas que queiram investir no concelho e os serviços da autarquia,  apoiando igualmente empresas já instaladas ou futuros investidores.

A StartUp Sintra, criada neste ciclo autárquico, apresentou já programas de pré-aceleração Sintra Start com startups na área das novas tecnologias e assinou um protocolo de parceria com a Microsoft Portugal, e prevê a disponibilização de funcionalidades de contexto tecnológico, assim como apoio especializado e aconselhamento técnico. As startups já seleccionadas pelo conselho de mentores integraram o programa Sintra Start, com a duração de 3 meses, que funcionou como um ecossistema de incubação para as ajudar a encontrar um modelo de negócio e acelerar o desenvolvimento dos projectos.Foi importante, e uma medida visionária e pioneira.

Devem os poderes central e local estar disponíveis para fazer contratos de investimento, arranjar terrenos e viabilizar isenções de impostos temporárias, estimular serviços que permitam aos empresários a pesquisa de locais de interesse industrial e logístico, e ser assim verdadeiros parceiros de desenvolvimento.
O concelho de Sintra gera cerca de 4% do nosso PIB, tem uma forte influência na criação de emprego e tem uma forte influência nas exportações fundamentalmente com empresas sofisticadas, e os empresários deste concelho estão na primeira linha da recuperação económica nacional. Depois de um tempo negativo, e depois de tanto empobrecimento, é altura de  reaver a esperança, e isso significa apostar num crescimento sustentado e que possa beneficiar a população.Exemplo disso é o cluster das rochas ornamentais, por exemplo, e a potenciação da web na sua comercialização e promoção.

Sintra é um concelho de jovens, com um potencial enorme na área tecnológica, e há todo o interesse em que os mesmos aproveitem as lições e partilha das experiências que a Web Summit trará. Se há alguns anos o objectivo era tirar um curso e trabalhar numa grande empresa, hoje em dia há cada vez há mais jovens a sair das faculdades com o objectivo de criar a sua empresa, muitas vezes de base tecnológica e que possa funcionar sem fronteiras físicas. E as novas realidades das incubadoras são o espaço ideal para propiciar esse desígnio, com a mentorização de profissionais experientes que tenham já feito este percurso e que possam ajudar a lançar novos projectos. Estão reunidas condições de tempo e de modo para dar seguimento a um trabalho consistente. Há, é certo, dificuldades, criam-se os produtos tecnológicos e depois há que procurar o investimento, e acontece em Portugal não existir ainda uma tradição de seed investment. Esse espaço deveria ser ocupado pelos designados business angels, mas acontece que estes, quando surgem, acabam por ter um comportamento defensivo, e actuam como fornecedores de capital de risco, apostando ainda pouco em empresas que estejam a dar os primeiros passos na área da tecnologia e preferindo empresas com provas dadas e que estejam já a ter rendimentos, ou seja, num modelo de capital de risco e não de business angels.

Há muito a fazer, contornar problemas como a carga fiscal, a dificuldade de acesso ao crédito, a falta de programas de modernização industrial e de formação profissional, e para tanto há que dar o melhor aproveitamento aos fundos comunitários, por exemplo.

As startups podem criar uma dinâmica saudável, com uma perspectiva de organização e gestão inovadoras, e o empreendedorismo é muito importante, até porque muita gente no pico da crise teve de sair da sua zona de conforto e criar o seu posto de trabalho ou a sua empresa para encontrar uma nova oportunidade.
O clima criado com um evento como a Web Summit pode ser importante e refundador para o tecido empresarial de Sintra e para os seus criadores e criativos mais novos, permitindo ajudar a pensar smart cities assentes nas industrias criativas e num novo paradigma de economia e de organização do trabalho. Esperemos com entusiasmo que os ensinamentos e sementes sejam reais e propulsivos duma nova atitude e não só  turismo para nerds e geeks a banhar-se ao sol do Parque das Nações ou das praias de Sintra e da Ericeira.Por mim, estou esperançado, e cheio de saudades do futuro.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Classificar o Alto da Vigia



Encontra-se em fase de classificação o monumento arqueológico do Alto da Vigia, na Praia Grande, o que só peca por tardio, dada a importância do local e a crescente descoberta de novos vestígios e pistas para a compreensão dum passado multicultural e ecuménico desta Sintra ponte de culturas.

Descoberto em 1505 por Valentim Fernandes, tipógrafo de Lisboa, o conjunto de dezasseis colunas depois descrito por Francisco de Holanda em 1571, era um círculo cheio de cipos e memórias dos imperadores romanos sobre um outeiro junto ao mar, datado do século I, e tido como um arqueossítio dedicado ao imperador Tibério, nos quais recorrentemente se encontram referências ao Sol e à Lua. A partir de 2008, os estudos locais tiveram um impulso determinante com as investigações de Patrícia Jordão e Alexandre Gonçalves, que, integrando uma equipa do Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas estudaram o local, dando a conhecer ter aí também coincidido estruturas islâmicas medievais e um ribat, convento fortificado para defesa do território.

A classificação do local será importante pois para permitir a criação de um campus de investigação e de mais um núcleo de estudo da rica história dos povos do promontório da lua.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Cultura, Participação e Pókemons



Uma das virtudes da democratização dos meios de comunicação possibilitada pela blogosfera e pelas redes sociais é a de que a todos se tornou possível opinar sobre tudo o que ocorre no espaço público, o que, sendo uma conquista da Sociedade Aberta e uma virtude, traz consigo também a possibilidade diletante de tudo com a maior displicência criticar e atacar, sem que nenhum contributo positivo daí resulte (já sem falar da inércia em se envolver na elaboração de projectos e sua consecução, a tudo preferindo a frisa cáustica e a certeza de, ao não se envolver, fugir ao escrutínio dos outros).
Ser um operário da Cultura (em todas as suas vertentes, e não só as ditas eruditas) implica estar não só na concepção e no nascer das ideias, mas também na captação da comunidade para causas colectivas, no trabalho associativo que tanto pode passar por conceber um projecto ou uma iniciativa mas também contribuir para a mobilização dos demais, colar o cartaz, mandar o mail, arrumar as cadeiras ou vender a bifana. E essa é uma tarefa que muitos gurus da nossa praça escamoteiam, pensando que dar ideias para iniciativas é suficiente e que alguma empresa de catering ou batalhão de funcionários fará o trabalho de sapa. E depois, quando as coisas pela sua natureza tiverem dificuldade em alcançar um certo patamar ou revelem as lacunas próprias de quem muitas vezes tem de agir sem verba ou voluntários, lá vêm as vozes ululantes dos velhos (e novos) do Restelo, questionando as faltas mas nunca elogiando o que apesar de tudo se conseguiu, ou oferecendo contributo, não poucas vezes invocando a "indisponibilidade" naquele dia, um parente distante doente ou um inesperado compromisso noutro sítio.Mas sempre prontos a receber os "louros" e a ficar na foto quando o mérito é reconhecido ou a associação a certas imagens se mostrar oportuna.
Longe vão os tempos dos carolas das associações, do teatro amador ou dos saraus de poesia, e razão tem José Gil: tornámo-nos meros consumidores de produtos ditos culturais, muitas vezes não inscrevemos opinião que não seja mimetizando a opinião publicada vendida como  própria, ao palco onde se pode ser artista mas também electricista preferindo o confortável camarote das vaidades, em busca do aplauso fácil, mas raramente dando a cara pelo insucesso ou na hora das dificuldades.Deixem de caçar Pókemons e mexam-se c'um raio!

terça-feira, 6 de setembro de 2016

A Visita do Diabo



Nos 50 anos do incêndio da serra de Sintra, uma "estória" do meu livro "Histórias com Sintra Dentro"
 
6 de Setembro de 1966, Sintra era notícia  na imprensa nacional e estrangeira, violento fogo lavrava com intensidade brutal na Penha Longa, Lagoa Azul e nos Capuchos, favorecida por altas temperaturas e constantes mudanças do vento. Seteais, Monserrate, a Pena e até S. Pedro, estavam em risco, e todos os corpos de bombeiros do distrito de Lisboa mobilizados, aos quais se juntaram homens vindos das Caldas, Elvas e Leiria, militares e civis, num total de quatro mil. Sitiada, Sintra era pasto de chamas assassinas, e a vila transformada em quartel para uma batalha que durou seis dias, lançando cinza e fumo a quilómetros, sob um clarão enorme e infernal.
Por esses dias, Luís fazia a tropa em Queluz, repartida entre serviços rotineiros e a angústia por uma chamada para o Ultramar. Aos vinte anos, e noivo da Angelina, a oficina de torneiro do tio haveria de chegar para começo de vida, se tudo corresse bem, uma casa em Queluz estava já debaixo de olho. O incêndio apanhou-o no quartel, o Regimento de Artilharia Anti-Aérea Fixa de Queluz, onde durante toda a manhã do dia 6 se escutaram as sirenes. A Emissora relatava danos na vertente de Cascais, mas por toda a serra os focos se espalhavam, incontrolados, os populares, com ramos, impotentes faziam o que podiam. Preparava-se para almoçar quando o comandante de batalhão mandou formar na parada, era preciso acorrer ao fogo, todos os meios estavam a ser mobilizados. Reunidos em viaturas, saíram a dar apoio. Luís, com mais alguns homens, foi enviado para perto da Peninha, comandados por um tenente inseguro sobre onde atacar e quando. Os comandantes dos voluntários dividiam-se sobre a frente prioritária. Apagado num lado, por viaturas em idade de reforma, reacendia logo noutro, zonas antes cerradas eram clareiras incandescentes. Envolta num braseiro, a Tapada do Mouco já pouco tinha de verde. O Antunes e o Fernandes, do pelotão de Luís, rudes, e habituados à mata, ajudavam a dar luta, inglória porém, Lúcifer parecia ter-se mudado para Sintra, levando o inferno até lá. Nessa noite, pernoitaram na serra, poucas e inseguras horas, senhoras do Penedo alcançaram leite, e pão com presunto. Passando no local, um jornalista dizia ao major que se falava em decretar o estado de sítio, e mandar vir homens de Santa Margarida, tais as proporções que o fogo tomara.
Durante todo o dia 7, exaustos e sem coordenação, Luís e os camaradas, quais baratas tontas, acorreram aonde o tenente ordenava, a chuva de Setembro, que tão necessária era, tardava em aparecer. Segundo os comandos, cinquenta quilómetros estariam sob pasto das chamas, vestígios na Lagoa Azul indiciavam origem criminosa. O Antunes transpirava, de galho na mão, asfixiados pelo fumo, dois cabos tiveram de ser assistidos, e voltar para o quartel. Luís fazia o que podia, pensando quando tudo terminaria. Todo o dia a serra ardeu. Chegada a noite, o clarão laranja do apocalipse não dava tréguas, persistente, o fogo levava a melhor. Motobombas dos Lisbonenses passaram por eles, em correria, reposta a água, concentraram-se num local elevado, mas perigoso.
Temerário, o tenente mandou avançar para o Alto do Monge. Tentaria um corta-fogo, e aberta uma frente, combater fogo com fogo, a estratégia pareceu adequada. Todos os homens se colocaram no epicentro do incêndio, bombeiros e civis protegiam as povoações. Aos poucos, perdiam-se cem anos de floresta, visto de Cascais, era o juízo final. A dada altura, o Antunes deu um grito,a mudança do vento criara nova frente ali perto. Luís ficou apreensivo. Fogo pela frente e pelos lados, uma coluna de fumo por trás, o tenente ordenava que se mexessem, ele próprio tentando posicionar-se. Mais vinte e um homens estavam perto da anta do Monge, por ironia chamado Cerro da Queimada. Aumentando o calor e o fumo, deixaram de se ver uns aos outros, gritos lancinantes abafados pelo fogo invasivo anunciavam o Inferno colhendo novas vítimas, impotentes anjos naquele Setembro negro. Afogueado, Luís viu-se perdido, já não vendo nem ouvindo os camaradas. De relance, pensou em Angelina, olhou o céu, vermelho, e absorto sentiu-se levar, colhido e febril. Possuída, a serra de Sintra ganhava mártires, e os homens, heróis. Até que Lúcifer, desperto, de novo regresse, inclemente, faminto de carne esturricada. Regressará?

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Quo Vadis, Europa?





Na Quinta da Ribafria, a partir de hoje, questões como a do futuro da Europa vão ser colocadas no âmbito dum espectáculo concebido e escrito por Miguel Real e Filomena Oliveira, conceituados escritores e dramaturgos, e pessoas queridas da comunidade cultural sintrense. E o tema é não só actual, como premente.
 A Europa está moribunda e em fase de estertor, como os motores falseados da Volkswagen.
Em 1953, em Hamburgo, Thomas Mann defendeu que devemos ambicionar ter uma Alemanha europeia e não uma Europa alemã. Vinte e cinco depois da unificação, sobre o papel da Alemanha na Europa e no mundo, ninguém se preocupou, com os alemães ocupados nessa altura consigo próprios e com a integração económica dos novos Estados federados do Leste, tanto que no final dos anos noventa a Alemanha era tida como um caso problemático na Europa, do qual se haveria de cuidar da questão do endividamento estatal, com níveis de desenvolvimento abissais entre o Leste e o Oeste, e canalizando muitos fundos (grande parte deles comunitários) para nivelar as economias. Era impensável então que a Alemanha um dia pudesse apresentar-se como modelo nas questões de política fiscal e do saneamento orçamental. E com a introdução do euro, pareceu que a Alemanha tinha aberto mão do seu mais importante instrumento de poder frente às outras economias europeias, o marco alemão.
O problema é que a Europa mudou e, na medida em que mais países entraram na União Europeia, o projecto dos Estados Unidos da Europa distanciou-se cada vez mais. O que parecia possível na Europa dos Seis, tornou-se impossível com as ampliações para Sul, Norte e Leste.
A crise do euro posterior a 2008 tornou visíveis as contradições da Europa. Querendo-se ou não, a Alemanha é, com os seus recursos e capacidades, o único país que pode manter a coesão da Europa heterogénea e ameaçada por forças centrífugas. Na Europa, tem a possibilidade de manter a coesão na União Europeia, e no mundo, tem de cuidar para que a economia europeia não seja marginalizada através da ascensão da Ásia. Mas não seria isto, na verdade, uma tarefa das instituições europeias? Não foram tais instituições, principalmente o Parlamento, fortalecidas nos últimos anos, para assumir essas tarefas, nomeadamente depois do Tratado de Lisboa? O que resultou foi exactamente o contrário. Valorizado anteriormente, o Parlamento Europeu não desempenhou praticamente nenhum papel no apogeu da crise do euro, ficando as decisões a cargo das reuniões intergovernamentais, e a "cabeça" da UE dividida entre a Comissão e o Conselho Europeu. Algo semelhante ocorre também na questão de saber se a Grã-Bretanha permanecerá como membro da UE ou se deixará a comunidade, o que provavelmente será negociado quando chegar a hora directamente entre Berlim e Londres. Tudo isto, bem como a recente aprovação do Brexit pelos britânicos, contraria profundamente o projecto europeu. Uma coisa parece ser certa: estão a ser as crises que indicam se as instituições são robustas ou não. E nas crises actuais, de que ressaltam os problemas financeiros da Grécia e a tendência de saída da Grã-Bretanha ou a crise dos refugiados sírios e magrebinos, as instituições europeias mostram-se incapazes e dissonantes. Talvez porque elas foram criadas a pensar no “funcionamento normal” da Europa enquanto não surgissem grandes problemas e as questões pudessem ser resolvidas em consenso. Como não tem vindo a ser esse o caso, e o eixo franco- alemão está debilitado, o poder deslocou-se e os governos nacionais voltaram a desempenhar o papel principal, com destaque para a Alemanha.
A Alemanha contribui sozinha com mais de um quarto do poderio económico na zona euro, e são seus os riscos maiores nos programas de ajuda aos países endividados do Sul da Europa. Com isto, coube-lhe a posição decisiva na fixação das condições para a ajuda, achando que pelo facto de a austeridade ter funcionado na Alemanha nos anos noventa, tal pode ser copiado a papel químico para países com outros estádios de desenvolvimento e outras políticas e práticas fiscais, orçamentais ou bancárias. Essa falta de tolerância e compreensão está pois a levar cada vez mais a uma Europa alemã longe da Alemanha europeia de Adenauer, Willy Brandt ou Helmut Kohl. É uma Europa em cadeira de rodas, e cada vez mais comatosa.