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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Quo Vadis, Europa?





Na Quinta da Ribafria, a partir de hoje, questões como a do futuro da Europa vão ser colocadas no âmbito dum espectáculo concebido e escrito por Miguel Real e Filomena Oliveira, conceituados escritores e dramaturgos, e pessoas queridas da comunidade cultural sintrense. E o tema é não só actual, como premente.
 A Europa está moribunda e em fase de estertor, como os motores falseados da Volkswagen.
Em 1953, em Hamburgo, Thomas Mann defendeu que devemos ambicionar ter uma Alemanha europeia e não uma Europa alemã. Vinte e cinco depois da unificação, sobre o papel da Alemanha na Europa e no mundo, ninguém se preocupou, com os alemães ocupados nessa altura consigo próprios e com a integração económica dos novos Estados federados do Leste, tanto que no final dos anos noventa a Alemanha era tida como um caso problemático na Europa, do qual se haveria de cuidar da questão do endividamento estatal, com níveis de desenvolvimento abissais entre o Leste e o Oeste, e canalizando muitos fundos (grande parte deles comunitários) para nivelar as economias. Era impensável então que a Alemanha um dia pudesse apresentar-se como modelo nas questões de política fiscal e do saneamento orçamental. E com a introdução do euro, pareceu que a Alemanha tinha aberto mão do seu mais importante instrumento de poder frente às outras economias europeias, o marco alemão.
O problema é que a Europa mudou e, na medida em que mais países entraram na União Europeia, o projecto dos Estados Unidos da Europa distanciou-se cada vez mais. O que parecia possível na Europa dos Seis, tornou-se impossível com as ampliações para Sul, Norte e Leste.
A crise do euro posterior a 2008 tornou visíveis as contradições da Europa. Querendo-se ou não, a Alemanha é, com os seus recursos e capacidades, o único país que pode manter a coesão da Europa heterogénea e ameaçada por forças centrífugas. Na Europa, tem a possibilidade de manter a coesão na União Europeia, e no mundo, tem de cuidar para que a economia europeia não seja marginalizada através da ascensão da Ásia. Mas não seria isto, na verdade, uma tarefa das instituições europeias? Não foram tais instituições, principalmente o Parlamento, fortalecidas nos últimos anos, para assumir essas tarefas, nomeadamente depois do Tratado de Lisboa? O que resultou foi exactamente o contrário. Valorizado anteriormente, o Parlamento Europeu não desempenhou praticamente nenhum papel no apogeu da crise do euro, ficando as decisões a cargo das reuniões intergovernamentais, e a "cabeça" da UE dividida entre a Comissão e o Conselho Europeu. Algo semelhante ocorre também na questão de saber se a Grã-Bretanha permanecerá como membro da UE ou se deixará a comunidade, o que provavelmente será negociado quando chegar a hora directamente entre Berlim e Londres. Tudo isto, bem como a recente aprovação do Brexit pelos britânicos, contraria profundamente o projecto europeu. Uma coisa parece ser certa: estão a ser as crises que indicam se as instituições são robustas ou não. E nas crises actuais, de que ressaltam os problemas financeiros da Grécia e a tendência de saída da Grã-Bretanha ou a crise dos refugiados sírios e magrebinos, as instituições europeias mostram-se incapazes e dissonantes. Talvez porque elas foram criadas a pensar no “funcionamento normal” da Europa enquanto não surgissem grandes problemas e as questões pudessem ser resolvidas em consenso. Como não tem vindo a ser esse o caso, e o eixo franco- alemão está debilitado, o poder deslocou-se e os governos nacionais voltaram a desempenhar o papel principal, com destaque para a Alemanha.
A Alemanha contribui sozinha com mais de um quarto do poderio económico na zona euro, e são seus os riscos maiores nos programas de ajuda aos países endividados do Sul da Europa. Com isto, coube-lhe a posição decisiva na fixação das condições para a ajuda, achando que pelo facto de a austeridade ter funcionado na Alemanha nos anos noventa, tal pode ser copiado a papel químico para países com outros estádios de desenvolvimento e outras políticas e práticas fiscais, orçamentais ou bancárias. Essa falta de tolerância e compreensão está pois a levar cada vez mais a uma Europa alemã longe da Alemanha europeia de Adenauer, Willy Brandt ou Helmut Kohl. É uma Europa em cadeira de rodas, e cada vez mais comatosa.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Paisagem Cultural, envolvimento e participação

Na prossecução da defesa de Sintra e da qualidade de(vida) de um espaço singular, há que continuar um trabalho efectivo, juntando decisores, cidadãos, associações cívicas, técnicos e moradores. Só se pode acarinhar uma ideia como a de Paisagem Cultural se esta assentar em diálogo, e for perspectivada como instrumento de desenvolvimento para quem habita no seu seio, e não como o eucalipto que tudo seca e põe a comunidade contra si. Não há paisagem cultural sem pessoas, e não há gestão bem sucedida sem consensos.
Exige-se cada vez mais cumplicidade e compromisso dos poderes, do mundo científico e da sociedade civil na melhoria da nossa Paisagem Cultural, na garantia da sua sustentabilidade, sendo a participação cívica das comunidades locais elemento fundamental para um desenvolvimento das áreas classificadas, envolvendo em permanência os stakeholders e os parceiros da sociedade civil, na construção de uma Paisagem Cultural pró-activa, algo que deve igualmente enformar o caldo de cultura que define a forma como nos dias de hoje, de uma sociedade mediatizada e mais atenta, os cidadãos percepcionam a gestão do "seu" espaço público.


Vinte anos depois da classificação como Paisagem Cultural da Humanidade, com um quadro institucional e financeiro definido e a virtuosa e possível recuperação de muito património em risco, apesar do muito feito, há ainda que trabalhar para melhorar o quadro real e acelerar as decisões. Para tanto, foi pela CMS aprovada a criação da  Área de Reabilitação Urbana, com cerca de 180 hectares, bem como um Gabinete do Património Mundial.  Sintra integra igualmente, desde há alguns anos, a Aliança das Paisagens Culturais, uma rede internacional que procura preservar os espaços declarados Património da Humanidade pela UNESCO, e que são hoje mais de 60.  Ora, em 2008, a Aliança produziu a Declaração de Aranjuez, na qual os sítios classificados expuseram as suas inquietações e analisaram a necessidade de compatibilizar a preservação dos lugares com um adequado desenvolvimento económico e social das terras e gentes em seu torno.
Ser Património da Humanidade implica a cumplicidade e o compromisso de todos, autarcas, comunidade científica, sociedade civil e stakeholders, na melhoria da Paisagem Cultural e na garantia da sua sustentabilidade, e apela à efectiva participação cívica das comunidades locais, enquanto elemento fundamental para o desenvolvimento sustentável das áreas classificadas. Traduz este anseio o reconhecimento e a verificação da necessidade duma cultura democrática de intervenção, participação, e transparência na gestão da Paisagem Cultural. Há que promover de forma reiterada e efectiva a aproximação entre os interessados na zona classificada através do debate de ideias sobre a gestão e a reabilitação do património e envolver a sociedade civil na busca de soluções consensuais, adequadas, e positivas para o nosso vasto território. 
O acompanhamento das intervenções de entidades públicas e privadas na área de protecção da Paisagem Cultural, a avaliação  das ameaças permanentes e riscos da zona classificada, e sua monitorização, são deveres inalienáveis de quem gere em nome do interesse público, mas também direitos de quem é gerido e não se quer alhear da vida da "res publica".
Desde 2006 que a UNESCO considera não existirem motivos para inscrever Sintra na lista de património mundial em perigo, dada a recuperação desde então ocorrida na zona "inscrita" (parte da serra e da vila). Há, contudo, que continuar a zelar para que se evite o risco dum crescimento urbanístico não planeado nas zonas "tampão" (da serra até ao mar) e de "transição" (que inclui a área do Parque Natural Sintra-Cascais).  
O caminho passará por aos poucos ir modelando uma entidade forte e decisiva que supervisione toda a designada área da Paisagem Cultural de Sintra classificada como Património da Humanidade, a ela estendendo as competências de fiscalização e licenciamento agora distribuídas pela autarquia de Sintra e pelo Parque Natural de Sintra-Cascais, entidades que se atravessam em muitas e desnecessárias situações, o que poderia passar também pela redefinição do objecto estatutário dessa empresa, da redistribuição de poderes de influência entre os actuais intervenientes, incluindo até, e pela consignação da Área de Paisagem Cultural como uma área recortada no PDM de Sintra.  
À Parques de Sintra-Monte da Lua compete para já, no actual quadro, não só a boa gestão e optimização dos recursos que lhe ficam adstritos, como a prossecução de uma política de investimentos e obtenção de receitas que conjuguem as necessidades operacionais com o direito à fruição e gozo dos mesmos espaços e equipamentos. Mas de forma moderada, e sem derivas economicistas, pois se o óptimo é inimigo do bom, essencial se torna não esquecer que sem visitantes não há receitas, e sem receitas não há recuperação do património, mas com demasiados visitantes perde-se em qualidade, em imagem e na afirmação da marca Sintra, que só perderá na vertente dum turismo de excursionistas de um dia que tudo afunilam e pouco vêm ou compram.  
A UNESCO vem afirmando que a pressão turística tem sido controlada, com a diversificação de locais e centros de interesse, e novos circuitos e melhor distribuição dos visitantes, tendo sugerido igualmente a recuperação de outros edifícios dentro do parque da Pena, bem como a criação de uma escola para jardineiros ou um museu explicativo dos sistemas de irrigação da serra de Sintra. Mas tem também recomendado que as comunidades locais sejam mais envolvidas na gestão da área classificada, e que os proprietários e as associações locais -os designados stakeholders - sejam consultados com regularidade. 
A gestão dos parques e jardins requer o apoio de escolas de conservação especializadas similares às que já existem para o património edificado, com trabalho de investigação. Houve porém já uma mudança de paradigma na gestão da "jóia da coroa", com a filosofia de "abrir para obras" acompanhando as recuperações em curso, o que é internacionalmente aconselhado, já se tendo verificado no caso do Chalé da Condessa ou no castelo dos Mouros, tendo o diálogo com a sociedade civil e os stakeholders dado passos importantes. Mas tudo é um work in progress, e permanecem por resolver questões importantes, como o do acesso de visitantes, dificultado por cada vez maiores constrangimentos no trânsito e estacionamento, sobretudo os que se deslocam em carro ou autocarro, ou o elevado custo dos bilhetes para visitar os monumentos.  E aí, permanecemos em alerta laranja, e possivelmente só soluções radicais poderão colmatar um problema que não terá solução com paliativos enquanto as low cost para Lisboa e os turistas forem aumentando, o trânsito até ao Centro Histórico não for severamente desaconselhado, e o estacionamento com deslocações confortáveis e regulares para os pontos de interesse não seja de vez adoptado. O óptimo é inimigo do bom, procuremos pelo menos o razoável.

domingo, 7 de agosto de 2016

Astérix e Obelix em Cynthia



      
Ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália estava ocupada pelos romanos. Toda? Não! Uma pequena aldeia povoada por irredutíveis gauleses resistia ao invasor. E a vida não era nada fácil para as guarnições romanas nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum. Num recanto da Armórica, um conjunto de aldeões com a ajuda de uma poção mágica que lhes dava uma força sobre-humana, preparada pelo druida Panoramix, resistia ainda, cinco anos após a rendição de Vercingetórix em Alésia. Naquela tarde, Astérix e Obélix caçavam tranquilamente javalis quando o cão Ideafix detectou um forasteiro entre os arbustos, ladrando-lhe, nervoso:


-O que é Ideafix?- Obélix já antevia algum exercício para abrir o apetite- são romanos, são, são?


Coberto de folhas, um pequeno homem de bigode escuro e cabelo negro, com um ar frágil, pediu que não lhe fizessem mal, vinha de longe só para lhes falar.


-Não vos assusteis, amigos, sou António, um lusitano, e venho para vos pedir ajuda!


-Lusitano?- Obélix coçou a cabeça. Isso não é o mesmo que romano, por Toutátis?


-Não, Obélix, não digas disparates, lusitanos são um povo ao sul da Hispânia, comem peixe e divertem-se com um jogo com bola. Os romanos estão sempre a falar num famoso Ronaldo, já esteve em Roma, no Coliseu!


-Hummm… e comem javali?


O lusitano aproveitou para se meter à graça:


-Sim, sim, na nossa província de Bairrada, ocupada por guerreiros suevos, e noutras. É uma especialidade, o nosso javali!


Mais descansado, Asterix levou o lusitano até à aldeia. Em casa, o chefe, Abraracourcix levantava a mesa, desgraçadamente desde que introduzira a paridade na aldeia tinha tarefas domésticas para executar três vezes por semana. Recebido o frágil visitante este explicou ao que ia:


-Caros amigos, o meu chefe, o grande Rubio, edil de Cynthia, nas costas da Lusitânia, enfrenta um ataque de piratas- há quem lhes chame turistas- provindos das estepes teutónicas, que, munidos de sticks que capturaram imagens nossas por meios mágicos nos querem levar à ruína. Com eles apareceram umas geringonças chamadas tuktuk, com que invadem as ruas da nossa aldeia, arengando nas suas línguas bárbaras, e como ouvimos falar na vossa poção mágica, como povo amigo, pedíamos o vosso precioso auxílio. O nosso chefe manda dizer que se conseguirem acabar com estes ataques piratas vos oferece férias a todos nas nossas aldeias, plenas de sol e areia, e onde podem provar as nossas queijadas, que são uma autêntica poção!


Assurancetourix, o bardo, que entrava na altura, apanhou o fim da conversa, e logo se ofereceu para ir:


-Costa da Lusitânia? Oh, aí poderei apresentar as minhas novas canções, e ganhar uma lira de ouro, quem sabe…


Astérix mandou-o calar e coçando a cabeça advertiu para as dificuldades:


-Sabes, quem decide é o nosso druida Panoramix. Se ele estiver afim…


Felizmente o druida estava, e ficou eufórico com a ideia, ali poderia recolher mágicas folhas de oliveira e experimentar uma poção que vira no congresso de druidas em Lutécia, algo chamado ramisco, a que atribuíam poderes curativos. Assim sendo, António acompanhado dos gauleses, e também de Assurancetourix, embarcaram com destino à Lusitânia, não sem que Obélix nas costas da Cantábria “saudasse” com uma sessão de ginástica piratas acabados de pilhar um drakkar de bacalhau.


Cynthia pareceu-lhes simpática. Vendedeiras de peixe apregoavam nas ruas, romanos entusiasmados dedicavam-se a um jogo de caça a uns tais Pókemons, máquinas infernais disparavam por todo o lado, como bruxaria de tudo capturando imagens. Empenhado, Panoramix pediu para o levarem ao chefe. No sopé da serra de Cynthia, numa tenda remendada, Rubio, o chefe luso, terminava umas pataniscas. Ao vê-lo, Obelix ficou horrorizado, nem uma perna de javali, que povo mais esquisito era aquele. O chefe ficou contente por os ver e depois de lhes oferecer uma iguaria, um doce com ovos a que chamavam travesseiro, pediu-lhes ajuda para debelar a invasão. Os ataques vinham sobretudo do Norte, onde hordas em low cost, depois de destruírem Esparta e o Peloponeso avançavam agora para a Lusitânia e em particular a costa de Cynthia. César lavava as mãos, ocupado com a valquíria Angela que o provocava a Norte, analisada a situação, Panoramix gizou um plano:


-Faremos assim, nobre Rubio. Amanhã pela manhã, todos os homens com menos de trinta anos farão fila na praça central, eu distribuirei a poção e nas duas horas seguintes todos os pombos correios, estafetas, legiões ou coortes de forasteiros serão eliminados. Ao meu sinal, a liberdade do vosso povo será reposta e podereis em paz voltar aos vossos pratos de bacalhau!


-Óptimo!-Excitado, Rubio mandou avisar os chefes locais, incrédulos, alguns não compareceram, insistindo antes nos poderes duma poção de Reguengos, o jovem Celso prometia trazer um balde, e queria ser o primeiro.


Era longa a fila, no dia seguinte. Obélix ainda tentou infiltrar-se, pondo um chapéu a imitar um pegador de toiros, mas Panoramix fez má cara, caíra no caldeirão em pequeno e não precisava de poção. Acometidos de uma força colossal, os pequenos lusitanos, empolgados, logo se dirigiram à praça por onde entravam as quadrigas e cavalos dos invasores, destruindo um tuktuk gigante que transportava suevos. Um monstro accionado por imagens mágicas, a que chamavam selfies,  ainda foi atiçado, mas, destemidos, os de Cynthia deram luta, ao fim do dia, em Roma,  César que lera os fígados das aves, enfim decretava apoio a Rubio que rejubilava, ufano, enquanto as ruas de Cynthia ficavam livres de quadrigas e dos forasteiros que se atulhavam de cerveja e hidromel. Era a vitória total, nem Mourinho, o bravo guerreiro da Ibéria, lograra chegar tão longe, uma vez mais a poção miraculosa ajudava os homens de Bem. Nessa noite, os de Cynthia ofereceram um festim com danças locais e regadas com um ramisco digno dos Deuses. Já vermelho, Panoramix pedia uma pipa, para levar para a aldeia, a um canto, pendurado duma árvore e amordaçado, Assurancetourix via negada a sua estreia ibérica. Não era o único, porém, a seu lado e guardado por guerreiros lusitanos, dois condutores de tuktuk capturados, pendiam igualmente amordaçados, impedidos de manobrar as tenebrosas máquinas.


Já os gauleses regressavam a casa, novo surto de estrangeiros retomava os ataques a Cynthia. Definitivamente, não havia poção mágica que resolvesse. Os deuses haviam decretado que Cynthia seria assolada, e contra o Olimpo, nem Toutátis, nem os edis, nem os poderosos gauleses podiam. Ainda hoje a praga subsiste, e não há Verão, nem solstício, nem saturnal, em que a invasão desordenada não atinja Cynthia, sob o silvo uivante dum Tritão para os lados da Roca. 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

E o Sporting vai jogar, e Sintra vai saltar...



Quando a Ideia começou a fazer caminho...
 A escritura


Foi na designada mesa K1 do bar Saloon, em Sintra, que um grupo de amigos começou a juntar-se para ver jogar o Sporting, e aí, semana após semana, as devoções tornaram-se amizades e um impulso fundador apossou-se dum punhado de sintrenses que não mais parou até que um espaço foi adquirido, se lançou mãos à obra, para em breve dar à luz do dia a nova casa do Leão em terras de palácios e também de muito verde.

José Alvalade teve o desejo de transformar o Sporting num "grande clube, tão grande como os maiores da Europa". No desejo de abrir caminho numa altura em que o desporto em Portugal, era ainda uma actividade pioneira num estágio de desenvolvimento de características elitistas, os primeiros sportinguistas conseguiram fundar há 110 anos aquele que se tornou no Sporting Clube de Portugal, hoje com mais de 3 milhões de adeptos, 136.000 sócios e um museu com mais de 5000 taças, 18 títulos da Liga, 20 títulos de Campeonato de Portugal /Taça de Portugal e 8 da Supertaça, num total de 46 títulos nacionais). Internacionalmente, o Sporting venceu a Taça dos Vencedores de Taças 1963-64 e foi vice-campeão da Taça UEFA 2004-05 e campeão da Taça Ibérica em 2000.E não se ficará por aqui.

O lema do Sporting é Esforço, Dedicação, Devoção e Glória.

Esforço bem patente na singeleza e abnegação dos voluntários que em pouco mais de 2 meses denodadamente realizaram  a obra que dia 31 abre à família sportinguista, com destaque para os contributos de Daniel Silva, Nuno Silva, João Aguiar, Rui Feixeira, o André e a Patrícia, o João Ribeiro e a Bárbara, o Bernardo, a Saphira, a Tásia, o José Nascimento, o David Cabral ou o João Luís Duarte.

Dedicação expressa em horas de trabalho, sofrimento e entrega por parte de uns “doidos da cabeça” que "não quiseram ficar em casa”, e assim deram horas da sua vida para honrar as cores e o legado de Travassos, Joaquim Agostinho, Damas, Yazalde, Moniz Pereira, Figo ou Carlos Lopes, ícones do Sporting e de Portugal.

Devoção nos cânticos, na fé, na crença e na paixão inexplicável que um estranho sentimento de pertença a todos convoca, despertando amizades improváveis e solidariedades sem contrapartida num imenso altar de verde e branco.

Glória por um passado honroso, um presente com planeamento e um futuro promissor, com condições financeiras, de infraestruras e talentos que garantem um Sporting moderno, pujante, vencedor e sempre na luta.

Curiosamente, também o Sporting Clube de Portugal tem origens em Sintra, mais propriamente em Belas, e no Belas Football Clube, criado em 1902 por iniciativa dos irmãos Francisco e José Maria Gavazzo. Dois anos depois, tendo o Belas Football Clube realizado um único jogo de futebol contra o Sport Lisboa, alguns dos seus sócios fundadores criaram o Campo Grande Football Clube, até que, em 13 de Abril de 1906, durante uma Assembleia Geral, José Alvalade manifestou a intenção de formar um novo clube recorrendo à ajuda financeira de seu avô, o Visconde de Alvalade, Alfredo Augusto das Neves Holtreman, que tutelou a criação do novo emblema e disponibilizou terrenos para o campo de jogos na sua própria quinta, e mais tarde no seu primeiro campo, no Sítio das Mouras, em 1907.

Com a fundação do novo Núcleo de Sintra, um dinâmico grupo de adeptos dispõe-se a levar mais longe e mais alto o espírito e garra do nosso clube, para em conjunto gritar as vitórias, de braço dar ânimo nas derrotas, do sofrimento fazendo força e da unidade fazendo um trunfo, uma arma e um desígnio.

Viva o Sporting Clube de Portugal!

Em baixo, imagens das obras já em fase de acabamentos



domingo, 24 de julho de 2016

O regresso da esperança

Depois de uns meses de "estaleiro", o lento retorno à escrita, num momento de optimismo e ego em alta por todo o país.2016 tem condições para representar um momento de viragem no lodaçal esquizofrénico em que a nossa vida colectiva se transformou nos últimos anos. Faltou a esperança, essa palavra talismã, e faltava mostrar o osso com que, como o cão de Pavlov, de novo haveremos de voltar a ladrar. Para que tal aconteça, há que levantar do sofá, largar o comando da televisão e o asténico isolamento das redes sociais, silencioso espaço para gritar desesperos, buscar cumplicidades e não só para caçar anódinos Pokemons.

Antes de um inesperado Abril, muitos de nós lutaram contra a liberdade raptada, uma guerra anacrónica e por um futuro que por gerações nos foi negado, numa lógica de inevitabilidade por entre saudados costumes de brandura, que escondiam um povo amordaçado mas secular lutador. Um dia, fruto dessa guerra, surda mas germinal, tudo voltou a ser possível, e o Futuro teve rosto, calendário, protagonistas, muitos cães e muitos Pavlovs, ladrou-se e latiu-se, e apareceram ossos, carne, ração. Fez-se a democracia, mudaram-se retratos, discursos, atitudes, e, ao sétimo dia, o povo descansou, contente com a obra feita, e entregou-se à volúpia consumista, ao hedonismo egoísta, à anomia social, de bom selvagem, o indígena ficou tão só selvagem, com casas T3 em Massamá, férias no Algarve ou carro novo cada três anos. Barato, o vil metal abundou, o maná igualmente, triunfantes mas cegos pelo sol, havia-se alcançada a Terra Prometida, depois de anos a errar no deserto depois dos grilhões do faraó. Silencioso, porém, o veneno dos inimigos  fervia no caldeirão, acelerado pelo novo metal da Europa e pelos trinta dinheiros com que a ele nos rendemos, finalmente leais a César, e nas suas teutónicas mas capciosas mãos. Um dia, legiões de cobradores chegaram a cobrar o dízimo, e, qual Sodoma, tudo ruiu então, transformado em sal e às mãos dos que na penumbra manobravam, sabendo da fraqueza dos deslumbrados.

Como na caverna de Platão, onde cegos e aprisionados uivámos a perda e buscámos um rumo, haverá de chegar a luz, anunciando um novo dia. Mas tal não virá de sortilégio do Olimpo, antes imporá a necessária revolta dos escravos, o quebrar das algemas, a união denodada e sem temores. Imporá pôr à prova se os escravos merecem ser um país ou, erráticamente, mero quilombo de deserdados em fuga e com liberdade vigiada.

 Foram dias e anos de desespero e de spleen, chamamentos de Circe e apelos à fuga de Ítaca, para, assustados, sulcar fronteiras, ziguezagueando a vida e trocando voltas ao futuro, dias de sofrimento, exaustão, entre a loucura e a entropia, o estilhaçar de sonhos ou o seu cruel adiamento. É chegado o momento da renovação, do regresso da alva Iemanjá e dum assomo de magia que faça das fraquezas forças, dos rebeldes líderes, das ideias planos e deste rincão desígnio. O grande exército do Futuro, dos que se indignem com consequência, ajam com sabedoria, tracem planos consistentes e de diferença, e que, reconquistada a chama, a reponham na pira sagrada onde se venere a dignidade e perspective um Devir.

Um calendário é uma sucessão de luas e sóis, chuvas e secas, colheitas e gestações. O ciclo que na roda do tempo humano nos  agora, nasceu de um inóspito inverno em que um tentacular inferno capturou as nossas vidas e as manteve longe de Ítaca, num mar encapelado de Circes e Polifemos, ventos gélidos e trovões açoitantes. Mas, ao Inverno sucederá a Primavera, e de novo o Verão. Lento e silencioso, o Futuro prepara o seu caminho.

A esperança sem mobilização, equivale a resignação. Uma solução há apenas: a de sermos militantes cavaleiros da esperança ou inúteis escravos da resignação. Estamos todos  pois convocados  para a sagrada missão de porfiar Futuro e capturar a Luz, para tanto levantando firmes a cintilante espada da dignidade. 
 
Há esperança!