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sábado, 27 de fevereiro de 2016

A poesia do João Afonso:Angústia e Catarse



O João Afonso Aguiar, meu querido amigo e companheiro, lançou o seu segundo livro de poesia em dois anos, “O Tempo da Poesia No Tempo dos Homens”, obra em dois andamentos por onde perpassa uma dolente sinfonia de sentimentos, anseios e emoções.

Dizia Schopenhauer que viver é necessariamente sofrer. Por mais que se tente conferir algum sentido à vida, na verdade, ela não possui sentido ou finalidade alguma, e a própria vontade é um mal. Queremos vencer, desejamos vencer, mas a vontade gera a angústia e a dor e, os mais tenros momentos de prazer, por mais profícuos que possam vir a ser, são apenas intervalos frente à infelicidade. Também Sartre defendeu que a angústia surge no exacto momento em que o homem percebe a sua condenação irrevogável à liberdade, isto é, o homem está condenado a ser livre, posto que sempre haverá uma opção de escolha, e ao perceber tal condenação, sente-se angustiado por saber que é senhor de seu destino.

Escrever é libertar a coisa criada, e deixá-la partir ao seu destino, capturado por leitores nem sempre atentos e turvados pelo momentum do estado de espírito, atento e cúmplice, por vezes, distante e sem partilha dum concreto pathos, por outro.

A poesia do João Afonso, revela-nos em toda a sua nudez as minudências dum ser aflito, mas, mais que aflito consigo mesmo, aflito com este mundo de aflitos, escrevendo para se rebelar perante o Mundo dos Homens, para no fim, nas entrelinhas, deixar no ar um auspicioso sinal de esperança, por muito que todos os poemas estejam capturados por palpitantes desabafos e reflexões, deixando transparecer a beleza de um ser humano profundamente atento e altruísta. É uma viagem espiritual pelas cinzas do Homem-quase, a mim recordando o poema de António Gedeão: 


Inútil definir este animal aflito.

Nem palavras,

nem cinzéis,

nem acordes,

nem pincéis

são gargantas deste grito.

Universo em expansão.

Pincelada de zarcão

desde mais infinito a menos infinito.


Porque “a infelicidade também cansa”.

Um abraço, João!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Da demagogia enquanto valor virtual





O maior paradoxo das sociedades modernas e altamente mediatizadas é que a democracia pode facilmente ser capturada pelo autoritarismo ou prevalecer a sua desvalorização se uma representação de massas de valores ditos democráticos ocupar o espaço público e o espaço da representação política.

Vejamos alguns exemplos. Nos Estados Unidos, em pleno folclore das primárias, o jogo da democracia privilegia o candidato que dela pouco sabe ou pensa poder comprar, o inefável Trump, incrível Hulk da sociedade mediática, prometendo esmagar os vizinhos preguiçosos e o Estado islâmico, seja lá o que isso for na sua testa onde pouco mais cabe que a descabelada cabeleira loura. E os cidadãos espectadores aplaudem, reféns da democracia-ecrã, transformada em reality show de soundbites, mistificações e encenação.

O mesmo se diga da forma como é governada a dita “União” Europeia. A Europa da paz de Schuman e Monet, unida do Atlântico aos Urais, não é mais que uma mera representação de pseudo democracia, dominada pelos poderes erráticos e não eleitos que ao mesmo tempo que posam para a “foto de família” de líderes iguais entre iguais, o fazem quando os grandes já tudo decidiram no jogo dos interesses, assim gerindo uma Europa à beira dos Grexit, Brexit e outros exit que a breve trecho deixarão definitivamente de fora os cidadãos, cansados de não se sentirem representados e sujeitos aos apelos a nacionalismos defensivos de que o internacionalismo dos interesses os não defende.

Também na política doméstica assim sucede, num jogo de máscaras que afasta os eleitores dos eleitos, com a mentira e a dissimulação elevados a valor táctico e o cansaço com a democracia a resvalar para a procura de causas de franja que mais não exijam que mero protesto nas redes sociais ou aglutinados em movimentos inorgânicos.

Este o mundo em que vivemos, de rebeldes sem causa por causa de mavericks e demagogos que descobriram o poder mágico da mentira como maneira de chegar ao Poder e em completo desnorte ideológico e doutrinário, e de ilusionistas manipuladores que transformaram o slogan em doutrina, o vómito em discurso e a imagem virtual em realidade. Nunca a informação circulou tanto e no entanto nunca a cegueira foi tão grande, todos erraticamente deambulando num mundo perdido, como na obra de Saramago, sem encontrar o fogo no topo da caverna, como angustiadamente o procuramos desde Platão. Perante a anomia de uns e a taquicardia de outros, continuamos ligados à máquina. Até quando?

 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Sintra e as modas "new age"


Nos últimos anos Sintra tem vindo a ser objecto do interesse de seguidores de doutrinas mais ou menos new age em torno não do “espirito do lugar” mas, quiçá, dos espíritos do lugar, tendo como inspiração princípios teosóficos e escritos sincréticos. E aí, numa parafernália folclórica mais ou menos de base “científica” se encaixam coisas como o tarô, a meditação, os mapas astrais, cristais, numerologia, gnose, teosofia, acupunctura, homeopatia, sincretismo, busca interior, magia, e outras mais comerciais. Tudo apelando a um tipo de imaginário que permite aumentar as receitas de certos “promotores” turísticos, vendendo uma Sintra de “fadas”, “duendes”, quiçá do Graal, de reinos perfurados na serra ou templários zurzindo contra a moirama, já sem falar dos fantasmas, casas assombradas e pragas propiciadores dum perturbante Hallowwen. A isto os mais crédulos rematam com a ideia de sincronicidade, de que não há coincidências, e tudo tem um significado espiritual, a mente tem poderes e capacidades escondidos que têm significado e as experiências psíquicas são modos de as almas se expressarem. A certas localidades são atribuídas propriedades especiais de energia, (os vortex ou portais) e esses locais são considerados sagrados e têm propriedades especiais.

Esta outra Sintra que uma serra frondosa e noites de luar cintilante ajudam a (re)criar é hoje alvo de múltiplas abordagens, desde os “poços iniciáticos” da Regaleira aos “djins” do castelo dos Mouros, da natureza rosacruz do Chalé da Condessa às influências maçónicas da Pena, dos templos do Sol na Vigia aos cultos ancestrais de povos antigos. E aqui é onde ciência e superstição se entrelaçam, em prol das agências de viagens e dos vendedores de souvenirs ou passeios temáticos. E há para todos os gostos. Sintra é um microcosmos onde os deuses se reúnem em festim à sombra da lua argêntea e os homens tremem, temendo o tritão da Roca. Estranhem ou entranhem, sorrindo ou palpitando, visitem, sobretudo. Sintra não é um lugar, é uma experiência.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

No centenário de Vergílio Ferreira



Vergílio Ferreira, o consagrado autor de Manhã Submersa, nasceu há 100 anos, a 28 de Janeiro de 1916, e Sintra é um dos lugares frequentemente presentes na sua obra. Na sua Conta-Corrente, por exemplo, são frequentes as referências a Fontanelas, onde passou largos períodos, e a outros sítios de Sintra, como local onde pôde repousar e ler, e também concluir alguns dos seus livros até a morte chegar, em Março de 1996, aos 80 anos.

Dois dos seus romances foram concluídos em Fontanelas: Para Sempre (1982) e Na Tua Face (1993). E a acção de Nítido Nulo (1971) decorre no Magoito.

Além de Fontanelas, muitos são os registos sobre Praia das Maçãs, Praia Grande, Azenhas do Mar ou a Aguda. Sobre a Praia das Maçãs escreveu em 1981:”A Regina e eu fomos depois do almoço à Praia das Maçãs tomar o café e olhar o mar. Praia quase deserta. A armação de algumas barracas agrupadas a um lado. Os panos listrados de azul já arrumados. Um ou outro banhista ainda despido por exemplarismo ou falta de resignação. O mar com uma cor já fria de inverno e muito batido de espuma da ondulação. Sentamo-nos na esplanada do café, ao sol.”

Ou a Praia Grande, depois das cheias de 1983:

“22 de Novembro.1983 - Ontem de tarde fomos ver os desastres da cheia aqui ao pé. Do Rodízio para a Praia Grande há uma ponte com um pilar sobre uma ribeira seca durante quase todo o ano. Com a enchente, a ribeira inchou pavorosamente e levou a ponte adiante ontem inundava todo o areal numa maré de água turva. Havia almofadas vermelhas a boiarem, talvez de automóveis, muros derrubados, canos rebentados ou postos à mostra nas ruas. Na grande adega de Colares os tonéis sem vinho boiavam leves e ficaram trancados contra as portas que eram estreitas para darem passagem”.

Deslumbrado pelas Azenhas do Mar, onde “as águas alargavam-se até a um horizonte de neblina, as ondas quebravam num rolar manso e dormente sobre a breve areia da praia”, grande parte de Até ao Fim (1987) decorre em Fontanelas e nas Azenhas do Mar, com a Capela de São Mamede relembrada na Conta-Corrente em 1983:

“Aproveitámos para excursionar até São Mamede que tem uma capela num alto donde se vê o mar. E foi um deambular lento, de olhos abismados na verdura dos campos, nas flores silvestres à beira da estrada. (...) Divagámos até ao alto de São Mamede. Nas margens da estrada e no meio dos campos visíveis havia maciços rubros de papoilas, manchas amarelas de malmequeres. De um eucalipto novo colhi um ramo de que esmaguei na mão algumas folhas para o seu perfume me penetrar.”

Também a Peninha, Galamares ou o Cabo da Roca são presença familiar nos seus textos (“ouve-se ao longe, no Cabo da Roca, a "ronca" de aviso à navegação. Não há vento, os pinheiros imobilizam-se na névoa como espectros. Silêncio. Nem uma ave se ouve. E irresistivelmente lembro- me de um mundo nos começos da génese, antes de um ser vivo surgir à sua face. E então, mais evidente, assola-me o absurdo de um universo sem razão, sem sequer um ser pensante que o fizesse existir.”)

De resto, há sempre um registo dos muitos amigos que passaram por Fontanelas para longas conversas e tertúlias. E foi nesse modo de conviver descontraído que o autor de Aparição encontrou a razão de ser para assim não deixar de registar as suas impressões de Fontanelas e quase sempre nos dias de Verão, na presença de pinheiros, o cantar dos pássaros ou a imensidão do mar.

Sobre Sintra, “o único lugar do país onde a História se fez jardim”, como escreveu um dia, foi profético, quando a exalta, de forma lapidar: ”Sintra é o mais belo adeus da Europa quando enfim encontra o mar. Camões o soube quando os seus navegadores a fixaram como a última memória da terra, antes de não verem mais que "mar e céu". E no entanto, ou por isso, o espaço que ela nos abre não é o da infinitude mas o do que a limita a um envolvimento de repouso. Alguém a trouxe de um paraíso perdido ou de uma ilha dos amores para uma serenidade de amar. Ela é assim o refúgio de nós próprios e de todo o excesso que nos agride ou ameaça.”

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Minhas memórias de Marcelo


Filho e discípulo de proeminentes figuras do Antigo Regime, e um dos mais brilhantes alunos de Direito do seu tempo (no seu curso obteve a nota mais alta, a par de Leonor Beleza), Marcelo Rebelo de Sousa foi depois do 25 de Abril um destacado jornalista do Expresso e professor da Faculdade de Direito de Lisboa, onde o tive como regente de Direito Constitucional no ano lectivo de 1978/79. Recordo bem a sua agilidade intelectual e a postura hiperactiva (ainda hoje um traço do seu carácter) e a forma como sempre abordou a política, apaixonado e maquiavélico mestre de cenários, usado aqui o termo maquiavélico no sentido renascentista do termo e não no pejorativo.
As suas aulas eram sempre das mais frequentadas, numa altura em que governavam Eanes e Lurdes Pintasilgo, e muito se discutia a natureza dos governos de gestão e a extensão dos poderes presidenciais. A constituição de 1976 era recente ainda, e os seus pais intelectuais- o próprio Marcelo, Jorge Miranda e Vital Moreira- publicavam os primeiros manuais e estudos temáticos, tendo Marcelo na altura elaborado a sua tese para catedrático com um trabalho sobre os partidos políticos em Portugal. Quando por via de não ter frequentado as aulas de avaliação contínua nessa cadeira (tempo de viagens pela Europa de inter rail…) fiz exame final, e tive necessariamente de comparecer num exame oral, recordo bem a maratona que tal foi, começando as ditas orais depois de almoço, com mais de uma hora por cada aluno, e sendo as notas anunciadas já perto da meia noite, com a faculdade deserta e a fechar, terminando a maratona com um bife na Portugália. Recordo nessa época também as visitas de estudo que no âmbito da cadeira promoveu, nomeadamente uma ao extinto Conselho da Revolução, órgão resultante do Pacto MFA-Partidos, que enformou a feitura da Constituição de 76, e a forma desenvolta como questionou e suscitou a curiosidade dos seus alunos em torno da política e do direito constitucional.

Licenciado, e seguindo a minha vida, por diversas vezes o tenho encontrado por aí, em restaurantes ou sessões públicas, e, apesar de terem passado mais de 30 anos, a sua memória recorda sempre o antigo aluno, perguntando pelos meus sucessos pessoais e profissionais, como se nos tivéssemos separado dias antes apenas, e por si não tivessem passado muitos anos, acontecimentos e centenas de alunos.

Menos bem sucedido até agora como político que como comentador, Marcelo Rebelo de Sousa é indelevelmente um príncipe florentino na era da televisão, e o exemplo claro que o poder é muitas vezes mais de quem o exerce pela palavra do que de quem o detém pela caneta. Não foi o meu candidato, por motivos de genética política, mas será por certo intelectualmente mais estimulante que uma certa geringonça que ainda mexe, ferrujenta, para os lados de Belém.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

"Animais" no Teatro Turim



O homem é um animal racional. Será? Há que contar com a racional irracionalidade da criatura enquanto fenómeno zoológico gregário, sempre pronto quer para comportamentos de cliché, como para surpreender na sua por vezes bizarra forma de estar.

“Animais”, peça que vai à cena no Teatro Turim, em Benfica, expõe de forma irónica mas incisiva aspectos da vida quotidiana alcandorados a mitos urbanos- o adultério, o swing, o machismo, a guerra dos sexos, numa trepidante sessão de 2 horas durante a qual os quatro actores se desdobram em personagens que todos reconheceremos na pessoa de algum amigo ou vizinho, com um humor contagiante e uma interpretação segura e cativante.

Élia Gonzalez, Filipe Salgueiro, Pedro Rodil e Susana Rodrigues com a sua parafernália de (des)construção de personagens prendem os espectadores que surpresos vêm desfilar a fauna urbana enjaulada em preconceitos, aflições e paradoxos. O público, engaiolado na plateia, observa, sorri, e vê-se ao espelho, rindo quando identifica arquétipos que crê serem dos outros, sorrindo quando alguma cena lhe é mais familiar ou terá ocorrido consigo mesmo.E embarca nesta Arca de Noé onde o mais desconcertante é Noé, o motorista...

Por ser o actor que melhor conheço dos quatro, um destaque para a interpretação segura e refrescante do Pedro Rodil, num conjunto de intervenções que permitem dar a conhecer a sua versatilidade e evolução, fora de anterior formatação televisiva, e que mostram um crescimento como profissional promissor, sem desprimor dos demais, sem desníveis ou inseguranças.

A toda a equipa, parabéns e muito sucesso, e até breve, num teatro por aí.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

À conversa com Paulo Campos dos Reis

Paulo Campos dos Reis em Auto da Barca do Inferno

Conheço o Paulo Campos dos Reis há cerca de sete ou oito anos, quando através da Alagamares, com ele, a Susana Gaspar e o Filipe Araújo, companheiros da cena teatral sintrense e valores de referência já firmados, fizemos uma parceria para apresentar ao público a peça IGNARA, em torno do stresse a que foram sujeitos e ainda são hoje vitimas muitos antigos combatentes das guerras de África. Daí para cá, têm sido frequentes os contactos. O Paulo é um talentoso actor e destacado agente cultural em Sintra, tendo trabalhado em inúmeras peças, quer como actor e encenador, quer liderando grupos como o teatromosca, colaborando na Éter Cultural, ou, presentemente, com a Musgo, que presentemente leva à cena na Quinta da Regaleira uma inovadora versão de Os Lusíadas.
Recentemente, passou a integrar também a equipa da Alagamares, onde a sua experiência, entrega a projectos, e talento, serão por certo de particular valia.
No âmbito da nossa nova plataforma multimédia, a Alagamares TV, trocámos uma pequena conversa sobre a sua obra e percurso, que aqui partilho.

 
 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O porquê da Alagamares TV



Nestes dias de Aldeia Global mal andaria uma associação como a Alagamares se descurasse os meios comunicacionais postos ao seu dispor para fazer chegar a sua mensagem junto do grande público, seja na divulgação de tendências, eventos e iniciativas, seja na defesa das suas causas e valores, entrando em casa de cada um ao clique dum dedo ou manusear de um comando.
Temos uma equipa jovem e empenhada, e sem os recursos das organizações mainstream faremos o caminho caminhando, com imperfeições, que faremos por corrigir, com limitações, que faremos por ultrapassar, e com paixão, que faremos por nunca perder.
Será um espaço plural, ecléctico, simples e diversificado, onde conviverá a informação e a divulgação de eventos, mas também o humor, as terapias alternativas, o teatro e cinema, a integração de deficientes, o desporto e a nossa História e património. Com uma equipa jovem e trabalhadora, vimos para, a par da experiência já adquirida nos 10 anos da Alagamares, afirmar a nossa maneira de ver as coisas e delas dar a nossa visão. 
Não surgimos de novo, porque já cá estamos há muito tempo, nem vimos contra ninguém, porque só a ignorância e a indiferença serão nossos adversários. Vimos para somar e não para subtrair, para acrescentar massa crítica e juntar os mais jovens da nossa equipa num espírito grupal e empenhado, que as longas horas de trabalho já dedicadas ao lançamento desta plataforma testemunham.
Haverão no início fragilidades técnicas ou erros de falta de experiência, mas tudo faremos para os ultrapassar, sem nunca deixar para trás o trabalho já feito e que não deixaremos de continuar a fazer. 
Aqui fica entretanto um resumo da festa de apresentação no passado dia 9, no MU.SA:

sábado, 26 de dezembro de 2015

A Cultura em 2015: no Mundo, em Sintra e na Alagamares


Em 2015 Palmira foi destruída,e partiram alguns dos nossos melhores, de Anita Ekberg, Demis Roussos, Colleen McCullough, Gunther Grass, Eduardo Galiano, B.B.King, John Nash, Laura Antonelli, Christopher Lee, Omar Shariff, Chantal Ackerman ou André Glucksmann, a Manuel Lucena, Manoel de Oliveira,  Herberto Hélder, Mariano Gago, Ana Hatherly, Maria Barroso, José Fonseca e Costa ou, aqui em Sintra, o arquitecto Francisco Castro Rodrigues.Contudo, a arte chocalheira passou a Património Mundial, e Óbidos e Idanha a Nova viram o estatuto de vilas literárias reconhecido pela UNESCO.

Em 2015 passaram 600 da conquista de Ceuta e da morte de D. Filipa de Lencastre, 500 da morte de Afonso de Albuquerque, 100 anos da edição do primeiro numero do Orpheu e o centenário da morte de Ramalho Ortigão, e em Sintra os 90 anos da criação da freguesia de Queluz, os 80 da morte de mestre Artur Anjos Teixeira, os 70 da construção do Cine-Teatro Carlos Manuel, os 60 da inauguração do Hotel de Seteais, os 40 da inumação de Ferreira de Castro na Serra de Sintra e, sobretudo, os 20 anos da elevação de Sintra a Património da Humanidade, número redondo que impõe festa e regozijo, mas também responsabilidade, segurança na acção e firmeza no caminho a prosseguir.

Em Sintra, permanecem diversas áreas para melhorar. Há porém uma mudança de paradigma com a filosofia de “abrir para obras” acompanhando as recuperações em curso, atitude internacionalmente aconselhada, já se tendo verificado no caso do Chalé da Condessa e no castelo dos Mouros, iniciou-se um processo de classificação de árvores e arvoredo relevante, e têm-se feito esforços- ainda incipientes- para ordenar o território, com a Área de Reabilitação Urbana aprovada e as ténues alterações ao trânsito.A revisão da política de preços para as visitas aos monumentos permanece como um ponto a alterar, bem como a questão da mobilidade.

Em Sintra, durante 2015, destaque para o Periferias, festival que se vai afirmando, reunindo geografias de afectos em torno do teatro como arte, bem como para o Cortex, um festival de curtas metragens diferente, e o Festival de Sintra, na sua 50ª edição. Concluiu-se o ciclo sobre Raul Lino, com um conjunto notável de comunicações, ciclo que  Rodrigo Sobral Cunha brilhantemente coordenou, abriram a casa da Marioneta na Agualva, os jardins da Ribafria e a Quinta Nova da Assunção, em Belas, e o nome de Lívio de Morais foi atribuído à Casa de Cultura de Mira Sintra. Foram assinados protocolos para revitalizar o antigo Museu do Brinquedo, futuramente o News Museum, o Pavilhão do Japão, futuro Centro Cultural Kobayashi, e foi inaugurado o Centro Mitos e Lendas, um espaço interactivo no posto de Turismo na Vila. Associações como o Danças com História e a Byfurcação viram ser-lhes atribuídos espaços em S. Pedro, e decorreram eventos como o Lumina, o Festival de Estátuas Vivas, o IX Encontro de Bandas Filarmónicas, a XXIV edição da Mostra de Teatro nas Escolas e o Sintra Press Photo.Os 20 anos da elevação de Sintra a Paisagem Cultural da Humanidade propiciaram igualmente a abertura dum Gabinete dedicado ao Património Mundial e de um Centro UNESCO em Sintra.

No âmbito associativo, Jorge Telles de Menezes voltou a revitalizar as tertúlias “Meninos d’Avó”, 10 anos depois de terem sido criadas, e grupos como a Byfurcação e o Tapafuros deram vida aos jardins de Sintra e da Regaleira. João Rodil lançou “Os Dias do Corvo”, Jorge Menezes a colectânea de poesia “Suma Uma”, Raquel Ochoa o romance “As Noivas do Sultão”, Filomena Marona Beja “Um rasto de alfazema”, Miguel Boim, o Caminheiro de Sintra, "Sintra Lendária", Miguel Real "Vieira, o Céu na Terra: Nos 400 anos do nascimento do Padre António Vieira, uma homenagem" (com Filomena Oliveira) "Portugal: Um País Parado no meio do Caminho (2000-2015)" e "O Último Europeu: 2284", Sérgio Luís de Carvalho "Quem se atreveu a tanto?" e "Traidores e Traições na História de Portugal" e eu próprio "Histórias Com Sintra Dentro".

A Alagamares colaborou ou promoveu em muitas dessas iniciativas: logo a 15 de Janeiro estivemos com os Meninos d’Avó; a 12 de Fevereiro promovemos a exibição no MU.SA do documentário de Miguel Ferraz “Barros Queiróz, figura moral da República”, sobre o homem que proclamou a República em Sintra; a 21 de Fevereiro decorreu no MU.SA o debate “O Islão e o Ocidente”, com José Rodrigues dos Santos, Basílio Horta, Ana Gomes, José Manuel Anes, Saoud Eltayari e Mamady Sissé e em 4 de Março novo debate sobre Sintra nos 20 Anos de Património Mundial, com Sidónio Pardal, Cardim Ribeiro, Nunes Correia, Basílio Horta, João Rodil e Gerald Luckhurst.

A 9 de Março decorreu o 10º aniversário da Alagamares no Salão de Galamares. Foram homenageados Miguel Real, o teatro TapaFuros e a Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra, e actuaram o Grupo Coral de Queluz, Rui Mário, Cláudia Faria, Paulo Campos dos Reis e Susana Gaspar, além das bandas Paradoxo e Reckless Society. E o ano continuou a 26 de Março com a tertúlia dedicada a Ruy Belo no Legendary Cafe, em parceria com a Caminho Sentido e o Tapafuros, uma visita botânica a Monserrate em 29 de Março, guiada pelo arq. Gerald Luckhurst, a invocação da Geração d’Orpheu na Quinta do Relógio pelo escritor João Rodil em 7 de Maio, a visita a Tomar em 30 de Maio, a apresentação em 23 de Julho no Café Garagem da obra de Raquel Ochoa “As Noivas do Sultão”, a ida colectiva em 25 de Julho à Quinta da Regaleira para ver “Os Lusíadas” pela Musgo Cultural, a visita ao Centro Histórico de Belas a 12 de Setembro, um evento dedicado à Guiné-Bissau, no MU.SA, a 26 de Setembro, em colaboração com a Uno e a Éter Cultural, a apresentação em 5 de Novembro no MU.SA do livro de Filomena Marona Beja “Um rasto de alfazema”, a caminhada na serra de Sintra com observação de cogumelos a 21 de Novembro e a homenagem aos 40 anos de vida literária do escritor Luís Filipe Sarmento, com jazz, fado e mais de 150 participantes no passado dia 19 de Dezembro.
Cultura, mais que coleccionar eventos, é patrulhá-los no sentido de criticamente deles bebermos informação e promover "inscrição", no sentido de contribuir para mudar mentalidades, comportamentos e tiques, no avisado reparo de José Gil.  No silêncio das nossas consciências, na ponta das nossas canetas ou no grito das nossas aspirações, em 2016 sejamos dinâmicos em nossa casa e na nossa comunidade, acordados que não parados, activos que não passivos, conscientes que não pacientes, pugnando pela claridade que faz o Dia, não assistindo apenas ao anémico fluir da espuma dos dias.