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sábado, 14 de novembro de 2015

Não deixar a Europa tornar-se um Bataclan




Os ataques de sexta-feira 13 (dia aziago…), em Paris, renovam o alerta para que a Europa e os europeus pensem (ou repensem) a maneira de estar no mundo, lutando pela liberdade de expressão, pelo direito à diferença e pela crítica responsável, mas sem resvalar para a intolerância.

É preciso recusar a escravatura dos extremismos e do ódio racial, contra todas as formas de xenofobia, discriminação e cegueira, lutar pelo Estado de Justiça e pela comunidade de homens livres, num quadro de proporcionalidade e delimitação de fronteiras onde a liberdade de cada um comece onde acaba a dos outros. É preciso olhar em frente e não caminhar sob a ameaça do gatilho, seja ele das armas ou do excesso da arbitrariedade que só pode gerar espirais de violência e intolerância.

Temos de insistir no vício benigno de ser livre e querer viver entre homens livres. Como escreveu Renard, o homem livre é aquele que não receia ir até ao fim da sua razão. Disse um dia Nelson Mandela: "Não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos."

Os atentados de Paris não podem significar a vitória de loucos formatados numa visão redutora e maniqueísta do mundo, como no passado a Europa não ficou, apesar da Inquisição, da noite hitleriana ou dos gulags soviéticos, pois sempre alguém iluminou o caminho intrépido da liberdade, sabedores que é esse um bem inestimável, mesmo quando se deixam os seus inimigos porfiar e crescer em democracia e tolerância.

O caminho é fazer o Outro sentir-se mais um de Nós, integrá-lo na sua diferença e não olhá-lo como o inimigo numa nova Cruzada que só pode trazer de volta fantasmas de outrora, e será essa a postura moral que, com persistência e convicção devemos promover e trilhar. Mas não será fácil, neste Bataclan de loucos em que a Europa se tornou, a Europa do arame farpado e dos naufrágios, da guerra das mentes aguçada por extremismos desafiadores.

Uma vez mais, caminhamos sobre brasas e no fio da navalha, à espera do próximo atentado e do próximo jihadista. E iremos resolvendo o problema não o resolvendo, pela razão da força e não pela força da razão.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Discutir o plano de pormenor da Praia Grande


Encontra-se em discussão pública por um prazo de 20 dias úteis e até dia 7 de dezembro de 2015 o projecto do Plano de Pormenor da Praia Grande,  o qual pode ser consultado na página electrónica da autarquia- http://www.cm-sintra.pt/planos-em-elaboracao#plano-de-pormenor-da-praia-grande

A Praia Grande do Rodízio é uma zona emblemática do litoral do concelho de Sintra, procurada por nacionais e estrangeiros para turismo, desporto e lazer, rodeada de zonas habitacionais esparsas e de equipamentos- ou falta deles- a carecer de uma adequada definição de usos, ocupações e revitalização tendo em conta os desígnios de um correcto ordenamento. Desde que a 17 de Junho de 1961 aí abriu o Hotel das Arribas, mais tarde seguido das piscinas oceânicas, que a zona se desenvolveu a par da vizinha Praia das Maçãs, surgindo equipamentos como o Parque de Campismo, a colónia de férias da CP e unidades de restauração, muitas sem ordenamento e de origem irregular e que até hoje subsistem.

O ordenamento da Praia Grande impõe a definição de escala, isto é, a opção a privilegiar deverá passar por construções e equipamentos de dimensão média, ambientalmente enquadrados e sem excessos de ocupação, refutando qualquer veleidade de “algarvização” da zona, já de si pululada por construções de vilegiatura algumas dos anos 50 e 60, de cariz “português suave”, outras em clara afirmação dum certo novo riquismo dos anos noventa, dissonantes e impositivas.

São precisas zonas pedonais e cicláveis, zonas arborizadas e de lazer, parques periféricos discretos e transportes públicos adequados e dissuasores da ditadura do automóvel. E uma clara definição da escala, usos e vertentes dos equipamentos turísticos a requalificar ou a erigir de novo.

Desde 2008 que a Câmara de Sintra vem trabalhando num quadro de ocupação para a designada UOPG 6 do Plano de Ordenamento da Orla Costeira Sintra-Sado, que tanto tarda em trazer definições, assim arrastando a cacofonia urbana a que se assiste na zona das praias, e de que a Praia das Maçãs é um exemplo deprimente ainda maior, e o projeto ora apresentado tem a virtude de pela primeira vez apresentar propostas concretas (o POOC, relembre-se, é já de 2004!) e criar condições para que promotores, munícipes e visitantes saibam com o que podem contar.

Na zona estudada coincidem o sítio arqueológico designado Alinhamentos de Alconchel, as jazidas paleolíticas da Praia da Adraga, a jazida de pegadas de dinossáurios da Praia Grande, o santuário romano do Alto da Vigia, bem como, ainda em plena zona de Paisagem Cultural da UNESCO, a Quinta do Mar. O plano ora proposto é equilibrado ao propor a manutenção da morfologia dos edifícios, apenas permitindo demolições integrais em caso de ruina iminente ou dissonantes, mas algumas propostas merecem particular atenção e discussão.

O Parque de campismo existente, por exemplo, é demonstrativo da emergência na definição de opções claras e sem rodeios para o local. Abandonado há alguns anos, nunca legalmente licenciado nas décadas em que funcionou, para lá se prevê um equipamento campista e caravanista de 4 estrelas, no mínimo, com índice de ocupação de 0,06, tipologia de construção não excedendo 1 piso, exclusão de instalações destinadas a fins habitacionais, e previsão de 1 lugar de estacionamento por campista, o que, ao consagrar que o local não se destine a outros fins pode permitir enfim a concretização dum projeto de qualidade que tanta falta faz no concelho de Sintra.

Já no que concerne ao Hotel das Arribas, procura-se que não surjam mais pisos do que os existentes, a piscina permaneça no universo da oferta hoteleira, e qualquer ampliação não exceda em 25% a área bruta de construção das pré- existências. Para a Quinta do Mar, outro equipamento com algumas indefinições nos últimos anos, está preconizado um índice de ocupação de 0,10, máximo de 3 pisos acima do solo, e máximo de 40 camas por hectare. Na zona balnear, apenas estão contemplados usos de fim turístico e apoio balnear, máximo de 2 pisos e ampliações até um máximo de 25%.

Está ainda prevista (ou pelo menos admitida) a construção de dois parques de estacionamento, um Centro de Acolhimento Temporário S. João de Deus e um apoio balnear, e na área das habitações dispersas não se permitirão construções com área superior a 250 m2 e com cércea superior a 6, 5 m.

No plano dos investimentos, afigura-se-me dever ser feita uma aposta, com o concurso de comerciantes, hoteleiros e futuros promotores, na concretização de um desenho urbano pedonal ou ciclável de qualidade, na concretização de sanitários públicos com asseio e acessíveis, na arborização de zonas de sombra e na criação dum núcleo de apoio a desportos de fruição e ocupação por desportistas e suas associações, visando o desenvolvimento dessas actividades, bem como um espaço de educação ambiental a utilizar todo o ano e não só nos períodos balneares. A harmonização de coberturas, estores, materiais ou dimensão dos muros de vedação parece igualmente de saudar, procurando pôr fim à ideia de “bunker” que muitas construções apresentam.

Um ponto importante e que muitas vezes os planeadores não contemplam, é a necessária abertura para que não se blinde a possibilidade de legalizar as pré-existências produto doutras épocas e que se consolidaram na paisagem, não a distorcendo ou respeitando. É sabido que a sobreposição de entidades e planos durante anos conduziu a que muitas construções esbarrem ainda na falta de uma licença de utilização que estabilize a relação dos proprietários de boa fé com a administração local que se limite a uma aplicação literal e semântica da lei, e momentos como os do planeamento virtuoso devem ser aproveitados para apontar o futuro e não insistir na perseguição a patologias que não só não foram combatidas atempadamente, como se consolidaram com os anos sem ofensa de interesses primários do ordenamento. Mais que acentuar os “pecados”, devem os planos apontar soluções, resolver problemas e serem eles próprios momentos de redenção e nova partida.

Razões pois para apelar à participação de todos, munícipes, associados da Alagamares, amigos das praias de Sintra e cidadãos empenhados  na discussão e apresentação construtiva de propostas para que a Praia Grande possa ter uma carta de progresso à altura da beleza do seu areal e da pujança da serra sobranceira.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Fazer renascer o Instituto de Sintra


Na literatura e cultura portuguesas Sintra aparece com frequência na pena de poetas, estudiosos e visitantes. Já Camões dela fala em Os Lusíadas (Já a vista, pouco e pouco, se desterra/Daqueles pátrios montes, que ficavam/Ficava o caro Tejo e a fresca serra/De Sintra, e nela os olhos se alongavam/ Ficava-nos também na amada terra/O coração, que as mágoas lá deixavam/E já despois que toda se escondeu/ Não vimos mais, enfim, que mar e céu) e também Francisco de Holanda, Crisfal, Luísa Sigêa, Gil Vicente ou Sá de Miranda se mostraram atraídos pela sua serra lunar. É porém no período romântico que por influência dos poetas do lago e sob influência de viajantes como Beckford, Byron, Hans C. Andersen ou Lady Jackson que Sintra irrompe como local incontornável, e a prová-lo, as obras de Gomes de Amorim, Almeida Garrett, Eça de Queirós ou Castilho. E no século XX, Almada e Pessoa, Nunes Claro, Oliva Guerra, Francisco Costa, M. S. Lourenço. E vivos ainda, Maria Almira Medina, Liberto Cruz, Miguel Real, Sérgio Luís Carvalho, Filomena Marona Beja, Jorge Telles Menezes, Raquel Ochoa.

Pode dizer-se que a presença de Sintra nestes autores é muitas vezes incidental: meras sete linhas no Child Harold’s Pilgrimage de Byron ou umas frases soltas em Andersen, um percurso de Chevrolet em Pessoa ou os olhos de um gigante em Almada, o Lawrence e as pipas de Colares no Eça, a introspecção de sentimentos em Francisco Costa, Maria Almira ou Nunes Claro. Mas também na Casa Branca de Jorge Menezes, nos seus Novelos de Sintra, na chegada a Lisboa, avistando a Roca, do Julinho de A Voz da Terra de Miguel Real, no Anno Domini 1348 e os dramas do tabelião João Lourenço, de Sérgio Luís Carvalho, nos dramas sociais na Messa de finais do século XX de Bute daí Zé! de Filomena Marona Beja. Será isto suficiente para assinalar a existência de uma literatura de Sintra, ou serão afinal meros apontamentos de Sintra na literatura?

Em Sintra, a literatura é sobretudo apologética de um espaço cénico predominante, seja para lhe exaltar a paisagem, as plantas, as lendas e mistérios, seja como complemento de histórias com outras geografias, local para escapadelas dos dandys de Lisboa com suas Lolas espanholas, no século XIX, e igualmente refúgio esporádico de outros mais recentes (José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, etc).

Há porém os publicistas e historiadores, esses sim mais perenes: do Visconde de Juromenha a João António Silva Marques, de José Alfredo Costa Azevedo a Vítor Serrão, Cardim Ribeiro, João Rodil ou Teresa Caetano, Luciano Reis, Eugénio Montoito, Samuel Vicente, Jorge Trigo, Hermínio Santos, Almeida Flôr ou Carlos Manique da Silva, a quem a investigação e estudos sintrenses muito devem, e hoje sem um espaço de divulgação permanente, depois das efémeras experiências da Vária Escrita e da Sintria. E os autores de teatro: Nuno Vicente, João de Mello Alvim, José Sabugo, Rui Mário, Rui Brás entre outros, e novos poetas, como Bruno Vitória ou Filipe Fiúza. E pintores, arquitectos, analistas sociais, criadores de multimédia, programadores e facilitadores culturais.

A divulgação destes autores, obras e eventos tem sido nos últimos anos feita de forma avulsa, descontextualizada e sem grande visibilidade por parte das entidades oficiais, ou entregue à sociedade civil, com destaque para associações como a Alagamares, ou a revista digital Selene-Culturas de Sintra. Nesse contexto, pergunta-se: e porque não ressuscitar o Instituto de Sintra, que aborde as obras e a idiossincrasia dum espaço incontornável e marcante, eventualmente em moldes diversos dos experimentados algumas décadas atrás? Falta um Espaço a este Tempo, uma tribuna, um areópago, um poiso de ideias e repositório da inteligência local, multicultural e heterogénea, unidade pela diversidade de opiniões e saberes, mas aglutinadora da sua intersecção matricial, esta Sintra que muitos cantam e a muitos desencanta. Para que, como dizia Camões, citado no início deste texto, se guardem as mágoas que lá ficam.

Enérgico nos anos 40 e 50, com Oliva Guerra, José Alfredo ou José António de Araújo, em tempos houve o Instituto de Sintra, que pela segunda vez renasceu em Maio de 1983, com António Pereira Forjaz como presidente e Francisco Costa como presidente da Assembleia Geral, e foi sob sua égide que se realizou, por exemplo, o saudoso congresso sobre o Romantismo, e desenvolveram eventos e iniciativas que não mais voltaram a ocorrer com a mesma visibilidade e pujança, tendo, por minudências políticas, vindo depois a desaparecer. Aqui fica a sugestão para a criação de um grande espaço institucional que leve às escolas, ao mundo académico e ao grande público a Sintra da Cultura, à luz da experiência e evitando os erros do passado, que utilize ferramentas do século XXI, e envolva a sociedade civil, o mundo empresarial e editorial, a escola e a academia.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Europa em transe




Não obstante a tentativa de dar um ar renovado ao dito “eixo franco-alemão”, com os discursos de Merkel e Hollande em Estrasburgo, a Europa está moribunda e em fase de estertor, como os motores falseados da Volkswagen.

Em 1953, em Hamburgo, Thomas Mann defendeu que devemos ambicionar ter uma Alemanha europeia e não uma Europa alemã. Vinte e cinco depois da unificação, sobre o papel da Alemanha na Europa e no mundo, ninguém se preocupou, com os alemães ocupados nessa altura consigo próprios e com a integração económica dos novos Estados federados do Leste, tanto que no final dos anos noventa a Alemanha era tida como um caso problemático na Europa, do qual se haveria de cuidar da questão do endividamento estatal, com níveis de desenvolvimento abissais entre o Leste e o Oeste, e canalizando muitos fundos (grande parte deles comunitários) para nivelar as economias. Era impensável então que a Alemanha um dia pudesse apresentar-se como modelo nas questões de política fiscal e do saneamento orçamental. E com a introdução do euro, pareceu que a Alemanha tinha aberto mão do seu mais importante instrumento de poder frente às outras economias europeias, o marco alemão.

O problema é que a Europa mudou e, na medida em que mais países entraram na União Europeia, o projecto dos Estados Unidos da Europa distanciou-se cada vez mais. O que parecia possível na Europa dos Seis, tornou-se impossível com as ampliações para Sul, Norte e Leste.

A crise do euro posterior a 2008 tornou visíveis as contradições da Europa. Querendo-se ou não, a Alemanha é, com os seus recursos e capacidades, o único país que pode manter a coesão da Europa heterogénea e ameaçada por forças centrífugas. Na Europa, tem a possibilidade de manter a coesão na União Europeia, e no mundo, tem de cuidar para que a economia europeia não seja marginalizada através da ascensão da Ásia. Mas não seria isto, na verdade, uma tarefa das instituições europeias? Não foram tais instituições, principalmente o Parlamento, fortalecidas nos últimos anos, para assumir essas tarefas, nomeadamente depois do Tratado de Lisboa? O que resultou foi exactamente o contrário. Valorizado anteriormente, o Parlamento Europeu não desempenhou praticamente nenhum papel no apogeu da crise do euro, ficando as decisões a cargo das reuniões intergovernamentais, e a "cabeça" da UE dividida entre a Comissão e o Conselho Europeu. Algo semelhante ocorre também na questão de saber se a Grã-Bretanha permanecerá como membro da UE ou se deixará a comunidade, o que provavelmente será negociado quando chegar a hora directamente entre Berlim e Londres. Tudo isto, bem como a ameaça recente do Grexit contraria profundamente o projecto europeu. Uma coisa parece ser certa: estão a ser as crises que indicam se as instituições são robustas ou não. E nas crises actuais, de que ressaltam os problemas financeiros da Grécia e a tendência de saída da Grã-Bretanha ou a crise dos refugiados sírios e magrebinos, as instituições europeias mostram-se incapazes e dissonantes. Talvez porque elas foram criadas a pensar no “funcionamento normal” da Europa enquanto não surgissem grandes problemas e as questões pudessem ser resolvidas em consenso. Como não tem vindo a ser esse o caso, e o eixo franco- alemão está debilitado por um François Hollande errático, o poder deslocou-se e os governos nacionais voltaram a desempenhar o papel principal, com destaque para a Alemanha.

A Alemanha contribui sozinha com mais de um quarto do poderio económico na zona euro, e são seus os riscos maiores nos programas de ajuda aos países endividados do Sul da Europa. Com isto, coube-lhe a posição decisiva na fixação das condições para a ajuda, achando que pelo facto de a austeridade ter funcionado na Alemanha nos anos noventa, tal pode ser copiado a papel químico para países com outros estádios de desenvolvimento e outras políticas e práticas fiscais, orçamentais ou bancárias. Essa falta de tolerância e compreensão está pois a levar cada vez mais a uma Europa alemã longe da Alemanha europeia de Adenauer, Willy Brandt ou Helmut Kohl. É uma Europa em cadeira de rodas, e cada vez mais comatosa.


domingo, 20 de setembro de 2015

Setembro



Setembro com surpresa trouxe de volta o Verão perdido, bafejando de dias quentes almas amornadas por quotidianos duros, embora sob o zumbido de palavrosas campanhas eleitorais. As escola reabrem, ruidosas e alegres, as folhas amarelecem ameaçando cair, como autómatos, clientes entram e saem das compras, sacos cada vez mais leves, rostos fechados, a esperança sumindo-se no lado esquerdo da alma. É o país do fado, na mão de fadistas estafados, exasperando no IC-19, desesperando no Centro de Emprego, aflitos clamando por um milagre ao fim do segundo ato, que obvie um terceiro, de morte e sem glória. E as segundas iguais às sextas, a meia de leite da manhã, os jornais com manchetes da crise, os golos marcados e os penalties roubados, a necrologia, a ver quem deixou de fumar. E mais um corte, um despedimento, um gritar baixo na secretária ou balcão, no autocarro ou no médico. É da Europa, salivam especialistas em generalidades. É estrutural, alvitra um ex-ministro com reforma dourada e piedoso com os pobres. No jardim, putos rasgam os ares com acrobacias de skate, adultos sem skate derrapam nas esquinas da vida, hoje vidinha apenas, anémica e perigosa. Lê-se a opinião publicada para se ter opinião, há culpados, e os culpados são “eles”. “Eles”, sacrossanta tríade do nosso descontentamento, “eles”, que roubam, conspiram, tiram partido, servem-se. “Eles”, que são o corpo alienígena, possuídos mutantes e criaturas esfaimadas, adamastores de gravata e ogres de notebook, justiceiros de pecados por expiar.

Setembro levou a praia e devolveu a cidade. Asfixiante. Com coisas demais para dinheiro a menos, propinas a mais para livros a menos, cirurgias a mais para órgãos a menos, crise demais para esperança a menos. Nas notícias desfila a galeria dos horrores chegados e a chegar, e as certezas dum amanhã perturbador, levada a esperança nos oníricos dias da Expo. Assim és hoje, Portugal, velha corista de lantejoulas estafadas, apagadas que foram as luzes da ribalta.

Uma romena pede esmola, trespassado que foi o lugar a um mendigo morto de cirrose ou solidão, alheios, miúdos atafulham-se em pizzas e cola, velhos de todos os Restelos ocupam os bancos de jardim, no areópago do povo, esconjurando tudo, e sobretudo o tempo. O tempo que não conta com eles, e onde se limitam a passar o tempo.

Em Setembro tombaram torres, e, desafiadores bispos fizeram xeque ao rei. Não caiu, que os cavalos tomaram o tabuleiro, mas as regras mudaram, e Setembro mudou. À vindima das uvas sucedeu o pisar dos protestos, é Primavera nas mesquitas e logo virá  fogo incontido ardendo nas cidades da Europa alagada de refugiados da esperança, naúfragos da humanidade, do Inferno de lá, por cá, a cidade lusa promete mudar, ou talvez não, envolta na parafernália dos debates, do plafonamento e das pizzas com pepperoni. No quiosque dos jornais compram-se desgraças matinais, recebidas com torcer de nariz, valem as páginas eróticas, oferecendo ninfas a cinquenta euros em qualquer espelunca do subúrbio, ou a foto de mais um rosto que deixou de fumar

As árvores decepadas cresceram, crescem sempre, vingando o corte, altivas e ondulando. Zelosos, polícias amarelos fazem por deixar os condutores de sorriso mais amarelo ainda, no quotidiano jogo de gato e rato, terminado como sempre na costumada multa e no miar dos gatos. Deus criou o mundo, previdente, o homem urbano criou a multa. Teria Deus licença para exibir maçãs, cobras e homens nus na via pública? Coima garantida, asseveram os de amarelo, se multar pudessem esse tal Deus infractor…

Diminuem os dias. É bom. Menos horas cedidas à crise, menos multas, a serra exalando um cheiro a húmus em cada matinal despertar. Concentrado, um varredor recolhe os vestígios do Outono que se espalham nas ruas e nas almas, cumpridas as orgias de verde, folhas que foram de Verão e de Primavera.

Os deuses do Sul preparam a Viagem, deixando aflitos seres de regresso às cavernas, sem alegorias, assustados, passarão luas até regressarem, deixados a si próprios e ao Inimigo: “Eles”. Com sorte, alguns sobreviverão, portadores da esperança e da seiva fecunda numa renovada Primavera. Outros, tombados com as folhas de Setembro, e nos Setembros que se vão seguir provavelmente não, a romena continuará a pedir esmola, alegres miúdos comerão mais pizzas, circunspectos polícias aplicarão mais multas. Os jornais trarão novas capas, renovados, os rostos hão-de continuar esculpidos pelos tempos e por eles marcados, com a crise como marca de água. E Setembro também, no eterno spleen de lento adeus e prometida fénix.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O naufrágio da Humanidade


 
Existe hoje no mundo um contingente de cerca de 160 milhões de refugiados, pessoas forçadas a fugir por recearem pela sua vida e liberdade, e que na maioria dos casos, abandonaram tudo – casa, bens, família e país – rumo a um futuro incerto em terras estrangeiras, vindos da Síria, Líbia, Eritreia, Sudão, Afeganistão ou Iraque, países mergulhados em conflitos étnicos, religiosos, palco de senhores da guerra e do cinismo geopolítico das grandes potências.
 
Cada vez em maior número, vistos numa óptica securitária e com receio, os refugiados são em larga escala pessoas indefesas ante a violação cabal dos seus direitos humanos, não obstante os piedosos e retóricos tratados, acordos e protocolos internacionais visando protegê-los, mas que no terreno esbarram com a rejeição e o desdém do Outro, vizinho ou conterrâneo, por vezes com uma mera fronteira física ou um lago a separá-los.
 
A separação dicotómica neste mundo pós-moderno entre ricos e pobres, cristãos e muçulmanos, ocidentais e orientais, sunitas e xiitas, com que se tem rotulado comunidades inteiras, criou uma nova categoria de cidadãos de primeira e cidadãos de segunda, os desejados de um lado e os indesejados do outro. Hoje, deparamo-nos com novos escravos e estes têm um nome: refugiados, os novos indesejados, ameaçando a estabilidade económica e social e fazendo florescer sentimentos xenófobos e de afastamento, apesar das piedosas mas distantes e súperfluas campanhas nas redes sociais ou em protestos coloridos mas que não tiram ninguém da sua zona de conforto, como o não tiraram os Charlies ou os protestos anti-globalização dum passado recente, mobilizadores de jovens burgueses para happenings vistosos e pouco mais.
 
São precisas políticas humanitárias de inclusão social e acolhimento. O refugiado é alguém que perdeu quase tudo, e para quem apenas subsistiu a esperança, a raiar o desespero. Forçado a deixar o seu país, deambula hoje como zombie esmolando uma cidadania e implorando por liberdade, estima, emprego ou educação.
 
Segundo um relatório de 2002 do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, o ACNUR, em cada dez refugiados no mundo, sete foram acolhidos por países pobres, e entre 1992 e 2001, do total de refugiados, 86% provinham de países pobres. Quando virão os países desenvolvidos a assumir um papel proeminente na protecção dessas massas humanas em constante movimento, em diáspora permanente das suas pátrias, buscando nada mais que o sagrado direito à vida?. É urgente um Pacto de Humanidade visando a superação deste estado de insegurança colectiva em que o mundo vive, em colapso ético e moral, e que destaque a urgência do respeito pelo ser humano na sua diversidade bem como as diferentes culturas e crenças religiosas e políticas.
 
Se na frente diplomática é preciso por fim aos conflitos, sem sofismas ou tacticismos, é preciso igualmente tudo fazer para acabar com o tráfico de seres humanos, que acrescenta sofrimento e insegurança a populações já causticadas pelos conflitos que não criaram. E rejeitar os  discursos etnocêntricos, pois a humanidade constitui um só povo.
 
Aos refugiados é preciso reconhecer o direito de ser aceite, conferir-lhe direitos de cidadania que lhes devolva uma identidade e o direito de constituir e manter uma unidade familiar, o reconhecimento do casamento e os direitos para os seus filhos, sem cuja superação teremos o crescimento de um contingente de párias sociais. Mas também o direito a manter as suas crenças religiosas, a manter e praticar a sua língua materna e o seu património e herança cultural, o direito à educação e reconhecimento das suas qualificações, o direito a um emprego e remuneração dignos e em igualdade com os naturais dos países de acolhimento, e, sobretudo, o direito à segurança que os fez sair das suas pátrias, comunidades e famílias, para um mundo que julgavam deles e muitos teimam em considerar coutada privada com admissão reservada, e o direito de poder transitar livremente dentro do país que os acolheu e deste para o exterior, sem serem tratados como presos em liberdade condicional.
 
A Terra é um só país, e os seres humanos os seus cidadãos. Se esta visão pudesse ser rapidamente transformada em realidade pelos governos nacionais, muito em breve, e quem sabe ainda na primeira metade deste século XXI, teríamos um mundo onde o conceito de refugiado seria considerado algo ultrapassado. Até lá, continuaremos a ver chegar às praias do Mediterrâneo vidas que se perderam pela indiferença e rejeição. Uma vez mais, os sinos dobram. E dobram por nós, analfabetos da Humanidade e náufragos da solidariedade, alcateia ao invés de rebanho e seita em vez de comunidade.