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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Fazer renascer o Instituto de Sintra


Na literatura e cultura portuguesas Sintra aparece com frequência na pena de poetas, estudiosos e visitantes. Já Camões dela fala em Os Lusíadas (Já a vista, pouco e pouco, se desterra/Daqueles pátrios montes, que ficavam/Ficava o caro Tejo e a fresca serra/De Sintra, e nela os olhos se alongavam/ Ficava-nos também na amada terra/O coração, que as mágoas lá deixavam/E já despois que toda se escondeu/ Não vimos mais, enfim, que mar e céu) e também Francisco de Holanda, Crisfal, Luísa Sigêa, Gil Vicente ou Sá de Miranda se mostraram atraídos pela sua serra lunar. É porém no período romântico que por influência dos poetas do lago e sob influência de viajantes como Beckford, Byron, Hans C. Andersen ou Lady Jackson que Sintra irrompe como local incontornável, e a prová-lo, as obras de Gomes de Amorim, Almeida Garrett, Eça de Queirós ou Castilho. E no século XX, Almada e Pessoa, Nunes Claro, Oliva Guerra, Francisco Costa, M. S. Lourenço. E vivos ainda, Maria Almira Medina, Liberto Cruz, Miguel Real, Sérgio Luís Carvalho, Filomena Marona Beja, Jorge Telles Menezes, Raquel Ochoa.

Pode dizer-se que a presença de Sintra nestes autores é muitas vezes incidental: meras sete linhas no Child Harold’s Pilgrimage de Byron ou umas frases soltas em Andersen, um percurso de Chevrolet em Pessoa ou os olhos de um gigante em Almada, o Lawrence e as pipas de Colares no Eça, a introspecção de sentimentos em Francisco Costa, Maria Almira ou Nunes Claro. Mas também na Casa Branca de Jorge Menezes, nos seus Novelos de Sintra, na chegada a Lisboa, avistando a Roca, do Julinho de A Voz da Terra de Miguel Real, no Anno Domini 1348 e os dramas do tabelião João Lourenço, de Sérgio Luís Carvalho, nos dramas sociais na Messa de finais do século XX de Bute daí Zé! de Filomena Marona Beja. Será isto suficiente para assinalar a existência de uma literatura de Sintra, ou serão afinal meros apontamentos de Sintra na literatura?

Em Sintra, a literatura é sobretudo apologética de um espaço cénico predominante, seja para lhe exaltar a paisagem, as plantas, as lendas e mistérios, seja como complemento de histórias com outras geografias, local para escapadelas dos dandys de Lisboa com suas Lolas espanholas, no século XIX, e igualmente refúgio esporádico de outros mais recentes (José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, etc).

Há porém os publicistas e historiadores, esses sim mais perenes: do Visconde de Juromenha a João António Silva Marques, de José Alfredo Costa Azevedo a Vítor Serrão, Cardim Ribeiro, João Rodil ou Teresa Caetano, Luciano Reis, Eugénio Montoito, Samuel Vicente, Jorge Trigo, Hermínio Santos, Almeida Flôr ou Carlos Manique da Silva, a quem a investigação e estudos sintrenses muito devem, e hoje sem um espaço de divulgação permanente, depois das efémeras experiências da Vária Escrita e da Sintria. E os autores de teatro: Nuno Vicente, João de Mello Alvim, José Sabugo, Rui Mário, Rui Brás entre outros, e novos poetas, como Bruno Vitória ou Filipe Fiúza. E pintores, arquitectos, analistas sociais, criadores de multimédia, programadores e facilitadores culturais.

A divulgação destes autores, obras e eventos tem sido nos últimos anos feita de forma avulsa, descontextualizada e sem grande visibilidade por parte das entidades oficiais, ou entregue à sociedade civil, com destaque para associações como a Alagamares, ou a revista digital Selene-Culturas de Sintra. Nesse contexto, pergunta-se: e porque não ressuscitar o Instituto de Sintra, que aborde as obras e a idiossincrasia dum espaço incontornável e marcante, eventualmente em moldes diversos dos experimentados algumas décadas atrás? Falta um Espaço a este Tempo, uma tribuna, um areópago, um poiso de ideias e repositório da inteligência local, multicultural e heterogénea, unidade pela diversidade de opiniões e saberes, mas aglutinadora da sua intersecção matricial, esta Sintra que muitos cantam e a muitos desencanta. Para que, como dizia Camões, citado no início deste texto, se guardem as mágoas que lá ficam.

Enérgico nos anos 40 e 50, com Oliva Guerra, José Alfredo ou José António de Araújo, em tempos houve o Instituto de Sintra, que pela segunda vez renasceu em Maio de 1983, com António Pereira Forjaz como presidente e Francisco Costa como presidente da Assembleia Geral, e foi sob sua égide que se realizou, por exemplo, o saudoso congresso sobre o Romantismo, e desenvolveram eventos e iniciativas que não mais voltaram a ocorrer com a mesma visibilidade e pujança, tendo, por minudências políticas, vindo depois a desaparecer. Aqui fica a sugestão para a criação de um grande espaço institucional que leve às escolas, ao mundo académico e ao grande público a Sintra da Cultura, à luz da experiência e evitando os erros do passado, que utilize ferramentas do século XXI, e envolva a sociedade civil, o mundo empresarial e editorial, a escola e a academia.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Europa em transe




Não obstante a tentativa de dar um ar renovado ao dito “eixo franco-alemão”, com os discursos de Merkel e Hollande em Estrasburgo, a Europa está moribunda e em fase de estertor, como os motores falseados da Volkswagen.

Em 1953, em Hamburgo, Thomas Mann defendeu que devemos ambicionar ter uma Alemanha europeia e não uma Europa alemã. Vinte e cinco depois da unificação, sobre o papel da Alemanha na Europa e no mundo, ninguém se preocupou, com os alemães ocupados nessa altura consigo próprios e com a integração económica dos novos Estados federados do Leste, tanto que no final dos anos noventa a Alemanha era tida como um caso problemático na Europa, do qual se haveria de cuidar da questão do endividamento estatal, com níveis de desenvolvimento abissais entre o Leste e o Oeste, e canalizando muitos fundos (grande parte deles comunitários) para nivelar as economias. Era impensável então que a Alemanha um dia pudesse apresentar-se como modelo nas questões de política fiscal e do saneamento orçamental. E com a introdução do euro, pareceu que a Alemanha tinha aberto mão do seu mais importante instrumento de poder frente às outras economias europeias, o marco alemão.

O problema é que a Europa mudou e, na medida em que mais países entraram na União Europeia, o projecto dos Estados Unidos da Europa distanciou-se cada vez mais. O que parecia possível na Europa dos Seis, tornou-se impossível com as ampliações para Sul, Norte e Leste.

A crise do euro posterior a 2008 tornou visíveis as contradições da Europa. Querendo-se ou não, a Alemanha é, com os seus recursos e capacidades, o único país que pode manter a coesão da Europa heterogénea e ameaçada por forças centrífugas. Na Europa, tem a possibilidade de manter a coesão na União Europeia, e no mundo, tem de cuidar para que a economia europeia não seja marginalizada através da ascensão da Ásia. Mas não seria isto, na verdade, uma tarefa das instituições europeias? Não foram tais instituições, principalmente o Parlamento, fortalecidas nos últimos anos, para assumir essas tarefas, nomeadamente depois do Tratado de Lisboa? O que resultou foi exactamente o contrário. Valorizado anteriormente, o Parlamento Europeu não desempenhou praticamente nenhum papel no apogeu da crise do euro, ficando as decisões a cargo das reuniões intergovernamentais, e a "cabeça" da UE dividida entre a Comissão e o Conselho Europeu. Algo semelhante ocorre também na questão de saber se a Grã-Bretanha permanecerá como membro da UE ou se deixará a comunidade, o que provavelmente será negociado quando chegar a hora directamente entre Berlim e Londres. Tudo isto, bem como a ameaça recente do Grexit contraria profundamente o projecto europeu. Uma coisa parece ser certa: estão a ser as crises que indicam se as instituições são robustas ou não. E nas crises actuais, de que ressaltam os problemas financeiros da Grécia e a tendência de saída da Grã-Bretanha ou a crise dos refugiados sírios e magrebinos, as instituições europeias mostram-se incapazes e dissonantes. Talvez porque elas foram criadas a pensar no “funcionamento normal” da Europa enquanto não surgissem grandes problemas e as questões pudessem ser resolvidas em consenso. Como não tem vindo a ser esse o caso, e o eixo franco- alemão está debilitado por um François Hollande errático, o poder deslocou-se e os governos nacionais voltaram a desempenhar o papel principal, com destaque para a Alemanha.

A Alemanha contribui sozinha com mais de um quarto do poderio económico na zona euro, e são seus os riscos maiores nos programas de ajuda aos países endividados do Sul da Europa. Com isto, coube-lhe a posição decisiva na fixação das condições para a ajuda, achando que pelo facto de a austeridade ter funcionado na Alemanha nos anos noventa, tal pode ser copiado a papel químico para países com outros estádios de desenvolvimento e outras políticas e práticas fiscais, orçamentais ou bancárias. Essa falta de tolerância e compreensão está pois a levar cada vez mais a uma Europa alemã longe da Alemanha europeia de Adenauer, Willy Brandt ou Helmut Kohl. É uma Europa em cadeira de rodas, e cada vez mais comatosa.


domingo, 20 de setembro de 2015

Setembro



Setembro com surpresa trouxe de volta o Verão perdido, bafejando de dias quentes almas amornadas por quotidianos duros, embora sob o zumbido de palavrosas campanhas eleitorais. As escola reabrem, ruidosas e alegres, as folhas amarelecem ameaçando cair, como autómatos, clientes entram e saem das compras, sacos cada vez mais leves, rostos fechados, a esperança sumindo-se no lado esquerdo da alma. É o país do fado, na mão de fadistas estafados, exasperando no IC-19, desesperando no Centro de Emprego, aflitos clamando por um milagre ao fim do segundo ato, que obvie um terceiro, de morte e sem glória. E as segundas iguais às sextas, a meia de leite da manhã, os jornais com manchetes da crise, os golos marcados e os penalties roubados, a necrologia, a ver quem deixou de fumar. E mais um corte, um despedimento, um gritar baixo na secretária ou balcão, no autocarro ou no médico. É da Europa, salivam especialistas em generalidades. É estrutural, alvitra um ex-ministro com reforma dourada e piedoso com os pobres. No jardim, putos rasgam os ares com acrobacias de skate, adultos sem skate derrapam nas esquinas da vida, hoje vidinha apenas, anémica e perigosa. Lê-se a opinião publicada para se ter opinião, há culpados, e os culpados são “eles”. “Eles”, sacrossanta tríade do nosso descontentamento, “eles”, que roubam, conspiram, tiram partido, servem-se. “Eles”, que são o corpo alienígena, possuídos mutantes e criaturas esfaimadas, adamastores de gravata e ogres de notebook, justiceiros de pecados por expiar.

Setembro levou a praia e devolveu a cidade. Asfixiante. Com coisas demais para dinheiro a menos, propinas a mais para livros a menos, cirurgias a mais para órgãos a menos, crise demais para esperança a menos. Nas notícias desfila a galeria dos horrores chegados e a chegar, e as certezas dum amanhã perturbador, levada a esperança nos oníricos dias da Expo. Assim és hoje, Portugal, velha corista de lantejoulas estafadas, apagadas que foram as luzes da ribalta.

Uma romena pede esmola, trespassado que foi o lugar a um mendigo morto de cirrose ou solidão, alheios, miúdos atafulham-se em pizzas e cola, velhos de todos os Restelos ocupam os bancos de jardim, no areópago do povo, esconjurando tudo, e sobretudo o tempo. O tempo que não conta com eles, e onde se limitam a passar o tempo.

Em Setembro tombaram torres, e, desafiadores bispos fizeram xeque ao rei. Não caiu, que os cavalos tomaram o tabuleiro, mas as regras mudaram, e Setembro mudou. À vindima das uvas sucedeu o pisar dos protestos, é Primavera nas mesquitas e logo virá  fogo incontido ardendo nas cidades da Europa alagada de refugiados da esperança, naúfragos da humanidade, do Inferno de lá, por cá, a cidade lusa promete mudar, ou talvez não, envolta na parafernália dos debates, do plafonamento e das pizzas com pepperoni. No quiosque dos jornais compram-se desgraças matinais, recebidas com torcer de nariz, valem as páginas eróticas, oferecendo ninfas a cinquenta euros em qualquer espelunca do subúrbio, ou a foto de mais um rosto que deixou de fumar

As árvores decepadas cresceram, crescem sempre, vingando o corte, altivas e ondulando. Zelosos, polícias amarelos fazem por deixar os condutores de sorriso mais amarelo ainda, no quotidiano jogo de gato e rato, terminado como sempre na costumada multa e no miar dos gatos. Deus criou o mundo, previdente, o homem urbano criou a multa. Teria Deus licença para exibir maçãs, cobras e homens nus na via pública? Coima garantida, asseveram os de amarelo, se multar pudessem esse tal Deus infractor…

Diminuem os dias. É bom. Menos horas cedidas à crise, menos multas, a serra exalando um cheiro a húmus em cada matinal despertar. Concentrado, um varredor recolhe os vestígios do Outono que se espalham nas ruas e nas almas, cumpridas as orgias de verde, folhas que foram de Verão e de Primavera.

Os deuses do Sul preparam a Viagem, deixando aflitos seres de regresso às cavernas, sem alegorias, assustados, passarão luas até regressarem, deixados a si próprios e ao Inimigo: “Eles”. Com sorte, alguns sobreviverão, portadores da esperança e da seiva fecunda numa renovada Primavera. Outros, tombados com as folhas de Setembro, e nos Setembros que se vão seguir provavelmente não, a romena continuará a pedir esmola, alegres miúdos comerão mais pizzas, circunspectos polícias aplicarão mais multas. Os jornais trarão novas capas, renovados, os rostos hão-de continuar esculpidos pelos tempos e por eles marcados, com a crise como marca de água. E Setembro também, no eterno spleen de lento adeus e prometida fénix.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O naufrágio da Humanidade


 
Existe hoje no mundo um contingente de cerca de 160 milhões de refugiados, pessoas forçadas a fugir por recearem pela sua vida e liberdade, e que na maioria dos casos, abandonaram tudo – casa, bens, família e país – rumo a um futuro incerto em terras estrangeiras, vindos da Síria, Líbia, Eritreia, Sudão, Afeganistão ou Iraque, países mergulhados em conflitos étnicos, religiosos, palco de senhores da guerra e do cinismo geopolítico das grandes potências.
 
Cada vez em maior número, vistos numa óptica securitária e com receio, os refugiados são em larga escala pessoas indefesas ante a violação cabal dos seus direitos humanos, não obstante os piedosos e retóricos tratados, acordos e protocolos internacionais visando protegê-los, mas que no terreno esbarram com a rejeição e o desdém do Outro, vizinho ou conterrâneo, por vezes com uma mera fronteira física ou um lago a separá-los.
 
A separação dicotómica neste mundo pós-moderno entre ricos e pobres, cristãos e muçulmanos, ocidentais e orientais, sunitas e xiitas, com que se tem rotulado comunidades inteiras, criou uma nova categoria de cidadãos de primeira e cidadãos de segunda, os desejados de um lado e os indesejados do outro. Hoje, deparamo-nos com novos escravos e estes têm um nome: refugiados, os novos indesejados, ameaçando a estabilidade económica e social e fazendo florescer sentimentos xenófobos e de afastamento, apesar das piedosas mas distantes e súperfluas campanhas nas redes sociais ou em protestos coloridos mas que não tiram ninguém da sua zona de conforto, como o não tiraram os Charlies ou os protestos anti-globalização dum passado recente, mobilizadores de jovens burgueses para happenings vistosos e pouco mais.
 
São precisas políticas humanitárias de inclusão social e acolhimento. O refugiado é alguém que perdeu quase tudo, e para quem apenas subsistiu a esperança, a raiar o desespero. Forçado a deixar o seu país, deambula hoje como zombie esmolando uma cidadania e implorando por liberdade, estima, emprego ou educação.
 
Segundo um relatório de 2002 do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, o ACNUR, em cada dez refugiados no mundo, sete foram acolhidos por países pobres, e entre 1992 e 2001, do total de refugiados, 86% provinham de países pobres. Quando virão os países desenvolvidos a assumir um papel proeminente na protecção dessas massas humanas em constante movimento, em diáspora permanente das suas pátrias, buscando nada mais que o sagrado direito à vida?. É urgente um Pacto de Humanidade visando a superação deste estado de insegurança colectiva em que o mundo vive, em colapso ético e moral, e que destaque a urgência do respeito pelo ser humano na sua diversidade bem como as diferentes culturas e crenças religiosas e políticas.
 
Se na frente diplomática é preciso por fim aos conflitos, sem sofismas ou tacticismos, é preciso igualmente tudo fazer para acabar com o tráfico de seres humanos, que acrescenta sofrimento e insegurança a populações já causticadas pelos conflitos que não criaram. E rejeitar os  discursos etnocêntricos, pois a humanidade constitui um só povo.
 
Aos refugiados é preciso reconhecer o direito de ser aceite, conferir-lhe direitos de cidadania que lhes devolva uma identidade e o direito de constituir e manter uma unidade familiar, o reconhecimento do casamento e os direitos para os seus filhos, sem cuja superação teremos o crescimento de um contingente de párias sociais. Mas também o direito a manter as suas crenças religiosas, a manter e praticar a sua língua materna e o seu património e herança cultural, o direito à educação e reconhecimento das suas qualificações, o direito a um emprego e remuneração dignos e em igualdade com os naturais dos países de acolhimento, e, sobretudo, o direito à segurança que os fez sair das suas pátrias, comunidades e famílias, para um mundo que julgavam deles e muitos teimam em considerar coutada privada com admissão reservada, e o direito de poder transitar livremente dentro do país que os acolheu e deste para o exterior, sem serem tratados como presos em liberdade condicional.
 
A Terra é um só país, e os seres humanos os seus cidadãos. Se esta visão pudesse ser rapidamente transformada em realidade pelos governos nacionais, muito em breve, e quem sabe ainda na primeira metade deste século XXI, teríamos um mundo onde o conceito de refugiado seria considerado algo ultrapassado. Até lá, continuaremos a ver chegar às praias do Mediterrâneo vidas que se perderam pela indiferença e rejeição. Uma vez mais, os sinos dobram. E dobram por nós, analfabetos da Humanidade e náufragos da solidariedade, alcateia ao invés de rebanho e seita em vez de comunidade.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O "Arreda" e Nevada Stoody, socialites de outros tempos



Passam hoje, dia 31, 150 anos sobre o nascimento do príncipe Afonso de Bragança, 3º Duque do Porto, 24º Condestável de Portugal e 51º e último vice-rei da Índia.
Segundo filho do rei D. Luís I e da rainha Maria Pia de Sabóia, e irmão mais novo do rei D. Carlos, desempenhou as funções de condestável do reino, tendo sido nomeado vice-rei da Índia em 1895, por ocasião de uma expedição a essas colónias. Representou algumas vezes o irmão em cortes estrangeiras. Foi general de divisão do exército português e inspector-geral da arma de artilharia, e comandante honorário dos Bombeiros Voluntários da Ajuda.
Jurado pelas Cortes herdeiro presuntivo da coroa portuguesa, durante o curto reinado de D. Manuel II, seu sobrinho, após a implantação da República em 1910, Afonso exilou-se com a mãe, a rainha Maria Pia, em Itália, onde residiu, em Nápoles.
D. Afonso ficou conhecido como «O Arreda». Amante de carros e de velocidade, corria pelas ruas da cidade no seu automóvel aos gritos «Arreda, Arreda!» para que as pessoas saíssem da frente, o que lhe valeu o cognome. Foi responsável pela organização das primeiras corridas de carros em Portugal. Em vias desenhadas para carros de bois e cavalos, sobressaia o automóvel do Infante que, como devem calcular, não teria muita facilidade de passagem para a velocidade,  que podia chegar na altura aos 40 km/hora. Assim, para facilitar a mobilidade, D. Afonso utilizava a sua voz como sinal de passagem, gritando constantemente "arreda!", para desimpedir a via.


A sua vida pitoresca terminou em 1908 com o regicídio. O infante era uma das personalidades que esperava a família real no cais do Terreiro do Paço no dia 1 de Fevereiro, ao lado do sobrinho D. Manuel (que mal sabia que estava a escassos minutos de se tornar rei), acompanhando a comitiva no seu automóvel na viagem que terminou tragicamente na esquina da Rua do Arsenal. Nessa viagem D. Carlos e D. Luís Filipe foram barbaramente assassinados e não fosse a fortuna (ou má pontaria) de o tiro que acertou em D. Manuel apenas o ter atingido num braço, e o "Arreda" teria deixado nesse dia de ser o bem-disposto infante para ser aclamado como D. Afonso VII. Nesse dia D. Afonso mostrou a sua fibra, tendo sido dos primeiros a apear-se do seu automóvel para acudir à família real que se fazia transportar num landau aberto. Quem sabe se pela sua experiência como bombeiro, mostrou ser um homem de grande coragem e sangue frio.
Jurado herdeiro presuntivo do trono, foi forçado a partir na Ericeira para o exílio no dia 5 de Outubro de 1910. Acompanhou a mãe, D. Maria Pia (que morreria poucos meses depois), e fixou residência em Itália. Teria continuado a ter uma vida pacata não fosse ter casado com uma americana de nome Nevada Stoody, conhecida como caçadora de fortunas e que pretendia certamente tirar algum benefício desse matrimónio. D. Manuel II não deu o seu aval ao casamento (terão mesmo cortado relações) e o infante acabou por casar morganaticamente em Madrid, em 1917. Ficou conhecido o embaraço do embaixador português na capital espanhola quanto à forma de tratamento de um membro da família real no exílio. Optou por tratá-lo por "Sua Alteza" sem mencionar o "Real".
Morreu em 1920 e foi o primeiro Bragança a regressar do exílio para o panteão de São Vicente de Fora. A americana, que numa foto conhecida parecia mais interessada na pose do que em carpir a mágoa pelo desaparecimento do marido, reivindicou metade do recheio do palácio da Ajuda, mas a sua herança foi bastante mais modesta.     


Nevada Stoody era a segunda filha de Jacob Walter Stoody e Nancy Miranda McNeel, e tinha quatro irmãs Cora, Clara, Josephine e Florence, e um irmão, Charles. Os seus três primeiros maridos foram: Lee Agnew, o milionário William Henry Chapman e Filipe van Volkenburg (1853- 1950). O quarto e último marido foi o 3.° Duque do Porto, D. Afonso de Bragança, com quem se casou morganaticamente a 26 de Setembro de 1917, em Roma, e a 23 de Novembro daquele mesmo ano, em Madrid, passando a usar o título de Duquesa do Porto.
Por testamento, Nevada foi herdeira universal do marido. Esteve em Portugal durante o litigioso processo de entrega dos bens e por ocasião da transladação do corpo do infante para o panteão dos Braganças, em São Vicente de Fora, e faleceu no St. Joseph's Hospital, em Tampa, Florida, aos cinquenta e cinco anos. Somente após sua morte, a Fundação da Casa de Bragança pôde recuperar o quadro "Batalha do Cabo de São Vicente", hoje no Museu da Marinha. A obra estava incluída na sua herança. 

Dois socialites em tempo de grandes mudanças.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Sintra, o Turismo e o Portugal 2020


 


O sector do turismo tem muito partido a tirar dos 21 mil milhões de euros do novo quadro comunitário de apoio, desde que aposte na competitividade, internacionalização e promoção, sendo que mais de 40% dos fundos comunitários são destinados à competitividade e à internacionalização, duas vertentes em que o turismo está e deverá estar bastante presente.
Não basta olhar para os fundos apenas na vertente da construção de equipamentos hoteleiros, mas sim numa lógica de promoção das empresas e dos destinos, com produtos novos, e uma maior rentabilização das vantagens competitivas de cada região. Há pois que alinhar estratégias e financiamento, instrumentos de política pública para o desenvolvimento do turismo e os Programas Operacionais do Acordo de Parceria 2014-2020, contribuindo para uma maior selectividade e articulação de investimentos, tendo em vista uma maior eficácia na aplicação dos fundos comunitários no desenvolvimento do turismo, num quadro que potencie redes e plataformas tendentes à valorização económica do turismo.
Sintra é um dos concelhos onde a actividade turística é central como actividade económica geradora de emprego, beneficiando da sua classificação como Paisagem Cultural da Humanidade, e de um conjunto de factores virtuosos onde se associam paisagem, História, gastronomia, praias e proximidade aos grandes centros urbanos e a um aeroporto internacional.
Em 2014 aqui se realizou o 49º Festival de Música de Sintra, eventos como a Feira Quinhentista, os Arabian Days e a Feira Setecentista, as Jornadas Europeias do Património, o XVI Congresso Ibero-Americano de Urbanismo, o Festival de Estátuas Vivas de Sintra ou o European Le Mans Series, 4 horas do Estoril. Entre as acções de promoção realizadas destaque para a habitual participação na BTL e a promoção do programa Active Sintra, dedicado ao turismo de aventura, a Promoção city & short breaks, e distinções para unidades hoteleiras de Sintra no âmbito da TripAdvisor Travellers Choice Awards 2014, a distinção de quatro monumentos de Sintra na categoria de “10 Principais Atracções em Portugal”, a distinção do destino Sintra no top das “10 Breathtaking Town in Europe you’ve probably never heard of”, a distinção do Festival de Sintra nos “10 Best Advice for Travelers”, um site associado ao jornal diário USA Today, e prémios para dois vinhos de Colares: o Casal Sta. Maria Sauvignon Blanc 2012, com a medalha internacional de prata no ”Concours mondial du Sauvignon 2014” e o Casal Sta. Maria Arinto 2013, com a medalha de prata no “Concurso de vinhos de Portugal 2014”. Quatro praias do concelho de Sintra foram distinguidas pela Quercus devido à excelência da qualidade das águas, e a European Best Destinations distinguiu Sintra com o 1º lugar na categoria “Castelos Mais Bonitos da Europa” e 4º lugar na categoria “Melhores Tesouros Escondidos da Europa“. Sem ser já novidade, Monserrate foi distinguido como melhor jardim histórico do mundo e a Parques de Sintra como melhor empresa de conservação de jardins históricos.
Em 2014 dispúnhamos de 1691 camas de alojamento tradicional, 78 no espaço rural e de habitação, 723 no campo da hospedagem, 502 em alojamentos locais e 166 em apartamentos, registando os nossos postos de Turismo até ao terceiro trimestre de 2014 221.857 visitantes. O Palácio da Pena, superando largamente o milhão de visitantes, foi o segundo monumento mais visitado do país.
Manter em qualidade e crescer em quantidade deve ser uma opção estratégica, sendo que os mercados europeus, o brasileiro e os asiáticos são referenciais. A nossa costa é excelente para a prática de desportos radicais, tendo o bodyboard já criado raízes e hábitos no mapa de eventos, captando um nicho de visitantes importante e animação nas nossas praias e zonas balneares, tudo se procurando fazer para trazer outros eventos, e que se possam distribuir ao longo do ano, dinamizando as zonas balneares na chamada “época baixa”, e com benefícios para o comércio local e os alojamentos hoteleiros. Também o segmento do golfe tem grandes potencialidades de expansão, cabendo aqui um papel fundamental aos operadores turísticos e às associações do sector. Destaque para a qualidade de campos como os da Penha Longa, Belas Clube de Campo ou da Beloura, com provas dadas e número de eventos ao longo do ano.
Sintra é uma região bastante heterogénea como destino turístico, seja no plano cultural, balnear ou artístico, estando a surgir novas centralidades em espaços menos usados, como a Quinta da Ribafria, o antigo Museu do Brinquedo, futuro Museu das Notícias, a abrir em Março do ano que vem, o Centro Interactivo Mitos e Lendas, que abrirá no dia 31 de Julho no antigo Turismo, e o Centro Cultural Kobayashi, a abrir em 2016.
Também no sector vinícola há potencialidades a explorar. Colares é região demarcada desde 1908 e as características únicas dos seus vinhos devem-se à combinação de castas, solo e clima temperado e húmido no Verão, mas principalmente ao facto da vinha ser plantada em "chão de areia". O vinho de Colares não é produzido numa área muito extensa, pelo que a sua produção é limitada, mas tem vindo a obter bons resultados no mercado exportador, assim procurando nós que se mantenha, bem como a denominação de origem e o prestígio que lhe está associado.
 
A gestão da orla costeira é uma área onde a Câmara se tem de articular com diversas entidades da Administração Central. A conjugação mágica de uma serra inebriante com um litoral de praias atlânticas e límpidas, a sensação inesperada de tanto se poder sentir na Baviera ou na floresta tropical, associado a um intenso festival dos sentidos para percorrer demoradamente, fazem de Sintra, como escreveu Vergílio Ferreira, “ o único lugar do país onde a História se fez Jardim.”
No contexto das visitas tendo por destino Lisboa- e agora alargadas com o aumento dos barcos de cruzeiro e a instalação de companhias aéreas low cost no aeroporto de Lisboa-, Sintra tem visto aumentar o número de visitantes, o que, sendo uma boa notícia, deve ser aprofundado no sentido de convencer os operadores e visitantes de que tal período não é minimamente suficiente para apreender e usufruir de tudo o que Sintra tem para oferecer. O aumento do número de visitantes, num ano que assinala os 20 anos da elevação de Sintra a Património da Humanidade na categoria de Paisagem Cultural e a permanência de visitantes por períodos superiores a um dia, bem como a complementaridade de oferta, não só ao nível patrimonial, mas da frequência de espectáculos e eventos, são realidades que merecem acompanhamento e investimentos sólidos e sustentáveis, bem elaborados, com branding e planos de negócios assentes em estudos aturados. Para tanto, não se pode desperdiçar a oportunidade que o Portugal 2020 oferece nos seus diversos programas, devendo pois todos os operadores do sector apresentarem projectos e apostarem na criação de Futuro, assim virando a página do crescimento anémico dos últimos anos, mas que na área turística felizmente se não fez sentir tão gravosamente. Não há galinhas de ovos de ouro, mas há que aproveitar os ovos para fazer as melhores omeletas.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sugestões Culturais- 24 a 31 de Julho


24 A 26 DE JULHO

EXPOSIÇÕES CANINAS DE SINTRA



34.ª EXPOSIÇÃO CANINA NACIONAL DE SINTRA e  32.ª EXPOSIÇÃO CANINA INTERNACIONAL DE SINTRA. As exposições vão ter lugar no largo S. João das Lampas.Como nos anos anteriores, as exposições receberão canicultores espanhóis, franceses, belgas, italianos e de outros países da Europa, estando igualmente presente um significativo número de portugueses.

O grupo de jurados deste ano engloba juízes portugueses, bem como outros oriundos da Rússia, Reino Unido, Noruega, Suécia, Finlândia e Geórgia.
Simultaneamente serão realizadas exposições monográficas de Terriers/ Bouledogue Francês, e mostras especializadas de outras raças, bem como os concursos de «jovens apresentadores».

Das 10.00h às18.30 h. Entrada livre.
25 DE JULHO- 18H 30M. DANÇAS COM HISTÓRIA NA QUINTA DA RIBAFRIA




                      
A Quinta da Ribafria situa-se na Estrada da Várzea, em Sintra, e está aberta das 10h00 às19h00 até Setembro.
29 DE JULHO A 1 DE AGOSTO
DESPEDIDA DE NOSSA SENHORA DO CABO ESPICHEL
PARQUE DA LIBERDADE, SINTRA
"ALMOÍNHAS", PELO TAPAFUROS
SEXTAS E SÁBADOS- 21H30M, DOMINGOS 18H


SUGESTÃO DE LEITURA
"SUMA UMA" O MAIS RECENTE LIVRO DE JORGE TELLES DE MENEZES

Nova obra de Jorge Telles de Menezes (em pé, à direita, durante a recente apresentação da obra em Sintra) autor de "Selenographia em Cynthia" e "Novelos de Sintra", dinamizador da tertúlia literária Meninos da Avó e do web jornal cultural Selene- Culturas de Sintra. Uma viagem pelos sentidos com Sintra como silhueta onírica.