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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sintra: o turismo criativo como vantagem competitiva

Uma das principais vantagens no relacionamento da cidade para com a actividade turística decorre, efectivamente, da capacidade dos gestores do território no planeamento e estruturação da oferta turística, que permita a Sintra e aos operadores turísticos, “vender”, de modo mais eficiente, este destino e satisfazer adequadamente, as exigências da procura turística.
Actualmente, o Turismo é um dos sectores com maior crescimento na economia mundial, sendo que, de acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT), em 2010 as chegadas de turistas internacionais perfizeram 940 milhões em todo o mundo, ou seja, mais 58 milhões relativamente ao ano anterior. No caso específico do Turismo Cultural, importa pois, perceber qual o tipo de turista e quais as suas motivações. Neste âmbito, definiu-se uma tipologia para o caso europeu, indicando três perfis de turistas culturais: a) os “culturalmente motivados”, que são um segmento de mercado pequeno que é atraído a um destino por motivos culturais, o que os leva a passar várias noites no local de destino turístico; b) os “culturalmente inspirados”, que são inspirados por locais de interesse cultural e patrimonial,  passam curtos períodos de tempo nos destinos culturais e não estão motivados para regressar ao mesmo local; e, c) os “culturalmente atraídos”, que são aqueles que realizam a visita de um dia a sítios de interesse cultural ou patrimonial. De acordo com a Organização Mundial de Turismo, o Turismo Cultural refere-se a “todo o movimento de pessoas que satisfazem a sua necessidade humana da diversidade, com tendência a elevar o nível cultural do indivíduo e proporcionam um novo conhecimento, experiência e encontros”. De acordo com estas definições, pode entender-se o Turismo Cultural como a realização de visitas a monumentos e locais históricos, através das quais os turistas procuram conhecer e “absorver” a cultura e a história dos locais visitados.
A motivação do turista foi evoluindo naturalmente e, para além de absorver a cultura, deseja, cada vez mais, participar na experiência e tornar-se parte activa do produto. Perante este facto, o surgimento do Turismo Criativo emergiu como algo natural, como sugere a primeira definição de Turismo Criativo, a qual foi apresentada na Association for Travel and Leisure Education (ATLAS), em Novembro de 2000, por Crispin Raymond e Greg Richards, a qual define Turismo Criativo como: “o turismo que oferece aos visitantes a oportunidade de desenvolver o seu potencial criativo através da participação activa em cursos e experiências de aprendizagem que são características do destino de férias onde são realizadas”.
Desta forma, o Turismo Criativo evidencia algumas vantagens sobre o “tradicional” Turismo Cultural, tais como:
a)a criatividade pode potencialmente adicionar valor em áreas relativas à cultura e, em particular, aos tradicionais produtos culturais;
b)a criatividade permite aos destinos criar novos produtos, dando-lhes uma vantagem competitiva sobre outros locais;
c)porque a criatividade é um processo, as fontes criativas são, geralmente, mais sustentáveis que os produtos culturais tangíveis;
d)a criatividade é geralmente mais móvel do que os produtos culturais tangíveis,porque dependem da localização física do património cultural, enquanto que a criatividade pode ser, por exemplo, transportada em festivais de arte e música;
e)a criatividade envolve não apenas valor de criação mas, também, uma criação de valores: ao contrário das antigas fábricas do conhecimento, como os museus, os processos criativos permitem criar muito rapidamente uma nova geração de valores.
Deste modo, a criatividade possibilita a criação de novos produtos turísticos para as cidades e regiões, acrescentando valor aos produtos culturais, e garantindo a sustentabilidade dos recursos, não estando subordinada à localização física desses, como acontece com o Turismo Cultural tradicional, permitindo a criação de novas ideias e valores.
Assim, contribui para a valorização do indivíduo enquanto parte integrante de uma experiência turística em detrimento da estrutura física. A criatividade procura proporcionar uma experiência turística que vai além do observar o monumento ou local histórico dando ênfase à parte imaterial como aos cheiros, sons, imagens, histórias, lendas e memórias do local que se está a visitar.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A tragédia grega e a ópera bufa portuguesa


Não, a Troika não era uma dançarina de Leste dum qualquer night-club de Lisboa, nem o gerontocrático Politburo que dirigiu a União Soviética no tempo de Brejnev. Esta troika com que diariamente nos atazanam os ouvidos, foram tão só uns capatazes da finança europeia que ninguém elegeu, impondo medidas que nenhum Parlamento aprovou, não respondendo perante o Parlamento Europeu, mas tão só perante essa figura omissa no Tratado de Lisboa chamada “Eurogrupo”.
Sejamos claros: o FMI é uma instituição vocacionada para as crises de pagamentos, um regulador criado após Bretton Woods, e tido como o Godzilla dos desgovernados. Só que se Godzilla assustava e dominava, também destruía tudo à sua passagem. Já os nossos “amigos” da EU disseram-nos: emprestamos dinheiro, e vocês fazem esta dieta, não para serem um país melhor e voltar a crescer mas para ver se ao menos nos pagam de volta. Submissos, os políticos reúniram com eles a “negociar” profundamente o draft que já traziam alinhavado, mas como capatazes dos Junots e Beresfords do século XXI. Em Belém, o D. João VI de Boliqueime e sua Carlota Joaquina tudo observaram sem intervir. Claudique o país mas fique o algarvio “aliviado” a observar cagarras.
 A troika pensou na fuga de capitais, no branqueamento ilícito ou nas off-shores sorvedoras? Não, que se podia afugentar os investidores. O povo já está habituado, e no cinto português há mais furos que cinto para apertar. Os municípios queriam discutir o seu futuro com critérios de respeito pelas populações e tendo em vista reduzir assimetrias? Não, juntem-nos todos para reduzir as despesas. Os funcionários são parasitas? Há que desparasitar, esquecendo a troika  ser ela um bando de simples funcionários intermédios, que os chefes (um deles até português, por sinal)nem se deram ao trabalho de cá vir, deixando a tarefa aos burocratas que puseram o país em sentido e os políticos a arfar, de língua de fora. Se é certo que é preciso dinheiro, e há que pagar, seria de esperar um pouco mais de respeito por um país com novecentos anos, onde os fundadores já muitas voltas devem ter dado no caixão. Almada Negreiros tinha razão quando dizia que o pior de Portugal eram os portugueses…
A dívida virou obsessão e as pessoas ,números, em relatórios anódinos dos eurocratas e seus mandantes lá para os lados do Terreiro do Paço,  fugindo os portugueses para um exílio forçado, escapando dum país que lhes nega Futuro. O Governo tem o isqueiro da fogueira social, e actua achando que tudo deve ser acatado, louvando os portugueses como um povo pacífico.  Pacífico, mas não manso. É um direito natural lutar pela sobrevivência, contra a fome e pela dignidade, sobretudo quando não se contribuiu para o descalabro das contas e nenhum dirigente político foi levado ao banco dos réus por gestão danosa. Os gregos, temerários, poderão cair, mas cairão de pé, não de cócoras como nós, os “bons alunos”, apaniguados de Berlim e do diktat financeiro
Dantes havia Europa e europeus. Agora há os contribuintes alemães e finlandeses, os despesistas portugueses, os desgovernados gregos e os desempregados espanhóis. E um barco à deriva, que, afogando-se, ainda dá instruções do navio almirante. Devem os remadores agrilhoados esperar pelo naufrágio, para só então se tentarem safar? Deve pactuar-se com o fim dos serviços de saúde, da escola pública, do Estado Social e tudo o que os arautos do Portugal de sucesso fizeram para voltarmos a ser o país da tanga?
 
Tal como o cão de Pavlov, sem osso não há saliva, mas pode haver dentada. É pois de prever que a resistência tenha um limite, que se sente nos assaltos e roubos que preenchem os noticiários dos jornais e tablóides, na violência doméstica, nas depressões e nos ajuntamentos de massas, só se arranjando escape nas novelas do futebol ou destilando fel nas redes sociais.
Esquecem muitos que foi em Portugal que se queimaram judeus, se executaram os Távoras, que aconteceram lutas fratricidas entre liberais e miguelistas, que um rei e um presidente foram assassinados no século XX, a par dos exemplos pouco pacíficos da camioneta fantasma, da Carbonária ou das FP-25. Como escreveu o poeta Aleixo “Vós que lá do vosso Império/Prometeis um mundo novo/ Calai-vos que pode o povo/ Querer um mundo novo a sério".
Quererá?

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Sugestões Culturais em Sintra

QUINTA DA REGALEIRA- A PARTIR DE 10 DE JUNHO
A Quinta da Regaleira vai ser palco da peça de teatro “Os Lusíadas – Viagem Infinita”, a partir da obra original de Luís de Camões, pela Musgo- Produção Cultural, a partir de 10 de Junho.

O espectáculo "Os Lusíadas - Viagem Infinita" pretende resgatar a obra-prima de Camões das águas paradas da monotonia a que a escola a tem sujeito, devolvendo, através de um conjunto de efeitos cénicos apurados (cenografia imersiva que amplia a experiência do espectador, música original e sonoplastia em sistema de som surround), alguns dos episódios mais emblemáticos do épico português. 

Um marinheiro intemporal, memória de Vasco da Gama, Camões ou tantos outros marinheiros lembrados, desagua em Sintra e abre a porta para uma viagem com transbordo na Ilha dos Amores, metáfora de lugar de perfeição a que a Quinta da Regaleira tão bem poderia corresponder.

De 10 de Junho a 20 de Dezembro, aos sábados, domingos e feriados, às 17h00.

Preço: 7€, 5€ /pax escolas e grupos, desconto de 2€ para clientes CP com bilhete família ou passe mensal; grupos com mais de 10 pessoas (inc.); sócios People Family Club. Condições especiais para portadores de Cartão Cultura Sábado. 

Disponível durante a semana para escolas e grupos organizados, sob consulta e marcação através de ou do tel. 938 598 247 
Informações e reservas:
Fundação Cultursintra, 219 106 650


CASA DO FAUNO
10 DE JUNHO, 16H
ENTRADA LIVRE
Apresentação do Livro: UM ANTÓNIO TELMO
de PEDRO MARTINS
com MIGUEL REAL e ANTÓNIO CARLOS CARVALHO

Uma leitura irradiante do grande filósofo português do esoterismo em diálogo com Camões, Verney, Pessoa, Pascoaes, Leonardo Coimbra, Agostinho da Silva, António Quadros e Herberto Helder

«Agostinho da Silva não concorda, estou bem certo, com as extensas homenagens que lhe têm feito depois da sua morte. Não concordará também com a imagem que daí resulta. Gostará de ver quem se lhe oponha, sem insulto ou grosseria, mas por pensar diferente.» (António Telmo)

«Quem foi, quem é António Telmo? Partiu há quase cinco anos, deixando-nos uma saudade imensa, um vazio que nunca conseguiremos preencher, uma vasta obra por decifrar, um exemplo de filósofo errante e exilado na sua própria terra, como sempre acontece neste País envolto em brumas de inveja. Mas desde então a sua ausência física tornou-se presença constante entre aqueles que o conheceram e os que o vão descobrindo nas páginas que publicou. Nunca foi mestre de ninguém, jamais teve essa pretensão, mas quando lemos as suas palavras sentimos inevitavelmente que habita nelas uma luminosidade especial, a de alguém que buscou precisamente a luz e soube transmitir as suas centelhas nas reflexões que nos legou. Assim iluminado, António Telmo conseguiu sempre ver/ler para além da literalidade dos textos sobre os quais meditou, alguns deles (como Os Lusíadas) ao longo de dezenas de anos.

O livro que agora temos diante de nós, escrito por Pedro Martins, nasceu de uma dupla atitude de humildade e de admiração, duas virtudes que há muito, infelizmente, caíram em desuso neste País. E, no entanto, a humildade é a qualidade mais importante para todos os que pretendem entrar no estudo da verdadeira sabedoria, como já lembrava o kabbalista Moisés Cordovero no século XVI (Moisés, o profeta maior, foi chamado ‘o humilde’). Quanto à admiração, é em si mesma um princípio essencial para quem procura seguir pelos caminhos da Filosofia – que ‘serve menos para nos dizer o que é do que para afirmar aquilo que deve ser’, como escreve Pedro Martins.» (António Carlos Carvalho in Prefácio)

Pedro Martins nasceu em Lisboa em 22 de Janeiro de 1971. Jurista e advogado, licenciou-se em 1993, pela Faculdade de Direito de Lisboa. Pós-graduou-se em Sociologia do Sagrado e do Pensamento Religioso, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Vive há muito em Sesimbra. Aqui ou em Estremoz, conviveu uma década bem contada com António Telmo, de quem é um continuador. É autor dos livros O Anjo e a Sombra: Teixeira de Pascoaes e a Filosofia Portuguesa (2007), O Céu e o Quadrante: desocultação de Álvaro Ribeiro (2008), O Segredo do Grão Vasco: de Coimbra a Viseu, o 515 de Dante (2011), Teoria Nova da Saudade (2013), Agostinho da Silva em Sesimbra (em colaboração com António Reis Marques, 2014) e Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo (em colaboração com João Ferreira e Rui Lopo, 2014). Tem colaboração nas revistas A Ideia, Devir, Invenire, Callipole, Nova Águia, Teoremas de Filosofia e Cadernos de Filosofia Extravagante, de que foi co-coordenador entre 2009 e 2013. Membro fundador do Projecto António Telmo. Vida e Obra, integra a coordenação editorial das Obras Completas de António Telmo, em curso de publicação na Zéfiro. Integra a equipa de investigadores do projecto “Redenção e Escatologia no Pensamento Português”, da Universidade Católica Portuguesa, onde irá colaborar com artigos sobre Grão Vasco, Jaime Cortesão e António Telmo. É membro do Conselho Fiscal do Centro de Estudos Bocageanos, de Setúbal. Entre 1999 e 2005, foi editor da agenda cultural Sesimbra Eventos e coordenador da Colecção Livros de Sesimbra.
QUINTA NOVA DA ASSUNÇÃO- A PARTIR DE 12 DE JUNHO
 A Quinta Nova da Assunção, em Belas, abre portas para assombrar os visitantes que vão viver uma experiência inédita de terror e medo, a partir de 12 de junho. 

Trata-se de uma experiência de grupo sobre o medo, que envolve todos os sentidos e que criará momentos em que a coragem será posta à prova. Como seria de esperar, o objectivo final deste jogo é encontrar a saída da casa. 

Nesta iniciativa do Teatro Reflexo, os grupos são acompanhados por um audioguide no qual é transmitida a história da quinta e as pistas a seguir para encontrar a saída.

As visitas do público à quinta decorrem às sextas-feiras e sábados, entre as 21h30 e as 24h00. A entrada não é permitida a menores de 16, nem aconselhável a grávidas ou a pessoas com problemas cardíacos. O custo por pessoa é de dez euros.
Tel. 21 016 83 82


LIGA DE AMIGOS DA TERCEIRA IDADE "OS AVÓS"
13 DE JUNHO
A Liga dos Amigos da Terceira Idade “Os Avós”, a fim de promover a angariação de alguns fundos financeiros, vai promover  a II Noite de Santo António, a realizar na sede da liga (Av. General José Estevão de Morais Sarmento, nº 8), no dia 13 do corrente mês.
Zumba Solidária, será uma sessão que terá lugar no dia 20 de Junho no campo de treinos do 1º Dezembro, em São Pedro.

COMPANHIA DE TEATRO CHÃO DE OLIVA
AUDITÓRIO ANTÓNIO SILVA, CACÉM
19 DE JUNHO





 REI UBU
Com Nuno Correia Pinto, Nuno Machado e Regina Gaspar

Músicos: Hildebrando Silva e Lito Pedreira
Vozes Off: Carla Dias, Fernando Ferreira , João de Mello Alvim, Tiago Matias

A peça de Alfred Jarry marcou o início de uma série de discussões que desencadearam uma verdadeira transformação no teatro.
Um espectáculo com actores, marionetas e músicos ao vivo, centrado na personalidade de Ubu e no jogo do poder. A acção passa-se na Polónia, “reino em parte nenhuma”. Ubu, personagem misto de grotesco e cómico, provoca um regicídio e usurpa o trono, exercendo o poder de forma brutal e sanguinária.
Tendo em conta as duras e paradoxais realidades a que vamos assistindo um pouco por todo o mundo, Rei Ubu é um espectáculo brutalmente actual onde, entre outras erupções do Real, nos rimos dos maiores defeitos do ser humano.

sábado, 6 de junho de 2015

"Histórias Com Sintra Dentro"- A crítica de Miguel Real

É com prazer e consideração que reproduzo a crítica que o escritor e ensaísta Miguel Real fez do meu livro "Histórias Com Sintra Dentro"


FERNANDO MORAIS GOMES



O ROMANCE DE SINTRA



Histórias com Sintra Dentro (2015), livro singular de Fernando Morais Gomes, acabado de ser publicado, bem poderia ser designado por “o romance de Sintra”.

Fruto de uma poderosa imaginação, harmonizando o pormenor mais ínfimo com as múltiplas visões gerais sobre Sintra (Romantismo, Misticismo, Sintra Templária, Sintra Medieval, Sintra Turística…), tomando como base os inúmeros factos e as inúmeras lendas sobre a Vila, Fernando Morais Gomes escreveu um brilhante livro de contos/crónicas ou crónicas/contos sobre o tema que como presidente da Associação Alagamares há muito o preocupa e lhe move dos dias como uma espécie de “guardião cultural” do concelho.

Dividido em duas partes, “Viagem Espectral” e “Café com Adoçante”, Histórias com Sintra Dentro reparte-se entre a historiografia ficcional do concelho (I Parte) e a narração de pequenas histórias actuais (II Parte).

Deste modo, o autor inicia o livro com um relato sobre a cosmologia mítica de Sintra, celebrando a aliança entre os moradores (os Terráqueos) e a Serra, bem como as relações entre o panteão dos deuses gregos, Ulisses e um filho deste que teria aportado a um “alagamar”, junto ao rio das Maçãs. Do mesmo modo, relata as antigas invasões nórdicas que teriam assolado “Xintara” e Colares. A crónica/conto “Alla u akbar!” introduz o reino mouro em Sintra e, de imediato, a sua conquista por D. Afonso Henriques.

E assim o livro continua, atravessando os momentos mais importantes da história da Vila, até se findar já este século, em 2011, com a narração de uma estória exemplar sobre o abate indiscriminado de árvores. Pelo meio, ficam 190 pp. com numerosas narrativas, algumas factuais, outras ficcionais, outras, ainda, biográficas relativas às mais importantes figuras que fixam para todo o sempre a História de Sintra.

Não se tratou de reunir provas documentais nem de consultar espólios ou registos de fidelidade absoluta ao passado segundo o método historiográfico alexandreherculiano, mas de, com base nestes, na experiência pessoal do autor na sua infância e adolescência em Galamares/Colares e seguindo o relato popular de lendas, estórias, contos, mitos – e certamente o resultado de inúmeras leituras consultadas nas bibliotecas do concelho - de reunir num volume único o grande espólio da tradição histórica de Sintra.

Trata-se, portanto, de juntar num só texto a cultura árabe remanescente nos saloios e o impulso romântico da Condessa de Edla e D. Fernando II, de ligar a visão musical erudita de Olga Cadaval e as histórias dos poetas e contadores populares sobre fantasmas e espectros da Serra, de reunir a visão da caravela regressada da viagem marítima para a Índia presenciada por D. Manuel na Peninha às aventuras trágicas de D. Sebastião, de agrupar o segredo dos Templários às investigações histórico-míticas de João Rodil, de associar o alto egotismo narcisíaco de M. S. Lourenço às tertúlias contestatárias de Mário Dionísio e José Gomes Ferreira na década de 1950, das intrigas populares entre terras e entre vizinhos à eterna rivalidade entre Sintra e Lisboa, da instauração da República em Sintra às desgraças da I Guerra Mundial registadas em pedra na Correnteza…

Têm agora os sintrenses à sua disposição o elenco deste longo repositório cultural de 800 anos que é a história de Sintra. Basta consultar o livro e segui-lo página a página e, se formos vocacionados para a ficção, lê-lo com prazer; se formos vocacionados para a História, extrair de cada conto/crónica o sumo histórico.

Inspirado no realismo histórico (há sempre um fundo real, ainda que lendário, ou a experiência pessoal do autor para os tempos mais recentes em todos os contos/crónicas) e dotado de um estilo sintacticamente flexível, compondo frases longas, Fernando Morais Gomes utiliza um léxico ora popular, ora psicológico (baseado no conhecimento empírico dos homens), ora erudito, um vocabulário ora concreto (algumas estórias podem ser lidas por ou para crianças), ora abstracto, Histórias com Sintra Dentro merece ocupar um lugar especial nas bibliotecas do concelho e nas pastas dos professores como material de apoio às aulas sobre a longa história da nossa vila e concelho.

Parabéns ao autor.
                                                           

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Sintra e o Portugal 2020


Portugal vai dispor de 21 mil milhões de euros nos próximos sete anos, divididos em quatro programas operacionais temáticos e depois em regionais: Norte, Centro, Lisboa, Alentejo, Algarve, Açores e Madeira. Os quatro programas operacionais temáticos são os da competitividade e internacionalização o primeiro e mais dotado), inclusão social e emprego, capital humano e sustentabilidade, e eficiência no uso de recursos, tendo apresentado em 30 de Março de 2014 o projecto destes quatro programas operacionais temáticos e de cada um dos cinco programas operacionais regionais. No Portugal 2020, que é como se chama o actual ciclo, que substitui o QREN, a competitividade é a primeira prioridade, sendo que os Fundos Europeus para a região de Lisboa vão crescer 170%, embora o Programa Operacional Regional de Lisboa vá ter apenas 833 milhões de euros (no QREN, no ciclo que agora terminou, a região de Lisboa teve apenas 300 milhões.)

Em Sintra, onde podemos ir buscar os apoios de que necessitamos?

Por um lado, ao Banco de Desenvolvimento, cuja operacionalização se impõe. Continuando a haver apoios às empresas no formato tradicional, isto é, no sistema de incentivos para acções colectivas, feiras, internacionalização, etc., há que reconhecer que há um problema sério nas empresas que tem a ver com dificuldades ao nível do financiamento. Crédito de longo prazo continua a não haver e quando há é caro, e as empresas têm capitais próprios muito baixos. Uma opção será pegar numa parte das verbas destinadas às pequenas e médias empresas e afectá-las a um Banco de Desenvolvimento que apoie as empresas por via de dois instrumentos novos, que serão: a possibilidade de bonificar o juro que a banca comercial estabelece, usando a banca comercial como intermediária na ligação às empresas, garantindo que tal bonificação de juros se repercuta na taxa de juros do mercado e não fique do lado do activo dos bancos nem sirva para fazer a “limpeza”de balanço dos bancos que vão substituir um crédito mau por um crédito bom; e ajudar a promover o reforço dos capitais próprios das empresas. Se o mecanismo funcionar, depois o Banco recuperará o dinheiro que emprestou, com a contrapartida que ficar acordada uma indexação aos resultados que a empresa tiver tido. O Banco de Desenvolvimento arriscará onde a banca comercial ou os fundos de investimento também arriscarem. O Banco irá viver de fundos europeus, de reembolsos de anteriores quadros de programação e dos futuros quadros de programação – dos reembolsos do dinheiro, dos sistemas de incentivos às empresas, e tais reembolsos irão constituir o capital do futuro Banco de Desenvolvimento, podendo igualmente vir-se a beneficiar de linhas de financiamento do Banco Europeu de Investimentos e de outros bancos estrangeiros congéneres.

Este financiamento é indispensável, pois subsistem problemas nas empresas que se querem internacionalizar, e que enfrentam problemas no que a garantias bancárias dos empréstimos concerne, por exemplo. Com tal Banco, e com medidas urgentes de apoio enquanto o mesmo não está operacional, poder-se-ão dar passos no sentido de concretizar o objectivo da Competitividade, um dos eixos do Portugal 2020. Efectivamente, muitas empresas estão descapitalizadas, e o tecido empresarial está muito frágil, sendo impossível exportar com margens de 10% quando as taxas de juro às vezes são 7 e 8%, mais o capital de risco inerente.

No funding do Banco de Desenvolvimento entrará dinheiro de vastas origens, indo os fundos europeus para pequenas e médias empresas, mas se for financiar-se junto do Banco Europeu de Investimentos, por exemplo, que está a emprestar dinheiro a 0.6%, o Banco poderá intermediar para as empresas. Para as PME’s, a zona de Lisboa apenas dispõe de 203 milhões de euros, o que é muito pouco, atendendo a que são 203 milhões de euros em sete anos, e para mais de duma dezena de autarquias.

É possível também que a agricultura possa ter um papel relevante no desenvolvimento do País, sendo a área onde se cria mais emprego com menor investimento, pelo que pode haver aqui um potencial enorme, podendo igualmente vir a angariar-se verbas do Fundo Social Europeu destinadas à área da agro-indústria.

Portugal é o terceiro País da Europa com maior número de investigadores por habitante, (à nossa frente está a Dinamarca e a Suécia) mas está na cauda da Europa do número de investigadores nas empresas. A União Europeia decidiu- mas mal- acabar com o financiamento às universidades para investigação e desenvolvimento. Contudo, há a possibilidade de financiamento de investigação no âmbito das empresas, o que pode ser um veículo para manter muitos dos apoios que de outra forma terão de deixar de ser financiados.

A questão da requalificação urbana, é uma questão séria. O Portugal 2020 fixou os grandes objectivos dos fundos europeus, e quando olhamos para a lista dos objectivos não está lá nada que se pareça com regeneração urbana. Há que fazer interpretações extensivas de outros objectivos. Por exemplo, ao nível da inclusão social, ou da eficiência energética, para onde se podem captar fundos não reembolsáveis, porque a lógica do reembolsável aparece apenas quando há retorno económico. Também pelo lado da recuperação do património cultural se podem contemplar verbas.

Dispõe o Acordo de Parceria 2014-2020:

Na perspetiva da política e do desenvolvimento urbano, assumem relevância os processos de regeneração e revitalização urbana nos principais nós estruturantes do sistema urbano nacional, contribuindo não só para a competitividade económica e para a atratividade desses centros, como também pelo impulso que proporciona à qualidade de vida e bem-estar dos seus habitantes, numa lógica de promoção de cidades mais compactas, privilegiando um uso mais eficiente do solo, menores deslocações dos seus habitantes e uma oferta de maior qualidade e mais racional de serviços públicos e coletivos. De forma a tornar as cidades mais sustentáveis, as intervenções deverão privilegiar áreas como a eficiência energética, a mobilidade, a habitação e regeneração urbana, a melhoria da eficiência no uso dos recursos, etc. Neste sentido, os apoios deverão prosseguir três grandes prioridades de investimento: i) transição para uma economia com baixas emissões de carbono; ii) melhoria do ambiente urbano, revitalização das cidades e de áreas intervencionadas no sentido da recuperação e descontaminação de zonas industriais abandonadas; iii) regeneração física, económica e social de comunidades desfavorecidas

Entre os eixos temáticos apresentados no referido acordo saliente-se a relevância do Eixo Temático 4, referente à Sustentabilidade e Eficiência no Uso dos Recursos, que  tem como principais prioridades a concessão de apoio à eficiência energética, à gestão inteligente da energia e à utilização das energias renováveis nas infraestruturas públicas, nomeadamente nos edifícios públicos e no setor da habitação; a promoção de estratégias de baixo teor de carbono para todos os tipos de territórios, nomeadamente, as zonas urbanas, incluindo a promoção da mobilidade urbana multimodal sustentável e medidas de adaptação relevantes para a atenuação. (Aí poderão incluir-se projectos para aumento da eficiência energética no sector dos transportes públicos de passageiros; diversificação energética no sector dos transportes públicos de passageiros; promoção da circulação sustentável e com baixa emissão de carbono; elaboração de planos de mobilidade para as áreas metropolitanas, municipais ou intermunicipais; promoção da mobilidade inteligente; apoio à conversão de veículos para o uso de fontes de energia de baixo carbono nos transportes públicos de passageiros; desenvolvimento da mobilidade eléctrica, etc).

Ainda com relevância para a estratégia de reabilitação urbana destaque para o Eixo Temático 6- Preservar e proteger o ambiente e promover a utilização eficiente dos recursos. Este eixo temático é elegível para territórios na Região de Lisboa e Vale do Tejo no ponto 6.3 que remete para a “conservação, protecção, promoção e desenvolvimento do património natural e cultural”, cujo objectivo específico é o de “Promover a valorização do património cultural e natural, afirmando a região de Lisboa como destino turístico de excelência”, e o ponto 6.4 “Protecção e reabilitação da biodiversidade e dos solos, e promoção de sistemas de serviços ecológicos”, com o objectivo específico de “Promover o conhecimento e a valorização da biodiversidade e dos ecossistemas”.

Alguns campos, pois, onde Sintra pode e deve captar financiamento, seja ao nível do Município, empresas ou ONG’s.

 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Turismo em Sintra- Números e Sugestões


De acordo com o Plano Estratégico do Turismo da Região de Lisboa para o período 2015-2019, elaborado pela Roland Berger Strategy Consultants, em 2014, foram considerados vectores estratégicos para o concelho de Sintra: a Marca Sintra, Capital do Romantismo; a oferta monumental; o turismo de golfe; o turismo de natureza; a existência e necessidade de uma hotelaria diversificada, e o aproveitamento turístico das quintas.

Segundo esse estudo, 35% dos turistas que visitam Sintra (dados de 2013) fazem-se no regime de visita de um dia (day trip), tendo contudo as dormidas aumentado 8,8% entre 2008 e 2012, e as camas 6,6%, não obstante as dormidas em Sintra em toda a região objecto do Plano não passem dos 3% do total, com 72% dos visitantes a alojar-se noutros locais. Sintra dispunha (dispõe) desde então- 2013- de 137 unidades hoteleiras, num total de 1350 quartos e 2840 camas, tendo tais unidades recebido em 2013 136.500 hóspedes, num total de 290.000 dormidas. No que a visitas concerne, nesse ano a Pena teve 778 mil visitantes, o Palácio da Vila 393 mil, Queluz 124 mil, o Castelo dos Mouros 274 mil, e os Capuchos 33 mil, os museus, um total de 128 mil, (com o Centro de Ciência Viva em destaque, com 46 mil e o Museu Ferreira de Castro com apenas 3359) a Regaleira 285 mil e Monserrate 93 mil, num total esse ano de 2 milhões 162 mil visitantes, com maior afluência em Agosto e menor em Janeiro.

Para os visitantes mobilizados, a oferta de estacionamento contemplava 454 lugares em S. Pedro, 1683 na Portela de Sintra, 358 na Estefânea, 422 na Vila, e 470 na Estação de Sintra.

Com tal quadro fáctico, envolvido por um centro histórico de Sintra despovoado e idoso (em todo o Centro Histórico, incluindo S. Pedro, Vila e Estefânea moram 3483 pessoas, e na Vila apenas moram 386, tendo 129 mais de 64 anos), 166 edifícios a precisar de intervenção urgente e 20 em completa ruína, afigura-se antes de mais ouvir as associações e os moradores a fim de que estes se pronunciem, e, sem umbiguismos ou espíritos de capela, pensando no colectivo e com noção de futuro, e não só no que se passa à sua porta, pensem global e pensem no melhor para Sintra, atenta a sua realidade de burgo encavalitado com uma serra serpenteante e densa a envolve-la, com todas as contingências que isso acarreta.

Como tarefas fulcrais a desenvolver, sob a égide dum órgão coordenador abrangente, com competências claras e executivas, e fundo de maneio próprio e proveniente de fundos e programas de financiamento, sugeriria:

-a promoção de medidas que fixem e tragam jovens e moradores para o Centro Histórico, apostando no arrendamento, e contemplando benefícios fiscais para quem recupere património existente;

-a construção dum Sintra Welcome Center, na Vila Alda ou no Casal de S. Domingos, por exemplo, em localização central, ou no Museu Ferreira de Castro, se este vier a ser deslocado para outro sítio;

-a implementação de sinalética com informação exaustiva, wi-fi e QR codes em todos os locais de relevo;

-o lançamento imediato de obras de recuperação dos imóveis em péssimo estado, ou sua alienação com a condição de recuperação em prazo certo e curto;

-a cabimentação orçamental de verbas destinadas à reabilitação urbana e o lançamento imediato de candidaturas a uma série de fundos nacionais e europeus, onde se pode ir captar cerca de 156 milhões de euros em vários programas operacionais;

-a criação de parques periféricos no Ramalhão, Portela e Estefânea;

-o lançamento de obras na sede dos escuteiros (antiga cadeia comarcã), no mercado da Estefânea (outro local possível para um Welcome Center, semelhante ao que ocorre no Mercado da Ribeira, em Lisboa, com restauração, exposições, espaço internet e venda de produtos tradicionais e biológicos), Parque dos Castanheiros, casa em ruínas na Volta do Duche, Casal de S. Domingos, casa de Francisco Costa, Hotel Netto e todas as casas propriedade da CMS, sobretudo nas Escadinhas do Hospital;

-elaboração dum Plano de Marketing Turístico e Comercial de médio prazo;

-alterar e adaptar as localizações e horários dos transportes públicos e praça de táxis da Vila (com novas paragens e praças junto aos parques periféricos), bem como regulamentar os tuk-tuk’s e operadores turísticos privados, hoje a actuar na sua quase totalidade de forma descontrolada;

-criar uma programação de eventos contínua e adequada às características de Sintra;

-ponderar o futuro do eléctrico, sendo eu particularmente contra a sua continuação até à Vila, pelo impacto no trânsito e pelo impacto visual negativo das catenárias;

-ponderar a não execução do teleférico, pois tal abreviaria a visita a Sintra dos inúmeros visitantes, levá-los-ia apenas à Pena e frustraria a possibilidade de se “sentir” Sintra em benefício dum turismo de massas que não se deve preconizar, sofrendo a vila e a serra já hoje a consequência das hordas diárias de visitantes trazida pelo aumento de viagens low-cost tendo Lisboa como destino primário e Sintra como destino complementar. Além de que dificilmente se encontrará alguém para pagar os 20 milhões de euros previstos para a sua construção;

-ponderar a possibilidade de criação de um posto de informação no Rossio ou no Turismo de Lisboa, especificamente visando Sintra, e onde se possam obter informações prévias e adquirir bilhetes compostos transporte-visita para os visitantes que pretendam visitar Sintra;

-ponderar a relocalização do silo na Portela, sendo opção visual e urbanisticamente menos impactante outra junto ao interface ou próximo do Tribunal de Sintra;

-replantar árvores na Praça da República, e classificar todo o arvoredo da zona da ARU como de interesse municipal, impedindo cortes, e promovendo apenas os que decorram de parecer fitossanitário devidamente fundamentado;

-criar novas zonas e percursos pedonais (sem corte de trânsito, ou corte parcial) junto ao Pelourinho da Vila, no largo fronteiro à Câmara, e na Rua Alfredo Costa;

-transferir o GAM e o Espaço do Cidadão para a Rua Heliodoro Salgado;

-reformular o trânsito na Rua Heliodoro Salgado, e promover a rectificação paisagística da rotunda na Av. Nunes Carvalho;

-ordenar o trânsito e o estacionamento de forma gradual e experimental, com abertura a alteração de soluções, sempre que as adoptadas se não mostrem totalmente eficazes;

-criar uma zona de parqueamento de caravanas no Ramalhão, Chão de Meninos ou junto ao Tribunal;

-uniformizar o mobiliário urbano e remover as antenas obsoletas;

-relocalizar os caixotes do lixo e os ecopontos;

Estas, sem ser exaustivo, nem descurar outras soluções, algumas sugestões para um plano a executar em vários anos (10 a 15) e para o qual se podem canalizar verbas do Portugal 2020, do Reabilitar para Arrendar, Life+2014-2020,Fundo Jessica, Plano Nacional de Acção para as Energias Renováveis, Fundo Português do Carbono, e outros.