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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Sintra e o Portugal 2020


Portugal vai dispor de 21 mil milhões de euros nos próximos sete anos, divididos em quatro programas operacionais temáticos e depois em regionais: Norte, Centro, Lisboa, Alentejo, Algarve, Açores e Madeira. Os quatro programas operacionais temáticos são os da competitividade e internacionalização o primeiro e mais dotado), inclusão social e emprego, capital humano e sustentabilidade, e eficiência no uso de recursos, tendo apresentado em 30 de Março de 2014 o projecto destes quatro programas operacionais temáticos e de cada um dos cinco programas operacionais regionais. No Portugal 2020, que é como se chama o actual ciclo, que substitui o QREN, a competitividade é a primeira prioridade, sendo que os Fundos Europeus para a região de Lisboa vão crescer 170%, embora o Programa Operacional Regional de Lisboa vá ter apenas 833 milhões de euros (no QREN, no ciclo que agora terminou, a região de Lisboa teve apenas 300 milhões.)

Em Sintra, onde podemos ir buscar os apoios de que necessitamos?

Por um lado, ao Banco de Desenvolvimento, cuja operacionalização se impõe. Continuando a haver apoios às empresas no formato tradicional, isto é, no sistema de incentivos para acções colectivas, feiras, internacionalização, etc., há que reconhecer que há um problema sério nas empresas que tem a ver com dificuldades ao nível do financiamento. Crédito de longo prazo continua a não haver e quando há é caro, e as empresas têm capitais próprios muito baixos. Uma opção será pegar numa parte das verbas destinadas às pequenas e médias empresas e afectá-las a um Banco de Desenvolvimento que apoie as empresas por via de dois instrumentos novos, que serão: a possibilidade de bonificar o juro que a banca comercial estabelece, usando a banca comercial como intermediária na ligação às empresas, garantindo que tal bonificação de juros se repercuta na taxa de juros do mercado e não fique do lado do activo dos bancos nem sirva para fazer a “limpeza”de balanço dos bancos que vão substituir um crédito mau por um crédito bom; e ajudar a promover o reforço dos capitais próprios das empresas. Se o mecanismo funcionar, depois o Banco recuperará o dinheiro que emprestou, com a contrapartida que ficar acordada uma indexação aos resultados que a empresa tiver tido. O Banco de Desenvolvimento arriscará onde a banca comercial ou os fundos de investimento também arriscarem. O Banco irá viver de fundos europeus, de reembolsos de anteriores quadros de programação e dos futuros quadros de programação – dos reembolsos do dinheiro, dos sistemas de incentivos às empresas, e tais reembolsos irão constituir o capital do futuro Banco de Desenvolvimento, podendo igualmente vir-se a beneficiar de linhas de financiamento do Banco Europeu de Investimentos e de outros bancos estrangeiros congéneres.

Este financiamento é indispensável, pois subsistem problemas nas empresas que se querem internacionalizar, e que enfrentam problemas no que a garantias bancárias dos empréstimos concerne, por exemplo. Com tal Banco, e com medidas urgentes de apoio enquanto o mesmo não está operacional, poder-se-ão dar passos no sentido de concretizar o objectivo da Competitividade, um dos eixos do Portugal 2020. Efectivamente, muitas empresas estão descapitalizadas, e o tecido empresarial está muito frágil, sendo impossível exportar com margens de 10% quando as taxas de juro às vezes são 7 e 8%, mais o capital de risco inerente.

No funding do Banco de Desenvolvimento entrará dinheiro de vastas origens, indo os fundos europeus para pequenas e médias empresas, mas se for financiar-se junto do Banco Europeu de Investimentos, por exemplo, que está a emprestar dinheiro a 0.6%, o Banco poderá intermediar para as empresas. Para as PME’s, a zona de Lisboa apenas dispõe de 203 milhões de euros, o que é muito pouco, atendendo a que são 203 milhões de euros em sete anos, e para mais de duma dezena de autarquias.

É possível também que a agricultura possa ter um papel relevante no desenvolvimento do País, sendo a área onde se cria mais emprego com menor investimento, pelo que pode haver aqui um potencial enorme, podendo igualmente vir a angariar-se verbas do Fundo Social Europeu destinadas à área da agro-indústria.

Portugal é o terceiro País da Europa com maior número de investigadores por habitante, (à nossa frente está a Dinamarca e a Suécia) mas está na cauda da Europa do número de investigadores nas empresas. A União Europeia decidiu- mas mal- acabar com o financiamento às universidades para investigação e desenvolvimento. Contudo, há a possibilidade de financiamento de investigação no âmbito das empresas, o que pode ser um veículo para manter muitos dos apoios que de outra forma terão de deixar de ser financiados.

A questão da requalificação urbana, é uma questão séria. O Portugal 2020 fixou os grandes objectivos dos fundos europeus, e quando olhamos para a lista dos objectivos não está lá nada que se pareça com regeneração urbana. Há que fazer interpretações extensivas de outros objectivos. Por exemplo, ao nível da inclusão social, ou da eficiência energética, para onde se podem captar fundos não reembolsáveis, porque a lógica do reembolsável aparece apenas quando há retorno económico. Também pelo lado da recuperação do património cultural se podem contemplar verbas.

Dispõe o Acordo de Parceria 2014-2020:

Na perspetiva da política e do desenvolvimento urbano, assumem relevância os processos de regeneração e revitalização urbana nos principais nós estruturantes do sistema urbano nacional, contribuindo não só para a competitividade económica e para a atratividade desses centros, como também pelo impulso que proporciona à qualidade de vida e bem-estar dos seus habitantes, numa lógica de promoção de cidades mais compactas, privilegiando um uso mais eficiente do solo, menores deslocações dos seus habitantes e uma oferta de maior qualidade e mais racional de serviços públicos e coletivos. De forma a tornar as cidades mais sustentáveis, as intervenções deverão privilegiar áreas como a eficiência energética, a mobilidade, a habitação e regeneração urbana, a melhoria da eficiência no uso dos recursos, etc. Neste sentido, os apoios deverão prosseguir três grandes prioridades de investimento: i) transição para uma economia com baixas emissões de carbono; ii) melhoria do ambiente urbano, revitalização das cidades e de áreas intervencionadas no sentido da recuperação e descontaminação de zonas industriais abandonadas; iii) regeneração física, económica e social de comunidades desfavorecidas

Entre os eixos temáticos apresentados no referido acordo saliente-se a relevância do Eixo Temático 4, referente à Sustentabilidade e Eficiência no Uso dos Recursos, que  tem como principais prioridades a concessão de apoio à eficiência energética, à gestão inteligente da energia e à utilização das energias renováveis nas infraestruturas públicas, nomeadamente nos edifícios públicos e no setor da habitação; a promoção de estratégias de baixo teor de carbono para todos os tipos de territórios, nomeadamente, as zonas urbanas, incluindo a promoção da mobilidade urbana multimodal sustentável e medidas de adaptação relevantes para a atenuação. (Aí poderão incluir-se projectos para aumento da eficiência energética no sector dos transportes públicos de passageiros; diversificação energética no sector dos transportes públicos de passageiros; promoção da circulação sustentável e com baixa emissão de carbono; elaboração de planos de mobilidade para as áreas metropolitanas, municipais ou intermunicipais; promoção da mobilidade inteligente; apoio à conversão de veículos para o uso de fontes de energia de baixo carbono nos transportes públicos de passageiros; desenvolvimento da mobilidade eléctrica, etc).

Ainda com relevância para a estratégia de reabilitação urbana destaque para o Eixo Temático 6- Preservar e proteger o ambiente e promover a utilização eficiente dos recursos. Este eixo temático é elegível para territórios na Região de Lisboa e Vale do Tejo no ponto 6.3 que remete para a “conservação, protecção, promoção e desenvolvimento do património natural e cultural”, cujo objectivo específico é o de “Promover a valorização do património cultural e natural, afirmando a região de Lisboa como destino turístico de excelência”, e o ponto 6.4 “Protecção e reabilitação da biodiversidade e dos solos, e promoção de sistemas de serviços ecológicos”, com o objectivo específico de “Promover o conhecimento e a valorização da biodiversidade e dos ecossistemas”.

Alguns campos, pois, onde Sintra pode e deve captar financiamento, seja ao nível do Município, empresas ou ONG’s.

 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Turismo em Sintra- Números e Sugestões


De acordo com o Plano Estratégico do Turismo da Região de Lisboa para o período 2015-2019, elaborado pela Roland Berger Strategy Consultants, em 2014, foram considerados vectores estratégicos para o concelho de Sintra: a Marca Sintra, Capital do Romantismo; a oferta monumental; o turismo de golfe; o turismo de natureza; a existência e necessidade de uma hotelaria diversificada, e o aproveitamento turístico das quintas.

Segundo esse estudo, 35% dos turistas que visitam Sintra (dados de 2013) fazem-se no regime de visita de um dia (day trip), tendo contudo as dormidas aumentado 8,8% entre 2008 e 2012, e as camas 6,6%, não obstante as dormidas em Sintra em toda a região objecto do Plano não passem dos 3% do total, com 72% dos visitantes a alojar-se noutros locais. Sintra dispunha (dispõe) desde então- 2013- de 137 unidades hoteleiras, num total de 1350 quartos e 2840 camas, tendo tais unidades recebido em 2013 136.500 hóspedes, num total de 290.000 dormidas. No que a visitas concerne, nesse ano a Pena teve 778 mil visitantes, o Palácio da Vila 393 mil, Queluz 124 mil, o Castelo dos Mouros 274 mil, e os Capuchos 33 mil, os museus, um total de 128 mil, (com o Centro de Ciência Viva em destaque, com 46 mil e o Museu Ferreira de Castro com apenas 3359) a Regaleira 285 mil e Monserrate 93 mil, num total esse ano de 2 milhões 162 mil visitantes, com maior afluência em Agosto e menor em Janeiro.

Para os visitantes mobilizados, a oferta de estacionamento contemplava 454 lugares em S. Pedro, 1683 na Portela de Sintra, 358 na Estefânea, 422 na Vila, e 470 na Estação de Sintra.

Com tal quadro fáctico, envolvido por um centro histórico de Sintra despovoado e idoso (em todo o Centro Histórico, incluindo S. Pedro, Vila e Estefânea moram 3483 pessoas, e na Vila apenas moram 386, tendo 129 mais de 64 anos), 166 edifícios a precisar de intervenção urgente e 20 em completa ruína, afigura-se antes de mais ouvir as associações e os moradores a fim de que estes se pronunciem, e, sem umbiguismos ou espíritos de capela, pensando no colectivo e com noção de futuro, e não só no que se passa à sua porta, pensem global e pensem no melhor para Sintra, atenta a sua realidade de burgo encavalitado com uma serra serpenteante e densa a envolve-la, com todas as contingências que isso acarreta.

Como tarefas fulcrais a desenvolver, sob a égide dum órgão coordenador abrangente, com competências claras e executivas, e fundo de maneio próprio e proveniente de fundos e programas de financiamento, sugeriria:

-a promoção de medidas que fixem e tragam jovens e moradores para o Centro Histórico, apostando no arrendamento, e contemplando benefícios fiscais para quem recupere património existente;

-a construção dum Sintra Welcome Center, na Vila Alda ou no Casal de S. Domingos, por exemplo, em localização central, ou no Museu Ferreira de Castro, se este vier a ser deslocado para outro sítio;

-a implementação de sinalética com informação exaustiva, wi-fi e QR codes em todos os locais de relevo;

-o lançamento imediato de obras de recuperação dos imóveis em péssimo estado, ou sua alienação com a condição de recuperação em prazo certo e curto;

-a cabimentação orçamental de verbas destinadas à reabilitação urbana e o lançamento imediato de candidaturas a uma série de fundos nacionais e europeus, onde se pode ir captar cerca de 156 milhões de euros em vários programas operacionais;

-a criação de parques periféricos no Ramalhão, Portela e Estefânea;

-o lançamento de obras na sede dos escuteiros (antiga cadeia comarcã), no mercado da Estefânea (outro local possível para um Welcome Center, semelhante ao que ocorre no Mercado da Ribeira, em Lisboa, com restauração, exposições, espaço internet e venda de produtos tradicionais e biológicos), Parque dos Castanheiros, casa em ruínas na Volta do Duche, Casal de S. Domingos, casa de Francisco Costa, Hotel Netto e todas as casas propriedade da CMS, sobretudo nas Escadinhas do Hospital;

-elaboração dum Plano de Marketing Turístico e Comercial de médio prazo;

-alterar e adaptar as localizações e horários dos transportes públicos e praça de táxis da Vila (com novas paragens e praças junto aos parques periféricos), bem como regulamentar os tuk-tuk’s e operadores turísticos privados, hoje a actuar na sua quase totalidade de forma descontrolada;

-criar uma programação de eventos contínua e adequada às características de Sintra;

-ponderar o futuro do eléctrico, sendo eu particularmente contra a sua continuação até à Vila, pelo impacto no trânsito e pelo impacto visual negativo das catenárias;

-ponderar a não execução do teleférico, pois tal abreviaria a visita a Sintra dos inúmeros visitantes, levá-los-ia apenas à Pena e frustraria a possibilidade de se “sentir” Sintra em benefício dum turismo de massas que não se deve preconizar, sofrendo a vila e a serra já hoje a consequência das hordas diárias de visitantes trazida pelo aumento de viagens low-cost tendo Lisboa como destino primário e Sintra como destino complementar. Além de que dificilmente se encontrará alguém para pagar os 20 milhões de euros previstos para a sua construção;

-ponderar a possibilidade de criação de um posto de informação no Rossio ou no Turismo de Lisboa, especificamente visando Sintra, e onde se possam obter informações prévias e adquirir bilhetes compostos transporte-visita para os visitantes que pretendam visitar Sintra;

-ponderar a relocalização do silo na Portela, sendo opção visual e urbanisticamente menos impactante outra junto ao interface ou próximo do Tribunal de Sintra;

-replantar árvores na Praça da República, e classificar todo o arvoredo da zona da ARU como de interesse municipal, impedindo cortes, e promovendo apenas os que decorram de parecer fitossanitário devidamente fundamentado;

-criar novas zonas e percursos pedonais (sem corte de trânsito, ou corte parcial) junto ao Pelourinho da Vila, no largo fronteiro à Câmara, e na Rua Alfredo Costa;

-transferir o GAM e o Espaço do Cidadão para a Rua Heliodoro Salgado;

-reformular o trânsito na Rua Heliodoro Salgado, e promover a rectificação paisagística da rotunda na Av. Nunes Carvalho;

-ordenar o trânsito e o estacionamento de forma gradual e experimental, com abertura a alteração de soluções, sempre que as adoptadas se não mostrem totalmente eficazes;

-criar uma zona de parqueamento de caravanas no Ramalhão, Chão de Meninos ou junto ao Tribunal;

-uniformizar o mobiliário urbano e remover as antenas obsoletas;

-relocalizar os caixotes do lixo e os ecopontos;

Estas, sem ser exaustivo, nem descurar outras soluções, algumas sugestões para um plano a executar em vários anos (10 a 15) e para o qual se podem canalizar verbas do Portugal 2020, do Reabilitar para Arrendar, Life+2014-2020,Fundo Jessica, Plano Nacional de Acção para as Energias Renováveis, Fundo Português do Carbono, e outros.

sábado, 23 de maio de 2015

Sintra há 50 anos

Em 1965, Sintra vivia numa alegre pasmaçeira. Era presidente da Câmara D. António Corrêa de Sá, Visconde de Asseca, e a vida seguia pautada por eventos e "melhoramentos.


Américo Nunes venceu o Rali das Camélias, e foi criada em Vale Flores, S.Pedro, a fábrica da Inapa. “Que mulheres!” foi à cena no teatro do Sintrense, na Estefânea, e  voltou a organizar-se o Carnaval do Mucifal, sendo do júri Natalina José, Leite Pereira, Nunes Correia e Fernanda Baptista, entre outros. Alguma cronologia:
               Grupo de Arquitectos Paisagistas na Serra de Sintra 1965 autor desconhecido)
                       Àlvaro Ponce Dentinho, Gonçalo Ribeiro Teles, João Reis Gomes, Ilídio Figueiredo, Francisco Caldeira Cabral, Joaquim Elias Gonçalves, Edgar Sampaio Fontes, Artur Dinis Raposo
                  Ana M. Pais de Azevedo, Fernando dos Santos Pessoa, José Marques Moreira


Março


21-António Calvário e Paula Ribas actuam na Tuna Operária de Sintra.


Inaugurada a nova sede da Junta de Freguesia de Belas.


Nos Limpos, no Mucifal, decorre uma “Noite de Estrelas”, com José Castelo, Fernanda Baptista e Mariette Pessanha, entre outros.


Abre o Hotel Miramonte, em Colares, com gerência de José Alberto Araújo Pereira.


Abril


15-Tony de Matos actua no Colarense.


Junho


18-Vindo do Ultramar, é apoteoticamente recebido em Galamares Hélder José Martins, com homenagem no salão local.


27- O grupo cénico do Mucifal, dirigido por David Tomás, encena “Raça”.


Maria Rita Albuquerque Baptista é professora primária em Galamares.


Agosto


16-IX Festival de Sintra, encerrado pelo presidente Américo Tomás a 1 de Setembro com a actuação da The Natural Youth Orchestra, do Reino Unido.


Em Gondomar, Cipriano Raio sagra-se campeão nacional de tiro.


Descerrado no Parque da Liberdade um busto de Artur Anjos Teixeira, da autoria do seu filho Pedro.


Setembro


18- Pelo decreto 43920 Queluz é elevado a vila 25-Américo Tomás inaugura o Grémio da Lavoura de Colares.


25-Inaugurada a luz eléctrica na Assafora.


Fernando Moreira é maestro da Banda de Colares.


Dezembro


11- O Colarense promove uma noite yé-yé com os Diamantes Negros.


No reveillon do Hotel das Arribas actuam Toni de Matos, Mariema, e Humberto Madeira, apresentados por Armando Marques Ferreira.


23-Acidente ferroviário em Sintra com o choque de 2 comboios, um de passageiros e outro de mercadorias, provoca 18 mortos, entre a Portela e Mem Martins 


Neste ano abrem a estalagem Gruta do Rio, em Rio de Mouro, o Hotel de Vale de Lobos e o Hotel das Arribas, na Praia Grande


No Natal de 1965 abateram-se no matadouro de Sintra 116 reses, 4 cavalos, 129 vitelas 80 porcos e 415 borregos.

                                                   Court de ténis no Parque da Liberdade

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Orçamentos Participativos: Sim, mas não só

 
O orçamento participativo é uma figura recente, tendo as experiências iniciais em Portugal ocorrido no concelho de Palmela, sendo um mecanismo que pode permitir aos munícipes influenciar os orçamentos públicos, precedidos de assembleias abertas e periódicas, tendo em Sintra sido adoptado já pelo segundo ano pela União das Freguesias de Sintra, iniciativa que se saúda. Contudo, o esquema adoptado é ainda embrionário, e na fase actual permite apenas dar um “brinde” a alguns projectos ou grupos, com isso se esgotando a liberalidade orçamental. O orçamento participativo deve sê-lo para todo o conjunto de receitas e despesas, e com prévia e participada discussão das grandes opções, o que não decorre do actual modelo, que premeia um ou poucos bafejados por uma votação tipo concurso televisivo, com isso se dando a ideia de “participação” e auscultação da vontade popular. Orçamento participativo deve ser um corolário da participação cívica em todos os actos e projectos do governo da polis, não deixando a decisão apenas aos grupos políticos, que, se têm a legitimidade decorrente do voto popular, agem muitas vezes em função de estratégias partidárias, opondo-se ou apoiando não em função da bondade ou justeza da medida, mas do maniqueísmo próprio de ser sempre contra os adversários e sempre a favor dos correligionários. O conceito é interessante, mas não pode ficar pela disputa do “rebuçado”, num contexto onde a decisão de gastar umas migalhas das verbas públicas pode decorrer de sindicatos de voto ou de capacidade de mobilização. A favor, pois, do aperfeiçoamento dos mecanismos para com mais equidade este se concretizar também.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Pelas primárias para escolher os candidatos a deputados



As eleições primárias são eleições que servem para escolher o candidato (ou cabeça de lista) de um determinado partido às eleições presidenciais, legislativas ou locais. Nas eleições primárias, todos os cidadãos, mediante os critérios definidos pelo partido, podem votar, sendo ou não militantes do partido. Em Portugal, a experiência mais recente de primárias foi levada a cabo pelo Livre, de modo a escolher a sua lista e o seu cabeça de lista às eleições europeias, e pelo PS, na escolha do secretário-geral António Costa.

Lá fora, os partidos socialistas em Itália, França e Grécia (PASOK) também já usam o método das primárias para escolher os seus candidatos. O recente modelo de primárias do PS inspirou-se nestas experiências.

Este sistema tem várias virtudes:

-chama à participação pessoas que de outra forma estariam mais afastadas da vida partidária, com os seus rituais e liturgias, muitas vezes anquilosadas e assentes numa cultura de corpo e de manutenção de lugares anos a fio;

-permite que a sociedade civil interaja mais com os políticos e as políticas, refrescando a representação e trazendo novos temas para o debate;

-responsabiliza mais o futuro eleito, pela dupla sufragação em primárias e eleições, tornando a escolha mais filtrada, escrutinada e discutida.

Aproximando-se o processo legislativo em Outubro, creio que deveriam estar os partidos que já introduziram este critério na sua agenda política- porventura talvez não nos Estatutos…_ a desde já lançarem mão desta modalidade de escolha, fazendo da eleição uma decisão onde a palavra Escolha para além de semântica ser substantiva e coerente. Num sistema como o nosso, onde os candidatos saem do inner circle dos líderes e muitas vezes não são conhecidos do eleitorado, do círculo, ou até do resto dos militantes, tal traria uma saudável renovação, e já que a caixa de Pandora se abriu, que não se feche logo de seguida...


domingo, 10 de maio de 2015

Sintra e Ferreira de Castro




Falar de Ferreira de Castro é falar de Sintra, terra pela qual se apaixonou e onde passou largas temporadas, e onde para sempre repousa, depois de, por pressão de outro grande sintrense, José Alfredo Costa Azevedo, ter sido enterrado perto do Castelo dos Mouros, em 31 de maio de 1975, para a eternidade se ligando à sua terra de adopção.
Ligação que não passou só pela ligação física, ao manifestar a vontade de “ficar sepultado à beira duma dessas poéticas veredas que dão acesso ao Castelo dos Mouros», mas também pela do seu espólio literário, a Sintra doado em 3 Abril de 1973, por influencia de Francisco Costa, destacado escritor sintrense, e então director da Biblioteca Municipal, e de Alexandre Cabral, que teve na Camiliana de Sintra um apreciável acervo bibliográfico e documental para o desenvolvimento da sua investigação. Sendo presidente da Câmara António José Pereira Forjaz, este, em carta de 10 de Abril de 1973, dirigida ao romancista, manifestou-lhe alvoroçadamente o seu júbilo pela doação, aceite pela Câmara a 18 de Abril seguinte, dum total de mais de vinte mil documentos, doravante acessíveis aos investigadores.
A Selva, o seu mais conhecido romance, foi publicada em todas as latitudes, havendo que juntar-se-lhe outras magníficas obras como Emigrantes, Eternidade, Terra Fria (Prémio Ricardo Malheiros), A Lã e a Neve, A Curva da Estrada, A Missão ou O Instinto Supremo, entre outras, além da literatura de viagens, como A Volta ao Mundo, de 1939. Foi por duas vezes proposto para Prémio Nobel de Literatura, e em França, obteve, em 1970, o primeiro Prémio Águia de Oiro, do Festival Internacional do Livro de Nice, atribuído por um júri internacional presidido por Isaac Singer.
O conto na obra de Ferreira de Castro surge logo nos seus primeiros anos de emigrante no Brasil, em 1912, quando trabalhou como caixeiro na região amazónica, tendo já nos anos vinte publicado os volumes de contos A Casa dos Móveis Dourados e O Voo nas Trevas.
Andrée Crabbé Rocha, ilustre professora de Coimbra e que foi esposa de Miguel Torga, escreveu um dia que o “conto casa-se bem com o temperamento português, feito de pronta emoção e rápida catarse”. Em Ferreira de Castro, a simplicidade e naturalidade corrente da linguagem, com a força da expressão dos sentimentos do homem comum, a sensibilidade perante a dor, a esperança no resgate da miséria e opressão, fizeram dele um escritor aberto às multidões, captando simpatia e adesão, percursor entre os autores que viram na arte uma missão social. É com limpidez que nos fala do homem sofredor, manifesta o seu amor pelos humildes e a confiança no futuro, devendo ser lido pelas novas gerações e relido pelas mais antigas, exemplo acabado do português pelo mundo repartido.
Em Ferreira de Castro sobressaem as descrições de paisagens, coloridas e densas, sejam as fragas e serranias do Norte, seja a exuberância inebriante dos trópicos, ou as pequenas cidades e vilas ainda com rosto humano, ao mesmo tempo que se assume como cirurgião de dramas, denunciante da exploração do trabalho, narrador da árdua luta pela sobrevivência, num fresco humano que, dando um panorama caleidoscópico duma sociedade desigual, nunca deixou igualmente de aprofundar a psicologia dos seus personagens e o seu sofrimento abnegado, figurantes dum mundo limitado e muitas vezes sem esperança, acordando as as consciências para o espelho da Vida.
A passagem de Ferreira de Castro por Sintra está documentada desde a primeira metade da década de 1940. No Hotel Netto escreveu parte da sua obra, e em Sintra se encontrou e veraneou com escritores como Jaime Cortesão e Mário Dionísio, em Seteais conheceu Stefan Zweig, pela Volta do Duche deambulou, deixando memórias hoje a sépia recordadas.
Homem do Mundo, soube entender os pequenos mundos que vivenciou, sofrendo, vivendo a vida, e no silêncio gritante da sua máquina de escrever ou do papel libertador cantar as serras beirãs e o império da Casa Grande e da Sanzala que moldaram o pathos de ser português.
A melhor homenagem que lhe podemos fazer é lê-lo, reeditar as suas obras e penetrar nas suas narrativas impregnadas de Vida, e, se possível, à sombra duma árvore no Castelo dos Mouros, o melhor lugar para  se contemplar o Mundo.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os 138 anos da Sociedade União Sintrense


A actual Sociedade União Sintrense, cujo primeiro nome era Real Sociedade União Sintrense, foi fundada no dia 8 de Maio de 1877 pelos ilustres sintrenses Silva Rosa, José Simões, Joaquim Barreto e Domingos dos Santos Silva, e coincidiu com as festas de Nossa Senhora do Cabo, que antigamente eram conhecidas como a Festa dos Solteiros.

A primeira sede da União Sintrense foi numa dependência do antigo matadouro municipal, que funcionou até cerca de 1847 no local onde é hoje o Palácio de Valenças, construído no fim do século XIX por Cinatti, e o primeiro regente da banda foi José Maria de Sousa, que era funcionário de uma escola agrícola em Coimbra, e em 1897 era Carlos António de Abreu contra mestre de banda marcial.

Em 1897 a sede da Filarmónica foi transferida para um barracão na rua Gil Vicente, junto da Igreja de São Martinho, e na esquina para as escadinhas de Briamante, onde funcionava também o Teatro Gil Vicente.

Naquela data a Sociedade orgulhava-se de ter como sócios o Marquês da Praia e Monforte, proprietário da Quinta defronte a Seteais, os Viscondes de Monserrate, o Visconde de Monsanto, o Conde de Fontalva, António Mazziotti, proprietário da Quinta Mazziotti em Colares, e ainda Andrelina dos Santos, proprietária da Quinta da Brasileira na Vila Velha, e o próprio Rei D. Carlos.

Em 1877 a direcção da Sociedade era composta por Joaquim Maria de Oliveira Cunha, primeiro comandante dos Bombeiros Voluntários de Sintra, que foi sempre reconduzido no cargo de presidente até 1897.O secretário era Carlos Augusto Ferreira e o tesoureiro Alfredo Pedro dos Mártires, barbeiro de profissão, que tinha a oficina onde é hoje a pastelaria Piriquita.

A terceira sede da Velha colectividade foi no largo da Caracota, na casa que tem hoje o nº 1. Depois, em data incerta, mudou-se para uma dependência do quartel de Infantaria, na Rua de Meca, quase defronte ao desaparecido Hotel Nunes, hoje Tivoli. Esta antiga sede foi demolida após 1910, bem como os quartéis de Cavalaria e Infantaria que rodeavam o Palácio da Vila até à Calçada do Pelourinho.

A quinta sede foi na dependência do antigo quartel dos Bombeiros Voluntários, que funcionava no antigo Museu do Brinquedo, na rua Visconde de Monserrate. Nesta sede, onde anteriormente também funcionaram os Paços do Concelho, ficava também a Associação de Socorros Mútuos. Nesta quinta sede da colectividade, embora sem palco. davam-se vários espectáculos de Ilusionismo e Teatro.

Mais tarde teve nova sua sede em baixo do Mercado da Vila Velha, construído em 1894, onde já possuía um amplo palco e sala, de tal modo que foi compartimentada, montando-se um bar e gabinete para a Direcção. Pela sétima e última vez a Sociedade foi transferida para o local onde antes funcionou o Cineteatro Garrett, na rua Maria Eugénia Reis Ferreira Navarro, no edifício onde ainda hoje está instalada.

As instalações foram compradas ao comerciante de Lisboa Ramiro Leão no dia 21 de Dezembro de 1936, pela quantia de 50.000$00.Era presidente Carlos Araújo, secretário José Azevedo, tesoureiro Silvino da Conceição, e vogais Joaquim de Almeida e António Nunes. Comprado com bastantes estragos, devido a um prolongado encerramento, foi recuperado devido a um grande número de associados que voluntariamente lá trabalharam até altas horas da madrugada.

Em fins de 1940 e princípios de 1941 constituíram-se em comissão Augusta de Carvalho, Beatriz Silvestre, Henrique Lima Simões e Rodrigo dos Santos Soares, e foi dela que nasceu a Noite das Camélias, com o patrocínio do Jornal de Sintra, e que tdesde então todos os anos se realiza no dia 19 de Março, dia de S. José. A primeira Noite teve lugar a 19 de Março de 1941, com a participação de Maria Almira Almedina, que escreveu um poema a pedido da comissão organizadora. Participou também a banda de Jazz Os Caprichosos, que animou a sala até altas horas da madrugada.

Desde 1941 que todos os anos a Noite das Camélias se organiza neste local emblemático da Vila de Sintra, hoje dinamizado muito graças à acção do actual presidente da direcção da Sociedade - Fernando Pereira.