No âmbito da Rota d'Artes de dia 25 de Abril próximo, estarei nesse dia pelas 15h no Museu Anjos Teixeira em Sintra (na Volta do Duche) para falar sobre "História e estórias do 25 de Abril", uma conversa sobre a data e particularmente sobre os últimos anos da ditadura e os primeiros anos da democracia em Sintra, com factos e episódios menos conhecidos. Entrada Livre.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Pardal Monteiro e o Hospital de Sintra
Abre
hoje na Biblioteca Nacional em Lisboa uma exposição dedicada a Porfírio Pardal
Monteiro, arquitecto de referência da primeira metade do séc. XX e de origem
sintrense.
Porfírio
Pardal Monteiro, nascido em Pêro Pinheiro (1897-1957), foi um precursor do
modernismo em Portugal nos anos trinta do século passado. Ligado pela família à
indústria dos mármores, a ele se devem edifícios de referência na paisagem
urbana do século XX, como sejam o edifício do nº49 da Av. da República, em
Lisboa (Prémio Valmor de 1923), a estação ferroviária do Cais de Sodré
(1925-1928), o Palacete Vale Flor (Prémio Valmor de 1928), uma moradia no nº207
a 215 da Av. 5 de Outubro, em Lisboa (Prémio Valmor de 1929), a igreja de Nossa
Senhora de Fátima, em Lisboa (Prémio Valmor de 1938), o edifício do Diário de
Notícias (Prémio Valmor de 1940), os edifícios das Faculdades de Direito e de
Letras, em Lisboa, o Instituto Superior Técnico (1939), a Biblioteca Nacional e
os Hotéis Ritz e Tivoli, em Lisboa.
Em
Novembro de 1924 veio a Sintra o então Presidente da República, Teixeira Gomes,
para o lançamento da primeira pedra do novo hospital, projecto de Porfírio
Pardal Monteiro (imagem abaixo), a localizar atrás da então cadeia comarcã e confinante com a
R. das Murtas, junto à estação ferroviária. Usou-se da palavra, exaltou-se o
progresso, peroraram os comendadores encartados, fez-se auto do acontecimento e
do mesmo se lavrou cópia, que se depositou debaixo da pedra em recipiente de
vidro, enterrada testemunha para a eternidade daquele momento solene em que
Sintra ia passar a ter o "seu" hospital. Vistosa foi a cerimónia, com
ministros, edis, fardas com dragonas e filantrópicas damas, tudo com
acompanhamento musical das Bandas do 1º de Dezembro e dos Bombeiros da Vila e
S. Pedro. Sintra rejubilava com mais esse acertado passo no sentido dos
melhoramentos, a saúde ia inscrever-se no mapa dos direitos que uma sociedade
civilizada não podia dispensar.
Os
anos passaram, os regimes também, e do novo hospital nem um tijolo. Noventa
anos depois, perdeu-se o velhinho Hospital da Misericórdia, na Vila e a
assistência ao maior concelho do país (em residentes) é feita em unidades dos
concelhos limítrofes. Outras pedras e outros projectos se foram sucedendo, mas
o Verbo é inimigo da Verba e a saúde continuou bastante adoentada. Inclusive,
não fossem as normas do registo civil alteradas, ninguém, não fosse nascido
dentro da ambulância ou em algum carro dos bombeiros poderia reclamar ter nascido
em Sintra, pois há vários anos que maternidade é valência desconhecida por
aqui, nunca um primeiro choro de bebé ressoa nestes ares avessos a
parturientes. As poucas cegonhas vindas de Paris sobrevoam a Pena, mas com
destino a Cascais ou a Lisboa.
Projectos,
terrenos e comissões, já houve vários, conforme os ciclos eleitorais (e por
causa deles),mas um Hospital de Sintra (e em Sintra, concelho)é já do domínio
da lenda. Aquela pedra e aquele recipiente de vidro solenemente enterrados em
1924, são homenagem perene e subterrânea à incapacidade de decidir, apanágio de
quem nos tem (des)governado de forma endémica, na fúria estatística de
coleccionar primeiras pedras para mero arremesso de propaganda.O Hospital de
Sintra deixou de ser uma prioridade para os vivos, mas será por certo um
atractivo para os futuros arqueólogos que um dia descubram a pedra, qual Graal
redentor, e até pensem que tenha havido um holográfico hospital em Sintra, na
velhinha Rua das Murtas.
Sintra
honraria Pardal Monteiro enfim construindo o hospital cuja primeira pedra jaz
no solo das Murtas.
quinta-feira, 12 de março de 2015
Syriza, a democracia no tubo de ensaio
A recente
eleição de um governo do Syriza na Grécia trás à colação reflexões sobre o
estado da democracia na Europa e o seu nível de aprofundamento.
Jacques
Rancière, um dos principais filósofos contemporâneos, no seu livro Momentos Políticos, alerta-nos para o
facto de os Estados nacionais agirem hoje apenas como intermediários para impor
aos povos a vontade dos poderes financeiros. Em toda a Europa, os governos, de
direita como de esquerda, aplicam o mesmo programa de destruição dos serviços
públicos e da proteção social, que garantiam um mínimo de igualdade no tecido
social, revelando-se a oposição entre uma oligarquia de financeiros e
políticos, e a massa do povo submetida à precariedade sistemática e sem poder
de decisão. Estarão pois reunidas as condições para um momento político, isto
é, um cenário de manifestação popular contra o aparato de dominação. Mas para
que esse momento exista, não é suficiente que se dê uma circunstância, mas
também que esta seja reconhecida por forças susceptíveis de transformá-la numa
demonstração, intelectual e material, e de converter essa demonstração numa
alavanca capaz de mudar a paisagem do “perceptível e do pensável”. Segundo ele,
o movimento do 15-M, em Espanha, por exemplo, mostrou claramente a distância
entre um poder real do povo e as instituições. Resta a capacidade de
transformar um protesto numa força autónoma, representativa e independente.
Os
movimentos do 15-M ou do Ocupy Wall Street, hoje materializados no Syriza ou no
Podemos responderam à ideia do poder próprio daqueles que nenhum motivo destina
ao exercício desse poder, e esse poder materializou-se, subvertendo a
distribuição normal dos espaços. Geralmente há espaços, como as ruas,
destinados à circulação de pessoas e bens, e espaços públicos, como os parlamentos
ou os ministérios, destinados à vida pública e o tratamento de assuntos comuns.
Um renascimento da política passará pela existência de organizações que se
subtraiam a essa lógica, que definam objetivos e meios de acção construindo uma
dinâmica própria, espaços de discussão e formas de circulação de informação
visando o desenvolvimento de um poder autónomo de pensar e agir.
Em Maio de
68, as pessoas discutiam Marx. Não parece, porém, haver nenhum filósofo atrás
dos recentes movimentos. Mas, segundo Rancière, o que se discute hoje é uma
visão do mundo que estruture naturalmente estas novas formas de acção
colectiva. Em Maio de 1968, a explicação marxista do mundo funcionou no âmbito
de uma visão histórica pela qual o capitalismo estaria condenado a desaparecer
pela acção da classe trabalhadora. Os manifestantes de hoje não possuem
horizonte histórico para o seu combate e
são antes de tudo indignados, pessoas que rejeitam a ordem existente, que não
podem considerar-se agentes de um processo histórico, e é isto que alguns
aproveitam para escamotear, desqualificando o seu idealismo e o seu carácter
“inorgânico”.Com estes movimentos, há uma interrupção da lógica da resignação à
necessidade histórica preconizada pelos governos. Desde o colapso do sistema soviético,
o discurso intelectual contribuiu para endossar os esforços para implodir as
estruturas colectivas de resistência ao poder do mercado. Esse discurso acabou.
Seja qual for o seu futuro, os movimentos recentes põem em xeque essa
fatalidade histórica, lembrando que não lidamos com uma crise da sociedade, mas
sim com uma ofensiva destinada a impor
formas brutais de precariedade.
A experiência
do Syriza leva pela primeira vez a rua para os corredores do poder, num terreno
armadilhado e virgem, mas que não pode deixar de ser tentado e aprofundado.
Para
restaurar os valores democráticos, é necessário chegar a acordo sobre o que
chamamos democracia. Habituámo-nos a identificá-la como um duplo sistema de
instituições, as representativas e as do mercado. Hoje, isso é coisa do
passado: o mercado mostra-se cada vez mais como uma força de constrangimento
que transforma as instituições representativas em meros agentes da sua vontade,
e reduz a liberdade de escolha dos cidadãos às variantes de uma mesma lógica. É
esse o espectáculo do duelo Schauble-Varoufakis, num palco minado na noite dos
facas longas. Recuperar os valores da democracia será, pois, em primeiro lugar,
reafirmar a existência de uma capacidade de julgar e decidir, que é de todos,
frente a essa monopolização, e reafirmar a necessidade de instituições
próprias, distintas do Estado. A primeira virtude democrática é a virtude da
confiança na capacidade de qualquer um, e o poder dos cidadãos acima de tudo, o
poder de agir por si próprios, e constituir-se em força autónoma. A cidadania
não é uma prerrogativa ligada ao facto de se haver sido contabilizado nos
censos, como habitante ou eleitor, ela é, acima de tudo, um exercício que não
pode nem deve ser delegado. É pois preciso opor claramente o exercício da acção
cidadã aos discursos sobre a responsabilidade dos cidadãos na crise da
democracia, que lamentam o desinteresse dos cidadãos pela vida pública e o
imputam à deriva individualista dos consumidores penalizados. Essas supostas
chamadas à responsabilidade só têm, na verdade, e segundo Rancière, um efeito:
culpar os cidadãos, para prendê-los mais facilmente no jogo que consiste em
seleccionar aqueles por quem os cidadãos deverão deixar-se capturar na sua
possibilidade de agir fora do momento do voto. Estamos pois num ponto de
mutação na ideia de democracia, num sentido mais denso e sentido, cuja próxima
fase será a de encontrar vozes e meios com vista a ocupar o seu lugar numa
sociedade cuja construção/destruição está em curso.
quarta-feira, 11 de março de 2015
11 de Março de 1975
11 de Março de 1975. Aluno do 6º ano no Liceu
D. Pedro V, em Lisboa (correspondente ao hoje 10º) ao som da Marcha do MFA- marcha
militar americana da autoria do luso-descendente John Philipp De Souza- que
passava nas rádios e no único canal da RTP, era surpreendido a caminho de mais
um dia de aulas com o inopinado voo de uns paraquedistas de Tancos que supostamente
atacavam o quartel do RAL 1, em Sacavém. As notícias eram desencontradas, e por
segurança, fui buscar a minha irmã, então aluna na Marquesa de Alorna, sob a
visão de aviões nos céus da Praça de Espanha, com aquela emoção de quem fugia a um
bombardeamento de napalm sobre Saigão. Eram dias em que tudo estava em
frequente mudança, e spinolistas ressabiados tentavam mudar o rumo da política
esquerdizante do governo de Vasco Gonçalves, pró-descolonização e colectivização
da economia, no que aliás, a nós, geração de Abril, nos parecia o caminho, filhos
do Maio de 68 e a quem a Internacional causava frémitos na espinha em busca das
madrugadas redentoras. Em consequência, falhando a intentona, Spínola fugiu
para Espanha, o governo radicalizou as políticas económicas, e vieram as nacionalizações
e a reforma agrária no Alentejo, dando inicio àquilo que se convencionou chamar
o PREC. Kissinger dava Portugal como perdido para os bolchevistas, e o caso República,
mais tarde, já depois de eleições para a Constituinte terem apontado um rumo
moderado para o país, afastava de vez a esquerda portuguesa, ainda hoje sobre o síndroma do famoso “olhe que não” de Cunhal.
Depois daquela quinta-feira em 1974 em que não
houve aulas e o ponto de Física ficou adiado por causa duns militares que
ocuparam o Terreiro do Paço, a vida corria vertiginosa, sempre agarrados à rádio
ou televisão, com os chaimites do COPCON no lugar hoje ocupado pelos tuk tuk. Embriagados
pelas notícias da liberdade que de todo o lado choviam, animados por canções de
protesto nunca antes escutadas, haviam-se descoberto os sons de Zeca Afonso,
Francisco Fanhais, Luís Cília e Adriano, manifestos policopiados e jornais de
parede apelavam a RGA’s para discutir problemas da escola, e o país agigantava-se
fazendo a última revolução utópica dos tempos modernos. O período que mediou
entre 11 de Março e 25 de Novembro desse ano foi o mais agitado da nossa História
contemporânea, durante o qual a maior parte das colónias se tornou independente
e se tentaram experiências oscilantes entre a social-democracia nórdica e o maoísmo
panfletário.
Passam hoje 40 anos dessa tarde em que os aviões rasantes
sobrevoaram a Praça de Espanha. Hoje, sem derramamento de sangue, embora, outro
napalm caiu sobre as cidades e campos deste país, estilhaçado,
vivendo na twilight zone da esperança e sem Marcha do MFA a empolgar os amanhãs
ululantes. Definitivamente, o futuro já não é como era.
terça-feira, 10 de março de 2015
segunda-feira, 9 de março de 2015
Alagamares-10 anos de militância
Foi a 9 de
Março de 2005 que um punhado de sintrenses fundava no desaparecido café das
Caves de S. Martinho a Alagamares, e nunca mais até hoje parou, ocupando um
espaço em aberto no nosso panorama local.
Com mais de
150 iniciativas e eventos realizados, a Alagamares interagiu com a sociedade, e
nela bebeu experiências, tentou rasgar caminhos e ser agente de mudança, um
parceiro e actor cultural, para tanto se balizando pela discussão e abordagem
permanente de assuntos novos ou em novas perspectivas. Como disse Miguel de
Unamuno, “a erudição é, em muitos casos, uma forma disfarçada de preguiça
intelectual ou um ópio para adormecer as inquietações íntimas do espírito“. Não
somos um núcleo de eruditos, mas continuaremos a ser artífices e artesãos do
Saber, sem dirigismos, dogmas ou espírito de capela, assim cumprindo a nossa
missão de cidadãos. A participação entusiasta e crítica nas actividades e na
vida associativa tem sido a pedra angular do sucesso e eficácia da nossa associação,
cujo objectivo é o da promoção da cultura, da região de Sintra e dos seus
associados. Em tempos de anemia financeira, não permaneceremos anémicos mas
interventivos, cientes de que a cidadania activa deve ser congregadora de
sinergias. Rejeitamos a desistência e com entusiasmo e pés no chão proclamamos
a nossa vontade de afirmar a Cultura
como um dever social e a acção mobilizadora como propulsora de novos
horizontes.
Nestes 10
anos, além da Alagamares, Sintra viu surgir grupos como o Danças com História,
o Sintra Estúdio de Ópera, a Três Pontos, a Voando em Cynthia, a Dínamo e o
Ardecoro, a revista digital Selene, blogues de intervenção cívica como o Rio
das Maçãs, Sintra do Avesso, Retalhos de Sintra, Sintra Deambulada, O Reino de
Klingsor, Tudo sobre Sintra ou Serra de Sintra, os Encontros de Alternativas, o
trabalho de grupos como o Chão de Oliva, o teatromosca, o Teatrosfera, o Utopia
Teatro, o byfurcação ou a Musgo. Restaurou-se o Chalé da Condessa e a Parques
de Sintra veio mudar o paradigma na abordagem do Património, abriu o Centro de
Ciência Viva, afirmaram-se escritores de Sintra como Miguel Real, Sérgio Luís
Carvalho, Raquel Ochoa, Luís Filipe Sarmento, Filomena Marona Beja, Liberto
Cruz, Jorge Telles Menezes ou Luís Corredoura, fizeram-se tertúlias e
encontros, como os Meninos d’Avó, o Traço Comum, os III e IV Encontro de
História de Sintra, nasceu a Saloia TV. E abriu o Museu de História Natural,
rotinaram-se festivais como o Córtex e o Periferias, a CMS lançou o Tritão, uma
revista digital, e abriu o MU.SA. É todo um panorama que difere dum passado
mais rarefeito e esporádico.
Há muito a fazer, ainda, e nem tudo foram
sucessos, num quadro de redução de verbas e dificuldades de sobrevivência de
muitos agentes culturais e grupos. Desapareceu o Centro de Arte Moderna e o Museu
do Brinquedo, falta dar destino à Quinta da Ribafria, resolver de forma
definitiva os problemas do estacionamento, a violência dos abates e podas
agressivas, o preço das entradas nos monumentos, dar atenção à formação de
públicos, criar um cluster de indústrias da Cultura.
Igualmente muitos
partiram nesta década: Maria João Fontaínhas, Xaimix, Pinto Vasques, Simplício
dos Santos, Maria Gabriela Llansol, António Caruna, Eduardo Lacerda Tavares, M.
S. Lourenço, Ana Daniel, Carlos Viseu, João Benard da Costa, Ernesto Neves,
Cláudio Brito, Bartolomeu Cid dos Santos, José Manuel Conceição, Helena
Langrouva. A sua memória e testemunho nos guiarão na luta por uma Sintra de
Cidadãos, activos e preocupados.
Militar em
associações, e por causas, nos tempos que correm, é mais que nunca um dever
cívico. Vivemos momentos de vigília, e de não deixar que a frágil árvore
desapareça na floresta densa de dificuldades, cortes e silêncios motivados pela
ditadura da dívida e do défice. Nestes dias dum Portugal cinzento, é essencial estimular
a cidadania, e as boas práticas, pugnar pela educação como plataforma para o
conhecimento, descolonizar a memória de imaginários estafados, resgatar a
auto-estima e o “sentimento de nós”, e estimular a identidade que constrói a
nossa idiossincrasia e peculiar forma de estar no mundo. É lançar pontes e
massa crítica, mediar entre o poder público e as comunidades, num trajecto
virtuoso que acentue o pathos de ser português, e sê-lo de modo universalista. É
estar atento, ser parceiro com a lealdade de criticar, acompanhar as obras e
não depois das obras, chamar a agir e interagir, actuar virtuosamente e não
como agente de bloqueio ou imbuído de egoístas vaidades e atrás de
protagonismos. É tocar a rebate no campanário, sangrar a pena revoltada,
cavalgar a comunicação com a serenidade das emergências, visitar, escrever,
protestar, ajudar, ouvir e ser ouvido, passar palavra, dar o murro certeiro e
alertar o adversário, que muitas vezes é simplesmente a inércia, a ignorância, a
incúria ou a miopia. É pugnar pelo valioso presente que resulta da aliança da
memória com a auto-estima, da singularidade com o talento, da polis com os seus
moradores, dos conventos, palácios e moinhos, com a serra, as tapadas ou os
lapiás. É recordar os que trilharam o caminho, erguendo a tocha dos seres
maiores, dos eremitas jerónimos aos dandys novecentistas, dos cavaleiros da
finança aos poetas proscritos, ou do rei artista ao Carvalho da Pena,
jardineiros de Deus na fértil horta de Klingsor.
Neste
momento de festa, o orgulho de sem dinheiro nem alcandorados em capelas termos
feito o nosso percurso independente, sem subsídios ou interesses encobertos,
plurais mas com individualidade, é para nós motivo de orgulho e de afirmação. Não
somos políticos, mas temos interesse nas políticas, e assim prosseguiremos, à
frente e ao lado, mas nunca atrás.
Dez anos estão volvidos,
que venham mais 10 anos.
domingo, 1 de março de 2015
Um barco para Ítaca
O momento que vivemos tem que representar uma
viragem no lodaçal esquizofrénico em que a nossa vida colectiva se transformou. Falta a esperança, essa palavra talismã,
e falta mostrar o osso com que, como o cão de Pavlov, de novo haveremos de voltar a ladrar. Para que tal aconteça, há que levantar do sofá, largar o comando da televisão e o asténico isolamento das redes sociais, silencioso espaço para gritar
desesperos, buscar cumplicidades, e, todavia, nada decidir que altere o pathos
dum reino de novo cadaveroso de anormal normalidade.
Antes de um inesperado Abril, muitos de nós lutaram contra a liberdade
raptada, uma guerra anacrónica e por um futuro que por gerações nos foi
negado, numa lógica de inevitabilidade por entre saudados costumes de brandura, que escondiam um povo amordaçado mas secular lutador. Um dia,
fruto dessa guerra, surda mas germinal, tudo voltou a ser possível, e o Futuro
teve rosto, calendário, protagonistas, muitos cães e muitos Pavlovs, ladrou-se
e latiu-se, e apareceram ossos, carne, ração. Fez-se a democracia, mudaram-se retratos, discursos, atitudes, e, ao sétimo dia, o povo descansou, contente com a obra feita, e entregou-se à volúpia consumista,
ao hedonismo egoísta, à anomia social, de bom selvagem, o indígena ficou tão só selvagem, com casas T3 em Massamá, férias no Algarve ou carro novo cada três
anos. Barato, o vil metal abundou, o maná igualmente, triunfantes mas cegos pelo sol, havia-se
alcançada a Terra Prometida, depois de anos a errar no deserto depois dos grilhões do faraó. Silencioso, porém, o veneno dos inimigos fervia no caldeirão, acelerado pelo novo metal da Europa
e pelos trinta dinheiros com que a
ele nos rendemos, finalmente leais a César, e nas suas teutónicas mas
capciosas mãos. Um dia, legiões de cobradores chegaram a cobrar o
dízimo, e, qual Sodoma, tudo ruiu então,
transformado em sal e às mãos dos que na penumbra manobravam, sabendo da fraqueza dos deslumbrados.
Como na caverna de Platão, onde agora, cegos e aprisionados uivamos a perda
e buscamos um rumo, haverá de chegar a luz, do fogo primeiro, mas
cristalina e pura, e anunciando um novo dia, depois. Mas tal não virá de sortilégio do Olimpo, antes imporá a necessária revolta dos escravos, o quebrar das algemas, a união
denodada e sem temores. Imporá pôr à prova se os escravos merecem ser um país ou, erráticamente, mero
quilombo de deserdados em fuga e com liberdade vigiada.
Os dias são de
desespero e de spleen, chamamentos de Circe e apelos à fuga de Ítaca, para, assustados, sulcar
fronteiras, ziguezagueando a vida e trocando voltas ao futuro, dias de sofrimento,
exaustão, entre a loucura e a entropia, o estilhaçar de sonhos ou o seu
cruel adiamento. É chegado o momento da renovação, do regresso da alva Iemanjá e dum assomo
de magia que faça das fraquezas forças, dos rebeldes líderes, das ideias planos
e deste rincão desígnio. O grande exército do Futuro, dos que se
indignem com consequência, ajam com sabedoria, tracem planos consistentes e de
diferença, e que, reconquistada a chama, a reponham na pira sagrada onde se
venere a dignidade e perspective um Devir.
Um calendário é uma sucessão de luas e sóis, chuvas e
secas, colheitas e gestações, e o inóspito inverno em que um tentacular inferno capturou as nossas vidas e as mantêm longe de Ítaca, num mar encapelado, de Circes e Polifemos, ventos gélidos e trovões açoitantes cerceia-nos e fustiga.
Mas, ao Inverno sucederá a Primavera, e de novo o Verão. Lento e silencioso, o
Futuro prepara o seu caminho.
A esperança sem mobilização, equivale a resignação. Uma
solução há apenas: a de sermos militantes cavaleiros da esperança ou inúteis escravos da resignação. Avancemos pois, convocados que estamos para a sagrada missão de porfiar Futuro e capturar a Luz, para tanto levantando firmes a cintilante espada da dignidade.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Uma medalha para João Rodil
Falar de Cultura em Sintra e de pessoas que tanto tenham demonstrado amor a Sintra nos últimos trinta anos é, entre outros (poucos) falar de João Rodil,figura incontornável na divulgação da nossa História local e entusiasta de tudo o que a ela diz respeito. Defensor do património, como quando fundou a Liga dos Amigos dos Capuchos, autor de obras monográficas relatando a história dos locais emblemáticos- e outros menos conhecidos- estudioso da literatura sintrense e militante de causas sem reclamar louros ou comendas, companheiro na Alagamares, desinteressadamente pugnando pela Cidadania como forma de estar, há muito devia ter sido já reconhecido pelo seu contributo que só eleva a qualidade dos que defendem Sintra e honra os que o conhecem e com ele partilham das mesmas angústias, ideais e motivações. É por isso que já vai sendo tempo de o seu valor como cidadão, publicista e Sintrense ser alvo de público reconhecimento com a atribuição de uma medalha de mérito municipal. Quando restaurantes de cabrito e ilustres desconhecidos já foram bafejados com tais honrarias sem mais terem feito que ser amigos dos proponentes, alimentando vaidades e compadrios, bem iria Sintra se, aproveitando cada vez mais as potencialidades e as qualidades de João Rodil, o agraciasse simbolicamente, pois de símbolos vive a nossa sociedade e não campeiam assim tantos vultos destacados na Sintra dos nossos dias.Como escreveu La Bruyére, uma coisa essencial à justiça que se deve aos outros, é fazê-la, prontamente e sem adiamentos;demorá-la é injustiça.Fica a sugestão.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Domingos
Ao
domingo, pela manhã, tempo de ler os jornais para
ver a opinião publicada e por vezes a partir daí passar-se a ter opinião,
já não própria, mas de acordo com as tendências.A preferência dos
leitores varia conforme a proximidade:é mais importante o
assalto da carteira da vizinha, reportado em parangonas, que o eventual
lançamento dum míssil pela Coreia do Norte.
Ao
domingo, entre a meia de leite, a leitura do desportivo, e partidas e chegadas para o centro comercial mais próximo,
todos têm os seus 5 minutos de antena:"eles" é que são os
culpados;"eles" levam "isto" ao abismo; "nós" temos de aguentar; "eles"
falharam o penálti: "nós" ganhámos.Nada é real, tudo resiste, persiste,
mas não existe se não na forma como olhamos para o Outro.E assim vamos
suspirando, vítimas "disto", por entre epifânias quotidianas onde o azul é fugidio e o cinzento paira como karma. Por culpa "deles".
Procura-se
a Verdade, cada um vai
reclamar a sua, avassalada pelo estigma e a insegurança de tempos
finitos.É longe o nirvana.
Enfim,
o mundo tem 4 ínfimos minutos,e convêm deixar alguns segundos ao
domingo de manhã para salvá-lo, entre um pão de leite e a bica
pingada, e talvez, se o Sol brilhar e o clube ganhou, um passeio a provar que é domingo.
A
serra vigia,o eléctrico passa na dolência de velho elefante,e nós
esperamos o Godot que nos há-de trazer um jornal só de boas notícias e resgate do cinzento.É mais uma bica, por favor!
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Parques de Sintra: abrir a nacionais aos domingos todo o dia
Tem vindo a
Parques de Sintra-Monte da Lua a praticar uma política permissiva quanto ao
acesso dos visitantes munícipes de Sintra aos domingos de manhã, iniciativa,
que, sendo meritória, se tem revelado contudo insuficiente, tendo em vista a
plena fruição pelos residentes dos bens culturais Património da Humanidade de
que Sintra é depositária, e a dificuldade de muitos agregados familiares, jovens,
sobretudo, de conhecer a sua Memória e Herança, num quadro marcado pela
predominância dos visitantes estrangeiros, e por uma política de ingressos que,
sendo porventura adequada, frustra os fins de plena fruição cultural para que
tais espaços vão sendo recuperados.
É sabido
serem os monumentos nacionais visitados em maior número por estrangeiros, os
quais representaram em 2012 85% das entradas, tendo, igualmente segundo números
de 2012 referentes ao todo nacional, 69% dos visitantes pago um ingresso de
entrada, enquanto 31% entrou de forma gratuita, e sendo que 19% das entradas
gratuitas corresponderam à categoria das visitas aos domingos e feriados.
Contudo,
verifica-se que se vem a registar uma diminuição significativa dos visitantes
nacionais, derivado do facto de ser exíguo o horário praticado (apenas as
manhãs de domingo), quando em muitos outros espaços igualmente com elevados
encargos de conservação esse horário cobre períodos mais dilatados. Cite-se o
Museu do Prado, em Madrid, que abre gratuitamente de 2ª a sábado das 18h às
20h, e domingos das 17h às 20h, ou o Museu Rainha Sofia, igualmente em Madrid,
que abre gratuitamente nas tardes de sábado (das 14h30m às 21h) e domingos de
manhã (das 10h às 14h30m).
O direito à
fruição cultural está no artigo 27º da Declaração Universal dos Direitos
Humanos e nos artigos 13º e 15º do Pacto Internacional dos Direitos Económicos,
Sociais e Culturais. Deve pois envidar-se todos os esforços para que todas as
pessoas participem na vida cultural e acedam aos bens culturais, como forma de
acesso à educação e à cultura, devendo de acordo com o nº2 do artº 78º da
Constituição da República Portuguesa promover-se não só a salvaguarda e a
valorização do património cultural, mas torná-lo elemento vivificador da nossa
identidade cultural comum, o que só uma plena fruição traduzida no acesso aos
locais e sua apreensão valorativa pode garantir.
Só pode
criar cultura quem fruir da cultura, e o direito de acesso aos bens culturais
deve compreender o direito de acesso ao património cultural (artigo 78º, nº 1 e
nº 2, alínea a), 2ª parte, e alínea b), 2ª parte, e, em especial, artigo 72º,
nº 1 da Constituição). Se é certo ser a PSML uma empresa que tem de
racionalizar a gestão do património e actuar em conformidade com as receitas
percepcionadas, é seu desiderato enquanto fiel depositária da parte mais nobre
do Património da Humanidade de Sintra potenciar igualmente estes valores e
objectivos, no que a dispensa de pagamento de entradas aos residentes em Sintra
durante todo o dia de domingo significaria um passo relevante nesse sentido. Tal como tem sido política da PSML "abrir para obras", igualmente significativo será "abrir para mais". Esperemos por boas notícias.
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