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quarta-feira, 11 de março de 2015

11 de Março de 1975



11 de Março de 1975. Aluno do 6º ano no Liceu D. Pedro V, em Lisboa (correspondente ao hoje 10º) ao som da Marcha do MFA- marcha militar americana da autoria do luso-descendente John Philipp De Souza- que passava nas rádios e no único canal da RTP, era surpreendido a caminho de mais um dia de aulas com o inopinado voo de uns paraquedistas de Tancos que supostamente atacavam o quartel do RAL 1, em Sacavém. As notícias eram desencontradas, e por segurança, fui buscar a minha irmã, então aluna na Marquesa de Alorna, sob a visão de aviões nos céus da Praça de Espanha, com aquela emoção de quem fugia a um bombardeamento de napalm sobre Saigão. Eram dias em que tudo estava em frequente mudança, e spinolistas ressabiados tentavam mudar o rumo da política esquerdizante do governo de Vasco Gonçalves, pró-descolonização e colectivização da economia, no que aliás, a nós, geração de Abril, nos parecia o caminho, filhos do Maio de 68 e a quem a Internacional causava frémitos na espinha em busca das madrugadas redentoras. Em consequência, falhando a intentona, Spínola fugiu para Espanha, o governo radicalizou as políticas económicas, e vieram as nacionalizações e a reforma agrária no Alentejo, dando inicio àquilo que se convencionou chamar o PREC. Kissinger dava Portugal como perdido para os bolchevistas, e o caso República, mais tarde, já depois de eleições para a Constituinte terem apontado um rumo moderado para o país, afastava de vez a esquerda portuguesa, ainda hoje sobre o síndroma do famoso “olhe que não” de Cunhal.

Depois daquela quinta-feira em 1974 em que não houve aulas e o ponto de Física ficou adiado por causa duns militares que ocuparam o Terreiro do Paço, a vida corria vertiginosa, sempre agarrados à rádio ou televisão, com os chaimites do COPCON no lugar hoje ocupado pelos tuk tuk. Embriagados pelas notícias da liberdade que de todo o lado choviam, animados por canções de protesto nunca antes escutadas, haviam-se descoberto os sons de Zeca Afonso, Francisco Fanhais, Luís Cília e Adriano, manifestos policopiados e jornais de parede apelavam a RGA’s para discutir problemas da escola, e o país agigantava-se fazendo a última revolução utópica dos tempos modernos. O período que mediou entre 11 de Março e 25 de Novembro desse ano foi o mais agitado da nossa História contemporânea, durante o qual a maior parte das colónias se tornou independente e se tentaram experiências oscilantes entre a social-democracia nórdica e o maoísmo panfletário.

Passam hoje 40 anos dessa tarde em que os aviões rasantes sobrevoaram a Praça de Espanha. Hoje, sem derramamento de sangue, embora, outro napalm caiu sobre as cidades e campos deste país, estilhaçado, vivendo na twilight zone da esperança e sem Marcha do MFA a empolgar os amanhãs ululantes. Definitivamente, o futuro já não é como era.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Alagamares-10 anos de militância


Foi a 9 de Março de 2005 que um punhado de sintrenses fundava no desaparecido café das Caves de S. Martinho a Alagamares, e nunca mais até hoje parou, ocupando um espaço em aberto no nosso panorama local.

Com mais de 150 iniciativas e eventos realizados, a Alagamares interagiu com a sociedade, e nela bebeu experiências, tentou rasgar caminhos e ser agente de mudança, um parceiro e actor cultural, para tanto se balizando pela discussão e abordagem permanente de assuntos novos ou em novas perspectivas. Como disse Miguel de Unamuno, “a erudição é, em muitos casos, uma forma disfarçada de preguiça intelectual ou um ópio para adormecer as inquietações íntimas do espírito“. Não somos um núcleo de eruditos, mas continuaremos a ser artífices e artesãos do Saber, sem dirigismos, dogmas ou espírito de capela, assim cumprindo a nossa missão de cidadãos. A participação entusiasta e crítica nas actividades e na vida associativa tem sido a pedra angular do sucesso e eficácia da nossa associação, cujo objectivo é o da promoção da cultura, da região de Sintra e dos seus associados. Em tempos de anemia financeira, não permaneceremos anémicos mas interventivos, cientes de que a cidadania activa deve ser congregadora de sinergias. Rejeitamos a desistência e com entusiasmo e pés no chão proclamamos a nossa vontade de afirmar a Cultura  como um dever social e a acção mobilizadora como propulsora de novos horizontes.

Nestes 10 anos, além da Alagamares, Sintra viu surgir grupos como o Danças com História, o Sintra Estúdio de Ópera, a Três Pontos, a Voando em Cynthia, a Dínamo e o Ardecoro, a revista digital Selene, blogues de intervenção cívica como o Rio das Maçãs, Sintra do Avesso, Retalhos de Sintra, Sintra Deambulada, O Reino de Klingsor, Tudo sobre Sintra ou Serra de Sintra, os Encontros de Alternativas, o trabalho de grupos como o Chão de Oliva, o teatromosca, o Teatrosfera, o Utopia Teatro, o byfurcação ou a Musgo. Restaurou-se o Chalé da Condessa e a Parques de Sintra veio mudar o paradigma na abordagem do Património, abriu o Centro de Ciência Viva, afirmaram-se escritores de Sintra como Miguel Real, Sérgio Luís Carvalho, Raquel Ochoa, Luís Filipe Sarmento, Filomena Marona Beja, Liberto Cruz, Jorge Telles Menezes ou Luís Corredoura, fizeram-se tertúlias e encontros, como os Meninos d’Avó, o Traço Comum, os III e IV Encontro de História de Sintra, nasceu a Saloia TV. E abriu o Museu de História Natural, rotinaram-se festivais como o Córtex e o Periferias, a CMS lançou o Tritão, uma revista digital, e abriu o MU.SA. É todo um panorama que difere dum passado mais rarefeito e esporádico.

 Há muito a fazer, ainda, e nem tudo foram sucessos, num quadro de redução de verbas e dificuldades de sobrevivência de muitos agentes culturais e grupos. Desapareceu o Centro de Arte Moderna e o Museu do Brinquedo, falta dar destino à Quinta da Ribafria, resolver de forma definitiva os problemas do estacionamento, a violência dos abates e podas agressivas, o preço das entradas nos monumentos, dar atenção à formação de públicos, criar um cluster de indústrias da Cultura.

Igualmente muitos partiram nesta década: Maria João Fontaínhas, Xaimix, Pinto Vasques, Simplício dos Santos, Maria Gabriela Llansol, António Caruna, Eduardo Lacerda Tavares, M. S. Lourenço, Ana Daniel, Carlos Viseu, João Benard da Costa, Ernesto Neves, Cláudio Brito, Bartolomeu Cid dos Santos, José Manuel Conceição, Helena Langrouva. A sua memória e testemunho nos guiarão na luta por uma Sintra de Cidadãos, activos e preocupados.

Militar em associações, e por causas, nos tempos que correm, é mais que nunca um dever cívico. Vivemos momentos de vigília, e de não deixar que a frágil árvore desapareça na floresta densa de dificuldades, cortes e silêncios motivados pela ditadura da dívida e do défice. Nestes dias dum Portugal cinzento, é essencial estimular a cidadania, e as boas práticas, pugnar pela educação como plataforma para o conhecimento, descolonizar a memória de imaginários estafados, resgatar a auto-estima e o “sentimento de nós”, e estimular a identidade que constrói a nossa idiossincrasia e peculiar forma de estar no mundo. É lançar pontes e massa crítica, mediar entre o poder público e as comunidades, num trajecto virtuoso que acentue o pathos de ser português, e sê-lo de modo universalista. É estar atento, ser parceiro com a lealdade de criticar, acompanhar as obras e não depois das obras, chamar a agir e interagir, actuar virtuosamente e não como agente de bloqueio ou imbuído de egoístas vaidades e atrás de protagonismos. É tocar a rebate no campanário, sangrar a pena revoltada, cavalgar a comunicação com a serenidade das emergências, visitar, escrever, protestar, ajudar, ouvir e ser ouvido, passar palavra, dar o murro certeiro e alertar o adversário, que muitas vezes é simplesmente a inércia, a ignorância, a incúria ou a miopia. É pugnar pelo valioso presente que resulta da aliança da memória com a auto-estima, da singularidade com o talento, da polis com os seus moradores, dos conventos, palácios e moinhos, com a serra, as tapadas ou os lapiás. É recordar os que trilharam o caminho, erguendo a tocha dos seres maiores, dos eremitas jerónimos aos dandys novecentistas, dos cavaleiros da finança aos poetas proscritos, ou do rei artista ao Carvalho da Pena, jardineiros de Deus na fértil horta de Klingsor.

Neste momento de festa, o orgulho de sem dinheiro nem alcandorados em capelas termos feito o nosso percurso independente, sem subsídios ou interesses encobertos, plurais mas com individualidade, é para nós motivo de orgulho e de afirmação. Não somos políticos, mas temos interesse nas políticas, e assim prosseguiremos, à frente e ao lado, mas nunca atrás.
Dez anos estão volvidos, que venham mais 10 anos.

domingo, 1 de março de 2015

Um barco para Ítaca

 
O momento que vivemos tem que representar uma viragem no lodaçal esquizofrénico em que a nossa vida colectiva se transformou. Falta a esperança, essa palavra talismã, e falta mostrar o osso com que, como o cão de Pavlov, de novo haveremos de voltar a ladrar. Para que tal aconteça, há que levantar do sofá, largar o comando da televisão e o asténico isolamento das redes sociais, silencioso espaço para gritar desesperos, buscar cumplicidades, e, todavia, nada decidir que altere o pathos dum reino de novo cadaveroso de anormal normalidade.

Antes de um inesperado Abril, muitos de nós lutaram contra a liberdade raptada, uma guerra anacrónica e por um futuro que por gerações nos foi negado, numa lógica de inevitabilidade por entre saudados costumes de brandura, que escondiam um povo amordaçado mas secular lutador. Um dia, fruto dessa guerra, surda mas germinal, tudo voltou a ser possível, e o Futuro teve rosto, calendário, protagonistas, muitos cães e muitos Pavlovs, ladrou-se e latiu-se, e apareceram ossos, carne, ração. Fez-se a democracia, mudaram-se retratos, discursos, atitudes, e, ao sétimo dia, o povo descansou, contente com a obra feita, e entregou-se à volúpia consumista, ao hedonismo egoísta, à anomia social, de bom selvagem, o indígena ficou tão só selvagem, com casas T3 em Massamá, férias no Algarve ou carro novo cada três anos. Barato, o vil metal abundou, o maná igualmente, triunfantes mas cegos pelo sol, havia-se alcançada a Terra Prometida, depois de anos a errar no deserto depois dos grilhões do faraó. Silencioso, porém, o veneno dos inimigos  fervia no caldeirão, acelerado pelo novo metal da Europa e pelos trinta dinheiros com que a ele nos rendemos, finalmente leais a César, e nas suas teutónicas mas capciosas mãos. Um dia, legiões de cobradores chegaram a cobrar o dízimo, e, qual Sodoma, tudo ruiu então, transformado em sal e às mãos dos que na penumbra manobravam, sabendo da fraqueza dos deslumbrados.

Como na caverna de Platão, onde agora, cegos e aprisionados uivamos a perda e buscamos um rumo, haverá de chegar a luz, do fogo primeiro, mas cristalina e pura, e anunciando um novo dia, depois. Mas tal não virá de sortilégio do Olimpo, antes imporá a necessária revolta dos escravos, o quebrar das algemas, a união denodada e sem temores. Imporá pôr à prova se os escravos merecem ser um país ou, erráticamente, mero quilombo de deserdados em fuga e com liberdade vigiada.

Os dias são de desespero e de spleen, chamamentos de Circe e apelos à fuga de Ítaca, para, assustados, sulcar fronteiras, ziguezagueando a vida e trocando voltas ao futuro, dias de sofrimento, exaustão, entre a loucura e a entropia, o estilhaçar de sonhos ou o seu cruel adiamento. É chegado o momento da renovação, do regresso da alva Iemanjá e dum assomo de magia que faça das fraquezas forças, dos rebeldes líderes, das ideias planos e deste rincão desígnio. O grande exército do Futuro, dos que se indignem com consequência, ajam com sabedoria, tracem planos consistentes e de diferença, e que, reconquistada a chama, a reponham na pira sagrada onde se venere a dignidade e perspective um Devir.

Um calendário é uma sucessão de luas e sóis, chuvas e secas, colheitas e gestações, e o inóspito inverno em que um tentacular inferno capturou as nossas vidas e as mantêm longe de Ítaca, num mar encapelado, de Circes e Polifemos, ventos gélidos e trovões açoitantes cerceia-nos e fustiga. Mas, ao Inverno sucederá a Primavera, e de novo o Verão. Lento e silencioso, o Futuro prepara o seu caminho.

A esperança sem mobilização, equivale a resignação. Uma solução há apenas: a de sermos militantes cavaleiros da esperança ou inúteis escravos da resignação. Avancemos  pois, convocados que estamos para a sagrada missão de porfiar Futuro e capturar a Luz, para tanto levantando firmes a cintilante espada da dignidade.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Uma medalha para João Rodil



Falar de Cultura em Sintra e de pessoas que tanto tenham demonstrado amor a Sintra nos últimos trinta anos é, entre outros (poucos) falar de João Rodil,figura incontornável na divulgação da nossa História local e entusiasta de tudo o que  a ela diz respeito. Defensor do património, como quando fundou a Liga dos Amigos dos Capuchos, autor de obras monográficas relatando a história dos locais emblemáticos- e outros menos conhecidos- estudioso da literatura sintrense e militante de causas sem reclamar louros ou comendas, companheiro na Alagamares, desinteressadamente pugnando pela Cidadania como forma de estar, há muito devia ter sido já reconhecido pelo seu contributo que só eleva a qualidade dos que defendem Sintra e honra os que o conhecem e com ele partilham das mesmas angústias, ideais e motivações. É por isso que já vai sendo tempo de o seu valor como cidadão, publicista e Sintrense ser alvo de público reconhecimento com a atribuição de uma medalha de mérito municipal. Quando restaurantes de cabrito e ilustres desconhecidos já foram bafejados com tais honrarias sem mais terem feito que ser amigos dos proponentes, alimentando vaidades e compadrios, bem iria Sintra se, aproveitando cada vez mais as potencialidades e as qualidades de João Rodil, o agraciasse simbolicamente, pois de símbolos vive a nossa sociedade e não campeiam assim tantos vultos destacados na Sintra dos nossos dias.Como escreveu La Bruyére, uma coisa essencial à justiça que se deve aos outros, é fazê-la, prontamente e sem adiamentos;demorá-la é injustiça.Fica a sugestão.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Domingos



Ao domingo, pela manhã, tempo de ler os jornais para ver a opinião publicada e por vezes a partir daí passar-se a ter opinião, já não própria, mas de acordo com as tendências.A preferência dos leitores varia conforme a proximidade:é mais importante o assalto da carteira da vizinha, reportado em parangonas, que o eventual lançamento dum míssil pela Coreia do Norte.

Ao domingo, entre a meia de leite, a leitura do desportivo, e partidas e chegadas para o centro comercial mais próximo, todos têm os seus 5 minutos de antena:"eles" é que são os culpados;"eles" levam "isto" ao abismo; "nós" temos de aguentar; "eles" falharam o penálti: "nós" ganhámos.Nada é real, tudo resiste, persiste, mas não existe se não na forma como olhamos para o Outro.E assim vamos suspirando, vítimas "disto", por entre epifânias quotidianas onde o azul é fugidio e o cinzento paira como karma. Por culpa "deles".

Procura-se a Verdade, cada um vai reclamar a sua, avassalada pelo estigma e a insegurança de tempos finitos.É longe o nirvana.

Enfim, o mundo tem 4 ínfimos minutos,e convêm deixar alguns segundos ao domingo de manhã para salvá-lo, entre um pão de leite e a bica pingada, e talvez, se o Sol brilhar e o clube ganhou,  um passeio a provar que é domingo.

A serra vigia,o eléctrico passa na dolência de velho elefante,e nós esperamos o Godot que nos há-de trazer um jornal só de boas notícias e resgate do cinzento.É mais uma bica, por favor!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Parques de Sintra: abrir a nacionais aos domingos todo o dia


Tem vindo a Parques de Sintra-Monte da Lua a praticar uma política permissiva quanto ao acesso dos visitantes munícipes de Sintra aos domingos de manhã, iniciativa, que, sendo meritória, se tem revelado contudo insuficiente, tendo em vista a plena fruição pelos residentes dos bens culturais Património da Humanidade de que Sintra é depositária, e a dificuldade de muitos agregados familiares, jovens, sobretudo, de conhecer a sua Memória e Herança, num quadro marcado pela predominância dos visitantes estrangeiros, e por uma política de ingressos que, sendo porventura adequada, frustra os fins de plena fruição cultural para que tais espaços vão sendo recuperados.

É sabido serem os monumentos nacionais visitados em maior número por estrangeiros, os quais representaram em 2012 85% das entradas, tendo, igualmente segundo números de 2012 referentes ao todo nacional, 69% dos visitantes pago um ingresso de entrada, enquanto 31% entrou de forma gratuita, e sendo que 19% das entradas gratuitas corresponderam à categoria das visitas aos domingos e feriados.

Contudo, verifica-se que se vem a registar uma diminuição significativa dos visitantes nacionais, derivado do facto de ser exíguo o horário praticado (apenas as manhãs de domingo), quando em muitos outros espaços igualmente com elevados encargos de conservação esse horário cobre períodos mais dilatados. Cite-se o Museu do Prado, em Madrid, que abre gratuitamente de 2ª a sábado das 18h às 20h, e domingos das 17h às 20h, ou o Museu Rainha Sofia, igualmente em Madrid, que abre gratuitamente nas tardes de sábado (das 14h30m às 21h) e domingos de manhã (das 10h às 14h30m).

O direito à fruição cultural está no artigo 27º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos artigos 13º e 15º do Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais. Deve pois envidar-se todos os esforços para que todas as pessoas participem na vida cultural e acedam aos bens culturais, como forma de acesso à educação e à cultura, devendo de acordo com o nº2 do artº 78º da Constituição da República Portuguesa promover-se não só a salvaguarda e a valorização do património cultural, mas torná-lo elemento vivificador da nossa identidade cultural comum, o que só uma plena fruição traduzida no acesso aos locais e sua apreensão valorativa pode garantir.

Só pode criar cultura quem fruir da cultura, e o direito de acesso aos bens culturais deve compreender o direito de acesso ao património cultural (artigo 78º, nº 1 e nº 2, alínea a), 2ª parte, e alínea b), 2ª parte, e, em especial, artigo 72º, nº 1 da Constituição). Se é certo ser a PSML uma empresa que tem de racionalizar a gestão do património e actuar em conformidade com as receitas percepcionadas, é seu desiderato enquanto fiel depositária da parte mais nobre do Património da Humanidade de Sintra potenciar igualmente estes valores e objectivos, no que a dispensa de pagamento de entradas aos residentes em Sintra durante todo o dia de domingo significaria um passo relevante nesse sentido. Tal como tem sido política da PSML "abrir para obras", igualmente significativo será "abrir para mais". Esperemos por boas notícias.


 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

No regresso das tertúlias de Sintra


As tertúlias foram no passado importantes círculos literários e até políticos onde, à falta das modernas redes sociais, se discutia e perorava sobre tudo, tendo algumas chegado aos nossos dias como referências incontornáveis. Com base em cafés como o Nicola, a Brazileira ou o Café Gelo, pigmaliões e dandys, cultores da palavra ou tão só do escárnio, encontraram o púlpito virtuoso para a celebração da Liberdade e para combates que por vezes descambaram em querelas verrinosas escritas em tinta ensanguentada pelo fel, e outros líquidos menos ácidos.

Vem isto a propósito de saber se nestes tempos de paradoxal incomunicação, do asséptico Skype ou da silenciosa SMS, e em que o contacto físico é quase estranho, há espaço para as tertúlias e para o diálogo sem ser em chat. Por mim, bisneto de Vérlaine, Rimbaud, William Blake, Baudelaire, Henry Miller, Kerouac, William Burroughs ou Charles Bukowski, contínuo a preferir reuniões de seitas vivas, por vezes reunidas para celebrar poetas mortos, mas que, redentoramente aí renascem, vaporizados pelo espirito grupal, pela sede saciada, e pela fraternidade libertária, filhos da fotocópia ou do fanzine, só da morte libertados após morrerem.

Sintra teve e tem tradição neste campo, passando agora 10 anos dum período em que, de 2004 a 2007, poetas, gente da cultura ou simplesmente boémios, se reuniram para ler e ouvir poesia, peripatética dança dos sentidos bafejada pela cintilante Luz lunar, e hoje, protestando em guturais poemas, quer voltar à Luz no promontorial refúgio que é esta Sintra que foi de Eça e das pipas de Colares. Há que desembainhar canetas, zurzir teclados, engrossar as vozes, para que a Cultura seja dos seus legítimos defensores e não de avaros tutores, abrindo portas, escancarando gargantas, fervendo o caldeirão das druídicas palavras, chamar os órfãos e dizer-lhes que os progenitores estão vivos e de volta.

Ontem Meninos d’Avó, hoje, qual Baltasar, regressados para a sua Blimunda, aí estão de volta os Poetas, veteranos e debutantes, abrindo o baú da vida e redescobrindo geografias de esperança,  holograficamente alterando futuros, assassinando passados, imperadores do caderno e pujantes reis da caneta.

Nas tertúlias se inventam palavras e se solta a magia que flui qual nocturno pirilampo. Para alguns, elas nada dirão, o segredo, cínico, ficará nas palavras que não foram escritas, mas tão só sussurradas. O verdadeiro poema é aquele que nunca escreveremos, mas todos julgaremos descobrir em qualquer frágil  papel branco. Escrever é gerir línguas mortas, aramaicos de lucidez, que muitos, dormentes e de fígados cansados, ousarão profanar, guardiães de silenciosos segredos.

Nas tertúlias se podem ainda desenhar mapas da liberdade em folhas ainda em branco, rasgar oceanos de ilusões, montanhas de desespero, ilhas de luz. É afinal disso que se trata: de viver a Liberdade. Como escreveu Paul Éluard:

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie

Je suis né pour te connaître

Pour te nommer

Liberté.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Ser Charlie

"Não é forte quem derruba os outros; forte é quem domina a sua ira." 
Alcorão

Ser Charlie é lutar pela liberdade de expressão, pelo direito à diferença e à crítica responsável, com tolerância e respeito pelo Outro.
Ser Charlie é recusar a escravatura dos extremismos e do ódio racial, contra todas as formas de xenofobia, discriminação e cegueira.
Ser Charlie é saber rir com quem faz humor e ter a distância para aceitar a crítica, ainda que por vezes viperina ou mordaz.
Ser Charlie é lutar pelo Estado de Justiça e pela comunidade de homens livres, num quadro de proporcionalidade e delimitação de fronteiras onde a liberdade de cada um comece onde acaba a dos outros.
Ser Charlie é poder olhar em frente e não caminhar sob a ameaça do gatilho, seja ele das armas ou do excesso da arbitrariedade que só pode gerar espirais de violência e intolerância.
Ser Charlie é ter o vício benigno de ser livre e querer viver entre homens livres.
Como escreveu Renard, o homem livre é aquele que não receia ir até ao fim da sua razão. Não desistamos de prosseguir as nossas razões, individuais e colectivas. Só assim subsistirá Charlie.