Falar de Cultura em Sintra e de pessoas que tanto tenham demonstrado amor a Sintra nos últimos trinta anos é, entre outros (poucos) falar de João Rodil,figura incontornável na divulgação da nossa História local e entusiasta de tudo o que a ela diz respeito. Defensor do património, como quando fundou a Liga dos Amigos dos Capuchos, autor de obras monográficas relatando a história dos locais emblemáticos- e outros menos conhecidos- estudioso da literatura sintrense e militante de causas sem reclamar louros ou comendas, companheiro na Alagamares, desinteressadamente pugnando pela Cidadania como forma de estar, há muito devia ter sido já reconhecido pelo seu contributo que só eleva a qualidade dos que defendem Sintra e honra os que o conhecem e com ele partilham das mesmas angústias, ideais e motivações. É por isso que já vai sendo tempo de o seu valor como cidadão, publicista e Sintrense ser alvo de público reconhecimento com a atribuição de uma medalha de mérito municipal. Quando restaurantes de cabrito e ilustres desconhecidos já foram bafejados com tais honrarias sem mais terem feito que ser amigos dos proponentes, alimentando vaidades e compadrios, bem iria Sintra se, aproveitando cada vez mais as potencialidades e as qualidades de João Rodil, o agraciasse simbolicamente, pois de símbolos vive a nossa sociedade e não campeiam assim tantos vultos destacados na Sintra dos nossos dias.Como escreveu La Bruyére, uma coisa essencial à justiça que se deve aos outros, é fazê-la, prontamente e sem adiamentos;demorá-la é injustiça.Fica a sugestão.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Uma medalha para João Rodil
Falar de Cultura em Sintra e de pessoas que tanto tenham demonstrado amor a Sintra nos últimos trinta anos é, entre outros (poucos) falar de João Rodil,figura incontornável na divulgação da nossa História local e entusiasta de tudo o que a ela diz respeito. Defensor do património, como quando fundou a Liga dos Amigos dos Capuchos, autor de obras monográficas relatando a história dos locais emblemáticos- e outros menos conhecidos- estudioso da literatura sintrense e militante de causas sem reclamar louros ou comendas, companheiro na Alagamares, desinteressadamente pugnando pela Cidadania como forma de estar, há muito devia ter sido já reconhecido pelo seu contributo que só eleva a qualidade dos que defendem Sintra e honra os que o conhecem e com ele partilham das mesmas angústias, ideais e motivações. É por isso que já vai sendo tempo de o seu valor como cidadão, publicista e Sintrense ser alvo de público reconhecimento com a atribuição de uma medalha de mérito municipal. Quando restaurantes de cabrito e ilustres desconhecidos já foram bafejados com tais honrarias sem mais terem feito que ser amigos dos proponentes, alimentando vaidades e compadrios, bem iria Sintra se, aproveitando cada vez mais as potencialidades e as qualidades de João Rodil, o agraciasse simbolicamente, pois de símbolos vive a nossa sociedade e não campeiam assim tantos vultos destacados na Sintra dos nossos dias.Como escreveu La Bruyére, uma coisa essencial à justiça que se deve aos outros, é fazê-la, prontamente e sem adiamentos;demorá-la é injustiça.Fica a sugestão.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Domingos
Ao
domingo, pela manhã, tempo de ler os jornais para
ver a opinião publicada e por vezes a partir daí passar-se a ter opinião,
já não própria, mas de acordo com as tendências.A preferência dos
leitores varia conforme a proximidade:é mais importante o
assalto da carteira da vizinha, reportado em parangonas, que o eventual
lançamento dum míssil pela Coreia do Norte.
Ao
domingo, entre a meia de leite, a leitura do desportivo, e partidas e chegadas para o centro comercial mais próximo,
todos têm os seus 5 minutos de antena:"eles" é que são os
culpados;"eles" levam "isto" ao abismo; "nós" temos de aguentar; "eles"
falharam o penálti: "nós" ganhámos.Nada é real, tudo resiste, persiste,
mas não existe se não na forma como olhamos para o Outro.E assim vamos
suspirando, vítimas "disto", por entre epifânias quotidianas onde o azul é fugidio e o cinzento paira como karma. Por culpa "deles".
Procura-se
a Verdade, cada um vai
reclamar a sua, avassalada pelo estigma e a insegurança de tempos
finitos.É longe o nirvana.
Enfim,
o mundo tem 4 ínfimos minutos,e convêm deixar alguns segundos ao
domingo de manhã para salvá-lo, entre um pão de leite e a bica
pingada, e talvez, se o Sol brilhar e o clube ganhou, um passeio a provar que é domingo.
A
serra vigia,o eléctrico passa na dolência de velho elefante,e nós
esperamos o Godot que nos há-de trazer um jornal só de boas notícias e resgate do cinzento.É mais uma bica, por favor!
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Parques de Sintra: abrir a nacionais aos domingos todo o dia
Tem vindo a
Parques de Sintra-Monte da Lua a praticar uma política permissiva quanto ao
acesso dos visitantes munícipes de Sintra aos domingos de manhã, iniciativa,
que, sendo meritória, se tem revelado contudo insuficiente, tendo em vista a
plena fruição pelos residentes dos bens culturais Património da Humanidade de
que Sintra é depositária, e a dificuldade de muitos agregados familiares, jovens,
sobretudo, de conhecer a sua Memória e Herança, num quadro marcado pela
predominância dos visitantes estrangeiros, e por uma política de ingressos que,
sendo porventura adequada, frustra os fins de plena fruição cultural para que
tais espaços vão sendo recuperados.
É sabido
serem os monumentos nacionais visitados em maior número por estrangeiros, os
quais representaram em 2012 85% das entradas, tendo, igualmente segundo números
de 2012 referentes ao todo nacional, 69% dos visitantes pago um ingresso de
entrada, enquanto 31% entrou de forma gratuita, e sendo que 19% das entradas
gratuitas corresponderam à categoria das visitas aos domingos e feriados.
Contudo,
verifica-se que se vem a registar uma diminuição significativa dos visitantes
nacionais, derivado do facto de ser exíguo o horário praticado (apenas as
manhãs de domingo), quando em muitos outros espaços igualmente com elevados
encargos de conservação esse horário cobre períodos mais dilatados. Cite-se o
Museu do Prado, em Madrid, que abre gratuitamente de 2ª a sábado das 18h às
20h, e domingos das 17h às 20h, ou o Museu Rainha Sofia, igualmente em Madrid,
que abre gratuitamente nas tardes de sábado (das 14h30m às 21h) e domingos de
manhã (das 10h às 14h30m).
O direito à
fruição cultural está no artigo 27º da Declaração Universal dos Direitos
Humanos e nos artigos 13º e 15º do Pacto Internacional dos Direitos Económicos,
Sociais e Culturais. Deve pois envidar-se todos os esforços para que todas as
pessoas participem na vida cultural e acedam aos bens culturais, como forma de
acesso à educação e à cultura, devendo de acordo com o nº2 do artº 78º da
Constituição da República Portuguesa promover-se não só a salvaguarda e a
valorização do património cultural, mas torná-lo elemento vivificador da nossa
identidade cultural comum, o que só uma plena fruição traduzida no acesso aos
locais e sua apreensão valorativa pode garantir.
Só pode
criar cultura quem fruir da cultura, e o direito de acesso aos bens culturais
deve compreender o direito de acesso ao património cultural (artigo 78º, nº 1 e
nº 2, alínea a), 2ª parte, e alínea b), 2ª parte, e, em especial, artigo 72º,
nº 1 da Constituição). Se é certo ser a PSML uma empresa que tem de
racionalizar a gestão do património e actuar em conformidade com as receitas
percepcionadas, é seu desiderato enquanto fiel depositária da parte mais nobre
do Património da Humanidade de Sintra potenciar igualmente estes valores e
objectivos, no que a dispensa de pagamento de entradas aos residentes em Sintra
durante todo o dia de domingo significaria um passo relevante nesse sentido. Tal como tem sido política da PSML "abrir para obras", igualmente significativo será "abrir para mais". Esperemos por boas notícias.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
No regresso das tertúlias de Sintra
As tertúlias foram no passado importantes círculos literários e até políticos
onde, à falta das modernas redes sociais, se discutia e perorava sobre tudo,
tendo algumas chegado aos nossos dias como referências incontornáveis. Com base
em cafés como o Nicola, a Brazileira ou o Café Gelo, pigmaliões e dandys,
cultores da palavra ou tão só do escárnio, encontraram o púlpito virtuoso para
a celebração da Liberdade e para combates que por vezes descambaram em
querelas verrinosas escritas em tinta ensanguentada pelo fel, e outros líquidos
menos ácidos.
Vem isto a
propósito de saber se nestes tempos de paradoxal incomunicação, do asséptico Skype ou da silenciosa SMS, e em que o contacto físico
é quase estranho, há espaço para as tertúlias e para o diálogo sem ser em chat. Por mim, bisneto
de Vérlaine, Rimbaud, William Blake, Baudelaire, Henry Miller, Kerouac,
William Burroughs ou Charles Bukowski, contínuo a preferir reuniões de
seitas vivas, por vezes reunidas para celebrar poetas mortos, mas que, redentoramente aí renascem, vaporizados pelo
espirito grupal, pela sede saciada, e pela fraternidade libertária,
filhos da fotocópia ou do fanzine, só da morte libertados após morrerem.
Sintra teve
e tem tradição neste campo, passando agora 10 anos dum período em que,
de 2004 a 2007, poetas, gente da cultura ou simplesmente boémios, se reuniram
para ler e ouvir poesia, peripatética dança dos sentidos bafejada pela
cintilante Luz lunar, e hoje, protestando em guturais poemas, quer voltar à
Luz no promontorial refúgio que é esta Sintra que foi de Eça e das pipas de Colares. Há que desembainhar
canetas, zurzir teclados, engrossar as vozes, para que a Cultura seja dos
seus legítimos defensores e não de avaros tutores, abrindo portas, escancarando
gargantas, fervendo o caldeirão das druídicas palavras, chamar os órfãos e
dizer-lhes que os progenitores estão vivos e de volta.
Ontem
Meninos d’Avó, hoje, qual Baltasar, regressados para a sua Blimunda, aí estão de
volta os Poetas, veteranos e debutantes, abrindo o baú da vida e redescobrindo geografias de esperança, holograficamente alterando futuros,
assassinando passados, imperadores do caderno e pujantes reis da caneta.
Nas tertúlias
se inventam palavras e se solta a magia que flui qual nocturno pirilampo. Para alguns, elas nada dirão, o segredo, cínico, ficará nas palavras que não foram
escritas, mas tão só sussurradas. O verdadeiro poema é aquele que nunca escreveremos, mas todos julgaremos
descobrir em qualquer frágil papel branco. Escrever é gerir
línguas mortas, aramaicos de lucidez, que muitos, dormentes e de fígados cansados,
ousarão profanar, guardiães de silenciosos segredos.
Nas tertúlias
se podem ainda desenhar mapas da liberdade em folhas ainda em branco, rasgar
oceanos de ilusões, montanhas de desespero, ilhas de luz. É afinal disso que se
trata: de viver a Liberdade. Como escreveu Paul Éluard:
Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vieJe suis né pour te connaître
Pour te
nommer
Liberté.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Ser Charlie
"Não é forte quem derruba os outros; forte é quem domina a sua ira."
Alcorão
Ser Charlie é lutar pela liberdade de expressão, pelo direito à diferença e à crítica responsável, com tolerância e respeito pelo Outro.
Alcorão
Ser Charlie é lutar pela liberdade de expressão, pelo direito à diferença e à crítica responsável, com tolerância e respeito pelo Outro.
Ser Charlie é recusar a escravatura dos extremismos e do ódio racial, contra todas as formas de xenofobia, discriminação e cegueira.
Ser Charlie é saber rir com quem faz humor e ter a distância para aceitar a crítica, ainda que por vezes viperina ou mordaz.
Ser Charlie é lutar pelo Estado de Justiça e pela comunidade de homens livres, num quadro de proporcionalidade e delimitação de fronteiras onde a liberdade de cada um comece onde acaba a dos outros.
Ser Charlie é poder olhar em frente e não caminhar sob a ameaça do gatilho, seja ele das armas ou do excesso da arbitrariedade que só pode gerar espirais de violência e intolerância.
Ser Charlie é ter o vício benigno de ser livre e querer viver entre homens livres.
Como escreveu Renard, o homem livre é aquele que não receia ir até ao fim da sua razão. Não desistamos de prosseguir as nossas razões, individuais e colectivas. Só assim subsistirá Charlie.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Charlie Hebdo, a liberdade ensanguentada
Disse um dia Nelson Mandela: "Não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos."
2015 começa da pior maneira para uma Europa envelhecida e ainda a recuperar da crise, com um bárbaro ataque às referências que fizeram dela, e da França de forma pioneira, o berço da democracia moderna, apesar de ditaduras que sempre se removeram e pela luta de homens livres que sempre entoaram a palavra liberdade antes de qualquer outra.
O caminho é fazer o Outro sentir-se mais um de Nós, integrá-lo na sua diferença e não olhá-lo como o inimigo numa nova Cruzada que só pode trazer de volta fantasmas de outrora, e será essa a postura moral que, com persistência e convicção devemos promover e trilhar.
Como escreveu um dia Bocage Ah! Se a vossa liberdade / Zelosamente guardais, / Como sois usurpadores / Da liberdade dos mais?
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
A Cultura em Sintra em 2014- alguns destaques
Destaques
Culturais em Sintra no ano de 2014, sem hierarquização:
-Os 80 anos
do Jornal de Sintra, num esforço de sobrevivência de um dos mais antigos
títulos da imprensa regional
- a peça “Corpo
Mercadoria” na Casa de Teatro de Sintra, num notável trabalho de Susana C. Gaspar
- a 3ª
edição do Periferias, cada vez mais marcante no espaço sintrense como encontro
das culturas lusófonas, em 2014 com maior visibilidade e complementado por uma
exposição de marionetas asiáticas
- as 3
edições do Colóquio sobre Raul Lino, iniciativa do IADE, com particular realce
para o trabalho de organização e divulgação de Rodrigo Sobral Cunha
- a peça “A
Linguagem das Flores” na Casa de Teatro de Sintra
- o teatro
popular dos Cintrões, com a peça “Desculpa Ó Caetano!”
-“Pedro e
Inês” na Regaleira, levado à cena pelo grupo Byfurcação
- os 50 anos
do agrupamento rock sintrense Diamantes Negros
- o IV Encontro
de História de Sintra, promovido pela Alagamares
-o 3º
Festival Internacional do Improviso, no Centro Cultural Olga Cadaval
- a peça “Os
ilusionistas” na Casa de Teatro de Sintra
- a 49º edição
do Festival de Sintra
-a apresentação
pelo grupo Tapafuros no Parque da Liberdade, da peça de William Shakespeare “ Sonho
de Uma Noite de Verão”
- o certame Arabian
Days em S. Pedro de Penaferrim
- o encerramento
do Museu do Brinquedo, por imposição legal e falta de acordo entre as partes
envolvidas
- a
apresentação da peça “A História das Coisas” de Ricardo Pereira, na Sociedade
União Sintrense
- a peça “O Som
e a Fúria” apresentada pelo grupo teatromosca
- o
reaparecimento do Jornal da Região, numa fase de anemia da maior parte dos
títulos locais de imprensa escrita
- o Festival
de Estátuas Vivas
- a
apresentação da peça “Mulher Homem e Coroada” pelo Utopia Teatro no Centro
Cultural Olga Cadaval
- a revitalização
do Salão de Galamares, com apresentação de espectáculos de música e teatro num
espaço há muito encerrado e agora revitalizado pelo grupo local e pela Alagamares
- a peça de
marionetas “O Rei vai Nu” na Casa de Teatro de Sintra
- o
lançamento do nº2 da revista digital Tritão, da Câmara Municipal de Sintra
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Perspectivas e perguntas para 2015
Em
2015 passarão 800 anos da assinatura da Magna Carta por João Sem Terra,
600 da conquista de Ceuta e da morte de D. Filipa de Lencastre, 500 da
morte de Afonso de Albuquerque, 200 da batalha de Waterloo, 150 do fim
da guerra civil americana e do assassinato de Abraham Lincoln, 100 anos
da edição do primeiro numero do Orpheu, e do nascimento de
personalidades como Edith Piaf, Anthony Quinn, Orson Welles, Mario
Monicelli, Ingrid Bergman, Frank Sinatra, Arthur Miller, Saul Below,
Roland Barthes, e o centenário da morte de Ramalho Ortigão. Igualmente
50 anos do desaparecimento de Winston Churchill, T.S.Elliot, Malcolm X,
Nat King Cole, Le Corbusier ou Albert Schweitzer, bem como do assassínio
do general Humberto Delgado. Destaque ainda para os 40 anos das
independências em 1975 de Moçambique (25 de Junho) Cabo Verde (5 de
Julho) S. Tomé e Príncipe (12 de Julho) e Angola (11 de Novembro).
Em
Sintra, de assinalar os 90 anos da criação da freguesia de Queluz, os
80 da morte de mestre Artur Anjos Teixeira, os 70 da construção do
Cine-Teatro Carlos Manuel, os 60 da inauguração do Hotel de Seteais, os
40 da inumação de Ferreira de Castro na Serra de Sintra e, sobretudo, os
20 anos da elevação de Sintra a Património da Humanidade, e da fundação
do Real Massamá.
Dez perguntas para 2015, para conferir daqui por um ano:
2- Estará a ARU da Vila de Sintra finalmente a operar?
3-Será em 2015 que se resolverá o problema do trânsito e estacionamento no Centro Histórico?
4-Será efectuado o restauro e devolvida à fruição pública a Quinta da Ribafria?
5-Haverá decisão sobre o funicular/teleférico?
6-Voltará a ser editada uma publicação cultural em suporte de papel dedicada à investigação e divulgação de artigos científicos sobre Sintra?
7-Será iniciada a reconstrução do Hotel Netto?
8-Conseguirá a Startup Sintra apoiar as industrias criativas no concelho de Sintra?
9-Teremos uma 50ª edição do Festival de Sintra reconciliada com o público e à altura da efeméride?
10-Como se irão assinalar os 20 anos da elevação de Sintra a Paisagem Cultural classificada pela UNESCO?
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Selfie do ano que finda
2014 chega ao fim com grande
imprevisibilidade sobre o futuro da economia, bem como sobre a paz mundial.
Conflitos da Rússia com a Ucrânia, depois da deposição de Yanokovitch e a
degradação das suas relações com o Ocidente, derivada da anexação da Crimeia e
sublevações no leste do país,a continuação dos conflitos em Israel e em Gaza, no Iraque,
Síria e Afganistão, com a emergência de fenómenos como o do Estado Islâmico, o
mistério do abate e desaparecimento de dois aviões da Malaysia Airlines, o
esmagamento da frágil democracia egipcia com a “eleição” do general Sissi, o
surto de ébola, os referendos na Escócia e Catalunha, ou o golpe militar na
Tailândia. Tudo sinais preocupantes, num quadro de debilidade da recuperação
económica e descrença nos sistemas representativos, como a emergência dos
partidos anti-sistema ou radicais na Europa o reforça e demonstra. De positivo, deixaria o
papel do Papa Francisco, e como momento alto do ano o seu discurso no Parlamento
Europeu, a favor do trabalho e da dignidade da vida humana, a soçobrar no
imenso cemitério que o Mediterrâneo vem sendo, e o Prémio Nobel da Paz para a
jovem Malala. Destaque ainda para a abdicação do rei Juan Carlos, a eleição de
Dilma no Brasil e a chegada de Juncker à Comissão Europeia.No obituário do ano,
lembrar a morte de Ariel Sharon, Adolfo Suarez, do general Jaruselski , Eduard
Schevardnadze, Ian Paisley ou Jean Luc Dehaene.
No plano nacional, depois do ano ter começado com o trauma da morte de Eusébio,
tivémos o adeus à troika, com a chamada “saída limpa”, e daí em diante, tudo
parece ter descambado: a recuperação tem sido débil e inconsistente, o Tribunal Constitucional, contra
a vontade do governo, garantiu o que devia garantir, a legionella atacou a
norte de Lisboa, e os tentáculos da corrupção num Estado débil e clientelar
vieram à tona, com os casos BES, Vistos Gold, Sócrates, ou a vergonha da adesão
da Guiné Equatorial à CPLP. António Costa rendeu Seguro, Semedo afastou-se da
direcção do BE e a selecção desiludiu, obrigando a trocar Bento por Fernando Santos.
De positivo, a elevação do cante alentejano a Património da Humanidade, a Bola
de Ouro de Cristiano Ronaldo, e, para quem é do Benfica, as três taças ganhas
este ano pela equipa de Jorge Jesus. Morreram D. José Policarpo, Emidio Rangel,
Medeiros Ferreira, Veiga Simão e Alpoim Calvão, entre os mais conhecidos, à
esquerda ou à direita.
No plano da Cultura, sempre no fio da navalha, tivemos a saga dos quadros
de Miró e o adiamento de grandes projectos, como a abertura do Museu dos Coches
ou a regulamentação da Lei do Cinema. Carlos do Carmo recebeu um Grammy Latino,
Sophia foi trasladada para o Panteão, e deixaram-nos grandes nomes como Claudio
Abbado, Pete Seeger, John Philip Seymor, Paco de Lucia, Alain Resnais,Gabriel
Garcia Marquez, Vasco Graça Moura, Charlie Haden, Paul Mazursky, Nadine
Gordimer, Loreen Maazel, João Ubaldo Ribeiro, Robin Williams ou Lauren Bacall.
2015 trará os 600 anos da conquista de Ceuta, quando em Sintra se deu início à saga da nossa expansão
marítima, e os 40 anos da descolonização, que pôs termo a esse período de 560
anos, bem como eleições legislativas no Outono, o desenvolvimento dos casos mediáticos
na justiça, e a insegurança de não saber para onde vamos, neste mundo em cacos,
onde a verdade de Pirro e a opacidade dos “mercados” continuarão a dominar um
não tão admirável mundo novo. Eis a selfie possível deste 2014, tristonha e desfocada,
onde só o Papa Francisco e Malala parecem sorrir a um canto, um sorriso
amargurado, mas ainda assim de esperança.
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