terça-feira, 27 de janeiro de 2015
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
No regresso das tertúlias de Sintra
As tertúlias foram no passado importantes círculos literários e até políticos
onde, à falta das modernas redes sociais, se discutia e perorava sobre tudo,
tendo algumas chegado aos nossos dias como referências incontornáveis. Com base
em cafés como o Nicola, a Brazileira ou o Café Gelo, pigmaliões e dandys,
cultores da palavra ou tão só do escárnio, encontraram o púlpito virtuoso para
a celebração da Liberdade e para combates que por vezes descambaram em
querelas verrinosas escritas em tinta ensanguentada pelo fel, e outros líquidos
menos ácidos.
Vem isto a
propósito de saber se nestes tempos de paradoxal incomunicação, do asséptico Skype ou da silenciosa SMS, e em que o contacto físico
é quase estranho, há espaço para as tertúlias e para o diálogo sem ser em chat. Por mim, bisneto
de Vérlaine, Rimbaud, William Blake, Baudelaire, Henry Miller, Kerouac,
William Burroughs ou Charles Bukowski, contínuo a preferir reuniões de
seitas vivas, por vezes reunidas para celebrar poetas mortos, mas que, redentoramente aí renascem, vaporizados pelo
espirito grupal, pela sede saciada, e pela fraternidade libertária,
filhos da fotocópia ou do fanzine, só da morte libertados após morrerem.
Sintra teve
e tem tradição neste campo, passando agora 10 anos dum período em que,
de 2004 a 2007, poetas, gente da cultura ou simplesmente boémios, se reuniram
para ler e ouvir poesia, peripatética dança dos sentidos bafejada pela
cintilante Luz lunar, e hoje, protestando em guturais poemas, quer voltar à
Luz no promontorial refúgio que é esta Sintra que foi de Eça e das pipas de Colares. Há que desembainhar
canetas, zurzir teclados, engrossar as vozes, para que a Cultura seja dos
seus legítimos defensores e não de avaros tutores, abrindo portas, escancarando
gargantas, fervendo o caldeirão das druídicas palavras, chamar os órfãos e
dizer-lhes que os progenitores estão vivos e de volta.
Ontem
Meninos d’Avó, hoje, qual Baltasar, regressados para a sua Blimunda, aí estão de
volta os Poetas, veteranos e debutantes, abrindo o baú da vida e redescobrindo geografias de esperança, holograficamente alterando futuros,
assassinando passados, imperadores do caderno e pujantes reis da caneta.
Nas tertúlias
se inventam palavras e se solta a magia que flui qual nocturno pirilampo. Para alguns, elas nada dirão, o segredo, cínico, ficará nas palavras que não foram
escritas, mas tão só sussurradas. O verdadeiro poema é aquele que nunca escreveremos, mas todos julgaremos
descobrir em qualquer frágil papel branco. Escrever é gerir
línguas mortas, aramaicos de lucidez, que muitos, dormentes e de fígados cansados,
ousarão profanar, guardiães de silenciosos segredos.
Nas tertúlias
se podem ainda desenhar mapas da liberdade em folhas ainda em branco, rasgar
oceanos de ilusões, montanhas de desespero, ilhas de luz. É afinal disso que se
trata: de viver a Liberdade. Como escreveu Paul Éluard:
Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vieJe suis né pour te connaître
Pour te
nommer
Liberté.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Ser Charlie
"Não é forte quem derruba os outros; forte é quem domina a sua ira."
Alcorão
Ser Charlie é lutar pela liberdade de expressão, pelo direito à diferença e à crítica responsável, com tolerância e respeito pelo Outro.
Alcorão
Ser Charlie é lutar pela liberdade de expressão, pelo direito à diferença e à crítica responsável, com tolerância e respeito pelo Outro.
Ser Charlie é recusar a escravatura dos extremismos e do ódio racial, contra todas as formas de xenofobia, discriminação e cegueira.
Ser Charlie é saber rir com quem faz humor e ter a distância para aceitar a crítica, ainda que por vezes viperina ou mordaz.
Ser Charlie é lutar pelo Estado de Justiça e pela comunidade de homens livres, num quadro de proporcionalidade e delimitação de fronteiras onde a liberdade de cada um comece onde acaba a dos outros.
Ser Charlie é poder olhar em frente e não caminhar sob a ameaça do gatilho, seja ele das armas ou do excesso da arbitrariedade que só pode gerar espirais de violência e intolerância.
Ser Charlie é ter o vício benigno de ser livre e querer viver entre homens livres.
Como escreveu Renard, o homem livre é aquele que não receia ir até ao fim da sua razão. Não desistamos de prosseguir as nossas razões, individuais e colectivas. Só assim subsistirá Charlie.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Charlie Hebdo, a liberdade ensanguentada
Disse um dia Nelson Mandela: "Não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos."
2015 começa da pior maneira para uma Europa envelhecida e ainda a recuperar da crise, com um bárbaro ataque às referências que fizeram dela, e da França de forma pioneira, o berço da democracia moderna, apesar de ditaduras que sempre se removeram e pela luta de homens livres que sempre entoaram a palavra liberdade antes de qualquer outra.
O caminho é fazer o Outro sentir-se mais um de Nós, integrá-lo na sua diferença e não olhá-lo como o inimigo numa nova Cruzada que só pode trazer de volta fantasmas de outrora, e será essa a postura moral que, com persistência e convicção devemos promover e trilhar.
Como escreveu um dia Bocage Ah! Se a vossa liberdade / Zelosamente guardais, / Como sois usurpadores / Da liberdade dos mais?
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
A Cultura em Sintra em 2014- alguns destaques
Destaques
Culturais em Sintra no ano de 2014, sem hierarquização:
-Os 80 anos
do Jornal de Sintra, num esforço de sobrevivência de um dos mais antigos
títulos da imprensa regional
- a peça “Corpo
Mercadoria” na Casa de Teatro de Sintra, num notável trabalho de Susana C. Gaspar
- a 3ª
edição do Periferias, cada vez mais marcante no espaço sintrense como encontro
das culturas lusófonas, em 2014 com maior visibilidade e complementado por uma
exposição de marionetas asiáticas
- as 3
edições do Colóquio sobre Raul Lino, iniciativa do IADE, com particular realce
para o trabalho de organização e divulgação de Rodrigo Sobral Cunha
- a peça “A
Linguagem das Flores” na Casa de Teatro de Sintra
- o teatro
popular dos Cintrões, com a peça “Desculpa Ó Caetano!”
-“Pedro e
Inês” na Regaleira, levado à cena pelo grupo Byfurcação
- os 50 anos
do agrupamento rock sintrense Diamantes Negros
- o IV Encontro
de História de Sintra, promovido pela Alagamares
-o 3º
Festival Internacional do Improviso, no Centro Cultural Olga Cadaval
- a peça “Os
ilusionistas” na Casa de Teatro de Sintra
- a 49º edição
do Festival de Sintra
-a apresentação
pelo grupo Tapafuros no Parque da Liberdade, da peça de William Shakespeare “ Sonho
de Uma Noite de Verão”
- o certame Arabian
Days em S. Pedro de Penaferrim
- o encerramento
do Museu do Brinquedo, por imposição legal e falta de acordo entre as partes
envolvidas
- a
apresentação da peça “A História das Coisas” de Ricardo Pereira, na Sociedade
União Sintrense
- a peça “O Som
e a Fúria” apresentada pelo grupo teatromosca
- o
reaparecimento do Jornal da Região, numa fase de anemia da maior parte dos
títulos locais de imprensa escrita
- o Festival
de Estátuas Vivas
- a
apresentação da peça “Mulher Homem e Coroada” pelo Utopia Teatro no Centro
Cultural Olga Cadaval
- a revitalização
do Salão de Galamares, com apresentação de espectáculos de música e teatro num
espaço há muito encerrado e agora revitalizado pelo grupo local e pela Alagamares
- a peça de
marionetas “O Rei vai Nu” na Casa de Teatro de Sintra
- o
lançamento do nº2 da revista digital Tritão, da Câmara Municipal de Sintra
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Perspectivas e perguntas para 2015
Em
2015 passarão 800 anos da assinatura da Magna Carta por João Sem Terra,
600 da conquista de Ceuta e da morte de D. Filipa de Lencastre, 500 da
morte de Afonso de Albuquerque, 200 da batalha de Waterloo, 150 do fim
da guerra civil americana e do assassinato de Abraham Lincoln, 100 anos
da edição do primeiro numero do Orpheu, e do nascimento de
personalidades como Edith Piaf, Anthony Quinn, Orson Welles, Mario
Monicelli, Ingrid Bergman, Frank Sinatra, Arthur Miller, Saul Below,
Roland Barthes, e o centenário da morte de Ramalho Ortigão. Igualmente
50 anos do desaparecimento de Winston Churchill, T.S.Elliot, Malcolm X,
Nat King Cole, Le Corbusier ou Albert Schweitzer, bem como do assassínio
do general Humberto Delgado. Destaque ainda para os 40 anos das
independências em 1975 de Moçambique (25 de Junho) Cabo Verde (5 de
Julho) S. Tomé e Príncipe (12 de Julho) e Angola (11 de Novembro).
Em
Sintra, de assinalar os 90 anos da criação da freguesia de Queluz, os
80 da morte de mestre Artur Anjos Teixeira, os 70 da construção do
Cine-Teatro Carlos Manuel, os 60 da inauguração do Hotel de Seteais, os
40 da inumação de Ferreira de Castro na Serra de Sintra e, sobretudo, os
20 anos da elevação de Sintra a Património da Humanidade, e da fundação
do Real Massamá.
Dez perguntas para 2015, para conferir daqui por um ano:
2- Estará a ARU da Vila de Sintra finalmente a operar?
3-Será em 2015 que se resolverá o problema do trânsito e estacionamento no Centro Histórico?
4-Será efectuado o restauro e devolvida à fruição pública a Quinta da Ribafria?
5-Haverá decisão sobre o funicular/teleférico?
6-Voltará a ser editada uma publicação cultural em suporte de papel dedicada à investigação e divulgação de artigos científicos sobre Sintra?
7-Será iniciada a reconstrução do Hotel Netto?
8-Conseguirá a Startup Sintra apoiar as industrias criativas no concelho de Sintra?
9-Teremos uma 50ª edição do Festival de Sintra reconciliada com o público e à altura da efeméride?
10-Como se irão assinalar os 20 anos da elevação de Sintra a Paisagem Cultural classificada pela UNESCO?
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Selfie do ano que finda
2014 chega ao fim com grande
imprevisibilidade sobre o futuro da economia, bem como sobre a paz mundial.
Conflitos da Rússia com a Ucrânia, depois da deposição de Yanokovitch e a
degradação das suas relações com o Ocidente, derivada da anexação da Crimeia e
sublevações no leste do país,a continuação dos conflitos em Israel e em Gaza, no Iraque,
Síria e Afganistão, com a emergência de fenómenos como o do Estado Islâmico, o
mistério do abate e desaparecimento de dois aviões da Malaysia Airlines, o
esmagamento da frágil democracia egipcia com a “eleição” do general Sissi, o
surto de ébola, os referendos na Escócia e Catalunha, ou o golpe militar na
Tailândia. Tudo sinais preocupantes, num quadro de debilidade da recuperação
económica e descrença nos sistemas representativos, como a emergência dos
partidos anti-sistema ou radicais na Europa o reforça e demonstra. De positivo, deixaria o
papel do Papa Francisco, e como momento alto do ano o seu discurso no Parlamento
Europeu, a favor do trabalho e da dignidade da vida humana, a soçobrar no
imenso cemitério que o Mediterrâneo vem sendo, e o Prémio Nobel da Paz para a
jovem Malala. Destaque ainda para a abdicação do rei Juan Carlos, a eleição de
Dilma no Brasil e a chegada de Juncker à Comissão Europeia.No obituário do ano,
lembrar a morte de Ariel Sharon, Adolfo Suarez, do general Jaruselski , Eduard
Schevardnadze, Ian Paisley ou Jean Luc Dehaene.
No plano nacional, depois do ano ter começado com o trauma da morte de Eusébio,
tivémos o adeus à troika, com a chamada “saída limpa”, e daí em diante, tudo
parece ter descambado: a recuperação tem sido débil e inconsistente, o Tribunal Constitucional, contra
a vontade do governo, garantiu o que devia garantir, a legionella atacou a
norte de Lisboa, e os tentáculos da corrupção num Estado débil e clientelar
vieram à tona, com os casos BES, Vistos Gold, Sócrates, ou a vergonha da adesão
da Guiné Equatorial à CPLP. António Costa rendeu Seguro, Semedo afastou-se da
direcção do BE e a selecção desiludiu, obrigando a trocar Bento por Fernando Santos.
De positivo, a elevação do cante alentejano a Património da Humanidade, a Bola
de Ouro de Cristiano Ronaldo, e, para quem é do Benfica, as três taças ganhas
este ano pela equipa de Jorge Jesus. Morreram D. José Policarpo, Emidio Rangel,
Medeiros Ferreira, Veiga Simão e Alpoim Calvão, entre os mais conhecidos, à
esquerda ou à direita.
No plano da Cultura, sempre no fio da navalha, tivemos a saga dos quadros
de Miró e o adiamento de grandes projectos, como a abertura do Museu dos Coches
ou a regulamentação da Lei do Cinema. Carlos do Carmo recebeu um Grammy Latino,
Sophia foi trasladada para o Panteão, e deixaram-nos grandes nomes como Claudio
Abbado, Pete Seeger, John Philip Seymor, Paco de Lucia, Alain Resnais,Gabriel
Garcia Marquez, Vasco Graça Moura, Charlie Haden, Paul Mazursky, Nadine
Gordimer, Loreen Maazel, João Ubaldo Ribeiro, Robin Williams ou Lauren Bacall.
2015 trará os 600 anos da conquista de Ceuta, quando em Sintra se deu início à saga da nossa expansão
marítima, e os 40 anos da descolonização, que pôs termo a esse período de 560
anos, bem como eleições legislativas no Outono, o desenvolvimento dos casos mediáticos
na justiça, e a insegurança de não saber para onde vamos, neste mundo em cacos,
onde a verdade de Pirro e a opacidade dos “mercados” continuarão a dominar um
não tão admirável mundo novo. Eis a selfie possível deste 2014, tristonha e desfocada,
onde só o Papa Francisco e Malala parecem sorrir a um canto, um sorriso
amargurado, mas ainda assim de esperança.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
A sociedade civil e os dias que correm
A Alagamares-Associação Cultural
Para que
servem as organizações não -governamentais, associações cívicas e a dita
“sociedade civil “ em geral, nas quais associações como a Alagamares se inserem e pretendem
desempenhar um papel?
Norberto Bobbio
afirmou um dia que o cidadão, ao fazer a opção pela sociedade de consumo de
massas e pelo Estado de bem-estar social, sabe que está a abrir mão dos
controles sobre as atividades políticas e económicas por ele exercidas em favor
de burocracias, privadas e públicas, e que em conjunto com a realização de
eleições e a existência da burocracia, a democracia assenta para muitos na ideia
de que a representatividade constitui a única solução possível nas democracias
de grande escala, aí se esgotando a intervenção daqueles que se não assumem
como agentes políticos directos.
Pode apontar-se
Jürgen Habermas como um dos autores que melhor analisaram este alargado entendimento da democracia. A criação de esferas públicas que
participem das instituições e as controlem, redesenhando a relação estabelecida
com os cidadãos, possibilita a indispensável reconciliação da democracia
participativa com a organização política tradicional do Estado, abrindo lugar
para a participação dos actores sociais em fóruns amplos de debate e negociação,
sem substituir, contudo, o papel dos representantes eleitos. A efectividade
democrática está assim reforçada com uma sociedade civil organizada e com a
dinâmica que ela desenvolve. Os movimentos, as organizações e as associações
podem, a partir de sua actuação revigorar os sentidos da democracia, ocupando
uma arena que lhe é natural e necessária.
O padrão
democrático de uma sociedade passa hoje não só pela densidade cívica da sua
sociedade civil, mas também pela pluralidade de formas participativas
institucionalizadas capazes de inserirem novos actores no processo decisório
destas mesmas sociedades. Acredita-se, com isso, que os actores societários
deverão não só abordar situações problemáticas e buscar influenciar os centros
decisórios, mas também assumir funções mais ofensivas no interior do Estado.
Na linha dos
estudos de Habermas, a sociedade civil pode ser compreendida como o espaço público
não estatal, composto por movimentos, organizações e associações que captam os ecos
dos problemas sociais na esfera privada e os transmitem para a esfera pública.
São as ONGs,
os movimentos sociais, as comissões, grupos e entidades de direitos humanos e
de defesa dos excluídos por causas económicas, de género, raça, etnia,
religião, portadores de necessidades físicas especiais; associações e cooperativas,
fóruns locais, regionais, nacionais e internacionais de debates e lutas por
questões sociais; entidades ambientalistas e de defesa do património histórico
e arquitectónico, etc.
De entre os
aspectos positivos da ação da sociedade civil organizada, apresentam-se: a
pluralidade do discurso e o estabelecimento do diálogo construtivo, tendo-se em
vista as múltiplas vozes que se querem fazer ouvir na sociedade civil; a promoção
da denúncia, tornando públicas as situações de injustiça e de violação de
direitos; a protecção do espaço privado, reforçando os limites do Estado e do
mercado; a participação directa nos sistemas políticos e legais, estimulando-se
e fortalecendo-se leis e políticas públicas que promovam os direitos humanos; e
a promoção da inovação social.
Dos desafios
a serem enfrentados pela sociedade civil destacam-se: a fragmentação (temática
e geográfica), gerando disputa entre as entidades e organizações, e enfraquecendo
as suas vozes perante os poderes fácticos e formais, ou a dependência e
escassez de recursos financeiros. A fim de fortalecer a actuação da sociedade
civil organizada, deve esta melhorar a capacidade de comunicação e educação;
investir em modelos socialmente inovadores e construir redes que evitem a
fragmentação e fortaleçam o uso dos recursos.
Vivemos dias
de chumbo, mas também de desafio, e se certas patologias, como o desemprego ou
a emigração enfraquecem o número e a pujança dos que militam em associações da
sociedade civil como a nossa, novas oportunidades, caldeadas pela experiência e
o ânimo de novos colaboradores vão permitindo este renovar de ciclo, com novos
protagonistas e novas (ou nem tanto) lutas para abraçar.
Entendo a
participação na vida associativa e o papel da sociedade civil como um
contributo para o pluralismo e um reforço essencial da democracia participativa,
e tão independente e genuíno será esse trabalho quanto mais distanciadas as
associações estiverem dos poderes político-partidários, grupos económicos ou
agentes que a coberto da participação mais não pretendam que as usar na sua
escalada para o poder, e é esse o fio da navalha em que muitas vezes as
associações e a sociedade civil se vê enredada. Independentes dos políticos,
mas não da discussão das políticas, actores mas não figurantes, eis o nosso
papel, activo ou reactivo mas sobretudo vivo.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Lembrar o 1º de Dezembro
Quando era criança, não obstante as exaltações patrioteiras do Estado Novo em torno duma História de Portugal épica e monumental, habituei-me na escola a com prazer celebrar o 1º de Dezembro, data gloriosa recordando o dia em que Portugal ao fim de 60 anos de ocupação espanhola recuperara a independência de país secular e orgulhoso. Bandas saíam à rua, entoando o Hino da Restauração, e, sobretudo no Alentejo, baluarte da resistência nacional nesse período (que culminou com a Batalha das Linhas de Elvas, onde um Ribafria de Sintra se sagrou herói da independência) onde o 1º de Dezembro sempre teve um sabor especial, com colchas às janelas, ruas engalanadas e bandas desfilando alegremente. Não foi por acaso que logo de seguida Nossa Senhora da Conceição foi consagrada como padroeira de Portugal e os reis portugueses deixaram de ser coroados.E era também ocasião para demonstrar que apesar de hoje nada nos dever opor a “nuestros hermanos” sempre nos conseguimos afirmar no contexto peninsular como Nação orgulhosa de oitocentos anos, quando muitas comunidades do lado espanhol não conseguiram vingar, da Catalunha à Galiza, das Astúrias a Leão.
Nestes
tempos de penoso e vil viver, é sintomático que a obsessão economicista
e redutora dos contabilistas que em nome dos agiotas nos governam, não
contentes com levarem o país à ruína, queiram também destruir a sua base
moral unificadora, atacando os símbolos, e significativo é que não
havendo mais nada para fazer, se lembrassem de suprimir feriados, e
entre esses o do 1º de Dezembro. Isto é, Portugal, que já não tem um dia
que celebre a independência, deixa de celebrar aquele em que depois de
um hiato de 60 anos a retomou. Mostram assim os governantes ter vergonha
de um Portugal independente, humilhado agora na sua dignidade pela
dolosa incompetência dos novos Miguéis de Vasconcelos mandados pela
aviltante troika, e pela nova Duquesa de Mântua, a seráfica Angela da Prússia.
Há
gestos que gritam e flagelam, e aos poucos deixarão de existir
portugueses em Portugal e apenas contribuintes a cujos bolsos assaltar
sem pudor, descamisados à mercê do Banco Alimentar, e traidores cujos
nomes nem numa lápide de cemitério deveriam constar. Ah Portugal,
Portugal..., como diria o Jorge Palma.
sábado, 29 de novembro de 2014
Contra o jornalismo abutre
A comunicação social é usualmente designada como o
quarto poder, com a função de informar e influenciar o debate político,
denunciar injustiças e dar voz à opinião crítica e diversificada, espelho da
sociedade aberta e contemporânea. Foi através dela que muitos casos foram
denunciados e alertas foram lançados, de que cito, só para exemplificar, o caso
Watergate na América dos anos 70, e que conduziu à queda de um presidente.
Há porém limites e derivas a que há que estar
atento: o simples facto de se escrever um artigo ou um editorial num jornal não
dá a certeza da verdade ou da justeza da posição de quem escreve ou fala.
Motivados pela obsessão da manchete ou do “furo”, do sensacionalismo ou da
necessidade de “vender”, está o jornalismo moderno eivado duma
espectacularidade que tende a dramatizar as notícias, quando não a
construí-las, sendo a comunicação social muitas vezes quem dita as agendas
políticas e não o seu contrário. É precisa uma linha divisória neste universo,
e não esquecer que os jornais, as rádios e as televisões têm donos, que são
muitas vezes grupos económicos com outros interesses na economia do país ou no
desfecho de casos de justiça em que os seus donos e accionistas são muitas vezes
parte, impedindo ou desincentivando o jornalismo de investigação que incida em
áreas onde os donos desses meios de comunicação social possam vir a ser
visados, sejam eles empresários duvidosos, elites africanas ou “testas de ferro”
dos negócios.
Há pois que estar atento, cruzar informação e
esperar que o contraditório e o cruzamento das fontes seja feito, com respeito
pela ética e deontologia profissionais, separando os tycoons da imprensa
tablóide em busca de sangue do jornalismo criterioso, informativo e pedagógico a
que temos direito.
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