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terça-feira, 7 de outubro de 2014

No Dia dos Castelos, lembrar o Castelo de Colares


 
Hoje é Dia Nacional dos Castelos, ocasião para falar dum dos menos conhecidos e musealizados castelos de Sintra, o de Colares.

Pensa-se que terá sido construído no século XII, tendo por objectivo a defesa da vila de Colares; no século XVI, reinado de D. Sebastião, o Senado da Câmara de Colares instala no castelo as suas diversas repartições; mas é em 1620 que D. Dinis de Melo e Castro, descendente dos Condes de Monsanto, natural de Colares, sucessivamente bispo de Leiria (1627), de Viseu (1636) e da Guarda (1638), obtém da Câmara de Colares o domínio do arruinado castelo da Vila e aí edifica uma villa ao gosto italianizante, com jardins povoados por estatuária e decorações a fresco, etc; Em 1906  o castelo, villa e quinta anexa eram propriedade do 2º visconde de Monserrate, Sir Frederick Lucas Cook.

O que resta do antigo castelo e villa é na actualidade uma pequena propriedade agrícola, ou seja, o que resta dos edifícios encontra-se hoje num discreto contexto rural.

Da villa subsiste apenas uma arcaria de vãos cegos e a casa da água, sustida por abóbada de canhão.

Talvez fosse interessante a musealização deste espaço completamente disfarçado na vegetação, chamando a atenção para a sua existência, que muitos desconhecem, e para a história quase desconhecida do concelho de Colares, que durou mais de 600 anos, apenas tendo sido extinto em 1855.
 

sábado, 4 de outubro de 2014

Nos 15 anos do PDM de Sintra


Passam hoje 15 anos da entrada em vigor do PDM de Sintra, publicado no Diário da República de 4 de Outubro de 1999 sob a forma de resolução do Conselho de Ministros (116/99).
O quadro sócio-económico do concelho de Sintra revela-nos hoje um território dispare, policêntrico e a carecer de coesão social e territorial, o que deve passar não só por criar apetências nos núcleos consolidados, como novas centralidades, evitando a fragmentação urbanística decorrente de aprovações casuísticas, apesar dos planos existentes.

Para tanto, há que apostar na reabilitação urbana, finalizar o processo de legalização dos bairros clandestinos, optimizar a rede de transportes, com aposta no sector ferroviário, criar um corredor verde entre a serra de Sintra e a Carregueira, por exemplo.

Como pontos fracos a ultrapassar, identificaria os seguintes:

1. A dimensão do concelho, e as suas realidades diferenciadas, interseccionadas pela zona-tampão de Chão de Meninos/Ranholas, que separa as “duas” Sintras, com realidades diferenciadas.

2. A sobreposição de planos e entidades, que criam uma cacofonia de gestão e não permitem ao decisor dos licenciamentos- a autarquia- uma assunção plena do seu papel, sendo certo que é a única com génese democrática e escrutinável.

3. A resiliência da administração local à agilização de procedimentos, numa postura penalizadora para os munícipes e seus projectos de investimento.

4. A quase paralisia do sector de planeamento, com inúmeras planos de urbanização e pormenor a marcar passo, penalizando quem espera por decisões e desincentivando a iniciativa reprodutiva de emprego e crescimento.

5. A multiplicidade de jurisdições de decisão- CMS, PNSC, PSML, IGESPAR, Região Hidrográfica, CLAFA, CCDR, etc.

6. A deficiente fiscalização da legalidade, raramente se fazendo valer a sua natureza preventiva e desincentivadora de intervenções ilegais no território.

7. A ameaça das decisões judiciais que imponham o respeito por direitos adquiridos originados em decisões tardias ou mal fundamentadas e às quais ao arrepio dos planos haja que dar cumprimento.

8. As lacunas ao nível dos cuidados de saúde (hospital) e de estabelecimentos de ensino superior, para os quais com opções recentes terá porventura passado a janela de oportunidade de ver implantados no concelho de Sintra, pelo menos nos tempos mais próximos.

9. O segmento do turismo ainda baseado no excursionismo, com uma média de dormidas no concelho de 2,3 noites (Cascais tem 3,4) e apenas cerca de 1500 camas entre hotéis, pensões e demais alojamentos.

10. A degradação do Centro Histórico, desertificado, sem plano actualizado e sem atractividade para moradores e visitantes.

11. O envelhecimento da população nas freguesias rurais e a falta de emprego para os jovens nas zonas urbanas que os fixem, permitindo a mobilidade social e a exponência de massa crítica e criativa.

12. A falta de apoio ao comércio tradicional e às PME (96% das empresas tem menos de 9 trabalhadores).

13. A falta de um plano de marketing territorial assente nas virtualidades das pessoas e não só no património histórico, sendo que a marca romantismo não é idónea a caracterizar um concelho onde apenas 10% da população vive na Sintra dita “romântica”.

Para tanto, dever-se-iam priorizar alguns nichos de intervenção:

-Apostar no segmento de eventos, no turismo de saúde, no ensino profissional e na agro-indústria transformadora, atento o facto de, apesar de desprezado, o sector agrícola ainda oferece vantagens competitivas pouco exploradas (vinho de Colares, pêra rocha, hortícolas, etc).

-Apostar numa rede de hotéis de charme e quintas de lazer, a par de espaços para bolsas mais débeis e na introdução de parques de campismo (quase inexistentes) e hostels de pequena dimensão.

-Criar bolsas de estacionamento e uma rede de mini buses que atravesse as zonas críticas e a carecer de preservação ambiental.

-Apostar no transporte público no acesso à serra e seus pólos turísticos (porque não preços mais moderados para quem aceda aos palácios de transporte público, sendo o bilhete de entrada e transporte vendidos em conjunto, e com um diferencial de preço significativo?).

-Reforçar a sinalética e as placas explicativas dos monumentos a visitar, bem como dos pontos de maior interesse.

-Adoptar benefícios em sede de taxas ou impostos a quem voluntariamente recupere edifícios e património, bem como destinar 1% do montante cobrado em sede de contra-ordenações para um fundo de reabilitação urbana.

-Explorar as virtualidades da biomassa e dos combustíveis não poluentes e amigos do ambiente.

-Criar estímulos à arquitectura rural e tradicional.

-Criar uma bolsa de emprego rural, no quadro duma política efectiva e pró-activa de retorno ao mundo rural, e estimulando as hortas urbanas e a agricultura biológica.

Os espaços urbanos ocupam já 47% do território sintrense, pelo que há, no futuro, que actuar com parcimónia nas futuras áreas urbanas programadas, atento o facto de ainda subsistirem 100 áreas urbanas de génese ilegal, ocupando a REN 35% do total (incluindo espaços culturas e naturais).

Se é certo que o número de licenciamentos entre 2001-2009 ficou pelos 9.908, 1/3 do total da década anterior, o facto é que o concelho dispõe já de 180.000 fogos, 12% do total da Área Metropolitana de Lisboa, e dispondo de um número razoável de equipamentos e do grau de cobertura dos mesmos- 77 creches, 184 jardins de infância, 19 equipamentos desportivos, 25 centros de dia, 28 lares, 15 jardins de infância, 62 escolas básicas e básicas com o 1º ciclo, 18 escolas básicas com o 2º e 3º ciclo e 7 secundárias. Ao nível do ensino superior a oferta reduz-se, porém, contabilizando-se apenas a Academia da Força Aérea e o campus da Universidade Católica no Taguspark.

O tecido empresarial tem vindo a sofrer mudanças profundas desde a crise de 2008, tendo sido relevante tal mudança ao nível da construção e comércio, sector onde haviam nessa data 4075 e 8412 empresas, respectivamente, ocupando o 2º lugar a seguir a Lisboa e garantindo nessa data 15% do emprego na região da Grande Lisboa. É pois com esse quadro, e tendo em conta muitas (não todas) patologias aqui elencadas, que se deve desenhar o concelho de Sintra, num quadro metropolitano, reflectindo aquilo que se deseja para os próximos anos. Ouvindo as partes, que são parte do Nós, e não o Outro, intruso e amorfo. Para uma verdadeira Democracia do Território.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Barros Queirós na História de Sintra





Decorreu no dia 1 de Outubro na Biblioteca Nacional a apresentação do documentário de Miguel Ferraz “Barros Queiróz-Figura Moral da República”, evocativo dessa figura, antigo ministro da Fazenda e edil em Lisboa e ligado a Sintra, onde tinha uma casa e proclamou a República em 5 de Outubro de 1910. Para esse trabalho gravei há cerca de 2 anos um depoimento sobre a ligação a Sintra, e no mesmo, realizado de forma didática e interessante, prestam igualmente depoimento personalidades como Mário Soares, Maria de Belém Roseira, Guilherme d’Oliveira Martins, Carlos Manique, António Nogueira Leite ou João Rodil. Ver reportagem na Saloia TV em
 http://saloia.tv/v/yjFUESSwnS8

Em Sintra, a 5 de Outubro de 1910, o directório do Partido Republicano Português designou Tomé de Barros Queiróz, figura de destaque na época e ligado a Sintra, onde tinha um chalet, para proceder à sua proclamação solene. Barros Queiróz havia chegado a Sintra em meados de Setembro, vindo de férias nas termas, e aqui recebeu a notícia da morte de um dos chefes da revolta, o Dr. Miguel Bombarda. Confirmado o sucesso do movimento militar, Barros Queiróz foi  convidado pelo PRP para proclamar a República em nome da Junta Revolucionária, tendo sido designados para o acompanhar nesse momento histórico o jornalista João Chagas,  bem como José Barbosa e Malva do Vale. Foi assim que um grupo de apoiantes do novo regime se concentrou junto com Barros Queiróz num local onde hoje fica a Praça Afonso de Albuquerque para esperar os outros enviados do PRP. Alguns deles, armados, inclusive já desde alguns dias guardavam residências de políticos e figuras destacadas do regime monárquico, entre as quais a de João Franco, que veraneava em Sintra com a família real, e que tinha sido um dos protagonistas do odiado governo que em 1908 custou a vida ao rei D.Carlos, e que agora, paradoxalmente, era protegido na sua pessoa e bens pelos revolucionários, para evitar pilhagens e actos de vandalismo. Entre os que protegeram João Franco em Sintra contava-se o filho de Barros Queirós, Daniel, com 19 anos na altura, sendo que João Franco, apesar do reviralho que se adivinhava, mandou servir comida e café aqueles que se preparavam para alterar o regime que ele servira.



Estavam os populares reunidos quando chega um dos poucos carros que havia naquele tempo, ostentando uma bandeira verde rubra, ao que os populares responderam com vivas à República. Nessa viatura vinha uma eufórica senhora de apelido Quaresma Val do Rio Barreto.Passado um tempo, uma outra viatura, aberta, transportava duas figuras vestidas de escuro . Eram a rainha D.Amélia e uma camarista, que vindas da Pena, se dirigiam a Mafra a juntar-se ao deposto rei D.Manuel, de onde partiriam posteriormente em direcção a Inglaterra. Barros Queiróz, reconhecendo a rainha, tirou o seu chapéu, e silenciando os vivas à República, saudou com cortesia a real figura, no que foi acompanhado pelos demais. Revoluções à portuguesa, dirão alguns…

Finalmente chegou o grupo vindo de Lisboa, e todos se dirigiram à varanda dos Paços do Concelho (os actuais, que haviam sido inaugurados um ano antes, em 1909, e proclamaram solenemente a República Portuguesa, tendo na altura sido anunciados Formigal de Morais como presidente da Câmara Municipal de Sintra e Gregório Casimiro Ribeiro como administrador do concelho. Todo o dia foi de festa em Sintra, tendo uma banda de música percorrido a vila em clima de euforia júbilo.

Tomé de Barros Queiróz foi deputado, Ministro das Finanças, Ministro da Instrução Pública e Presidente do Conselho de Ministros e membro da Maçonaria. Nascido em Quintãs, Ílhavo, filho de modestos lavradores, veio muito cedo para Lisboa, começando a trabalhar aos 8 anos como caixeiro numa casa comercial. Apenas na década de 1890 conseguiu matricular-se na Escola Elementar de Comércio de Lisboa. Em 1888 tornou-se militante do Partido Republicano Português, ascendendo rapidamente a lugares cimeiros na direcção daquele partido. Envolvido nas lutas operárias, foi um dos promotores da criação da Associação dos Caixeiros Nocturnos de Lisboa, ligando-se por essa via à imprensa, sendo fundador de A Voz do Caixeiro e colaborando no periódico O Caixeiro.

Eleito em listas republicanas foi, entre 1908 e 1911, presidente da Junta de Freguesia de Santa Justa e vereador da Câmara Municipal de Lisboa. Como referido, foi ele quem proclamou a República em Sintra em 5 de Outubro de 1910.Representou Sintra na Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição de 1911, ao ser eleito deputado por Torres Vedras nas primeiras eleições após o 5 de Outubro, pois esse círculo englobava Torres Vedras, Lourinhã, Sintra e Cascais, entre outros locais, tendo obtido 7609 votos.

Com a cisão do Partido Republicano Português após a proclamação da República Portuguesa, integrou o Partido Unionista, onde militou entre 1911 e 1919. Foi também secretário-geral e director-geral da Fazenda Pública, cargo em que foi o principal autor da reforma tributária de 1911. Como deputado por Torres Vedras, no mandato de 1911 a 1915, foi escolhido para vice-presidente da Câmara dos Deputados, apresentando então um parecer, à época considerado excepcional, sobre a Lei de Meios de 1912-1913 (o orçamento do Estado à altura).

Em 1912 iniciou-se na Maçonaria, na loja Acácia, de Lisboa, adoptando o nome simbólico de Garibaldi.

Na sequência da revolução de 14 de Maio de 1915, aceita o lugar de Ministro das Finanças, cargo que exerceu até 18 de Junho de 1916.

Mantendo-se na actividade política, já em período de degenerescência da Primeira República voltou ao Governo no período entre 24 de Maio e 30 de Agosto de 1921, como presidente do Conselho de Ministros (o título do Primeiro Ministro da época), acumulando com a sua antiga pasta das Finanças. O seu curto mandato à frente do governo português ficou marcado pela profunda crise financeira do Estado e por uma tentativa desesperada de recorrer ao crédito externo, através da contracção de um empréstimo de 50 milhões de dólares na América. Este empréstimo, anunciado como salvador pelo líder republicano Afonso Costa, acabou por não se materializar. Em 1922 foi eleito deputado pelo círculo açoriano da Horta, reingressando nesse mesmo ano pelo círculo de Lisboa, mantendo-se no parlamento até 1924. A partir de 1923 passou a militar no Partido Nacionalista. Faleceu em Lisboa a 5 de Maio de 1926, já em pleno ano final da Primeira República Portuguesa de que fora um dos fundadores.

A ligação de Tomé de Barros Queiróz a Sintra vinha já de antes do 5 de Outubro, pois aqui adquiriu um chalet na antiga avenida Alda, no final da actual Av. Heliodoro Salgado, onde tinha por vizinho Henrique Santana, pai do grande actor Vasco Santana, que contava na altura 12 anos, e vivia com uma senhora espanhola chamada D.Pepa. Sendo a casa de Barros Queiróz de 6 divisões e a de Henrique Santana de 12, e tendo Barros Queiróz 4 filhos, fizeram uma permuta de casas, instalando-se Barros Queiróz no popularmente designado “Chalet Nabo” pela forma de nabo em que terminava a cúpula aí construída precedida duma escada de caracol. Nesse local se realizaram muitas tertúlias e encontros.Em 1913, sendo Estevão de Vasconcelos Ministro do Fomento, intercedeu Barros Queiroz para o arranjo urbanístico do local onde hoje está o jardim da Correnteza.

Depois da sua morte, em Maio de 1925,a Câmara Municipal de Sintra presidida pelo então presidente da Comissão Administrativa, capitão Craveiro Lopes (futuro Presidente da República) inaugurou uma rua com o seu nome, no 5 de Outubro de 1926,cerimónia que contou com muitos vultos nacionais bem como locais, dos quais se destacavam o dr.Virgílio Horta e Eduardo Frutuoso Gaio. Uma coincidência haveria de ocorrer mais tarde durante a recuperação urbanística da Correnteza que ele em 1913 preconizara: os candeeiros de iluminação pública aí ainda hoje existentes, viriam a ser adquiridos numa loja da família Barros Queiroz no Largo de S.Domingos, em Lisboa. Pode pois dizer-se que por diversas formas, a Correnteza é a Correnteza de Barros Queiróz
 Eu e João Rodil na apresentação do documentário

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

25 anos de Câmara de Sintra

                            No antigo Departamento de Urbanismo, na Casa Verde
Passam hoje, 1 de Outubro, 25 anos do dia em que entrei na Câmara Municipal de Sintra como jurista afecto ao Departamento de Urbanismo, na designada Casa Verde. Era presidente da Câmara Fernando Tavares de Carvalho e director desse Departamento o arq. Pedro Guerra Pinto, e logo de "chofre" foi-me distribuído o polémico processo da reconstrução do muro da quinta do comendador João Justino, na altura candidato à Câmara e alvo de artigos na imprensa da época contra essa reconstrução. Nos 14 anos seguintes foram centenas os processos em que trabalhei, bem como regulamentos, protocolos, acções de formação, reuniões com munícipes e entidades, e até entrevistas na televisão, num período de alguma turbulência política, com perdas de mandato, sessões de câmara agitadas, inquéritos e sindicâncias frequentes, resultado do "boom "que o sector imobiliário teve nesse período e das decisões muitas vezes controversas em torno de opções então tomadas. 
Quero neste momento recordar os colegas desses primeiros anos, a Isabel Garcia, a Sónia Lemos e o Alberto Carôco, colegas de sala, bem como o já desaparecido engº Dario Maurício, os arquitectos Rosa,Vítor Ramos, Pereira da Silva, Jorge Rodrigues e José Lazana, o malogrado José Caixeiro, o engº Vítor Arruda, e muitos mais, do Carlos Sabino ao Carlos Fernandes, do António ao Rui Albano, Isabel Vilas, Julieta, José "Algarvio", Fernando de Almeida, Balão, Costinha, o sr. Heleno ou o Gomes Pereira.Durante vários anos jurista solitário, mais tarde vieram a reforçar a equipa jurídica a Helga Carvalho e a Inês Raposo, esta já no edifício da Portela, depois de 1997.
Desses anos iniciais quero ainda recordar pessoas que me foram gratas e que recordo com saudade, uns ainda ao serviço, outros já desaparecidos ou aposentados: o Soares de Matos, a Dina Lacerda, o Sérgio Queirós, o Paulo Gomes, o Alípio Correia, a Geninha, o Eduardo Torres, o Vítor Adrião, o Carlos Lourenço, o Nuno Filipe, o Pinto Vasques, o Manuel Cabido Mota e o Miguel Fontan.Depois de 2003: o Hugo Frederico e a Sandra Brito, a Ana Ricardo, o Joaquim Capacete, a Ângela Gomes, o Vítor Pereira, a Paula Paraíso, a Ana Figueiredo, o Nuno Couto e o José Luís Filipe, sem desprimor para os demais, sendo que nunca até hoje tive nenhum conflito com nenhum colega ou funcionário.
Depois de 2003 passei para o Departamento Jurídico, onde fiquei 4 anos, e posteriormente para a Divisão de Habitação, mais 6,antes de transitar, em Novembro passado, para o Gabinete de Comunicação.
Trabalhar numa autarquia como Sintra, sobretudo nos anos 90, foi um desafio e uma escola, de que guardo boas recordações mas também experiências menos gratas, como em tudo na vida, ciente de que o caminho faz-se caminhando e é necessária uma postura de apaziguador de conflitos e de muita ponderação quando se tem de propor ou prosseguir medidas nem sempre consensuais ou fáceis de aceitar.
Por Sintra passaram entretanto 6 presidentes da Câmara e diversos vereadores de todos os partidos, deles destacando por questões de maior convívio e afinidade pessoal nomes como Ferreira dos Anjos, Matos Manso, João Carlos Cifuentes, Álvaro de Carvalho, Herculano Pombo, Lacerda Tavares, Cardoso Martins, Domingos Quintas e Rui Pereira.
Nestes anos fiz muitas outras coisas também: viajei, dediquei-me a causas da cultura e do património, fundei associações, procurei estar com os meus amigos, num mundo que entretanto mudou, e nem sempre para melhor. Há que ser perseverante e acordar todos os dias a pensar que o céu é azul e o futuro aquilo que fizermos dele.
O meu primeiro gabinete, no 1º andar da Casa Verde

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Scotturb em Sintra: acabar com o transporte de gado!

É demais e persistente a forma como a Scotturb trata os passageiros que andam sobretudo nas carreiras turísticas- o 403 e o 434.
Carros com excesso de passageiros transpirados que muitas vezes fazem viagens de mais de 1h em pé e aos encontrões, lotação ultrapassada, passageiros com passe que por vezes não podem entrar nos carros por estarem demasiado cheios, distração dos motoristas que nem sempre param nas paragens ou fazem orelhas moucas. Enfim, um inferno digno do Terceiro Mundo. Isto com bilhetes para o Cabo da Roca a 4,25 euros, horários ou muito espaçados ou muito próximos, falta de carros depois das 20h, e tudo o mais que se possa imaginar. 
No período escolar, o drama do transporte para a Sarrazola e EPAV, tudo em péssimas condições, com o ar condicionado nem sempre ligado e motoristas que se já vão arranhando o inglês ainda estão muito longe de prestar um serviço de qualidade.
Quem pôe a Scotturb na ordem?


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

10 Sugestões para melhorar o Ambiente em Sintra

Elevado a direito nas últimas décadas, o direito a um ambiente limpo e sustentável foi-se alargando e interiorizando nas opiniões públicas e publicadas, e é particularmente sensível em zonas de transição entre a selva de betão e a paisagem classificada, como é o concelho de Sintra. Na época do automóvel, da cacofonia sonora e visual, da suburbanidade, a que prosaicamente chamamos áreas metropolitanas, Sintra fica “entalada" entre várias realidades, continuando a subsistir muitas tarefas urgentes e a faltar uma cultura de procedimento interiorizada e enraizada. Fraquezas continuam ainda por debelar, e de forma telegráfica deixaria aqui 10 delas cuja resolução em muito contribuiria para melhorar a qualidade de vida em Sintra:
1-A deficiência e semântica do planeamento, e dificuldade em levá-lo à prática, fora dos relatórios e powerpoints;
2-A continuada falta de solução para a questão da orla costeira e das arribas instáveis;
3-O conflito entre entidades, planos, e repartições disputando a gestão administrativa do território, na prática contribuindo para a ineficiência, em benefício do infractor;
4-A precária subsistência de corredores verdes, bem como a invasiva pressão da malha urbana na “fronteira” de Chão de Meninos/Ouressa, só não devassada dada a crise e abrandamento no sector do imobiliário;
5-A falta de meios para combater a introdução de espécies invasoras, não obstante algum trabalho levado a cabo pela Parques de Sintra-Monte da Lua, na sua zona de jurisdição;
6-A falta de acções de monitorização e de equipas fitossanitárias e florestais suficientes e devidamente apetrechadas;
7-A regularização das ribeiras com impermeabilização ou encanamento das linhas de água, tendo a errada política dos anos 90 levado a situações de difícil reparação, sobretudo nos núcleos urbanos;
8-A falta duma Carta do Ruído eficaz, e que tenha em conta as diversas realidades em presença;
9-A ainda insuficiente aderência à recolha selectiva de resíduos, produto de fraquezas na educação ambiental das populações;
10-A subsistência de depósitos selvagens de sucata e vazadouros, e a pouco eficaz repressão de tais práticas, com reflexo na paisagem e qualidade de vida.
Eis alguns tópicos, que, a não serem resolvidos, podem vir a criar muito mau ambiente…
 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O mundo visto do Legendary



Passou a sopa de legumes, com leve baforada caseira a legumes e infância. Passaram três imperiais, sem gás, promessa de nova rodada a confiar no gás da botija.Ao canto, dois portáteis dialogam silenciosos com seus melancólicos donos, ausentes frente a bicas pingadas, almas reféns de uma qualquer vodka preta.
Em final de tarde, a vetusta vila torce o nariz e promete o arrastar do Outono, já com cheiro a âmbar e pinho. É a avalónica transpiração da serra lunar, recortada entre palácios, acácias, travesseiros e armadilhas a diabéticos incautos, que dolentes passam em promontorial peregrinação.
Passa um japonês. Sorri. Sorriem sempre, os japoneses,milenar truque a esconder emoções, em busca duma foto (hoje selfie) para mais tarde recordar. No dealbar das sete, as ruas ficam vazias, num desmaio de Vida. Há muito não há Vida, sobejando holográficos passageiros em transumância pela Volta do Duche, bebedores de almas e  ausentes dum espaço sem tempo.
Ameaçadora, a torre da Câmara fixa-nos, prometendo pela noite soltar uivantes ogres, ou talvez duendes, sem guia de remessa ou despacho autárquico. Olha-nos, a rameira, em rendilhados contornos, guardada por um leão-rei, e ora ninho de águias. Três mesas sentam figuras em trânsito, clientes, alguém lhes chama. Ao canto, uma guitarra chora. Choram sempre as guitarras. Antes fossem violinos, e os clientes libelinhas, frágeis promessas de serenidade.
Um orvalho tardio tolda os cérebros e convida à caverna-refúgio, da casa ou da alma. Só nocturnas promessas de amor ou esconsos encontros pelas vielas dirão se assim é, ou se uma etérea felicidade invadirá os silêncios e as esperas sem promessa.
Cristo morreu, Marx também, Rimbaud arrasta-se numa labiríntica revolta, e Sintra, melancólica, observa a valsa de gambozinos espectrais, antevendo noites redentoras e silenciadas paixões.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A Visita do Diabo


NOS 48 ANOS DO INCÊNDIO DA SERRA DE SINTRA
 



6 de Setembro de 1966, Sintra era notícia  na imprensa nacional e estrangeira, violento fogo lavrava com intensidade brutal na Penha Longa, Lagoa Azul e Capuchos, favorecida por elevadas temperaturas e constantes mudanças de vento. Seteais, Monserrate, a Pena e até S. Pedro, estavam em risco, e todos os corpos de bombeiros do distrito de Lisboa mobilizados, aos quais se juntaram homens das Caldas, Elvas e Leiria, forças militares e civis, num total de quatro mil homens. Sitiada, Sintra era pasto das chamas que assassinas cruzavam o ar e a vila de turistas e veraneantes transformada em quartel para uma batalha que durou seis dias, lançando cinzas e fumo a quilómetros, sob um clarão enorme e infernal.

Por esses dias, Luís fazia a tropa em Queluz, a vida do quartel repartida entre serviços rotineiros e a angústia por uma chamada para o Ultramar. Aos vinte anos e noivo da Angelina, a oficina de torneiro do tio haveria de chegar para começo de vida, se tudo corresse bem, uma casa em Queluz estava debaixo de olho. O incêndio apanhou-o no quartel, o Regimento de Artilharia Anti-Aérea Fixa de Queluz, onde durante toda a manhã do dia 6 se escutaram sirenes. A Emissora relatava danos na vertente de Cascais, mas por toda a serra focos se espalhavam incontrolados, populares com ramos de árvores, cansados e impotentes, faziam o que podiam. Preparava-se para almoçar uma feijoada quando o comandante de batalhão mandou formar na parada, era preciso acorrer ao fogo, todos os meios estavam a ser mobilizados. Reunidos em viaturas, saíram a dar apoio. A abundância de mato por limpar ajudava a propagar as chamas, Luís, com mais alguns homens foi enviado para perto da Peninha, se bem que se denotasse no tenente que comandava insegurança sobre onde atacar e quando. Os comandantes dos voluntários dividiam-se sobre a frente prioritária, apagado num lado por viaturas em idade de reforma, reacendia logo noutro, e zonas antes cerradas eram agora clareiras incandescentes. Envolta num braseiro, a Tapada do Mouco já pouco tinha de verde. O Antunes e o Fernandes, do pelotão de Luís, rudes e habituados à mata, ajudavam a dar luta, inglória porém, Lúcifer parecia ter-se mudado para Sintra levando o inferno até lá. Nessa noite, pernoitaram na serra, poucas e inseguras horas, senhoras do Penedo alcançaram leite e pão com presunto. Passando no local, um jornalista dizia ao major que se falava em decretar o estado de sítio, e mandar vir homens de Santa Margarida, tais as proporções que o fogo tomara.

Durante todo o dia 7, exaustos e sem coordenação, Luís e os camaradas quais baratas tontas, acorreram aonde o tenente ordenava, a chuva de Setembro, que tão necessária era, tardava em aparecer. Segundo os comandos, cinquenta quilómetros estariam sob o pasto das chamas, vestígios na Lagoa Azul indiciavam origem criminosa. O Antunes transpirava, de galho na mão, asfixiados pelo fumo, dois cabos tiveram de ser assistidos e voltar para o quartel. Luís fazia o que podia, pensando quando tudo terminaria. Todo o dia a serra ardeu. Chegada a noite, o clarão laranja do apocalipse voltou a sentir-se no seu belo horrendo, persistente, o fogo levava a melhor. Motobombas dos Lisbonenses passaram por eles em correria e reposta a água necessária, concentraram-se num local elevado, mas perigoso.

Temerário, o tenente mandou avançar para o Alto do Monge, tentaria um corta-fogo, e aberta uma frente, combater fogo com fogo, esse inimigo sem pernas nem balas, a estratégia pareceu adequada. Todos os homens se colocaram no epicentro do incêndio, bombeiros e civis protegiam as povoações. Aos poucos, perdiam-se cem anos de floresta, visto de Cascais, era o juízo final. A dada altura, o Antunes gritou por trás dele, uma mudança do vento criara nova frente ali perto. Luís ficou apreensivo. Fogo pela frente e pelos lados, uma coluna de fumo por trás, o tenente ordenava que se mexessem, ele próprio tentava posicionar-se. Mais vinte e um camaradas estavam no penedo perto da anta do Monge, por ironia chamado Cerro da Queimada. Aumentando o calor e o fumo, deixaram de se ver uns aos outros, gritos lancinantes abafados pelo fogo invasivo anunciavam o Inferno colhendo novas vítimas, impotentes anjos naquele Setembro negro. Afogueado, Luís viu-se perdido, já não via nem ouvia os camaradas. De relance, pensou em Angelina, olhou o céu, vermelho, e absorto sentiu-se levar, colhido e febril. Possuída, a serra de Sintra ganhava mártires e os homens, heróis. Até que Lúcifer, desperto, regresse, ameaçador e inclemente, faminto de carne esturricada e impotente. Regressará?
 
 

 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Recordar o Professor Joaquim Fontes



Passam no dia 10 de Setembro 54 anos da morte do Prof. Joaquim Fontes, antigo presidente da Câmara de Sintra e o único que morreu no cargo, em 1960.

Joaquim Fontes (1892-1960) foi professor da Faculdade de Medicina, arqueólogo, e também vereador e presidente da Câmara de Sintra (1958-1960), secretário-geral, conservador do museu de Odrinhas, sócio honorário e presidente da Associação de Arqueólogos Portugueses durante dezassete anos seguidos. Docente de Fisiologia e Obstetrícia, desde 1911 que o professor Joaquim Fontes começou a chamar a atenção dos arqueólogos, não só nacionais como estrangeiros, para os trabalhos a que se dedicava. O seu ramo predilecto era a Pré-História, e nesta o Paleolítico Superior mereceu as suas preferências. Levou os resultados das suas investigações a congressos internacionais (França, Suíça, Espanha) e o seu campo de pesquisa não se limitou ao nosso país, pois tomou parte em escavações em França e em Espanha.

Em Sintra organizou Jornadas Arqueológicas com muito sucesso; nelas não só tomaram parte cientistas portugueses como também estrangeiros. Foi por sua iniciativa que se criou o Museu de Odrinhas, na sua versão inicial, numa altura em que reunir uma série de objectos arqueológicos no local ou proximidades do lugar onde tiveram expressão ainda não estava bem arreigada no país. Assim, no Museu de Odrinhas encontram-se também objectos que foram encontrados nas ruínas de São Romão, em Lourel, e que foram deslocados para lá, como um túmulo cupiforme romano (retirado das ruínas da capela) e uma ara romana (encontrada no altar). Algumas das poucas notas históricas e etnográficas escritas sobre a freguesia de Algueirão Mem Martins foram escritas pelo Prof. Joaquim Fontes. No seu livro 'Mem Martins, Notas Históricas e Etnográficas' ele descreve as Festas da Nossa Senhora da Natividade, os saloios, a história de Mem Martins e a sua agricultura nos séculos XVIII a XX. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Minhas memórias de João Justino



Conheci o comendador João Justino, recentemente falecido, em Novembro de 1989, era eu jurista no Departamento de Urbanismo da Câmara de Sintra e ele candidato à presidência da mesma. Por ironia, semanas antes tinha-me sido distribuído um processo relacionado com um muro por si reconstruído em Colares, alvo de polémica jornalística e contestação local, o que levou na altura o comendador a perguntar-me, numa visita aos serviços: “gosta de tourada?”, ao que respondendo com um "às vezes", o levou a rematar: “é que, sabe, estou rodeado de touros e toureiros, de quais é que quer ser?”.

Ganha a eleição, durante dois anos pude acompanhar de perto a forma muito própria como abordou a sua presidência, assumindo o poder efectivo quando muitos o haviam escolhido para rainha de Inglaterra cerimonial, papel que claramente não era o dele, acabando por sucumbir a cascas de banana que a sua falta de preparação jurídica e política facilitaram. Ficou-me na memória o dia em que, estando numa reunião com ele e chegada a notícia da sua perda de mandato (por questões ridículas, que noutras situações e com outros jamais levariam a tal desfecho) teve de retirar em poucas horas as suas coisas do gabinete, perante o ar triunfante do seu vice,  que, sem nada fazer, recebeu o poder de bandeja.

Muitas foram as peripécias daqueles dois anos em que por força das minhas funções me vi envolvido, das guerras com o vereador Ferreira dos Anjos ao embargo de obras de familiares e às acaloradas sessões de Câmara, num período de grandes polémicas em torno de licenciamentos de obras com a construção em Sintra no seu auge (no bom e mau sentido). Poderoso como capitalista e self made man, que constantemente destacava as suas origens humildes, mas também a jactância do seu poder, João Francisco Justino chegou à Câmara num tempo que já não era o seu. Nos últimos anos, passado o período frenético das guerras de 1990-92, por dever de ofício tive de formatar um embargo à sua casa de Colares, já não era presidente, o que o levou a deixar de me falar (não obstante ter ele muitas ordenado embargos motivados por estados de alma), como se fosse por vontade minha ou capricho pessoal que o fazia.

Os homens são a sua circunstância, e João Justino, criado serralheiro e feito comendador, presidente e capitalista, teve a sua, e num certo espaço e tempo sintrenses marcou as últimas décadas, com um feitio truculento onde sempre transpareceu o homem do povo que ascendera socialmente. Toureando e toureado.