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quarta-feira, 23 de abril de 2014

O meu 25 de Abril

Naquela quinta-feira não houve aulas e o ponto de Física ficou adiado por causa duns militares que ocuparam o Terreiro do Paço, o meu avô telefonou logo de manhã a aconselhar que não saíssemos de casa, chuviscava e o dia estava cinzento. Na televisão, passaram um episódio repetido do Daktari, contente por não haver aulas, aproveitei e fui ao barbeiro, onde corriam boatos desencontrados sobre o sucedido, um dia sem aulas era sempre uma festa.

No dia seguinte o D.Pedro V, liceu de Lisboa onde frequentava o 5º ano (hoje 9º) estava agitado, o porteiro fugira, era informador da PIDE-DGS. No sábado, 27, depois duma avalanche de acontecimentos e debaixo de chuva, subi com os meus pais e irmã ao Carmo, onde os soldados com cravos nas armas e pendurados em blindados tiravam fotos com populares. Tudo acontecera em poucas horas. Lisboa, cinzenta e molhada, exultava de alegria, na estátua do Rossio, uns guedelhudos invetivavam alguns transeuntes apelando à sua prisão, informadores da PIDE, denunciavam, levando à sua detenção por populares acirrados. Com um megafone, Saldanha Sanches, do MRPP, ( mais tarde soube quem era) clamava contra os fascistas.

Em poucos dias, tudo mudou. O “careca megalítico”, professor de História, até ali sorumbático, mostrava-se agora simpático e adepto da nova situação, opositor silenciado durante anos, rejubilava, mais receoso, o professor de Moral, temia a anarquia. Embriagados pelas notícias da liberdade que de todo o lado choviam, animados por canções de protesto nunca antes escutadas, descobriam-se mundos escondidos, os sons de Zeca, Fanhais, Luís Cília e Adriano, na sala de alunos, manifestos policopiados  e jornais de parede em profusão apelavam a RGA’s, a nova vida da escola discutida no dia seguinte.

O primeiro plenário do MAEESL- Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário de Lisboa decorreu no ginásio do Liceu D.Pedro V, tendo o reitor, “lacaio” do regime, sido previamente saneado. Apesar de já saber algo de política- o meu avô era opositor de Salazar e antigo apoiante de Norton de Matos e Humberto Delgado, e no 1º de Maio de 1973 foi mesmo agredido no Rossio, por participar numa concentração não autorizada- pela primeira vez ouvi falar de Álvaro Cunhal e Mário Soares, apesar de Spínola ser um nome de quando em quando sussurrado em minha casa ao jantar.

No dia do trabalhador, com meus pais subi a Almirante Reis e estive no grande 1º de Maio de 1974. Portugal estava todo ali em festa, marinheiros e anónimos abraçados, o mundo olhando para um esquecido rincão atlântico que desassombrado e agigantando-se fazia a primeira revolução utópica dos tempos modernos.

Nas semanas seguintes, o país transfigurou-se, a escola entrou em ebulição, os partidos dividiram as opiniões e os plenários foram ficando organizados, a democracia  gatinhou, vendo os jovens tornando-se homens. Nada poderia deter a força indómita da geração da liberdade.
Foto tirada por mim no 1º de Maio de 1974. O senhor de óculos, em baixo, é o meu pai.


sábado, 19 de abril de 2014

Os 190 anos da morte de Lord Byron


Passam hoje 190 anos da morte de George Gordon, 6º barão Byron, mais conhecido em geral como Lord Byron.Encontrou a morte em Missolonghi, no litoral norte do Golfo de Pratas, onde lutava ao lado dos gregos pela sua independência da opressão turca. Segundo consta, a causa da morte parece ter sido uremia, complicada por febre reumática.
O imaginário construído em torno de Byron, sobretudo enquanto "santo padroeiro" de Sintra carece de alguma veracidade, e sobretudo tem ao longo da História servido para propalar algumas lendas que, se servem o propósito de elevar o prestígio de Sintra, pecam contudo por falta de rigor.
Em primeiro lugar, a estadia de Byron em Portugal durante o período complicado que se seguiu à Convenção de Sintra e à partida de Junot, foi de apenas 10 dias, chegando a Lisboa a 7 de Julho de 1809, com 21 anos,  dedicando a Sintra e Mafra 4 dias, e a Sintra, com Colares incluído, apenas 2, instalando-se com o seu amigo Hobhouse e três criados que os acompanharam desde Falmouth para uma longa viagem pela Europa no pequeno albergue das Lawrence.
Depois, porque não foi cá que escreveu os famosos versos da sua obra Child Harold's Pilgrimage emulando o Delicious Eden, mas mais tarde, nalguma escala tórrida das suas muitas viagens ou já de volta a Inglaterra, recordando a frescura e as fontes de Sintra.
Ainda porque, se de Sintra se lembrou, na forma diletante e pigmaleónica que emprestou à sua escrita efabulada, foi mais por causa da serra que por causa dos sintrenses, tendo de forma diletante dito das pessoas o que Maomé não disse do toucinho, de carteiristas a pouco educados e marialvas, e reclamando mesmo do preço exorbitante que uma gordurosa irlandesa, Miss Lawrence, lhe levou pela estadia no hoje hotel de charme que mais não foi que um bed and breakfast dos tempos egrégios, mas que a febre romântica logo transformou num paraíso celestial e etéreo.
Byron tomou banhos, aprendeu a praguejar em português, terá escrito para casa a relatar o gozo que lhe deu a passagem por Portugal. So what? Sintra sempre gostou de dandys, enfants terribles em casa mas adulados em terra de cego, e, tal como Beckford, Lady Jackson, Hans C.Andersen, ou até o Palma Cavalão do Eça, sempre foi um refúgio perfeito para eles. Oh Delicious Eden...

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A verdadeira história da Páscoa



Coelho Passos chegava para a Páscoa, Lisboa estava já cheia de espanhóis rezando pelo rating, por supuesto, sendo recebido em apoteose pelos fiéis, com Saulo Tortas gritando hossanas, enquanto era tocada música das Doce. Vindo de Berlim, conseguira à ultima hora negociar uma saída à caçadora, que reenviava os homens da troika para casa mais cedo. Aborrecido com o percalço, um tinha até já uma mariscada combinada no Guincho com o Carlos Moedas.
Ufano, ganhando pontos nas sondagens, convidou os mais chegados para um robalo no Gambrinus, era Semana Santa, convinha não abusar de carne. Antes de chegar, premonitório, porém, predisse que seria traído por um dos seus. Todos se entreolharam, admirados. Ao servir o presunto comentou: "Tomai e comei todos, este saiu-me do corpo". Logo após, em sinal de brinde, ergueu o Reguengos e disse: "Tomai e bebei todos, este é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que por vós será emborcado para comemoração dos meus feitos”. À mesa, os doze correligionários celebravam, apenas Miguel Frasquilho, preocupado, via a taxa do vinho, 13º, em dez minutos subiria até o juro mais recalcitrante. Falava Passos com Barroso ao telemóvel quando, ruidoso, chegou o Corpo de Intervenção. Mal pousava o telemóvel para ver o que se tratava, logo Saulo Tortas lhe deu um beijo na cara de soslaio. Surpreendido e sem reacção, olhando ora Saulo ora os polícias, foi algemando ante o olhar incrédulo do desgrenhado Poiares Kuduro. Em bicos de pés, Marques Mendes bem tentava chegar ao corpulento comandante da força para lhe explicar que cometia um grave erro, que aquele era o Primeiro dos Primeiros, Senhor do Défice e Guardião de S. Bento, mas nada, havia ordens expressas. Infiltrado, Tortas combinara a revelação do local do jantar com Pôncio Cavacus, o Governador de Belém. Em troca iria para embaixador na OCDE, precisava de descanso, nada como Paris, longe da crise e da dívida. “Eis o vosso homem”, apontou Tortas, com ar sério. A coisa era séria, na verdade.
Levado ao Parlamento, reunido de emergência, apesar da Semana Santa, sentado algemado na bancada do governo, vários deputados o cercaram como chacais. Inquisitorial, Saulo Tortas abriu o interrogatório:

-Sabemos, Primeiro dos Primeiros que contra nossa vontade negociaste um novo acordo com a Angela Lidl, a valquíria do euro. Quem te mandatou para fazeres alianças com os teutões?
-Sim- rancorosa, Manela Ferreira Leite, carinhosamente tratada pelos amigos como “a Bruxa Velha” quase lhe enfiava o dedo num olho- eu bem avisei…- e virando-se para Pacheco, o filósofo de serviço, buscou apoio:- avisei, não avisei?….
O Coelho Passos pasmava com este autêntico golpe de estado. Quisera chamar apoios mas com o fim de semana prolongado estavam todos no Algarve a discutir os cortes em Vilamoura. Altivo, manteve-se calado, afinal falar com estes era para ele um frete, um simples telefonema e despacharia a oposição, tonitruante mas inofensiva. Pensava, enganado porém.
Dali, os líderes sublevados levaram-no a Pôncio Cavacus, que em Belém se deliciava comendo um pedaço de folar. Acusavam-no de trair o país. Pôncio hesitante ainda pensou enviá-lo de presente a Gerónimo, chefe das hordas do Sul, mas este, ouvido ao telefone, devolveu-o a Cavacus. Era de praxe libertar um prisioneiro por ocasião da Páscoa. Cavacus alinhou o Coelho Passos e um burlão de nome Oliveira e Costa, o “Robin dos Bosques dos ricos” na escadaria do palácio, e pediu à multidão  que escolhesse qual dos dois deveria ser  libertado. A multidão voltou-se contra Passos e escolheu o velho, pelo sim pelo não podia ser que pagasse os calotes do BPN- Banco de Pagamentos Nocturnos. Então, Cavacus, lavando as mãos entregou-o, para ser crucificado num interrogatório conduzido por Manela Ferreira Leite.
A crucificação era a forma comum de execução em prime time e aos domingos à noite. A Passos, em fato de treino, enfiaram na cabeça umas orelhas de burro, ao pescoço, pendurado, um retrato de Gaspar, o Avarento. A seguir, forçaram-no a levar até aos estúdios e a pé, três caixotes com o projecto dos cortes nas pensões, aí, esfregando as mãos, a megera Manela o esperaria no estúdio 1.

Lá chegado, e já bastante combalido, sentaram-no numa cadeira, e cruéis, negaram-lhe o teleponto. Acesas as luzes, e dado um grande plano da presa, Manela atacou:
-Diz-me, tu a quem chamavam Primeiro dos Primeiros, são ou não verdadeiras todas as acusações que te fazem: é verdadeiro o negócio dos swaps? E o curso do Relvas? E a venda da TAP?. E a derrota do Porto? E aquela vez que o meu marido falhou na cama comigo alegando cansaço? Não vale a pena negar, eu e os espectadores sabemos tudo- carnudos, os lábios pareciam jorrar sangue, a um canto, Marcelo, o Magnífico, assistia deleitado, lendo quatro livros de cada vez e uma biografia de Charles Dickens. Já o pior parecia ter passado, sempre o mandando calar antes que pudesse responder, quando cruel, nova tortura estava preparada: Sepulcral e envergando uma túnica negra, de gadanha na mão, Louçã avançava com a sentença do público, votada a 60 cêntimos mais IVA: como castigo, a demissão e o exílio. Antes de o levarem, levantou os olhos ao Céu e suspirou:
-Angela, Angela, porque me abandonaste!
O Novo Primeiro dos Primeiros, empossado no Domingo de Páscoa foi o finlandês Soini, que depois de apear as fotos do Coelho Passos pôs o país a arenque e instituiu a semana de 166 horas, com apenas duas para descanso e para uma pequena sauna. Os do Parlamento e Cavacus ainda reclamaram, mas tardava já, o ancião Medina Carreira, novo ministro da Salvação Nacional ordenara o fecho do hemiciclo e a abertura em S. Bento de um call-center para atender queixas contra políticos. Indignado, Saulo Tortas comentou com a Bruxa Velha:
-Acho que errámos, Manela. Queríamos amêndoas na Páscoa e saiu-nos  foi amêndoa amarga….

Dia Internacional dos Monumentos e Sítios


Criado em 1982 pelo ICOMOS, vai de novo celebrar-se a 18 de Abril o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, dedicado desta vez ao tema Lugares de Memória.

Sintra é um dos locais onde a profusão de monumentos e seu valor histórico e patrimonial mais se coadunam com o espírito de preservação e promoção que a esse conceito está associado, e que levou à classificação em 1995 como Património da Humanidade, na categoria de Paisagem Cultural, tendo o presidente da Câmara de Sintra presentemente a função de presidir à Organização das Cidades Património Mundial, eleito durante o 12º Congresso dessa organização em Oaxaca, no México, no que constituiu mais um reconhecimento para Sintra enquanto promotora da defesa e recuperação do seu valioso património.

Recorde-se que aqui foi aprovada a Declaração de Sintra, que procurou unir esforços para a mitigação e adaptação às alterações climáticas. Sintra integra igualmente desde há anos a Aliança das Paisagens Culturais, uma rede internacional criada para preservar espaços declarados Património da Humanidade pela UNESCO, e que são hoje mais de 60.

Em 2008 produziu-se a Declaração de Aranjuez, onde os sítios classificados expuseram as suas inquietações e analisaram a necessidade de compatibilizar a preservação dos lugares com um adequado desenvolvimento económico e social dos aglomerados e das gentes em seu torno. Um dos pontos desta declaração faz referência às políticas de difusão do património cultural entre a população, assinalando que a melhor forma de gerar cultura entre os cidadãos passa por estes valorizarem o seu próprio património, e exigindo “implicação, cumplicidade e compromisso” do mundo científico na melhoria desses lugares e na garantia da sua sustentabilidade, apelando à participação cívica das comunidades locais enquanto elemento fundamental para um desenvolvimento sustentável das área classificadas e chamando os parceiros da sociedade civil, pondo fim a uma certa “ditadura tecnocrática” na gestão dos espaços que todos devem fruir num sentimento de pertença que a Declaração de Aranjuez visou reforçar.

Na promoção e defesa do património, dos monumentos e sítios classificados, há pois que juntar cidadãos, associações cívicas, técnicos e  moradores. Só se pode acarinhar uma ideia como a de Paisagem Cultural se ela for originada em consensos e como instrumento de desenvolvimento para quem habita no seu seio, e não se funcionar como o eucalipto que a tudo o que o rodeia seca e põe a comunidade contra si. Não há paisagem cultural sem pessoas e não há gestão bem sucedida sem consensos.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Penha Verde, o Oriente esquecido de Sintra

Um dos mais misteriosos e simbólicos locais de Sintra, classificado como monumento nacional desde 1953 (passam hoje, dia 17, 61 anos) é a Quinta da Penha Verde. Nas mãos de privados e sempre encerrada, é quase um crime de lesa património que tal conjunto, bem como os artefactos e decoração da mesma não sejam de pública fruição, como devem ser os bens culturais e sobremaneira os classificados.
Aquele portão misterioso, ladeado pelo arco que quase podemos considerar a fronteira da Grande Floresta, que de Monserrate à Peninha nos transporta pela Serra Mágica, Paisagem Cultural da Humanidade, está sempre encerrado, esperando talvez mais uma transacção para uma off shore ou para mais um estrangeiro que a adquira meramente para valorização patrimonial e pessoal. A Quinta da Penha Verde foi classificada como Monumento Nacional pelo decreto nº 39175 de 17 de Abril de 1953. Os terrenos correspondentes à Quinta foram doados pelo rei D. Manuel no início do século XVI a D. João de Castro, vice-rei da Índia, que decidiu fazer no local uma quinta de recreio. O palacete primitivo da Penha Verde, erigido cerca de 1534, possuía uma estrutura de dimensões reduzidas, mas em 1542 D. João de Castro mandou edificar a capela de Nossa Senhora do Monte, atribuído a Francisco de Holanda.
Entre 1638 e 1651 D. Francisco de Castro, Inquisidor Geral e neto do vice-rei, realizou obras de melhoramento na quinta, mandado ampliar o palacete e construir duas novas capelas, uma dedicada a São João Baptista, interiormente revestida de painéis de azulejos com temas da vida de São João Baptista, e a outra com orago de Santa Catarina, padroeira dos Castro. A actual entrada da quinta deverá datar dessa época, apresentando um pórtico maneirista encimado por frontão triangular com o brasão dos Castros. Os jardins que antecedem a casa datam do século XVIII.
Do conjunto da quinta fazem parte as diversas ermidas, edificadas no espaço interior à cerca, e as fontes. A ermida de Nossa Senhora do Monte, edificada em 1542,  as capelas de Santa Catarina e São João Baptista, de meados do século XVII são decoradas com painéis de azulejos e imagens dos santos padroeiros. Realce ainda para diversas fontes, nomeadamente a de Neptuno, com tanque circular e a imagem do deus ao centro, a dos Azulejos, com espaldar revestido de azulejos polícromos, e a dos Passarinhos.
Porém, quantos já viram tudo isto? Será ali a entrada para a cidade sagrada de Shambala de que falam os esotéricos? Porque não é imposto um dia ou uma semana anual para que todos a possam visitar, uma vez que é classificada? Aliás, como se pode controlar a preservação do local se ninguém lá entra, ou mesmo se tudo o que foi classificado se lá encontra ainda?
Queremos visitar a Penha Verde. O que têm as autoridades a dizer?

quinta-feira, 10 de abril de 2014

33 anos de Associação de Defesa do Património de Sintra

 
A atender à data da escritura, foi a 10 de Abril de 1981 que nasceu formalmente a Associação de Defesa do Património de Sintra, pioneira instituição na defesa dos valores naturais e edificados de Sintra e força propulsora de muitos movimentos cívicos. Sem a ADPS provavelmente o processo de classificação de Sintra como património da Humanidade seria mais moroso, e muitos atentados urbanísticos e na paisagem teriam sido cometidos de forma displicente.
De entre as personalidades que desde a primeira hora estiveram na constituição da ADPS podemos destacar Vasco Cabral da Câmara ou José Manuel Conceição. Mas, e de forma marcante e sistemática até hoje, a figura incontornável de Adriana Jones. Á sua tenacidade, pressão e desassossego, bem como independência perante os poderes, fácticos e institucionais se deve muito do que hoje temos e uma marca de água na história da preservação de Sintra e sua herança.
Nem sempre consensual, mas sincera e empenhada de forma desinteressada, justo é nesta data que se lembre a efeméride e a figura de Adriana Jones, indissolúveis uma da outra. Que continuem por muitos e bons anos.

sábado, 5 de abril de 2014

Lutas Antigas pelo Património


5 de Abril de 1934 marca uma etapa na luta pela defesa do património em Sintra, noutros tempos e conjunturas.

Efectivamente, a 3 de Fevereiro desse ano  o Conde de Sucena, proprietário do Palácio de Seteais (mas só do Palácio) apresentara à câmara a remissão do foro e o pedido de ajardinamento do campo de Seteais, aforado desde 1801 mas de pública fruição no que aos espaços exteriores respeitava. A ideia era "privatizar" os jardins, usados desde sempre como caminho público e até campo de treinos do Exército, e dotá-lo de uma cerca, que, na prática, constituiria um aproveitamento exclusivo por parte do conde daquilo que desde sempre a todos pertencia. O tema causou indignação  nessa época, tendo o Jornal de Sintra pela pena de José Alfredo da Costa Azevedo, na altura um jovem colaborador assinando artigos com o pseudónimo de Zé da Vila, inflamado a opinião, em crónicas e versos dedicados ao tema e apelando mesmo a que tocasse a rebate o sino da Torre da Vila caso os propósitos de Sucena fossem por diante. Após muita pressão da população e da imprensa, o conde de Sucena acabou por desistir do projecto de ajardinar Seteais a 5 de Abril seguinte, acabando por respeitar a carta de aforamento concedida ao Marquês de Marialva em 1801, numa clara vitória popular em que o Jornal de Sintra tomou uma posição em prol das grandes causas, reflectindo o sentir das populações.

Em anos mais recentes, com a Alagamares e outros defensores locais da causa do património na linha da frente da contestação, novo encerramento, e tentativa de tornar privado o que desde 1801 é público, desta vez a pretexto de obras subterrâneas e restauro do hotel, concessionado à rede de Hotéis Tivoli, tendo mesmo sido promovidas conferências de imprensa e denúncia do facto junto dos partidos e dos órgãos municipais.

É de mobilização a favor de causas favor das causas cidadãs que Sintra hoje continua a necessitar. Não queremos mais Condes de Sucena, e o património, se é Mundial, é de todos nós antes demais.

Património em Sintra: a insustentável beleza das ruínas

Paradoxalmente o património abandonado pode proporcionar imagens de rara beleza. Taylor Moore, canadiano a residir em Sintra há um ano e meio, fotografou o Hotel Netto e algum do património arruinado no Centro Histórico, captando a nostálgica beleza da decrepitude, que, fora da cruel nudez da fotografia, se não deseja perpetuar numa Vila Património Mundial. Algumas fotos:
Hotel Netto
 A velha escola no Arraçário
Uma casa na Vila
Património Mundial?

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A casa de Francisco Costa na rua Sacadura Cabral


Passam hoje 26 anos do desaparecimento do escritor e ensaísta sintrense Francisco Costa. A casa onde viveu, em Sintra (foto acima), da autoria de Raul Lino, está situada perto do Largo do Morais e pertence, bem como o recheio, à Câmara Municipal de Sintra, por testamento da sua filha Isabel Costa.

Teria sido intenção que estes bens transitassem para a Misericórdia de Sintra, tendo mesmo sido organizada na casa uma exposição sobre Francisco Costa em 1996, mas após um processo agitado, o legado acabou sendo entregue à Câmara.

Situada na rua Sacadura Cabral, ao Morais, a casa foi idealizada em 1926 pelo arquiteto Raul Lino, de cujo falecimento passam também 40 anos em Julho. Referências à casa transparecem na obra do escritor, que em páginas dos romances A Garça e a Serpente (1943), Primavera Cinzenta (1944), Cárcere Invisível (1949) e Promontório Agreste (1973) recorre à descrição de cenários da sua casa.

Impõe-se preservar a casa onde Francisco Costa e a sua família viveram ao longo de décadas e dar-lhe um uso compatível e digno. Como ele escreveu:

Quando esta casa, feita mesmo em frente
da serra verde, ainda mal se erguia,
e as traves da futura moradia
eram belos pinheiros, simplesmente,
houve uma tarde, sob um sol ardente,
em que o suor em bagas escorria
da testa dos pedreiros e fazia
da cal e areia uma argamassa quente.

Hoje, há paredes contra os vendavais,
mas é cá dentro que soltamos ais
nos dias mais aflitos ou mais duros.
Enquanto gemem temporais lá fora,
pagamos nós em lágrimas, agora,
a dor incorporada nestes muros.

(Francisco Costa, Última Colheita, 1987, p. 13)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Sintra: como fruir do património encerrado?


O artigo 78º da nossa Constituição estabelece que todos têm direito à fruição cultural, correspondendo-lhe um dever de preservar e valorizar o património cultural.

Apenas na revisão constitucional de 1997 foi introduzido tal artigo, sob a epígrafe “fruição e criação cultural”. Outros artigos se interligam com a cultura, como o artigo 9º (tarefas fundamentais do estado), a c), do artigo 58º, o nº 3 do artigo 70º, o nº2 do artigo 72º, o artigo 74º (o ensino e a cultura estão interligados). Ainda os artigos relacionados com o direito fundamental de informação, artigos 37ºe 38º e o artigo 42º (liberdade de criação cultural).

Ora o conceito de fruição tem aqui de ser entendido como a possibilidade de todos terem acesso aos bens materiais e imateriais que constituem um dado património, cuja classificação como tal só tem razão de ser se for para que a comunidade o compreenda, estude, divulgue e proteja.

Em Sintra, apesar da classificação como património da Humanidade, nem todo o património classificado está disponível para conhecimento e visita, coartando a finalidade da classificação. E deixo apenas dois exemplos:
a)  A Igreja de Santa Maria, monumento nacional desde 29 de Junho de 1922, permanentemente encerrada, uma das primeiras igrejas cristãs a ser edificada no burgo depois da ocupação por D. Afonso Henriques.

b)  A Quinta da Penha Verde, classificada de monumento nacional em 17 de Abril de 1954, antiga propriedade do vice-rei D. João de Castro e rica em artefactos e simbologia.

A natureza pública ou privada desse património não deveria ceder perante o facto de ao ser classificado, não só deveriam tais espaços ficar a salvo de intervenções desvirtuantes ou demolições indesejadas, mas que deveria a sua fruição pública através de visitas, ainda que espaçadas e regulamentadas, ficar assegurada. Sob pena de se frustrarem os objectivos teleológicos da classificação e o fim de fruição cultural que ao património está guardado.

Muito património permanece em ruínas no Centro Histórico de Sintra, nas mãos de privados e, paradoxalmente, do Estado, infelizmente, o que não deve ser exemplo para ninguém. Mas além da ruína material, outra decorre também do facto de se desconhecer o que existe, e não se poder educar para preservar quando não se conhece o que se tem.

Estes são dois exemplos apenas, mais haverá a elencar. Esperemos que a Área de Reabilitação Urbana recém criada tenha em conta igualmente preocupações de natureza histórico-cultural e não apenas de ordenamento do território e urbanismo.