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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Foral de Sintra, 860 anos

Passam hoje, 9 de Janeiro, 860 anos da outorga por D.Afonso Henriques a 30 cavaleiros de Sintra do seu primeiro foral. Aqui uma leitura ficcionada do mesmo, e das suas disposições, essas sim, fidedignas:


Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amen. Aprouve-me, a mim Afonso, Rei dos Portugueses, filho do Conde Henrique e da Rainha Teresa e neto do Rei Afonso, e a minha mulher, Rainha Mafalda, filha do Conde Amadeu, dar-vos, a vós que habitais em Sintra, da classe superior ou da inferior, e de qualquer ordem que sejais, e a vossos filhos e descendentes, carta irrevogável, de direito, estabilidade e serviço.”. Assim começou Mestre Alberto, tabelião régio, a carta com que Afonso Henriques outorgava foral a Sintra. Deixados alguns cavaleiros no castelo donde os mouros haviam debandado, vinha agora uma delegação da vila prestar obediência e saber que ordenava el-rei para a antiga praça moura. À audiência assistiram Pelagio Zapata, Gonçalves de Sousa, Pedro Fernandes e o arcediago de Lisboa, Sancho Moniz Egas. Por sua vontade lhes dava trinta casais, um para cada família, por direito hereditário e sem tributo a Lisboa, também a habitual parte em seara ficaria dispensada. Pelagio Zapata, mestre em leis, aconselhou sobre a melhor forma de aplicação da justiça:

-Senhor, acertado será que para quem vossas leis não acate, tenha a justiça pesada mão: não passe homicídio ou violação de mulher sem que quem tais crimes cometer pague dez morabitinos, metade para vossa majestade e metade para o queixoso. E quem assaltar a casa alheia, que pague sessenta soldos, metade para vós e metade para o queixoso. Quem ferir outrem com lança, espada ou faca, proponho cinco morabitinos, metade para vossa majestade e metade para o queixoso. Quem viver amancebado com mulher séria, um morabitino. E para quem ferir ou espancar outra pessoa, dez varadas se afiguram apropriadas. Sábio será também que quem brigar com armas e, tendo ido a tribunal, não se emendar ao fim de três vezes, tenha a casa derrubada. Mais: proponho que no foro de Sintra crieis seis juízes no julgamento de homicídios, e três nos outros.

D. Afonso, agasalhado com uma pele, dado o frio de Janeiro, a tudo anuiu com a cabeça, Sintra, sentinela do Tejo, carecia de bons cavaleiros, leais e recompensados:

-Honrados sejais, nobres cavaleiros, um conselho vos dou: quem se servir de armas sem razão dentro da vila, há-de perdê-las; mas se questões houver entre vós, não se julgue o pleito pelo foro de Sintra no que respeita ao elmo e à loriga, mas apenas quanto ao escudo e à clava. E não entre lá homem de outra terra: tal o recado que mande, tal lho mandem a ele, igual por igual; e seja a sua caução ou fiança de um soldo, se houver junta ou destrinça.

A Gonçalves de Sousa, senhor de Lamego, chamou a atenção o enorme número de mouros forros trabalhando nas várzeas, também aí convinha chegar a mão real:

-Curial será, senhor, que os peões que lavrem com um só boi paguem um sexto de trigo e cevada, e se lavrarem com dois ou mais, entreguem um quarto, entre trigo e cevada, por alqueire do mercado. E justo será também que se pague um puçal de vinho a tirar de cinco quinais. O rei, pouco dada a questões de lavoura, mandou Mestre Alberto escrever:

-Que se lavre como ordem real: quem lavrar com bois, não pague tributo por qualquer ganho. Caçador que apanhar cervo ou caça do género com laço ou armadilha, que entregue meio lombo, e se for porco, uma costa. O batedor de coelhos, que entregue uma vez por ano três coelhos e suas peles. Ao colhedor de mel selvagem, que entregue uma vez por ano meio alqueire do que tiver colhido. Pague por ano o sapateiro um soldo, o ferreiro ferre um cavalo, mercadores e peleiros, paguem um soldo cada! Mestre Alberto sorriu, Afonso aprendia a ser rei, menos dado a correr atrás dos mouros, forte na justiça e a pensar no recheio dos cofres.

Peres Ramires, dos de Sintra, chamou a atenção sobre os limites das terras sob alçada régia. Pelágio Zapata, que já estudara o termo, avançou com uma proposta: desde Almosquer, pela vertente e outeiros, servindo de limite um caminho público em Cabriz, até ao monte, e dessa vertente pelos outeiros ao limite de Cheleiros, seguindo daí até ao rio de Galamares. Aos cavaleiros de Sintra, aquartelados no Arrabalde, agradou, assim ficaria. A D.Afonso importava o concurso dos homens de armas, os cavaleiros deveriam combater uma vez por ano no exército, e estar disponíveis para pelejar.

Respeitosos, ajoelharam. O Conquistador lavrada a carta, apôs o selo real, bem como a rainha, na presença dos confirmantes: Pedro Pelágio, príncipe de Lisboa, Afonso Mendes, de Coimbra, e Rodrigues Pelágio, de Santarém. Era o dia 9 de Janeiro de 1192 da era de César. (* 1154 da era de Cristo).

Retirando para os aposentos, molestado por dores, sequela de pelejas antigas, D. Afonso saudou os trinta, um a um, e mandou-os em paz. Os mais próximos repararam que coxeava duma perna. Virando-se para Peres Ramires, esboçou umas palavras finais:

-Lavrada fica a palavra do rei. E se alguém desfizer este contrato, com Satanás seja excomungado!

No dia seguinte, e na posse do precioso foral, os trinta de Sintra volveram ao Arrabalde, como sempre envolto em neblina, e agora terra d'el-rei. Logo mais, irmãos templários se juntariam no termo, desde o cabeço da serra e estendendo-se até ao mar, uma nova ordem nascia e em harmonia. Por muitos anos, cristãos, marranos e mouros, haveriam de ver crescer as hortas e, destros, caçar gamos na serra.

domingo, 5 de janeiro de 2014

O Jornal de Sintra e as causas públicas


Foi a 7 de Janeiro de 1934 que saiu o primeiro número do Jornal de Sintra, tendo António Medina Júnior como director e Mário Reis como chefe de redacção, para ficar até hoje, no maior caso de longevidade da imprensa local, atravessando regimes políticos e diversas épocas da história sintrense. Num tempo em que a imprensa escrita era quase em exclusivo o meio para a difusão das grandes causas públicas, muitas vezes de forma incendiada, coube ao Jornal de Sintra logo nesse seu primeiro ano um papel fulcral na defesa do património público e dos direitos das populações: a luta contra as restrições ao acesso aos jardins de Seteais.
Efectivamente, a 3 de Fevereiro desse ano  o Conde de Sucena apresentara à câmara a remissão do foro e o pedido de ajardinamento do campo de Seteais, aforado desde 1801 mas de pública fruição no que aos espaços exteriores respeitava. A ideia era "privatizar" os jardins, usados como caminho público e até campo de treinos do Exército, e dotá-lo de uma cerca, que, na prática, constituiria um aproveitamento exclusivo por parte do conde daquilo que desde sempre a todos pertencia. O tema causou indignação  nessa época, tendo o Jornal de Sintra pela pena de José Alfredo da Costa Azevedo, na altura um jovem colaborador assinando artigos com o pseudónimo de Zé da Vila, inflamado a opinião, em crónicas e versos dedicados ao tema e apelando mesmo a que tocasse a rebate o sino da Torre da Vila caso os propósitos de Sucena fossem por diante.Após muita pressão da população e da imprensa, o conde de Sucena acabou por desistirdo projecto de ajardinar Seteais a 5 de Abril seguinte, acabando por respeitar a carta de aforamento concedida ao Marquês de Marialva em 1801, numa clara vitória popular em que o Jornal de Sintra tomou uma posição em prol das grandes causas, reflectindo o sentir das populações.
É desse tipo de imprensa em favor das causas cidadãs que Sintra hoje continua a necessitar, não obstante a crise da imprensa escrita e a concorrência do audiovisual e das novas tecnologias. Durante anos foram meios de comunicação como o Jornal de Sintra quem promoveu homenagens a vultos ilustres, peditórios e festas de solidariedade para com os necessitados ou obras de beneficência, ajudou a esculpir na pedra homenagens a vultos locais como Gregório de Almeida ou Desidério Cambournac, em tudo isso tendo papel central António Medina Júnior, o figueirense de Tavarede que de Sintra foi filho adoptivo. Foi também nas páginas do Jornal de Sintra que, já reformado da política, o grande José Alfredo escreveu as crónicas mais impressivas da nossa história local, através dos seus artigos semanais nos finais dos anos setenta, e hoje recolhidas em livros e fonte de investigação essencial para descobrir a Sintra do século XX. 
Os tempos são hoje de apreensão pelo futuro do jornal e da imprensa em geral. Agora que perfaz 80 anos, há que  realçar o papel inestimável do Jornal de Sintra, levando semanalmente a todos os sintrenses as histórias do nosso pequeno mundo, num desfiar de imagens a sépia que a todos deve orgulhar,  por ter sempre colocado a causa pública em primeiro lugar e o dever de informar acima de tudo, e atento o facto de grande parte da sua história ter decorrido numa época em que a censura e o visto prévio coarctavam direitos e a nossa vida colectiva.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Cavadelas e Minhocas



Ia um reboliço na Praia das Maçãs, a retroescavadora tirava terras para as fundações quando chocou em algo compacto perto do tholos romano. Obtida a licença para a moradia, depois de três anos no Parque Natural, finalmente o Alves arrancava com a obra, mas ao segundo dia a máquina deparava-se com um obstáculo. Destapada a terra com enxadas, ficaram à vista três colunas de pedra com inscrições nos pedestais, atraindo o pessoal da praia.

As colunas tinham gravado figuras de mulher com uma túnica, de braços abertos para o céu e um halo com ramificações em cima, como se fosse um sol ou uma medusa, arte romana, pareceu ao João Rodrigues, um estudante de História que passou na altura. O Alves, pensativo, anteviu chatices, se aparecesse alguém da Câmara por certo pararia a obra, por causa dos achados, bem vira o que aconteceu em Almornos com a casa da filha, três anos parada por causa de uma lápide que o lunático do arqueólogo considerou valiosa, para ele boa para uma mesa na churrasqueira, isso sim. Continuando a escavar, mais colunas surgiram, coisa antiga, alvitrou o Alberto do Búzio, palitando os dentes. Logo mais artefactos, ânforas, a cada cavadela, uma minhoca. Preocupado, o Alves achou por bem guardar os achados antes que a notícia se espalhasse, e fez correr que ia levar tudo para o museu, para estudo, desviou os populares para uma rodada no Loureiro e mandou o Crispim e o Zé Luís, longe dos mirones, carregar as malditas pedras para uma carrinha. Meia hora e três imperiais depois, o tema de conversa era já o Benfica, o Rio Ave ia levar cinco secos, prometia o Alves, despachando os tremoços.

No local, com as máquinas paradas e o buraco escavado, passou entretanto a GNR, zelosa a perguntar pela licença. Faltava a placa com a identificação da obra, dizia um guarda com cara de reprovação, se não fosse afixada seriam quinhentos euros. O Crispim acatou, com o patrão no bar e as colunas na carrinha, tapadas com uma lona. Ah, e o capacete, sempre na cabeça, frisou o agente, antes de seguir para as Azenhas.

Retornado à obra, com os outros já dispersados, o Alves continuou a escavação, aparentemente sem mais sobressaltos, havia que dar fogo à peça, executar as sapatas e betonar rapidamente, as colunas diligentemente foram enviadas para um vazadouro, na Amora, onde seriam enterradas e cobertas de entulho. Como podia alguém dar importância a tralha daquela, ainda pensou o Alves, com ar de reprovação.

No dia seguinte, radioso, as máquinas avançavam, o Alberto do Búzio, passando a apanhar sol sondou o Alves:

-Então António, chegaste a saber o que eram aquelas pedras? Se calhar pertenciam àquela coisa do tôlo ou tólo, como chamam ao matagal acolá, os gajos lá de Odrinhas andam sempre à procura de lixo desse, ainda se viessem comer um robalo ao meu restaurante... - e partiu na direção do Barmácia, ganhara uma aposta ao Luís, com o resultado do Porto, e ia cobrar o seu tinto, que de manhã é que se começa o dia.

Pelo sim pelo não o Alves mandou colocar uma vedação à volta da obra, se aparecesse mais alguma coisa ninguém chegaria a aperceber-se, arriscava três anos com o processo parado num qualquer gabinete, o banco e os juros não iriam esperar, a ver se alguém já se governara com o tal tholos.

Entrementes, no museu de Odrinhas, Maria João, mestranda de Arqueologia, debruçava-se sobre uns manuscritos de Félix Alves Pereira, há meses que analisava estudos seus dedicados à presença romana na Praia das Maçãs, aventara-se mesmo a existência de um templo no alto da Vigia. O director do museu, Cardim Ribeiro também tinha obra sobre o assunto, Maria João cruzava documentos e ia juntando o puzzle. Nessa tarde, em grande excitação, entrou no gabinete do doutor Cardim, que trincava uma maçã reineta, e comunicou-lhe a descoberta:

-Professor, ou me engano muito, ou a localização do templo do sol não é bem na Vigia, como vaticinou o Francisco de Holanda, mas do lado oposto, junto ao atual mercado, veja aqui, os pontos cardeais estão mal assinalados! -e mostrou-lhe um papel vegetal onde desenhara localizações a partir dos estudos de Alves Pereira. Cardim poisou a maçã, leu o papel e ficou de olhos arregalados, finalmente podiam estar à beira de descobrir o lendário templo da Praia das Maçãs, o tholos era a ponta do icebergue.

-Veja professor, o Francisco de Holanda dizia que o templo seria um recinto circular implantado sobre uma plataforma de terra, sobre a qual se distribuíam 16 aras prismáticas organizadas em espaços regulares e com um disco solar raiado ao centro -continuou a investigadora - Porém, não é de excluir a hipótese de o desenho ser apenas aproximativo: as aras poderiam ser simples bases de uma colunata ou de estátuas, e em número de doze, o que permitiria supor o carácter astrológico do santuário. E repare, diz-se que era junto ao mar, mas o mar nessa altura chegava ao local onde hoje fica o tholos, o assoreamento pode explicar que esteja hoje onde está, aconteceu o mesmo à Torre de Belém!

-Maria João, os meus parabéns, creia-me, esta descoberta vai ser mais importante que os fósseis de Foz Côa! –gritou o professor Cardim, parecendo uma criança e o casaco já no braço a caminho da Praia das Maçãs.

Nos Foros da Amora, entre carroçarias podres e terras do túnel da Arrábida, as colunas do Alves descansam incógnitas por mais alguns anos, quando talvez voltem a ser descobertas e, quem sabe, lançadas ao mar, para não prejudicar alguma nova construção. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Assim foi 2013


2013 chegou ao fim

Foi ano para esquecer

Por isso caros amigos

Toca a comer e beber

Foi ano de austeridade

De cortes, e muito azar

Ao menos uma alegria

Vimo-nos livres do Gaspar

Do Portas está tudo dito

Personagem detestável

Será que nunca mais há

Uma demissão irrevogável?

De Belém, vem-nos a múmia

De S. Bento saem garras

Vão todos é para as Selvagens

Tentar anilhar cagarras

No mundo algo mudou

Continua grande o risco

Partiu o Nelson Mandela

Chegou o Papa Francisco

Cá por Sintra houve mudanças

Para sair da cepa torta

A Câmara continua campestre

Saiu Seara e entrou Horta

Em Galamares esteve-se bem

Tudo em paz, longe da guerra

Pra já bebeu-se e muito

Para os lados do Ares da Serra

A todos venho desejar

Saúde, paz e alegria

Que escorra com ligeireza

A cerveja ou a sangria

2014 será bom

Se todos fizermos por isso

Há que correr com o Coelho

E à troika dar sumiço

A todos bom ano novo

Que nada corra de mal

E se aparecerem problemas

Há amigos no Constitucional