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sábado, 18 de janeiro de 2014

Trinta anos sem Ary



“As portas que Abril abriu ninguém as há-de fechar!"- gritou numa madrugada de Abril José Carlos Ary dos Santos, o bardo da Hora da Liberdade, quando o futuro era possível e os amanhãs sorriam. Como vão longe esses dias em que a Esperança foi profecia sonhada a caminho dum mundo novo de irmãos, unidos na luta pela justiça e por um país para todos. Os anos passaram, o país está de novo enfezado, triste e sem esperança, e sem Arys que cantem com raiva redobrada que há portas para voltar a abrir.
Longe vai o tempo em que juntos gritámos, de sangue na guelra, pelas causas generosas, razoavelmente exigindo os impossíveis, pois só salvando o mundo nos poderíamos salvar. Salvou-se a memória, o orgulho de ter tentado e a certeza de nunca ter desistido. Atrás de tempo, tempo vem, trinta anos sem Ary, e hoje, como ontem, o tempo ainda é feito de mudança.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Olga, Marquesa de Cadaval, na memória e na tela



Hoje, 17 de Janeiro, dia do aniversário natalício da Marquesa de Cadaval, será apresentado um documentário biográfico sobre a sua figura, com cerca de uma hora de duração, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. Entrada livre, bastando contactar o Centro, através do 219107110.



Sobre a obra, escreve João de Oliveira Cachado, um dos  seus co-autores:

Acerca da sua génese poderei confirmar que as mais remotas primícias remontam ao ano de 2006, tendo-se concretizado à medida que as circunstâncias o permitiram, de acordo com um cronograma de tal modo flexível que as balizas dos prazos se atenuaram, provavelmente, além do máximo desejável.

De qualquer modo e sem equívocos, cumpre esclarecer jamais ter estado em causa a conclusão do trabalho e sua apresentação, sempre de acordo com a matriz programática inicial. Naturalmente, também neste caso, as proverbiais dificuldades de financiamento condicionaram decisivamente o ritmo da produção e, em simultâneo, contribuíram para o prolongamento no tempo do projecto que, só agora, é possível partilhar.

Quanto aos implícitos constrangimentos, a título de exemplo, refira-se a dificuldade de deslocações ao estrangeiro da equipa de realização, que, apesar da imprescindibilidade da recolha de testemunhos de personalidades cuja biografia, de algum modo, se tivesse cruzado com a da Senhora Marquesa e, em especial, daquelas que teriam beneficiado do seu mecenato, sempre se traduziriam em custos significativos.

Na maior parte das circunstâncias, tais impedimentos foram contornados, muito simplesmente, aguardando-se a passagem por Lisboa de alguns dos intervenientes no documentário, invariavelmente, para concertos ou recitais no auditório da Fundação Gulbenkian ou por ocasião das sucessivas edições do Festival de Sintra para, então, se proceder à gravação das imagens.

Além de João de Oliveira Cachado, participa como co-autor João Pereira Bastos, Mário João Machado e Vítor Beja na produção, e João Santa-Clara como realizador. E continua João Cachado:

“Da admiração e paixão iniciais, evoluímos para a comum assunção da condição de intermediários de uma permanente homenagem que julgamos ser devida à memória de quem, a um tempo, é tão notável figura da cultura portuguesa como da europeia. Apenas delineámos alguns traços da sua biografia, limitando-nos a facilitar a intervenção esclarecedora de personalidades interessantíssimas, algumas já nossas conhecidas, mas absolutamente indispensáveis, cujo contacto também tanto nos beneficiou e enriqueceu

Vasta é a galeria dos entrevistados, desde os netos Schönborn, Filipe, Maria e Teresa, a todos quantos tendo sido seus amigos, vão aparecendo em diferentes enquadramentos. São eles alguns notáveis das Artes e das Letras, como Maria Germana Tânger, Nella Maissa ou Maria Barroso Soares e João Paes, o ex- Presidente da República Jorge Sampaio e outros próximos como Luís Santos Ferro ou Luís Pereira Leal e artistas da maior notoriedade no campo da música, a nível mundial, a exemplo de Daniel Barenboim, Nelson Freire ou Stephan Bishop-Kovacevitch.
Noutra plataforma, decorrente do âmbito institucional inerente às funções que desempenhavam, também marcam presença os anteriores Presidentes da Câmara Municipal de Sintra, Edite Estrela e Fernando Seara que, em diferentes circunstâncias, tão bem souberam honrar a memória da Senhora Marquesa.

Episódios há, registados neste filme com novos elementos – por exemplo, como o da vinda a Lisboa da diva Maria Callas ou o do solidário apoio ao grande compositor português Fernando Lopes Graça, este emotivamente partilhado por Olga Prats,– que agora podem perdurar na plenitude da sua singularidade, como momentos tão significativos, embora distintos, da intervenção mecenática de Dona Olga Cadaval.

Importa referir que a conclusão deste documentário biográfico não teria sido possível sem as decisivas intervenções da Rádio e Televisão de Portugal, RTP 2, que o adquiriu, assegurando os direitos de exibição pelo período de cinco anos, e da Câmara Municipal de Sintra, através do patrocínio financeiro, atitudes cujo recorte é justo salientar num momento em que tão importante como difícil se revela a aposta neste tipo de produto cultural.
À antestreia do filme seguir-se-á no dia 18 a sua emissão pelas 21horas, no segundo canal da RTP, e igualmente está prevista a disponibilização em suporte DVD, incluindo uma edição destinada ao trabalho nas escolas, com recurso a um guião de exploração pedagógica já em adiantada fase de elaboração.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ninguém lembrou Brandão de Vasconcelos


 

Passou ontem, 14 de Janeiro, o 80º aniversário da morte do médico, agricultor, e dirigente associativo António Brandão de Vasconcelos, nascido na Beira em 1866 e tragicamente falecido em Colares nessa data, no ano de 1934.Fundador da Adega Regional e do Sindicato Agrícola, grande benemérito e filantropo local, o seu funeral foi na altura acompanhado por milhares de pessoas a pé até Colares, donde partiu um extenso cortejo automóvel em direcção ao cemitério dos Prazeres, em Lisboa, num dos eventos mais participados nessa época e a que a imprensa local deu ampla divulgação. Deputado à Assembleia Constituinte de 1911 e posteriormente senador, amigo dos desfavorecidos e promotor de melhoramentos, renunciou ao mandato em finais de 1915, num comunicação onde deixou transparecer a desilusão com os políticos e a falta de respeito que estes (já então!) tinham pela Constituição. E escreveu, premonitório: Há muito que tenho a opinião de que a monarquia caíra muito pelos seus erros, mas também por falta de respeito por conveniências sociais. Infelizmente republicano antigo e como tal continuando a ser, vejo o mal não só deste ou daquele partido, deste ou daquele regime, é orgânico, é nacional.

Depois do seu falecimento, muitos anos durou a saga do seu testamento, através do qual procurou contribuir para o desenvolvimento da lavoura local pela criação de uma escola agrícola. Nunca tal logrou ver a luz do dia, nos últimos 70 anos. Salve-se porém o facto de recentemente enfim o espaço que dedicou a tal objectivo se ter transformado num local vivo e com finalidade pedagógica, aí funcionando a Escola Profissional Alda Brandão de Vasconcelos.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A Europa semântica


O dito memorando de entendimento é mais sagrado que a Bíblia e pura e simplesmente adaptado consoante as conveniências, assim deixando claro que não estamos perante um acordo e muito menos um “entendimento” mas tão só perante um diktat, como o que se impõe aos vencidos depois de findas as guerras.

Efectivamente, como entender um documento que é imposto por cinzentos funcionários internacionais, sem aprovação pelo Parlamento nacional ou verificação da sua constitucionalidade, quando qualquer outro texto de menor relevância tem de passar por esse crivo, como aliás é de Direito na esteira das mais elementares regras democráticas?

O memorando da troika enfileira com alguns dos documentos mais ignóbeis da História de Portugal, como a Convenção de Sintra ou o Ultimato inglês, ambos aceites sem que se lhes pudesse opor resistência, e em todos os casos sem que o povo português tivesse uma palavra a dizer.

Saiu recentemente um relatório do The Economist sobre a democracia no mundo, onde Portugal é colocado no 26º lugar, perdendo um lugar desde o ano passado, e muito atrás de países como a Dinamarca, Holanda ou Suiça. Porquê? Porque mais que semanticamente garantir o direito à representação democrática e liberdade de expressão, nesses países a representação não se esgota nos partidos e nos parlamentos, e nenhuma medida que altere o quadro das relações normais de governação ocorre sem que o povo, em referendo, seja chamado a pronunciar-se, o que entre nos não ocorre, ufanamente se reclamando que estando eleitos os representantes silogisticamente representada e bem está a vontade popular.

Assim não é, e assim não chega. Todo o processo da integração (e desagregação) europeia de Portugal está desde o início eivado de lacunas: nunca o povo foi chamado a pronunciar-se, a não ser em desinteressantes eleições para um deslavado Parlamento Europeu. Não o foi em 1985, na adesão, nem quando em Maastricht se decidiu a moeda única, nem quando se adaptou o cínico Tratado de Lisboa. A Europa dos cidadãos é a Europa dos eurocratas títeres do eixo franco-alemão (hoje quase só alemão) e às suas mãos soçobrará.

Portugal não escolheu a Europa, não escolheu a troika, não escolheu empobrecer. Onde estão os limites da representação formal? Condenar um país a empobrecer não deveria ser proibido pela Constituição também? Onde estão os Jorge Miranda e os Vital Moreira agora, que a Lei Fundamental apenas serve para teste a alunos de Direito Constitucional?

A Europa semântica caminha para o estertor. O projecto de Schuman e Monet que num esperançoso dia no pós-guerra nasceu em Roma ameaça terminar em Berlim, quando à terceira vez finalmente a Alemanha vencer a guerra.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Transportes em Sintra (ou falta deles)



Dentro da cacofonia urbana da Cidade Dual que é Sintra, separada pelo ainda corredor verde de Chão de Meninos, uma chamada de atenção para algumas questões prementes e por demais adiadas. Por um lado, realçar a quase impossibilidade de deslocação das pessoas sem carro a partir das 22 horas na zona da Estefânea e Centro Histórico. Não só porque os autocarros da Scotturb deixam de circular, como por o serviço de táxis ser cada vez mais raro e demorado. Quem viva nas chamadas zonas rurais e não disponha de transporte individual, é com dificuldade que pode programar sem ajuda de amigos ou terceiros uma ida ao cinema ou jantar fora, ou até frequentar um curso nocturno ou trabalho por turnos, pois arrisca-se a ficar horas ligando para a Central de táxis ou (des)esperando num ponto de táxi. Não deveria ser obrigatória uma escala de serviços mínimos? E porque não criar a figura de responsável de praça que, sem interferir na actividade económica dos colegas, supervisionasse as escalas de serviço ou fiscalizasse, por exemplo, os taxistas de outras praças que ilegitimamente recolhem clientes em coroas para as quais não estão licenciados?.


O serviço de autocarros é igualmente complicado, sendo que pelo menos até às 24h deveria estar garantido o transporte de passageiros. E com a perspectiva economicista que se está a colocar na gestão dos transportes não será difícil prever que muitas carreiras sem rentabilidade venham mesmo a ser suprimidas no futuro.


A associar a isto, acresce para quem tem veículo ou nos visita as complicações com o estacionamento e a “moda” do bloqueio de veículos. Mesmo quem tem carro fica desincentivado de vir até Sintra, tais são os incómodos, não podendo pois reclamar-se da falta de dinamismo da Vila e do Centro Histórico quando tudo desincentiva a vinda de pessoas, seja por transporte ou automobilizados. Para quem queira ver as peças de teatro da Regaleira, como assegurar o regresso a casa quando o último transporte terá já acabado no momento de terminar a peça e os táxis rareiam, muito também por medo de circular à noite, decorrente dos múltiplos assaltos? Quem tem carro, está sujeito a multas, quem não tem está sujeito a ficar sem opção. Assim, bem se pode “vender” Sintra como capital do romantismo que a pouca atractividade decorrente da falta de transportes ou estacionamentos tudo deitará por terra.


Depois, um enfoque na premência da reabilitação urbana. Decorrente de legislação recente, os proprietários de casas ou prédios com mais de 30 anos ou que estejam integrados numa área de reabilitação urbana podem avançar com obras através de uma comunicação prévia junto da câmara municipal, que tem 15 dias para rejeitar o pedido. Apesar das boas intenções, tal esbarra na descapitalização da grande maioria dos senhorios e proprietários, correndo o risco de ficar pelas boas intenções, se não for associado a um programa de financiamento concreto. Como reabilitar quando os inquilinos não saem para permitir as obras ou não têm dinheiro para as novas rendas depois do realojamento, se vier a ocorrer? Quem empresta o dinheiro para reabilitar e a que juro? Que benefício a nível fiscal terá quem vier a reabilitar? E se os fiscais municipais ou os técnicos, face a uma obra para a qual tenham dúvidas, vierem a embargar por alegada necessidade de licenciamento?


Muito há que fazer para construir Cidade e a tirar do quase rigor mortis em que infelizmente se encontra. Tenhamos esperança.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Foral de Sintra, 860 anos

Passam hoje, 9 de Janeiro, 860 anos da outorga por D.Afonso Henriques a 30 cavaleiros de Sintra do seu primeiro foral. Aqui uma leitura ficcionada do mesmo, e das suas disposições, essas sim, fidedignas:


Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amen. Aprouve-me, a mim Afonso, Rei dos Portugueses, filho do Conde Henrique e da Rainha Teresa e neto do Rei Afonso, e a minha mulher, Rainha Mafalda, filha do Conde Amadeu, dar-vos, a vós que habitais em Sintra, da classe superior ou da inferior, e de qualquer ordem que sejais, e a vossos filhos e descendentes, carta irrevogável, de direito, estabilidade e serviço.”. Assim começou Mestre Alberto, tabelião régio, a carta com que Afonso Henriques outorgava foral a Sintra. Deixados alguns cavaleiros no castelo donde os mouros haviam debandado, vinha agora uma delegação da vila prestar obediência e saber que ordenava el-rei para a antiga praça moura. À audiência assistiram Pelagio Zapata, Gonçalves de Sousa, Pedro Fernandes e o arcediago de Lisboa, Sancho Moniz Egas. Por sua vontade lhes dava trinta casais, um para cada família, por direito hereditário e sem tributo a Lisboa, também a habitual parte em seara ficaria dispensada. Pelagio Zapata, mestre em leis, aconselhou sobre a melhor forma de aplicação da justiça:

-Senhor, acertado será que para quem vossas leis não acate, tenha a justiça pesada mão: não passe homicídio ou violação de mulher sem que quem tais crimes cometer pague dez morabitinos, metade para vossa majestade e metade para o queixoso. E quem assaltar a casa alheia, que pague sessenta soldos, metade para vós e metade para o queixoso. Quem ferir outrem com lança, espada ou faca, proponho cinco morabitinos, metade para vossa majestade e metade para o queixoso. Quem viver amancebado com mulher séria, um morabitino. E para quem ferir ou espancar outra pessoa, dez varadas se afiguram apropriadas. Sábio será também que quem brigar com armas e, tendo ido a tribunal, não se emendar ao fim de três vezes, tenha a casa derrubada. Mais: proponho que no foro de Sintra crieis seis juízes no julgamento de homicídios, e três nos outros.

D. Afonso, agasalhado com uma pele, dado o frio de Janeiro, a tudo anuiu com a cabeça, Sintra, sentinela do Tejo, carecia de bons cavaleiros, leais e recompensados:

-Honrados sejais, nobres cavaleiros, um conselho vos dou: quem se servir de armas sem razão dentro da vila, há-de perdê-las; mas se questões houver entre vós, não se julgue o pleito pelo foro de Sintra no que respeita ao elmo e à loriga, mas apenas quanto ao escudo e à clava. E não entre lá homem de outra terra: tal o recado que mande, tal lho mandem a ele, igual por igual; e seja a sua caução ou fiança de um soldo, se houver junta ou destrinça.

A Gonçalves de Sousa, senhor de Lamego, chamou a atenção o enorme número de mouros forros trabalhando nas várzeas, também aí convinha chegar a mão real:

-Curial será, senhor, que os peões que lavrem com um só boi paguem um sexto de trigo e cevada, e se lavrarem com dois ou mais, entreguem um quarto, entre trigo e cevada, por alqueire do mercado. E justo será também que se pague um puçal de vinho a tirar de cinco quinais. O rei, pouco dada a questões de lavoura, mandou Mestre Alberto escrever:

-Que se lavre como ordem real: quem lavrar com bois, não pague tributo por qualquer ganho. Caçador que apanhar cervo ou caça do género com laço ou armadilha, que entregue meio lombo, e se for porco, uma costa. O batedor de coelhos, que entregue uma vez por ano três coelhos e suas peles. Ao colhedor de mel selvagem, que entregue uma vez por ano meio alqueire do que tiver colhido. Pague por ano o sapateiro um soldo, o ferreiro ferre um cavalo, mercadores e peleiros, paguem um soldo cada! Mestre Alberto sorriu, Afonso aprendia a ser rei, menos dado a correr atrás dos mouros, forte na justiça e a pensar no recheio dos cofres.

Peres Ramires, dos de Sintra, chamou a atenção sobre os limites das terras sob alçada régia. Pelágio Zapata, que já estudara o termo, avançou com uma proposta: desde Almosquer, pela vertente e outeiros, servindo de limite um caminho público em Cabriz, até ao monte, e dessa vertente pelos outeiros ao limite de Cheleiros, seguindo daí até ao rio de Galamares. Aos cavaleiros de Sintra, aquartelados no Arrabalde, agradou, assim ficaria. A D.Afonso importava o concurso dos homens de armas, os cavaleiros deveriam combater uma vez por ano no exército, e estar disponíveis para pelejar.

Respeitosos, ajoelharam. O Conquistador lavrada a carta, apôs o selo real, bem como a rainha, na presença dos confirmantes: Pedro Pelágio, príncipe de Lisboa, Afonso Mendes, de Coimbra, e Rodrigues Pelágio, de Santarém. Era o dia 9 de Janeiro de 1192 da era de César. (* 1154 da era de Cristo).

Retirando para os aposentos, molestado por dores, sequela de pelejas antigas, D. Afonso saudou os trinta, um a um, e mandou-os em paz. Os mais próximos repararam que coxeava duma perna. Virando-se para Peres Ramires, esboçou umas palavras finais:

-Lavrada fica a palavra do rei. E se alguém desfizer este contrato, com Satanás seja excomungado!

No dia seguinte, e na posse do precioso foral, os trinta de Sintra volveram ao Arrabalde, como sempre envolto em neblina, e agora terra d'el-rei. Logo mais, irmãos templários se juntariam no termo, desde o cabeço da serra e estendendo-se até ao mar, uma nova ordem nascia e em harmonia. Por muitos anos, cristãos, marranos e mouros, haveriam de ver crescer as hortas e, destros, caçar gamos na serra.

domingo, 5 de janeiro de 2014

O Jornal de Sintra e as causas públicas


Foi a 7 de Janeiro de 1934 que saiu o primeiro número do Jornal de Sintra, tendo António Medina Júnior como director e Mário Reis como chefe de redacção, para ficar até hoje, no maior caso de longevidade da imprensa local, atravessando regimes políticos e diversas épocas da história sintrense. Num tempo em que a imprensa escrita era quase em exclusivo o meio para a difusão das grandes causas públicas, muitas vezes de forma incendiada, coube ao Jornal de Sintra logo nesse seu primeiro ano um papel fulcral na defesa do património público e dos direitos das populações: a luta contra as restrições ao acesso aos jardins de Seteais.
Efectivamente, a 3 de Fevereiro desse ano  o Conde de Sucena apresentara à câmara a remissão do foro e o pedido de ajardinamento do campo de Seteais, aforado desde 1801 mas de pública fruição no que aos espaços exteriores respeitava. A ideia era "privatizar" os jardins, usados como caminho público e até campo de treinos do Exército, e dotá-lo de uma cerca, que, na prática, constituiria um aproveitamento exclusivo por parte do conde daquilo que desde sempre a todos pertencia. O tema causou indignação  nessa época, tendo o Jornal de Sintra pela pena de José Alfredo da Costa Azevedo, na altura um jovem colaborador assinando artigos com o pseudónimo de Zé da Vila, inflamado a opinião, em crónicas e versos dedicados ao tema e apelando mesmo a que tocasse a rebate o sino da Torre da Vila caso os propósitos de Sucena fossem por diante.Após muita pressão da população e da imprensa, o conde de Sucena acabou por desistirdo projecto de ajardinar Seteais a 5 de Abril seguinte, acabando por respeitar a carta de aforamento concedida ao Marquês de Marialva em 1801, numa clara vitória popular em que o Jornal de Sintra tomou uma posição em prol das grandes causas, reflectindo o sentir das populações.
É desse tipo de imprensa em favor das causas cidadãs que Sintra hoje continua a necessitar, não obstante a crise da imprensa escrita e a concorrência do audiovisual e das novas tecnologias. Durante anos foram meios de comunicação como o Jornal de Sintra quem promoveu homenagens a vultos ilustres, peditórios e festas de solidariedade para com os necessitados ou obras de beneficência, ajudou a esculpir na pedra homenagens a vultos locais como Gregório de Almeida ou Desidério Cambournac, em tudo isso tendo papel central António Medina Júnior, o figueirense de Tavarede que de Sintra foi filho adoptivo. Foi também nas páginas do Jornal de Sintra que, já reformado da política, o grande José Alfredo escreveu as crónicas mais impressivas da nossa história local, através dos seus artigos semanais nos finais dos anos setenta, e hoje recolhidas em livros e fonte de investigação essencial para descobrir a Sintra do século XX. 
Os tempos são hoje de apreensão pelo futuro do jornal e da imprensa em geral. Agora que perfaz 80 anos, há que  realçar o papel inestimável do Jornal de Sintra, levando semanalmente a todos os sintrenses as histórias do nosso pequeno mundo, num desfiar de imagens a sépia que a todos deve orgulhar,  por ter sempre colocado a causa pública em primeiro lugar e o dever de informar acima de tudo, e atento o facto de grande parte da sua história ter decorrido numa época em que a censura e o visto prévio coarctavam direitos e a nossa vida colectiva.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Cavadelas e Minhocas



Ia um reboliço na Praia das Maçãs, a retroescavadora tirava terras para as fundações quando chocou em algo compacto perto do tholos romano. Obtida a licença para a moradia, depois de três anos no Parque Natural, finalmente o Alves arrancava com a obra, mas ao segundo dia a máquina deparava-se com um obstáculo. Destapada a terra com enxadas, ficaram à vista três colunas de pedra com inscrições nos pedestais, atraindo o pessoal da praia.

As colunas tinham gravado figuras de mulher com uma túnica, de braços abertos para o céu e um halo com ramificações em cima, como se fosse um sol ou uma medusa, arte romana, pareceu ao João Rodrigues, um estudante de História que passou na altura. O Alves, pensativo, anteviu chatices, se aparecesse alguém da Câmara por certo pararia a obra, por causa dos achados, bem vira o que aconteceu em Almornos com a casa da filha, três anos parada por causa de uma lápide que o lunático do arqueólogo considerou valiosa, para ele boa para uma mesa na churrasqueira, isso sim. Continuando a escavar, mais colunas surgiram, coisa antiga, alvitrou o Alberto do Búzio, palitando os dentes. Logo mais artefactos, ânforas, a cada cavadela, uma minhoca. Preocupado, o Alves achou por bem guardar os achados antes que a notícia se espalhasse, e fez correr que ia levar tudo para o museu, para estudo, desviou os populares para uma rodada no Loureiro e mandou o Crispim e o Zé Luís, longe dos mirones, carregar as malditas pedras para uma carrinha. Meia hora e três imperiais depois, o tema de conversa era já o Benfica, o Rio Ave ia levar cinco secos, prometia o Alves, despachando os tremoços.

No local, com as máquinas paradas e o buraco escavado, passou entretanto a GNR, zelosa a perguntar pela licença. Faltava a placa com a identificação da obra, dizia um guarda com cara de reprovação, se não fosse afixada seriam quinhentos euros. O Crispim acatou, com o patrão no bar e as colunas na carrinha, tapadas com uma lona. Ah, e o capacete, sempre na cabeça, frisou o agente, antes de seguir para as Azenhas.

Retornado à obra, com os outros já dispersados, o Alves continuou a escavação, aparentemente sem mais sobressaltos, havia que dar fogo à peça, executar as sapatas e betonar rapidamente, as colunas diligentemente foram enviadas para um vazadouro, na Amora, onde seriam enterradas e cobertas de entulho. Como podia alguém dar importância a tralha daquela, ainda pensou o Alves, com ar de reprovação.

No dia seguinte, radioso, as máquinas avançavam, o Alberto do Búzio, passando a apanhar sol sondou o Alves:

-Então António, chegaste a saber o que eram aquelas pedras? Se calhar pertenciam àquela coisa do tôlo ou tólo, como chamam ao matagal acolá, os gajos lá de Odrinhas andam sempre à procura de lixo desse, ainda se viessem comer um robalo ao meu restaurante... - e partiu na direção do Barmácia, ganhara uma aposta ao Luís, com o resultado do Porto, e ia cobrar o seu tinto, que de manhã é que se começa o dia.

Pelo sim pelo não o Alves mandou colocar uma vedação à volta da obra, se aparecesse mais alguma coisa ninguém chegaria a aperceber-se, arriscava três anos com o processo parado num qualquer gabinete, o banco e os juros não iriam esperar, a ver se alguém já se governara com o tal tholos.

Entrementes, no museu de Odrinhas, Maria João, mestranda de Arqueologia, debruçava-se sobre uns manuscritos de Félix Alves Pereira, há meses que analisava estudos seus dedicados à presença romana na Praia das Maçãs, aventara-se mesmo a existência de um templo no alto da Vigia. O director do museu, Cardim Ribeiro também tinha obra sobre o assunto, Maria João cruzava documentos e ia juntando o puzzle. Nessa tarde, em grande excitação, entrou no gabinete do doutor Cardim, que trincava uma maçã reineta, e comunicou-lhe a descoberta:

-Professor, ou me engano muito, ou a localização do templo do sol não é bem na Vigia, como vaticinou o Francisco de Holanda, mas do lado oposto, junto ao atual mercado, veja aqui, os pontos cardeais estão mal assinalados! -e mostrou-lhe um papel vegetal onde desenhara localizações a partir dos estudos de Alves Pereira. Cardim poisou a maçã, leu o papel e ficou de olhos arregalados, finalmente podiam estar à beira de descobrir o lendário templo da Praia das Maçãs, o tholos era a ponta do icebergue.

-Veja professor, o Francisco de Holanda dizia que o templo seria um recinto circular implantado sobre uma plataforma de terra, sobre a qual se distribuíam 16 aras prismáticas organizadas em espaços regulares e com um disco solar raiado ao centro -continuou a investigadora - Porém, não é de excluir a hipótese de o desenho ser apenas aproximativo: as aras poderiam ser simples bases de uma colunata ou de estátuas, e em número de doze, o que permitiria supor o carácter astrológico do santuário. E repare, diz-se que era junto ao mar, mas o mar nessa altura chegava ao local onde hoje fica o tholos, o assoreamento pode explicar que esteja hoje onde está, aconteceu o mesmo à Torre de Belém!

-Maria João, os meus parabéns, creia-me, esta descoberta vai ser mais importante que os fósseis de Foz Côa! –gritou o professor Cardim, parecendo uma criança e o casaco já no braço a caminho da Praia das Maçãs.

Nos Foros da Amora, entre carroçarias podres e terras do túnel da Arrábida, as colunas do Alves descansam incógnitas por mais alguns anos, quando talvez voltem a ser descobertas e, quem sabe, lançadas ao mar, para não prejudicar alguma nova construção.