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sábado, 24 de agosto de 2013

Nafarros, um case study

O pequeno lugar de Nafarros na ainda freguesia de S.Martinho, está por estes dias em festa, e, a talhe de foice, sugere uma reflexão sobre os erros urbanísticos que em pleno Parque Natural ali se cometeram.
Atrás dum "apelativo" projecto de arquitectura bioclimática com financiamento europeu, em 1994 ali se aprovou uma urbanização de mais de 90 moradias num perímetro onde em condições normais se não deveriam ter autorizado mais de uma dúzia. O canto da sereia do financiamento europeu e da suposta inovação triplicou a população local , sendo ensaiada uma solução de suposto condomínio, assim trazendo a pacata Nafarros do pão quente altas horas da noite e do cabrito do afamado Saraiva para uma espécie de Cacém enxertado em meio rural. Tudo com o beneplácito municipal e do Parque Natural de Sintra-Cascais.
Não obstante o discurso ambientalista do Parque e as restrições que a outros com voz de comando foram impostas, e sem que tal se tivesse traduzido num "fazer Cidade", ali foi implantado um dormitório sem que o comércio local fosse beneficiado, ou as infraestruturas melhoradas, não obstante ter na altura sido previsto o reperfilamento e melhoramento da estrada Nafarros-Galamares e outras contrapartidas que nunca vieram a ocorrer. Bem intencionados, os adquirentes de casa na novel Cidade-Jardim, apadrinhada por um certo engodo com o "bioclimático" acabaram comprando uma série de problemas que os promotores nunca resolveram, acabando por se bandear para outros territórios e novas "aventuras".
Este é um case study do mau urbanismo e de como uma roupagem moderna acaba trazendo os problemas de sempre. Fábulas dos anos noventa.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Guilherme Leite, um saloio com coração



Conheço pessoalmente o Guilherme Leite há cerca de 4 anos, quando com João Rodil e outros se lançou no inovador projecto da Saloia TV , e, posteriormente por via do Sintra Canal, onde mantive uma rubrica de entrevistas culturais durante alguns meses. Sempre e sem o solicitar fez a cobertura dos eventos da Alagamares, à qual estou ligado, e jamais ofereceu apoio e colaboração esperando algo em troca. Com a bonomia que lhe é reconhecida, pôs o seu esforço e dedicação ao serviço de Sintra e da idiossincrasia própria dum segmento da sua população, cobrindo os eventos, dando notícias, realizando entrevistas, para tanto se servindo de um meio ainda incipiente, mas inovador: a Internet. Frustradas as expectativas que a TDT parecia anunciar como meio ao serviço de novos canais de televisão, continuou o Guilherme Leite a fazer o serviço público em Sintra, sem apoios e colocando inclusive a sua casa à disposição como estúdio improvisado( recordo a minha primeira entrevista à SALOIA TV em sua casa, em Odrinhas, na qual vagamente se ouvia um cão no quintal, a ladrar...).
O Guilherme Leite, homem dos "apanhados", não é pessoa de se deixar apanhar e prepara já para breve um novo fôlego para a sua (nossa) TV digital, e para tanto necessário se torna que a sociedade civil perceba que a comunicação e informação à distância dum clique reduz distâncias, aproxima emoções e torna-nos mais globais na nossa individualidade. E é caso para dizer: pode um concelho como Sintra dispensar o mérito e experiência dum Guilherme Leite aliado a uma vontade de criar a montra de todos nós, num portátil ou tablet perto de si?
Um abraço pois ao Guilherme, quando novidades estão prestes a despontar, e aos investidores e empresários, um recado: nõ percam o comboio do futuro.
 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Haverá sucessor à altura para Etienne de Groër?






Donat-Alfred Agache, Etienne de Gröer e Luigi Dodi foram alguns dos arquitectos que a convite de Duarte Pacheco trouxeram a Portugal nos anos 30 e 40 novos ideais urbanísticos, entre os quais se destaca o conceito da cidade-jardim, de Ebenezer Howard, em voga por toda a Europa de então.A aplicação prática desses conceitos e a sua adaptação a um contexto territorial especificamente português, constituiu um legado para gerações de urbanistas e arquitectos nacionais. Em 1938 a Câmara de Lisboa, com Duarte Pacheco, contratou o arquitecto–urbanista Étienne de Gröer a definir as grandes linhas de desenvolvimento da cidade.nEm finais dos anos 40, o mesmo arquitecto, de ascendência russa, elaborou o Plano de Urbanização de Sintra, aprovado em 11 de Novembro de 1949 e ainda hoje em vigor.
Gröer percebeu o que tinha em mãos: preservar o casco histórico e acautelar a expansão, mas, ao mesmo tempo reservar zonas para as necessárias actividades económicas, sem as quais se matam as cidades tornando-as obsoletas e amorfas. Foi sobre esse fio de navalha que Sintra viveu desde então, até aos anos 60 pelo menos, respeitando o legado de Gröer. A partir dessa altura, depressa os ventos do crescimento desordenado chegaram a Sintra, como o caos da Portela ou a cacofonia da Estefânea o atestam, e o que era um plano prospectivo, um manual de procedimentos e bíblia de consistência passou a ser usado de forma casuística, usado para indeferir quando as propostas não interessavam ou capciosamente esquecido quando algum mamarracho precisava de avançar. Onde esteve o Plano de Groer quando se construiu o Hotel Tivoli, ou o Departamento de Urbanismo na Portela (era para zona verde…) os caixotes dissonantes da Portela ou o “comboio” de armazéns em Ouressa?. Paradoxalmente, ao não se ter retocado o plano, sob a falácia de que isso subverteria o ordenamento do centro histórico, mais argumentos se foram dando a quem o considerava ultrapassado, panaceia de arquitectos antiquados ou esclerosados defensores do património. Vem aí um novo plano, há dois anos em estudo, o qual corre grandes riscos: ou nada mexer e assim assobiar para o lado num sector que deve ser particularmente acarinhado mas de forma positiva e pró-activa, ou alterar demais abrindo a brecha para o cavalo de Tróia do betão (do mau betão, sobretudo) sob a forma rebuscada e politicamente correcta de “mais valia para o turismo” ou da “modernização”. Etienne de Gröer, o franco-russo que um dia veio ordenar Lisboa, Cascais e Sintra, entre outras, viu mais além, passados sessenta anos merece um sucessor à altura. Tê-lo-á?
 

domingo, 18 de agosto de 2013

Carlos da Maia regressou a Sintra

Numa altura em que o Expresso edita diversas versões duma possível continuação de "Os Maias", de Eça de Queirós, aqui reedito uma versão minha de 2010, editada no meu anterior blogue Café com Adoçante.

Carlos da Maia e Cruges voltaram por estes dias a Sintra, não de break mas de comboio, fazia tempo que lá não iam. Ao sair da estação, na direção da Vila, logo os imundos logradouros do Larmanjat lhes surgiram à direita, após a estação, um rato, talvez turista, serpenteava entre entulho:

-Como isto mudou, Carlos- desabafou Cruges, abismado e  apossado dum sentimento de tristeza- No nosso tempo isto estava muito mais bem tratado…

-Houve alguma greve, por certo, amigo Carlos, isto a crise, meu caro, é o que se vê.... -amenizou o amigo, encolhendo os ombros e dando o benefício da dúvida.

Pedantibus calcantibus, seguiram para a Vila, já sem banhos termais, buscando o remanso do Hotel Nunes, mas surpresa das surpresas, no local, em vez de um estavam agora dois hotéis: um tal Tivoli, edifício em tudo igual aos prédios da Porcalhota por onde o comboio passara de manhã, e uma ruína com o nome Netto. Que  teria sucedido? Novo terramoto, e ninguém soubera em Lisboa? Pois que cenário dantesco, e que ruína, apetecível só para um dramalhão do Garrett ou ópera de  Wagner, fanático de tragédias sanguinárias. Perto do palácio, o Eusebiosinho, um pouco mais obeso, e o Palma Cavalão passeavam com duas espanholas:

-Pois por aqui, meus caros? -saudou com ar malandro Carlos da Maia. Os meus amigos estreitam laços ibéricos em Sintra?...- as espanholas, garridas, abanavam um colorida leque, agarrando os dois amigos que nem lapas.

-Meu caro, nem queira saber. Fomos à Regaleira, que é coisa nova,  daquele poltrão do Monteiro, o homem enriqueceu e deu-lhe para se armar em artista, está um espanto, mas estacionar o break, nem pensar! Parece dia daquele jogo que os ingleses disputam em ceroulas, o foot-ball.

-E las viviendas, por supuesto, tan preciosas pero tan molestadas -rematou a Lola, uma das espanholas, agarrando o braço do Palma Cavalão e sacudindo o leque, encalorada.

-É como lhe digo, Eusébio, isto mudou muito, mas há por aqui muita coisa a precisar de obras. Isto quer é um Fontes! -elevou a voz o Palma, beliscando o traseiro da Lola, salerosa.

Passada a cascata, nos Pisões, repleta de heras e musgos húmidos, surgiu-lhes Tomás de Alencar, o  poeta e velho amigo do pai de Carlos, que, agradado com o encontro, se juntou ao grupo num passeio a Seteais, bons momentos lá havia passado. Escondida pela Sobreira dos Fetos, a Quinta do Relógio do negreiro Monte Cristo estava  fechada e abandonada. Salteadores recentes por certo, opinava o Alencar, abismado.

-Parece que o administrador do concelho vai aforar isto. Será para algum hotel, com águas quentes e frias? -questionou o Cruges, sacando do monóculo para observar melhor.

-Olhe, cá pra mim eu abria aqui era um centro para apoio de artistas, era bom para si, Cruges, aqui à sombra da serra, com os seus botões... -alvitrou o Eusebiosinho, provocador.

-E  pedia apoio ao conde Paes do Amaral, ele vai mudar-se para cá em breve, sabia? Isto, os dinheiros do tabaco…Vai sair dali uma verdadeira mansão, olá se vai!

-Agora já não é do tabaco! Você não lê os jornais, ó Eusébio? Não ouviu falar do PSI-20? -atalhou Carlos da Maia.

Na verdade, ao chegarem a Seteais, Cruges sentiu-se triste com o que lhe foi dado ver. Apesar de rejuvenescido o palácio, no lado oposto, a partir de um pequeno anexo de jardim nascia qual míscaro gigante, um solar imponente, tumefacto entre os arbustos. Só ao Alencar, lunático, lhe deu para fazer um soneto a Sintra e sua exuberância, esquecendo o preocupante tumor.

Na impossibilidade duma burricada, por falta de asnos de quatro patas, decidiram-se a visitar o novo bairro da Estefânia e lá foram  os cinco, Carlos, com o pensamento em Maria Eduarda, optou por procurá-la na vila, fora esse, afinal, o motivo da sua ida a Sintra. Mal chegados à Estefânia, o cenário apresentou-se caquético: lojas de asiáticos vendendo traquitanas sem gosto, casas antes solarengas caindo arruinadas, lixo mal acondicionado transbordando de contentores e esvoaçando no empedrado, casas argentarias, agora designadas por bancos, por todo o lado. Enganavam-se, com certeza.

-Diga-me cá, amigo, nós queríamos ir ao bairro novo, um dedicado à saudosa rainha D. Estefânia, não era aqui…-atalhou o Cruges, abordando um saloio na rua.

-E onde pensa vomecê que está? É memo aqui! -ripostou rude o saloio, não queria lá ver o fidalgote.

-Pois…-desalentado, o Cruges abanou a cabeça. Bem suspeitava.

-Olhem, sabem que mais? Vamos é para Lisboa, que há uma peça nova no teatro da R. dos Condes! –rematou o Palma Cavalão, piscando o olho à Lola, e torcendo o bigode. E retornando à Vila, recolheram Carlos da Maia, que procurava romper com a bengala entre hordas de japoneses, e voltaram na linha de ferro à capital. Ao longe, a silhueta milenar dos Mouros continuava perene sentinela, sagrada, coisa do mundo de Deus. No mundo dos homens, muito mudara em Sintra, umas coisas  boas, outras novas, mas nem sempre as novas eram boas ou as boas eram novas.

-Isto quer é um Fontes! -ainda resmungou o Cruges, empunhando a bengala.

sábado, 17 de agosto de 2013

Em defesa do comércio tradicional de Sintra

 
Num momento em que há que revitalizar a economia no concelho de Sintra, há que repensar soluções que permitam ao comércio tradicional recuperar o papel que já teve como promotor de emprego e dinamizador económico. As lojas têm que desenvolver um conjunto de especificidades, que determinarão não apenas a sua sobrevivência, como também o seu sucesso em termos de futuro. Cada loja tem de dar a resposta específica à necessidade do cliente, isto é, deverá ser cada vez mais especializada por forma a que as pessoas "a priori" saibam onde se dirigir para comprarem os produtos pretendidos, dirigindo-se para públicos seleccionados, em função de localização, estacionamento, oferta e preço. 
Em Sintra, subsistem sobretudo as pastelarias, pela particularidade das queijadas e travesseiros, quanto ao mais, fenece e morre, destinando-se os espaços a bancos ou ao comércio dos chineses. As lojas deveriam virar-se para um conjunto de produtos que não se encontram nas médias ou grandes superfícies. Simpatia e profissionalismo são requisitos cada vez mais necessários para lograr a personalização no atendimento, que pode ser também um valor acrescentado, qualidade de outrora que se tem vindo a perder.
Há que recuperar esses bons modos, atraindo de novo a clientela. Alcançar uma nova imagem para o comércio tradicional, passa também por haver um maior esforço por vender produtos de qualidade e bem apresentados. Uma situação que nem sempre é devidamente conseguida. Quase sempre, se esquecem pormenores indispensáveis, como por exemplo, a decoração, uma montra adequada, exposição correcta, ou uma leveza (frescura) que permita ao cliente uma sensação de bem-estar. 
Vem isto a propósito de um exemplo de boas práticas recentemente surgido em pleno Centro Histórico: a mercearia Pé de Cereja, e o apelo que faz a uma dimensão familiar e de proximidade, e onde muitas das características acima elencadas confluem.
Para uma nova dinâmica comercial, é necessário ter em conta a liberalização de horários e a facilidade de estacionamento. Os horários eram correctos mas num passado recente. Hoje, começam a ter um carácter demasiado ortodoxo, num contexto de prestação de serviço. Há pois que diligenciar uma diversificação de horários, até para se articular com os momentos em que as famílias tem maior disponibilidade, permitindo que o pequeno comércio esteja aberto todos os dias até às 24 horas, sábados e domingos inclusive, se essa for a vontade dos seus promotores, e atentas condições de respeito por ruído e leis laborais, assim como também será mais interessante manter o comércio aberto na hora de almoço, permitindo que muitas pessoas possam fazer compras neste horário. E porque não passar a abrir às 10 horas da manhã - como na maioria dos casos nos grandes centros (haverá clientes às 9 horas, para certos produtos?) - e fechar, por exemplo, às  21  ou 22 horas?
As modificações a fazer passam também pelo reordenamento rodoviário na área envolvente do Centro Histórico, bem como numa adequada política de estacionamento. Para não morrer, os centros nevrálgicos de Sintra- Vila e Estefânea por um lado, e os diversos aglomerados urbanos, por outro- têm de funcionar como espaços de comércio e de serviços. Para tal, é necessário um ordenamento que permita a mobilidade das pessoas, criando zonas de lazer na área mais comercial com programas de rua e de eventos permanentes. O actual estado de degradação causa uma péssima aparência. Criticável é também a sua utilização como parque de estacionamento que é uma aberração insustentável, e que, por exemplo, na Estefânea paulatinamente vem sido a ser recorrente, apesar das proibições.
Certas ruas devem ter apenas uma direcção, permitindo o estacionamento em apenas um dos lados. A experiência das ruas pedonais só funcionará plenamente se houver comércio atractivo e moderno, acessibilidades para os idosos, política de preços por m2 que não afaste os pequenos e médios comerciantes, “comidos” pelos bancos e serviços que encerram cedo, deixando a zona morta depois desse horário. O mesmo com a Vila, fechados os palácios e faltando uma rede de cafés e esplanadas para bolsas médias, onde as pessoas possam sentir-se bem mas a preços acessíveis, e dada a desertificação humana.
Falta um projecto de urbanismo comercial do Centro Histórico e dos demais que envolva de forma clara e célere comerciantes e autoridades. A animação das ruas, com pequenos espectáculos musicais ou outros, concursos de montras, a iluminação e decoração festiva, as semanas temáticas, são alguns dos eventos que se deveriam realizar, como antídoto ao marasmo reinante, onde espaços velhos aguardam que a especulação imobiliária os transforme em bancos ou lojas de compra de ouro ou de telemóveis, como agora é o caso.
Naturalmente, a nossa região sofre de contingências várias, desde o clima de Sintra ao conservadorismo do tecido comercial, idoso e descapitalizado, que obstaculizam a concretização destes ou outros vectores de transformação. Será uma utopia acreditar que o comércio tradicional terá melhores dias? Indiscutivelmente, o futuro passa por uma nova estratégia, que incluirá os pontos aqui referidos, bem como misturar nas mesmas zonas serviços, restauração, equipamentos e lazer, numa harmonia benéfica para todos, o que determinará a sobrevivência de muitos estabelecimentos e a manutenção dos respectivos postos de trabalho e o surgimento de novas e interessantes realidades. Prioridades: benefícios camarários na transmissão de imóveis para comércio tradicional, ou com criação de emprego local, apoios à reabilitação contratualizados não só para as obras mas também para os usos subsequentes; política de eventos e de promoção agressiva, segurança. Se Sintra é uma marca cultural, porque não um branding comercial, que não se esgote em eventos avulsos e de cosmética?. Um Gabinete Municipal que centralize a recuperação comercial, a política de horários, a segurança e mobilidade, e uma política de toldos, esplanadas e ocupação do espaço público pró-activa e dinamizadora, impõe-se. Sem “grupos de trabalho”, comissões ou burocratas, mas com acções concretas e calendarizadas. Small is beautiful!

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Desafios da nova União das Freguesias de Sintra



A recém criada União das Freguesias de Sintra, que os autarcas saídos das eleições de 29 de Setembro irão instalar, constitui uma idiossincrasia própria concentrando no seu vasto território uma amostra do actual tecido sintrense, englobando a Sintra histórica e romântica, a zona rural e alguns bairros marcadamente urbanos, onde a própria sede do concelho se inclui.

Aos próximos autarcas compete respeitar e dar voz ao sentir de 3 comunidades que, sendo contíguas, desenvolveram contudo um forte espirito comunitário ao longo dos anos, pelo que ouvir e decidir com parcimónia terá de estar sempre presente no comportamento dos eleitos, reafirmando autonomia e capacidade reivindicativa perante a Câmara e as entidades que nela se atravessam, buscando equidade e sustentabilidade nas decisões, e assegurando a participação efectiva da comunidade nos assuntos que lhe dizem respeito, sem preponderância de alguma das anteriores freguesias ou seus problemas sobre as restantes.

Turismo, Agricultura, Cultura, Serviços, a melhoria e reforço da Rede Social, são vectores determinantes no caminho a seguir. Aqui deixo algumas sugestões que, enquanto cidadão e munícipe, e também como dirigente associativo, me afiguram ser tarefas a desenvolver, com os meios disponíveis ou partilhados:

-Dar um impulso determinante de ordem política no sentido de requalificar e terminar o processo de reconversão de algumas áreas urbanas de génese ilegal ainda existentes na nova freguesia.

-Melhorar de forma significativa a limpeza de ruas e bermas, pressionando as empresas que operam na freguesia e reforçando os meios próprios e a sua frequência. Combater de forma eficaz o problema dos “monstros” anarquicamente lançados nas bermas, com sanções em consonância.

-Utilizar de forma eficaz e útil os diversos edifícios ora adstritos às anteriores juntas, aí alojando serviços públicos, sociais ou culturais com impacto na vida das populações, e nos sectores onde se mostre mais premente. Neste campo, resolver o problema do edifício destinado à ex- Junta de Freguesia de Santa Maria e S.Miguel, com as obras há longo tempo paradas.

-Criar no âmbito da nova junta serviços de apoio social, jurídico ou de apoio ao investimento, que, por si ou em articulação com outras entidades possam agilizar procedimentos e ser uma linha avançada na resposta aos fregueses e investidores.

-Equacionar quais os serviços que devem continuar a ser executados pela junta e aqueles que possam ser pela Câmara Municipal nesta delegados, sempre acompanhados do respectivo cheque financeiro e recursos humanos, numa óptica de proximidade (a ligação com as escolas do ensino básico, as associações culturais e desportivas ou as associações de idosos, lares e centros de dia, por exemplo).

-Abrir um debate público em torno das questões da mobilidade urbana, trânsito e transportes, no qual se questione a manutenção do actual esquema de ruas pedonalizadas, a localização dos parques de estacionamento e a sua natureza paga ou gratuita, ou a carência de transportes públicos na freguesia depois das 21h.

-Procurar resposta para alguns casos patológicos de degradação de património e da paisagem, como a casa da Gandarinha, o Sintra-Cinema, o Hotel Netto, o Casal de S. Domingos ou a Quinta do Relógio, bem como diligenciar no sentido de certas urbanizações já iniciadas não ficarem ao abandono, como parece estar a ocorrer em Monte Santos.

-Providenciar espaço para as actividades das associações e agentes culturais, desportivas e de solidariedade, no regime jurídico que caso a caso se demonstre adequado, segundo critérios de equidade, bem como apoiando a revitalização de inúmeras sociedades recreativas, umas ao abandono, outras com défice de utilização

-Participar activamente na revisão do PDM, intervindo de forma veemente nas soluções que o novo Plano de Urbanização de Sintra venha a considerar, bem como na articulação com a Parques de Sintra-Monte da Lua, IGESPAR, Misericórdia e demais instituições na busca de soluções de ordenamento do território e reabilitação urbana, onde a nova junta deve reivindicar um lugar e voz activa.

-Estimular o Voluntariado e o Apoio Social, tendo em conta a parcela relevante de idosos e cidadãos em risco de exclusão social e a sua canalização para actividades socialmente úteis.

-Informatizar os serviços e o atendimento, procurando que nenhum pedido formulado tenha resposta em prazo superior a 5 dias, com a desmaterialização dos processos até ao ponto que a lei em vigor o permita.

-Assegurar que as populações mais isoladas ou com problemas de mobilidade tenham acesso regular e próximo a serviços de farmácia, correios, multibanco, etc, com apoio directo ou recrutado pela junta em coordenação com os demais actores da vida autárquica.

Estes alguns dos tópicos que, com 54 anos de vida em Sintra, 24 de técnico municipal e mais de 10 de dirigente associativo na área da União das Freguesias de Sintra me parecem essenciais para começar. E sempre ouvindo os envolvidos, com espirito de quem venha para servir e não para servir-se.

Do Barrunchal a Janas, de Lourel à Vila Velha, da Portela a S. Pedro ou da Abrunheira a Cabriz, mais de 20.000 cidadãos esperam por melhoria de respostas. Que este seja também o tempo de equacionar as perguntas.

Sobre a morte de Helena Langrouva



Faleceu no passado dia 1 de Julho a escritora sintrense Helena Langrouva, sem que a comunidade cultural tivesse conhecimento alargado do facto, embora padecesse de doença prolongada.
Conheci Helena Langrouva em 2005, no âmbito duma tertúlia organizado pelo saudoso grupo dos Meninos d’Avó, e posteriormente em vários eventos promovidos pela Alagamares, para cujo site escreveu algumas vezes, tendo sido por nós convidada a falar sobre Liberto Cruz- outro escritor nascido em Sintra,e felizmente ainda vivo- no III Encontro de História de Sintra, no Palácio Valenças, em Maio de 2007. A obra de Zeca Afonso ou as ideias de Lanza del Vasto foram igualmente tema de contributos escritos seus, tendo em 2010 participado na visita que o Centro Nacional de Cultura promoveu de homenagem a outro escritor sintrense desaparecido, e seu primo, M.S.Lourenço.
Licenciada em Filologia Clássica (Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa), Maître ès Lettres Modernes – Cinéma (Montpellier III- Université Paul Valéry), pós-graduada – DEA ( Universidade de Paris III- La Sorbonne Nouvelle), Master of Arts e Master of Philosophy (Universidade de Londres – King’s College) – e doutorada (Universidade Nova de Lisboa) em Estudos Portugueses, foi Leitora de Língua e Cultura Portuguesas nas Universidades de Montpellier e Rouen, ensinou Literatura Portuguesa Clássica, Teoria da Literatura, Introdução aos Estudos Literários e Francês, no ensino superior, em Portugal, com passagem pelo ensino secundário onde leccionou Grego, Latim e Português. Equiparada a bolseira pelo Ministério da Educação e Cultura, foi bolseira da Fundação Oriente e da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo investigado em bibliotecas e museus europeus. Escritora, investigadora interdisciplinar, nas áreas da cultura clássica, renascentista e do século XX, tem-se dedicado em especial ao estudo de Literatura e Arte dos séculos XV e XVI.
Foi igualmente autora de A Viagem na Poesia de Camões, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian- FCT, 2006; Actualidade d’Os Lusíadas, Lisboa, Roma Editora - apoio FCT, 2006; De Homero a Sophia. Viagens e Poéticas, Coimbra, Angelus Novus – patrocínio IPLB-, 2004; Arpejos de uma Viandante/ Arpèges, Lisboa, 2003. Co-editou, com Aires A. Nascimento, José V. De Pina Martins e Thomas Earle, Humanismo para o nosso tempo. Homenagem a Luís de Sousa Rebelo, Lisboa, edição patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian e comercializada pela APPACDM, Braga.
Publicou ensaios nas revistas Brotéria, Critério e O Tempo e o Modo (Lisboa), Traduziu e seleccionou Lanza del Vasto, Não-Violência e Civilização- Antologia, Lisboa, Edições Brotéria, 1978 e traduziu ainda Jean Joubert, O Homem de Areia (romance), Lisboa, Difel, 1991.
Estudou Artes Musicais – Canto Gregoriano e Canto Clássico - Artes Plásticas – Desenho e Pintura- e Iconografia, tendo ainda cultivado o canto ao longo da sua vida, fez exposições individuais de Pintura em Sintra, Lisboa e Évora e dedicou-se em particular à pintura de ícones.
Foi membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação Portuguesa de Críticos Literários, da Sociedade Portuguesa de Autores, da Associação Internacional de Lusitanista.
Em meu nome e no da Alagamares, registo mais esta baixa num universo cultural já de si rarefeito e onde as figuras vão sumindo num ruidoso silêncio. Sintra ficou mais pobre e a Cultura Portuguesa também.