Follow by Email

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O tubarão



Toda a noite levara emborcando vodkas pretas, sem a mulher e na noite algarvia, Vítor só sabia onde começava, nunca onde acabaria. Apesar da crise, as praias estavam cheias e tirando uma folga do escritório, alugou um bungalow na Manta Rota e instalou-se para uns dias sem jornais e sem net, no remanso da praia e dos bares ao fim da tarde. Num deles conheceu Craig, um polícia da Irlanda do Norte, que devidamente afogado em Guiness lhe ia contando as vezes que insurgentes de Belfast o tentaram matar, e com ele se enfrascava na happy hour. Aves raras pululavam pelas esplanadas, numa parafernália estival: emigrantes com charutos, pedindo champanhe francês, crianças birrentas com crocodilos insufláveis, famílias da margem sul e de outras margens, ingleses pouco sóbrios e holandeses menos sóbrios ainda, toda a fauna exótica ou rafeira, da grande reserva turística a que chamam Algarve.

Vítor gostava de praia. Viajante inveterado, das Caraíbas aos mares do Sul, tudo sulcara já, vira peixes exóticos e corais coloridos, golfinhos e cardumes voadores, pinguins e lontras, e mar, muito, verde, azul-turquesa, imenso e belo. Uma coisa o apavorava: tubarões. As imagens do filme de Spielberg, com trinta anos já, assaltavam-no sempre que chegava perto da água, coisa ridícula, mas assim era, acontecia o mesmo com os aviões. Palmilhara o mundo, mas detestando voar, sempre temendo acidentes. O dr. Rebelo dissera-lhe ser algo conhecido como selachofobia, o medo de tubarões, como outros têm de ratos ou aranhas. Hipnoterapia, aconselhou. Passado o Verão, o medo sumiria, só ressurgindo com o regresso às praias, as do Algarve, apesar de tudo, seguras, e livres desses perigos.

Na Manta Rota, diariamente esticada a toalha e passado o creme, umas braçadas nas águas cálidas mais não deixavam ver senão algumas algas ou seixos, indo e vindo. Baleias, sim, muitas, as que as dietas não resolveram, tubarões, só os da troika ou dos mercados, a esses muitas vezes vira a barbatana, na costa e na algibeira, vorazes e trituradores. Filipe, advogado e colega de escritório, de férias na mesma zona, sabedor da fobia, gozava com Vítor, gritando "tubarão!" sempre que ele ia ao banho, ao que inicialmente reagia assustado, sorrindo depois, a verdade é que efectivamente ninguém vira nenhum, nem Vítor se afastava muito da terra firme. Aliás, a bem ver, nem o tubarão que aterrorizara a ilha de Amity no filme de Spielberg existiu, esse aterrador animal que irrompia nas praias da costa leste e que tanto o angustiava, mal escutava a música que precedia o ataque. Autoflagelando-se, vira o filme várias vezes, apavorado com aqueles olhos negros sem vida, o ronco, sempre que as mandíbulas cravavam na vítima, puxando-a para a água e deixando uma mancha de sangue em volta. Mas esse era um tubarão branco, nunca visto nas costas portuguesas, só vira um nos estúdios da Universal em Los Angeles, lembrava-se de na altura ter fugido para o espectáculo do E.T., e como ele, ter tido o impulso de gritar “home…”

No último sábado de férias, como habitualmente, Vítor, Filipe e a mulher, Rute, encontraram-se na praia, predispostos para uma manhã de sol e a leitura do Expresso na diagonal. Depois das noitadas no Bliss e dos copos em Albufeira, fariam um jantar no Zé do Peixe Assado, antes do regresso à crise e às derrotas do Sporting. Cansado da noite anterior, Vítor deixou-se ficar espojado, roncando mesmo, mal os primeiros raios de sol lhe açoitaram as costas. Ao fim de dez minutos, Filipe e Rute foram experimentar a água e mergulhar, outro dia de sol em perspectiva. Cinco minutos não eram decorridos quando uma algazarra junto à água e um magote de gente denunciava ter ocorrido algo, a chegada dum barco da pesca, pensou Vítor, sem levantar os olhos da toalha, o bando de gaivotas  ululantes era sinal de peixe, todos os dias por essa hora chegavam barcos da faina. Um grito de mulher, gutural, fê-lo enfim despertar, e levantar a ver o que se passava, o grupo de banhistas engrossara, e alguns apontavam na direcção do mar, para poente. Rasgando caminho entre eles, Vítor deu com Rute aos gritos, com a mão na cabeça, ao lado, sem sentidos, Filipe, deitado na areia. Uma poça avermelhada jorrava-lhe da perna esquerda, à aproximação, a visão horrorosa do pé decepado, colhido por algum objecto cortante, o motor de algum barco, alvitrava o nadador-salvador.

-Que se passou, Rute? Meu Deus, que houve com o Filipe?

Filipe dava gritos e chorava, a água salgada acicatava a dor. O vendedor de bolacha americana, um brasileiro bronzeado, vira-o entrar na água e nadar despreocupado, não vira nenhum barco perto sequer, era estranho o sucedido. Já as sirenes do INEM anunciavam a chegada da ambulância para o evacuar, quando um miúdo com uma bóia apontou para o mar e desatou aos gritos:

-Tubarão! Há um tubarão na praia! Olhem ali!

Todos os olhos se viraram para o sítio indicado e sinuosa, lá estava uma barbatana preta, a cem metros da praia. O pânico foi geral, com várias mães com os filhos pela mão fugindo para os lados da amurada, deixando Rute e Filipe quase sós. O nadador salvador pasmava, nunca tal vira na Manta Rota, a Polícia Marítima, via rádio, confirmava, um navio de guerra ao largo avistara não um, mas três tubarões, algo que os biólogos consideravam raro e um sinal de alteração nas migrações da espécie nesta parte do Atlântico, sinal de peixe com fartura.

Vítor ficou branco como a cal da parede, e atarantado, entre esperar pela evacuação do amigo, que dele zombara, e a fuga pura e simples, aguentou, quase desmaiando, e acompanhou Rute na ambulância. Ao fundo, a perturbante barbatana do perturbante turista marinho, aproveitando algum programa low cost, transportou-o para o filme de Spielberg, como sempre temera, acontecia agora. A praia foi de imediato interditada, mirones com binóculos garantiam ter já avistado uma dúzia deles, a televisão chegava para um directo e o correspondente do Correio da Manhã ganhava a primeira página, destronando a velha assaltada no Pingo Doce da Amora.

Prometendo não voltar à praia, após a evacuação de Filipe, Vítor regressou a Lisboa, findas as férias, para o amigo terminadas de forma dramática. Com o tempo, uma prótese ajudaria Filipe a andar, vítima do atípico Verão de 2011 e dum ataque de beachjacking. Ao chegar a casa, findas as férias, e sem comida em casa, optou por um restaurante chinês ao fundo da rua. À entrada, um placard aconselhava a ementa de sete euros, a começar com sopa de barbatana de tubarão….

domingo, 7 de julho de 2013

Os sete pecados mortais de Paulo Portas



Paulo Portas, o aprendiz de Maquiavel, das tias e peixeiras, submergiu num dos seus submarinos para apenas quatro dias depois voltar à tona, depois de quase nos levar ao fundo. Nele, por estes dias pudemos detectar cristalinamente os sete pecados mortais, que a um pecador levaria às labaredas do Inferno, mas a um político rasteiro, no auge do seu cinismo  levará quiçá a S.Bento ou Belém. Nele saltam perturbantemente  a luxúria do poder, narcísica forma de existir num partido que pelos vistos é só ele e os seus clones e a lascívia posta no seu exercício; a gula por cargos, prebendas e a captura do Estado pelos seus jotinhas populares e apaniguados salivantes; a avareza em partilhar o poder que lhe caiu nos braços, avaro ele em solidariedade com os pares, os contribuintes e os portugueses; a ira, silenciosa e silenciada em pedidos de demissão armadilhados, revogáveis momentos de pantomina e reserva mental; a soberba, afirmada na convicção de pôr um país pasmado uma semana em seu redor, com golpes de vaidosa mestria do pequeno Metternich do Caldas; a vaidade, o Eu omnipresente e a afirmação do seu partido unipessoal e de irresponsabilidade ilimitada; a preguiça em ouvir os outros, as vozes dissonantes, os críticos humanóides e sem visão, essa massa ululante a que chamam povo, tirando uma ou duas peixeiras e uma ovelha na Ovibeja;

Face ao descrédito a que a política chegou, sobretudo depois da ópera bufa da semana, chegámos ao grau zero da política, afirmada hoje como repositório de tudo o que a natureza humana tem de pior. Os partidos tornaram-se corporações de interesses e sindicatos de lóbis, divorciados da sociedade e agarrados a dogmas, capelas e clientelas, e aqui incluo os da esquerda dita anti-sistema, no fundo também ela em busca de um sistema, diferente, mas sistema.

Toda a nossa cultura e praxis política carece de ser alterada, a começar nas mentalidades, algo difícil, pois até os jovens que se envolvem na política acabam por corporizar e encaixar no discurso dominante e suas representações formais, reproduzindo tiques e mimetismos das gerações anteriores e promovendo a cultura de facção, apesar das novas roupagens e recursos supostamente irreverentes e modernos, mas no fundo em tirocínio para mais do mesmo.

A causa para este estado comatoso deve ser procurada essencialmente na sociedade blindada e supérflua em que nos tornámos, atávica no maniqueísta apontar dos bons e dos maus, reduzindo a política a um fait-divers ou concurso de simpatias. Tudo espectáculo, e contudo, com total ausência de discussão das escolhas ou real debate de ideias, se é que ainda há ideias, mortos que estão os Ideais.

A sociedade portuguesa é avessa e diletante no que a um profundo e cirúrgico debate de ideias efectivamente respeita, deixando o debate político nas mãos de dois ou três grupos de media politicamente engajados e veiculando uma opinião publicada nem sempre traduzindo a verdadeira opinião pública, permeável ao tilintar de sound bites e chamando política às folclóricas arruadas que anunciam a chegada do circo à cidade. Daí que, instalado e larvar, o novo rotativismo vá secando o país que pensa, que tem ideias, que quer inovar, qual eucalipto invasivo neste pinhal à beira-mar plantado, capturado pelos rituais tribais, a emulação dos chefes, a domesticação dos conversos e a frenética venda de realidade virtual. Esse país continua por aprofundar, com ou sem eleições, e só quando o ciclo das claques sem cérebro se esgotar (se alguma vez se esgotar)  e todos, transversalmente, oriundos daquilo  que até há pouco se chamava esquerda e direita reflectirmos seriamente sobre o que somos e queremos, poderemos começar então a tentar mudar este país na sua essência, forças e fraquezas, para lá da mera troca de rostos e protagonistas. Tarefa difícil, porém aquela que vale a pena perseguir, por difícil ou ciclópica que seja.

Como amarga cereja neste bolo podre de vaidades, interesses, minudências e traições, hoje como ontem, Paulo Portas, vitorioso regressado de Elba depois da Batalha dos Três Dias. Quem sabe, talvez  haja um dia o exílio em Santa Helena…

sábado, 6 de julho de 2013

O hóspede do Hotel Royal




Apesar de ser já Setembro, a manhã nasceu radiosa na Vila Nova da Praia das Maçãs. O Hotel Royal, fronteiro ao areal, denotava alguma agitação, ali repousava por uns dias o dr.Afonso Costa, chefe do Partido Democrático e figura grada do regime. Em 1912, após uma secessão entre os republicanos, tornara-se o líder incontestado e consolidado o partido, presidia ao ministério desde Janeiro de 1913, o primeiro governo partidário da República, integrado por democráticos e apoiantes de António Maria da Silva.
O mata-frades, como era conhecido pelos inimigos, não era consensual, o seu marcado anticlericalismo gerara ódios entre os conservadores, era o chefe visível da facção radical. Escolheu o Royal pela vista privilegiada sobre o mar e o cheiro a iodo que entrava pela janela de manhã, momento aproveitado para ler o jornal ou ir à esplanada do Grego. Seriam poucos dias, que a política não permitia tréguas, antes avisara o presidente Arriaga.
Na manhã de 23 levantou-se cedo, tomou um pequeno-almoço frugal e leu o jornal, refastelado na varanda do Royal. Surpreendidos pela presença do ilustre veraneante, os hóspedes cumprimentavam respeitosamente, muitos entre dentes suspirando pelo rei D.Carlos e pela ordem velha, porém. No exterior, a defesa civil da Praia das Maçãs, afecta ao partido democrático, montara guarda, Afonso Costa tanto era visado pelo clero, como pelos monárquicos de Paiva Couceiro e até a Carbonária, agora que o PRP se dividira, o parecia ter como alvo. Sebastião Lima e quatro homens armados vigiavam no exterior do hotel, zelando pela sua segurança, movimentação comentada na taberna do Manuel Prego:
-Estes tipos só vêm para aqui atrapalhar o negócio! -resmungou o taberneiro, hirsuto e rude, emborcando um tinto. A um canto, o padre Matias del Campo assentava com a cabeça, na sua Espanha natal era o mesmo. Pelas dez horas, a leitura do jornal foi interrompida pela voz ofegante de Sebastião:
-Sr Doutor, avisam de Sintra que se encaminham para cá anarquistas armados. É melhor que recolha ao seu quarto, não há tempo para voltar para Lisboa! - Sebastião vinha alterado, elementos do partido avisavam que um atentado estava em curso e não havia tempo para chamar reforços. Afonso Costa, já habituado a estas andanças, levantou os olhos do jornal e ironizou, sem se levantar da mesa:
-Nem uns dias se pode tirar sossegado, meu caro? Muito bem. Vêm à pesca mas vão encontrar mar bravo… Não se preocupem, ando sempre prevenido, ainda não esqueci do dr. Miguel Bombarda…-e apalpou o bolso da casaca, onde, previdente, guardava a pistola.
Em Sintra, depois de alertados, grupos de defesa montaram apertada vigilância, mandando parar tudo o que se dirigisse para a praia e revistando as pessoas. As notícias eram de que em separado os revoltosos tinham entrado em diferentes estações de comboio com destino a Sintra, onde se reuniriam. Todo o dia, perante a surpresa dos transeuntes, a agitação dos carros entre Sintra e a Praia indiciava passar-se qualquer coisa, ninguém chegava perto do Hotel Royal, sitiado, as informações eram contraditórias e os boatos delirantes.
Miguel Gaião, Jaime Augusto e Alberto Correia, idealistas de sangue quente, que em separado haviam vindo de Lisboa, lograram chegar de bicicleta a Monte Santos, onde havia um controle de estrada. Surpreendidos, acharam avisado voltar para trás, a coisa estava mais complicada do que imaginavam.
-Diabo, isto está tudo minado! -Jaime, o mais velho, alfaiate do depósito de fardamentos, não contara com a eficiência da gente do mata-frades, melhor seria deixar para outra ocasião. Voltaram para Sintra, tentando apanhar o último comboio para Lisboa, mas um saloio que alugava burros na estação, achou estranha a movimentação dos forasteiros junto à gare, não tinham aspecto de quem fosse visitar o Paço. Avisada a Guarda, Gaião foi quem primeiro se apercebeu de que dois agentes se lhes dirigiam, e avisou os outros:
-Corram, que vêm ter connosco! -e acelerou, seguido dos outros, já em passo de corrida. O Gaião puxou duma arma, escondida na saca a tiracolo e disparou, quase atingindo um guarda num ombro. Porém, mais guardas chegaram do lado da Estefânea, imobilizando-o, desorientados, o Jaime e o Alberto nem tentaram ir mais longe, entregando-se sem resistência. Levados para a esquadra de Sintra, foram-lhes apreendidas pistolas e punhais, e conduzidos à cadeia da comarca. Por essa vez, o Royal ficara longe demais.
 -Não foi desta, será doutra! -vociferou o Gaião, a caminho do calabouço.
No dia seguinte pela manhã, Afonso Costa entrou bem-humorado na tasca do Prego, onde nada do ocorrido em Sintra transpirara, para lá do alvoroço dos acólitos rondando o hotel.
-Bom dia cavalheiros, belo dia para a pesca, não acham? -ajustando os óculos, saudou os presentes com ar matreiro, depois de um café seguiu para um passeio matinal, olhado de soslaio pelo Prego.
O primeiro ministério de Afonso Costa ainda durou até Fevereiro de 1914.Como líder dos democráticos transformou o Partido Democrático no principal partido da Primeira República, e na força dominante até 1926.Sempre na ponta das baionetas. O Hotel Royal ainda subsistiu até 1921, pacato e sobranceiro ao mar, quando um incêndio pôs fim a quinze anos de actividade. Afonso Costa, esse, durou um pouco mais, ainda.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A tragédia grega



E eis que o fogo chegou à Acrópole sob a forma de tragédia, com traição, suspense e fraqueza humana que baste para garantir um final infeliz, como convém a qualquer tragédia.
Pior é que no corifeu estão dez milhões de figurantes, ululando ante os punhais ameaçadores, o incesto edipiano e a cicuta que nos querem dar a beber, agora que se sabe que a maratona não vai chegar ao fim.
Vencidos os convencidos, a outros convém encontrar que sejam convincentes, reorganizando os exércitos e marchando sobre Esparta. Mas aos reis gregos se impõe que busquem alianças antes de nova batalha, para que falada a democracia se possa em paz e sem desafio a Zeus seguir no governo da polis. Sem isso, os ventos éolos soprarão inclementes sobre as tágides, sob o olhar inclemente dos sátiros, E se catarse pode haver, será a dos indignados no Olimpo das redes sociais ou fartos das sopas dos pobres em qualquer banco alimentar.
Na tragédia lusa há em arena deuses, reis e heróis, como em qualquer tragédia. Os deuses da usura e da trilogia financeira, holográfica presença do Olimpo, no seu vulcão enfurecido; os reis desavindos, capturados pela soberba e narcisismo; e os heróis, os sacrificados da ágora, escravos e metecos duma pólis madrasta, invadindo as ruas e os templos da suposta democracia.
Prólogo houve ante um outro Sócrates, peripatético arauto de grandes obras e émulo de Roma e Atenas, caído às mãos dum arconte após beber da cicuta usurária, a que se seguiram dois anos de um doloroso episódio, para agora se chegar ao êxodo: dos personagens, em covarde debandada, e do coro ululante, com seus pároclos e estásimos. Cabe agora encenar nova peça, sem édipos ou bacantes, e onde o coro assuma lugar central e o final seja de esperança, com um regresso a Ítaca pondo fim à dor das penélopes e telémacos da tágide tragédia.