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terça-feira, 18 de junho de 2013

Melhorias em Sintra

Nem tudo é mau, no que ao património de Sintra concerne. No passado dia 5 abriu a casa do guarda, no Castelo dos Mouros, cafetaria panorâmica com apoio de WC. Dia 21 vai abrir a Abegoaria, e começarão passeios a cavalo junto ao Chalé da Condessa. No meio do cinzento, algum azul.
Foto da casa do guarda do Castelo dos Mouros do blog caminhandoporsintra.blogspot.com. 



domingo, 16 de junho de 2013

Cavaleiros da Esperança ou Escravos da Resignação?



Os tempos mais próximos têm que representar um momento de viragem no lodaçal esquizofrénico em que a nossa vida colectiva, e por consequência a nossa vida pessoal, se transformou. Falta a esperança, essa palavra talismã, e falta mostrar o osso com que, como o cão de Pavlov, de novo voltaremos a ladrar. Para que tal aconteça, há que levantar do sofá, largar o comando da televisão e o asténico isolamento das redes sociais, silencioso espaço para gritar desesperos, buscar cumplicidades, e, todavia, nada decidir que altere o pathos dum reino de novo cadaveroso de anormal normalidade.

Antes de um inesperado Abril, muitos de nós lutaram contra a liberdade raptada, uma guerra anacrónica e por um futuro que por gerações nos foi negado, numa lógica de inevitabilidade por entre saudados costumes de brandura, que escondiam um povo amordaçado mas secular lutador. Um dia, fruto dessa guerra, surda mas germinal, tudo voltou a ser possível, e o Futuro teve rosto, calendário, protagonistas, muitos cães e muitos Pavlovs, ladrou-se e latiu-se, e apareceram ossos, carne, ração. Fez-se a democracia, mudaram-se retratos, discursos, atitudes, e, ao sétimo dia, o povo descansou, contente com a obra feita, e entregou-se à volúpia consumista, ao hedonismo egoísta, à anomia social, de bom selvagem, o indígena ficou tão só selvagem, com casas T3 em Massamá, férias no Algarve ou carro novo cada três anos. Barato, o vil metal abundou, o maná igualmente, triunfantes mas cegos pelo sol, havia-se alcançado a Terra Prometida, depois de anos a errar no deserto, e depois dos grilhões do faraó. Silencioso, porém, o veneno dos inimigos fervia no caldeirão, acelerado pelo novo metal da Europa e pelos trinta dinheiros com que a ele nos rendemos, finalmente leais a César, e nas suas teutónicas mas capciosas mãos. Um dia, legiões de cobradores chegaram a exigir o dízimo, e, qual Sodoma, tudo ruiu então, transformado em sal e às mãos dos que na penumbra manobravam, sabendo da fraqueza dos deslumbrados.

Como na caverna de Platão, onde agora, cegos e aprisionados uivamos a perda e buscamos um rumo, haverá de chegar a luz, do fogo primeiro, mas cristalina e pura, e anunciando um novo dia, depois. Mas tal não virá de sortilégio do Olimpo, antes imporá a necessária revolta dos escravos, o quebrar das algemas, a união denodada e sem temores. Imporá pôr à prova se os escravos merecem ser um país ou, erraticamente, mero quilombo de deserdados em fuga e com liberdade vigiada.

Os dias são de desespero e de spleen, chamamentos de Circe e apelos à fuga de Ítaca, para, assustados, sulcar fronteiras, ziguezagueando a vida e trocando voltas ao futuro, dias de sofrimento, exaustão, entre a loucura e a entropia, o estilhaçar de sonhos ou o seu cruel adiamento. É chegado o momento da renovação, do regresso da alva Iemanjá e dum assomo de magia que faça das fraquezas forças, dos rebeldes líderes, das ideias planos e do nosso rincão desígnio. O grande exército do Futuro, dos que se indignem com consequência, ajam com sabedoria, tracem planos consistentes e de diferença, e que, reconquistada a chama, a reponham na pira sagrada onde se venere a dignidade e perspective um Devir.

O Tempo é uma sucessão de luas e sóis, chuvas e secas, colheitas e gestações. O Tempo que na roda do tempo humano nos cabe agora, nasce do Inverno, dum inóspito inverno em que um tentacular inferno capturou as nossas vidas e as mantêm num mar encapelado, de Circes e Polifemos, ventos gélidos e trovões açoitantes. Mas, ao Inverno sucederá a Primavera, e de novo o Verão. Lento e silencioso, o Futuro prepara o seu caminho.

A esperança sem mobilização, equivale a resignação. Uma solução há apenas: a de sermos militantes cavaleiros da esperança ou inúteis escravos da resignação. Avancemos pois, convocados que estamos para a sagrada missão de porfiar Futuro e capturar a Luz, para tanto levantando firmes a cintilante espada da dignidade.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A Granja dos Serrões



Pela Portaria 268/2013 de 10 de Maio foi classificado como de interesse público o sítio arqueológico da Granja dos Serrões, que integra um conjunto de vestígios de grande valor patrimonial e natural e onde os testemunhos arqueológicos surgem ligados às características geológicas do local, caracterizado por um Campo de Lapiás-classificado como Património Natural-associado ao coberto arbustivo e arbóreo representativo da vegetação espontânea da região, com reconhecido interesse do ponto de vista paisagístico e científico.

A singularidade do local deriva da articulação de elementos epigráficos e arqueológicos, com valor inquestionável para o estudo e compreensão da Lusitânia romana. Ali foi recolhido significativo acervo de inscrições romanas que se presume associadas aos vestígios de um templo dedicado a Júpiter, bem como a um mausoléu de grandes dimensões.

Na Granja dos Serrões foram igualmente identificadas as estruturas de uma villa romana, das quais se destacam vestígios da pars rústica, além dos vestígios de pavimentos de mosaicos e testemunhos da sua manufactura, bem como de uma estrutura defensiva de dimensões assinaláveis.

A identificação de uma sepultura de incineração romana, datável do século I a. C., e de uma necrópole de inumação alto-medieval reforçam a importância deste sítio arqueológico como marco determinante da estruturação do território envolvente. A presente classificação cria coroas de protecção, com uma área central que inclui o núcleo onde se incluem os vestígios da villa romana, da necrópole romana, da necrópole alto-medieval, da estrutura defensiva baixo-imperial e a área do presumível templo consagrado a Júpiter, onde apenas serão autorizadas intervenções de investigação e valorização científicas, sendo que na área seguinte qualquer operação urbanística deverá ser precedida por uma acção arqueológica de diagnóstico prévio. Na designada área C, que integra o campo de lapiás (classificado como monumento natural), incluindo parte de necrópole de incineração romana, a jazida de Monte da Macieira e a estação paleolítica de Terra das Cenouras, apenas serão autorizadas intervenções de investigação e valorização científicas.

Como se formaram estes lapiás? Segundo os cientistas, o calcário é uma rocha de origem sedimentar constituída predominantemente por carbonato de cálcio, que é um composto solúvel na água. Não o é directamente, mas sim através de um processo químico que envolve o dióxido de carbono. A água da chuva, quando cai das nuvens, reage com o dióxido de carbono existente na atmosfera. Desta reacção resulta ácido carbónico, que vai ficando dissolvido na água à medida que a chuva cai. Quando a água da chuva incide sobre o calcário, o ácido carbónico nela contido reage por sua vez com o carbonato de cálcio que compõe esta rocha, do que resulta a libertação de iões cálcio e hidrogenocarbonato, que também ficam dissolvidos na água. Este processo, em que na prática os constituintes do calcário acabam por ficar dissolvidos na água, corresponde a uma erosão química desta rocha, à qual se juntam uma erosão mecânica, correspondente ao desgaste causado pela própria água, pelo vento, e outros agentes físicos, e também uma fractura e desagregação progressiva da rocha, em resultado das dilatações e contracções provocadas pelas variações de temperatura. A esta erosão do calcário dá-se o nome de carsificação e dela resulta a formação de grutas, algares, lapiás, etc.

Os lapiás são relevos que se formam à superfície do calcário e são constituídos por fendas, canais, buracos, fragmentos, campos de rochas, etc. Em Portugal há dois campos de lapiás costeiros: um no Cabo Carvoeiro, junto a Peniche, e outro em Cascais, entre a vila e a Praia do Guincho, incluindo a famosa Boca do Inferno. Na zona do Farol da Guia este campo de lapiás é estreito, mas no Cabo Raso ele é muito mais amplo.

De entre os campos de lapiás que não se encontram à beira-mar, dois estão classificados como monumentos naturais e ambos no concelho de Sintra, o Campo de Lapiás da Granja dos Serrões e o de Negrais. Ambos lapiás ficam muito próximos um do outro e podem ser facilmente acedidos através da estrada que liga Pêro Pinheiro à Ponte de Lousa, passando por Pedra Furada, Negrais e Santa Eulália. O Campo de Lapiás da Granja dos Serrões fica junto ao troço da estrada entre Pêro Pinheiro e Pedra Furada e o Campo de Lapiás de Negrais fica nas imediações de Negrais, como o nome indica.

Apesar da sua importância e das classificações, como a de Maio passado vem reforçar, falta informação suficiente sobre este património, bem como o incremento da sua divulgação científica, com visitas ao local, enquadradas num vasto programa escolar e de turismo cultural que abranja o vastíssimo legado arqueológico do concelho de Sintra. Um campo onde muito ainda há a fazer.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Uma Canela com aroma a Sintra


Os Canela  são uma banda de “world music”, que, no dizer dos seus membros, "cria música com sabor, cor, solta e independente de formas e estilos tradicionais". A sonoridade do grupo flui através de instrumentos do mundo, que permitem uma ponte entre o Ocidente e o Oriente e a união da Guitarra Portuguesa com o Sitar (da Índia), o Guzheng (harpa chinesa), e outros instrumentos do mundo. Composto por Cláudia Duarte(Voz) Rui Martins (Guitarra semi-acústica, Sitar e Guzheng) Carlos Batalha (Baixo) Hugo Felício (Percussões) e Hugo Claro(Guitarra Portuguesa e Vozes), com eles as sonoridades do mundo são recolhidas e mescladas num ecletismo virtuoso. De realçar também que deste conjunto fazem parte músicos com ligação a Sintra, sem demérito se podendo dizer que de Sintra são também, por cumplicidades e projectos que alguns deles também aqui partilham. Busquem, oiçam e já agora, comprem.
 

O altar de cortiça



Elise gostara do local. A Pena não, era grande demais, Maria Pia não perdoaria. Aquele recanto, resguardado por ciclópicos penedos, era perfeito para o recato procurado. Agora que a obra estava pronta, havia que ajardinar, John Slade, o cunhado de Elise, ajudaria, silvicultor experiente, há muito sugerira plantas do Japão e da Austrália para adornar o local. Depois do casamento, Fernando apressou as obras, queria fugir das Necessidades, das tosses de S. Carlos, e dos remoques de Luís, agora no trono. Lipipi crescera, largara o fato de marujo e depois da morte prematura de Pedro era agora rei de Portugal. Planeara uma coisa pequena, o talhão doze pareceu-lhe indicado, longe da desmesura da Pena. Elise quisera cortiça na fachada, e acabamentos que recordassem a casa em Boston, heras pintadas cobrindo as paredes. Gregório, o mestre-de-obras, também dera sugestões, mas Fernando queria o chalé simples, retangular em baixo e cruciforme no primeiro andar, com varandas ao estilo suíço.
Logo de manhã, com Gregório, visitaram a estrutura, já pronta, Elise, agora condessa d’Edla, rejubilava, antevendo os  acabamentos para aquele ninho providencial. Entusiasmados, percorreram o primeiro andar, escolhendo cores e móveis, e planeando a futura casa:
-Aqui podia ser o salão, talvez com uns troncos de hera em estuque e nervuras entrelaçando nas cornijas ramagens cobertas de folhas. Que me diz, Fernando? - Elise Hensler, ocupada com as tournées, nunca desde que partira de Boston, espalhando graciosidade pelos palcos da Europa, voltara a ter casa fixa, até a de Lisboa era alugada -Acolá, o seu quarto, talvez com motivos árabes… O meu será aqui em frente, e na escadaria…
-Na escadaria, proponho algo mais solene: as armas de Saxe e as de Portugal! –sublinhou Fernando, institucional- Tem ideias para o seu quarto, meu anjo? -de novo casado, o rei parecia vinte anos mais novo, fogoso cavaleiro com a sua donzela. Elise divagava, pueril e feliz:
-Domingos sugeriu rendas nas paredes, sob um fundo rosa ou azul, que lhe parece?
Fernando já não ouviu o final da conversa, de Lisboa chegava o secretário, as árvores do Japão viriam a tempo das plantações e na Primavera estariam adaptadas, Slade inspecionaria.
Sintra, regida pela Lua, encontrava nova sacerdotisa e esta o seu altar, os troncos de hera na fachada do chalé bem podiam simbolizar os quatro elementos, comentara Kessler, ali daria largas ao espírito, recolhendo-se com Fernando e suas canções, animando saraus com amigos, cuidando das plantas e do piano, num mundo só deles.
Muito sucedera em dez anos, desde que Fernando por ela se encantara. Tudo começara em S. Carlos. Ela, graciosa e frágil, fazendo de pajem no “Baile de Máscaras” de Fraschini. Depois, as visitas furtivas e frequentes ao 68 da R. dos Remédios. Luís, já rei, várias vezes surpreendera o pai chegando tarde ao palácio, qual furtivo conquistador. A sua morte prematura precipitou as coisas, sofrendo, e só, apenas encontrou conforto no regaço da Hensler, cada vez mais afastada das récitas. Disfarçada, chegou a levá-la em viagens como falsa esposa de Kessler, o médico ficou embaraçado, mas não foi capaz de dizer não ao amigo. Até que a 10 de Junho surpreenderam, casando na capela da infanta Isabel, em Benfica, já Luís reinava, a pedido de Fernando, Ernesto de Saxe-Coburgo fizera antes condessa d’Edla a filha de Conrad Hensler, alfaiate em Boston. Nesse mesmo dia, na feteira da Pena, ao plantarem um eucalipto, apaixonados selaram um sentido e tardio amor.
No chalé teriam uma corte só deles. Maria Pia nunca a aceitaria como sogra, em S. Carlos, os Pares do Reino olhavam-na de soslaio, à rainha do palco não queriam ver no palco como rainha, a Messalina que levara à certa o velho rei. Em Sintra encontrariam paz, entre as flores e as aguarelas de Fernando, na Abegoaria preparariam chás e renovariam plantas, reis da Floresta no altar da Cruz Alta.
-Elise, que me diz se ali puséssemos magnólias? - Fernando contemplava o imenso vale do alto dos rochedos frente à casa. Com as mãos entrelaçadas nas dele, fez-lhe uma festa na testa, e sorriu. Mirando o chalé, quase terminado, uma certeza lhe ficava cada vez mais clara. Era aquele o lugar.