Follow by Email

domingo, 9 de junho de 2013

Molly Malone



“In Dublin´s fair city/Where the girls are so pretty/ I first set my eyes on sweet Mollly Malone”. A música ecoava, nostálgica e doce, no balcão do 0´Leary, no Temple Bar, ao ritmo das Guiness, música dos Chieftains, Dubliners e outros baladeiros da green Ireland animavam as noites da terra do caldeirão de ouro na ponta do arco-íris. Assim era nas lendas, não tanto na realidade. Acossado o tigre celta, o desemprego espreitava e casas ficavam por vender. Para Júlia, o emprego como hospedeira na Ryanair, antes sonho e oportunidade, era agora diário risco, dependente do apertar de cinto com a crise.

Júlia partira em 2007, um curso de História e o desemprego fizeram-na trocar Lisboa e o Bairro Alto pelas neblinas de Dublin, cidade alegre e sempre pronta para o crack, a maneira irlandesa de fazer a festa nos pubs e em torno de sumo de cevada. Três meses depois, conheceu Patrick no O´Leary, jovem broker na bolsa, ao som de Molly Malone iniciaram uma relação forte e apaixonada. Entre viagens para o continente, serviços low-cost e jantares no Gogarty’s, o tempo passou e o regresso a Portugal adiado.

Agora, de novo no O´Leary, pensativa e bebendo um cappuccino, tudo era diferente: a Patrick, que há semanas se queixava de enxaquecas, após exames fora diagnosticado um tumor no cérebro, não podiam operar, as sessões de quimioterapia traziam-no enfezado e triste; de Portugal as notícias eram pouco animadoras, a loja de móveis do pai falira, e pensava retirar-se para a terra, onde com o dinheiro das poupanças viveria com a mãe o resto dos seus dias. Ela mesmo, diariamente via colegas despedidos ou transferidos, a política da empresa era de contenção.

Liam, bandolinista e animador da noite, era já um velho conhecido, simpatizara com ela quando um dia lhe cantou um fado, numa voz tão cristalina que logo ficou fã. Anos antes fora amigo de Edge, dos U2 e juntos correram bares e pubs antes de ficarem famosos. A par da história de Júlia, nessa noite depois de cantar o Whiskey in the Jar pela enésima vez, sempre como se fosse a primeira, sentou-se no balcão e pediu mais um pint. Júlia estava tristonha mas sorriu ao velho amigo, castiço com os seus cabelos brancos compridos rematados por um rabo-de-cavalo, a realçar o ar rebelde de velho cantor de estrada. Positivo, Liam animou-a:

-Come on, litlle portuguese, as coisas hão-de melhorar! Nada que um bom pint não resolva!

Júlia esboçou um sorriso, Patrick ficara em casa, cada vez menos sociável e ela que sempre o acompanhava decidira-se a espairecer, no aconchego do O’Leary.

-As coisas estão sérias, Liam. O Patrick está a esmorecer com a doença, e na Bolsa parece que querem aproveitar para lhe propor a rescisão, está tudo muito negro!

-Bloody bastards! -rosnou o velho baladeiro- Há que ter esperança! E pegando na guitarra cantou uma balada só para ela. Uma envergonhada lágrima caiu-lhe da face, salitrando o cappuccino. Terminada a canção, acercou-se de Júlia, pegando-lhe as mãos e olhando-a com um ar doce, animou-a:

-Júlia, estamos na Irlanda, a terra das fadas e dos duendes, onde tudo acontece. Sabes porquê? Porque há magia nas coisas. Quando queremos muito uma coisa, ela acontece, porque a força do homem é a maior de todas as magias! Interrompendo para um golo no pint, continuou:

-Um dia destes hás-de encontrar o teu four leaf clover! Um trevo de quatro folhas, you know? E quando o encontrares, guarda-o, pois todos os teus desejos se tornarão realidade. Uma folha é para a esperança, outra para a fé, a terceira para o amor e a quarta para a sorte. Believe me, i know what i’m saying!

Júlia abraçou o amigo, que não resistiu a mais um pint, e voltou para casa. Acabrunhado, Liam fazia zapping, desinteressado de tudo, o Irish Times anunciava mais desemprego, a crise atacara forte o orgulhoso tigre celta. Júlia abraçou-o e deitaram-se em silêncio, a noite estava fria e os seus corações também.

No dia seguinte, a caminho do aeroporto, para um serviço até Londres, Júlia atravessou o Phoenix Park, alguns esquilos saltitavam e o passeio era revigorante, precisava de silêncio e paz interior. Perto duma árvore, alguém esquecera um livro, o Ulisses de Joyce, o grande escritor irlandês. Ao pegar-lhe, mesmo ao lado, deparou com alguns trevos silvestres, um, mais desenvolvido tinha quatro pétalas, era a primeira vez que via um, raro e símbolo de sorte. Colheu-o, admirando-o fixamente, colocou-o dentro do livro e levou-o, Liam ficaria surpreso, quando soubesse, ainda na véspera lhe falara da lenda. Coincidência, pensou Júlia, uma flor é só uma flor.

O voo para Londres foi sem história e pela noite regressou a casa, comprara pizzas no aeroporto, com um vinho trazido da última visita a Portugal, tentaria animar Patrick, encafuado no quarto depois da sessão de quimioterapia. Metida a chave à porta, estranhou a luz mortiça, uma música suave tocava na aparelhagem e Patrick, bem-disposto, vinha da cozinha com um rosbife apetitoso. Júlia estranhou, a mesa estava posta com velas, um incenso de jasmim exalava do parapeito da janela. Antes que tivesse tempo de abrir a boca, Patrick beijou-a e puxou-a para o sofá:

-July, i have great news! Estive no hospital de manhã, o doutor Callaghan viu os meus exames e disse que estou curado! O tumor encolheu, e pode ser retirado sem perigo!

Júlia abraçou-o com veemência, beijando-lhe a cara e pescoço, alguma luz finalmente num túnel cada vez mais escuro. Mas não era tudo:

-Ah, e mais! Ligaram da Bolsa e ofereceram-me uma chefia no sector tecnológico. Isn´t that marvellous?

Arregalando os olhos, Júlia correu para a mala e sacou do Ulisses que encontrara no Phoenix Park. Lá estava o trevo de quatro folhas, Liam acertara: a magia, fazem-na os homens.

No dia seguinte, já com Patrick, voltou ao O´Leary, Liam com um pint ao lado tocava e cantava, posto a par das notícias abraçaram-se os três, fazendo o seu crack especial. Retomando o lugar junto da banda, Liam pediu silêncio e falou para os presentes que enchiam o bar:

-Fellows, hoje temos connosco a Júlia e o Patrick. Peço-vos que cantemos com eles, pois magia foi feita na sua vida. Um brinde ao Patrick e à Júlia!

E pegando na guitarra, desfiou a velha e mágica canção: “In Dublin´s fair city/Where the girls are so pretty/ I first set my eyes on sweet Molly Malone....”

sábado, 8 de junho de 2013

Sintra Generosa e Ingrata



Sintra, Sintra, quem és, lúgubre emaranhado de árvores, aracnideamente tecidas em torno de filosofal pedra e granítica sepultura? E nós, servos da Lua, aluados em torno dessa argêntea luz que ilumina e também cega?

Homens do Sonho, apesar do mar revolto e seus adamastores, seguimos-te na senda da Luz, na Estrada e não na berma deste larvar berço de lendas, mouros e cristãos, visionários e viajantes, sempre espantados com o odorizado verde e onde em presépio aninhámos casas, palácios, fontes e miradouros. E guardando, nas ladeiras, lá estão o Cruges e Calisto Elói, Garrett e Zé Alfredo, a Llansol e Nunes Claro, e o Carvalho da Pena, o druida da floresta.

Altar de poetas e palpável Parnasso, cá estão Maria Almira e Rui Mário, Jorge Menezes e Alvim, Miguel Real e Sérgio Carvalho, e também novos e generosos artistas, rodopiando debutantes em novos bailes com camélias, descobrindo e descobrindo-se à sombra tutelar do Paço.

Hipnotizados miramos o castelo de onde invisíveis ogres à noite lançam caldeirões de azeite e soturnas bruxas invadem o breu montadas em vassouras de néon. E capturados escutamos os passos do rei prisioneiro ou o ecoar das festas joaninas, Camões lendo a um rei alucinado e a condessa Elise acorrendo à Vila, ao repicar do sino em S. Martinho.

Invisíveis faunos e visíveis heróis, incensados e perdidos, esperançosos e idealistas tomam hoje lugar no camarote do Tempo, com escolta de pássaros e camélias, anunciando o festim à sombra da branca Lua. E nós na estrada, e não na berma, laboriosos jardineiros e operários da Pólis.

Contra as trevas, há que estar contra o abate de cada árvore, na divulgação dos artistas sem ribalta, firmes e com alegria com os expropriados da fama. Na luta pelo restauro do património que sangra na Vila Velha ou contra os iníquos depósitos de frustrações a que chamamos cidades. Sangrando estaremos no desfolhar do livro que é Sintra, esse incompleto missal de futuros prometidos.

Todo o futuro sem luta mais não será um dia que um passado desolador. Eis a hora de deixar pegadas, inscrever Mudança e não o seu desejo, assumir a Sociedade no palco e não num qualquer camarote de vaidades serôdias

Nos dias que hão-de vir, haveremos de nos ver por aí, e cúmplices, de olhos nos olhos, saberemos quem somos e ao que vimos, e com orgulho escreveremos  a mágica palavra Sintra.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Uma justa homenagem a Lino Pires


O português Lino Pires vai receber hoje da rainha Isabel II, a Medalha do Império Britânico, pelos serviços prestados à comunidade onde vive e ao Royal Marsden Hospital. É o primeiro português na Inglaterra a receber esta comenda.
Conheço o senhor Lino Pires de Sintra, tendo com ele estado várias vezes, recordando em especial uma noite em que com minha mãe e a sua esposa jantámos no “seu” Hotel de Seteais, onde começou a sua carreira na hotelaria e em 1958 serviu a princesa Margarida, de Inglaterra. Um ano antes, já tinha trabalhado na recepção à rainha Isabel II, no Palácio de Queluz. Recordo-o sempre como um gentleman beirão, português da diáspora, proprietário nos anos 90 de uma propriedade na Praia Grande com uma vista soberba sobre o Atlântico, que nas suas vindas a Portugal fazia sempre gosto em visitar os amigos e com eles confraternizar.
Lino Pires vive desde os anos 60 em Priors Hardwick, município de Southam, a cerca de 150 quilómetros de Londres, e foi ali que há 40 anos comprou o Butchers Arms, na altura um simples pub que Lino e a esposa, D.Augusta, já falecida, tornaram num dos mais afamados de Inglaterra. Lino Pires é também reconhecido pelas inúmeras acções de solidariedade que desenvolveu e desenvolve ainda,  desde as obras da igreja local ou o apoio que deu a instituições, como a NSPCC (que combate os maus tratos infantis), a Motor Neurone Disease Association (que trabalha junto dos portadores de doenças nouro-motoras) ou a Cruz Vermelha Britânica, organismos para os quais já doou cerca de 100 mil libras. Durante duas décadas, duas vezes por ano, abria ao público o imenso jardim da sua casa de Priors Hardwick, que algumas vezes me convidou para visitar, um jardim com dois hectares que deu inclusive um programa na BBC, o qual na altura me enviou numa cassete de VHS.
Além destas acções de solidariedade, foi também a doação de 260 mil libras ao Royal Marsden Hospital, em Surrey que justificaram a atribuição agora da Medalha do Império Britânico. O processo que levou à sua escolha iniciou-se com a candidatura apresentada por um morador da vila, acompanhada por testemunhos escritos de centenas de pessoas a comprovar as acções que realizou, entre as quais membros do Parlamento britânico e da Câmara dos Lordes, como Nigel Lawson, ex-chanceler de Margaret Thatcher.
Em 1997, a equipa médica do Royal Marsden Hospital, liderada pelo doutor Cummings, conseguiu debelar a doença cancerígena que havia sido diagnosticada a Peter, filho de Lino Pires. Como agradecimento, decidiu que iria reunir a maior verba possível e doá-la ao hospital, que desenvolve um importante projecto de investigação na área do cancro. Em 2002, Lino Pires lançou uma auto-biografia para, como explica o prefácio, apoiar o hospital: todo o dinheiro proveniente da venda dos livros foi revertido para o Royal Marsden Hospital.
Um reconhecimento justo a um português em terras de Sua Majestade.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Dez pecados de Sintra em Dia Mundial do Ambiente

O Dia Mundial do Ambiente é todos os anos celebrado a 5 de Junho, e foi criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas na resolução (XXVII) de 15 de Dezembro de 1972 com a qual foi aberta a Conferência de Estocolmo, na Suécia, cujo tema central foi o Ambiente Humano. Elevado a direito nas últimas décadas, o direito a um ambiente limpo e sustentável foi-se alargando e interiorizando nas opiniões públicas e publicadas, e é particularmente sensível em zonas de transição entre a selva de betão e a paisagem classificada, como é o concelho de Sintra. Na época do automóvel, da cacofonia sonora e visual, da suburbanidade, a que prosaicamente chamamos áreas metropolitanas, Sintra fica “entalada" entre várias realidades, continuando a subsistir muitas tarefas urgentes e a faltar uma cultura de procedimento interiorizada e enraizada. Fraquezas continuam ainda por debelar, e de forma telegráfica deixaria aqui 10 das mais notórias, a saber:
1-A deficiência e semântica do planeamento, e dificuldade em levá-lo à prática, fora dos relatórios e powerpoints;
2-A continuada falta de solução para a questão da orla costeira e das arribas instáveis;
3-O conflito entre entidades, planos, e repartições disputando a gestão administrativa do território, na prática contribuindo para a ineficiência, em benefício do infractor;
4-A precária subsistência de corredores verdes, bem como a invasiva pressão da malha urbana na “fronteira” de Chão de Meninos/Ouressa, só não devassada dada a crise e abrandamento no sector do imobiliário;
5-A falta de meios para combater a introdução de espécies invasoras, não obstante algum trabalho levado a cabo pela Parques de Sintra-Monte da Lua, na sua zona de jurisdição;
6-A falta de acções de monitorização e de equipas fitossanitárias e florestais suficientes e devidamente apetrechadas;
7-A regularização das ribeiras com impermeabilização ou encanamento das linhas de água, tendo a errada política dos anos 90 levado a situações de difícil reparação, sobretudo nos núcleos urbanos;
8-A falta duma Carta do Ruído eficaz, e que tenha em conta as diversas realidades em presença;
9-A ainda insuficiente aderência à recolha selectiva de resíduos, produto de fraquezas na educação ambiental das populações;
10-A subsistência de depósitos selvagens de sucata e vazadouros, e a pouco eficaz repressão de tais práticas, com reflexo na paisagem e qualidade de vida.
Em Dia Mundial do Ambiente, alguns tópicos, que, a não serem resolvidos, podem vir a criar muito mau ambiente…


terça-feira, 4 de junho de 2013

Sem saudades do futuro


Frequentemente, numa visão positivista da História e atenta a tentação para sermos educadamente optimistas (um optimista é um pessimista distraído) achamos que está subjacente ao futuro uma gradativa melhoria material e moral das pessoas e das sociedades, a erradicação das doenças, a resolução dos conflitos, o homem de Platão finalmente vendo a luz na caverna, num processo civilizacional sem retorno e francamente melhor que o passado, de clivagens, usura do poder, infelicidade e sofrimento. E fica bem ter saudades do futuro, desafiadores e modernos, de mentes arejadas e altruístas.
Hoje não tenho tanto a certeza de ter pressa desse futuro. Um futuro sem o pão quente e fresco da manhã e sem cheiro a vida e a natureza, asséptico e normalizado pelas ASAE desta vida; um futuro de hipercomunicação virtual cada vez mais solitários e deprimidos, em silêncio mandando frenéticos SMS uns aos outros a enganar a solidão; um futuro onde os velhos serão convenientemente depositados em armazéns a que se chamam lares e onde esporadicamente esbateremos o remorso em fugazes visitas; um futuro sem partilha que não seja a de ficheiros da net ou do Facebook; um  futuro com mais órgãos para transplante e menos almas para transplantar; um futuro sem as coisas boas da vida, da mesa e da floresta, herméticas e com código de barras, transgénicas e clonadas; um futuro anormalmente normalizado, de verbo coarctado pela verba, de cidadãos sem cidades, pessoas solitárias não solidárias, de erráticos rebeldes confundindo felicidade com euforia, orgasmo com masturbação, solidariedade com caridade e patriotismo com o hino em jogo da selecção. Desse futuro, não tenho saudades, e, meus amigos, se não for para ajudar a construir outro, deixem-me no limbo, construindo outro futuro nos meus poucos palmos de terra e milhões de hectares de imaginação. Aí, previsíveis, as araucárias acrescentarão novas folhas em cada ano, as andorinhas voltarão em Março e enquanto não forem desaparecendo na voragem dos dias de chumbo, os meus cúmplices lá irão aparecendo para a escatológica e salvífica imperial das seis, recordando os tempos em que só havia troika na Rússia e cortes eram nos dedos, logo desinfectados com álcool. 
                                                              

domingo, 2 de junho de 2013

Noites do Quivuvi


No plateau do Quivuvi, 1988 chegava ao fim, e velhos amigos reencontravam-se para mais um copo de sábado, as habituais cuba libre até por volta das seis, quando a manhã raiasse e providencial, o João Padeiro, em Nafarros, vendesse uns pães quentes, se possível com chouriço, amenizando a ressaca. Não se iria à missa, mas as capelas tinham sido corridas. Desta vez, teriam um momento decisivo, na manhã seguinte.

Margarida envolvera-se com Bernardo durante o Verão paixão de férias que prosseguiu no Outono, com idas ao Nimas e ao Charlie Brown. Foi ao som de Lover Why, dos Century que sob a bola de espelhos do Quivuvi deram o primeiro beijo, a Filipa e a Guida, amigas das noites, apadrinharam. Bernardo era empregado de mesa, o gato por que Margarida sonhara, e todas as miúdas queriam. Cena de uma noite, repetiu-se nos sábados seguintes. Quando o Verão acabou e voltou para Lisboa, Margarida inventou entrevistas para um emprego em Sintra para se reencontrarem na Adega das Caves, perto do local onde Bernardo trabalhava.

Pelo Natal, o corpo deu um sinal. Suspeição primeiro, certeza depois. Margarida estava grávida. Uma alegria seguida de medo, apoderou-se dela. O doutor Armando e a D.Georgina eram de famílias tradicionais, seria um choque a filha grávida, solteira, e dum empregado de mesa. Apesar de Abril, as mentes não estavam tão abertas assim, e Bernardo ao saber censurou-a, incauto, também ele não tomara providências, mas homem é homem, apesar das notícias sobre uma nova doença vinda da América, a SIDA, o impulso vencera a segurança. Aborto, nem pensar, a D.Georgina era católica, filha dela não faria um desmancho, severo, o doutor Armando mandou chamá-los para uma conversa.

Antes, encontraram-se no Quivuvi, com os amigos, o Natal estava próximo e o espaço a meio gás, debitando música dos Cheap Trick e Whigfield, a um canto, apreensivos, cogitaram no melhor a fazer. Passada a surpresa, Bernardo até anuiu a ter o filho, o pior era o doutor Armando e os Vasconcelos de Alencar, olhando-os inquisitoriais e condenando-os ao desterro social. A barriga de Margarida começava a ganhar forma, qualquer aborto seria arriscado. Tocada uma música dos Delfins, precipitaram-se para a pista, de mão dada. Quando alguém nasce, nasce selvagem, cantaria Miguel Ângelo mais tarde, selvagem nasceria, se necessário fosse, o fruto daquela noite na Adraga. Os amigos apoiaram, tudo correria pelo melhor, juntaram-se num brinde solidário. Ter a criança ou fugir, não havia saída. Despediram-se à porta dela, a Guida, depois de a deixar em casa levaria Bernardo ao Penedo, um beijo apaixonado coincidia com a última emissão da Rádio Cidade, suspensa nesse dia por falta de licença.

O doutor Armando era director na Câmara de Lisboa. Assoberbado em trabalho, desde que ardera o Chiado, em Agosto, braço direito do presidente Abecassis, seria candidato na eleição seguinte, escândalos destes não vinham nada a calhar no meio do seu eleitorado do Restelo e da Lapa. 
À hora marcada, Bernardo, de camisa lavada e penteado irreverente, que tanta miúda levara à certa com aquele toque desafiador,la apareceu. Não fosse a farda do restaurante e até passaria por um deles, com o seu ar altivo e olho azul. Sem grandes sorrisos, Armando mandou-o sentar num sofá, a mulher e a filha no lado oposto, grave, puxou o assunto:

-Rapaz, lamentavelmente, vejo que apesar da idade, ainda não ganhaste juízo nesse corpo. Eu, na tua idade, já era pai da Margarida, mas tudo aos olhos de Deus, só assim se pode ser um chefe de família respeitado e um exemplo para os filhos. Já mediste bem a gravidade dos teus actos? Se eu quisesse, nunca mais tinhas emprego em lado nenhum!

-Doutor Armando, eu….

-Nem mais uma palavra. A minha filha terá essa criança, nesta família não se contraria a vontade de Deus, mas tens de assinar um papel a renunciar à paternidade, e jurar-me que nunca mais te aproximarás da Margarida!

-Pai! -insurgiu-se Margarida- pai, não estamos no século XIX!. Eu amo o Bernardo, e não vou deixar de o ver. Nós vamos casar!

-Vamos?...- Bernardo perdia o controlo dos acontecimentos, aceitara o filho, gostava de Margarida, mas sem dinheiro ou casa, aquela novela não tinha verba para ser produzida. Num ápice, teve uma reacção:

-Doutor Armando, eu amo a sua filha, e vou arranjar um emprego para poder casar com ela, creia-me. Também simpatizo com o seu partido, andei a colar cartazes em Sintra nas últimas legislativas…

Armando Alencar fez uma cara de espanto: Sim?...

-Sim, doutor Armando. Portugal tem de ser governado por um governo liberal, e acabar com o regabofe esquerdista que ia dando cabo do nosso país. Aprecio muito o seu trabalho!

Margarida e os pais calavam, surpresos. Após uns segundos, Armando mandou-o embora, e que voltasse três dias depois, à porta, as mãos dadas a Margarida deixavam em aberto o desfecho daquele filme.

No dia acordado, mais distendido, Armando colocou uma solução sobre a mesa: arranjaria a Bernardo um lugar na Câmara, a começar de imediato, se estivessem de acordo casariam em Colares, no mês seguinte, enquanto a barriga mantivesse o segredo. Assim, todos ficariam contentes. No fim da reunião, um abraço correlegionário juntou sogro e genro em recente amizade, afinal, também Georgina casara de esperanças, haveria de descobrir Margarida mais tarde.

Dois anos depois, o jovem assessor do vereador Alencar, seu genro por sinal, jantava no Búzio com a família, a pequena Matilde, já começando a andar, tocava no aquário das lagostas, divertida. Velhos amigos a caminho do Quivuvi, vendo-os pela vidraça, convidaram para uma bebida, não mais haviam lá voltado depois de casar. Pais, e com responsabilidades, declinaram, entreolhando-se e dando as mãos por baixo da mesa, recordando aquele Lover Why que numa noite de Verão lhes mudara a vida. Oportunamente.

sábado, 1 de junho de 2013

Os 25 maiores sintrenses do Século XX

A propósito da iniciativa do Expresso de eleger os 100 maiores portugueses do século XX, fiz um exercício semelhante, e seleccionei igualmente um grupo de personalidades que, em minha opinião, marcaram a vida cultural e cívica de Sintra no século XX, alguns ainda vivos, felizmente, e que em artigos futuros irei revisitando. Apenas ordenados pela antiguidade cronológica do tempo em que viveram, aqui vai a minha selecção dos principais 25:

Dr. Gregório de Almeida, médico e filantropo


Carvalho Monteiro, dono da Quinta da Regaleira e benemérito


Norte Júnior, arquitecto


José da Fonseca, escultor


Carlos França, médico bacteriologista e benemérito


Nunes Claro, médico e poeta



Brandão de Vasconcelos, médico, promotor do vinho de Colares e filantropo



Carlos de Oliveira Carvalho, administrador florestal do Parque da Pena


António Medina Júnior, fundador do Jornal de Sintra


Artur Anjos Teixeira, escultor

Francisco Costa, escritor e director da Biblioteca de Sintra



Leal da Câmara, caricaturista e defensor da herança etnográfica saloia


Oliva Guerra, poetisa
 
Joaquim Fontes, médico, divulgador de história local e antigo presidente da Câmara 

Ferreira de Castro, escritor, ligado a Sintra a quem doou o seu espólio


José Alfredo Costa Azevedo, divulgador da História de Sintra, cronista, e presidente da Comissão Administrativa depois do 25 de Abril


Raul Lino, arquitecto, com várias obras emblemáticas na zona de Sintra

José Fernandes Badajoz, poeta popular

Maria Almira Medina, escritora e jornalista

Cipriano Santos, campeão do mundo de hóquei em patins e antigo presidente do HCS


Mily Possoz, pintora


Cardim Ribeiro, arqueólogo 


Olga, Marquesa de Cadaval, benemérita das artes


João de Mello Alvim, encenador, fundador do Chão de Oliva

M.S. Lourenço, filósofo e escritor

 

A decadência do comércio em Sintra

Deambulando pelas ruas de Sintra, é patente a crise nas principais artérias, e nem lojas como a Benetton escapam, deixando um rasto de desolação e abandono. 
O antigo supermercado dos Baetas
A loja da Benetton
A Pastelaria Ideal

Outra loja na R. Heliodoro Salgado.

Sobram os bancos e os chineses. Sintra Património Mundial? As crises também têm rosto, e é feio e rugoso.