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quarta-feira, 24 de abril de 2013

A recruta de Artur Baleizão



Reprovado em Direito, e com o segundo ano em atraso, em Março de 1974 Artur Baleizão foi incorporado em Santarém, em Cavalaria, o ramo onde uma besta em cima e outra em baixo, como dizia o avô, veterano da Primeira Guerra. A viagem desde o Alentejo até nem era longa, mas a perspectiva de ir parar a África não o deixava tranquilo. O pai já falara com o capitão Maia, conterrâneo de Castelo de Vide, mas a hipótese de ir para o Ultramar, finda a recruta, era incerta ainda, as coisas estavam acesas na Guiné desde que o general Spínola de lá saíra e editara um livro que deixou muita gente nervosa. Na véspera da incorporação tinham ocorrido incidentes nas Caldas, nunca percebera porquê, mas para ele, jovem miliciano, que nem os atacadores sabia atar, com espinha bífida e óculos graduados, estava como um papagaio em capoeira, suportando, estoico, a solha frita à quinta-feira e o Fernandes a ressonar e a fazer as camas à espanhola.

Nessa quarta-feira a ordem de recolher foi às nove, antes, telefonou a Mariana para que o esperasse  em Lisboa no fim-de-semana, para um copo no Jamaica. Na quinta de manhã haveria instrução de sapadores, e ainda lhe doíam as pernas do cross da véspera, vida estúpida para quem não queria fazer carreira, a farda feijão verde alvo de troça em Santa Apolónia. Não conseguiu dormir logo, havia barulho na messe dos oficiais, noite de copos pela certa, o Passos estava de serviço, esperaria por ele para um bate papo, só a luz de presença estava ligada na caserna. Aí pelas onze e meia, o segundo-comandante, furibundo, atravessou a parada aos gritos, a fazer a folha a algum, por certo, Cavalaria não era mole, e Santarém era elite. Parte dos milicianos seguiria para o contingente NATO, Tancos ou Santa Margarida, outros para África, onde Nambuangongo fora  coisa séria.

Já perto da uma, o Passos tardava e uma algazarra soou, vinda da parada, o tenente Barbeitos, apareceu aos gritos à  porta da caserna a mandar formar em dez minutos. Mais uma praxe, pensou enfadado. Todos formados, foram então informados que sairiam para uma missão em Lisboa. Ordem de equipar o M-64 e G-3 municiada, duas rações de combate por homem, até parecia ter rebentado a guerra, pensou, lembrando a guerra do Solnado. Aquele folclore sempre lhe parecera obsoleto e teatral, mas havia que ser resiliente, antes Lisboa que Bissau.

No meio do reboliço, descortinou o capitão Maia, seu patrício, enfiado num camuflado e falando em murmúrio com uns graduados. Ordenando sentido, dirigiu-se aos homens na formatura:

-Homens! Se bem que ainda não tenham a recruta completa, a vossa destreza vai ser hoje testada! Há uma missão a cumprir: marchar para Lisboa, e controlar o acesso ao Banco de Portugal, à Rádio Marconi e ao Terreiro do Paço. A nossa missão visa devolver a dignidade ao povo português, e demitir o governo que tarda em arranjar soluções para os problemas inadiáveis do nosso país! Quem estiver contra, que dê um passo atrás!

O que parecia uma praxe, era afinal coisa séria, um golpe militar. Que fazer? Por um lado, a política pastosa que o atirara para a tropa causava-lhe repulsa, mas, e se falhassem? Mal tinham feito instrução de tiro, o Forte de Elvas parecia ser o fim certo para a noctívaga aventura. Ninguém deu um passo atrás. Um oficial correu entretanto a falar ao capitão Maia:

-Está tudo em marcha. A senha foi confirmada via Romeo, tudo Oscar Kilo, meu capitão!

-Óptimo! -saltando para o Chaimite, mandou avançar para a porta de armas. Pouco passava das três da manhã, e nessa noite, pelos vistos, não haveria camas à espanhola.

Um esquadrão de reconhecimento com dez blindados e outro com cento e sessenta homens, doze viaturas, duas ambulâncias e um jipe, saía amotinado para Lisboa. Tudo isto era confuso, mas excitante, com sorte, talvez ainda essa noite bebessem um copo no Cacau da Ribeira, pensou Artur.

A entrada em Lisboa ocorreu pelas cinco e meia. No Campo Grande, um polícia olhou para a coluna mas não interferiu, manobras com certeza, não houvera nenhum alerta. O Passos e o esquadrão dele foram para o Banco de Portugal, Artur e o grupo do capitão Maia tomaram posição no Terreiro do Paço, já matinais carrinhas com legumes se dirigiam ao Cais de Sodré. Salgueiro Maia, sem encontrar grande oposição, contactou um misterioso Posto de Comando, dando conta da situação:

-"Informo que ocupámos Toledo (T.Paço), Bruxelas (Banco de Portugal) e Viena (Rádio Marconi). Diga se escuta!

-Afirmativo! -respondeu uma voz metalizada do outro lado. -Papa Charlie no controlo!

As coisas pareciam correr bem e sem oposição, até o comandante distrital da PSP veio oferecer colaboração, descongestionando o trânsito, com o amanhecer, o 28 para a Graça cruzara já a praça, deixando o guarda-freio surpreso com o aparato. Artur aproveitou para se dirigir ao capitão Maia:

-Meu capitão, vamos dar cabo do Marcelo, não vamos?

-Podes escrever, Artur, temos de pensar nos nossos filhos, e em Portugal! Esta é a nossa hora! -respondeu, pondo-lhe a mão no ombro. Apesar de sereno, tinha um ar cansado, à frente duns recrutas de surpresa virados contra o  Império.

Começando a chegar gente aos ministérios, alguns oficiais afectos ao governo apareceram a desafiar os amotinados, chegando a aquecer o ambiente com as provocações de  Ferrand de Almeida, a recusa dos seus homens em atacar camaradas fez passar os Panhard para o lado dos de Santarém. Artur regozijava, a farda verde  da chacota tornava-se agora símbolo de tenacidade e dum orgulhoso verde-esperança.

À medida que as notícias se espalharam, as pessoas invadiram as ruas. Com um frémito na espinha, viu a Mariana a acenar-lhe, de lágrimas nos olhos, perto da R. do Arsenal, o copo no Jamaica chegaria mais cedo, por certo, recruta-herói em instrução nocturna. Um beijo, soprado de longe, foi a silenciosa confirmação do sucesso.

Alucinantes, os acontecimentos sucederam-se: pessoas saindo à rua, saudando e oferecendo cigarros, a deslocação apoteótica para o  Largo do Carmo, o abraço emocionado ao Passos e aos demais camaradas do esquadrão. Uma florista no Rossio ofereceu-lhe um cravo, logo guardado para Mariana.

Passaram muitos anos, o orgasmo colectivo daquela extraordinária quinta-feira em que não houve instrução de sapadores, mudou o país de forma definitiva. Ainda hoje, advogado em Castelo de Vide, não passa um dia sem que Artur deixe uma flor na soleira da casa onde nasceu o capitão Maia, vertendo uma melancólica lágrima ao lembrar aquela madrugada chuvosa em que um punhado de recrutas saltou apressado do beliche para um encontro com a História.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A cabala


Eliminar o caos, a dor, o sofrimento, tal o desígnio do engenheiro Ezequiel Levi, judeu e cabalista nas horas vagas, intérprete do Livro da Formação, o Sepher Yetsirah dos seus antepassados marranos, iniciado maskilim e céptico do Talmud. Encafuado no seu retiro da Ulgueira, em cada frase das escrituras descortinava sentidos escondidos, e ao procurar reconhecer fontes negativas na mente e coração, acreditava estar a contribuir para uma interioridade positiva, livre de egoísmos e próxima de Deus. Tardiamente separado de Greta, uma norueguesa com quem casara no tempo em que trabalhara numa plataforma petrolífera, reformado e dado às espiritualidades, vivia junto ao mar, com um gato e uma governanta, a Cecília, que de tudo o aliviava para que se dedicasse aos seus estudos e elucubrações. Já entrado nos setenta, como ela, divorciado e sem herdeiros, fizera testamento a favor da governanta, deixando-lhe a casa da Ulgueira uma vez que partisse, só ela o aturava nesse fim de vida, era justo que por tal fosse recompensada. Jurando nada querer, Cecília ia aguentando as taras de Ezequiel, ciente de que, apesar das excentricidades, a segurança de uma casa compensaria a sua paciência de santa. Em dias de maior excitação, Ezequiel procurava doutriná-la, mas Cecília, simples e de poucas letras, era doutorada sobretudo nos pastéis com que aconchegava o estômago do aprendiz de cabalista:
-Sabes, Cecília, a Cabala ensina-nos que todo o ser humano é uma obra em execução. Qualquer dor, desapontamento ou caos que exista nas nossas vidas, não ocorre por fatalismo, mas apenas porque ainda não terminámos o trabalho que nos trouxe até aqui. É preciso libertarmo-nos do egoísmo e criar afinidade com Deus!
-Senhor Ezequiel, eu para mim, já faço a minha parte. Todos os domingos assisto à missa aqui na Ulgueira, e sou muito devota de Nossa Senhora do Cabo, fique sabendo! -rematava a velha criada, para quem os calhamaços espalhados pelo chão mais não eram que um entrave para limpar o pó, tudo queimado ainda era pouco, pensava.
-É preciso a verdade, enfrentar o mundo com paciência, ter empatia com o nosso semelhante…- repetia-lhe, esbracejando pela sala, enfiado num roupão de cetim que lhe conferia um ar aristocrático.
-Sim, sim, lá empatia não tenho, graças a Deus, que o Dr. Botelho diz que estou rija, felizmente, mas olhe, até costumo ajudar o Exército de Salvação de Colares, e tudo…
Aluado, Ezequiel mergulhava na obra do rabino Kook, o primeiro rabino ashkenazi de Israel e fundador da Merkaz Harav. Devorando versões traduzidas do Livro da Criação, de Abraão, o Sefer Yetzirah, e do Bahir, do rabino Ben Hakana, Ezequiel procurava a paz e a verdade de que andara afastado em anos de vida materialista e mundana, dependente do álcool e com uma relação atribulada com Greta, que voltara para a terra natal depois do divórcio, ambos já entrados nos sessenta.
-O Zohar diz-nos que a alma humana possui três elementos, o nefesh, o ru'ach, e o neshamah. O ru'ach, a alma mediana, contém as virtudes morais e a habilidade de distinguir o bem e o mal. Como achas que está o teu ruach, Cecília?
Cecília encolhia os ombros, já habituada às excentricidades. Não fosse a promessa de herdar a casinha, depois dele bater a bota, e já se teria despedido.
Alguns meses ainda durou Ezequiel, devotado aos seus livros e estudos. Procurando uma tardia redenção no fim dos seus dias, sabedor de ter uma doença terminal, refugiava-se no estudo da alma, diariamente visitado pela Cecília, que lhe fazia a lida da casa e as refeições, voltando para o marido ao fim da tarde.
Um final de tarde, já no Verão, Ezequiel finou-se, em paz, partindo finalmente para a terra do Deus de Abraão. Como combinado, Cecília providenciou-lhe um enterro judaico, em Lisboa, aos livros e papéis encaminhou para Sintra, à guarda do Arquivo Histórico, que em sua homenagem abriria uma sala na biblioteca. O principal seria passar a casa para seu nome, uma vez lido o testamento do qual era única beneficiária, e foi isso que procurou tratar no cartório. Para pasmo da devotada governanta, do testamento cerrado constavam apenas frases enigmáticas da cabala, e a doação dum serviço de mesa que Cecília tanto gabava. Com medo de a perder e aos seus cuidados, Ezequiel nunca confessara que a quando do divórcio de Greta, a casa da Ulgueira ficara para ela, com reserva de usufruto em vida do engenheiro.
Depois de morto, o safardana pregava a partida à desinteressada Cecília, revelando que a sua alma mediana, esse ru'ach da virtude, do bem e do mal, mais que prática assimilada, não passara afinal de sórdida judiaria enredada por uma tortuosa cabala, movida não pela prática do bem e da redenção, mas mais atenta aos valiosos e quase gratuitos préstimos de fada do lar e seus divinais pastéis de feijão.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sintra desertificada



A crise que se abateu sobre os estabelecimentos de restauração e no sector dos bares e cafés, em particular, é visível no panorama de Sintra, onde sempre foi apontada a falta de espaços para tal fim, atenta a circulação diária de centenas de turistas.
Muitos bares que antes faziam o horário tradicional optaram por abrir só algumas horas por dia, (o Saloon, o Legendary Cafe, o Sabot) outros fecharam (veja-se o caso da Ideal, na Estefânea, que funcionava desde 1936, há algum tempo encerrada) a par do panorama desolador da Heliodoro Salgado, a rua pedonal, donde vários estabelecimentos sumiram, como a papelaria Parracho, a Cintrália, e outros(até a loja da Benneton...).
E os estabelecimentos que resistem parecem ter chegado ao fim da linha, obrigados a praticar preços com margens irrisórias, sobrando os cacofónicos chineses, alguns espaços menos cuidados (o bar da estação, o Café Elite, ou a Adega do Saloio, só para dar alguns exemplos)e os bancos, catedrais da usura do nosso descontentamento. Nota positiva para o Café Saudade, e, numa óptica de consumo de passagem e da bica ao balcão, o Tirol ou o Monserrate, excluindo-se aqui a Vila Velha, com os seus preços turísticos
O elevado valor do IVA praticado, a retracção do consumo, as rendas elevadas e a inenarrável imposição de novas e dispendiosas máquinas têm levado a tal estado de coisas, de tal modo que um dia destes o deserto pode ser total. Dias negros, estes que se vivem

terça-feira, 16 de abril de 2013

Palmira



-Está lá? –António, esfregando os  olhos, tentava acordar- Está sim?

Já prestes a desligar o telemóvel, uma voz respondeu do outro lado:

-Sim... António? Sou eu, o Marco.

-Marco! Que se passa, já vistes  que horas são?

-António, tinhas razão. Nunca me devia ter metido com ela…

-De que estás a falar? Metido com quem?

-Veio  buscar-me, eu sei... Está à janela, desde que anoiteceu.

-Marco – insistiu António, tentando manter a calma – andaste a beber? Quem está à janela?

-Palmira…

A ligação caiu. António levantou-se, num misto de raiva e preocupação. Não era a primeira vez que Marco o acordava a meio da noite, mas havia algo diferente neste telefonema, Marco parecia assustado. Pegou no telemóvel e ligou para o amigo, mas a chamada foi parar à caixa das mensagens.

-Ah, que se lixe! – apagou a luz do candeeiro, estava bêbado, por certo, nem sequer se iria lembrar no dia seguinte. No entanto não conseguiu voltar a adormecer, ficou com a sensação de que algo havia acontecido. Olhou para o despertador, 4:30h da manhã. Se saísse de carro, chegaria à casa de Marco já dia. Isto é de loucos, pensou enquanto se vestia. -Bolas, Marco, se te encontro a  dormir e a curá-la, vais ter de te ver comigo!

Saiu de Colares e apontou à casa de Marco, na Vila Velha. Marco tinha-se mudado para lá recentemente,  escritor, trabalhava num livro inspirado na vida do conde de Valenças, antigo proprietário do edifício hoje Arquivo Histórico da Câmara.  Luís Jardim morrera há anos, para Marco era uma interessante fonte de informações sobre Sintra em finais do século XIX. Tentou lembrar-se do que ele disse, algo sobre alguém que teria ido buscá-lo...Palmira. Quem seria essa Palmira? Uma familiar do conde descontente, por certo, Marco tinha um talento especial para se meter onde não devia.

Passava das cinco da manhã quando chegou ao casarão, com uma localização magnífica, perto  do velho Paço. A porta da frente estava aberta, empurrou-a, lá dentro, tudo em silêncio, ninguém respondeu. Vasculhada a casa, nenhum sinal de violência ou de arrombamento, talvez Marco  nem estivesse em casa quando lhe ligou. De qualquer forma, decidiu-se a esperá-lo, queria saber como ia o livro e  quem era a tal Palmira. O escritório tinha uma enorme janela com vista para a serra, numa escrivaninha, aberto, estava um computador portátil e na parede um quadro reproduzia a paisagem que se via da janela, com o Palácio Valenças destacado a uns duzentos metros, conquanto no quadro um pequeno vulto branco surgisse miniatural numa janela. Nem sinais de Marco. Sentou-se diante do computador, estava aberto numa mensagem de e-mail:“ “Caro Marco. Seguem em anexo as cópias dos documentos que pediu. Um abraço. Montoito ”Anexados, três documentos.

A curiosidade começou a mordê-lo. Abriu um dos documentos, era a escritura da compra do palácio pela Câmara, no final dos anos 30. Um outro documento  continha a cópia de um contrato de comodato entre a Câmara e dois criados do conde, Albertino e Palmira, um casal a quem não quis deixar na rua, garantindo-lhes morada para o resto da vida nuns anexos do palácio, com a venda quase todo destinado à nova biblioteca. Noutro anexo, a foto de uma mulher jovem, a sépia, tirada aí sessenta anos antes. Havia ainda uma pasta chamada Palmira com uma série de artigos de jornal, num deles, já antigo, o recorte de uma gazeta de Lisboa relatava a bizarra morte em Sintra de uma criada traída por uma paixão impossível por um patrão a quem a classe social apartava e que, em desespero, se lançara da janela da mansão, desesperando de um  amor impossível.

António recostou-se numa cadeira, pensativo. Voltando ao computador, abriu mais um ficheiro. Outro recorte, com uma foto do conde de Valenças, sorrindo, em baixo uma legenda “Aristocrata vende palacete em Sintra ”. Observou-a com atenção  e virou-se para o quadro atrás de si, era a mesma casa renascentista: janelas trabalhadas, a serra sobranceira atrás. Luís Jardim, o conde, morrera há muito, era a inspiração de Marco para o novo livro, muitas vezes pusera os belos jardins do Duche à disposição do povo, para fruição e lazer.

Havia uma foto familiar num salão com a família do conde, a um canto, uma jovem de olhos penetrantes servia chá num bule de Limoges, uma criada, cujas feições chamaram a atenção de António, uma Pola Negri da plebe, pensou. No verso da foto, os nomes de todos: Luís, Adelaide, o conde da Idanha, de visita, e Palmira, a criada do bule. Começou a abrir mais ficheiros, à procura de partes do livro em que Marco estava a trabalhar, embrenhado já naquela história intrigante. Eram histórias de aparições, e relatos de cenas estranhas ocorridas no palácio, em anos recentes. E por que motivo Marco lhe falara duma tal Palmira ao telefone? O rascunho do livro levantava suspeitas sobre esses incidentes no Palácio Valenças, insinuando que algo misterioso na velha casa estaria na origem de algumas mortes, aparentemente de causas naturais, a última, a de um subdirector do Arquivo, aparentemente de ataque fulminante, certa vez que ficara a fazer serão. Só se deu conta que o tempo passara quando o sol começou a aparecer no horizonte. Pela janela pôde ver os raios nascendo, e o ruído de uma charrete enferrujada, já próximo da casa. Levantou-se, preocupado, pensando se não seria melhor chamar a polícia, o amigo continuava desaparecido, afinal. Na parede, o quadro já não era igual, porém. A visão do palácio Valenças continuava a mesma, mas a janela central estava agora aberta, e atrás dum cortinado branco via-se tenuemente um vulto de mulher idosa, o ponto branco que inicialmente vira minúsculo no quadro. Saiu da casa a correr, e quando chegou à rua, já na Volta do Duche, descortinando a janela do palácio aberta, atrás do grosso cortinado  foi nítida a visão dum vulto branco, igual ao do quadro em casa de Marco, segundos antes. Palmira, já velha, espreitava, antes que o dia nascesse. Quem levaria desta vez?   


sábado, 13 de abril de 2013

O governo dos teóricos



Face a uma crise de proporções anormais, seria de pensar que os melhores e mais experientes seriam convocados para lidar com uma realidade que se sente nos locais de trabalho, escolas, hospitais ou transportes de forma amarga e pesada. Um governo presidido por alguém que nunca geriu uma empresa, e prega a favor do emprendedorismo , chamando piegas a quem não arrisca, mas se acobertou toda a vida em lugares nas juventudes partidárias ou empresas de correlegionários amigos, não pode conduzir o país a uma solução que a todos envolva, olhando as pessoas como compatriotas e iguais, mas como meros números em folhas de Excel ou anódinos powerpoints .
A par do seráfico e académico Gaspar, do universitário Álvaro ou dos tirocinantes estagiários Mota Soares e Cristas, "reforça-se" agora o governo com os "experientes" teóricos Maduro e Lomba, tudo concorrendo para constituir uma associação académica mais que o Governo de um país em crise. É o que há, dirão alguns. Mas se não há mais e melhor, bem podemos começar a tratar dos vistos, ou tomar atitudes consequentes de uma vez por todas. E isto tem a ver com outros partidos, também. Um Governo de emergência nacional tem de convocar os empresários de sucesso, o mundo do trabalho, a academia e todos os que ao longo dos anos com experiência acumulada aprenderam a lidar com as crises, e assim dar avisado contributo. Defensor da juventude e de ideias arejadas, penso porém faltar cabelo branco e o saber da História nos centros do actual poder. Sobram os boys, mas, infelizmente, só bad boys.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Palácio Valenças: fantasmas e ratazanas

 


O Palácio Valenças, em Sintra, antiga residência do conde de Valenças, genro do rico proprietário António Ferreira dos Anjos, que o mandou construir, tem vindo a ser referido num livro sobre casas assombradas de Portugal, nomeadamente por nele se relatar a história do fantasma de Palmira, uma serviçal do conde, que, apaixonada por ele e por um amor impossível, lá se terá suicidado. Com o passar dos anos, tendo a Câmara de Sintra aí instalado a Biblioteca, e tendo uma Palmira, antiga empregada, habitado numa zona inferior do edifício durante alguns anos ainda após a instalação da biblioteca, quando esta faleceu, funcionários mais brincalhões, a fim de assustarem os colegas mais crédulos, começaram a pregar partidas em torno do seu suposto fantasma, provocando o ranger de tábuas, ruídos silvantes ou manipulando os relógios, dando a impressão de os ponteiros andarem sozinhos. Tais histórias são conhecidas, e antigos funcionários da biblioteca, como o Ferrão, o Rodrigues ou o Félix, delas poderiam dar testemunho, se vivos fossem, tendo o “boca a boca” conduzido à pitoresca história que hoje consta de alguns livros, e que, diga-se de passagem, conferem um perturbante mistério a Sintra, para azar da pobre Palmira,  eternamente condenada a alma penada.
Do Valenças, igualmente se conta a famosa história da ratazana suicida. Antigos funcionários da biblioteca hoje ainda recordam de forma bem humorada a história dumas obras numa casa de banho, onde, dum esgoto aberto, terá certa vez saído uma corpulenta ratazana, que, acto contínuo um dos pedreiros terá morto e, pegando pela cauda, lançado pela janela, com tanto azar que foi a mesma estatelar-se numa mesa do Parque das Merendas, onde, incrédula, uma família inglesa a viu cair, vinda do céu. Considerando o caso imperdoável, o inglês, por sinal inspector da Scotland Yard, apresentou queixa na biblioteca, e exigiu explicações, ao que, com bonomia, os funcionários responderam com as tendências suicidárias do perturbado roedor. Valeu a boa disposição do inglês, que percebendo a história, invocou a qualidade de vegetariano para dispensar tão inusitado presente, partindo para Inglaterra com a imagem de Sintra, terra de palácios e ratazanas. Assim nascem as histórias e lendas. E fico por aqui, que sinto a Palmira a aproximar-se, tossindo.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O Jardineiro de Deus


Tarde, mas não tarde demais, foi atribuído ao arquitecto Ribeiro Teles o prémio de carreira a que, no final de uma vida de causas, o mesmo tem justamente direito.
Afastado da ribalta política, mas com um longo percurso de opositor ao antigo regime, monárquico convicto, ministro e parceiro da Aliança Democrática de Sá Carneiro, a ele se deve um longo processo de missionação” em torno do território e dos valores e realidades que o mesmo encerra, enquanto nossa Casa Comum e como muitas vezes contra ele procedemos, em actos que a Natureza, soberana, mais tarde acaba por ter a derradeira palavra.
Em Abril do ano passado, deu-nos a honra de participar num colóquio que a Alagamares organizou para chamar a atenção dos arboricídios e crimes ambientais em Sintra ocorridos nos últimos anos e décadas. Foi um Gonçalo Ribeiro Telles ágil e interventivo quem com a sua palavra avisada e experiente dominou a sala da Sociedade União Sintrense, para ouvir o “pai” da reserva Agrícola e da Reserva ecológica Nacional (com o tempo vilipendiadas, e elevadas a obstáculo burocrático na mão das câmaras e entidades) que enfatizou o papel da árvore no jogo entre o colectivo e o convívio, lembrando ser a Eco indispensável ao desenvolvimento, e  ironizando ter sido por a ter descurado “sido o homem expulso do paraíso”. Vivemos na era do Caos, asseverou, o que dificultou a potencialidade da fixação, ensinando que são os países que garantem a biodiversidade os que mais têm potencialidade de segurança, e que foi a compartimentação dos espaços agrícolas o que permitiu o desenvolvimento da civilização actual.
Garantir um contínuo verde através das cidades deverá ser um mandamento do planeamento, ensinou, na luta contra o Caos e distribuição especulativa do território.”Continuamos no tempo da mancha e não do desenho do paraíso”, rematou então, referindo-se à visão fragmentada que os instrumentos de gestão territorial fazem de realidades amplas e interligadas.
Aos 92 anos, premonitório, Gonçalo Ribeiro Telles continua a ser o zeloso Jardineiro de Deus.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

O insustentável peso da burocracia



Um amigo que recentemente abriu um restaurante em Sintra, sendo a localização do mesmo um quanto desviada do caminho tradicional Estação da CP- Centro Histórico procurou obter uma licença para colocar um pequeno placard indicando a localização do mesmo, a partir de certo troço do percurso mais utilizado pelos visitantes, sobretudo os turistas,chamando a atenção de que, desviando-se uns poucos metros para a rua do lado, aí poderia encontrar a preços módicos uma  boa oferta de restauração. Está a falar-se de um pequeno cartaz pendurado duma parede, aí de 1mX40 cm, e onde, de forma singela, se anuncia o nome do espaço, com uma seta no mesmo cartaz indicando a distância do mesmo. Pessoa zelosa de cumprir com a legalidade, procurou informar-se das diligências a tomar, desde logo sendo informado duma série de obstáculos, como se de um outdoor ou um anúncio descomunal se tratasse.
Compulsado o Regulamento Municipal de Publicidade, em vigor desde Novembro de 2011, logo esmoreceu na singela vontade de divulgar o espaço que com dificuldade abriu e mantêm, em tempos difíceis para o sector da restauração.
Tudo teria de começar por um pedido de licenciamento para a “perniciosa” intenção, liturgicamente acompanhado de memória descritiva, documentos do edifício atestando estar o restaurante legal; fotos e planta de localização, além das restrições de que desde logo foram avisando: se for no Centro Histórico nem pensar, nas árvores não, nos cruzamentos nunca, a cores é mau e luminoso proibido, não pode prejudicar os carros nem os peões, colagem ou perfuração jamé, bem como ser necessário um preparo, a devolver caso não seja deferido o pedido. E o horário da permanência, o NIF, o BI, a licença de utilização do restaurante,  uma descrição gráfica à escala 1/50, fotos a cores com fotomontagem do anúncio previsível em folhas A4, termo de responsabilidade, seguro, etc.
O tal Regulamento, interminável labirinto de 65 páginas para masoquista seguir, aponta ainda para a possibilidade de vir a ser pedido estudo de integração visual ou paisagística, caso assim se entenda, autorização de outros proprietários que possam vir a sentir-se prejudicados com a publicidade constante do tal cartaz, sendo farto em proibições e restrições, face às quais, muito dificilmente tal pretensão verá a luz do dia. Quanto a coimas para tão aviltante crime de desobediência, se porventura insistir no intento, desistindo de dar tais passos, estas vão de 2 vezes o salário mínimo nacional (as mais pequenas) até 7 vezes esse valor, a que podem acrescer sanções acessórias como a proibição de exercício da actividade na área do Município, o encerramento do estabelecimento, a privação de participação em hastas públicas ou obtenção de subsídios, entre outras medidas justicialistas.
Concluída a leitura do livro dos horrores, esmoreceu e foi para casa. Quem vai querer afixar um A4 que seja, para tentar sobreviver, na selva burocrática que, por muitos Simplex’s ou balcões do empreendedor, persiste em dominar as mentalidades assim sabotando a economia real? Uma dose de bom senso convidaria a maioria a cumprir a lei, a fúria proibitiva reinante, ao invés,  incentiva a ilegalidade e o chico-espertismo, e, apesar dos discursos e de muita gente bem intencionada em muitos serviços públicos, a criação de dificuldades ainda é a razão de ser de muitos, quanto mais não seja para justificarem a razão de existirem.

Sob o signo de Câncer



Praia Grande, sábado à tarde. Mirones a ver o mar e ser vistos, um passeio pelo areal, a Galé e o Angra servindo imperiais e gambas, com vista para o infinito. Na esplanada, a Rogério Pedreira apenas uma notícia interessou, discreta num matutino, o suicídio perto de Cascais de um homem a quem um cancro terminal precipitara de um quinto andar, enquanto na sala um CD reproduzia o Requiem de Mozart, fotografias de família cobriam o chão. Rogério, clínico no IPO, lembrava-se daquela cara, o sr. Gustavo, seu doente, bancário reformado, durante uns meses confiante nas consultas, os tratamentos faziam temer uma ligeira regressão, não o via porém há mais de um mês. A notícia era vaga, ilustrada por uma foto do falecido, aí com dez anos menos, a esposa estava inconsolável. Esta era a parte da notícia que para ele não batia certo. O Gustavo sempre se dissera viúvo, lembrava-se mesmo de o ouvir dizer que jantava numa leitaria, pois não sabia cozinhar, teria casado entretanto?
Ao chegar a casa, buscou o bloco-notas, e lá descobriu os dados do falecido: Gustavo Silvestre, 57 anos, de Soure, morador em Queluz. Viúvo, um filho. Pólipos no intestino grosso e sangue nas fezes. Metastizadas, foram-lhe detectadas células cancerígenas nos gânglios linfáticos, já muito disseminadas pelo fígado. Um número de telefone deixou-o hesitante: telefonaria a dar os pêsames, e assim saber quem seria a esposa de que os jornais falavam, ou passaria adiante, médico e morte são rivais, mas também parceiros. Ligou. Após alguns segundos, uma voz feminina, já madura, atendeu do outro lado:
-Está lá?
-Sim? Boa tarde minha senhora, é da família do senhor Gustavo?
-Sou a viúva…
-Sou o dr. Rogério Pedreira, e até há pouco fui seu médico, no IPO. Vinha apresentar as minhas condolências. O caso dele era sério, mas lamento que tenha desistido, ainda havia esperança numa vida com dignidade, pelo menos…
Do outro lado, após breve hesitação, enigmática, a viúva respondeu:
-Muito obrigado senhor doutor. Mas a doença que o matou foi outra…
-Outra? Como assim?
-Senhor doutor, posso passar no IPO um dia destes? Gostava que soubesse a verdade, era um alívio para mim, também….
-Com certeza, dona…
-Sara. Sara Geraldes.
-Apareça então segunda-feira, D. Sara, dou consulta a partir das três, passe um pouco antes.
Na sala de espera, no IPO, uma senhora com menos de quarenta anos, fato azul e óculos escuros, aguardava em silêncio. Antes de a receber, Rogério mirou-a ao longe atentamente, os médicos desvendam os segredos do corpo mas muitas vezes desconhecem os segredos da mente, cada doente com um passado em busca de futuro, ameaçado se for no IPO. Mandou entrar. A senhora cumprimentou, discreta mas afável.
-Pois mais uma vez os meus sentimentos, minha senhora. O seu marido era um doente abnegado, e se quer que lhe diga, até persistente, fiquei admirado com este desfecho bastante triste. E já agora, foi para mim uma surpresa saber da sua existência, ele sempre me disse ser viúvo…
-E era, senhor doutor. Vou-lhe contar tudo, e talvez entenda o que se passou…
-Faz favor...
A viúva, de aspecto bem tratado, quase da mesma idade do médico, desfiou a história lentamente:
-O Gustavo e eu tivemos uma relação durante mais de dez anos. Fomos colegas no banco, e, discretamente, mantinha com ele encontros em segredo, ele gostava da mulher, e nunca quis dar-lhe esse desgosto. Tinha uma vida dupla, se assim posso explicar…
-Compreendo.
 -Depois da morte da mulher, adoeceu, como o doutor sabe, e de livre vontade entendeu que devíamos casar, fazia questão. Eu hesitei, o filho nada sabia, nem de mim nem da doença, e podia não entender. E não entendeu. No dia do casamento, o Gustavo telefonou-lhe a contar, mas ele ficou possesso e disse que nos matava, que era uma afronta à memória da mãe, e que eu era uma rameira, enfim…
-Caso complicado, estou a ver…
-De qualquer modo, casámos. Há três semanas, pelo registo. Ele sentia a doença avançar, mas vou recordar para sempre estas três semanas de felicidade, apesar de viver amargurado por causa do filho. Há uma semana, ele foi lá a casa, embriagado, e disse-lhe que era um pulha e sem vergonha, e que quando morresse o mandaria para a vala comum, e cuspiria em cima. Foi muito chocante, até lhe disse que o cancro ainda era pouco castigo.
-As famílias são uma coisa complicada…-comentou, ele próprio com o casamento na corda bamba.
-A discussão deixou-o muito abalado, o filho proibiu-o até de ver o neto. Nessa noite, foi deitar-se, e não pregou olho, ficou sentado no sofá a ouvir música e a beber, apoquentado. Até que na quarta-feira, levantou-se para ir à casa de banho, e já só vi as cortinas a esvoaçar e um ruído de travagem na rua.
O cancro flagelando o corpo, o filho flagelando a alma, despedia-se deixando uma carta para Sara, saía de jogo antes que soasse o apito para o fim. Rogério acompanhou a viúva à porta e voltou para os seus doentes, terminais uns, famintos de vida outros, sem ter para quem viver, o dossier de Gustavo de vez no arquivo morto.
No sábado seguinte, Rogério voltou à Praia Grande. Jovens surfistas cortavam as ondas, doses de amêijoa passavam para a mesa do fundo, Rogério, retomando a rotina e levantando os olhos do mórbido matutino das desgraças, por momentos pareceu ver o Gustavo ao fundo, na falésia, mirando o horizonte e ouvindo o Requiem de Mozart. RIP.