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quinta-feira, 11 de abril de 2013

O Jardineiro de Deus


Tarde, mas não tarde demais, foi atribuído ao arquitecto Ribeiro Teles o prémio de carreira a que, no final de uma vida de causas, o mesmo tem justamente direito.
Afastado da ribalta política, mas com um longo percurso de opositor ao antigo regime, monárquico convicto, ministro e parceiro da Aliança Democrática de Sá Carneiro, a ele se deve um longo processo de missionação” em torno do território e dos valores e realidades que o mesmo encerra, enquanto nossa Casa Comum e como muitas vezes contra ele procedemos, em actos que a Natureza, soberana, mais tarde acaba por ter a derradeira palavra.
Em Abril do ano passado, deu-nos a honra de participar num colóquio que a Alagamares organizou para chamar a atenção dos arboricídios e crimes ambientais em Sintra ocorridos nos últimos anos e décadas. Foi um Gonçalo Ribeiro Telles ágil e interventivo quem com a sua palavra avisada e experiente dominou a sala da Sociedade União Sintrense, para ouvir o “pai” da reserva Agrícola e da Reserva ecológica Nacional (com o tempo vilipendiadas, e elevadas a obstáculo burocrático na mão das câmaras e entidades) que enfatizou o papel da árvore no jogo entre o colectivo e o convívio, lembrando ser a Eco indispensável ao desenvolvimento, e  ironizando ter sido por a ter descurado “sido o homem expulso do paraíso”. Vivemos na era do Caos, asseverou, o que dificultou a potencialidade da fixação, ensinando que são os países que garantem a biodiversidade os que mais têm potencialidade de segurança, e que foi a compartimentação dos espaços agrícolas o que permitiu o desenvolvimento da civilização actual.
Garantir um contínuo verde através das cidades deverá ser um mandamento do planeamento, ensinou, na luta contra o Caos e distribuição especulativa do território.”Continuamos no tempo da mancha e não do desenho do paraíso”, rematou então, referindo-se à visão fragmentada que os instrumentos de gestão territorial fazem de realidades amplas e interligadas.
Aos 92 anos, premonitório, Gonçalo Ribeiro Telles continua a ser o zeloso Jardineiro de Deus.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

O insustentável peso da burocracia



Um amigo que recentemente abriu um restaurante em Sintra, sendo a localização do mesmo um quanto desviada do caminho tradicional Estação da CP- Centro Histórico procurou obter uma licença para colocar um pequeno placard indicando a localização do mesmo, a partir de certo troço do percurso mais utilizado pelos visitantes, sobretudo os turistas,chamando a atenção de que, desviando-se uns poucos metros para a rua do lado, aí poderia encontrar a preços módicos uma  boa oferta de restauração. Está a falar-se de um pequeno cartaz pendurado duma parede, aí de 1mX40 cm, e onde, de forma singela, se anuncia o nome do espaço, com uma seta no mesmo cartaz indicando a distância do mesmo. Pessoa zelosa de cumprir com a legalidade, procurou informar-se das diligências a tomar, desde logo sendo informado duma série de obstáculos, como se de um outdoor ou um anúncio descomunal se tratasse.
Compulsado o Regulamento Municipal de Publicidade, em vigor desde Novembro de 2011, logo esmoreceu na singela vontade de divulgar o espaço que com dificuldade abriu e mantêm, em tempos difíceis para o sector da restauração.
Tudo teria de começar por um pedido de licenciamento para a “perniciosa” intenção, liturgicamente acompanhado de memória descritiva, documentos do edifício atestando estar o restaurante legal; fotos e planta de localização, além das restrições de que desde logo foram avisando: se for no Centro Histórico nem pensar, nas árvores não, nos cruzamentos nunca, a cores é mau e luminoso proibido, não pode prejudicar os carros nem os peões, colagem ou perfuração jamé, bem como ser necessário um preparo, a devolver caso não seja deferido o pedido. E o horário da permanência, o NIF, o BI, a licença de utilização do restaurante,  uma descrição gráfica à escala 1/50, fotos a cores com fotomontagem do anúncio previsível em folhas A4, termo de responsabilidade, seguro, etc.
O tal Regulamento, interminável labirinto de 65 páginas para masoquista seguir, aponta ainda para a possibilidade de vir a ser pedido estudo de integração visual ou paisagística, caso assim se entenda, autorização de outros proprietários que possam vir a sentir-se prejudicados com a publicidade constante do tal cartaz, sendo farto em proibições e restrições, face às quais, muito dificilmente tal pretensão verá a luz do dia. Quanto a coimas para tão aviltante crime de desobediência, se porventura insistir no intento, desistindo de dar tais passos, estas vão de 2 vezes o salário mínimo nacional (as mais pequenas) até 7 vezes esse valor, a que podem acrescer sanções acessórias como a proibição de exercício da actividade na área do Município, o encerramento do estabelecimento, a privação de participação em hastas públicas ou obtenção de subsídios, entre outras medidas justicialistas.
Concluída a leitura do livro dos horrores, esmoreceu e foi para casa. Quem vai querer afixar um A4 que seja, para tentar sobreviver, na selva burocrática que, por muitos Simplex’s ou balcões do empreendedor, persiste em dominar as mentalidades assim sabotando a economia real? Uma dose de bom senso convidaria a maioria a cumprir a lei, a fúria proibitiva reinante, ao invés,  incentiva a ilegalidade e o chico-espertismo, e, apesar dos discursos e de muita gente bem intencionada em muitos serviços públicos, a criação de dificuldades ainda é a razão de ser de muitos, quanto mais não seja para justificarem a razão de existirem.

Sob o signo de Câncer



Praia Grande, sábado à tarde. Mirones a ver o mar e ser vistos, um passeio pelo areal, a Galé e o Angra servindo imperiais e gambas, com vista para o infinito. Na esplanada, a Rogério Pedreira apenas uma notícia interessou, discreta num matutino, o suicídio perto de Cascais de um homem a quem um cancro terminal precipitara de um quinto andar, enquanto na sala um CD reproduzia o Requiem de Mozart, fotografias de família cobriam o chão. Rogério, clínico no IPO, lembrava-se daquela cara, o sr. Gustavo, seu doente, bancário reformado, durante uns meses confiante nas consultas, os tratamentos faziam temer uma ligeira regressão, não o via porém há mais de um mês. A notícia era vaga, ilustrada por uma foto do falecido, aí com dez anos menos, a esposa estava inconsolável. Esta era a parte da notícia que para ele não batia certo. O Gustavo sempre se dissera viúvo, lembrava-se mesmo de o ouvir dizer que jantava numa leitaria, pois não sabia cozinhar, teria casado entretanto?
Ao chegar a casa, buscou o bloco-notas, e lá descobriu os dados do falecido: Gustavo Silvestre, 57 anos, de Soure, morador em Queluz. Viúvo, um filho. Pólipos no intestino grosso e sangue nas fezes. Metastizadas, foram-lhe detectadas células cancerígenas nos gânglios linfáticos, já muito disseminadas pelo fígado. Um número de telefone deixou-o hesitante: telefonaria a dar os pêsames, e assim saber quem seria a esposa de que os jornais falavam, ou passaria adiante, médico e morte são rivais, mas também parceiros. Ligou. Após alguns segundos, uma voz feminina, já madura, atendeu do outro lado:
-Está lá?
-Sim? Boa tarde minha senhora, é da família do senhor Gustavo?
-Sou a viúva…
-Sou o dr. Rogério Pedreira, e até há pouco fui seu médico, no IPO. Vinha apresentar as minhas condolências. O caso dele era sério, mas lamento que tenha desistido, ainda havia esperança numa vida com dignidade, pelo menos…
Do outro lado, após breve hesitação, enigmática, a viúva respondeu:
-Muito obrigado senhor doutor. Mas a doença que o matou foi outra…
-Outra? Como assim?
-Senhor doutor, posso passar no IPO um dia destes? Gostava que soubesse a verdade, era um alívio para mim, também….
-Com certeza, dona…
-Sara. Sara Geraldes.
-Apareça então segunda-feira, D. Sara, dou consulta a partir das três, passe um pouco antes.
Na sala de espera, no IPO, uma senhora com menos de quarenta anos, fato azul e óculos escuros, aguardava em silêncio. Antes de a receber, Rogério mirou-a ao longe atentamente, os médicos desvendam os segredos do corpo mas muitas vezes desconhecem os segredos da mente, cada doente com um passado em busca de futuro, ameaçado se for no IPO. Mandou entrar. A senhora cumprimentou, discreta mas afável.
-Pois mais uma vez os meus sentimentos, minha senhora. O seu marido era um doente abnegado, e se quer que lhe diga, até persistente, fiquei admirado com este desfecho bastante triste. E já agora, foi para mim uma surpresa saber da sua existência, ele sempre me disse ser viúvo…
-E era, senhor doutor. Vou-lhe contar tudo, e talvez entenda o que se passou…
-Faz favor...
A viúva, de aspecto bem tratado, quase da mesma idade do médico, desfiou a história lentamente:
-O Gustavo e eu tivemos uma relação durante mais de dez anos. Fomos colegas no banco, e, discretamente, mantinha com ele encontros em segredo, ele gostava da mulher, e nunca quis dar-lhe esse desgosto. Tinha uma vida dupla, se assim posso explicar…
-Compreendo.
 -Depois da morte da mulher, adoeceu, como o doutor sabe, e de livre vontade entendeu que devíamos casar, fazia questão. Eu hesitei, o filho nada sabia, nem de mim nem da doença, e podia não entender. E não entendeu. No dia do casamento, o Gustavo telefonou-lhe a contar, mas ele ficou possesso e disse que nos matava, que era uma afronta à memória da mãe, e que eu era uma rameira, enfim…
-Caso complicado, estou a ver…
-De qualquer modo, casámos. Há três semanas, pelo registo. Ele sentia a doença avançar, mas vou recordar para sempre estas três semanas de felicidade, apesar de viver amargurado por causa do filho. Há uma semana, ele foi lá a casa, embriagado, e disse-lhe que era um pulha e sem vergonha, e que quando morresse o mandaria para a vala comum, e cuspiria em cima. Foi muito chocante, até lhe disse que o cancro ainda era pouco castigo.
-As famílias são uma coisa complicada…-comentou, ele próprio com o casamento na corda bamba.
-A discussão deixou-o muito abalado, o filho proibiu-o até de ver o neto. Nessa noite, foi deitar-se, e não pregou olho, ficou sentado no sofá a ouvir música e a beber, apoquentado. Até que na quarta-feira, levantou-se para ir à casa de banho, e já só vi as cortinas a esvoaçar e um ruído de travagem na rua.
O cancro flagelando o corpo, o filho flagelando a alma, despedia-se deixando uma carta para Sara, saía de jogo antes que soasse o apito para o fim. Rogério acompanhou a viúva à porta e voltou para os seus doentes, terminais uns, famintos de vida outros, sem ter para quem viver, o dossier de Gustavo de vez no arquivo morto.
No sábado seguinte, Rogério voltou à Praia Grande. Jovens surfistas cortavam as ondas, doses de amêijoa passavam para a mesa do fundo, Rogério, retomando a rotina e levantando os olhos do mórbido matutino das desgraças, por momentos pareceu ver o Gustavo ao fundo, na falésia, mirando o horizonte e ouvindo o Requiem de Mozart. RIP.


sexta-feira, 29 de março de 2013

A guerra do soldado Avelino



Avelino nunca saíra de Fontanelas, feliz entre as vacas e hortaliças que diariamente levava à Malveira, a chamada à tropa, ainda mal fizera dezoito anos, deixou os velhos pais em cuidado, aflita, a Anacleta até acendeu uma vela pelo cachopo. Em 1916, Portugal entrara na Grande Guerra, e depois de uma recruta apressada, Avelino era integrado no Corpo de Artilharia Pesada Independente, composto por três grupos mistos de baterias de artilharia pesada.
Em Janeiro de 1917 embarcou para França, chegando a Brest em Fevereiro, e em finais de Abril às trincheiras. Não entendia aquela guerra, apenas que detestava a ração inglesa e o frio, contrastante com a brisa de Fontanelas. O tempo foi passando, escutando o matraquear da artilharia e esculpindo varinhas de pau com uma navalha. Ao fim de um ano na frente, nunca tinha gozado licença, sendo analfabeto, jamais escrevera à família. Em casa, a mãe temia, os ataques com gás pimenta podiam ser fatais, agoirava Venâncio, o regedor.
Na frente viu tombar camaradas, ao Gervásio, da sua brigada, que lhe morreu nos braços, ficou com o relógio, para entregar ao filho, em Palmela, pediu-lhe à hora da morte. O general Tamagnini nada informava sobre o sucesso das operações, mas sentia-se que as coisas estavam mal.
Certo dia, o general Haking, mandou a Divisão de Avelino tomar novas posições. À sua brigada competia guarnecer três linhas de trincheiras e a linha de defesa baseada em baluartes ao longo de 40 quilómetros. A norte dos portugueses, estava a 40ªDivisão de Infantaria britânica, a sul, a 55ª.
Pelas quatro da manhã de 9 de Abril de 1918, estava a brigada de Avelino estacionada junto à ribeira de La Lys, entre Gravelle e Armentières, quando os alemães desencadearam uma barragem de artilharia com mais de duas horas de duração. Emboscados, os portugueses, comandados por Gomes da Costa, viram-se subitamente em combate, subordinados ao Corpo Britânico. Oito divisões do 6º Exército Alemão, comandados pelo general von Quast, lançavam a operação Georgette, visando tomar Calais e Boulogne-sur-Mer. Em apenas quatro horas, perdeu-se um terço dos efectivos, bem como 327 oficiais, os alemães queriam abrir um flanco, e o sector português o sítio escolhido.
Na trincheira e sob fogo cruzado, Avelino rangia os dentes, e fazia fogo com a Lewis, a Luísa, como chamava à metralhadora, parecia dia de círio, tal o foguetório, com as balas cruzando os ares de forma alucinante. A seu lado, o Ramires e mais três tombaram mortos, o Tomé, polidor em Loures, gritava, atingido por uma bala. Ao fim de uma hora, só Avelino restava vivo na trincheira, deambulando entre os mortos e recolhendo cunhetes de balas que foi tirando a camaradas. Só pela noite, extenuado e ferido, se conseguiu reunir ao 8º Batalhão, e chegar ao hospital de Saint Venant, onde, ardendo em febre, pôde enfim descansar. Tinha um lenho na perna, mas não inspirava cuidados. Ao passar pela sala de tratamentos, ouviu chamar o seu nome, em português:
-Avelino!
Espantado, viu um jovem franzino, deitado numa maca e com um braço esfacelado, esperando para ser operado, o ar sério do médico prenunciava uma amputação. Era o Sebastião Trina, de Lourel, companheiro de cavalhadas em Sintra, ignorava que também estivesse na Frente.
-Sebastião. Que te aconteceu, homem? – apesar de ferido,  e a arrastar a perna, Avelino  foi abraçá-lo, no ar angustiado do amigo,  pinga-amor de Sintra, anteviu mais um estropiado, sorvido por uma guerra  contra gente que nunca lhe fizera mal. O destino tecia a sua teia, e, nesse dia, marcou encontro nas margens do La Lys.
No terreno, a seriedade da situação levou o General Haking a chamar reservistas para ajudar a 3ª Brigada portuguesa a conter o inimigo. O 1º Batalhão do King Edward's Horse e o 11º de Ciclistas foram enviados para Lacouture, onde se uniram aos portugueses dos 13º e 15º Batalhões, para defender a vila. Lacouture resistiu 26 horas, mas caiu a 10 de Abril, tendo os alemães capturado 168 portugueses e 77 britânicos. Nesse dia negro, os portugueses sofreram sete mil e quinhentas baixas, entre oficiais e soldados, 398 tombaram e mais de seis mil foram aprisionados. Em perda, os alemães ainda conseguiram abrir uma brecha de cinco quilómetros nas linhas aliadas, desmoralizadas, a 1ª e 2ª Brigadas da Infantaria portuguesa retiraram a 13 de Abril para nova linha de defesa, entre Lilliers e Stennberg. O comando britânico ainda enviou duas divisões para fechar as linhas aliadas, mas, para os portugueses, a batalha estava acabada.
No mês seguinte, Avelino e Sebastião foram evacuados para Portugal, sem um braço, o choro convulsivo da mãe recebeu Sebastião no regresso a casa. Para Avelino, uns arranhões apenas, e uma cicatriz a lembrar a guerra.
Mais tarde, já recuperado, foi a Palmela. Num mísero casebre, uma mulher e um rapaz descalço receberam-no, sem saber quem era o estranho que os visitava. Sem corda, parado no tempo, o relógio do Gervásio foi enfim entregue ao filho, orgulhoso do pai que por outros deu a vida que não viveu.