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quarta-feira, 20 de março de 2013

Saudação da Primavera


Está a chegar, despertas, as Criaturas da Mata anunciam a sua presença, sinos do submundo tocam, arautos da cor e clorofila, despertando a fragrância das flores. Tonitruante, toda a nação dos pássaros toca a rebate, comandada por zelosas andorinhas, voltadas já do Grande Sul. Depois do Branco Inverno partir para o sono de várias luas na gruta-ventre, exércitos de borboletas invadem os ares em  sagração, poisando libertinas em pétalas redentoras, bafejadas por raios generosos. Poetas estremunhados abandonam os invernosos esconsos, bebendo Luz e respirando jasmim, na senda da Iniciação Multicolor. É o Começo.
Ostara chama a reunir, gamos e colibris, crisântemos e girinos, libelinhas e lagartos, todo o mundo do silêncio convocado pelas forças da Criação, em noite de Equinócio. No bosque da Cynthia Imortal, lá onde entre oceano e as fortalezas os homens ergueram templos à Floresta -Mãe, reune a Assembleia de elfos e centauros, como sempre, desde a noite dos tempos, a desenhar o anel da Luz e em prece às chuvas, sémen da vida e seiva de renovação. No silêncio cúmplice da noite, a sagrada chama crepita no altar, ao lado, a revigorante poção dum druídico caldeirão sacia ressequidos lábios, bafejados por novo renascimento. Toda a Floresta comparece, absorvendo o anel dourado na altura do ano em que  os dias escuros já partem, a terra alberga sementes e o mundo renova a Luz.
No altar sagrado, pejado de grinaldas e ovos, grãos e raízes, o Coelho Pontífice guarda, de sentinela, atento às entranhas de Cynthia, perturbada e perturbante. De mãos dadas, os convocados, em adoração à deusa, liberta da longa noite de  Inverno, entregam-se ao ritual das fragrâncias, viajando por entre ramos e folhas, captando o orvalho vitamínico e puro. Toda a Floresta desvairadamente celebra, num festim de castanhas, pinheiros, verduras e verdes límpidos.
Terráqueos da montanha colocarão flores no altar e pelo chão, no caldeirão, água pura e flores esperam o momento da oferta, enquanto na clareira, iluminada pela argêntea Lua, incenso e velas se acenderão em aliança com os elementos. Rasteiros e vindos de Cynthia,  assustados terráqueos  tocarão nas plantas, em busca do milagre da vida, prometendo amizade e cumprindo o círculo, para depois partirem por algumas luas, ao encontro de Beltane,  mais tarde Litha celebrará o apogeu de Ostara e o seu declínio, para os entes da floresta e desde a noite dos tempos, sinal sabido da chegada de Samhein e Yule, e com eles das trevas da gruta em novo apagar de fogueiras, fugidas do eólico norte e da escuridão da tundra uivante.
Nas aldeias de Cynthia, as terras pedem sementes, e as árvores folhagens, chilreios em beirados prometem fertilidade, e logo partirão sulcando céus e mares, noites e dias, até que o grande astro de novo os traga. Como sempre, Ostara protegerá Cynthia rude e pedregosa, em apoteose agora do verde natal.
Toda a noite o fogo redentor aquecerá os terráqueos, com Pã no carvalho chilreando a flauta enfeitiçada, logo em melódico coro acompanhado pelos rouxinóis e toutinegras. Ao fim da manhã, cristalina e espelhada em frescos lagos, a Primavera reinará esplendorosa, com o seu cetro de azevinho e coelhos felizes saltitando. Os avaros dias do longo Inverno crescerão, generosos, frutos e plantas brotarão, suculentos, cardumes cruzarão os rios, serpenteantes patos se banharão nos rios atrás de irrequietas rãs.
No ano seguinte e em todos a seguir, assim será até ao fim dos tempos, e até que Odin na Valhalha junte os guerreiros,  esperando o advento do Ragnarok. Cynthia verá choros, risos, lutos, borrascas, milagres no sagrado e eterno templo da floresta, e sempre no tempo em que o dia for igual à noite, verá Ostara voltar, segura pitonisa a espalhar a  redentora Luz. 

domingo, 17 de março de 2013

Don Camilo no Vaticano



A eleição do Papa Francisco colocou na majestática cadeira vaticana um cura de aldeia e homem do povo, a que não tem sido possível até a um agnóstico como eu ficar alheio.

Jorge Bergoglio transborda alegria, e desde já se vislumbra um grande comunicador, alguém que se pode conceber ver a almoçar num tasco de esquina ou a contar anedotas sobre a gula dos abades. Num tempo de lideranças cinzentas e de poucos exemplos morais, com Mandela no ocaso e Obama capturado pelo stablishment, eis um refrescante exemplo que, se não conseguir debelar os pecados da Cúria Romana, pode ao menos trazer conforto e esperança a quem o escuta com a maior informalidade.

Nessa medida, recorda-nos Don Camilo, o pároco da pequena aldeia de Reggio, na Emilia Romagna, figura criada por por Giovanni Guarechi e interpretado no cinema por Fernandel, e os calorosos momentos de cumplicidade com o Cristo crucificado que do altar lhe falava e moderava os ímpetos contra o comunista Peppone, e onde, quase sempre a bondade da natureza humana, imperfeita mas fraterna, vinha sempre ao de cima. Nasceu uma estrela.

Antes a Sorte que tal Morte



Depois de Portugal, é o Chipre quem tomba agora às garras da União Europeia, “parceira e aliada”. Entre as medidas que o Chipre terá de concretizar por conta do empréstimo de 10.000 milhões de euros, inclui-se um miserável imposto extraordinário de 9,9 % sobre os depósitos acima dos 100.000 euros e de 6,7 % para os valores abaixo, bem como um aumento do imposto sobre as empresas até 12,5 %. Assim, já ontem os cipriotas ficaram a saber que lhes eram confiscados 10% dos seus depósitos, além dum rol de “presentes” a que, infelizmente, deste lado da periferia já estamos habituados, como Novos Escravos da Dívida.

A União Europeia está, infelizmente, no estertor. Poucos acreditam que alguém, sobretudo nos países resgatados e tendo os emergentes a Sul vindo para ficar, volte a viver como em tempos nos prometeram, quando caminhámos para os braços do FEDER ao som do Hino da Alegria e amanhãs de prosperidade e de Primeiro Mundo eram anunciados com toques triunfais e sem retorno. Veio o insondável euro, que os Grandes quiseram e a que ninguém fez testes, e tudo descambou, deixando por trás das frágeis vestes um cruel cabide alemão, duro e tosco. Alemão, enfim.

Ignoro quando a União Europeia acabará, mas o seu fim é certo, cedo ou tarde. A Europa foi Europa enquanto foi a Europa das Nações, diferentes e antagónicas, e os mais de 70 anos de paz que levamos são já um recorde, num continente onde sempre houve guerras e as potências sempre se olharam desconfiadas. O  “sonho” de Monet e Schuman mais não foi que a forma que a França do pós-guerra encontrou para controlar a renascida (e apoiada) fénix  germânica, a que se juntou então o Benelux e a Itália. Veio a PAC, amiga da França, o euro, amigo da Alemanha, e enfim o Lehman Brothers, inimigo de todos, até do cabide alemão, e tudo sobrou para os elos mais fracos.

Espoliado, o Chipre junta-se agora aos já exauridos países ”ajudados”. E a recuperação continua adiada, 2 anos, três anos, uma década, cinicamente e com desdém nas mãos dos Gaspares desta Europa, madrasta e avara. A democracia vacila, e as massas, ululantes, desesperam. É tempo de bater com a porta, e partir ao encontro dum destino novo e esperançoso. E se tiver de ser fora desta “Europa”, que seja. Só a incompetência e pequenez dos actuais dirigentes pode continuar a insistir na fatalidade de que não há alternativa. Há sempre alternativa. Antes a Sorte que tal Morte.

sexta-feira, 15 de março de 2013

O sarcófago Portugal



Impávido e seráfico, Gaspar uma vez mais anunciou a tragédia como se esta fosse mero erro de cálculo, na astrológica e errónea folha de Excel de economista aprendiz. Sem emoção ou remorso, condena o país e anuncia o dilúvio como se de simples aguaceiro se tratasse. O banqueiro Ulrich tem razão, afinal: o povo aguenta, aguenta, desde que seu o clube ganhe, venha sol radioso e não faltem umas cervejas ao fim da tarde.

A falta de soluções a ninguém parece incomodar: o necrófilo e reformado Cavaco, acolhido em seu sarcófago, de quando em quando sai da cripta para uns arrotos de economês, confessando esgotar a sua intervenção nas conversas semanais com o delegado da tríade, o sr. Coelho. Os chefes da oposição, falando para os acólitos, gritam baba e ranho pelos telejornais, sem que um laivo de patriotismo os leve a sair da carapaça e pensar em algo que não sejam tácticas partidárias. Dos militares com reumático, sem munições ou blindados, pouco mais há a esperar que reivindicações corporativas, e os sindicatos, arriscam-se um dia a não mais representar trabalhadores, pois serão mais os desempregados que aqueles no activo. Ululante, o povo definha e desiste, fugindo para geografias de esperança, violentamente expulso da pátria, capturada por ciclopes e gárgulas. São vãs as chamadas à unidade e a olhar mais longe que o umbigo, revelador da mesquinha visão da classe política da aldeia, sem sopro de dignidade ou coragem, bastarda filha do clientelismo larvar e da indigência cultural que brutalmente capturou o país nos últimos anos.

Para uma situação de excepção, hajam respostas excepcionais: é tempo do compromisso histórico das forças e cidadãos que ponham o país primeiro, de extracção partidária ou não, que peguem num caderno de encargos de salvação nacional e reajam ao estado comatoso em que Portugal sobrevive. O quadro actual está esgotado, e insistir no mesmo, é apressar o abismo, e cometer o crime de ficar para a História como a geração da ruína.

Não se percebe como um país com nove séculos se deixou aprisionar sem reação a uma moeda que lhe suga a população, mina a economia, e onde se vive das promessas duma recuperação que tarde ou jamais virá, tornando os sacrifícios actuais inúteis e as decisões importantes sem eficácia real.

Precisamos de líderes que devolvam a esperança, e para tanto há que construir soluções, se preciso for fora do tumefacto parlamento, onde meramente se discute o sexo dos anjos, ou do perguiçoso tribunal constitucional, que desconhece o sentido  da palavra urgência. Os políticos incumbentes provaram não estar à altura da hora que passa, e muito menos os europeus, o patético senhor Rompuy ou o sonolento Olli Rehn, burocratas sem chama para quem Portugal não passa de um enfadonho relatório com números mas sem pessoas..

Se assim não for, um longo e tortuoso caminho de penúria e precariedade e a escuridão dum túnel sem fim envolverão este país orfão, e o sopro de esperança que acalentou as gerações que um dia viram a luz da liberdade definitivamente se apagará, para gáudio dos profetas messiânicos e de muitos opinion makers encartados. A turbulência não parece abrandar, e cedo ou tarde a aeronave, comandada por loucos ensandecidos  poderá despenhar-se. Urge aterrar para reabastecimento, mudar a tripulação e procurar porto seguro. Basta de Medo!

quinta-feira, 14 de março de 2013

O glorioso clube de futebol


Virgílio Madureira cumprira dois mandatos como vereador na Câmara, incompatibilizado com a concelhia, não se recandidatou. Uns ingratos, vociferou, fora ele quem os metera lá, pagara inscrições e quotas, queriam agora o João Martins, o veterinário municipal, que ficassem com ele, pois, com a besta amiga dos animais. Oito anos a pugnar por estradas alcatroadas, centros de saúde, rotundas, orientara-lhes a vida, e agora isto. Chegou a pensar concorrer como independente, capciosos, os da oposição até o sondaram para uma empresa municipal, o seu apoio ainda valeria uns votos entre os mais velhos. Com a eleição renhida, nada se podia desprezar. Nesses oito anos, conseguira algum pecúlio, é certo, as empresas da família haviam ganho empreitadas, mas que culpa tinha ele se as únicas de jeito eram as do pai e do cunhado, nunca interviera nos concursos, simples telefonemas apenas.
O fim do mandato trouxe a necessidade de pensar no futuro, política activa não, melhor esperar que estes se desgastassem e no fim surgiria como salvador e compreensivo para salvar a câmara do desastre, como sempre, desinteressado filho da terra. Havia que encontrar uma montra onde sem estar na política, não estivesse longe dela. Pensou nos Bombeiros, mas os comandantes estavam de pedra e cal, quis adquirir um jornal que fosse a sua caixa de ressonância, mas os existentes tinham passivos proíbitivos. Finalmente, uma ideia: a presidência do Imortal, o clube de futebol, o mandato dos actuais orgãos terminaria daí a um mês, sem dinheiro e resultados, a despromoção era segura. Nunca vira um jogo da equipa, curioso foi a um até, e reconhecido pelo  público, lançou o tema das tradições clubísticas e de como era preciso ter um clube da terra na Primeira Liga, traria visibilidade. Ele, apesar de ocupado, faria o sacrifício pessoal, se necessário fosse, de constituir uma lista e até avançar com um aval para as obras do campo de treinos, conhecido como era, atraíria patrocínios, jogadores de topo, um treinador com créditos e até a televisão. O salto qualitativo tinha de ser dado.
A proposta animou os velhos adeptos, cansados das peladinhas e de jogos nos distritais, alguns, antigos jogadores já entrados na idade, aplaudiram, e aos poucos, em jantares e reuniões no escritório de Madureira, a lista foi ganhando forma, o vereador que não sabia o que era um canto e que julgava que os cinco violinos eram peças de museu, em duas semanas tirava fotos com a bandeira do clube ao lado e reiterava o seu clubismo desde a nascença, prometendo cem mil euros só para começar. Construiria uma grande equipa, um craque brasileiro que o Viegas, o antigo treinador , lhe sugerira, estava a caminho, assinara por cinco épocas.
Sem opositores, uns descapitalizados, outros descrentes, com uma lista de incondicionais recrutados no café do Bigodes, certo serão, depois do snooker, Virgílio Madureira tornou-se o 24ºpresidente do Imortal, com 97% dos votos, logo celebrados com uma rodada geral e a promessa de vitórias e obras.
Na primeira semana, num mundo até então estranho para si, surgiram os pequenos problemas: os jogadores tinham prémios de jogo em atraso, havia que pagar, a tesouraria estava nas lonas, mas o Lucas, o cobrador, garantia a chegada de verbas da Associação de Futebol e da Santa Casa, nos duches faltava água quente, até o Zezito, o craque brasileiro contratado ao Fanhões, ameaçava assinar pelo Alcains. Era um mundo novo. Na primeira saída da equipa, venceram por 2-1, na terça a seguir, à porta da direcção os jogadores reclamavam os 300 euros de prémio regulamentar, a ser pago na hora, atrasos dos patrocinadores obrigaram-no a pagar do seu bolso. Entre problemas e guerrilhas na direcção, ao fim de umas semanas, Virgílio Madureira começou a ficar cansado do clube e sem dinheiro, acossado por jarretas que tomavam o clube como seu, tais os anos que ali levavam. Os resultados começaram a desiludir, só com empates, e teve de despedir o treinador, o Vítor de Jesus, que desculpava a falta de resultados com a necessidade de dois trincos. Mais barato, optou por demiti-lo, e contratar o Alves do talho, que em tempos já treinara os júniores.
Um mês depois, uma carta das Finanças a cobrar vinte mil euros de IVA caiu na secretária, resultado de facturas falsas que anteriores direcções haviam passado, parte delas de favor, para ajudar a contabilidade de amigos, dez dias para pagar ou penhora de bens. Sem dinheiro em caixa e com quotas de cinquenta cêntimos, a situação era negra e os directores olharam para ele, esperançosos:estava na hora de verem os prometidos cem mil euros. Silencioso, Virgílio nada disse, e marcou uma reunião com os órgãos sociais, a situação era de emergência e os jornais já falavam no risco de o Imortal fechar.
Dois dias depois, à hora agendada, lá se juntaram os directores, o Tomás do videoclube, vice-presidente para as modalidades, e o eterno Serafim, que já estivera em oito direcções. Sócios antigos exigiam firmeza com as Finanças, contribuíam com seis euros anuais e queriam saber o que tinham feito ao seu dinheiro.
Passavam dez minutos das nove, um sujeito de blaser azul apareceu com uma carta para o presidente da Assembleia. Curioso, o dr. Figueiredo, igualmente médico do clube, abriu e leu em voz alta: pesaroso, o presidente alegava sérios problemas de saúde e pedia a demissão, confiante que o vice, e novo presidente pelos estatutos, o Tomás do videoclube, faria um grande lugar,conduzindo o clube ao lugar que merecia. Por ele, descansaria uns meses em Marbella a conselho médico, era outro o seu futebol e para ele chegara a hora de mudar de jogo.

quarta-feira, 13 de março de 2013

O Grande Negócio




Grande negócio, comentou Guedes do Amaral com o Gregório das queijadas, toda a sua produção de conservas fora comprada por uns industriais de Lisboa, dinheiro vivo e na hora, coisa rara. Poderia agora expandir o negócio em Albarraque, duns toscos pavilhões agrícolas fizera uma unidade industrial com setenta operários, a somar ao contrato para o Brasil, os terrenos do Antunes, na Portela, estavam debaixo de olho. Alfredo Pinto, director do Semana de Sintra juntou-se ao grupo na Periquita, vindo da Estefânia:
-Então quer dizer que é coisa que se veja? -sondou o Júlio, o dono da pastelaria, servindo uma ginginha com elas, os travesseiros viriam a seguir, quentinhos.
-Foi um achado, amigo Júlio. Recebi um estafeta lá no escritório, da parte duns engenheiros de Lisboa, queriam uma reunião. Estranhei, nunca tinha ouvido falar neles, mas negócio é negócio, e lá fui, olhe, aquele palacete do Menino de Ouro, em Lisboa, está a ver? Foi aí a reunião!
-Mas quem são os tipos, afinal? -sondou o Gregório, até poderiam ter interesse para ele.
-Um estrangeiro que estava lá recebeu-me em nome do grupo dos tais capitalistas, olhe, até tenho aqui um cartão - foi contando, puxando dum cartão de visita - Marang…. Karel Marang, é isso, holandês, parece.
-Quer dizer que está em maré de sorte, amigo Guedes - Alfredo Pinto ia passando os olhos pelo Século, o governo de António Maria da Silva estava em apuros, e outro se adivinhava no horizonte.
-Pois o tal Marang fez uma encomenda grande, e até me propôs a compra da fábrica, acho que representa um grupo estrangeiro interessado em investir cá, parece até que grande parte dos táxis de Lisboa já lhes pertence. E pagou à cabeça, tudo em notas de quinhentos escudos! - Guedes não revelava quanto, mas  quarenta contos a pronto numa mala já lá cantavam, tudo em notas de quinhentos, até lhe iam saltando os olhos, quando a viu. Felizmente estava guardado, e em segurança, no sótão da casa do Arco do Teixeira.
-E foi muito…? -Alfredo tentava tirar nabos do agiota, este, porém, não se descaía:
-Para um almocinho há-de dar, amigo Pinto! Comidos os travesseiros, foram à vida, o Guedes iria almoçar com o Antunes ao Hotel Nunes, um naco de vitela como só o velho Saraiva sabia cozinhar.
Alfredo Pinto seguiu para Lisboa, o Semana de Sintra estava com pouca saída, e o Sousa Lopes, do Diário de Notícias, havia prometido arranjar investidor, o almoço seria no Grémio. Atrasado, este chegou de táxi, com a edição da manhã debaixo do braço, tinha uma reportagem para a tarde:
-Desculpa o atraso, Alfredo, mas nem queiras saber, está uma bronca das grossas para rebentar! -disparou, mal tirou a gabardina, que um criado do Grémio Literário lhe segurou, fleumático.
-Então? O Bernardino Machado já demitiu o António Maria da Silva?
-Não, nada de política. Pior ainda. Já ouviste falar num tal Alves dos Reis?
-Não, nunca. Tem alguma coisa lá para Sintra?
-Esse tipo andou a comprar acções do Banco de Portugal, mais de dez mil, parece, com quarenta e cinco mil já lhe dava para controlar o banco. Nunca ouviste falar dum banco que apareceu aí há pouco tempo, o Angola e Metrópole? Pois é um dos donos. É um vivaço, ganhou dinheiro em Angola, até já nos tentou comprar o Diário de Notícias! -excitado, o Lopes pediu vinho tinto, a história prometia não ficar por ali - Consta que a mulher anda carregada de jóias compradas em Paris, fortuna repentina feita em África, sabes…
-Sim, mas o que é que isso tem de anormal? – Pinto pensava ser outra coisa, o novo hospital de Sintra, que não andava, preocupava-o mais.
-Pois parece que está metido numa tramóia, e das grandes! Descobriu-se   que esse tal Alves dos Reis arranjou um contrato fictício, reconhecido no notário, e falsificou as assinaturas dos administradores do Banco de Portugal. Com uns cúmplices estrangeiros dirigiu-se à Waterlow & Sons Limited, a casa impressora do Banco de Portugal, na posse dum documento de encomenda falsificado, e mandou imprimir duzentas mil notas de quinhentos escudos, aquelas com a efígie do Vasco da Gama, sabes, uma coisa do camando, é preciso ter lata!
-Então, e o que é que ele fez ao dinheiro?
-Parece que anda por aí em circulação desde Fevereiro, dizem até que terá sido com ele que abriu o banco. Olha, tenho aqui o nome dos cúmplices dele: um tal José Bandeira, irmão do nosso embaixador na Holanda, um alemão, Adolph Hennies, Karel Marang, um holandês….
-Espera aí! -atalhou o Pinto - Karel quê?
-Marang. Porquê, conheces? - Sousa Lopes pareceu surpreso por o Pinto reconhecer o nome.
A conversa da manhã na Periquita e a história da mala com notas de quinhentos do Guedes surgiu-lhe de repente, agora interessado em escutar o resto:
-Não, não, continua… o Lopes,  pedindo um café, rematou a história:
-Aliás, como era possível o Banco de Angola e Metrópole conceder empréstimos a taxas de juro tão baixas sem receber depósitos? Chegou a pensar-se que era uma táctica dos alemães para obterem vantagens em Angola. Parece que o Vasconcelos, do "Século" descobriu uma nota falsificada e com o mesmo número de série na delegação do banco no Porto, e consta que há muitas mais, é em grande escala a operação, estás a ver, se andarem por aí as duzentas mil!
A edição de 7 de Dezembro prometia. Um telefonema para o Lopes interrompeu o almoço, aliás quase concluído, a conversa sobre o investidor para o jornal ficaria adiada:
-Tenho de ir, é da redacção! Parece que prenderam o Alves dos Reis a bordo do "Adolph Woerman"! -Chapéu e gabardina, e o Lopes correu para o Governo Civil, onde o detido aguardava, era perto, “furo” garantido.
De volta a Sintra, e ainda incrédulo com o desplante dos burlões, Alfredo procurou o Guedes em casa, pondo-o ao corrente dos acontecimentos, poderia ter caído num conto do vigário. Apavorado, este correu para o sótão da casa e verificou as notas que Marang lhe entregara dentro da mala cartonada. Eram das tais! O negócio chorudo ficava agora em causa, quarenta prestimosos contos de réis. Raciocinando rápido, chamou um carro de praça, correu ao encontro do Antunes e propôs-lhe a compra a pronto dos terrenos da Portela, quarenta contos, era pegar ou largar. Surpreso, o outro hesitou, mas à vista das notas de quinhentos, aceitou sem pestanejar e Guedes do Amaral suspirou de alívio, felizmente não perdera tudo.
Pela tarde de 6 de Dezembro, o Banco de Portugal ordenou a retirada de circulação de todas as notas de quinhentos escudos e no dia seguinte o Diário de Notícias fazia manchete com a burla monumental. Alfredo Pinto, com o jornal debaixo do braço, depois dum café na Periquita foi a casa do Guedes, a preciosa informação valia bem um pequeno patrocínio para o Semana de Sintra.