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sábado, 23 de fevereiro de 2013

Drama na Quinta do Relógio



Tudo a postos para a recepção que Pinto da Fonseca, o Monte Cristo, ia oferecer para apresentar a filha à sociedade, por ocasião das suas dezoito primaveras. Compareceriam o Príncipe Real, D.Afonso, a condessa d’Edla, o deputado Mazziotti, donzelas casadoiras e jovens garbosos, quiçá de entre eles o pretendente que procurava para a filha. Criada por uma tia solteirona e tímida, Carlota pouco convivia com estranhos, para lá de miss Lisa, a preceptora inglesa, pelo que achou o pai ser altura de providenciar um genro de boas famílias e com fortuna adequada. Tudo foi cuidadosamente arrumado, salões, móveis, jardim, atarefadas, as criadas trabalharam denodadamente no vestido e penteado da menina de quem cuidavam desde o berço, suspirando por não ser para elas a cintilante festa.
Pelas oito horas chegou a primeira carruagem, com Lucrécia, prima de Carlota, sua amiga e confidente, logo seguida das demais, e pelas oito e meia os músicos iniciaram a função, arrancando com uma valsa e animando o salão. Sozinho chegou também Miguel de Sousa Holstein, filho da Duquesa de Palmela e tenente de cavalaria, herdeiro duma fortuna que a Regeneração engrossara. Previdente, Pinto da Fonseca correu a apresentá-lo à filha, que o cumprimentou com uma tímida vénia.
Passado algum tempo, os criados serviram acepipes no jardim, onde luminárias e balões celebravam o sucesso do velho negreiro, agora dedicado aos têxteis e à importação de madeiras exóticas. Miguel pediu uma dança a Carlota e logo perante os olhares invejosos ambos rodopiaram ao som do Danúbio Azul, com toda a sala a juntar-se-lhes chegada que foi a Marcha Radetsky.
Enquanto isto, no jardim, um restolhar dissimulado e quase imperceptível junto à vedação quebrou o silêncio da noite. O cocheiro da condessa d’Edla, que dormitava na carruagem, esperando, ouviu algo, mas não deu importância, seria uma rã ou um gato, por certo, Carlota adorava-os, e havia vários na quinta.
Depois de muito dançarem, os convidados, sobretudo os mais novos, espalharam-se pelos jardins, oportunidade para trocas de olhares mais insinuantes ou um envergonhado roubo de beijos. Lucrécia, mais afoita que a prima, provocou um tenente de Lanceiros que, meio avermelhado, não tirava os olhos do proeminente decote, enquanto Miguel e Carlota passeavam falando de livros e música, a noite de Sintra estava amena e generosa. A certa altura, Carlota pediu para se ausentar, para retocar a pintura, e Miguel retornou ao salão.
No quarto soprava uma brisa vinda duma janela entreaberta. Já fechava a portada quando uma mão lhe apertou a boca e com a outra alguém lhe encostou uma faca à jugular. Com o coração aos pulos, um intruso voltou-a para si e com um dedo ordenou-lhe silêncio.
-Quem é você, o que quer? -murmurou Carlota, com a voz trémula.
-Caluda, ou a festa vai virar velório! -ameaçou um negro, aparentando trinta anos, com a roupa suja e enxovalhada e uns sapatos esburacados -Se não queres que tu, ou alguém da tua família morra, chama aqui o teu pai, já. E nada de ideias, ou será pior para todos!
Perdida, Carlota assomou ao corredor. O pai conversava em baixo, com Miguel, ao seu sinal, pedindo-lhe que subisse, desculpou-se e foi ao encontro dela. Mal entrou nos aposentos e logo o rosto se alterou ao deparar com a filha sentada numa cadeira, tendo ao lado o negro, com uma mão no ombro dela e a outra com uma faca encostada à garganta.
-Mas que é isto? Quem és tu, canalha? Larga já a minha filha, ou mando açoitar-te, escaruma!
Apesar de abolida a escravatura, Pinto da Fonseca conservava os modos de senhor da Casa Grande que durante anos lhe porfiara fortuna no Brasil, aquela imagem transportou-o para Itabuna, onde em tempos chegara a ter trezentos escravos na sanzala. Ao vê-lo, o negro ficou possesso:
-Silêncio, branco velho. Quem fala aqui sou eu! Lembras-te da Jociara, a quem mandaste açoitar quando te disse que trazia no ventre um filho teu, há mais de trinta anos?
-O que tens tu a ver com isso? Acaso tenho de dar satisfações a um preto como tu? Larga já a minha filha, ou vais acabar na forca! Eu mesmo me encarrego disso!
O negro fez um prolongado silêncio, e olhou Pinto da Fonseca nos olhos:
-Eu sou o filho da Jociara! E sabes o que lhe sucedeu? Com tantos açoites que lhe mandaste dar, morreu, um mês depois de eu ter nascido no quilombo. E por isso, és tu quem vai pagar agora!
O velho traficante empalideceu, olhou o negro e a filha e ficou com um olhar perdido, desarmado. Carlota, sentindo-o sem reacção, arregalou os olhos, questionando o pai:
-Senhor meu pai, isto é verdade? Este homem é seu filho? Não me minta, peço-lhe…
Carlota sentiu estar a viver um pesadelo, ao mesmo tempo que ganhou simpatia pelo sequestrador. Voltava a interpelar o pai quando um pontapé rebentou a porta do quarto e Miguel, com uma arma, ordenou ao negro que largasse Carlota. Surpreendido, e entre a raiva e o desalento, largou a faca, e foi forçado a ajoelhar, imobilizado pelo jovem, que, desconfiando da expressão aflita de Carlota chamando pelo pai o seguira, e tudo escutara no corredor. Aproveitando a mudança nos acontecimentos, o negreiro apressou-se a esbofetear o negro, mas a mão de Carlota agarrou-o, decidida:
-Espere meu pai! Se este homem é seu filho, é pois também meu irmão. E a raiva dele é justa, se é verdade o que escutei!
Miguel, ele próprio um abolicionista, mantendo o preso imobilizado com a pistola, concordou com Carlota, sem contudo demonstrar vontade de hostilizar o pai. Espantado, o negro manteve-se em silêncio, expectante.
-Proponho uma coisa: vamos arranjar-lhe um sítio para ficar, e pela manhã se cuidará que se arranje uma reparação- e virando-se para ele, colocou-lhe a mão no ombro, como que pedindo a desculpa que o pai nunca pediria. Fonseca rendeu-se à filha, que assim tomou o pulso dos acontecimentos no seu baile de debutante. Acalmado o negro, de nome Coriolano, Miguel levou-o a comer na cozinha e providenciou-lhe aposentos, não na ala dos criados, mas na dos hóspedes. Carlota e o pai voltaram à festa, e sem que ninguém se tivesse apercebido, acabaram discretamente a noite, enquanto no jardim, atrás dum carvalho, Lucrécia se ia divertindo com o tenente.
Dias mais tarde, Coriolano foi convidado para caseiro duma quinta de Miguel, com casa própria e vencimento, mais uma parte naquilo que a terra desse. Depois de seis meses cortejando Carlota, o tenente pediu a Fonseca a mão desta, o qual abençoou o enlace e, instado por ela, acabou por pedir perdão ao filho que abandonara. Redimido o passado, de novo se juntaram para a boda, na Quinta do Relógio, já Lucrécia exibia uma barriga de seis meses,de esperanças do capitão, seu marido….


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Ressuscitar o Museu Paula Campos

Terá sido por volta de 1910 que Emílio Paula Campos, escultor e aguarelista, começou a frequentar as Azenhas do Mar. Terminado o curso na António Arroio com 20 valores, Paula Campos, nascido em 1884, aí construiu uma casa, que levou oito anos a terminar, tendo sido um artista com preocupações sociais, pois em 1919, sendo professor na Figueira da Foz tentou sensibilizar os patrões a deixarem os operários frequentar cursos nocturnos de arte. Afilhado do também famoso arquitecto José Ferreira da Costa, a ele se deve o mausoléu do antigo chefe do governo António Maria Baptista, um monumento a Campos Júnior, em Leiria, e um terceiro lugar no concurso para o monumento ao Marquês de Pombal. Mas, sobretudo, a Escola Primária das Azenhas do Mar.
Em 1928 integrou com destaque a Comissão de Melhoramentos das Azenhas do Mar, que levou a cabo a dita escola, bem como a estrada para Janas e a esplanada oceânica. Morreu de cancro, em 1943.
Sob a égide de outra figura, o seu sobrinho, o arquitecto Francisco Castro Rodrigues, hoje com 92 anos, juntou-se muito do seu espólio num designado "Museu Paula Campos" que existiu nas Azenhas do Mar entre 1943 e 1970, quando, por o achar "irregular", por não estar integrado em nenhuma instituição, o Ministério da Educação Nacional o mandou encerrar. Aí, entre outras actividades, se instalou um aboletamento gratuito para artistas, residências onde passaram entre outros Leal da Câmara e Júlio Pomar, e que fechou de vez em 1973.
Por essa ocasião ofereceram-se 50 trabalhos desse Museu à Câmara Municipal de Sintra, que os dispersou pelos seus serviços, não obstante ter sido prometido o devido destaque, numa sala ou espaço próprio à obra e espólio de Paula Campos, no que poderia ainda ser útil a colaboração de seu sobrinho e batalhador pela defesa das Azenhas,Francisco Castro Rodrigues. Daí o desafio: para quando essa homenagem a título definitivo, e de preferência nas Azenhas do Mar?
     Azenhas do Mar, aguarela de Paula Campos
A escola das Azenhas, iniciativa da Comissão de Melhoramentos de 1928



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O Segredo



Arredores de Zamora, 3 de Outubro de 1143.A comitiva do enviado papal, seis dignitários em liteiras puxadas por mulas vagarosas enfrentava dificuldade em chegar à cidade, o cardeal Guido de Vico acometido de tosse, maldizia a missão que o Santo Padre lhe confiara: mediar em Leão o conflito entre Afonso VII, Imperador das Espanhas, e um insurgente terra tenente portucalense, o impulsivo Afonso Henriques, seu primo. A noite caía, acolher-se-iam em Toro, um vinho reconfortante e uma lebre com feijão alimentariam o corpo, que a alma estava saciada. Perto da estalagem, um grupo de três cavaleiros aguardava a embaixada. Não parecia gente do Imperador, comentou Giacomo Alighieri, chefe da guarda do cardeal-diácono, as montadas estavam agitadas e ofegantes, sinal de viagem longa e recente. Giacomo adiantou-se e depois de troca de palavras com os forasteiros, voltou para informar o cardeal:

-Eminência, são cavaleiros portucalenses, alegam ter urgência em falar-vos antes que vos encontreis com o Imperador, amanhã.

Agastado, o cardeal anuiu, que esperassem na estalagem, depois de se refrescar lhes falaria. Três horas mais tarde e paramentado, enfim recebeu os visitantes.

-Dominus Vobiscum, o Senhor esteja convosco! Pois diz-me o meu chefe da guarda que sois portucalenses. Que mister vos trás ao meu encontro? Amanhã mesmo estarei em Zamora, não poderíeis esperar até lá? –ralhou, paternal, logo servindo-se duma malga de vinho de La Rioja, o cardeal Molina da Cúria recomendara-lho em Roma.

-Eminência, deixai que nos apresentemos - adiantou-se o mais velho - meu nome é Egas Moniz, senhor de Ribadouro, nas terras de Sousa, um vosso criado, estes são Gonçalo e Soeiro Mendes da Maia, da casa dos Baiões. Traz-nos até vós a necessidade de que antes que vosso sábio juízo se debruce sobre os conflitos que trazem apartados nosso senhor D. Afonso e o Imperador, estejais de posse de informações secretas que podem ajudar a entender a rebeldia de D. Afonso, não produto de imprudência ou teimosia, mas assente em factos terríveis, até hoje mantidos em segredo - concluiu, teatral. Intrigado, o cardeal bebeu mais um cálice:

-Pois que factos tão misteriosos são esses, cavaleiros? Dizei ao que vindes!

-Eminência, escutai com atenção: há setenta e dois anos, o falecido avô do Imperador, El-Rei Afonso VI e D. Sancho, seu irmão, lutavam em disputa pelo Reino de seu pai, Fernando Magno. Nesse ano do Senhor de 1071, D. Sancho foi misteriosamente assassinado, alegadamente sem deixar herdeiro, o que permitiu ao irmão, o Senhor D. Afonso VI ocupar o trono que hoje é de seu neto.

-Sim, sim, todos sabemos disso, D. Egas, se são histórias que me vindes contar…

-Não, Eminência. É aqui que a verdade se deve sobrepor, para melhor compreender porque D. Afonso Henriques não aceita seu primo como rei e senhor - adiantou, os outros, com ar grave, anuíam com a cabeça -É que D. Sancho não foi assassinado por um nobre de Castela, como se fez soar, antes morreu às ordens do irmão, D. Afonso, bem como seu filho varão D. Pelayo, cujo nascimento agora se nega, pelo que El-Rei Afonso VI foi sagaz e usurpador aos olhos de Deus, assim o sendo também o Imperador, manchado pela infâmia do avô!

O cardeal pasmava, clamando por provas das graves acusações:

-Medis bem o que dizeis, cavaleiros? O que tendes para provar tão torpe acusação?

Egas Moniz sacou um pergaminho dum bornal que trazia a tiracolo, e exibiu um texto escrito a sangue pelo malogrado D. Sancho, que, à hora da morte, envenenado, ainda teve forças para acusar o irmão da sua perdição e de seu filho. A chancela e armas de Leão não deixavam dúvidas sobre a autenticidade do documento, levado para Guimarães por um fiel aio, Beltan Gutierrez, e há cinquenta anos à guarda do arcebispo de Braga.

O cardeal pareceu transtornado, e questionou os cavaleiros sobre as suas intenções.

-Eminência-salientou Egas Moniz-sabemos que é vossa missão apartar os primos das querelas em torno de seus domínios. Pois bem: convencei com vossa palavra avisada o Imperador de que deve reconhecer os direitos de seu primo D. Afonso, e este documento sumirá para sempre nas águas do Duero, assim se sossegando os reinos.

Guido de Vico nada disse e recolheu-se, taciturno. No dia seguinte, depois de celebrar missa em Zamora, reuniu a sós com Afonso VII. Da reunião na catedral nada transpirou, mas escudeiros notaram que o Imperador estava tenso, tendo mesmo quebrado uma mesa, praguejando, quando voltou ao castelo. Pela tarde, à hora das vésperas, o pretendente português, Afonso Henriques e seus partidários chegavam ruidosamente a Zamora, acompanhados do arcebispo de Braga, D. João Peculiar, juntando-se-lhes Egas Moniz e os Mendes da Maia. A presença dos portucalenses na cidade causou apreensão sobre os propósitos da viagem, temendo-se escaramuças durante os torneios que começariam nesse dia, mal o vinho e a cidra começassem a jorrar nas tabernas.

Na tarde de 5 de Outubro, visivelmente incomodado, e na presença silenciosa do cardeal, Afonso VII e o primo acordavam que o Condado Portucalense se chamasse reino, e Afonso Henriques rex, deixando os cortesãos intrigados com a rapidez com que o Imperador anuiu às pretensões do primo depois de anos de bravatas.

Dias mais tarde, com a promessa de uma tença para o Santo Padre e fiel depositário de um segredo que só a ele transmitiria, o cardeal Guido de Vico volvia a Roma, não sem antes mandar carregar uma pipa do vinho de La Rioja que o cardeal Molina tanto elogiara. No Duero, caudaloso, diluíam-se rio abaixo as cinzas dum velho pergaminho…

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Justificam-se as empresas municipais?



Para que servem as empresas municipais, pergunta-se e debate-se por estes dias. Em primeiro lugar, qualquer empresa municipal deve antes de mais ser isso mesmo: uma empresa, e não qualquer disfarce jurídico. Devem pois extinguir-se aquelas que não são mais do que serviços administrativos municipais mascarados, e, sobreviverem apenas se gerarem lucros sem subsídios ou indemnizações compensatórias. As empresas municipais que subsistam devem  dispor de uma gestão profissional, não devem acolher clientelas partidárias e devem obrigar-se a entregar  os lucros aos municípios, para além de manterem e valorizarem o património que têm sob a sua responsabilidade.Cumprindo estes critérios, pensa-se que o actual sector empresarial municipal ficará reduzido a menos de dez por cento, sendo que pelo menos 200 empresas municipais, metade das que existem actualmente, não caberão nos novos critérios aprovados para o sector empresarial local, no qual os municípios terão de demonstrar a necessidade da existência dessas empresas, sua necessidade no futuro, e seu impacto nas contas do município.

Do ponto de vista conceptual, as empresas municipais têm como objecto a exploração de actividades de interesse geral, a promoção do desenvolvimento local e regional e a gestão de concessões, sendo proibida a criação de empresas para o desenvolvimento de actividades de natureza exclusivamente administrativa ou intuito predominantemente mercantil, não podendo ser criadas ou participadas empresas  cujo objecto social não se insira no âmbito das atribuições da autarquia, o que, de forma encapotada, infelizmente ocorre com frequência. Quando a Constituição estabelece, no seu artigo 235.º, n.º 2, que as autarquias locais visam a prossecução de interesses próprios das populações respectivas e fornece fundamento constitucional para a actividade económica das mesmas, na medida em que se insira nos interesses próprios das suas populações, pode até admitir-se que cabe aos municípios o direito de intervenção em tal matéria, a qual decorre do disposto nos artigos 254.º (participação dos municípios nos impostos directos) e 257.º (carácter subsidiário das regiões administrativas em relação aos municípios), uma vez que as autarquias dispõem de uma competência universal nos limites dos seus territórios, cabendo-lhes também participar na realização do Estado social, consagrado nos artigos 1.º e 2.º da Constituição. Mas esse princípio do Estado social, ao mesmo tempo que fundamenta a intervencão municipal, deve também ser compatibilizado com uma ideia de subsidiaridade da intervenção das autarquias na economia. Muito embora tal actividade empresarial  possa visar a prossecução do princípio social e se integre no âmbito da garantia constitucional da autonomia local, o mesmo já não sucede com a actividade económica visando o lucro, uma vez que faltará aí o requisito da prossecução do interesse público. Este mesmo entendimento parece obter confirmação através do artigo 5.º, n.º 1, da Lei n.º 53-F/2006, de 29 de Dezembro, quando proíbe a criação de empresas municipais para o desenvolvimento de actividades de «intuito predominantemente mercantil».

A iniciativa económica municipal deve assentar em 3 vectores: a prossecução do interesse público, o princípio da subsidiaridade e o princípio da territorialidade. O que importa é escolher entre empresas municipais submetidas à concorrência, relativamente às quais os pressupostos da prossecução do interesse público e da territorialidade deixarão de fazer sentido, e empresas municipais actuando fora do mercado, integralmente submetidas a tais pressupostos. Fará sentido a criação de empresas actuando em concorrência, ultrapassando os limites da actividade económica dos municípios?

No caso das empresas actuando em concorrência real, o interesse público da respectiva actividade económica deve ser permitido apenas desde que da aplicação dos ganhos provenientes de tal actividade seja promovido um interesse público, bem como deve ser exigido que às aludidas empresas não seja permitido obter qualquer vantagem que a um concorrente privado não seja também possível conseguir, uma vez que deve ser o mercado a decidir qual a empresa mais apta a prestar um serviço ou a fornecer um bem.

É necessário salientar que os municípios quando estruturam a sua actividade empresarial, isso não equivale a equiparar o direito de escolha de uma actuação segundo as leis do mercado ao direito a exercer uma actividade económica privada, em termos semelhantes aos que se oferecem aos privados. Deve somente admitir-se alguma flexibilidade na concretização dos pressupostos da actividade empresarial dos municípios, e é aí que se joga a pertinência do sector empresarial local.

Entre os pressupostos da actividade económica dos municípios avulta a exigência de esta ser orientada para a prossecução do interesse público, a qual se deve ter por verificada com a inclusão da actividade em causa no âmbito das atribuições dos municípios, tal como definidas pelo legislador, e a sua recondução à exploração de actividades de interesse geral, a promoção do desenvolvimento local e regional ou a gestão de concessões.Tal actividade deve corresponder a uma actividade susceptível de ser desenvolvida em regime de mercado, não podendo consistir numa actividade de natureza exclusivamente administrativa, mas não pode igualmente ter um intuito predominantemente mercantil.

Cabe, assim, perguntar em que medida pode uma empresa municipal visar o lucro, em virtude do número crescente de opiniões que sustentam dever ter-se por verificado um interesse público através da simples obtenção de receitas capazes de desonerar o erário municipal. O problema deste entendimento é que, levado às últimas consequências, deixaria de ser possível estabelecer limites à actividade económica dos municípios, e estes passariam a actuar livremente como quaisquer privados.Neste sentido, o propósito do lucro só pode ser admitido desde que não prejudique o interesse público directamente visado com a criação da empresa municipal, em todos aqueles casos em que seja exercida uma actividade económico-social justificada por um motivo de interesse público. Simplesmente, isso não equivale a exercer essa mesma actividade com um exclusivo propósito lucrativo.

Será também de admitir uma actividade lucrativa quando esta sirva de apoio a uma actividade não económica, bem como será de admitir um lucro a propósito do aproveitamento de recursos económicos que permaneceriam, de outro modo, improdutivos. Grosso modo, as autarquias devem pautar-se por um princípio de subsidiaridade de intervenção, e isso significa fazer depender a justificação da criação ou manutenção de uma empresa municipal da circunstância de o objectivo pretendido não poder ser melhor e mais eficientemente prosseguido através da iniciativa privada, atentas as leis da concorrência.

Em Sintra, sem que um debate alargado sobre estes conceitos e opções tenha tido lugar, prepara-se a criação de uma sociedade de gestão e reabilitação urbana integrando diversas empresas municipais com dois cenários, alternativos. Seja a fusão da EDUCA, HPEM e SintraQuorum e a celebração de um contrato de gestão delegada dos SMAS, sendo a fusão da EDUCA, HPEM e SintraQuorum e a celebração do contrato de gestão delegada dos SMAS, a extinção da Fundação Cultursintra e a cedência da exploração da Quinta da Regaleira a uma nova entidade, assegurando a manutenção de todos os postos de trabalho e os direitos e obrigações das sociedades incorporadas, destacando um estudo encomendado como aspectos positivos a futura criação de serviços partilhados em áreas transversais, com redução de fornecimentos e serviços externos na ordem de 1 milhão de euros/ano (em contabilidade, advogados, publicidade, electricidade, água, rendas e limpeza), um processo de tomada de decisão mais rápido e acesso facilitado a fundos comunitários, bem como maior eficiência ao nível do IVA. Subsiste porém o debate de fundo: carece a prossecução do estado social e a autonomia do poder local se ver de forma empresarialisada a prossecução de tarefas que, ou são serviços administrativos ou são da esfera da economia real, desvirtuando a concorrência? Onde está fundamentado o princípio da subsidiaridade e a necessidade das actuais empresas enquanto tal? Como quase sempre, pouco se discutiu ou virá a discutir, sob a pressão do calendário da troika que subverte a democracia e impõe uma realpolitik de facto consumado e máquina de calcular.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Uma enfermaria em Havana

Na sala da fisioterapia os dois pacientes seguiam resignados os procedimentos que tirânica, a enfermeira Consuelo ditava: alongamentos, passadeira (20 minutos) e bicicleta. Resignados, lá se sujeitavam, Hugo e Fidel, já amigos do trivial pursuit e de sessões de paintball na Sierra Maestra, disparando bolas de tinta azul a yankees de borracha, encontravam-se agora para irritantes tratamentos, hasta la cura, siempre!

Fidel, que se habituara já às visitas de Hugo,( sempre que ia a Havana levava umas bananas e DVD’s do Speedy Gonzalez, os favoritos de Fidel) , por ironia do destino e gáudio dos contra revolucionários fora agora traído por um pélvis mais fraco, por sinal detectado a tempo por camaradas cubanos e dissolvido no paredón do hospital à sombra tutelar dum quadro de Simon Bolivar, que para assistir à operação, como Virgem da Macarena, fora mandado vir. Na convalescença, a hora da fisioterapia era sempre comovente, sem guerrilheiros barbudos ou imperialistas à espreita, mas a enfermeira Consuelo, pior que Estaline, esperando o fim do exercício para impiedosa espetar-lhes a seringa na revolucionária nalga. Hugo, pedalando ia falando com o velho líder, a ausência de exercício físico e o abuso da tequilla não ajudavam muito à recuperação:

-Mira, Fidel, temos de nos recuperar rápido, o povo sem nós fica desorientado e órfão. Se domingo não apareço no meu programa de televisão, o“Alô Presidente” a Venezuela vai sentir-se desamparada. Este mês foi só azares, coño, apanho este abcesso ridículo, falho o bicentenário da independência e para rematar perdi o meu aliado na Europa, o Sócrates. Tem de se arranjar algo rápido, inventar que a CIA me queria matar, ou levar para Guantanamo!

Fidel, cara mirrada e frágil, com vários meses de tratamento em cima,fazia que ouvia, andando na passadeira e com uns headphones colocados, escutava pela 587ª vez o Hasta Siempre, de Carlos Puebla, uma vez com a emoção levantara um braço e deslocara-o, a osteoporose, reaccionária, fazia o seu trabalho ao serviço dos gringos do Norte. De vós trémula, aconselhou o recém-chegado:

-Sempre que te diagnosticarem uma doença há que desmentir como contra-informação do inimigo. Vê o meu caso: quantas vezes anunciaram a minha morte? Sabes quantos presidentes americanos já passaram dizendo que me iam liquidar? Onze! São onze caixas de puros que fumei, uma por cada um que saía, falhando. E podem esperar sentados: quando o Raul morrer-sim, que ele é mais novo mas tem uma próstata de mierda!- hei-de voltar, Cuba sem mim não sobrevive, sou o único revolucionário que resta!

-Bueno, compañero, não te esqueças de mim também, que dou emprego aos teus oftamologistas desempregados. Sabes quantos venezuelanos que viam bem pus a usar óculos só para vos ajudar? Miles!. No futuro o povo só recordará Fidel Castro e Hugo Chavéz como libertadores e pais da revolução! Victória o muerte!

Fidel tossia intensamente agora, Consuelo, profissional e atenta, mandou-o abrir a boca para mais uma colher de xarope, meio engasgado, El Comandante, depois da colher de chá amarga, sentou-se a descansar, Hugo, sem ordem de intervalo, continuava na passadeira com o seu fato de treino amarelo e azul:

-Compañeros, o camarada fisioterapauta aconselha que incentivemos os exercícios de fitness! O compañero Chavez tem de tirar dez quilos, dieta rigorosa!- Consuelo olhava o relógio, para Chavéz, vinte minutos ainda, antes do duche.

-Fitness?- rosnou Chavéz, continuando a andar- isso é coisa de gringo! E virando-se para o velho Castro, piscou-lhe o olho, com ar maroto:

-Tinham de estar mais chicas na enfermaria, não? Podíamos mandar vir do Malecón ou do Tropicana, para nos fazerem o penso…

Fidel, cansado e de olhar mortiço, aí sorriu, sessenta anos de revolução não tinham sido em vão, ao lado do povo….

De rompante, entrou na sala Raul, agora comandante da Revolução, vinha a visitar o irmão e o hóspede. Hugo acenou-lhe ruidosamente de longe, ao mesmo tempo rindo para si ao lembrar-se da conversa da próstata que Fidel lhe confessara:

-Então compañero presidente, mais um e já jogamos à sueca…- gritou Chavéz, quase falhando a passadeira, levava já três quilómetros e suava como um cervo.

-Podemos chamar o Ortega ou o Evo Morales. Aliás, acho que o Ortega até quer vir, revolucionário com gabarito e que se preze, está em Havana e no hospital por estes dias. E olha, podem fazer discursos  a partir daqui, todos os dias, e exaltar os serviços de saúde cubanos!- Raul, bem disposto, gozava o prato, esperara anos mas o poder chegara-lhe de bandeja.

Alguns minutos depois,Consuelo, olhando o relógio, mandou Chavéz terminar, era a hora da injecção, o presidencial traseiro já começava a ficar dorido de tanta condecoração cubana. Baixando as calças atrás do biombo, enquanto a enfermeira preparava a seringa, o presidente continuou a conversa com Raul e Fidel, que num canto do ginásio do hospital tomavam agora um sumo de maracujá, tinha planos para o futuro:

-Sabem companheiros, esta do tumor foi muito boa.  Quando sair, vou organizar uma parada triunfal para me receber no aeroporto, convido o Morales, a Dilma, o Correa, olhem e até o Sócrates, que eu para mim, amigo é sempre amigo. Espero que não tenha ficado chateado porque não lhe comprei o barco de Viana que me queriam impingir, mas eu, quando vou às compras é assim,  regatear, sempre! O meu pai era cigano, sabem…

A sala abafava com o dialecto-tortilha do presidente da Venezuela, continuando o monólogo presidencial, alguns segundos passados, a vós trémula de Fidel, sentado à janela da enfermaria interrompeu o hóspede de Cuba:

-Chavéz?

-Si, compañero, habla, que pasa, coño?

-Por que non te callas?