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domingo, 26 de junho de 2011

Pardal Monteiro


Personalidade nem sempre recordada e ligada à actividade dos mármores no concelho de Sintra é o arquitecto Porfirio Pardal Monteiro, nascido em Pêro Pinheiro (1897-1957) um precursor do modernismo em Portugal nos anos trinta do século passado. Ligado pela família à indústria dos mármores, a ele se devem edifícios de referência na paisagem urbana do século XX, como sejam: o edifício do nº49 da Av. da República, em Lisboa (Prémio Valmor de 1923), a estação ferroviária do Cais de Sodré (1925-1928), o Palacete Vale Flor (Prémio Valmor de 1928), uma moradia no nº207 a 215 da Av. 5 de Outubro, em Lisboa(Prémio Valmor de 1929), a igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa (Prémio Valmor de 1938), o edifício do Diário de Notícias (Prémio Valmor de 1940), os edifícios das Faculdades de Direito e de Letras, em Lisboa, o Instituto Superior Técnico (1939), a Biblioteca Nacional e os Hotéis Ritz e Tivoli, em Lisboa.

    sábado, 25 de junho de 2011

    Colares de outros tempos

    Hoje é o Restaurante Camarão, e a antiga Casa dos Frangos

    R. da Abreja

    Farmácia Rocha

    Vista panorâmica, anos 20

    Festa popular no Coreto

    Largo do Coreto

    Actuais correios, do outro lado são os Bombeiros

    Vista bucólica

    Hoje, o Cantinho da Várzea

     Adega Regional de Colares

    sexta-feira, 24 de junho de 2011

    Os frustrados do costume

    Nos dias que passam é corriqueiro e quase inevitável falar da famigerada crise, não se passa sem ela, nos jornais, nos cafés, no emprego, no parlamento,creio mesmo que se um dia porventura acabar a sensação de orfandade será  tão grande que se terá de arranjar logo outra se possível pior para pôr à prova o nosso sadismo colectivo.Desde Alcácer Quibir que assim é, é endémico. O certo é que vamos estando(aliás, em Portugal, país do gerúndio, não se vai ,vai-se andando ...)
    A idiossincrasia dos povos tem destas coisas, mas analisando à lupa ,a História encarrega-se de provar que apesar do fado nacional , sempre soubemos domar os Adamastores, fossem eles  o grande e desconhecido Mar-Oceano ou os mais prosaicos e invisíveis "mercados".Já vêm da época dos descobrimentos os velhos do Restelo, contudo não deixámos de ousar lutar e ousar vencer, contra castelhanos, terramotos, franceses, ditaduras, e afinal ainda cá estamos, o país mais antigo da Europa e com as fronteiras mais estáveis, a 5ª  lingua mais falada em todo o mundo, em 32º no ranking mundial de 194 países ( com o detalhe de sermos dos mais pobres entre os ricos, mas ainda assim no clube...).Ponha-se os olhos em povos como o alemão,devastados por guerras que provocaram milhões de mortos e destruição em massa e  contudo sempre a renascer das cinzas. Temos  sempre a tendência para achar que a culpa é “deles”, os que nos governam (porque se governam) mas “eles” somos nós,todos, no que temos de bom e mau, como qualquer outro país.O pessimismo é como o auto-golo, só serve para perder pontos.
    Vem isto a propósito da responsabilidade que em minha opinião têm certas elites e certa opinião publicada nos estados de alma que moldam o carácter nacional dos portugueses. O pathos nacional é marcado pelos vencidos da vida de várias gerações,desde o conformado "ainda o apanhamos" do Eça até essa peça sublime e igualmente derrotista que é a Mensagem, de Pessoa. Obras belas, plástica e literáriamente, mas hinos à descrença, à resignação e ao fatalismo. Se  olharmos com atenção, todos os grandes gurus nacionais são-no na medida em que se assumem como profetas da desgraça,(os optimistas chamam-lhes "visionários...). Quanto mais baterem no ceguinho mais premiados e idolatrados, pois eles,premonitórios é que viram para lá da nuvem. Um exemplo: a nossa cena de comentadores, os ditos opinion makers.Quem são os mais convidados e “respeitados”? os que autofagicamente anunciam a “piolheira” do país, os frustrados, os que querem  ajustes de contas com os adversários ou ex-amigos. Dê-se-lhes uma caneta ou um teclado e ei-los a zurzir inflamados a desgraça nacional e o fado de ser português, o  "isto só cá", como se todos soubessem em profundidade como é exactamente "lá". Já Almada dizia que o  pior de Portugal eram os portugueses, e eles aplaudiram claro, porque nunca é nada "connosco", mas tudo com"eles".
    Faça-se uma experiência: ouçamos um dia inteiro iluminados como  Medina Carreira,  Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares, a equipa do Eixo do Mal ou o inenarrável Mário Crespo, e, se não estiver deprimido e enterrado em whiskies veja qual o contributo positivo destes profetas da desgraça para melhorar o estado de coisas, profetas da desgraça depois da desgraça ocorrer, na onda do “estava-se mesmo a ver, eu avisei”, mas entretanto nada viram e nada avisaram.
    Entre nós, as veneradas elites pensadoras são sobretudo faladoras, e sobretudo maldizentes, imensamente responsáveis pela degeneração da ideia de Portugal, e aó pouco ou nada mudou desde a fuga de D.João VI para o Brasil e o ciclo de declínio que endémico se seguiu. Porém, mal ou bem cá vamos, e sobretudo, cá estamos, apesar de sermos o país que nasceu com o filho a bater na mãe. Somos uma matriz da civilização ocidental e um berço de culturas,(eu sei, cheira a discurso de 10 de Junho, mas é verdade!), O que faria então se nos entendêssemos sobre as grandes questões, separando a árvore da floresta e fazendo planos para a floresta.
    Temos  a particularidade de estarmos sempre desavindos uns com os outros e desconfiarmos mais depressa de outro português do que do primeiro estrangeiro desqualificado que nos metam na frente.Como aquele velho anarquista que dizia:há governo? Sou contra!
    Com crise ou sem crise, os povos não acabam, apesar de poder suceder como nos vírus da gripe, com o tempo estes degenerarem noutros, com novas roupagens e atitudes, e a geração que abriu o século XXI  poder vir a sair mal na fotografia da História. Mas depois do tempo, tempo vem, e um pouco de azul sempre é melhor que o cinzento, apesar de  pairar negro nos espíritos. Como um dia disse o general De Gaulle, "o fim da esperança é o começo da morte". E aos velhos do Restelo, uma temporada nas termas não faria nada mal...

    quinta-feira, 23 de junho de 2011

    In memoriam de Eduardo Lacerda Tavares


    Foi no passado  dia 18 de Junho descerrada uma placa toponímica que dá o nome do Dr. Eduardo Lacerda Tavares à rotunda fronteira ao Palácio da Justiça de Sintra. Recordo com respeito e amizade o dr. Eduardo Lacerda Tavares, insigne advogado com quem privei desde os anos 80, primeiro como advogado estagiário, quando nos cruzámos algumas vezes em processos onde defendemos clientes diferentes, e depois na Câmara Municipal, momentos em que sempre pude registar um profissionalismo e elevação na defesa das causas a que se entregava, exemplo de urbanidade, discrição e competência. O Dr. Lacerda Tavares era um Advogado com A grande,duma estirpe que hoje quase não há, um lutador pela Justiça e uma humanista praticante, na sua profissão e para com a comunidade onde se integrava.
    Falecido há poucos meses em circunstâncias que a todos chocaram, pela surpresa e circunstancialismo, vivia em Sintra desde 1954 ,onde estudou no Colégio Académico, tendo ingressado em 1957 na Faculdade de Direito de Lisboa onde se licenciou em 1962. Em Sintra 47 anos seguidos se distinguiu no exercício da advocacia.Teve igualmente ao longo da vida inúmeras intervenções na sociedade civil sintrense e na defesa de causas sociais, de que se destacam a Santa Casa da Misericórdia e a Liga dos Amigos da Terceira Idade «Os Avós».De 1998 a 2006 exerceu o cargo de provedor da mesa administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Sintra e de 2007 até à data do falecimento foi presidente da assembleia geral, funções que igualmente exercia na Liga dos Amigos da Terceira Idade «Os Avós», que ajudou a fundar. Foi também membro do Rotary Clube de Sintra e presidente do conselho distrital de Lisboa da União das Misericórdias Portuguesas.
    Em 1975 foi um dos fundadores da secção de Sintra do então PPD. Foi candidato a deputado à primeira Assembleia Constituinte e em 1976 candidato à presidência da Câmara Municipal de Sintra, tendo exercido as funções de vereador entre 1977 e 1979.
    Encontrei-o pela última vez na véspera da sua morte, na Portela de Sintra, no quiosque dos jornais, como sempre tinha um sorriso afável e a elegância dum cumprimento frontal e fraterno. 
    Uma rotunda não é muito, mas maior homenagem é a que os advogados, antigos e agora chegados, e demais membros da comunidade lhe podem fazer lutando diariamente não só pela realização do Estado de Direito mas sobretudo por essa utopia generosa que é o Estado de Justiça nunca perdendo de mira o seu destinatário principal, o Homem.

    Um poeta esquecido na lucidez da loucura:António Gancho


    Dizem que morreu a rir e diz-se que foi de ataque cardíaco após 38 anos de internamento na Casa de Saúde do Telhal. Pouco se sabe acerca das circunstâncias da morte do poeta 'louco', como pouco se soube da sua vida e da obra, escrita integralmente no manicómio. "Foi muito mal tratado pela sociedade,um caso de abuso psiquiátrico, de miséria nacional e institucional", disse Álvaro Lapa, conterrâneo de António Gancho, que lhe arranjou editor quando o poeta o informou de que tinha um livro por publicar. Homem de grande lucidez poética, como o retratou Manuel Rosa, da Assírio & Alvim, a editora que publicou aquela que é considerada a grande obra de António Gancho, O Ar da Manhã, em 1995. Um livro que, segundo o poeta, "são quatro livros" num volume O Ar da Manhã, Gaio do Espírito, Poesia Prometida e Poemas Digitais de onde se destaca este "Noite, vem noite sobre mim sobre nós/ dá repouso absoluto de tudo/ traz peixes e abismos para nos abismarmos/ traz o sono traz a morte..." António Gancho nasceu em Évora em 1940 e desde os 20 anos que correu várias instituições psiquiátricas. Dizia ser Luís Vaz de Camões, Bocage, Kafka, Pessoa e todos os escritores que admirava. Dizia ainda que não sabia por que escrevia, que o escritor "só pode ser escritor quando já nasceu escritor" e que "a imaginação é tudo. É ela que deve estar ao comando da inspiração, quero dizer, a inspiração deve comandar a imaginação do autor, do escritor, do poeta." (in A Phala, n.º45). Herberto Hélder deu-o a conhecer, com uma selecção de 11 poemas, em Edoi Lelia Doura das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (Assírio & Alvim). E foi a Herberto Helder que Manuel Rosa recorreu quando se lhe pediu para classificar a poesia intensa e de matriz surrealista de António Gancho.Era um poeta nocturno, de uma poesia nada construída, muito espontânea.
    Bibliografia: O Ar da Manhã (1995) / As Dioptrias de Elisa (1997)

    "... Suponho que de tudo o que escrevi
    só o amor
    só o amor louco me disse
    o que era a poesia
    só o amor e os teus lábios
    o teu sexo
    a tua púbis incandescente
    só isso canto e cantei
    e cantarei ...
    " [A.G.]
     
    Sintra ainda não homenageou convenientemente o seu poeta nocturno. Mas lá onde estiver, há-de rir a bom rir quando o fizerem.

    quarta-feira, 22 de junho de 2011

    O nosso futuro é o nosso passado

     
    Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia, considera que a sobrevivência do euro depende de uma reforma profunda nas instituições europeias que a crise grega é o primeiro passo para o fim do euro, defendendo que se a UE não resolver os seus profundos problemas institucionais, o futuro da moeda única será limitado. Para ele, é imperativa a criação de uma união fiscal para proteger o euro, ideia hoje também defendida por outros economistas.
    Sobre o plano de ajuda à Grécia, o Nobel considera que os 110 mil milhões de euros poderão afastar os especuladores de Atenas, mas apenas por algum tempo. No longo prazo os problemas estruturais continuarão lá e os especuladores conhecem bem essas debilidades, pelo que à medida que a Europa for enfraquecendo ir-se-á tornando mais propícia a ataques especulativos. A questão é que ninguém quer assumir os riscos, por falta de uma visão de Europa. Em minha opinião, Portugal e demais países com ameças à chamada "dívida soberana" deveriam promover dentro da UE um bloco de países que, ameaçando com o default, pusesse os bancos credores em sentido e mais prontos a colaborar na solução. Porque se não pagar é mau, não virem a receber os biliões emprestados e asfixiando assim o sector financeiro será muito pior, por isso, quantos mais meses durar o esticar de corda, pior para a sobrevivência das economias do euro.
    Visto à distância de 9 anos, pasma-se como se criou uma moeda única sem ter uma política económica, fiscal, financeira e bancária única e coordenada, atentas as diferenças de crescimento e de organização dos 16 países aderentes, e agora, que todos os iluminados vêm e comentam o que não viram nos anos anteriores, dão-se palpites e caminha-se para uma situação de insustentabilidade sem fim à vista. Ainda ontem reli o livro que Cavaco Silva escreveu em 2001 “Portugal e a Moeda Única”, e pelo qual, seriam a nossa adesão seriam só vantagens, o "bom aluno" dos anos 9o estava em condições de entrar no Clube dos Ricos e continuar a crescer sem fazer as reformas estruturais que se impunham. De nenúfar em nenúfar até ao sucesso , era a palavra de ordem, hoje próximo do naufrágio final. Afinal, não são só os meteorologistas que se enganam nas previsões, essa espécie de Professores Karamba do gráfico e do PSI também pouco mais passam que de aprendizes de feitiçeiro.  Cavaco, o homem que criou o “monstro” que depois outros engordaram, foi o homem que em nome da mítica PAC matou a agricultura e pescas, encheu o país de estradas e obras faraónicas (Expo, Ponte Vasco da Gama, CCB) de que é agora o maior crítico, censurando agora que os portugueses tivessem cometido o crime de lesa pátria de ter comprado casas e passado a consumir de acordo com a "terra do leite e do mel" que as pitonisas do QREN, do FEDER ou do FEOGA anunciavam, os bancos acenavam com crédito fácil e os governos estimulavam o consumo e a "Europa". Culpados, não sei quem são, as vítimas futuras, essas sei quem serão e muito bem.
    É tempo de experimentar outras soluções, numa economia globalizada, apostar nos nossos clusters de produtos e serviços transaccionáveis com valor exportador, potenciadores de emprego e onde sejamos competitivos. E porque não apostar num espaço económico e monetário lusófono,  solidário e emergente, como as economias de Angola e Brasil parecem vir a ser. São 250 milhões de consumidores em vários continentes, com classes médias a emergir e janelas de oportunidade.
    O nosso futuro, paradoxalmente, poderá estar no nosso passado. Em 500 anos, Portugal só nos últimos 30 olhou para a Europa, e nem o país gosta da Europa nem a Europa gosta de Portugal.  Voltemos pois a Casa e ao nosso Espaço Comum. Os gregos não têm as vantagens estratégicas e os laços centenários de Portugal. Apostemos pois no que nos distingue e viremos a página rumo ao Futuro. Há 10 milhões de portugueses e toda uma geração jovem que merece.