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sábado, 18 de junho de 2011

Principais escritores sintrenses vivos

Sintra possui, felizmente, diversos escritores vivos em grande e relevante actividade, e cuja leitura deveria ser obrigatória.
Depois do desaparecimento há 2 anos de M.S.Lourenço, ainda não devidamente lembrado na terra onde nasceu e viveu, elenco aqui a minha selecção, incompleta, como é óbvio, se bem que não intencional, nem a ordem de apresentação é relevante. O critério passou sobretudo por cá terem nascido ou cá morarem ou desenvolverem actividade literária:
Liberto Cruz

Nascido em Sintra, em 1935, é uma figura de prestígio da cultura portuguesa, no plano nacional e internacional. Poeta e ensaísta, crítico literário, tradutor, conferencista, licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, colaborador do antigo Jornal de Letras e Artes, da revista Colóquio Letras, fundador da revista literária A Síbila, membro da Associação Internacional de Críticos Literários, exerceu actividades docentes e diplomáticas em França durante 22 anos.Foi um notável impulsionador do estudo de literatura africana de expressão portuguesa nas universidades de Rennes e de Vincennes (Paris), de 1967 a 1976. Exerceu com brilho, eficiência e generosidade as funções de Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Paris, de 1976 a 1988. De regresso a Portugal foi convidado para director de serviços da Fundação Oriente, em Lisboa. Foi recentemente integrado na secção de Cultura da missão da UNESCO, em Portugal, fazendo ainda parte da Direcção da Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa. Liberto Cruz tem sido ainda convidado para júris literários, seminários e colóquios nacionais e internacionais. É um sintrense raro pela sua cultura e pelo seu trato humano, a quem muito se deve. Sintra deverá sempre reconhecê-lo e dele orgulhar-se. Dele escreveu Helena Langrouva:
“Como sintrense, modelado pela beleza e o mistério de Sintra, em Caderno de Encargos, Liberto Cruz concentra em alguns sonetos o seu regresso às origens e à casa paterna (son. 20, pg. 32), à Serra de Sintra (son. 20, pg. 32), ao rio da sua infância (son. 39, pg. 51), à atitude meditativa que a sua companheira árvore lhe inspira (48, pg. 60). O retorno a esse espaço não é de quem dele se afastou voluntariamente, - "não sendo um filho pródigo / volto à casa paterna / e com saudades chego / como quando parti" (son. 22, pg. 34), mas a renovação de um afecto que perdurou, apenas inexoravelmente alterado pela morte da mãe . "Nada mudou. Faltas tu / mãe e de repente tudo / foge já nada existe" (ibidem).
O regresso à serra, ao seu silêncio agudiza a consciência da sua própria identidade embora evoluída no tempo que simultaneamente o torna "outro" no seu ser, no seu modo de olhar a paisagem, na mudança do seu próprio corpo - "À serra volto ainda / No silêncio das pedras me vejo então um outro / mas o mesmo sendo"... "outra forma de estar / perante a mesma paisagem / aceito".... "o mesmo sinto um outro / na viagem do meu corpo / as pedras a serra vendo" (son. 18, pg. 30).
O seu corpo a envelhecer parece renovar-se correndo "em redor do velho corpo da serra adormecida", o qual se transforma pela magia de "duendes e fantasmas", "camélias, túlipas"... "de rosas e buganvílias / agapantos araucárias" (son. 38, pg. 50). Essa magia rejuvenesce a serra e suscita saudade em ambos - "Em redor do jovem corpo / da jovem serra de Sintra / de novo corro. Antigo / agora o corpo meu / de saudades de um rio / em mim e na serra correm" (ibidem). É a nostalgia comungada da juventude do sujeito do poema e da paisagem da sua infância como se a serra fosse animizada na sua velhice, embora sempre renovada, no seu corpo, por seres mágicos, flores e árvores. A Serra de Sintra é ainda contemplada nas suas cores, aves, silêncio, pedras, ervas, para acompanhar o mistério da presença da vida e da morte, identificáveis com "sinais de um deus". O divino manifesta-se na própria identidade e beleza da serra, companhia da vida e da morte - "Entre a vida e a morte / é a montanha divina" (son. 20. pg. 32).
Bibliografia: Momento, Sintra, 1956; A Tua Palavra, Sintra, 1958; Névoa ou Sintaxe, Sintra, 1959; Itinerário, 1962; Gramática Histórica, 1971 (pseudónimo, Álvaro Neto); Distância, 1976; Ciclo, 1982; Jornal de Campanha, Cacilhas, 1986; Caderno de Encargos, Lisboa, 1994; Júlio Dinis - Análise Bibliográfica, Paris, 1971; José Cardoso Pires, Lisboa, 1972.
Jorge Telles de Menezes

Poeta, tradutor, dramaturgo, cultor de spoken word. Sintra estruturou a sua existência. O verdadeiro cosmopolita é o mais puro defensor da tradição. Cresceu como ser humano quando traduziu Martin Heidegger e William Faulkner. De poesia publicou os livros In einer Fremden Stadt e Selenographia in Cynthia. É contra a civilização do petróleo, só usa transportes públicos. Recentemente editou Novelos de Sintra, de que se disse “ Um homem, uma mulher, uma montanha, uma casa, todos os outros homens e todas as outras casas, aldeias pequenas, médias e grandes e uma cidade. Sem nomes, eles são arquétipos das relações entre os humanos e entre estes e o património natural e construído. A meio do novelo, escapa contudo um topónimo que lhe retira o carácter universalista, pois afinal a utopia tem um nome – «Acordou no paraíso que o homem roubou para a terra ao reino de Deus: a montanha de Sintra». Desdenhando da necessidade de conceder verosimilhança à sua narrativa, o autor aproxima a sua novela da tradição de realismo fantástico – e não pede sequer permissão ao leitor para lançar para a cena personagens improváveis vivendo situações impossíveis. Se quisermos aproximar a novela de Telles de Menezes de um referente português, poderemos sem dúvida fazê-lo em relação às novelas de José Saramago, que aspiram a afirmar-se, segundo o Nobel luso, como «um espaço criativo onde devem estar o ensaio, o drama, a filosofia, a ciência», oferecendo-se como «um depósito da sabedoria humana»
Está presentemente empenhado na revista literária online Selene-Culturas de Sintra. Entrevistei-o recentemente, uma extraordinária viagem pelo pensamento contemporâneo para ler em:
Maria Almira Medina

Nome  incontornável de poeta, pintora, caricaturista e jornalista, sendo a sua “Menina Girassol” um título hoje incontornável. Foi igualmente directora do Jornal de Sintra. A decana da Cultura em Sintra.
Maria Almira Pedrosa Medina nasceu em Tavarede, Figueira da Foz, a 29 de Agosto de 1920, mas vive em Sintra desde os seis anos de idade.
É licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, possuindo também o curso de Ciências Pedagógicas. Quando docente, foi animadora de uma acção de ensino do teatro e da poesia junto de escolas secundárias e coordenadora de jornais escolares impressos, que incentivaram exposições, colóquios e actividades regionais.
Como artista plástica, expõe desde 1943, abrangendo a sua multifacetada actividade a pintura, o desenho, a cerâmica, a ilustração, o desenho animado, a caricatura, a trapologia, a joalharia, os têxteis, a publicidade e o estilismo.
Fez a sua primeira exposição colectiva em Sintra – “I Exposição dos Artistas Sintrenses” (1943) – e a sua primeira exposição individual em Lisboa, na Galeria “Stop” (1945), tendo depois exposto em vários locais, desde a sua terra natal, Figueira da Foz, até à sua terra de adopção, Sintra.
Nas exposições que realizou, ao longo de mais de 65 anos, passou pelas localidades de Albufeira, Estoril, Coimbra, Lisboa, Oeiras, Oliveira de Azeméis, Porto, Porto de Mós, Vimeiro e ainda a Ilha de Jersey (Grã-Bretanha), entre vários outros locais.
Maria Almira Medina conta ainda no seu curriculum com diversas colaborações em vários jornais, revistas e livros escolares, alternando textos com ilustrações. A autora conta com seis livros publicados, estando a sua obra presente em várias antologias poéticas.
Foi membro da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Associação dos Amigos de Ferreira de Castro, Associação Portuguesa de Educação pela Arte, Associação Cultural Sol XXI, sendo actualmente membro da Associação de Escritores, Instituto de Sintra e cooperadora da Sociedade Portuguesa de Autores.
Ao longo da sua extensa carreira, Maria Almira Medina granjeou vários prémios e distinções, o primeiro dos quais em 1948 – 1º Prémio no “Concurso de Caricatura da Gente da Rádio”, promovido pela Casa do Pessoal da Emissora Nacional, em 2009 foi homenageada pela Câmara Municipal da Figueira da Foz (em simultâneo com uma homenagem a seu pai, António Medina Júnior).
Miguel Real

Miguel Real é o pseudónimo literário de Luís Martins (1953 -) Escritor, ensaísta e professor de filosofia. Em 2006, conquistou o Prémio Literário Fernando Namora com o romance A Voz da Terra. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa e Mestre em Estudos Portugueses pela Universidade Aberta, com uma tese sobre Eduardo Lourenço.É, actualmente, colaborador do JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias onde faz crítica literária. É ainda radialista na Antena 2, no programa Um Certo Olhar com, Maria João Seixas, Luísa Schmidt, Carla Hilário Quevedo e Luís Caetano.
Bibliografia: Agostinho da Silva e a Cultura Portuguesa (2007)O Último Minuto na Vida de S. (2007)O Último Negreiro (2007) Quidnovi O Último Eça (2007] Quidnovi 1755 - O Grande Terramoto (2006) Europress O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa (2006) Quidnovi Voz da Terra (2006) O Último Guerreiro (2006) O Último Eça (2006) A Voz da Terra (2005) Quidnovi O Essencial Sobre Eduardo Lourenço (2003) I.N.- C.M. Eduardo Lourenço - Os Anos da Formação 1945-1958 (2003) I.N.- C.M. Os Patriotas (2002) Europress Geração de 90 (2001) Campo das Letra A Visão de Túndalo Por Eça de Queirós (2000) Difel Portugal.Ser e Representação (1998) Difel A Verdadeira Apologia de Sócrates (1998) Campo das Letras Narração, Maravilhoso, Trágico e Sagrado em «Memorial do Convento» de José Saramago (1996) Editorial Caminho A Morte de Portugal, entre outros. Recentemente editou na Planeta “História do Pensamento Português Contemporâneo 1890-2010  Prémios Literários :Prémio Revelação de Ficção da APE/IPLB em 1979 (O Outro e o Mesmo)Prémio Revelação de Ensaio Literário da APE/IPLB em 1995 (Portugal – Ser e Representação)Prémio LER/Círculo de Leitores 2000 (A Visão de Túndalo por Eça de Queirós)Prémio Fernando Namora da Sociedade Estoril Sol em 2006 (A Voz da Terra), entre outros.
Luís Filipe Sarmento

Luís Filipe Sarmento nasceu a 12 de Outubro de 1956.  Escritor, Tradutor e Realizador de Televisão Jornalista desde 1970, publicista, editor, realizador de cinema e vídeo. Licenciatura em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Professor de Escrita Criativa. Alguns dos seus textos encontram-se traduzidos em inglês, espanhol, francês, italiano, mandarim, japonês, romeno, macedónio, croata e russo. Produziu e realizou a primeira experiência de Videolivro feita em Portugal para o programa Acontece para a RTP, durante sete anos. Membro do International P.E.N. Club. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Coordenador Internacional da Organization Mondial de Poétes (1994-1995). Membro do International Comite of World Congress of Poets. Presidente da Associação Ibero-Americana de Escritores (1999-2000). Algumas das suas obras: Fim de Paisagem; Matinas, Laudas, Vésperas, Completas; Boca Barroca; Crónica da Vida Social dos Ocultistas, entre outras dum vasto percurso de mais de 30 anos. A seguir, entrevista com o mesmo, efectuada com o signatário para o site da Alagamares-Associação Cultural:
Helena Langrouva


Natural da freguesia de São Martinho de Sintra e residente em Sintra, é Licenciada em Filologia Clássica (Universidade de Lisboa), Maître ès Lettres Modernes - Cinéma (Montpellier III - Université Paul Valéry), Pós-graduada - D.E.A. (Paris III - La Sorbonne Nouvelle), Master of Arts e Master of Philosophy (Londres - King's College) em Estudos Portugueses e Doutorada em Literatura (Lisboa, Universidade Nova). Investigadora interdisciplinar, em particular da Cultura Clássica, Renascentista (séculos XV e XVI) e do século XX, foi recentemente convidada a integrar um grupo de investigação em História da Arte, na Faculdade de Letras de Lisboa. Foi leitora de Língua e Cultura Portuguesas nas Universidades de Montpellier e Rouen, França, leccionou Literatura no ensino superior, com passagem pelo secundário onde leccionou Grego, Latim e Português. Escritora, publicou A Viagem na Poesia de Camões, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian e FCT, 2006; Actualidade d'Os Lusíadas, Lisboa, Roma Editora, 2006; De Homero a Sophia. Viagens e poéticas, Coimbra, Angelus Novus, 2004; Arpejos de uma viandante/Arpèges (poesia bilingue), Lisboa, edição de autor, 2003; ensaios nas revistas Brotéria, O Tempo e o Modo e Critério (Lisboa), em volumes colectivos. Traduziu Lanza Del Vasto, Não-Violência e Civilização - Antologia, Lisboa, Brotéria, 1978; Jean Joubert, O Homem de Areia (romance), Lisboa, Difel, 1991. É co-organizadora e co-autora de Humanismo para o nosso tempo - Estudos de Homenagem a Luís de Sousa Rebelo, Lisboa, patrocínio da F. Gulbenkian (contacto:APPACDM-Braga), 2004. Foi encarregada da Biblioteca Municipal de Sintra - Palácio Valenças- nos seus tempos de estudante, tendo organizado, com um grupo de Amigos da Biblioteca, actividades culturais, no Palácio Valenças e no antigo Cine-Teatro Carlos Manuel. Tem escrito ao longo da vida e continua a dedicar-se à escrita. Estudou Artes Musicais - Canto Clássico: Curso Geral e em privado (Lisboa), Canto Gregoriano, Popular e Litúrgico (Lisboa e França); pratica Canto a solo e em grupo. Estudou Artes Plásticas – Desenho e Pintura (Lisboa e Paris) e Iconografia (Paris). Realizou exposições individuais de Pintura em Sintra, Lisboa e Évora. Desenha e pinta ícones inspirados na tradição grega e russa, em têmpera sobre madeira, que ela própria prepara e disponibiliza através do Atelier Saint Rapahel (www.atelier-st-raphael.pt.vu). A sua página no Triplov tem o endereço www.triplov.com/helena/.
Sérgio Luís Carvalho

Licenciou-se em História (1981) e é mestre em História Medieval (1988).Foi  Director Científico do Museu do Pão.
Publicou os romances “Anno Domini 1348” (Edição C. M. S., 1990; Prémio Literário Ferreira de Castro 1989; finalista do Prémio Jean Monnet de Literatura Europeia, Cognac 2004 e finalista do Prémio Amphi de literatura Europeia Lille 2005), “As Horas de Monsaraz” (Campo das Letras, 1997), “El-Rei-Pastor” (Campo das Letras, 2000), “Os Rios da Babilónia” (Campo das Letras, 2003), “Retrato de S. Jerónimo no seu Estúdio” (Campo das Letras, 2006), entre outros, sendo a sua obra mais recente “O Destino do Capitão Blanc”(Planeta,2009,
Alguns dos seus romances estão traduzidos e publicados em França e Espanha. É ainda autor de vários livros de investigação histórica e literatura juvenil.Entrevista para o site da Alagamares-Associação Cultural em:
Filomena Marona Beja

Filomena Marona Beja, que nasceu em Lisboa a 9 de Junho de 1944,trabalha em documentação técnico-científica e foi já distinguida pelo romance “A cova do lagarto” publicado em 2007 pela Sextante Editora.
Para além deste livro, a escritora tem publicado outros romances que foram muito bem acolhidos pela crítica, como é o caso de “As Cidadãs (Cotovia, 1998) ”, “Betânia (Cotovia, 2000) ”  “A Sopa (Âmbar, 2004) ” ou “Bute daí Zé!”(2010).Tem também publicado vários contos. O seu mais recente intitula-se “Gil Eanes”, na Antologia “Viana a Várias Vozes” (comemorativa dos 750 anos do Foral de Viana do Lima).
Raquel Ochoa

Raquel Ochoa, revelação no panorama literário, residente em Sintra, nasceu em 1980. Na sequência de uma viagem de vários meses pela América Central e do Sul, editou O Vento dos Outros, em 2008. No mesmo ano publicou Bana – uma Vida a Cantar Cabo Verde, a biografia de um mais populares músicos africanos.
 Em 2009 venceu o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, com o romance A Casa-Comboio, a saga de uma família indo-portuguesa ao longo de quatro gerações.
 A Infanta Rebelde é a sua primeira obra publicada pela Oficina do Livro.
Nesta listagem procurou-se englobar sobretudo autores de ficção. Noutro artigo focaremos os poetas e ensaístas.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Cultura: o senhor que se segue

Como era previsível, a Cultura passa a Secretaria de Estado, sendo titular, ao que parece, Francisco José Viegas. Homem do Verbo, refém anunciado da falta de Verba, caber-lhe-á a função simpática de dizer que não com um sorriso, ou quiçá um poema de Pessoa ou um trecho de Mallarmé. Como em governos anteriores, e até lá fora (veja-se Gilberto Gil, no Brasil) estas pastas têm, apenas uma função de cosmética, dando a ideia de abertura ao mundo da Cultura, porém, que me recorde, nenhum dos ocupantes anteriores (e já tivemos David Mourão Ferreira ou Hélder Macedo) acrescentou prestígio passando pelo malfadado gabinete na Ajuda. Boa sorte, contudo, perde-se um razoável escritor e crítico, nasce um burocrata com a tarefa de dizer não, se possível no Martinho da Arcada.

O pai da História de Sintra



Se há alguém que pode ser justamente considerado o precursor dos estudos sobre a história de Sintra, esse alguém é João António de Lemos Pereira de Lacerda, 2.º visconde de Juromenha.
Era filho do 1º. visconde de Juromenha, o tenente-general António de Lemos Pereira de Lacerda, e começou a sua educação no seminário irlandês de S. Pedro e S. Paulo, vulgarmente conhecido pelo Colégio dos Inglesinhos, passando depois ao Real Colégio dos Nobres. Foi mais tarde para a Universidade de Coimbra, onde fez exame de francês, inglês, latim e grego, e matriculou-se em seguida nas faculdades de Matemática e Filosofia, cursos que teve de interromper por ter rebentado a guerra civil em 1828. Seu pai tornara-se partidário da causa miguelista e ele acompanhou-o nas mesmas ideias. Recebendo procuração de seu pai, representou-o na reunião dos Três Estados do Reino, convocados em Julho de 1828, e nessa qualidade aclamou a nova realeza. Não foi, porém, um político militante nem exaltado, e durante os anos de 1828 a 1838 não consta que se evidenciasse pelas ideias exageradas ou por feitos, que atraíssem antipatias e ódios. Quando terminou a campanha, contudo, dadas as simpatias miguelistas teve de emigrar, durante 4 anos. Regressando à pátria a sua estreia na carreira das letras foi a publicação da obra intitulada Cintra Pinturesca, ou Memoria descriptiva das villas de Cintra, Collares e seus arredores, Lisboa, 1838; saiu sem o nome do autor, e foi acompanhada dum atlas e de estampas ilustrativas de diversos pontos da Memoria. Esta obra foi revista por Alexandre Herculano, com quem o visconde de Juromenha travara relações por intermédio do seu antigo amigo e condiscípulo Inácio Pizarro de Morais Sarmento, realizando-se entre os três contínuas conferências literárias. As relações com o grande historiador foram sempre as mais amigáveis, apesar da profunda divergência de opiniões políticas.
O visconde de Juromenha era tido geralmente como um dos mais profundos investigadores das nossas antiguidades. O que ambicionava sobretudo era entregar-se ao estudo da obra de Camões, dos seus críticos e comentadores. De 1838 a 1859 foi esse o alvo constante. Às suas acções se deve averiguar-se a data verdadeira da morte do poeta, que foi um ano depois daquela em que fora designada pelos antigos biógrafos e até pelos contemporâneos de Camões; o lugar da sua sepultura no convento de Sant'Ana, descobrindo-se os ossos, a fim de se prestar a homenagem que se devia ao poeta. Em 1859 mandava imprimir na Imprensa Nacional o 1.º volume. Além deste trabalho, o visconde de Juromenha preocupava-se também com outros estudos igualmente importantes. O conde de Raczynski, ministro da Prússia em Portugal, interessava-se muito pela arte portuguesa, e desejava travar relações com o visconde de Juromenha, quando andava trabalhando nos dois livros que escreveu: Les artes en Portugal e Dictionnaire historiço-artistique du Portugal. Foi o visconde de Balsemão quem o apresentou ao diplomata prussiano. O visconde de Juromenha foi um grande auxiliar para aqueles trabalhos, como o próprio conde Raczynski confessa no Dictionnaire a pág. 169, dizendo que um grande número dos mais importantes esclarecimentos sobre artes em Portugal, que se encontram reunidos nas suas Cartas e no Dicionário, os deve ao visconde de Juromenha, a quem tece os maiores elogios, dizendo que se não fosse o seu auxílio, não teria concluído nunca aqueles trabalhos. O visconde de Juromenha colaborou no Jornal de Bellas Artes, onde escreveu um artigo acompanhando o catálogo de uns 70 quadros de primeiros artistas estrangeiros, enviados pelo célebre Mariette a D. João V. Na Revista Critica de Bellas Artes, redigida por Loesevitz, escreveu dois artigos, um acerca de Grão Vasco, e o outro intitulado Túmulos de Santa Thereza e Santa Sancha de Lorvão, em que minuciosamente descreve os riquíssimos túmulos de prata daquelas princesas. Colaborou entre outros nos jornais Nação Catholico, e em outros. Escreveu também um artigo folhetim sobre o punhal de prata (faca de mato) que naufragou, onde se encontram algumas informações curiosas relativas à arte de ourivesaria em Portugal. Quando o exército italiano entrou em Roma, escreveu  um opúsculo dirigido a Pio lX, em que fazia a sua profissão de fé católica, sob o título de: Submisso protesto de um portuquez catholico, ao santissimo padre Pio IX, Lisboa; 1869. Escreveu também e publicou em 1870 outro opúsculo: O isthmo de Suez e os portuguezes; saíra primeiro em folhetins na Nação. Em 1873, por circunstâncias políticas e a instâncias dos seus correligionários, saiu do Reino, e foi à Baviera por ter sido convidado, a assistir em Heubach ao consórcio da princesa D. Maria Teresa de Bragança com o arquiduque Carlos Luís, irmão do imperador de Áustria-Hungria, Francisco José. Regressou a Lisboa quatro meses depois. Por proposta de Silva Túlio, elegeu-o a Academia Real das Ciências seu sócio correspondente. No Occidente, vol. x, de 1887, pág. 147, 159, 174, 190 e 198, vem a sua biografia e uma apreciação das suas obras, escrita por Brito Aranha. Deixou muitos manuscritos, entre os quais : Lucrecia Borgia; estudo biográfico com as suas cartas, documentos, um fac-símile e um retrato contemporâneo desconhecido; Resposta á obra do sr. Latino Coelho «Camões» no tomo I da Galeria dos varões illustres; Angelberg, fragmento de viagem; opúsculo em que descreve a visita que o autor fez, acompanhando as filhas de D. Miguel de Bragança junto da sepultura de seu pai, quando foi assistir ao casamento da princesa D. Maria Teresa; O leão e o burro, conto chinês; refutação ao livro do general Francisco Leoni «Camões e os Lusíadas»; neste opúsculo, aludindo ao apelido do general e ao epíteto com que são classificados os membros do partido legitimista, o autor rebatia, pelo lado jocoso, as asserções pouco verídicas com que ele era criticado e a memória de Camões caluniada; Onde estava a liberdade, opúsculo político. Sobretudo pela Cintra Pinturesca merece já o epíteto de Pai da História de Sintra.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ideias para a revisão constitucional

A revisão do número de deputados, a legislação laboral ou os poderes presidenciais, todas estas matérias têm vindo a lume a propósito da possibilidade de uma revisão constitucional. Ciente que o legado histórico que Jorge Miranda e Vital Moreira traduziram em normas, ao fim de 35 anos  esbarra com um país a quem a herança do PREC pouco diz, enredado hoje no PREC da dívida e nas angústias da dúvida sobre os caminhos a trilhar para fugir da teia que a Europa nos tece, seria ocasião para alterar alguns normativos da nossa Lei fundamental e até do quadro de correlação de forças entre os actores do nosso processo político. Cinco sugestões práticas:

Reiterar e reforçar os dispositivos de segurança no emprego consagrados no actual artº 53º, recusando o recuo civilizacional da permissão de despedimentos sem justa causa, bem como a alteração dos normativos que consagram o cidadão como destinatário do Estado Social, em consonância com convenções e tratados internacionais.

Alterar o sistema de eleição do Presidente da República, passando este a ser eleito pelos deputados  na Assembleia da República,evitando  o choque de expectativas quanto ao exercício do poder duma maioria presidencial que uma eleição por sufrágio universal estimula e que depois o catálogo de poderes efectivos restringe, criando tensão e conflito no sistema de distribuição dos poderes, adoptando um  modelo de eleição e poderes semelhante ao alemão, italiano ou irlandês. O actual semi-presidencialismo com a praxis subsequente evoluiu para o parlamentarismo ou até o presidencialismo do primeiro-ministro, e os presidentes que foram moldados para serem De Gaulles moderados  logo passaram a rainhas de Inglaterra decorativas encerrados no eremitério de Belém.

Redução equitativa do número de deputados e do seu estatuto profissionalizante, regalias e formas de responsabilização.230 fazem melhor que 181? Não, mas custam mais. E o sistema representativo não fica reduzido.

Remoção, por irrelevantes e descontextualizadas, das normas relativas às organizações de moradores, excessivamente ideológicas e semânticas e marcadamente datadas por um processo histórico ultrapassado.

Extinção dos distritos e em consequência dos governos civis, com distribuição das actuais competências entre o Governo e as autarquias locais ou áreas metropolitanas, onde existam.
Como dizia António Barreto no 10 de Junho, cada geração tem direito à sua Constituição, sob pena de se achar que esta no momento em que é feita assinala o fim da História  negando a dialética social e a virtude da Mudança. Ora a lei será tanto mais respeitada quanto mais se afirmar como ponto de união e fonte de soluções e não como dogma imutável, texto teológico num quadro teleológico novo e diferenciado. Rectifique-se o que a experiência evidenciou ser insuficiente ou errado e  proceda-se sem calculismos de curto prazo, pensando-se  nas próximas gerações e não nas próximas eleições.


Sintra na Literatura Clássica: Luísa Sigêa


Luísa Sigea de Velasco ou Aloysia Sigea Toletana foi muito célebre no seu tempo, estando contudo associada a Sintra pelo poema do mesmo nome que em 1545 escreveu e dedicou à infanta D.Maria,meia irmã de D.João III, e que curiosamente foi dado a conhecer ao mundo em 1566 pelo embaixador de França em Lisboa, Jean Nicot,o tal de onde deriva o nome da nicotina.
Era de nacionalidade espanhola e nasceu na província de Toledo, provavelmente em Tarancón, em 1522, filha de Diogo Sigeu e  Francisca de Velasco. Diogo Sigeu era um homem culto e foi ele sem dúvida que começou a ensinar latim e grego a seus filhos.
Luísa deveria ser a mais nova de quatro irmãos, dois rapazes, Diogo e António e outra menina, Ângela, que foi companheira de Luísa na corte de Lisboa.
Diogo Sigeu participou na revolta dos “comuneros” de Castela dirigida por Juán Lopez de Padilla (1480 – 1521) e desempenhou funções ao serviço da esposa deste, Maria Pacheco. Em 24 de Abril de 1521, Juan de Padilla é derrotado, julgado e executado. Durante algum tempo, Maria Pacheco dirige a revolta, mas em Fevereiro de 1522 foge para Portugal, seguindo o percurso de Castelo Branco à Guarda, Viseu, Porto e Braga, onde foi protegida pelo Arcebispo .Maria Pacheco faleceu em 1531 e Diogo Sigeu acompanhou-a até 1530, data em que passou para o serviço da Casa de Bragança.
Foi assim para Vila Viçosa ensinar línguas aos filhos de D. Jaime, Teodósio, o mais velho e mais outros três. Depois da morte de D. Jaime em 1532, D. Teodósio mantê-lo-ia ao seu serviço até 1549. É nessa altura (início da década de 1530), que Diogo Sigeu chama para Portugal sua mulher e seus quatro filhos. Diogo, o mais velho, estudava já na Universidade de Alcalá e prosseguiu em Coimbra estudos de filosofia e teologia, recebendo depois Ordens Sacras, sendo mais tarde Conselheiro da Universidade de Coimbra.  António foi durante vários anos secretário de Gaspar Barreiros, o autor da Chorografia de alguns lugares…
Mas Diogo Sigeu deu atenção sobretudo à educação de suas duas filhas Luísa e Ângela.Luísa, sobretudo, mostrou uma enorme propensão para aprender línguas. Falava correntemente castelhano, francês e italiano e escrevia em latim, grego, hebraico, árabe e siríaco (caldeu).
Luísa Sigea nunca foi tímida a mostrar as suas habilidades. Em 1540 através de um amigo de seu pai enviou uma carta em latim ao Papa Paulo III, juntando o que mais tarde ela ‘chamou “quosdam ingenioli mei flosculos “ - algumas florinhas do seu jovem talento.
Mas a sua vida mudou no início de 1542, quando seu pai foi convidado ou talvez “obrigado” a enviar as suas duas filhas para o Palácio da Rainha D. Catarina, como “moças de câmara”. Pouco depois, Ângela e Luísa juntaram-se assim às cultas senhoras que serviam a Infanta D. Maria, meia-irmã do Rei, nomeadamente Paula Vicente, filha de Gil Vicente, o dramaturgo, e Joana Vaz. Ângela e Paula Vicente dedicavam-se mais à música, Joana Vaz e Luísa, às letras, eram as “damas latinas”.
Em 1545, Filipe II de Espanha ficou viúvo e pôs-se a hipótese de a Infanta  casar com seu tio. O projecto gorou-se e a “sempre-noiva” ficou assim mesmo, noiva. Luísa Sigea escreve então o poema Sintra dedicado à Infanta que, mais tarde, em 1566, seria publicado em Paris pelo antigo embaixador de França em Lisboa, Jean Nicot (que deu o nome à nicotina, por ter levado o tabaco de Lisboa para Paris).
Jorge Coelho e Gaspar Barreiros escreveram epigramas elogiosos ao poema. Está traduzido no livro do Conde de Sabugosa.
Em 1546, Luísa Sigea envia ao Papa Paulo III, uma carta em cinco línguas (latim, grego, hebraico, árabe e siríaco), acompanhada da transcrição do seu poema. Mais ou menos na mesma data, Joana Vaz escreveu também ao Papa uma carta nas primeiras três línguas. O Papa respondeu a uma e outra, a Luisa por carta de 6 de Janeiro de 1547 (também nas mesmas cinco línguas).
Depois de casada, Luísa ficou ainda algum tempo na Corte, que abandonou de vez em 1555. Mas não se sentiu feliz em Burgos. Mais tarde, em 1558, Francisco de Cuevas  e Luísa Sigea entram em Valladolid ao serviço da Rainha da Hungria, D. Maria, ele como secretário, ela como “dama latina”. Durou pouco esta situação. Em 18 de Outubro de 1558, a Rainha da Hungria falece de repente. Em 1559 escreve a Filipe II, pedindo-lhe um emprego para seu marido. Não teve resposta.
No início de 1560, Luisa Sigea dirige-se a Toledo, onde Filipe II espera a chegada da nova Rainha de Espanha, Isabelle de Valois. Solicita ao Embaixador de França um empenho junto da nova Rainha. Isabelle de Valois recebeu-a mas nada decidiu. Desanimada, regressou a Bruges, onde veio a falecer em 13 de Outubro de 1560.
As peripécias da sua vida revelam uma pessoa megalómana, provida de um ego monstruoso e eternamente insatisfeita. Deveria ser extremamente bonita e agradável no trato, vistos os “piropos” que recebe de inúmeros contactos masculinos da sua época. Por outro lado, os seus biógrafos, mesmo os da actualidade, têm sido particularmente infelizes. Odette Sauvage não conhecia ou não utilizou os dados de Ismael Garcia Ramila, de 1958, “Nuevas e interesantes noticias, basadas en fe documental, sobre la vida y descendencia familiar burgalesa de la famosa humanista, Luisa de Sigea, la “Minerva” de los renacentistas”, Boletín de la Institución Fernán González, XXXVIII, 144 (1958), pp. 309-321; XXXVIII, 145 (1959), pp. 465-492; XXXVIII, 147 (1959), pp. 565-593. E nem uma nem outro utilizaram uma tese de doutoramento sepultada em 1955 na Universidade Complutense de Madrid, da autoria de Sira Lucía Garrido y Marcos, intitulada Luisa Sigea Toledana, 658 fls. Cota T-7298, referida por Nievas Baranda Leturio, que indica dados (sobretudo financeiros) que não analisa, deixando a outros o trabalho de o fazer.
Como diz o Prof. Américo da Costa Ramalho, Luisa Sigea teria caído quase no esquecimento, se não fosse a malandrice de um francês, Nicholas Chorier, que em 1680, publicou uma obra pornográfica com o título Aloysiæ Sigeæ Toletanæ satyra sotadica de arcanis amoris et veneris: Aloysia hipsanice scripsit: latinitate donauit J. Meursius. A obra faz uma certa apologia da homosexualidade feminina, acentuando o agrado que nisso têm os homens. Foi depois traduzida para francês e para muitas outras línguas, com os mais variados títulos, sendo mais conhecida sobretudo no mercado inglês, por The Dialogues of Luisa Sigea. Trata-se de uma grande injustiça feita a Luísa Sigea, que certamente,revoltada, já deu muitas voltas no túmulo, de indignada.
Sintra-Versão em português
Junto às praias do ocidente, onde o sol, ao aproximar-se a noite, já demanda o oceano, e levado no seu carro ebúrneo, quase toca o imenso mar, com os seus cavalos cansados pela longa carreira, fica um lugar, onde um vale ameno, por entre rochedos que se elevam até aos céus, se recurva em graciosos outeiros, por entre os quais se sente o murmurar da água.
 Circunda o oceano a imensa mole, e três píncaros elevadíssimos guindam-se até aos astros, a ponto de, quando densas nuvens os não coroam, chegarmos a acreditar que o céu assenta sobre tais colunas.
 Vivem os Faunos nestas solidões, as quais servem de abrigo às feras, vindo frequentemente os caçadores armar laços às mães e aos filhos. Na parte inferior, os carvalhos apinham-se no meio de densa folhagem, fornecendo a sombra amplas casas para Silvano e para os Satyros. Aqui se encontram em grande número, o choupo, a aveleira, a faia, a pereira, a cerejeira, a ameixieira, os castanheiros, e inúmeras outras árvores que dão alimento aos felizes mortais, tudo dádiva dos Deuses do céu. À direita, a flava Ceres espontaneamente ensinou os mortais a lavrar os campos, a semeá-los, e a formar as searas. Do lado esquerdo para a parte do norte, a cada passo oferece Pan amplas pastagens para os rebanhos. Às faldas da serra ostentam-se viçosos limoeiros, tão belos quanto os costuma produzir o jardim das Hespérides. Aqui se encontram as folhas do louro, outrora prémio dos vencedores, com as quais ainda hoje os poetas costumam cingir as suas frontes, e cresce abundantemente a murta, tão querida de Vénus; tudo, enfim, nos encanta e perfuma o ambiente com a sua fragrância e com os seus frutos. Ressoam os bosques com os gorjeios do rouxinol, geme a rola, e a pomba, e fazem ali seus ninhos todas as aves que voam pelo espaço, no meio de um chilrear ensurdecedor.
 Nos prados florescem as odoríferas rosas, os lírios, as violetas, o fragrante tomilho, a hortelã, o alecrim, o narciso, o poejo bravo, a videira sagrada, e muitas outras flores, ervas e arbustos que a terra fertilíssima produz, nos vales, e nas selvas, com que a cada passo ornam as suas frontes as Dryades, os Faunos, as Ninfas, e os Deuses cornígeros. Corre a água cristalina com brando murmúrio pelo meio do vale sombrio, por entre enormes rochedos, e nos pequenos lagos que ela forma, costumam vir banhar-se as formosas Ninfas, no romper da aurora, ou mesmo ainda quando a noite tem o seu manto estendido pela serra. Sobranceiro a um destes lagos fica soberbo palácio, de onde a régia prole, na candura da inocência, desfruta o sublime panorama que lhe oferece a espessa mata.
 Enquanto eu daqui espraiava os olhos por todo o horizonte, admirando tanto mimo, tantas delícias da natureza, Céfalo tinha deixado a Aurora, e ela ruborizada começou a iluminar as terras afugentando a noite.
 Então repentinamente, de um dos lagos, levanta-se uma Ninfa com um corpo e uma voz divina, olha, e assim se me dirige, espontaneamente com estas palavras amigas:
 ‘Salve! donzela, que tão grata és aos Deuses. Em que pensas, ó Sigeia? Habitando nestas altas mansões, desejas conhecer os destinos da tua querida princesa?"
 Então eu:
 "Se os Deuses despachassem favoravelmente os meus desejos, levantaria até aos astros Senhora tão excelsa. Ó Ninfa, guarda deste recinto, que semelhas urna deusa com essa tua formosa madeixa, nesse teu rosto, nos olhos, no seio e mais que tudo no teu majestoso porte, tu que reúnes as águas no vítreo pego, e tens poder para revelar os destinos dos Países, diz-me para que reinos e para que tálamos está destinada a princesa real’.
 Enquanto assim falo, ela alegre solta dos róseos lábios as seguintes palavras:
 “Ó Donzela, ouve a resposta ao que me perguntas e não duvides: O Pai Neptuno conduziu-me há pouco até aos remontados paços onde Júpiter costuma reunir os deuses. Lá os vi todos libando o néctar precioso e a ambrósia: terminado o banquete, os Deuses imploram para a princesa dons régios, que a façam avantajar-se em poder a quantas excede já em merecimentos. Achava-se presente a douta Minerva, Apolo inventor do canto, e também Calíope, todos estimadíssimos de Júpiter, e também estimados da princesa, cultora exímia das suas artes. Agradecidos portanto eles pedem dádivas extraordinárias.
 Júpiter com o sorriso com que ilumina os astros, responde assim á súplica unânime dos Deuses:
 — Alegrai-vos, ó Deuses! Sabei que é minha vontade que fiquem inabaláveis os destinos da augusta e poderosa princesa. Não desespere. embora veja que outras princesas a vão precedendo no trono: a seu tempo os destinos dela assumirão o seu lugar. As grandes coisas só se alcançam por meio de grandes trabalhos: nem o régio Olimpo detém os Deuses inactivos; por toda a parte são vistos os esposos que outras hão-de tomar, porém aquele que os Fados lhe destinam a ela, só o sabem as mentes celestes. Depois, feliz, quando casar, terá o império do mundo; e um e ouro hemisfério pacificados, curvar-se-ão diante da sua Senhora.
 Vai pois, e conta-lhe com discrição o que te acabámos de vaticinar, para que ela passe os dias tranquilos. Nem fiques com cuidados, ou temas relatar-lhe os destinos: todos os teus desejos se irão gradualmente realizando. "
 - "Todavia, diz-me ó Ninfa, encarecidamente to peço, o tempo do presságio».
 «Perguntas bem; é necessário conhecer também os tempos; porque o Pai omnipotente, levantada a mesa, os marcou nos deuses. Antes que o sol da primavera se volva por sobre um e outro pólo, muitas vezes de Câncer para Capricórnio, sucederão todas as coisas que profetizei.
 A ilustre princesa, então, irá súplice diante dos altares oferecer os seus votos, juntamente com o incenso”.
 — Assim falara, e a Deusa, de novo salta para as líquidas aguas e veloz na carreira, esconde-se no pego.
 E eu que de tudo costumava duvidar em atenção à Princesa, voltei depois segura do vaticínio.
 Creio que Mercúrio foi mandado do Olimpo sob a forma de uma Ninfa, para me predizer o futuro da minha Senhora.
 Agora, suplicante, levanto para os céus as minhas mãos por tão feliz acontecimento, porque, em verdade, não me falece a crença.
 E quando eu vir já tudo completamente realizado na Princesa, espero então obter um lugar entre os habitantes do céu.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cultura em Portugal: os números


Em 2009, 10,8% da população residente com 15 ou mais anos não tinha escolaridade e apenas 11,2% dos residentes nessa faixa etária tinham um diploma de curso superior. A taxa de abandono escolar precoce era de 31,2%, e registavam-se 14,8 doutoramentos por 100.000 habitantes (51,6% de mulheres). Os docentes do ensino básico e secundário  ascendiam a 159.755 (74,5% mulheres) e os do ensino superior a 36.215( 43,5% mulheres).
No plano da cultura enquanto se registavam 1477 espectadores de cinema por 1000 habitantes, apenas 170,8 iam ao teatro e 897,7 visitaram museus e editaram-se 11548 títulos.
Estes números quando analisados num enfoque geográfico demonstram os progressos dos últimos anos, mas um Portugal altamente litoralisado e desigual. A despesa em Investigação e Desenvolvimento ascendeu a 1,7% do PIB, tendo-se publicado 94,8 publicações por mil habitantes. 47,9% dos lares possuíam ligação à Internet, número que ascendia a 58,8% no caso das empresas. Um caso digno de nota: num país com 10.600.000 residentes, existiam 16.051.044 assinaturas de telemóvel.
O Sector Cultural e Criativo reportado ao ano de 2006, registou um valor acrescentado bruto (VAB) de 3.690,679 milhares de euros, sendo responsável por 2,8% de toda a riqueza criada nesse ano em Portugal, superior, por exemplo, ao contributo dado pelas indústrias alimentares e bebidas e ou a dos têxteis e vestuário. No que se refere ao emprego o Sector Cultural e Criativo era responsável, em 2006, por cerca de 127 mil empregos( 2,6% do emprego nacional total, tendo criado no período 2000- 2006, cerca de 6500 empregos, um crescimento de 4,5%, que traduz uma evolução particularmente positiva, num contexto marcado por um crescimento cumulativo do emprego de apenas 0,4%, à escala nacional.
As Indústrias Culturais constituem o principal domínio de actividades do Sector Cultural e Criativo(80%), enquanto as Actividades Criativas e Actividades Culturais Nucleares  representam, respectivamente 14% e 8%. O núcleo-duro das indústrias culturais ( edição e da rádio e televisão)é  por si só, responsável por um pouco mais de metade do valor acrescentado produzido em todo o Sector Cultural e Criativo.
A leitura destes números permite concluir que o núcleo-duro do sector cultural em sentido mais restrito (artes e património) apresenta, ainda, uma dimensão demasiado estreita, alcançando, em 2006, uma criação de valor acrescentado bruto de apenas 277 milhões de euros( 0,2% do total).
O contributo do domínio das actividades criativas é liderado pela Arquitectura e Serviços de Software (0,7% para cada um dos subsectores); As Artes do espectáculo (3,9%) e as Artes Visuais e Criação Literária (2,7%) constituem os sectores mais relevantes no domínio das actividades culturais nucleares.
O dinamismo de criação de riqueza (VAB) do Sector Cultural e Criativo  foi  traduzido num crescimento cumulativo nesses 6 anos de 18,6%, isto é, numa taxa média de crescimento anual de 2,9%, com realçe para o crescimento sustentado das Actividades Culturais Nucleares, de 10,9% ao ano ( Artes do Espectáculo mais 13%, mas também o crescimento significativo das Artes Visuais, Criação Literária e do Património Cultural (de 9,1% e 8,6%, respectivamente). O ritmo de crescimento destas actividades, resultou num aumento muito significativo do seu peso relativo no valor acrescentado pelo Sector Cultural e Criativo, que passou de 4,8%, em 2000, para 7,5%, em 2006.
 As Indústrias Culturais conheceram no seu conjunto, entre 2000 e 2006, uma taxa média de crescimento anual de 14,7%,destacando-se os subsectores do Cinema e Vídeo e do Turismo Cultural que conheceram taxas de crescimento médias anuais de 6,3% e 4,1%, respectivamente, enquanto, com desempenhos menos positivos se destacam a Música (taxa de crescimento média anual negativa de 2,0%), seguida da Rádio e Televisão e a Edição (apenas 0,9% e 1,8%, respectivamente).
No que se refere ao emprego as Indústrias Culturais surgem, como o mais importante empregador do Sector Cultural e Criativo, concentrando 79,2% dos postos de trabalho, enquanto os domínios das Actividades Culturais Nucleares e das Actividades Criativas representavam 10,5% e 10,2% do emprego total do sector, respectivamente.A distribuição subsectorial do emprego no Sector Cultural e Criativo, em 2006, indica a Edição como o sector mais significativo (31,7 % do emprego), seguindo-se as actividades relacionadas com os Bens de Equipamento e a Distribuição e Comércio, com um peso de de 16,3% e 13,3% do total. O número de trabalhadores que desempenham profissões culturais ou criativas em sectores não culturais ou criativos ascende a 9.482, correspondendo a 7,5% do total do emprego do Sector Cultural e Criativo.
No domínio das Actividades Culturais Nucleares, as Artes Visuais e Criação Literária e Artes do Espectáculo constituem os sectores mais empregadores, com um peso de 4,8% e 4,7% no conjunto do Sector Cultural e Criativo.
O período em análise (2000-2006) evidencia um crescimento muito significativo do emprego no domínio das Actividades Culturais Nucleares, com particular relevância para Artes do Espectáculo (7,7%) e Arte Visuais e Criação Literária (6,6%). O emprego nas Actividades Culturais Nucleares, que correspondia, em 2000, a apenas 7,4% do total do emprego do sector em 2000, já representava, em 2006, 10,5%, ultrapassando o peso relativo das Actividades Criativas, em termos de emprego, no total do Sector Cultural e Criativo.
O crescimento cumulativo do emprego, no período 2000-2006, no domínio das Actividades Criativas alcançou um valor de 6,1%, globalmente superior ao registado pelo conjunto do Sector Cultural e Criativo (4,5%), embora de forma bastante desigual nos seus diferentes subsectores, devendo destacar-se o crescimento particularmente forte dos sectores do Design e da Arquitectura (taxa média anual de 6,4% e 5,4%, respectivamente) e, em oposição, o crescimento mais lento do emprego cultural e criativo nos restantes sectores da economia (taxa média anual de 0,4%).
O domínio das Indústrias Culturais apresentou, pelo seu lado, uma evolução mais tímida do emprego, que conheceu, entre 2000 e 2006, um crescimento cumulativo de apenas 0,4%, tendo, consequentemente, perdido peso no conjunto do Sector Cultural e Criativo, passando de 82,5% para 79,2%.
A evolução menos positiva do emprego neste domínio explica-se pelas dificuldades conhecidas pelo subsector dos “media” que no seu conjunto, terá perdido cerca de 3500 postos de trabalho, evidenciado pelas taxas médias de crescimento negativas registadas pelos subsectores da Edição (-1,3%), da Música (-3,7%) e da Rádio e Televisão (-0,2%). Os restantes subsectores das indústrias culturais registaram, ao contrário, taxas médias anuais de crescimento do emprego positivas, nomeadamente nas actividades ligadas à produção, distribuição e comércio de Equipamentos (1,5%), no Cinema e Vídeo (1,0%) e, sobretudo, no Turismo Cultural (2,5%).
O Sector Cultural e Criativo acompanha a tendência geral de atomização do tecido empresarial português, sendo que cerca de 87% do total de estabelecimentos considerados têm menos de 10 trabalhadores, valor que se alarga para 93% nas actividades culturais nucleares evidenciando, desse modo, um claríssimo predomínio das micro e muito pequenas empresas/organizações neste domínio subsectorial.
O emprego apresenta-se mais qualificado do que o referencial médio da economia portuguesa, sendo que 17% dos trabalhadores possuem habilitações de nível elevado. Nas actividades nucleares e indústrias culturais os subsectores da rádio e televisão e do património histórico e cultural são os que apresentam um maior peso relativo das habilitações de nível superior (25%);
As exportações de serviços criativos e culturais com origem no mercado português ascenderam a 870 milhões de dólares, aos quais somam-se 60 milhões associados a direitos de propriedade. Ao contrário do verificado ao nível dos produtos, a taxa de cobertura das importações pelas exportações de serviços registou uma tendência crescente na última década, em virtude do dinamismo das exportações de serviços de publicidade e arquitectura que, em 2005, representaram cerca de metade do total de exportações nacionais de serviços criativos e culturais.As exportações contabilizadas através dos direitos de propriedade registaram igualmente um significativo crescimento, mas é ao nível das importações que esta categoria assume maior expressão.